sábado, 13 de agosto de 2022

TATIANA SALEM LEVY: DOIS RIOS

 "Vim até Dois Rios para poder sair de Dois Rios, e ao mesmo tempo sinto a força que tenta me deter, o sonho persistente de que os dias voltem a ser o que eram: eu, uma menina, meu irmão ao meu lado."


Trago-o da Biblioteca, sem referências. Não conheço a autora, não ouvi falar do livro, o título não me atrai particularmente. É obscuro. Não fa


ço ideia da razão por que o escolhi.

Abro a capa verde, dura, da excelente Tinta-da-China (mas será ainda a mesma? e será realmente a editora quasi-marginal que, na minha imaginação, sobreviveu sem abdicar da qualidade?), inicio a leitura e, imediatamente, sinto-me a respirar o ar puro de um Português, bem escrito, de entoação brasileira, as frases a levar-me com elas de uma forma inebriante. Gosto tanto do Português do Brasil da pena dos melhores, a correcção em que palpita uma flexibilidade impossível entre nós. Tatiana Salem Levy escreve muito bem. A sua escrita é uma contínua descoberta. Um breve exemplo, apenas: "Minha vontade de beijá-la de repente se tornou vontade de beijar o mundo inteiro, as crianças, os velhos, as prostitutas, as gordas, os sarados, as magras, o homem da barraquinha, o surfista, a mulher do sanduíche natural, o mar, a areia, as palmeiras, de sair voando e beijar os chilenos, os argentinos, os porto-riquenhos, os angolanos, os russos, os japoneses, as aves, os elefantes, o chão, a terra batida." Quanto saber e quanta arte no aparentemente gratuito desta enumeração. 



No Rio de Janeiro, onde a narradora da primeira parte do romance, que se chama Joana (é o seu nome e o nome dessa primeira parte) encontra e se deslumbra com Maria-Ange, tem a sua génese a luta entre duas esferas da realidade, quase diríamos entre duas realidades: a mãe obsessiva-compulsiva, silenciosa, incapaz de pisar as pedras brancas da calçada, abrindo e fechando vezes sem conta a porta, ou lavando, no duche, as mãos até as fazer sangrar, a ausência de um irmão que se dispôs a correr mundo, deixando-a com a mãe como se ela não estivesse realmente doente, ou como se fosse da responsabilidade da irmã, e um passado que a cerca e oprime, acumulando-se até desde antes de ela ter nascido; e a liberdade e o grão de loucura introduzidos pela presença de Marie-Ange, fazendo possível o que os anos e a rotina haviam tornado impossível, abrindo janelas numa vida de mulher solitária e cuidadora infeliz. Com a sua beleza feita de imperfeições (talvez os olhos assimétricos, a cicatriz de um transplante de coração...) animadas por uma luz e por uma alegria incontidas, Maria-Ange, como o nome indicia, é um anjo salvador. Metaforicamente, claro.

"Dois Rios" é o passado. Escrevi bem: não "representa" ou "significa", mas "é" esse passado nunca avaliado. A viagem, com Marie-Ange, à pequena povoação, sustentada pela colónia prisional onde o tio de Joana fora prisioneiro político, e viviam os avós maternos e a mãe dela (esse avô, precisamente um dos guardas prisionais), entrelaça as duas esferas e os dois tempos da sua realidade. A amante francesa pressente, mas não compreende inteiramente o significado de Dois Rios e de seus habitantes, impregnados de memórias profundas: as férias de Joana e de Antonio, em casa dos avós, a morte do pai, a mãe tornando, em lágrimas, para os buscar, o afastamento de Antonio, o progresso das obsessões de Aparecida. [Na verdade, perceberemos que Marie-Ange sabe  sobre tudo, mais do que julgávamos, mas fiquemo-nos por aqui].

A segunda parte do romance, que tem por título Antonio, tem como narrador o irmão de Joana e, como objecto, a sua versão do passado, ao mesmo tempo que a história do seu amor pela mesma Marie-Ange, noutro lugar e muito tempo antes de ela ter viajado ao Brasil e conhecido Joana.

A forma como, no todo destas duas partes, contrastam e se contradizem a visão de Joana, e a de Antonio, sobre os factos, mostra que, na tentativa de os recontar, cada um deles inventa e omite. E, contudo, nós, leitores, percebemos a verdade, através desse choque de interpretações e de mentiras. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

KATHERINE FAULKNER: GREENWICH PARK

 É a estrutura, ainda antes de acabarmos de ler o livro e a dominarmos, portanto, completamente, mas à medida que, capítulo após capítulo, a vamos intuindo (primeiro) e compreendendo (aos poucos), o que começa por nos chamar a atenção. Sentimo-nos orientados, seguros. Sob a dispersão de elementos (uma carta, não sabemos de quem, ou para quem, nem sequer referindo-se exactamente a quê; ou diferentes pontos de vista de personagens diversas, como se, sob o nome de cada uma, a abrir um "seu" capítulo, fôssemos ler uma parte da narrativa escrita por ela; ou breves momentos, sem contexto, como relâmpagos, que não sabemos o que nos indicam ou prenunciam), adivinhamos um alicerce forte, um fio inquebrável, um plano que se vai provando e, a seu tempo, se desvendará inteiramente.



Por outro lado, a escrita, propriamente dita, impõe-se: o poder de observação e de descrição ilumina situações corriqueiras, comuns, gestos, pensamentos, e quem leu a minha crítica anterior lembrar-se-á de que sou sensível aos autores atentos a detalhes dos comportamentos. Surpreende que uma técnica já tão apurada se dê a ver numa autora muito jovem, em luta com o primeiro romance.

É um pouco mais do que um policial para ocupar dias de férias, e muito menos do que uma obra inesquecível. Alguns clichés, apesar de tudo,


distanciam  bastante  Katherine Faulkner de uma Donna Tart, que, para mim, em matéria de policial contemporâneo continua sendo o nec plus ultra. Seja como for, o modo como se nos convida, aqui, a penetrar na experiência da gravidez de três personagens, as cunhadas e uma misteriosa intrusa, e nas vidas de cada uma das duas primeiras, com os seus maridos, ou convivendo entre si (uma vez que a terceira será, por muito tempo, uma jovem obscura e estranha, sobre quem julgamos, apenas, imaginar a motivação e os motivos), é muito bem urdido. O tempo em que a narrativa vai sendo medida é, aliás, em semanas, o da gravidez de Helen, a narradora principal. Instalamo-nos, pois, com as famílias, no seio dos seus sonhos e expectativas, enquanto, com alguma apreensão, reparamos em subtis linhas de fractura, talvez segredos inquietantes, pequeníssimas nódoas, capazes, porém, de alastrar até à catástrofe.

É também, em dado passo, um romance sobre a invasão do nosso espaço, quando mais precisamos de o preservar e nos resguardar, por quem não tem o cuidado ou a preocupação do pudor e da discrição. A invasão perante a qual, no entanto, a nossa solidariedade e a nossa piedade (que, neste caso, serão, talvez, dois nomes para a cobardia) nos deixam impotentes. É uma descrição com o condão de nos irritar.
A leitura é nervosa, urgente. Com aquela pimenta de muitas explicações serem possíveis (serão as suspeitas que Helen tem sobre Rachel justas? será, antes, Helen louca, como alguns indícios sugerem?). Queremos saber mais, mais rapidamente, impacientamo-nos. É um thriller psicológico, chamam-lhe eles. Pois.

sábado, 6 de agosto de 2022

ANDRÉ GIDE: AS CAVES DO VATICANO

 Já pensava, sempre pensei, aliás, desde que pela primeira vez o li, que André Gide é o mestre da elipse. Seguimos uma sua história com interesse e prazer, mas necessitando da concentração que, se se descontrai, leva a incompreender, por um instante, uma sequência que Gide não quis nem precisou de tornar explícita.

Um outro aspecto que este romance revela é a atenção do autor a gestos e pormenores do quotidiano, que utiliza tão bem: uma maneira de sentar, uma expressão conseguida com as sobrancelhas, a descrição de quase nada que introduz, na narração, uma vivacidade encantadora.



O modo como Nietzsche, seguramente, e talvez Dostoievski, o marcaram, fá-lo elevar personagens pouco menos do que comuns, a caracteres que, em situações-limite, se mostram de uma inesperada profundidade trágica. Algum desconforto relativamente à existência, que os morde por dentro e os torna conscientes da sua inautenticidade, provoca-lhes súbitas angústias e sobressaltos de liberdade.

O título deste romance, hoje, parece deslocado. Vejam ao que o associam: As Caves do Vaticano. Não remete para um tipo de livros que se tornaram, entretanto, populares, sobre os pecados e os segredos da organização de que o Papa é o líder? Na verdade, é a história de famílias unidas por casamentos, de um filho bastardo, desconhecido, até então, dos meios-irmãos, e de um grupo de crápulas que concebe o extraordinário plano de convencer alguns inocentes de que o Papa fora raptado, aprisionado e substituído por um falso Papa, de modo que haveria que juntar dinheiro para resgatar o legítimo. Constaria, do que se propala sobre o rapto, a conspiração de lojas maçónicas e assistimos, ao longo da narrativa, a conversões inesperadas, amores impossíveis e o frente-a-frente de um protagonista com a liberdade absoluta, sob a forma da possibilidade do mal gratuito.



Alguma coisa no movimento deste romance tem uma dimensão cândida e improvável, como numa aventura de Arsène Lupin. Típico de um romantismo de época, se nos lembrarmos de que As Caves do Vaticano foi publicado em 1914. Mas a escrita, clássica e muito bela, é de uma força que resgata de certas imperfeições. Proust escreveu a Gide: Por fim, li o seu romance com paixão. É verdadeiramente uma Criação, no sentido genesíaco de Miguel Ângeli; o Criador está ausente, é ele quem tudo faz, e não é uma das criaturas. Vejo-o a determinar as idas e vindas de Fleurissoire como o Deus colérico da Capela Sistina a fixar a Lua no Céu.

Se Proust o diz...

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

DBC PIERRE: VERNON LITTLE, O BODE EXPIATÓRIO

 "Ela dá uma espécie de gargalhada irónica; só pode ser irónico quando se dá uma gargalhada e se soluça ao mesmo tempo."


A primeira coisa que podemos dizer acerca deste romance é que se trata do retrato, cheio de um ácido sentido de humor, de uma certa América. Por "uma certa América" entendemos, é claro, a daquelas cidades texanas, junto à fronteira com o México, que conhecemos sobretudo do cinema: pessoas que se conhecem e interferem na vida umas das outras, mulheres, frustradas, de tipos sem horizonte, homens que bebem porque a vida é insuportável, batem nas esposas ou abandonam-nas, uma dada família cujos membros estão em todos os postos, da polícia à Câmara, charlatães de segunda classe e, claro, adolescentes que se interessam demasiado cedo por armas, ou escolas onde ocorrem massacres porque um desses jovens se fartou de ser vítima e, além disso, tem uma espingarda ou uma pistola à mão de semear.

A tragédia permite um tipo de humor que corta como faca. Sucede quando e porque há um desencontro entre a grandeza dos acontecimentos terríveis e a ridícula pequenez e incompreensão da cruel sublimidade do destino, por parte dos que o sofrem. É, ao contrário da tragédia grega, aquilo a que chamamos tragicomédia. Não é um humor para todos os estômagos, mas DBC Pierra executa-o com mão de mestre. A personagem principal, o Vernon Little do título, que é também o narrador, lembra imediatamente Holden Caulfield, de The Catcher in the Rye, do genial Salinger: a mesma linguagem desbragada, a mesma inteligência arguta, uma idêntica sensibilidade, que se esconde no tom trocista, e a mesma incapacidade de se entender com um mundo


adulto, que o não compreende e persegue.

Na verdade, neste caso, persegue, de facto, não se trata de paranóia juvenil. Vernon Little serve como bode expiatório de um massacre perpetrado, na escola, pelo seu amigo, Jesus, que se suicidará de seguida. O povoado está inconsolável, mas aos familiares enlutados dos jovens mortos, parece quase insuportável que se não possa castigar alguém. Resta Vernon, cuja amizade com Jesus o eleva a potencial cúmplice. 

E assim, aos 15 anos, Vernon Little, objecto do jogo de gente que o leitor não esquecerá, como a própria mãe, neurasténica, o homem que se faz passar por jornalista, ansioso por aproveitar a história de, como apresenta a sinopse, "um adolescente com um talento especial para estar no sítio errado à hora certa", tudo fará para escapar ao destino que se lhe impõe. 

Primeiro romance publicado por DBC Pierre, esta estreia literária viria a ser distinguida, por unanimidade, com o Booker Prize (2003). 


sexta-feira, 29 de julho de 2022

GEORGE SAND: ELA E ELE

 

A primeira denúncia que tenho de fazer, com nome escarrapachado e tudo, é do Português da tradutora, Inês Pedrosa, intelectual mais ou menos consagrada, com um curriculum em que avulta a direcção da Casa Fernando Pessoa, e que, não obstante, não sabe como se escreve o plural da palavra "carácter". A exibição impudica do erro ocorre mais vezes do que aquelas que poderiam justificar haver-se tratado de um lapso. Pode parecer pequena coisa, mas, precisamente, numa pessoa com créditos, é inaceitável.


A
autora de Ela e Ele é George Sand. Num prefácio perspicaz, Henry James chama a atenção para a fragilidade que separa, muitas vezes, a realidade e a ficção. Neste romance, Thérèse Jacques e Laurent de Fauvel são os nomes de personagens que replicam, aparentemente com excessiva exactidão, respectivamente George Sand, aliás Aurore Dupin, e Alfred de Musset, e a paixão que vivem, tumultuosa e arrebatada, constitui a narração do amor escandalosa e insanamente sofrido por estas personalidades reais. Mesmo a correspondência apresentada ao longo da história é, ao que julgo, o conjunto de cartas que com efeito Sand e Musset trocaram nos momentos de maior raiva ou de maior ternura.

O ponto de vista da narradora, claramente, é a de Thérèse. Nunca o de Laurent ou o de Palmer, esse terceiro elemento de um instável triângulo. Chega a ser espantosa a confirmação da alta conta em que se tem a maturidade, a ponderação, a superioridade enfim, da mulher. O seu amor é virtuoso, generoso, carregado da dose adequada de uma maternal doçura, que tudo perdoa. A paixão de Laurent é egoísta e infantil. Imatura. Não dito, mas pressentidamente: de homem.

Mesmo Palmer, menos jovem, mais experiente e sábio, é, apesar de tudo, alguém que se engana na avaliação que faz de si próprio. É homem: "[...] muitos homens que têm a aspiração e a ilusão da força possuem apenas energia, e Palmer era daqueles sobre os quais podemos enganar-nos durante muito tempo."

A posição de George Sand torna-se, pois, ambígua: se há e houve sempre na sua filosofia subjacente a valorização da esfera do masculino, da camaradagem e da amizade entre homens, como atestam, desde logo, a escolha do célebre pseudónimo, ou a insistência, da parte da personagem Thérèse Jacques, em que o que procura em Laurent de Fauvel é ser seu amigo (isto antes de se começar a pensar em amor), não sua amiga, todavia o espírito e o amor femininos, contendo, aparentemente, a capacidade infinita para se dar e para sofrer, é o que o romance verdadeiramente enaltece.

Podemos sempre perguntar-nos se a autora, ou a narradora, ou a personagem, se não se equivocam. Se na sua avaliação do amor de Thérèse, a distinção entre a parte de mãe e a parte de amante é tão clara e distinta como ela crê, ou quer crer, ou quer fazer crer. Se em algum tempo transitou, de facto, de um amor erótico, para um amor piedoso, quando afirma que deixou de desejar Laurent, e visa apenas ajudá-lo, como a um filho. Sem ressentimento, mas também sem ardor erótico. [E Palmer, com quem deveria casar-se, que entendesse que não se expressava, nesta "ajuda", nenhuma infidelidade].

Digamos que a estrutura narrativa está muito bem construída, apesar dos pontos mortos introduzidos pelas longas epístolas; que a reunião de ingredientes para suscitar os mal-entendidos está muito bem arquitectada (um exemplo: Palmer não tinha como não pensar que Thérèse embarcara com o seu amante, uma vez que ela, preocupada com o  estado de saúde de Laurent, o levara efectivamente ao barco; o acompanhara, a bordo, durante a tarde, e não regressara com o marinheiro que Palmer esperava, uma vez que esse se embebedara, nem para o local combinado, porque Thérèse gastara todo o seu dinheiro, e não podia dirigir-se para aí).

E a trama está, realmente, tão bem planeada, que, a partir de certo momento, nos interrogamos contínua, apreensiva e obcecadamente, se Thérèse Jacques cometerá o erro de voltar para Laurent de Fauvel.

sábado, 16 de julho de 2022

FERNANDO ARAMBURU: O REGRESSO DOS ANDORINHÕES

 É inevitável, se conhecemos bem a obra de uma Virginia Woolf ou de uma Elena Ferrante (e, para a conclusão, basta-me referir estes dois exemplos), reconhecermos que o romance tem género. Mesmo que não soubéssemos se estávamos a ler a escrita de um homem ou de uma mulher, e independentemente do sexo do/a narrador(a), a intuição revelar-se-ia certeira. Há uma sensibilidade inconfundível, um olhar, uma maneira de valorar, e a importância de problemas a que subjazem já escolhas emocionais. Quando se aventou a hipótese de que, sob o nome "Elena Ferrante", que ninguém sabia realmente quem fosse, podia ocultar-se um escritor, um homem, eu sorri interiormente, sentindo o maior dos desprezos pelos inventores da suposição. 



Do mesmo modo, existe uma escrita masculina, talvez mais difícil de 


detectar enquanto tal, porque, em geral, foram sempre os homens a impor o padrão, e um modo de ver ou narrar passaram, nas suas características típicas masculinas, por "universais". Enquanto a consciência de uma autora foi sempre uma excepção que se deixava ver, a consciência de um autor disfarçava-se melhor e a sua voz soava como normal

Olhemos para O Regresso dos Andarinhões abstraindo, por um instante, de qualquer dimensão histórica ou política. Sem nos determos numa avaliação ética do conteúdo, esquecendo que a norma é, hoje, a do politicamente correcto, de tal forma que a grelha masculina deveio excepcional e, de alguma forma, "errada" (a ponto de se ter tornado quase inaceitável escrever-se como um homem), este é, contudo, o romance de um homem até à medula. As emoções, a interpretação dos factos ou dos conflitos, a tristeza, são as de um homem. O desamparo também. E se um leitor do sexo masculino, como eu, consegue compreendê-lo até à identificação (ainda que mantendo um distanciamento ideológico, e julgando-o, racionalmente, pelo seu egoísmo ou pela sua incapacidade de comunicação), uma leitora verá, provavelmente, apenas um bruto: um incapaz de lidar com o novo poder das mulheres. 



Estou a simplificar, evidentemente. A apreciação assumida por uma autora e uma psicóloga como Ana Cristina Silva mostra-o. Mas é um romance que pede esse acompanhamento psicológico, complexo, subtil, sem maniqueísmos, nem a busca de distrinça entre os verdugos e as subjugadas. Uma leitura não ideológica, de facto: tão só compreensiva (de tudo, de todos, de todas) e compassiva.

Já no extraordinário Pátria era precisamente isto que me fascinava: todos têm voz, e as vozes, mais ou menos condicionadas, opostas, exprimem o seu sentido e o sentimento que as justifica. Aqui, claro, menos: o ponto de vista é o do narrador, e é ele que fala sobre, e julga, as outras personagens. É o ponto de vista de um homem que não fez as pazes com o pai, critica a mãe, embora se apiede da sua condição, não suporta o irmão, ama e odeia a mulher com quem deixou de se entender, e de quem se divorciou, procura manter com o filho "estranho" uma relação de camaradagem e decidiu que se suicidará antes de um ano volvido sobre o início da escrita destas notas. É um professor de filosofia do ensino secundário (como não me identificaria com tal narrador?), amargurado, falhado, infeliz. Mas percebemos que as suas razões e argumentos são frágeis e pessimistas. Se a palavra anti-herói se aplicar, há-de aqui servir mais do que nunca ou do que em qualquer outro lugar. É um romance sobre o homem como esfera de perda de poder, e como fracasso.

sábado, 9 de julho de 2022

KEN FOLLETT: O BURACO DA AGULHA

 Principio por uma citação aparentemente anódina:

"O vento e a água continuavam na sua eterna disputa, o vento descendo para provocar as ondas e o mar chiando e cuspindo ao chocar contra a terra, os dois condenados a lutar para  sempre porque um não podia ficar calmo enquanto o outro estivesse ali, mas nenhum dos dois tinha outro lugar para onde pudesse ir."

Não escolho este trecho apenas porque constitui uma descrição muito bem escrita, nem por causa do animismo romântico que, atribuindo emoções e intenção às forças cegas da natureza, introduz uma profundidade e uma tensão dramáticas na visão que o leitor tem da ilha em que um casal vive a sua recuperação, após um acidente, mas porque, implícita e subtilmente, a eterna luta entre o vento e a água reflecte, expõe (e explica, mais do que o narrador quereria ou deveria fazer sem se tornar excessivo) o estado de espírito que impregna a relação entre Lucy e David Rose. Chocam porque a frustração é terrível, porque são duas pessoas cujos sonhos se desagregaram e porque, na ilha agreste, não podem amar-se, mas também não podem separar-se: "nenhum dos dois tinha outro lugar para onde pudesse ir."



Este é o primeiro romance - o primeiro romance a sério, excluindo novelas de aventuras e guiões - de um Autor que viria a ser bem conhecido, Ken Follett. Por que razão, perguntava-me alguém, um "primeiro romance" não pode ser já uma obra-prima? Por que esperamos, de um começo, as falhas e incompetências do autor estreante, cuja qualidade apenas a escrita posterior poderia resgatar? Não sei. Mas, no caso concreto, porque este primeiro romance, apesar de algum sucesso na época, desapareceu sem quase deixar rasto, recalcado pela produção de obras tão marcantes como Os Pilares da Terra.

Escrito na década de 70, O Buraco da Agulha revisita os anos 40 (o início de 1944) e, no ambiente de guerra, retoma as dificuldades, os medos e as esperanças de personagens que, lendo hoje, resistem absolutamente como personagens, psicologicamente profundas, vivas, verosímeis e interessantes. O próprio Follett, num prefácio em que se debruça sobre o romance, décadas volvidas após a sua primeira edição (como ele gosta de fazer), lembra que haver tomado como protagonista uma mulher, Lucy Rose, era, então, desconcertantemente novo. O frente-a-frente entre essa mulher desamada, e Faber, o implacável ("poderoso", escreverá Follett) e tenebroso espião ao serviço dos alemães, é um imprevisível e fortíssimo motor de suspense.

Mas, sobretudo, o modo de narrar revela já uma perícia extraordinária: diferentes situações e personagens que vão surgindo paralelamente, sobre um fio invisível que se prepara para os confrontar, numa estrutura muito bem conseguida, que nos mantém apreensivos e cativos.

E no cerne desta intriga de guerra e espionagem, um facto histórico extraordinário: "uma farsa gigantesca, meticulosa, cara e ultrajante". A encenação da reunião de forças, armas e aquartelamentos, em pontos determinados de Inglaterra, de modo a levar os alemães a pensar que era a partir dessas zonas e, portanto, numa certa direcção que se preparava a invasão, mantendo secretas as verdadeiras movimentações, muito longe dali. Cenários em contraplacado, aviões ou tanques que não eram mais do que uma espécie de carros alegóricos, expostos para ser vistos do ar e induzir em erro, isto é, fazer o inimigo crer que o desembarque, no continente,dos aliados, seria em Calais, e não na Normandia.

sábado, 11 de junho de 2022

ALEXANDRE DUMAS: OS TRÊS MOSQUETEIROS

 

Não me ficaria bem assumir que nunca havia lido Os Três Mosqueteiros. Aliás, de facto li-o, em jovem. Tal como as aventuras de Júlio Verne, ou as de Enid Blyton, Dumas terá sido um autor ao largo do qual não passei. Mas isso sucedeu em outra vida, em outro mundo. Curiosamente, o que me redespertou a curiosidade e levou, agora, ao regresso ao D'artagnan, ao Athos, ao Porthos, ao Aramis, à cortês inimizade entre o rei e o cardeal, à terrível cicatriz de Rochefort ou à perfídia da escultural Milady, foi um romance contemporâneo, cujo título português não lembro, mas se chamava, no original, Clube Dumas (Pérez-Reverte; e, entretanto, um filme com Johnny Depp, que também vi).



À medida que o relia, entremeando com intervalos longe dele, sem lhe tocar, para o retomar meses depois, a maior parte das cenas parecia-me familiar, e esse retorno ao leitor que fui na adolescência, como sabemos, vem sempre tingido de uma alegria contida, do bem-estar do reencontro com um amigo que perdemos de vista. A troça que os parisienses faziam do Gascão chegando, cheio de sonhos, montado numa pileca, as suas irritações e desafios, as estalagens onde pernoitavam, as amantes, as bebedeiras, os duelos. Mas se a minha visão coincidia com a que o autor, muito provavelmente, desejaria que fosse a do seu leitor identificando-se com aqueles rapazes corajosos, bem-dispostos e capazes de tudo pelos amigos, devo dizer que os meus olhos mudaram muito, muito e, sob a ingenuidade folhetinesca, vêem agora personagens com que já não conseguem simpatizar.

Dumas é o primeiro a sublinhar o incómodo, e mais de uma vez o faz. Recordo, entre outras, aquela passagem em que adverte para que podemos escandalizar-nos com o comportamento de uma certa personagem, acrescentando imediatamente que não seria justo avaliar, segundo os critérios do tempo em que vivemos, costumes que eram comuns na época que está a ser descrita. Não poderia estar mais de acordo, em princípio. Mas sabem a que propósito vem o comentário? De que Porthos seduzira uma mulher muito mais velha, a Sra. Coquenard; lhe escreveu cartas, exortando-a a que lhe pagasse as dívidas na estalagem; ou, mais tarde, a que lhe oferecesse a quantia para se equipar como mosqueteiro - ameaçando-a de lhe retirar o amor, comparando a avareza e a mesquinhez dela, que hesitava, com o que outras mulheres não deixariam de fazer por si, excitando-lhe o ciúme. Dir-me-ão: o moralismo é sempre uma má lente na análise da literatura. Sem dúvida. Mas o de Porthos é um exemplo da altivez e do desrespeito face às mulheres ou aos criados que aqui se toma como normal e modelar.

D'artagnan não pensa duas vezes em fazer a corte à mulher do seu senhorio - que, nem de propósito (tão conveniente!), descobrirá, depois, tratar-se de um tratante e de um vendido; nem pensa duas vezes ao cultivar a paixão, por si, da criadinha de Milady, como forma de se aproximar da sua inimiga. Mesmo o modo como enganará Milady, passando, na obscuridade, pelo seu amante, e fazendo sexo com ela, tem qualquer coisa de vil.

Não me choca que Os Três Mosqueteiros se desvende, quando lido na maturidade, como uma trama de arrivismos, arrogância, desprezo pela vida, vingança, falta de escrúpulos, má-fé. Aflige apenas que não se trate tanto de compreender a verdade das pessoas no seu ser íntimo e contraditório, ou de as analisar na sua complexidade psicológica, mas de criar um ideal romântico. O romance é extremamente maniqueísta: separa os bons, ao serviço do rei, dos maus, fiéis ao perverso cardeal. Acontece que não gostaria de ter aqueles "bons" por amigos meus.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

IRENE VALLEJO: O SILVO DO ARQUEIRO

 

Antes de mais, hei-de confessar que aprecio imenso Irene Vallejo e o seu modo subtil de conjugar a leveza do entretenimento e o peso do saber, em obras onde a História (por exemplo a do nascimento do livro e da invenção da sede pela leitura) se nos oferece narrada através de uma multiplicidade de histórias muito vivas e saborosas, sobre imperadores que não sabiam ler (mas haviam desenvolvido um fascínio por livros, e mandavam buscá-los, reunindo-os), guerreiros, sábios, escritores e leitores vários, que transformaram o conceito e o objecto, ao longo de séculos, nestes volumes simples e manuseáveis, que transportamos connosco e nos possibilitam o mergulho em outros mundos.                                                                               

 O Silvo do Arqueiro é um romance da autora. Comprei-o com certa ansiedade, principiei a lê-lo com um interesse que, estranhamente, contudo, parecia ir esmorecendo até à desistência, vá-se lá perceber por que ocorrem estas falhas de comunicação, até que, em dado momento, inesperadamente, a chama reacendeu, o interesse brilhou, percebi que o problema devia ter sido meu e do momento da minha vida em que iniciara a leitura, pelo que voltei ao princípio, cheio de fome.


Alguma coisa no romance é originalíssima. Diferentes personagens vão narrando a sua parte de uma história complexa, com diversas correntes, e não, não seria a mencionada pluralidade de olhares, em si mesma, a novidade. Embora, aqui, o mecanismo que a estrutura funcione magistralmente: refiro como particularmente tocante a mudança de perspectiva, como se se passasse, até, de um elemento para outro, quando Eneias primeiro, Elisa, depois, ignorantes do que o outro escrevera, ou pensara, contam o mesmo acontecimento: a forma como, escapando ao combate contra os nómadas que os haviam emboscado, e secretamente guiados pelo deus Eros (cuja presença Elisa pressente, sem ver), se abrigam da tempestade numa gruta, se aproximam um do outro, e se amam. Nas narrações, diversas, do mesmo acto, que extraordinária transformação de olhar e de sentimentos - do desejo de Eneias, do seu orgulho por ter salvado Elisa, da ambição de sentir-se amado por quem o faça esquecer a esposa que o traíra, para o receio, dela, de que, ao despi-la, o homem descubra as imperfeições físicas da mulher já não jovem, já madura, para o seu desejo delicado, terno, medroso e, por fim,  para a sua entrega. Entrega, mas com a liberdade de uma escolha, e a consciência de que o será, ainda que contra tudo e todos.

A originalidade reside, no entanto, em outro aspecto: que neste universo, aos deuses seja concedida realidade. Eros, já indicado, tem o lugar de um dos protagonistas e um dos narradores, como Eneias, Elisa [Dido], Ana; (também Vergílio surgirá, personagem de um outro tempo, mas com outro estatuto, e a quem só muito mais tarde leremos/ouviremos a fala na primeira pessoa).

Ora, embora, como escrevi, haja deuses que atravessam dimensões para interferir na vida dos humanos, eles apercebem-se de que as histórias que os homens e as mulheres contam, as suas versões dos acontecimentos, são sempre inflaccionadas, tendem ao mito: Eros observa-o, com alguma ironia e uma ponta de inveja. Eles não conseguem ater-se aos factos, nem compreender as causas reais: imaginam que os move o amor, ou a virtude, ou outros sentimentos e desideratos sublimes. O Bem e o Belo, nunca a economia, as riquezas, o comércio, o território. Que fantásticos ficcionistas, sublinhará o deus.

É essa mistura entre o mitológico e a desconstrução do mito como ilusão e falsa narrativa, reveladora, porém, da criatividade humana, o que torna este romance um paradoxal mito que lê, elogia e supera a experiência mitológica.

A escrita de IV mantém uma aura poética e retórica felizes, muito bela, que se adequa ao discurso do troiano, da rainha de Cartago, da vidente ou mesmo do deus. Remeto para um único exemplo, este: "Acaricia a superfície da água, movendo as escamas de sol" e, seguríssimo de os ter impressionado, nada mais acrescento sobre o assunto.

sábado, 4 de junho de 2022

LEONARDO PADURA: COMO POEIRA AO VENTO

 O romance, é claro, foi mudando de vestuário, à medida que diferentes equilíbrios sociais dele exigiam, ao longo dos séculos, objectivos que já não coincidiam com os do seu início, e uma nova classe, chamemos-lhe assim, de intelectuais consolidados e respeitados, o usavava como um laboratório de experiências, com a linguagem, com a forma de narrar, com o tempo, o espaço, as vozes. 

Alguma coisa se ganhou: a consciência do seu papel, o conhecimento da sua história, sem o qual as inovações não seriam possíveis, uma plasticidade que abria portas e criava caminhos. E, como sempre, alguma coisa se perdeu: talvez um fôlego, a visão omnisciente de um narrador invisível, a qual, com todos os defeitos, permitia a estrutura que tudo ligava e, em última análise, que o leitor seguisse variados desenvolvimentos de personagens, histórica e psicologicamente, em tempos e em espaços não coincidentes. O auge desse maneira de contar, intensa e de largo espectro, foi alcançado pelos russos do século XIX. Teve, depois, um fulgor genial e quase incompreensível em Proust. E, com raras excepções (Musil, Mann, para referir duas, evidentes), saiu de cena.



Leonardo Padura, autor cubano, tornado conhecido por ser o criador do detective Mario Conde, numa série de policiais de um realismo tocante, no cenário de uma Havana imbuída de pobreza, amizade e alegria, é um dos escritores contemporâneos capazes de ressuscitar o romance complexo de que vos falava, acompanhando a história de uma época, da revolução, melhor, das revoluções, dos desequilíbrios e reequilíbrios dos anos 40,  50, 60, 70, em suma, do século XX e, neste caso concreto, da sua viragem para o XXI. Já assim fora em O Homem que Gostava de Cães, onde passa em revista o centro do século, a partir de Trotski e Mercador (portanto da Rússia soviética sob Staline e da Espanha na Guerra Civil, e da Europa, ou dos comunistas e, de algum modo, todos os outros, na forma como se definiam sempre relativamente ao comunismo e à URSS). Volta a sê-lo com o impressionante Como Poeira ao Vento.

Também a forma, escorreita, cumpre o modelo do grande romance burguês, no sentido estritamente histórico da palavra: nem uma grande ousadia no uso da linguagem, preferindo-se a eficácia contida para o contar límpido de uma história, nem sobressaltos na estrutura.

Neste romance monumental, em que nos movemos com dificuldade em suspender por um instante a leitura, somos apresentados a Adela, uma nova iorquina de ascendência cubana e argentina (pelo menos é o que ela pensa, trata-se do que lhe contaram), com uma relação mais difícil com a mãe do que com o pai, e que travara, entretanto, conhecimento com um recente refugiado de Cuba, um balsero.

Numa fotografia que Marcos lhe mostra, em que lhe sorri da infância cubana, com os pais e os amigos deles, Adela identifica a sua própria mãe, grávida. Que história secreta, que passado inconfessado, ou simplesmente por contar, encerra essa fotografia, e de que modo explicaria a frieza da mãe em aceitar a paixão e a vida em comum de Adela e Marcos?

A descoberta da fotografia e da questão, ou questões, a que ela obriga, são o mote para um regresso ao passado e à biografia daquele grupo, das suas relações fortes e tempestuosas, da sua situação relativamente ao regime cubano, as suas dúvidas, os seus receios, as experiências traumáticas, o exílio de quase todos eles. É, como dirá Padura em uma entrevista, a história de uma geração, a sua geração. 

A história complexa, tortuosa e torturada, política e cultural, de um país e de um grupo de pessoas que representam a encruzilhada entre a aceitação de uma revolução, que prometia um mundo melhor, e a consciência das perseguições e do controlo. 

domingo, 22 de maio de 2022

ANDRÉ FRANQUIN: DA IMAGINAÇÃO


 Já me conformei com a descoberta relativamente tardia de que nem todas as pessoas gostam de BD. Intrigava-me que os leitores de romance e os apreciadores de pintura não vissem, na banda desenhada, a feliz reunião de ambas as formas, ou seja, a arte de tecer uma narrativa através da ilustração. Quadros: os quadrinhos, que seguimos para compreender o fio dos acontecimentos. Depois, fui percebendo. Nada é assim tão simples. A BD é também uma linguagem, com as suas convenções e exigências: os balões podem desconcentrar, a linha narrativa pode perder-se. Texto em cima dos desenhos não é necessariamente convidativo.

Para quem cresceu, desde antes de aprender a ler, extasiando-se com a colecção de Cavaleiro Andante do irmão, que eu sabia muito bem onde estava escondida (de mim); para quem descobria na casa das primas os comic da Marvel, ou as versões brasileiras "dos Patinhas", a Luluzinha e o Bolinha, o Super-Homem e o Batman; para quem entrou, em silenciosa euforia, no universo do Tintim e, muito depois, no de Astérix; para quem gastou literalmente as páginas de A Marca Amarela e teve a sorte de ser contemporâneo da génese, em Portugal, da maravilhosa revista Tintim, onde se reuniam, por obra e graça de Vasco Granja e Dinis Machado, as personagens originais de três revistas diferentes (a Tintin e a Spirou, belgas, e a Pilote, francesa), parece sempre de lamentar que haja pessoas a quem a singularidade preciosa das histórias em quadrinhos possa ter passado ao lado.



Curiosamente, conheci pouco e mal, na adolescência, o prolífico autor de que decidi falar hoje. Conheci pouco, conheci mal, mas, como dizer?, já poderoso no modo como me tocava, de longe: nessa ausência de familiaridade, formava-se uma célula de espanto e de fascínio, como a propósito de um país que nunca verdadeiramente visitámos, e de que, todavia, nos chegam fotografias ou notícias que nos fazem estremecer.

Eu conto: milénios antes das Fnac, havia, na então cidade de Lourenço Marques, uma livraria de grata memória, que era a "cooperativa". A Coop. Lembro-me deste nome, não saberia hoje dizer-vos de que cooperativa se tratava. Mas sob a loja, acoitava-se uma cave, uma ampla sala onde nos sentávamos a ler, como se estivéssemos numa biblioteca. E aí me deparei com, e vi/li muitos álbuns da revista Spirou - álbuns que encadernavam bastantes números do semanário - em que achei o delirante Gaston Lagaffe. Tudo na personagem e nos gags me enchia as medidas: eram histórias curtas, de uma prancha  (publicadas à razão de uma por número semanal), concluindo numa piada que me fazia realmente rir. O traço impunha-se pela sua diferença e originalidade, o mais afastado possível da "linha clara" (Tintim, Blake e Mortimer, Alix) em que eu fora educado: em Gaston havia um ruído gráfico deliberado, que exprimia, em desenho, uma desordenação criativa e plena de humor, reproduzindo as características de personalidade daquela personagem.

Já estava em Portugal, e não seria certamente um adolescente, quando soube que Franquin, nos anos 50, tinha recebido a missão de continuar as aventuras de Spirou, de que eu não era íntimo, apesar de as folhear na tal cooperativa, e lhe acrescentara algumas das personagens mais mirabolantes: o próprio Fantasio, companheiro inseparável do jovem paquete, a astuciosa e competitiva Seccotine, repórter de O Mosquito, rival de Fantasio, sua amiga e inimiga, o Conde de Champignac, ou o genial Marsupilami, animal de uma espécie desconhecida, com uma cauda longa e multiusos, mais uma plêiade de secundários hilariantes, como o Presidente da Câmara de Champignac (e, bem entendido, o delicioso ridículo dos seus discursos) e vilões inesquecíveis.

Mais tarde, ainda, descobri as suas Idées Noires, gags de um sublime e cruel humor, o sarcasmo à solta, num desenho sombrio, só de relevos  negros. Um modo, soube, de se defender contra as suas crises de depressão. 

Tornando a Gaston Lagaffe, que Monsieur Dupuis, o editor, quer ressuscitar agora pela mão de um outro desenhador (ideia que os fãs de Franquin abominam, sobretudo atendendo a que, em entrevista, explicitamente, o autor confessara que não desejaria a continuação de Gaston após a sua morte), tornando, pois, a ele, num momento em que até faço parte de grupos que se lhe devotam, no Facebook, sinto-me de novo o miúdo maravilhado que sempre fui com uma BD nas mãos. Percebo a igenuidade de Gaston, a sua inventividade mal aceite e mal compreendida, à beira da catástrofe, a dirigir-se  ao precipício iminente, o seu romantismo tímido, a exasperação que a sua preguiça e as suas inovações (brilhantes, na verdade) podem causar entre os outros habitantes da redacção do jornal onde (não) trabalha, mas, sobretudo, e tanto tempo antes de isso estar na ordem do dia, o seu amor pelos animais (uma gaivota sorridente, um gato, um ratinho e um peixinho) e a sua luta contínua contra os parquímetros e contra Longtarin, o polícia que os vigia.

As mais simples ideias ou piadas são, em André Franquin, da ordem do génio. Os fãs pululam. 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

ANTÔNIO TORRES: QUERIDA CIDADE

 

O que sou agora? Dois olhos na amplidão, a ver água, água e nada mais. O que mudou de um dia para o outro: agora era ele o dono e senhor de uma cidade inexistente. Sem vivalma.


Há, sobre a minha descoberta e recepção deste livro, tanta coisa a dizer, que se me torna até difícil decidir por onde principiar. Na verdade, conheci Antônio Torres no Facebook, recomendado por vários amigos brasileiros. Não me lembro em que precisas circunstâncias. Em todo o caso, a sua gentileza, ou a sapiência que se percebia num directo, deixaram-me em estado de desasossego enquanto o não convidei para colaborar na "Fluir". Acedeu, enviando-me um texto maravilhoso que, em breve, poderão ler.



Entretanto, queria muito mergulhar no seu último livro, Querida Cidade, de que parti em busca, numa livraria brasileira que achei na mesma altura, a Livraria da Travessa, entre o Largo do Rato e o Jardim de São Pedro de Alcântara (desculpem a localização imprecisa, mas nunca fui homem de calcular a latitude e a longitude): um proprietário culto, de uma amabilidade e de uma alegria hospitaleiras, que nos interpela e faz sentir as pessoas mais interessantes do mundo; inúmeras salas amplas, outras mais pequenas; uma ou duas cadeiras onde podemos sentar-nos a folhear; a presença silenciosa (secretamente eloquente) de romance, ensaio, poesia, filosofia, ciência, artes, desde os livros de autores brasileiros e portugueses, a secções de livros em francês, inglês, alemão, espanhol.

Encomendei-o. Demorou: ter-se-iam esquecido de mim? Nem pensar. "Vamos perguntar o que se passa", assumiu mais tarde o dono da livraria.  

Chegou há pouco o livro, avisaram-me, passei por lá, trouxe-o (e a mais alguns), e estou a lê-lo.

Advirto desde já que o início não é para meninos. Amedronta e desconcerta. Sentimos dúvidas, continuamente superadas, continuamente retornadas, sobre se o desaparecimento de uma cidade sob o dilúvio deve ser lido literal ou metaforicamente, a tal ponto as imagens contêm um travo onírico, um elemento de improbabilidade. Por outro lado, caramba!, desde as primeiras linhas, que linguagem inspirada, que poética e aliciante aliança entre rigor, riqueza lexical e beleza pura. A lentidão da leitura, e a repetição, muitas vezes, foram-me condição: não só para não deixar escapar um sentido íntimo, oculto, como para, sobretudo, respirar mais profundamente o maravilhoso da construção das frases, o encantamento de uma linguagem que nos hipnotiza. Também é um facto que, a partir de certo ponto, deixamos de ser capazes de manter a lentidão da leitura, de tal forma o romance nos envolve e suga vertiginosamente.

Penetrando na infância e na adolescência daquele homem, só, na cidade afundada, tomamos conhecimento de como se afastara, antes, da sua aldeia, de pais, irmãs, irmãos, em busca de uma vida melhor. Viverá, na procura da sorte, em várias cidades: a verde, a velha, a bela. E vamos ouvindo o seu pensamento e a sua memória a narrar, recuando a partir de um momento, o este agora.

Mas os momentos quebram-se, inevitavelmente, como contas de vidro. É ainda um aspecto encantatório do estilo de Antônio Torres, na sua progressão rápida (ou melhor, como lemos alhures, ora rápida, ora mais vagarosa): de dentro de cada momento que nos é contado, e se fragmenta, surgem, com precisão e sem a menor falha na clareza das ligações, inúmeros outros momentos - uma rede de episódios que a memória da personagem faz advir, revendo o seu passado. Mas não apenas o seu passado pessoal: associações se vão operando, a propósito de uma palavra, ora às histórias dos casamentos ou namoros (ou a ausência de um homem que fique), das irmãs da jovem por quem se apaixonara, e visitava numa casa onde havia, até, um piano, ora a um programa "motivacional" de televisão, ora, por causa desse programa, à vida de uma moradora de um prédio, que viajara à Índia, se tinha transformado, e teria matado o marido devido a uma "dieta de faquir" - o que na verdade não sucedeu, e sim o contrário. Breves histórias que se ramificam, aparentemente desconexas entre si, mas com pontes que tudo permitem congregar, numa composição de cenas que é um universo. Na feliz nota inserta nas badanas, sem referência autoral, o elemento do seu modo de escrever é caracterizado como líquido: "Os fatos da vida do protagonista afloram e somem num meio movediço", vários pontos, em suma, "amalgamados num tempo oceânico", com diversos tipos de flutuação, "como se as águas em que flutuamos esquentassem ou esfriassem, acelerassem ou diminuíssem o empuxo."

Num certo sentido, a substância deste romance é a fuga. Até, nesse aspecto, se percebe a justeza do carácter líquido, torrencial. Ou a partida, se preferirmos, como um som dominante: desde a de um tio, cujo desaparecimento marcara a família; passando pela mais decisiva, aqui: a do próprio protagonista, ansioso por se libertar do meio medíocre e, simultaneamente, amado; até, pela segunda vez, a do próprio tio que o recebera, mas, contudo, empreenderá uma fuga dentro da fuga, largando sem piedade a mulher e o sobrinho - deixando-os sem nada -, para se juntar à, afinal, tardia mulher da sua vida. Já para não falarmos da misteriosa evaporação do seu pai. Ou mesmo a fuga de um primo em terceiríssimo grau, o qual lhe viria a ser providencial num reencontro, mais tarde, mas escapava então, na deliciosa expressão de Antônio Torres, ao facto de ter acabado "indo longe demais" na sua energia de Don Juan: "meter-se com uma chave de cadeia foi sua falha trágica" (isto é, ter seduzido a mulher do delegado da polícia. Sendo que também, como adiante perceberemos, essa história resultaria mais de um equívoco, adensado pelo diz-que-disse, do que de um pecado efectivo).

Mas, se a analogia não soar forçada, a fuga prática tem ainda correspondência numa série de outros tipos de fuga, as, digamos, evasões à realidade, através da literatura e do cinema, que sublinham os primeiros anos da vida citadina do protagonista, tornando o romance de Antônio Torres um meio onde o real e a ficção se entrelaçam, numa reconstituição extraordinária das referências romanescas, cinematográficas e musicais da juventude brasileira dos anos 50.

Não é um aspecto de somenos, para a grandiosidade desta narração, que ela não se vá desenhando linearmente, mas num imenso movimento em que passado, presente e futuro se confundem, sob um mesmo olhar divino, nem que os destroços de episódios pretéritos, que vimos vogar nas páginas, e desaparecer, incompreensíveis e inconclusos na memória das personagens, sejam depois reatados, num encaixe em que o todo se consuma.

É verdadeiramente essa dispersão, típica de um "tempo oceânico", por onde perpassam versos de letras de canções e referências à música ouvida, como a trilha sonora em que se reconstroem várias épocas, ou perpassam indícios de momentos historicamente reais, políticos e culturais, que embebem o espírito do tempo, em lugares, e por personagens, nunca nomeados (quando muito, o homem só, perante a cidade praticamente submersa - sonho, realidade, forma do tempo? - é tratado, a propósito de certo momento da sua juventude, por Das Dores, aludindo-se à identificação instantânea com a filosofia de Arthur Schopenhauer, que acabava de descobrir, num livro em que tinha gastado o seu último dinheiro), que nos mostra a perfeita perícia e a profundíssima originalidade de Antônio Torres.


quinta-feira, 14 de abril de 2022

JOÃO PEDRO VALA: GRANDE TURISMO

 Para ser completamente honesto, João Pedro Vala já me tinha conquistado antes de eu poder ler-lhe o primeiro romance. Bastara-me a referência ao seu interesse por Marcel Proust, e à tese que produziu, entre uma universidade portuguesa e uma outra, norte-americana, sobre Em Busca do Tempo Perdido, para que uma afinidade primordial com o jovem autor e o seu olho atento ao que vale a pena me predispusesse a ir ao seu encontro. 



Grande
Turismo sofre a influência proustiana, sob a forma, porém, de dever satirizá-la, sátira essa em que se lê mais a homenagem e a humildade, do que a crítica ou o sentimento de superioridade. Como se João Pedro Vala pensasse: "Para refazer a experiência de um romance cuja matéria coincide com o tempo, recuperado pela memória do narrador, sem parecer que me meço com Proust, deverei escrever uma espécie de caricatura, em que o narrador emergirá sistematicamente falhado e ridículo."

Nada de confusões: a falha, a insegurança e o ridículo estão já contidos no Marcel de Em Busca do Tempo Perdido, e em todas as suas personagens; contudo, enquanto aí se conjugam numa linha subtil, em parte cómica, sim, que, simultaneamente, suscita tristeza, indentificação e redenção, no romance de JPV são desenhados com o traço grosso da comédia. A aura romântica foi completamente substituída por uma estratégia humorística. O narrador - que, como em Proust, partilha o nome do autor (neste caso, aliás, completamente, nome próprio e apelidos: "João Pedro Vala") - parece-nos mais um Woody Allen do que um Marcel.

As suas memórias vêm deliberadamente descosidas. Não se procura o tempo como a substância que as une secretamente e lhes daria sentido. A chave é, pelo contrário, a descontinuidade: momentos que nascem de si próprios e não se ligam senão pelo narrador e 


umas quantas personagens comuns. 

Não se trata, pois, na sua linguagem muito bela, original e poderosa estilisticamente, de uma reconstituição do passado que o resgata e justifica, como Em Busca do Tempo Perdido, mas da exposição auto-irónica, como à procura dos momentos mais risíveis, em que a existência de João Pedro Vala, o narrador, se revela como desacerto, absurdo e ridículo. Como se se procurasse o lado inverso do romance de Proust. 

terça-feira, 22 de março de 2022

RENÉ GIRARD: MENTIRA ROMÂNTICA E VERDADE ROMANESCA

 

O meu antigo orientador académico e, mais do que isso, amigo entretanto consolidado, que não via há muito, Professor Manuel José do Carmo Ferreira, e eu, reunimo-nos num almoço onde se cruzaram algum vinho, muitas recordações, gargalhadas e descobertas. Foi o Professor, ciente da minha paixão por Proust, quem me apresentou René Girard - que eu não conhecia - e uma obra sua onde, em torno de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Proust e Dostoiévski, se detecta e explora o conceito de desejo mimético.

Devo dizer que, mesmo com esta ideia a trabalhar-me subconscientemente, foi o acaso que, numa deliciosa livraria de Lisboa, a Distopia, onde eu ia em busca de outra coisa qualquer, me fez tropeçar numa tradução do ensaio maior de René Girard. Precisamente o de que Carmo Ferreira me havia falado.

O desejo mimético, primeiramente, é o desejo que eu copio de outrem.


Significa, por um lado, que descubro, num modelo, o que e como devo desejar, seja em D. Quixote a reprodução de Amadis de Gaula, o referente longínquo de um ideal de cavalheirismo, de luta contra o mal e de amor, seja, nas personagens de Stendhal, o desejo que se sente por uma mulher desejada por um rival  admirado e odiado (e o ressentimento mais não sendo do que esse desequilibrado e impossível convívio entre o fascínio e a inveja) ou, como na extraordinária Emma Bovary, a procura de um homem ideal, inculcada - precisamente, aliás, como no Quixote - pela tresleitura dos livros "românticos" da época ou, em Proust, a figura do snob, começando no próprio narrador, Marcel, cujos desejos (culturais, literários, mas também amorosos) dependem sempre da caução das pessoas que admira, mentores ou rivais, e desenvolvendo-se no ciúme, como forma de uma obsessão relativamente ao olhar de um terceiro sobre o objecto do meu amor - olhar de que no entanto careço, porque valoriza secretamente esse objecto do meu desejo, e mo faz desejá-lo mais perigosa e mais intensamente. Dostoiévski será, todavia, o autor que mais bem revela essa luta intrínseca de desejos, e essa necessidade de copiar e de competir com o desejo de outrem: loucura em D. Quixote, vaidade em Julien Sorel, infidelidade em Madame Bovary, snobismo e ciúme em Proust, ciúme e fascínio em Dostoiévski. A obra citada como lugar de desvelamento, neste autor, é O Eterno Marido, onde o viúvo busca o olhar dos antigos amantes da mulher falecida, e será ainda o desejo de um deles pela sua recente pretendida, que o eterno marido instigará, até ao ponto de a perder, revendo no rival, como num espelho, o próprio desejo, o próprio modelo, o opositor numa dialéctica sem a qual não sabe como desejar e nada é. "O desejo segundo o Outro", escreve Girard, "é sempre o desejo de ser um Outro."

Significa, por outro lado, que a detecção da dependência, destas personagens, relativamente a um modelo, ou a instituição do desejo na obra dos autores mencionados como um triângulo e como uma cópia de referências, uma cópia do desejo do Outro, não se limitam ao traçar de uma coincidência entre diferentes romances. São a base do romantismo. São a mentira do romantismo que, acreditando mostrar um desejo espontâneo e original do sujeito autónomo, expõem (porventura sem querer, porventura contra si: daí a "mentira") um desejo que é sempre falso, não autónomo, o resultado de uma influência, uma cópia, mimesis. No romantismo, o amor e o desejo mais não são do que uma reprodução de uma imagem, de um mito.

A verdade romanesca é a denúncia dessa mentira do romantismo, a que só os grandes romances dos autores maiores conseguem proceder. A descoberta, precisamente, de que as personagens não desejam por si: imitam sempre o desejo de outrem. [ O erro não estaria tanto, portanto, nos romancistas, como na crítica romântica, que, ao longo do tempo, sempre erigiu estas personagens em heróis românticos -veja-se desde logo D. Quixote, tomado como representante máximo do idealismo, como se, para Cervantes, não fosse antes um exemplo de loucura e de imitação de um modelo.]

sábado, 5 de março de 2022

DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA: LUANDA, LISBOA, PARAÍSO

 

[...] tinham percebido que Lisboa era uma escadaria que não ia dar a parte alguma.



Gosto de Djaimilia Pereira de Almeida. Muito, e por boas razões: porque escreve bem, num português em que o elemento africano, uma musicalidade de Angola, é autêntico, intrínseco e sem, por isso mesmo, necessidade de se exibir como em Mia Couto. Porque tem um olhar perscrutante e porque pensa ponderada e profundamente, o que percebemos quando nos tornamos leitores habituais das suas crónicas. A autonomia da reflexão e dos argumentos de DPA, nessas crónicas, resiste a que os reduzamos a linhas orientadoras de partidos, ou a categorias dicotómicas politicamente correctas, de uma forma rara e refrescante. 


Luanda, Lisboa, Paraíso principia por se fazer notar precisamente pela linguagem. Voluptuosa, poética, seduz-nos logo pela beleza: lemos o romance, em certa medida, como se estivéssemos a ler um poema e, portanto, para além das descrições e da narração dos acontecimentos, ou oculta neles, pressentimos sempre uma verdade mais intensa, que não é da ordem dos factos representados, ou da história que se nos conta, mas da forma, da expressão, das palavras. Para entenderem do que falo: Na cama, às escuras, eram um mostrengo. Os cabelos dela cobriam as maçãs do rosto dele. As pernas dele acrescentavam-se às pernas finas dela. Respiravam debaixo do lençol como se um único coração os animasse. Na escuridãoinspirando o mesmo ar, ela rangia os dentes nos intervalos do ressonar dele, num crescendo furioso que, ao rebentar, desmaiava num fôlego apaziguado em que o ritmo de ambos se encontrava por segundos para logo divergir como duas classes da mesma orquestra.

Em si mesma, a narrativa é de uma grande simplicidade. Não assistimos ao debruçar sobre situações, com as personagens pensando ou dialogando, ou interagindo, em suma, como parte de um quadro minuciosamente descrito. Ao invés, capítulos breves vão-nos dando conta de um grupo de protagonistas envolvido por um rápido desenrolar de acontecimentos no tempo: a criança nascida com um defeito no calcanhar, que lhe comprometerá a marcha (para sempre, a não ser que a submetam a uma operação, antes dos seus 15 anos); a mãe que cai numa paralisia pós-parto, e num estado quase vegetativo, de que regressará incerta e periodicamente; o pai, para quem a vida se transformaria em sofrimento e mistério, matéria de incompreensão e de indagações, mentor da viagem, com o filho, de Luanda a Lisboa [é pungente a chegada a Lisboa e o momento em que, um dia, à chuva, tristes e desnorteados, se perdem pelas ruas] e, por fim, fixando-se nas imediações da cidade, até ao paraíso, esse a que o maravilhoso título alude, quando encontram abrigo e um amigo.

Será, pergunta a sinopse, "esta amizade capaz de os salvar?"

É-nos indispensável ler este romance.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

ERIC WEINER: A GEOGRAFIA DA FELICIDADE


 

Uma amiga cujo filho foi, há alguns anos, meu  aluno, 


emprestou-me este livro. O empréstimo vinha carregado de sentido afectivo: trata-se de um dos livros predilectos do jovem e querido Diogo, que se lembrava amiúde de mim quando o relia. Tinha a certeza de que eu gostaria muito. Fez questão de que a mãe mo fizesse chegar.


O problema da felicidade tem suscitado as mais  variadas reflexões, e o desesperado desejo de sermos felizes é uma das razões da multiplicação contemporânea dos horrorosos livros de auto-ajuda. Seja como for, a questão primordial é a de saber o que se entende por felicidade, e desde os antigos filósofos aos investigadores actuais, sempre se divagou sobre o que permite transcender a existência entendida, à imagem da visão do budismo ou de Schopenhauer, como contínuo sofrimento, para um sentido do belo e do bom que nos apazigue, e reconcilie, positivamente, com o facto de estarmos vivos.


Um comentador de A Geografia da Felicidade escreve: "Eric Weiner [o autor] arrumou Bill Bryson a um canto." Distancio-me da crueldade da comparação, mas, curiosamente, é, de facto, de Bill Bryson que me lembro enquanto vou navegando pelo livro de Weiner. A mesma erudição que se não ufana, a mesma inquieta curiosidade, o mesmo género de mente que se abre para tentar conhecer quase tudo sobre quase tudo, procurando as ligações inesperadas, a relação entre os aspectos aparentemente mais distantes, e o toque pessoal e autobiográfico que se mistura no que se descreve, ou expõe, ou narra, sobre o fio de um sentido de humor omnipresente. Devo acrescentar, a propósito do sentido de humor presente em A Geografia da Felicidade, que, por diversas vezes, em público, de livro na mão, fui apanhado a rir sozinho.

Observo por fim, maravilhado, e a propósito, afinal, de um livro sobre a felicidade!, que, se um dos veios que constituem a minha felicidade é, inegavelmente, o acto de ler, a leitura de autores como Bryson ou Weiner eleva a experiência a um nível raro e precioso.


A ideia subjacente soa-me bem. Como é vivida, ou desejada, ou vista a felicidade por diferentes culturas, em diferentes lugares? Suspeitamos que a ideia do que seja ser feliz, de um brasileiro, possa não se identificar com a de um português. Por muitas ligações que permaneçam e se estreitem, existem, nas características típicas destes dois povos, no modo expansivo de um, inibido de outro, nas próprias formas que culturalmente se desenham no que respeita ao relacionamento entre pessoas, já para não falar de aspectos tão subtis como a disposição para que os climas do Brasil e de Portugal inclinam, respectivamente, brasileiros e portugueses, tantas e tamanhas disparidades, que a busca da felicidade só pode ser, num caso e no outro, incoincidente. Mesmo descontando um efeito de distorção introduzido, necessariamente, por este tipo de generalizações. 

Eric Weiner é, desde que se lembra, um sujeito infeliz. Alguém com quem conversa, num dos países que visita durante, e para, a escrita deste livro, dirá que reconhece, nele, um viciado em infelicidade. A sua permanente depressão seria, provavelmente, a motivação mais forte sob o projecto de escrever acerca da variação geográfica da felicidade. É portanto, em busca da felicidade que se inicia um périplo e a escrita de uma obra desta natureza. Que me podem ensinar os povos felizes? Ou que lições acerca da felicidade poderei receber de um povo infeliz, por exemplo a Moldávia?

Não é uma obra diplomática. Longe disso.  Frequentemente, a franqueza do autor nos seus comentários acerca dos povos chega a ser chocante. Uma ironia latente, que nunca desce ao sarcasmo, nem denuncia desprezo, mas a perplexidade perante escolhas tão diversificadas, tão estranhas, tão obcecadas, e tão longe dos padrões que tomámos como os únicos possíveis. A sua descrição dos moldavos, por exemplo, e da sua tristeza, faz o leitor sentir-se culpado por ser, às vezes, tão feliz. [É certamente com um estremecimento de indignação por esta sinceridade sem eufemismos que lemos uma frase assim: "A Moldávia é uma construção nacional que correu mal e, tal como acontece nas operações plásticas que não correm como o planeado, os resultados não são bonitos de se ver. Apetece-nos virar a cara."]

Em cada capítulo, em cada país, a felicidade tem uma chave. No Butão, é uma política. Mais do que o produto nacional bruto, como se sabe, para o governo importa uma medida como o índice médio de felicidade da população. Mera retórica? Um golpe de marketing? Mas, a sê-lo, não o seria certamente para efeitos turísticos, uma vez que o turismo não é particularmente encorajado no Butão. São felizes? Porquê?

No Qatar, a felicidade é um caminho errado que não leva senão a uma preguiçosa depressão. O excesso do conforto, a grandeza artificial, a proliferação de simulacros que reproduzem a miragem de felicidades vividas por outros, como uma espécie de Las Vegas onde nada, verdadeiramente, dá à vida um sentido que não seja senão aparente, refaz a questão da importância do dinheiro nesta equação. 

Perante a Islândia, um país minúsculo e gelado, podemos perguntar como poderia estar a felicidade tão longe do sol. Consegue, vedadeiramente, ser feliz, um povo que vive tanto tempo na escuridão? Qual o seu segredo?

A Geografia da Felicidade é um livro encantador. Mais do que isso: uma obra cuja leitura produz um estado de surpresa, bem-aventurança e alegria luminosas. Weiner visitou, conheceu, entrevistou, traduziu as suas observações de repórter, acerca das crenças e vidas de povos felizes, ou que se crêem felizes, em hipóteses engenhosas, enquadradas, sistemática e bem-humoradamente, pelas teorias mais recentes dos investigadores.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

JAVIER MARÍAS: TOMÁS NEVINSON

 

[...] nunca nada se vai completamente embora, e o que parece ter-se ido embora, mais tarde ou mais cedo regressa, nem que demore por vezes trinta ou cinquenta anos.

                                Javier Marías, Tomás Nevinson


Há neste romance enorme, na qualidade, mas também fisicamente (651 páginas), uma mestria extraordinária. Não digo que JM seja o melhor Autor dos nossos dias; muito menos que diversos outros não sejam bons, assumindo essa espécie de desprezo pelo que vem sendo feito em matéria de literatura, tão comum nos dias que correm: diversos contemporâneos são-no, sem dúvida, ou mesmo excelentes, e muitos romancistas portugueses (por exemplo, para os tomar como termo de comparação) valem francamente a pena - porém Tomás Nevinson revela um nervo simultaneamente grandioso e singular, que só a voz de Javier Marías nos dá na sua originalidade. Não, não acredito que se trate de um exagero; outros que o tentem imitar, copiar, serão, para sempre, apenas epígonos. E, paradoxalmente, quem o experimentasse antes de Javier Marías tornar-se-ia, depois de um livro destes, um epígono avant la lettre. [Falo sempre dos contemporâneos, bem entendido.]




De que se trata? É difícil resumir. Poderíamos falar numa errância interessante, ou no modo como a narrativa parece dispersar-se por apartes, "a propósitos", sub-histórias que proliferam, como ramos ao longo do tronco, divagações, que são, cada uma delas, em si mesma, muitíssimo cativantes, como novas pistas que o leitor quereria perseguir, sabendo de antemão que o livro não é sobre elas e que, portanto, o seu aparecimento será breve, a sua declinação não tardará. É porventura assim que pensamos, não linearmente. É assim que as variadas associações, interferências e intersecções constituem o acto de pensar e, portanto, algo muito semelhante a esse nosso processo interno nos é oferecido neste romance. Perdemo-nos sem nos perdermos, esquecemo-nos sem nos esquecermos, ou pomos entre parêntesis o fio principal, ramificamo-nos continuamente. Talvez Vida e Opiniões de Tristram Shandy [ou Proust, mas Proust está para além de qualquer comparação possível] seja, a seu modo, um precursor, um modelo - mas Javier Marías refunde o modelo como um modo inteiramente seu, e de que, nesta particular apropriação, só ele seria capaz.


Este Nevinson a que o título alude, de mãe espanhola e pai inglês, foi durante algum tempo um agente britânico. Existiu realmente? Não o encontro em pesquisas que não remetam imediatamente para o romance. Nenhuma referência, nenhuma biografia.

Encontramo-lo numa época em que regressara à família - a extraordinária Berta Isla, protagonista do anterior livro de JM, e os filhos -, com quem tinha cortado todos os laços, deixando acreditar que estava morto, depois de dispensado pelos serviços secretos britânicos. Reatara a relação familar possível: sem coabitação, aceite até um certo ponto, encontrando-se irregularmente para a partilha de refeições e alguns momentos de sexo.


A libertação por parte da agência continha, para Tomás Nevinson, um elemento de vergonha, um inexplicável embaraço. Não que a não tivesse desejado e solicitado himself; mas ainda assim, a rapidez da aceitação, a atitude com que a encaravam, como se se livrassem de um peso morto, já para não falarmos da adaptação a uma vida praticamente igual à de qualquer habitante de Madrid, sem missão nem mistério, haviam-no tornado um deprimido homem comum. É, pois, quase com estranheza que Nevinson se vê contactado pelo desprezível Tupra, o aliciador, de múltiplos heterónimos, disposto a convencê-lo a uma última missão. Um assassínio, na verdade. E o assassínio de uma mulher. Mas, se isso é dito desde as primeiras linhas, "Eu fui educado à antiga, e nunca achei que um dia me ordenassem que matasse uma mulher", observem, por favor, o encontro entre Nevinson e Tupra, num jardim de Madrid, em que a errância interessante, como lhe chamei, se exerce em todo o seu esplendor, e eles de tudo falam, tudo comentam e evocam, e sobre tudo reflectem, como numa conversa de salão, tensa e divertida, culta e calculista, desconfiada e íntima, antes que se toque no que ali os reuniu.


 Nevinson é contactado para, de duas uma: ou reunir provas que permitam levar à justiça, ou, caso tal não suceda, liquidar (descobrindo em quem se tornou e envolvendo-se, eventualmente, com ela) uma das responsáveis por um dos mais brutais massacres perpetrados pela ETA, de forma que, ao longo do romance, vamos sendo convidados a participar da reflexão do narrador sobre o que é a justiça, o arrependimento, a história. E sobre esses homens que, sem ódio (palavras de Tupra), se encarregam de manter, não olhando a meios, a tranquilidade de todos os outros - que os recriminariam se tivessem consciência, se soubessem, se vissem. Não se trata, nesta reflexão, da auto-aprovação, mas, verdadeiramente, de dúvida e de interrogação. 

É toda uma época que se passa em revista e se discute, quando, dez anos depois, um homem desligado de um certo tipo de acção é chamado a reatá-la uma última vez. 

PS: li numa das badanas do livro, já após ter escrito o meu comentário, que Javier Marías traduziu Vida e Opiniões de Tristram Shandy. E devo confessar que fiquei muito impressionado com a minha própria perspicácia. Oh humana vaidade.

domingo, 12 de dezembro de 2021

ISABEL DA NÓBREGA: VIVER COM OS OUTROS


Dois

breves trechos, cada um em sua página, fazem a introdução a esta obra: o primeiro, de Vergílio Ferreira, recorda que a solidão é sempre uma possibilidade que se revela sobre o fundo da convivência - de algum tipo, mesmo negativo, de convivência. Quem a desconhece, ou não tenha alguma forma de consciência dos outros, não poderia sequer reconhecer-se como "eu"; o que não percebe a essência dos laços com outrem não poderia também perceber-se como "só"; o segundo excerto, de Rodrigues Lobo, faz o elogio do diálogo como o estilo privilegiado de escrita (e aquele que, de certa forma, contém todos os outros).


Dir-se-ia que estes dois ensinamentos mostraram, à escritora, o caminho do livro que ela deveria escrever. Um romance sobre um cruzamento de pessoas que permite, a cada uma, reconhecer-se a si própria, e um romance onde quase nada existe senão o diálogo. Longe de uma peça de teatro, porque podemos acompanhar o que algumas das personagens pensam, e como se avaliam mutuamente, assume a ausência de um narrador, de qualquer enquadramento ou explicação. Não sabemos, acerca daqueles sujeitos em um jantar e, depois, durante algum tempo de convívio, após o jantar, senão o que cada uma diz, aos outros, de si ou dos outros. Por outras palavras, somos espectadores a quem são negadas indicações. Entramos na reunião de pessoas que conversam, não sabemos quem são, e não percebemos durante muito tempo a quem atribuir cada uma das falas. Aos poucos, vão surgindo nomes, e continuamos a não adivinhar, necessariamente, que nome atribuir a cada uma das falas. Não tem a menor importância porque, nessa espécie de daltonismo, vamos descobrindo e caracterizando cada um dos presentes.

São indispensáveis, para escrever um romance com esta ousadia, duas qualidades. Ter apreendido a mimar o discurso oral, sem discursos demasiado prolixos e literários, mas, pelo contrário, lapsos, hesitações, interrupções, e nesse aspecto, Isabel da Nóbrega é absolutamente extraordinária. Na nossa cabeça, mais do que ler, parece-nos estar a ouvir. A outra qualidade é oferecer-nos o ritmo do pensar, com confusões e cruzamentos - e isso é muito mais difícil, e menos conseguido, porque a solução é a de tratar o pensamento como uma fala interior, e nós sabemos que o pensamento nunca é propriamente uma fala. Mas a inteligibilidade o exige.

O que se discute naquele encontro é denso. No fundo, aquilo que Sartre, Simone de Beauvoir e os existencialistas contemporâneos procuraram dar a ver. O que define a verdade de cada um? As suas ideias (políticas, religiosas, artísticas), ou os seus casamentos - em nenhum caso completamente bem sucedido ou para além de um qualquer equívoco essencial e incomunicável -, ou os seus actos, sejam a caridade periódica, o brilho social, um carácter contestário? Aquelas pessoas julgam conhecer-se, ou tentam conhecer as que são, de certa forma, novas no grupo, mas não o conseguem melhor do que o leitor. Talvez, então, a confusão em que nos sentimos por vezes perder seja deliberada: o resultado do exercício através de que a autora nos mostra que, se só vivemos com os outros, nunca realmente conseguimos viver com os outros a não ser separados por um mistério e por uma incomunicabilidade que são a condição de toda a interacção e conhecimento mútuos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

AYN RAND: A REVOLTA DE ATLAS

 Tendo escapado muito jovem a uma revolução que a fez sofrer, e à família (a de 1917 na Rússia), viria a desenvolver, já nos Estados Unidos, onde se refugiou, uma espécie de ódio a toda e qualquer forma de colectivismo; a tudo quanto fosse pôr os interesses da comunidade, do grupo, dos outros, em primeiro lugar; à solidariedade como princípio de vida. A filosofia de Nietzsche (um Nietzsche mal digerido, quanto a mim, mas quem sou eu?) fornecer-lhe-ia os vectores filosóficos para tomar o egoísmo como a única forma de expandir o que de melhor haja em cada um - e a solidariedade, a piedade, a "empatia" (esse termo da moda, hoje, a que ela não se refere explicitamente, mas está sempre presente) como valores desvirtuados, falsos, promovidos pelos fracos e pelos sacerdotes de todas as religiões. 


Não,  não falo de nenhuma personagem, mas de Ayn Rand, autora da obra. Convenhamos que construir toda uma filosofia em torno destas ideias, que mal ocultam os ressentimentos da sua biografia, dificilmente produziria um pensamento profundo. E no entanto, por aquilo de que me apercebi, o mero cidadão norte-americano, de visão liberal ( falei com alguns, aquando de uma inesquecível viagem), mesmo sem interesse nem luzes filosóficos, encontra em Rand uma ideóloga que julga dever levar-se a sério, e em cujas ideias se compraz.


Este romance, sendo uma alegoria e a tradução romanesca das suas ideias filosóficas, não poderia deixar de enfermar os vícios da própria, chamemos-lhe assim, "filosofia". O maniqueísmo é, aqui, absolutamente arrepiante. Um mundo que não progride porque está nas mãos de pessoas que pensam nos outros (mas que, afinal, nunca pensam realmente nos outros, antes ocultam, sob esse ideal, os seus interesses mesquinhos e as suas alianças dúbias), e são sempre fracos, moles, feios, sofre verdadeiros estremeções sempre que alguns egoístas, incompreendidos, mas focados, se libertam da moral comum e se lançam ao objectivo, a despeito de todas as tentativas de os travarem: chantagem emocional, greves, maquinações. 


O romance advoga entendimentos egoístas. Quando a vice-presidente de uma companhia férrea, uma mulher firme, forte (inspirada certamente na própria imagem que Ayn Rand tinha de si) decide tomar decisões arriscadas, que ultrapassam as do Presidente, seu irmão, cobarde que se esconde sob a capa do "interesse geral" e do altruísmo, desafia a forma instalada e moralista que consiste em perder tempo, trabalhar lentamente,  ceder à incompetência generalizada. Para isso, ela terá de estabelecer um contrato com outro indivíduo forte e egoísta: o inventor e fabricante de uma nova liga, muito mais leve, para os carris. Este entendimento será,  por sua vez, o modelo do verdadeiro amor, na sua perspectiva: um entendimento entre egoístas.


Sabemos que os livros que se reduzem a veicular uma tese são fracos. Piores,  só mesmo, como este, os que se fazem para veicular uma má tese.

domingo, 22 de agosto de 2021

JULIAN BARNES: O HOMEM DO CASACO VERMELHO

Tudo nesta extraordinária biografia tem a mão do romancista. Aqui, de um modo tão claro e tão assumido, não poderia ser considerado uma falha no que respeita à seriedade biográfica da investigação ou da sua apresentação: é uma opção fascinante. Está na origem deste livro uma pintura: "Dr. Pozzi at Home", de John Singer Sargent. Julian Barnes descobriu-a, como se ela inesperadamente esperasse por si, numa parede do National Portrait Gallery, em 2015. Calculo que o impacto que ela teve sobre si, seria muito semelhante ao que poderia ter sobre qualquer um de nós, se lhe prestássemos a devida atenção. Reparem naquela impressionante mão direita, segurando uma fita, em que cada um dos dedos parece autónomo, num movimento próprio e distinto do dos outros. Reparem no casaco, que não é, afinal, um "casaco" no sentido mais adequado do termo, mas, provavelmente, um roupão. Observem o intenso vermelho (ou escarlate) do tecido, que sobressai sobre o fundo em que se pressente um vago cortinado, de um vermelho mais escuro, matizado de castanho, talvez aquilo que designamos por "bordeaux". Quem é este Pozzi, que pousou para Singer Sargent em 1881,e cujo nome parece italiano? Que se sabe dele? Que importância ou interesse teve a sua vida? No início desta obra, ele surge-nos como um dos três franceses que em 1885 visitaram Londres. Mas Barnes hesita precisamente no início, e essa hesitação entre vários possíveis começos da história, em diferentes tempos e lugares diversos, revela que, mais do que encontrar a "essência " de Pozzi (que seria isso, de resto?), o autor o procura como um complexo de momentos, de encontros, de relações, sobre o fundo de acontecimentos políticos, culturais, históricos. Ou seja, de quem ficamos, talvez, a saber o que é possível saber sobre qualquer figura não excessivamente conhecida, a esta distância. Deste modo, a biografia do Dr. Pozzi torna-se um pretexto para uma biografia de uma época. Saber que um dos amigos com que se deslocara a Londres é nada menos que uma das pessoas em que Proust se inspirou para construir o seu imortal Barão de Charlus, é um indicador infalível de que esta biografia é um complemento de À la Recherche du Temps Perdu, uma compreensão das guerras entre intelectuais, o abismo e o fascínio entre Paris e Londres, as expressões mais ou menos difusas do anti-semitismo, o Caso Dreyfus, Zola e o seu tonitruante "j'accuse", o lugar das mulheres, quer as Bovary, quer as Guermantes ou as Françoise (ou a extraordinária Sarah Bernhardt que constitui, ela própria, a única catergoria em que poderíamos inseri-la), o peso dos homens, como o bem-sucedido Pozzi ou o invejoso Jean Lorrain, e o requinte da vida de alguns por oposição à da maior parte. É um livro profusamente ilustrado, o que faz dele, por essa razão mais, um objecto que gostamos de sentir e folhear. É muito belo. Reproduções das pinturas de uma época, fotografias dos seus protagonistas em todas as áreas, e a excelente colecção de cromos "collection Félix Potin", com os retratos das figuras mais proeminentes, que, directa ou indirectamente, todas se terão encontrado com o Dr. Samuel Pozzi.