quinta-feira, 24 de março de 2016

HENRI BARBUSSE: L'ENFER


«Todos os roubos são passionais, mesmo este, que é cobarde e vulgar. (O seu olhar de inextinguível amor pelo tesouro de repente descoberto!) Todos os delitos, todos os crimes, são atentados praticados à imagem do imenso desejo de roubo que é a nossa própria essência e a forma da nossa alma nua: ter o que se não tem.»
             
Henri Barbusse, L'Enfer  




Primeira referência pessoal: este é um dos livros que comecei a perseguir quando li um comentário sobre ele em The Outsider, de Colin Wilson.

Descubro um romance que escava planícies para tocar no subterrâneo interdito; como Lolita ou Lua de Mel, Lua de Fel, o seu território é o de um comportamento social e moralmente inadmissível, o do vício asqueroso, porém tocado de tal forma pelo talento do autor, pela sua linguagem, que se torna sublime. Não me entendam mal. Não se trata de desculpá-lo. Não muda o modo como o olhamos eticamente; não que passemos a admirá-lo, sequer a aceitá-lo. Mas, por um lado, a verdade posta a nu no seu concreto é diferente da que esperávamos. Em vez da maldade ou do desrespeito por outrem, apenas encontramos, como móbil, a solidão, a melancolia, a ausência de laços autênticos. Em vez da curiosidade abusadora, apenas um insaciável e pervertido interesse pelas pessoas. Porque a história - se há propriamente uma história - é a de um narrador que confessa o seu voyeurismo, isto é, narra a maneira como, num quarto de hotel, por um buraco, observa minuciosamente o que sucede no quarto ao lado. A mulher que se desnuda. Os infiéis que se amam e conversam sobre o que desejariam encontrar no seu amor proibido. Um parto. Um dos quadros mais perturbadores é o do sacrifício de uma mulher por razões materiais: casa-se com um homem no limiar da morte para ter direito à sua herança (ela que ama um outro) e oferece, essa noite, o espectáculo da sua nudez àquele que a desposou por piedade e amor.

Percebe-se, portanto, que o registo é o do dilema. É o de reconstituir o pecado na sua debilidade e palpitação humanas, naquilo que resiste às classificações demasiado definitivas. É o da perplexidade,afinal.

     «E quando ela se vestiu  e obscureceu para sempre, e eles se deixaram nada mais ousando dizer, fui agitado por uma grande dúvida. Ela tinha razão? Errou?»

Não é só na estética da linguagem que tudo se esgota, como se a beleza redimisse qualquer mal. Trata-se propriamente da inquietação, do desconforto para que este romance nos arrasta (ele é, na sua forma peculiar, um Livro do Desassossego) e de como essa angústia intocável, difusa, informe mas
penetrante, nos faz perceber que o lugar mais delicado e complexo do humano não é o das grandes certezas morais, mas o da sua génese e fundação: o ponto onde o bem e o mal ainda se não estabeleceram e, portanto, por terrível que seja dizê-lo, conseguimos compreender aquilo que depois - i.e., quando as certezas entretanto se calcificaram - já não seremos capazes de compreender. Apenas desaprovar. Apenas condenar, na nossa indiscutível razão. Daí a importância que adquire, nesta história, o doloroso conflito entre o moribundo e o padre-abutre: «Eu pensava que este padre, na sua violência e na sua grosseria, tinha horrivelmente razão.»

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ELENA FERRANTE: A AMIGA GENIAL (TETRALOGIA)



Concluí a noite passada a leitura do 3º volume [História de Quem Vai e de Quem Fica], em que me embrenhei como já antes me embrenhara no 1º [A Amiga Genial] e, a seguir, no 2º [História do Novo Nome], talvez aquele que, até agora, mais intensa e dramaticamente me raptou à minha realidade quotidiana, para me fazer viver em outra realidade; e devo confessar que já não sentia desta maneira uma urgência de leitura - estava incapaz de me deter, esquecido de horas para comer ou dormir, esquecido de outras tarefas - mas marcada, ao mesmo tempo, pela angústia de me estar a aproximar da última página e da iminência da despedida. Senti-a em cada um dos volumes, em todos os casos aplacando o mal-estar com a consciência de que haveria um volume seguinte.

É uma obra da moda. Suspendo, no meu blogue - já o fiz outras vezes, aliás - a obediência ao objectivo de escrever sobre as obras invisíveis, os clássicos que surpreendo em edições antigas, perdidas, resgatadas às catacumbas e aos túneis secretos das livrarias ou das bibliotecas. Faço-o porque se trata de mais uma excepção: Ferrante justifica-o; a história das duas amigas napolitanas, que nos vai sendo narrada desde a infância destas, no bairro duro, como um gueto onde o dia-a-dia agressivo e ruidoso se faz no dialecto praticamente ininteligível para os demais italianos, da adolescência, a juventude, a maturidade, entre os anos 60 e os anos 90 - até à velhice, no volume que ainda agora comecei a ler [História da Menina Perdida] - por dezenas de razões me parece ser uma síntese do que de melhor a literatura do nosso tempo pôde alcançar.

Principio pela escrita. A enganadora simplicidade do texto de Elena Ferrante, fugindo ao ornamento, na busca de uma limpidez que resulta, no entanto, de um longo trabalho de aparar e refinar até não subsistir nada que distraia da sublime e clara essência, é um segredo de raros eleitos. Nada de neologismos, de bifurcações de frases: a originalidade está nas imagens; as metáforas nada têm de artificial: e são evidentes, apesar da sua frescura e da sua originalidade. Não parecem procuradas e construídas segundo regras retóricas, mas espontâneas e sem ruído. Transcrevo um único exemplo, que retiro do início do último volume, que já estou a ler:

«Assim fiquei sozinha com Antonio. Pareceu-me que tinha na minha frente duas pessoas no mesmo corpo, e no entanto bem distintas. Era o rapaz que em tempos passados me abraçara nos pauis, que me idolatrara, e cujo odor intenso me ficara na memória, como um desejo nunca na realidade satisfeito. E era o homem de agora, sem um fio de gordura no corpo, feito de ossos grandes e pele esticada, desde o rosto duro e sem olhar, até aos pés metidos nuns sapatos enormes.»

Por outro lado, o modo de contar é neurótico e vertiginoso, composto por segmentos breves que nos deixam, frequentemente, à beira de um abismo. Mas, sobretudo, as personagens são de uma tal autenticidade, que as sentimos respirar, nas suas humanas imperfeições que raramente no-las tornam detestáveis. A ambição, a inveja, o ciúme, ou actos tão mesquinhos (e universais) como mentir, humilhar ou trair, são sempre carregados de cambiantes que evitam que se tornem simples, ou que possam ser julgados de forma maniqueísta. Mas mais do que isso - exactamente como sucede quando nos debruçamos sobre os casos da vida real - nem sempre estamos seguros de interpretar adequadamente os móbiles destas pessoas. Desse ponto de vista, o que move realmente Lila permanece-nos obscuro: no limite, a maldade pura? Uma espécie de pulsão maléfica? Uma fome desmesurada de poder, de controle sobre os outros? O medo? A loucura? Interrogamo-nos, perplexos, ou indignados, ou apiedados, mas incapazes de cortar relações com ela, de lhe virar costas, de a olhar como a uma inimiga, presos aliás do mesmo fascínio que Elena - Lenù, a narradora, que Lila sistematicamente espezinha e utiliza, Lenù que frequentemente lhe foge, mas regressa sempre à esfera da sua amiga peculiar. Tanto mais que - faz parte da densidade da personagem - Lila não se esgota no seu lado malévolo: «Quando queria, sabia ser calma, judiciosa [...] E era generosa.»

As motivações subterrâneas de Lila são-nos ainda mais opacas porque, sob o halo desse fascínio quase sacro, a narradora tende a exagerar os seus poderes e capacidades. Uma passagem, só: num relance, Lila viu o que a amiga temia: mas teria mesmo visto, será a sua perspicácia a tal ponto penetrante? Desconfiamos sempre de que a admiração e o fascínio que a narradora nutre por Lila a eleve a um estatuto quase sobrenatural. E essa ambiguidade é um dos pontos fortes deste bildungsroman, este fabuloso romance que nos torna testemunhas da transformação e formação das personagens ao longo de uma vida. A "formação" é aqui, também, de certo modo, muitas vezes a "revelação", a consolidação de indícios que não compreendêramos na sua infância ou na sua adolescência, mas acabam por se reunir numa verdade interior, que encontrará o tempo certo para aparecer, se sobrepor a outras, dominar a personagem: como em Nino, como em Alfonso.        

É um romance que atravessa vários decénios, obrigando-nos a ser também os leitores da História contemporânea da Itália, desde o fim da Guerra (e do fascismo, que ecoa e vibra, ali, ainda), passando pelas movimentações juvenis e estudantis dos anos 60, pelo fascínio esdrúxulo do terrorismo das Brigadas Vermelhas nos anos 70, pela imersão no fumo de discussões contínuas, nas elites, sobre o socialismo e o comunismo, o feminismo, o estruturalismo, o pós-modernismo, sobre o modo como a droga se expande, sobretudo nos bairros pobres, gerando lucros e morte a uma escala nova. E, por fim, um romance único acerca da força das origens sociais e culturais: se quiserem, a questão de perceber-se em que medida a instrução é realmente um instrumento que liberta dessas origens ou, pelo contrário, se estas são a nossa essência e a nossa armadilha, porventura mascaradas e recalcadas, mas sempre a um passo de retornarem em qualquer momento de crise: na luta de Lenù para ser diferente da mãe, para se tornar menos "napolitana", para se educar e refinar cortando amarras com as raízes (o dialecto, já mencionado, a moral retrógrada, os laços que constantemente reaparecem, interferindo no seu percurso), luta que é ao mesmo tempo provocada e travada por Lila, assistimos precisamente aos passos dessa hesitação e dessa insegurança, essa incerteza sobre quem se é, e de onde se é.

A identidade da autora - "Elena Ferrante", que ninguém sabe quem seja - tornou-se-me, com o tempo, uma questão irrelevante. Mas a discussão sobre se poderia até ser um homem, faz-me aclarar a resposta a um velho problema meu: sim, existe uma maneira de escrever feminina, identificável em si mesma, isto é, independentemente de quaisquer informações sobre o autor; sim, só uma mulher poderia escrever assim acerca das mulheres, mesmo quando as põe agressivamente em causa, numa espécie de pacto com a autenticidade das emoções, dos sentimentos, das ambições. E sim, esta forma não pode ser imitada nem copiada unicamente a partir do exterior. Donde a conclusão: "Elena Ferrante" é um pseudónimo que esconde, e descobre, uma mulher.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

COLIN WILSON: THE OUTSIDER



Meu primo é, uma vez mais, quem me impele a uma leitura: a deste intrigante livro. Falava-me já há muito sobre o interesse que seu pai [e meu tio] manifestava pela obra, de que relia um exemplar sublinhadíssimo, com as margens pesadas de referências e notas, a lápis, na sua letra saudosa.

Não sei de nenhuma tradução para português do precioso livro: a imagem que encontrei e aqui publico mostra que há, pelo menos, uma, porventura do Brasil; encomendei a edição inglesa, recebi-a com o insuperável ritual de sopesar o pacote, abri-lo, retirar o livro, folheá-lo, cheirá-lo, adiá-lo.

Colin Wilson era um jovem de 23 ou 24 anos quando o escreveu; vivia então como uma espécie de sem-abrigo, de quarto em quarto, frequentando sempre que possível a Sala de Leitura do Britsh Museum. No dia de um Natal frio e cinzento (1954) - conta ele em um prefácio acrescentado 20 anos após a 1ª edição -, sentado na cama de um quarto precário, longe de casa e da família, tomou subitamente consciência da parecença do seu estado de alma com o de personagens que o fascinavam: o Raskolnikov de Dostoievski, o jovem escritor que é o centro do romance Fome, de Hamsun, o Roquentin de Sartre ou o Meursault de Camus; em todos os casos estamos perante o sujeito que é incapaz de se integrar no mundo e na vida burgueses, não apenas por razões psicológicas ou psiquiátricas (embora a sua "desintegração" seja passível de uma análise psicológica ou psiquiátrica), não apenas por razões religiosas (embora o misticismo possa ser uma via), mas sempre também metafísicas. O Outsider é o homem que detecta um indissolúvel nó de inautenticidade no real, no mundo, nas coisas, nas pessoas que se tornam também em coisas, imbuídos dos seus valores e das suas convicções, as suas metas e os seus dogmas, a sua ordem, certos de si, do seu papel, da sua necessidade.


O primeiro capítulo torna-se-me particularmente interessante: procurando apreender e compreender o Outsider como personagem literária, Wilson inicia uma deambulação em que aporta em obras clássicas, já bem minhas conhecidas, como as mencionadas, mas também em outras que desconhecia de todo [e não repousarei sem que as ache e leia: L'Enfer ou Le Feu, de Barbusse, entre mais], e outras ainda de que tinha notícia, mas nunca me haviam suficientemente importado: Herman Hesse, por exemplo, de que Siddartha fora suficiente, oh inominável pecado!, para me afastar - é um autor que redescubro inteiramente, pela mão de Wilson, como aquele que em O Lobo da Estepe ou em O Jogo das Contas de Vidro  (ou mesmo em Narciso e Goldmundo) expõe com profundidade o sentimento de homens que se sentem diferentes do humano, permanentemente à margem da tranquilidade, desassossegados com a existência, como sendo os únicos que não podem fugir à consciência do problema e da angústia contidos no existir.

Em momentos precisos, os argumentos e as conclusões de Wilson parecem claudicar. O saco em que colecciona casos de ousiders amplia-se desmesuradamente, de forma a que aí caibam estes e os seus contrários: T.E. Lawrence, Van Gogh ou Nijinski são realmente exemplos do mesmo estado, do mesmo sentimento em relação à vida e aos outros homens? Duvido: a comparação das ideias, dos projectos ou dos falhanços que criaram, ou que sofreram, distingue-os na essência. Em outros momentos, a tese de Colin Wilson soa-nos a filosoficamente irrelevante e conceptualmente pobre. Porém, as perspectivas que reabre em cada novo capítulo, ou os autores e as obras que revela e comenta, aguçando-nos a fome e as expectativas relativamente a eles, proporcionam um prazer e uma euforia que me andavam há muito arredadas.      

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

BILL BRYSON: BREVE COMENTÁRIO A (QUASE) TODA A SUA OBRA



Dedico este comentário a meu primo: sei que, das longínquas paragens onde me segue, atento, não deixará de perceber a alegria com que destaco o autor em causa e sua obra, como um caso do tipo de objecto que nos moverá (espero que em breve) a uma discussão entusiástica, entre copos de vinho tinto, sem consenso à vista, mas com mútuo enriquecimento pelo caminho.

Neste momento tornei-me cativo de Bill Bryson; principiei por ler-lhe Breve História de (Quase) Tudo, livro de divulgação científica em que mapeia e historia as descobertas teóricas e práticas através das quais o ser humano tem interpretado e transformado a realidade. De um modo simples, mas (como se costuma acrescentar a propósito desta categoria de livros) sem sacrificar o "rigor" das informações e das explicações, Bryson cruza áreas, conta episódios trágicos e cómicos das vidas dos cientistas ou dos combates para impor as mais rocambolescas hipóteses, desce ao fundo da terra e do mar, projecta-se para o infinitamente distante, observa o macroscópico e diminui até poder entrar no subatómico, sempre num tom de convívio que o torna o parceiro de uma conversa impagável.

O entusiasmo levou-me a descobrir um segundo livro do autor: Shakespeare dos 8 aos 80. Havia um atractivo particular: que seria capaz de me revelar um escritor norte-americano sagaz, culto e espirituoso, acerca da vida de um homem de quem tão pouco se sabe, e de quem quase tudo se pode inventar e tem inventado? Não me senti defraudado: à míngua de pormenores biográficos inquestionáveis, torna-se sempre possível reconstituir a Inglaterra da época, os estratos sociais, as lutas religiosas, os costumes, as ambiências, as novidades e, por fim, pode sempre apresentar-se e discutir-se as mais variadas hipóteses que foram sendo criadas nos últimos séculos, numa feliz biografia das biografias sobre Shakespeare.

Houve mais dois livros, seus, que acabei por ler, apesar dos títulos suspeitos. Por Aqui e por Ali é a vivíssima descrição da longa e aventurosa caminhada em que Bryson, e Katz, seu amigo, ousaram percorrer, ao longo de meses, o sinistro Trilho dos Apalaches. É bem divertido. Mas o meu predilecto, Nem Aqui nem Ali, A Europa de Estocolmo a Istambul, é o relato de uma viagem que Bryson fez pela Europa. E neste ponto, meu primo [um "estrangeirado" que, apesar do seu matrimónio feliz com uma norte-americana, estabelece fronteiras rígidas ao que aceita que alguém do Novo Mundo se atreva a dizer acerca do Velho Mundo] começaria logo a divergir de mim. Porque Bryson tem um olhar extremamente crítico - hilariante, de resto  - sobre as imperfeições dos belgas, dos ingleses, dos franceses, dos italianos. E, claro, põe-nos sistematicamente perante generalizações que podem ferir os mais susceptíveis: mas estas, no seu discurso fulgurante, são relâmpagos de ironia e espírito de observação que deveriam fazer o leitor europeu rir com gosto de si próprio. Onde meu querido primo veria, com crescente irritação, um americano cheio de si e arrogante, perorando sobre a antipatia dos parisienses ou a total incivilidade dos romanos ao volante - eu vejo antes um turista apaixonado pela ideia da Europa, rendido às referências histórico-culturais e aos artistas europeus, com os quais, aliás, mostra grande familiaridade, um pouco intrigado por observar que a Europa concreta não corresponde muitas vezes ao ideal romântico que possamos ter cultivado.

Seja como for, não darão por perdido o tempo que dediquem à descoberta de um escritor com tamanho "wit"; meu primo não deve perdê-lo: aguardam-nos algumas discussões interessantes sobre as viagens de Bryson.      

sábado, 29 de agosto de 2015

VALTER HUGO MÃE: O FILHO DE MIL HOMENS


Por variadas razões, a minha relação com a obra de Mãe nunca foi pacífica.
A sua insistência numa prosa toda de letra minúscula, mais do que me parecer uma arrojada inovação estilística [que não era] arrepiava-me pelo vazio de objectivos ou razão. Li a máquina de fazer espanhóis, que apesar disso - e de um tom deprimente, com o qual nem sempre me foi simples lidar - considerei um romance notável. Mas a verdade é que, sob uma tal neblina de preconceitos e ideias feitas, a minha ocupação da obra do autor foi sempre incompleta. Desisti de muitos romances seus pelo caminho.

As minhas amigas São e Maria falaram-me agora, com um inesperado encantamento, de O Filho de Mil Homens. Elogiavam-lhe a beleza da prosa poética e, sobretudo, a "perfeição" da história. A São catalogou-o, sem medo, como o melhor que a literatura portuguesa lhe ofereceu nos últimos anos. Tive de o ler.

O que aqui impressiona é uma compreensão do humano, de tudo quanto é humano, muito para além dos códigos e das fronteiras. Ao seu olhar, comportamentos que uma cultura «normal» (segundo uma norma, afinal) repudiaria, ou que uma certa sofisticação renegaria, revelam-se-nos comoventes, transparentes na sua naturalidade simples. Não provêm do mal, mas das debilidades. Não que as pessoas se não julguem. Julgam os outros e julgam-se a si mesmas; têm-se por imperfeitas: a filha que se esquece da mãe, ou a abandona por umas horas - ou chega a pensar em sufocá-la suavemente - sente-se uma má filha, horrorizada com os seus pensamentos; a mãe que não sabe amar o seu filho "maricas", amando-o porém nos mesmos gestos canhestros em que quer e não consegue renegá-lo, ou o renega incompletamente, culpa-se e martiriza-se: porventura por amá-lo tanto...

Não há personagens absolutamente virtuosas, mas uma selva onde se reinventa, nas suas relações, sem qualquer bússola, gente imperfeita, magoada, ferida pela vida ou pela comunidade, em busca de uma felicidade, que - este é o segredo de VHM - nunca se realizará de acordo com as convenções, nem com as expectativas normais, mas em equilíbrios frágeis de sentido: "frágeis" precisamente porque inesperados,
porque adversos à norma, instituindo-se como uma nova norma.  

A beleza, a poesia deste romance, encontra-se nesta visão quase franciscana - o termo é, a esse propósito, de Alberto Manguel, num prefácio ao livro - sobre um mundo de marginais, uma anã, um órfão, um "maricas", uma mulher desonrada..., como um circo de aberrações que [Manguel novamente certeiro] no encontro com o outro, transformam a «angústia» em «regozijo» e «a solidão em afecto.»  

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

JOSÉ CARDOSO PIRES: ALEXANDRA ALPHA



Como já me sucedeu a propósito de outras obras, li, quando jovem, Alexandra Alpha e guardei dele, por muito tempo, a memória de um romance pesado e desinteressante. Agora que sofro de uma febre de re-leituras de J.C.P., extasiado com o autor de quem afinal passara ao lado, mantinha como última resistência este Alexandra Alpha. E lembro-me bem de, há uns meses, concordar com o meu amigo Marrão neste diagnóstico: «O Cardoso Pires é um autor soberbo. O pior dele é "Alexandra Alpha".»

Que engano! Que precipitação e que falta de perspicácia. Alexandra Alpha revelou-me um inesperado Cardoso Pires, armado de uma impiedosa e corrosiva ironia em relação a um universo intelectual, académico. Mas é impressionante o seu conhecimento das referências de que troça: os universitários imbuídos de cultura francesa (anos 60/70), que citam os estruturalismos na filosofia, na literatura, no cinema, nos programas culturais-chic da televisão [seria certamente o canal 2 de então], as palestras, os seminários, a linguística de Kristeva, a psicanálise lacanaiana, de uma ou de outra forma todos estes itens são coleccionados com um prazer e uma perícia de frequentador do meio. Como num roman à clef, todos aqueles personagens, debates, formulações, teorias, remetem para rostos concretos com os quais não suspeitaríamos que José Cardoso Pires, o contador tradicional de histórias - a que chama "fábulas" - convivesse com tamanho à-vontade.


É neste universo cifrado que cresce o menino órfão, adoptado por Alexandra, entre as amigas desta, os companheiros de debate, num mundo em transição, em que floresce uma Lisboa secreta, paradoxal, vetusta mas carregando no ventre insuspeitados gases [a metáfora grosseira é deliberada] de revolta e mudança.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

BRUNO SCHULZ: AS LOJAS DE CANELA


É com certa euforia que descubro [não seria adequada a expressão: «acabo de descobrir», uma vez que me sinto muito longe de haver acabado este processo] As Lojas de Canela, de Bruno Schulz.
Proporcionou-me o encontro David Grossman, autor de Ver: Amor, um romance que talvez não perca tempo a comentar, mas, no que me diz respeito, é resgatado pelo seu amor à obra de Schulz.

A linguagem dos contos, chamemos-lhe as «breves peças» de que se compõe As Lojas de Canela, é de uma riqueza proustiana: a magia, escreve Grossman, «reside na sua fertilidade, uma abundância quase em putrefacção de tantos sucos verbais.» Acrescenta: «Bruno, que sabe dizer tudo de dez formas diferentes, cada uma delas tão exacta como a agulha de uma bússola»; o uso do termo putrefacção pode chocar, mas não é inteiramente absurdo: a verdade é que um primeiro contacto me foi penoso, porque uma tal superabundância principia, porventura, por nos encandear e ferir os olhos. É preciso, pois, que o leitor esteja advertido. Mas também advertido da vantagem de insistir. Se não renunciar, se for aprendendo a nadar no interior daquela poliédrica linguagem, cedo tomará consciência de que se iniciou numa elevadíssima e compensadora experiência da leitura. Dois ou três exemplos, apenas, da extrema felicidade dos recursos de Bruno Schulz:

«Depois de arrumar a casa, Adélia puxava os estores de linho e mergulhava tudo na penumbra. Nessa altura as cores baixavam uma oitava, os quartos enchiam-se de escuro como se fossem mergulhados de repente numa luz de profundidades marinhas que se reflectia nos espelhos verdes da água [...]»

«O cãozinho era de veludo e morno, todo ele vibrante com as pulsações do seu pequeno e apressado coração. Em vez de orelhas tinha duas pétalas, tinha olhos azulados e turvos, uma boca cor-de-rosa onde podíamos, sem perigo, enfiar um dedo, delicadas e inocentes patas com uma almofada por baixo que era rosada e nos enternecia.»

«A casa abandonada não o reconhecia como dono, os móveis e as paredes espreitavam-no com uma desaprovação emudecida. [...] E depois de andar de um armário para outro, quando acabava por encontrar toda a roupa necessária e se vestia entre móveis que o suportavam em silêncio e com ar ausente, ao ficar finalmente pronto e em condições de sair, com o chapéu na mão, sentia-se no derradeiro instante incomodado por não encontrar a palavra capaz de quebrar aquele mutismo hostil [...]»

Preferi chamar às suas miniaturas «peças» em vez de «contos», porque a lógica do conto é, em geral, outra: a da narrativa curta, que se desenha em direcção a um fim que a complete como um sentido coerente e surpreendente: nestes fragmentos, diferentemente, há a descrição de pessoas, lugares, um momento ou uma situação. Como pinturas. [Schulz era também pintor.] As personagens principais, que
 vão passando de «peça» para «peça», ou de um conto para outro, como se mudassem de aposento, possibilitam-nos captar uma época, uma cidade e seus habitantes, a família do narrador. São figuras maiores, na sua autenticidade como nas suas idiossincrasias, que Schulz revela sempre sob um halo encantador, por insuportáveis que pudessem ter sido. [Imaginem o que seria viver com aquele pai, em acelerada decomposição mental, mas vista benevolamente pelo narrador, sobretudo na sua dimensão criativa e exótica; ou com o tio Carlos, a sós na casa de que não cuida e o repudia.]

Nunca a tal ponto me lembro de assistir à (re)criação de um mundo a partir de peças desiguais e aparentemente desconexas, num fino limiar entre a realidade e o delírio: mas é o que Bruno Schulz faz. "As Baratas" e principalmente "A Borrasca" são maravilhas de inversão mágica - veja-se como, neste último, uma sublime tempestade se abate sobre a cidade, a partir da desarrumação da casa, loiça suja, móveis desarrumados, que parecem acordar todas as noites, explodindo pelos ares e convocando os ventos! O que nos expõe é uma realidade tão intensa e tão completa, que nos custa crer que, dali a pouco, a guerra irromperia, os pilares em que esse mundo assentava desabariam, e o próprio Schulz, cidadão polaco de origem judaica, seria infamemente assassinado por um oficial nazi.  

segunda-feira, 20 de julho de 2015

JOSÉ CARDOSO PIRES: O ANJO ANCORADO



Relendo, muitos anos volvidos, O Anjo Ancorado, de Cardoso Pires, sinto-me hoje muito mais impressionado do que da primeira vez.
Sondando os que sobre ele escreveram, de um citadíssimo Pinheiro Torres, a Tabucchi ou, agora, a Mário de Carvalho, torno a ficar impressionado, mas aqui pela negativa. Este léxico de lugares-comuns acerca
 de Cardoso Pires, que se foi apurando ao longo dos anos, e insiste em falar na sua linguagem «despojada» (à imagem, diz-se muito também, dos norte-americanos) deixa-me de cabeça perdida. Ou esta ideia de uma falsa limpidez, uma metódica e clara construção narrativa que oculta os seus segredos técnicos, os seus andaimes, o seu aparato.
Primo: não há qualquer secura. Se há prosa luxuriante é a de José Cardoso Pires: tudo é a perfeição das mais refinadas figuras de estilo; pedidos de empréstimo à linguagem popular; achados que ficam a reverberar no espírito do leitor. Se querem dizer que não há "excesso", digam-no; que se evita a pirotecnia fácil, de acordo. Agora não falem de "despojamento" a propósito de um texto onda não existe praticamente um período que não seja de uma notável e complexa originalidade, e que apela constantemente para uma releitura da beleza que nos marcou.
Secundo: não é uma escrita que esconde todas as artimanhas, como um mágico bem-sucedido, como a tranquila superfície onde nenhuma técnica se dá a ver. Tem, pelo contrário, uma série de erros de construção, aliás tão bonitos que pareceriam deliberados - mas tem, e dou um exemplo óbvio: remissões forçadas,
para, quando por exemplo se fala de João, se completar a imagem da personagem.

Posto isto, a novela, a que Cardoso Pires chama "romance", é magnífica. A história é de uma cativante simplicidade. As conversas entre intelectuais (o casal, os grupos) servem para  reconstituir uma época e a sua atmosfera específica. Mas entre essas reflexões que se estendem por diálogos (e não há quem não sublinhe a vivacidade e a autenticidade desses diálogos, uma vez mais: tipicamente norte-americana) desliza uma trama tão linear, no melhor dos sentidos, tão encantadora, tão clara, que fechamos a última página num silêncio que preferíamos manter.

José Cardoso Pires fala, algures, de O Anjo Ancorado como uma fábula. É o mot juste. Dois mundos e, portanto, dois tipos sociais, o dos intelectuais burgueses [João ainda vagamente progressista, apesar do desencanto] confrontando-se com os diversos tipos de povo - «confrontando-se» apesar de, teoricamente, não estar contra «aquela gente», bem pelo contrário; povo sofredor mas astucioso: imaginemos, transposto para o mundo humano, uma ave colorida e rica, ou seja, uma ave burguesa, e uma pobre e velha raposa.

A caracterização é de uma acutilância exímia. O que parece um traço rápido, de sketch, apenas dois ou três pormenores, revela-se na verdade de um enorme poder de evocação físico, psicológico e social. O garoto com o casaco de adulto, que lhe dá pelos joelhos, é um exemplo de como um detalhe essencial mostra mais do que um tratado. E ninguém como Cardoso Pires para percebermos que, muitas vezes, é no subtil pormenor que se distingue, da outra, a literatura maior.

           

sexta-feira, 8 de maio de 2015

EDITORA UTOPIA


Não tenho dúvidas de que um editor que tenha, na sua alma, a vocação de oferecer ao mundo aquilo que vale a pena ser lido, deve começar por ter criado uma exigente pureza da sua consciência leitora. Há-de manter incólume uma capacidade para descobrir segredos e raridades, mesmo depois de já ter lido muita coisa, muita coisa, muita coisa. [Porque se termos lido bastante nos refina o talento para descobrir o que é bom, lermos em modo de trabalho, de enfiada, já cansados e com a ansiedade do que nos falta ainda ler, confunde critérios e embota a perspicácia]. Sobretudo, um editor fervoroso não pode ceder ao preconceito. Não pode ler mais ligeira ou menos respeitosamente o jovem estreante, desconhecido, sem créditos. A isso me refiro quando lhe peço que mantenha a pureza do olhar, o gosto pela descoberta, a sensibilidade para a surpresa. O mais difícil será não ceder às expectativas do mercado. Ler sem pensar «Terá saída? Venderá bem? Haverá público para isto?» [Porque a pergunta certa parece-me outra: «Isto é mesmo bom? É excelente? Merece?»]
Arriscar contra a generalidade e contra quem manda. Esta seria a minha carta de princípios como editor.  

sábado, 11 de abril de 2015

LEOPOLDO ALAS: A CORREGEDORA


     Eis um livro sobre o qual, a vários títulos, faz muito sentido escrever um comentário em Profissão: Leitor. Leopoldo Alas não é um autor conhecido do vulgo e em La Regenta deparamos com uma imensa obra do século XIX, mencionada por Mario Vargas Llosa como «o melhor romance espanhol [desse século]»; "imensa" tanto pela qualidade como pela extensão: seiscentas e tal páginas repartidas por dois tomos tornam-na um daqueles romances demorados, desusadamente demorados, em que se nos pede que adiemos o virar da folha, porque tudo exige o deleite segundo um tempo e um ritmo próprios. Dou o exemplo de uma passagem que sublinhei - não adianta nem atrasa rigorosamente um passo no desenvolvimento da trama, seria perfeitamente dispensável no desenho do esqueleto da história, e no entanto é fundamental para nos conduzir à penetração num certo estado romântico de beatitude e alegria da protagonista:
    
     «De ramo para ramo saltavam pardais e tentilhões, sempre de bico aberto, mas nunca chegando a cantar decentemente, distraídos com qualquer coisa, travessos, a chilrear em vão.» [Não é delicioso?] «De vez em quando, caíam folhas secas dos ramos para a fonte; flutuavam às voltas, numa lenta marcha e, aproximando-se da estreita abertura por onde a água saía, começavam a deslizar rapidamente em linha recta e precipitavam-se na corrente, onde a superfície lisa se convertia em ondulada prata. Uma alvéola debicava no chão e debicava aos pés de Ana, sem medo nenhum, fiada na agilidade das asas; dava voltas e voltas, varria o pó com a cauda, aproximava-se da água, bebia, chegava de um salto à sebe, escondia-se por um momento entre os ramos mais baixos da amoreira, e, por pura curiosidade, voltava a aparecer, sempre alegre, sempre pespineta; quedou-se imóvel por um momento, como que a decidir-se; de repente, assustada, só por medo, sem o menor motivo, foi-se embora, com um voo rápido e direito ao princípio, ondulante e pausado depois, perdendo-se na atmosfera que o sol oblíquo tingia de púrpura.»

     Quem me deu a conhecer o autor e, ainda não contente, me emprestou o livro, uma tradução perfeita, de Joana Morais Varela, que a Contexto publicou em 1988, chamava-me a atenção para a semelhança entre esta escrita e a de Eça de Queirós. Sem dúvida. Para além da época e de um certo carácter ibérico que os une numa eleição de temas e formas, aproxima-os a qualidade da obra. Não me atreveria a sugerir que Leopoldo Alas é até superior a Eça de Queirós, porque ele há coisas que nem a mim próprio ouso murmurar. Mas assemelha-os a ironia, em Alas porventura mais leve e mais subtil, um fôlego espantoso e paciente para o entretecer de linhas diversas e dissemelhantes numa unidade firme, e um génio da escrita que os faz reinventar as figuras de estilo inesperadas e criar a frase expressivamente dramática ou cómica.

     Trata-se, como em O Primo Basílio, do estudo da tentação no seio da alma feminina virtuosa. É certo que visão é projectada pelo olhar de um homem: mas em Alas a visão em causa é uma visão carregada de seriedade e compreensão, um pouco estupefacta, talvez, mas sempre consciente de que o que se espera não é que se arvore em juiz. E, portanto, é sob o pano de fundo da mediocridade da cidade de Vetusta que se digladiam aspirações e inclinações no interior de almas nobres. A mediocridade de Vetusta, escrevi: a esse propósito, aquilatem a finura da ironia na forma como Vetusta nos é apresentada, na frase com que o romance inicia: «A heróica cidade dormia a sesta.»

     Ana, a corregedora, é uma personagem feminina digna de um panteão onde não repousam [apenas no sentido em que o seu estado natural não é o repouso] aquelas que mais revisitamos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

ROBERT M. PIRSIG: ZEN E A ARTE DE MANUTENÇÃO DE MOTOCICLETAS


     Um amigo meu com interesse e sentido de humor, biólogo que não desdenha visitas amorosas à filosofia, andava lendo, há algum tempo - na língua original - Zen and the Art of Mortorcycle Maintenance. Percebi o seu entusiasmo. Prometeu que mo emprestaria assim que o acabasse. Fê-lo.

Há uma antiga tradução para português, na Presença. Mas mesmo essa não é facilmente encontrável, a não ser em alguma biblioteca ou encomendando-a. Inicio a leitura e compreendo a euforia do meu amigo, ainda que não seja um livro feito para ele. Não o digo com arrogância. Não é provavelmente um livro feito senão para uma pessoa, e essa pessoa sou eu.

Cada leitor terá a sua própria experiência, até certo ponto intransmissível. Mas Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas baralha o maço das questões que mais importância têm ganhado para mim na complexa fase da vida por que passo; por um lado porque me identifica - e com que pormenor: sou mesmo eu! - como uma personagem: alguém que se distancia criticamente da tecnologia, infeliz sempre que tem de lidar com ela, evitando quaisquer novidades, resistindo aos progressos que melhorariam significativamente a comodidade do seu quotidiano; pessoalmente, preferi sempre que houvesse um mecânico, um técnico, um especialista ou uma amiga devotada para consertar as avarias e repor nos carris [frequentemente através de operações muito simples] o que, nas minhas patas, tende a descarrilar. Por outro lado, o autor que me interpela e interroga sobre a inépcia que a cada passo revelo, fá-lo a partir do meu território. O que é perturbador. Ou seja: a sua reflexão constitui-se na familiaridade com os filósofos, os antigos ou os modernos, Platão, Descartes, David Hume ou Kant [e devo dizer que, acerca dos Antigos, reformula em termos extraordinariamente inovadores e interessantes o derradeiro sentido da luta entre Sócrates - o mesmo seria dizer: Platão - e os sofistas, com o desenho final de Aristóteles, responsável pela nossa compreensão, porventura errada, dessa luta, e suas consequências para a História da filosofia.] : é à luz das ideias dos filósofos, que se analisa a inabilidade, para a tecnologia, de certos artistas e de certos intelectuais, mostrando que se trata de um divórcio imbecil, inútil, equívoco e empobrecedor.

Robert Pirsig foi um destrambelhado. Num certo ponto do seu passado, o professor de retórica seguiu tão radicalmente as próprias questões, que se afastou do mundo entendido como denominador comum, aquele em que nos encontramos e comunicamos uns com os outros, ou seja: «enlouqueceu». Chegou a ser internado. Entretanto, anos volvidos sobre essa crise, mudou: tornou-se um burguês envelhecido e mais gordo, que se desfez de quem já foi, e do que então pensou e criou. No ponto em que a narrativa tem o seu início, Pirsig (mais o seu filho e um casal de amigos) reconstitui o percurso do seu outro eu, como se perseguisse um fantasma, a que chama Fedro: o professor que se passeava pelas margens da loucura [até que enlouqueceu mesmo]; o homem que se não instalava na vida e não temia a incompreensão nem o opróbrio; o que procurava o sentido de tudo com a seriedade que só entrevemos em crianças que brincam. Chris, seu filho, e os Sutherland, que o acompanham em moto, não compreendem este refazer de um caminho por poisos que já visitou. O próprio Pirsig não se lembra bem: às vezes tudo o que lhe sobra são vislumbres, fragmentos de imagens da mente de alguém que já não é ele, memórias em que não habita confortavelmente, ou que o não habitam, como se lhe proviessem de um longínquo outrem.

Não há romance: trata-se de uma narração verídica; em vez de trama, um problematizar contínuo, em ensinamentos que aqueles que o circundam não entendem, e com os quais o leitor se sente muitas vezes incomodado. Atrever-me-ia a escrever "mudado", se não soasse tão hiperbólico; mas aí está: é na medida dessa mudança, minha, que me parece estar a falar de um livro que teve um impacto específico sobre mim, como se me visasse unicamente a mim mesmo.      

Antes de se ter tornado o "romance filosófico" mais lido e comentado de sempre, Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas foi rejeitado por cento e tal editoras. É um facto! Não sei se realmente me anteviu como futuro leitor - sei que certamente não encontrou, em nenhum de cento e tal senhores editores, o leitor que o merecia.

domingo, 8 de março de 2015

AFONSO REIS CABRAL: O MEU IRMÃO



     Tendemos a desconfiar do Prémio Leya. Mas deixem recordar que, nos últimos anos, o dito cujo revelou escritores como João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro ou Afonso Reis Cabral. Poderíamos interrogar-nos, portanto, sobre este primeiro preconceito.

     Suspeitamos de Afonso Reis Cabral. Que é demasiado jovem e que o primeiro romance de um garoto há-de ter falhas; que se a crítica o tem ultimamente elogiado é por complacência, ou por ser um descendente de Eça de Queirós. São um segundo e um terceiro preconceitos.

     O romance é, objectivamente, uma estreia, mas poderia não sê-lo, de tal forma nos espanta pela originalidade, está bem escrito, a história magistralmente concebida no seu todo e no desenvolvimento, testemunhando uma profundidade emocional incomum aos vinte e poucos anos. Ou incomum, ponto.

     Quando digo que está bem escrito, ao que me refiro é a uma linguagem muito bela e muito clara simultaneamente: aquilo que outros autores, nomeadamente eu próprio, nem sempre conseguem porque o excesso de preocupação estilística pode prejudicar a legibilidade: cria uma neblina artificial, que obriga a mais do que uma leitura e afugenta o leitor. É preciso ter-se realmente um grande nível como escritor para, sem abdicar do estilo, fazer com que este se não imponha e não ofusque, não seja um ademane ou um meio de amplificação, mas apenas o modo justo de exprimir, simples (mas enganadoramente simples, porventura), distinto, evidente: é de uma limpidez que eu invejo.

     A originalidade radica logo no tema. Esta estória sobre uma paixão trágica entre dois deficientes, que nunca resvala, nem por um instante, para a pieguice ou para o moralismo, nem se deixa confundir com uma tentativa [que seria também legítima] de compreeder a condição dos "portadores de deficiência", é assombrosa na sua intensidade e na sua crueza.

O narrador tem qualquer coisa de Humbert Humbert [o de Lolita]: distanciamo-nos do seu egoísmo, criticamos a sua perversão ética e psicológica, reprovamo-lo com todo o nosso ser, mas não vemos nele o vilão, o irredimível mau; só consigo apreender-lhe o amor pelo irmão - eu sei, um amor imperdoável na sua forma e nos seus motivos, desequilibrado, egoísta, perigoso, mas triste e desesperado; talvez por se tratar do narrador, em cuja mente entramos, cujo sofrimento conhecemos por dentro.

No seu desarmante despretensiosimo, Afonso Reis Cabral, em conversa [para espanto e quase indignação dos intelectuais que o entrevistavam] dizia que «foi escrevendo», «não tinha um esquema» ou um «plano prévio» do romance: bem, seja ou não sincero, o resultado é uma obra exigentemente organizada para um fim absolutamente inesperado - e olhai lá, que aqui fala o leitor treinado de policiais: um final cru, violento, tremendo, chocante, sublime.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

JEAN-MICHEL BARRAULT: O PERCURSO DO PRIMEIRO ROMANCE



  O Percurso do Primeiro Romance é, ele próprio, um romance - pouco extenso, dos que se lêem numa noite. Segui-o como se tivesse penetrado em um universo literário muito característico e familiar, de que fazem parte algumas referências, sobretudo francesas, cuja proximidade explicarei com o maior dos gostos e simplicidades: Candide, de Voltaire [porque se cultiva em ambos um mesmo tom de sátira, que é a ilustração de uma tese venenosa]; Como Falar dos Livros que não Lemos, de Bayard, uma vez que se trata de uma desmistificação desassossegadora da experiência literária, num caso a propósito do acto de ler, noutro caso a propósito do acto de escrever [e respectiva publicação]: os dois casos sujeitos aos seus ditames, ditadores e às suas regras, em mundos codificados, com rituais e rivalidades próprios, onde o que parece raramente coincide com o que é. Finalmente, e por razões muito evidentes, Ilusões Perdidas, de Balzac, em que se narra o fracasso de Lucien Rubempré, um jovem ansioso por se tornar conhecido como poeta. Gosto muito de fazer estas associações, peço desculpa. Não as interpretem como um exercício de exibição, mas uma tentativa de situar a obra numa determinada esfera.

 Caradet é o Rubempré deste percurso. E, para quem quer que se tenha já iniciado na experiência da publicação de um primeiro romance, a sua odisseia acende todas as luzes da memória. Passa-se em França, mas o cenário poderia bem ser Espanha, os Estados Unidos - ou, claro, Portugal, mas aí presumo que em pior.

 Barrault encena as frustrações do jovem aspirante a escritor como um jogo. Literalmente. O livro contém, aliás, um tabuleiro sobre o qual podemos simular um percurso, sob o acaso de lances de dados: as estações desta peregrinação, as casas a que se chega, ou aquelas a que se julgou chegar, os tempos e as situações típicos, os avanços e os recuos que proporcionam. O romance, portanto, é linear - mas não deixa de ser refrescantemente penetrante no modo como descreve as emoções do protagonista. Leiam-se as bruscas transições nos juízos de valor que Caradet vai formulando acerca da própria obra, que tanto lhe parece de uma originalidade superior como de uma aterradora mediocridade; e não se passe ao lado de uma narração quase sádica dos momentos do ridículo: quando oferecem a Caradet oportunidades que se lhe esvaem risivelmente (a televisão, a feira do livro, os públicos).

  Miguel Real, que me falou desta obra impagável, cometeu a inconfidência de me expor o fim. Não o farei, mas Real tem toda a razão: é nesse extraordinário fim que percebemos como, em função do que move o escritor, todas as contrariedades são irrelevantes. Um fim sem grandiloquência, mas certeiro.


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

PAULO VARELA GOMES: HOTEL



         Lembro-me de Paulo Varela Gomes numa época em que este era uma estrela em ascensão, jovem, culturalmente polivalente, de conversa apetecível, marcada por achados de espírito incandescentes como chamas de um cigarro chupado com vivacidade. Depois, desapareceu. Publicou, recentemente, dois romances.

     À biblioteca de que sou frequentador solicitei que adquirissem um deles: Hotel. Como a biblioteca demorou séculos a consumar a referida aquisição, posso dar-me agora ao luxo de escrever sobre Hotel sem quebrar o compromisso tácito de não comentar, neste blogue, livros da moda. Ora este está já longe de o ser.

     Tal como em Cidades Invisíveis [mas no que vou dizer se esgota a analogia entre as duas obras], também Hotel é um romance acerca da construção humana como forma de dominar o espaço; e de como essa "construção" tende a revelar, em cada passo, a surpreendente ambiguidade entre a utilidade e a fantasia. As cidades desconhecidas, submersas, ocultas sob o que principiamos por ver, ou o que nas cidades é a face invisível do que nos aparece, contém sempre, em si, uma dimensão irredutível ao que seria óbvio, e prático, e porventura mais conveniente para os seus habitantes. Também o hotel de Joaquim Heliodoro nos vai sendo descrito ao longo das fases da reconstrução do que fora uma antiga moradia. O próprio arquitecto, que está ao serviço da concepção do proprietário, vai sofrendo dúvidas e receios: nem sempre compreende o sentido do plano de Heliodoro. Hesita. Discorda, até. Mas é evidente que, no fim, quando as obras no hotel [ou o hotel como obra] são concluídas, terá de se render ao dramatismo do monumento que foi recriado. Um edifício impregnado de sonho, cujos modelos são mitos e estórias, sob o contínuo halo do mistério e do romantismo.  


     Não há, durante vários capítulos - curtos, bem escritos - mais trama do que a que venho de expor. Mas a propósito das salas, ou de uma suite, ou de uma escada, o narrador faz deliciosas digressões acerca de episódios pitorescos sobre artistas, políticos ou escritores. Trabalha sobre possibilidades que o leitor - a não ser que domine exaustivamente a biografia de uma figura em causa - perguntará, porventura para sempre, se serão factuais ou ficcionais. Os textos de Baudelaire, por exemplo, que Heliodoro cita, contra a Bélgica e contra os belgas, foram mesmo escritos? Odiaria o poeta, a esse ponto, o povo que trata de cretino e muito feio?  
     É um romance particular, com interrupções, remissões e, sobretudo descrições que apuram a fantasia; é um romance de ligações a ligações - infinito, portanto, num certo sentido -, e que, por isso mesmo, me faz viajar no tempo ao reencontro do jovem Paulo Varela Gomes: na sua riqueza e dispersão de interesses, da arquitectura à arte, da história à poesia, já prenunciava este tipo de texto em que brilha o talento do caos e do desassossego.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

DESMOND MORRIS: O MACACO NU



     Lendo, displicentemente, um livro a que, entre mais dois ou três prémios, se atribuiu o Pulitzer [foi o Pulitzer, não foi?], cujo título é O Terceiro Chimpanzé, dou por mim quase a bocejar ante a sensação de déjà-lu. Não preciso muito tempo para situar a origem desta minha ausência de surpresa. Há muitos anos, era eu um adolescente curioso e complexado, descobrira e li, mas então sim, num vórtice de fascínio e espanto, o estimulante O Macaco Nu, de Desmond Morris.

     Impressiona como um livro dos anos setenta pode soar-nos ainda hoje tão revolucionário. Já o não encontramos em livrarias, e duvido que consigamos mandá-lo vir de quaisquer catacumbas. Por mim, tive sorte. Comprei recentemente um exemplar, não especialmente bem tratado, numa feira de quinquilharia, num jardim, ao preço da uva mijona. Reli-o com gosto. A tese é aquela que o autor de O Terceiro Chimpanzé se limita a retomar, aliás com menos brilho e ousadia. E com a qual continuo a provocar, todos os anos, os meus alunos do 10º: com mais ou menos gravata, mais ou menos brincos, conduzindo um automóvel ou uma moto, dançando o Tango, escutando Bach ou Mozart, ou mesmo sendo Bach, Mozart ou Paula Rego, o homem permanece, na sua natureza mais funda, o que sempre foi: uma de várias dezenas de espécies de símios. Um macaco que se  diferencia de outros não tanto pelos seus talentos culturais [posto que diversos símios mostram um assinalável desenvolvimento cultural, embora admitamos que o ser humano alcançou um outro patamar], mas, segundo Morris, pela sua intrigante nudez. Quer dizer: por ser o único a não possuir o corpo completamente revestido de pêlos. Excluindo Tony Ramos, suponho. Eis as primeiras palavras da introdução, que não esqueci:

     «Existem actualmente cento e noventa e três espécies  de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens.»

     A etologia, essa assustadora ciência que devolve o homem à natureza, num estudo comparado que detecta padrões comuns do comportamento humano, de gansos ou de ratos, foi para mim, à época, uma revelação de que nunca mais me consegui inteiramente lavar. Sobretudo no que respeita à sexualidade. Um dos capítulos de O Macaco Nu constitui uma fenomenologia minuciosa do acto sexual, que não deixa de fora a sedução, a aproximação, o envolvimento dos corpos,  descrevendo as alterações físicas, a mudança da respiração ou do batimento cardíaco, projectando para o puro delírio a minha mente então virgem. Mais poderosamente do que o faria uma revista pornográfica.

     Claro que, hoje, não tenho dúvidas de que uma redução, não é verdade?, reduz... O homem é mais do que um macaco. No mínimo, mais do que um macaco entre os demais: será necessariamente um macaco especial [e, para já, tão interessante como a sua particular quase ausência de pilosidade é, sem dúvida, o inacreditável facto de o falo humano ser o de maiores proporções entre todas as espécies de símios: maior do que o do gorila, quem diria?] É evidente que a redução do ser complexo, em que o homem se tornou, à sua mera animalidade, comporta perigos; se é uma útil machadada na arrogância antropocêntrica, não deixa de nos embaraçar com uma interrogação delicada entre mãos: a de saber se a moral, por exemplo [na medida em que contraria o instinto, e se propõe "elevar" a nossa acção] não se resumiria  então, ou a um constrangimento artificial, ou a uma mera superestrutura que mascara móbiles indispensáveis para a adaptação da espécie. Seja como for, e com as devidas precauções - que se aplicam, de resto, a todas as "reduções", da psicanálise ao marxismo, sem que por isso deixem de ser teorias riquíssimas e muito instrutivas - O Macaco Nu é uma obra aliciante. O seu carácter desmistificador é de uma lucidez arrepiante. E mantém-se saudavelmente irreverente.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

JORGE AMADO: TERESA BATISTA CANSADA DE GUERRA


Teresa Batista Cansada de Guerra é uma leitura da minha adolescência. Ou seja: algo como uma relação sexual prematura: não tinha idade para aquilo...
Há uns meses, outra Teresa, que nunca mais me veio aqui falar e de cujos comentários sinto saudades, a mesma que me apresentou vários autores - d'Ormesson bastaria - e me devolveu Brasillach, chamava precisamente a atenção para uma secreta afinidade entre passagens de dois escritores tão diversos, temporal e histórica, geográfica e culturalmente. Eu elogiava a beleza de 15 páginas que Brasillach demorava a narrar uma noite de amor, e a autora de A Gota de Ran Tan Plan recordou-se, a esse propósito, do encontro entre Teresa Batista e Daniel.

Há diferenças que não posso deixar de assinalar. Brasillach escolhe o pudor como estratégia narrativa e descritiva. Não quer contaminar o que deve conservar-se secreto. Amado envereda pela exposição, metafórica, é certo, mas uma exposição ainda assim: fala do pássaro de Daniel, que voa nas mãos de Teresa, e da espada daquele, ou da baínha e da flor desta; trata-se de encenar um espectáculo, e já não de nos conduzir, sob a chama de um fósforo, sem quebrar a essência da obscuridade. Nesta comparação - e o que digo liga-se a uma questão pessoal, de gosto - Jorge Amado está longe do poder de Brasillach, baseado inteiramente na sugestão.


Porque Jorge Amado é um dos pais de Mia Couto, e isso enerva-me um pouco: o escritor cuja linguagem funciona como uma etiqueta cultural, se não étnica: a brasilidade, como o outro reivindicará a moçambicanidade, ou seja o que for. Tem graça no momento antes de se esgotar numa fórmula. Torna-se imediatamente datado: relido, 30 anos mais tarde, é insuportável. Aqueles diálogos com o leitor, a quem vai tratando de «meu chapa», ou «irmãozinho», ou «amigo» [«o amigo é um fode-mansinho»], ajoujados de idiotismos, são pedaços de prosa cuja leitura devém penosa.

Arrumada esta falta de fé num certo vício estilístico do autor [que, aliás, como veremos adiante, não inquina completamente a sua escrita, capaz de alcançar elevados cumes] , assentemos no que realmente importa. Jorge Amado é magnificente na construção das estórias e na compreensão das personagens. A trama de qualquer um dos seus romances parte de uma ideia central, sumarenta, que se vai repartindo em diversos fios, sem se perder a visão de conjunto. Teresa Batista Cansada de Guerra vive de uma estrutura dinâmica, assumidamente folhetinesca, porque cada capítulo se detém numa certa fase da sua biografia, não necessariamente por ordem cronológica, mas cada um desses momentos é riquíssimo de acontecimentos e de figuras. Melhor do que esse aspecto, ou tão bom como ele, só a compreensão das suas personagens, o mecanismo de uma certa empatia, que tem muito que se lhe diga. Parágrafo.

Não se é neutro. Os coronéis, os capitães, muitos juízes ou polícias, são figuras abomináveis. Mas as prostitutas, por exemplo, são mulheres de uma insuspeitada sensibilidade, generosas e fortes. No episódio sobre a epidemia que grassa na povoação, quando o doutorzinho e a enfermeira-chefe se recusam a expor-se, e fogem, são as putas, lideradas por Teresa Batista, que partem a vacinar a população, sem o menor receio; e mesmo personagens infames, como a tia de Teresa, que a criou [e a vendeu, ainda menina, ao capitão Justiniano] e seu marido, não são simplesmente infames: são trágicas. Nem digo tragicómicas: são trágicas. Jorge Amado consegue infiltrar-se no interior da sua consciência, e nós compreendemos que a sua indignidade moral convive com duríssimas tristezas, frustrações e a mais pura infelicidade.

O trecho em que seguimos o pensamento de Rosaldo, tio de Teresa, bêbedo, preguiçoso e cobarde, é impressionante. É um momento de génio: o capitão Justiniano vem buscar a menina; a tia recolhe o maço de notas e um anel de pechisbeque. Rosaldo está sentado, incapaz de tomar uma atitude. Quem nos conta o que sucede é o narrador; mas, no seu discurso, intercalam-se as palavras pensadas pelo tio. E neste complexo, apercebemo-nos de diversos sentimentos, ao mesmo tempo: que Rosaldo esperava o momento certo para abusar da menina; que a via gulosamente crescer; que odeia o capitão; que o teme; mas, ainda, que uma vaga ressonância moral [hipócrita, é claro] o faz interpelar, na sua mente, a mulher: Como é que tu é capaz de vender a menina? a filha de tua própria irmã? Deus não vai te perdoar nunca. Mas todas estas dimensões interiores aliadas à sua impotência, ao seu pavor, que o colam ao sofá, sem um gesto. É um excerto assombroso, em termos de escrita. É o «outro lado», mais interessante na minha óptica, de Amado. Quando se despe de fórmulas. Quando não pactua com uma certa facilidade popular. Quando, meu chapa, encontra em si uma energia em que se cruzam a sabedoria da simplicidade e a autêntica originalidade.   

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

JOHN UPDIKE: CORRE COELHO




Falar deste romance de Updike é, antes de mais, uma oportunidade para trazer à baila dois livros de uma lista da qual, no início das férias, prometia tratar.
Um deles é O Homem que Gostava de Cães, do recém-descoberto Leonardo Padura.
A dada página, o narrador confessa:

«Eu, ao contrário da primeira vez, mantive-me sentado, com o romance que estava a ler nas mãos - tinha começado Corre, Coelho, aquele livro que Updike nunca superou.»

Parece promissor, apesar de John Updike não estar, aqui, em competição senão consigo próprio.

O outro seria A Herança Perdida, do estimulante James Wood, e aí escorrego em provocações tão maldosas como esta:


«John Updike é seguramente um dos menos trágicos dos grandes escritores, e o mais complacente de todos os escritores teológicos.»

Mal conseguira recomeçar a respirar e já, pouco adiante, embatia neste outro arrepiante comentário:

«No seu pior, a sua escrita é de um lirismo inofensivo e inchado, de uma liberalidade aristocrática, como se a linguagem fosse uma despesa sem importância para um homem muito rico e Updike acrescentasse a cada frase uma generosa gorjeta.»

Compreendo Wood. A sua sentença assassina, para além de muitíssimo bem achada, tem razão de ser. As descrições a que Updike nos sujeita estão sempre no limiar do rococó. A tradução que leio é de Fiama Hasse Pais Brandão, que consigo imaginar com sucessivos estremecimentos de volúpia perante períodos que me abstenho de transcrever.

Mas regressemos à acusação fatal: a ausência de tragicidade; sim. Posso compreender Wood. O problema da visão religiosa de Updike é a de que lhe falta o demónio. O inferno. Sigam este diálogo:

« "Ora digam lá, ele fê-los acreditar no inferno?" Harry ri. A imitação de Eccles é perfeita. [...]
«E fez? Você acredita?
«Fez, acho que sim. O inferno como Jesus o descreveu: afastamento de Deus.
«Bem, se é isso, pode-se dizer que estamos todos já mais ou menos no inferno.»

Teologicamente, esta perspectiva é moderna e interessante. Não me queixo: pessoalmente, o diabo não me faz a menor falta. A eterna ausência de Deus parece-me punição suficiente; mas Harry, o Coelho, é lúcido: sem inferno à maneira antiga, sem mal que não seja «psicanalisável» e «compreensível», não é possível esperar-se uma tragédia com alguma espessura.

A vida de Coelho está degradada. Olha em torno de si, e tudo são restos. Sem verdadeiramente traçar um plano ou decidir um rumo, principia a correr. [Metaforicamente: vai no seu carro; embora, mais tarde, assistamos a momentos de efectiva corrida a pé...] É de Deus que foge? Não creio - é mesmo de Janice, é mesmo do filho, por quem, no entanto, sente amor, de seus pais e de seus sogros, é do vazio que marca tudo o que vive e em que toca. Claro que a questão decisiva é a da incapacidade da escolha; e claro que há tragédia bastante no afogamento de uma criança recém-nascida. Ainda assim. Pergunto-me que há a acrescentar a este romance, que permitiu a Updike querer continuá-lo, numa extensa obra dedicada ao mesmo Coelho.

Uma coisa sabemos, a fazer fé em Padura: na sua corrida, Updike não conseguiu superar-se a si próprio.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

GRAHAM GREENE: OS COMEDIANTES



     Há que principiar pelo que me captou em primeiro lugar, e mais fortemente: a relação de Mr. Brown com uma mulher casada, a esposa de um embaixador sul-americano no Haiti; por experiência, própria ou imprópria [com o segundo termo da disjunção, pretendo simplesmente significar: experiência não pessoal, mas adquirida por interposta pessoa - e deixemos de parte os pormenores], concebo que a insegurança seja parte significativa de uma relação clandestina. Pormenores minúsculos ruminam obsessivamente no espírito de quem não está com a amante senão raramente, e em segredo.

     «- Como está o Luís?
     «- Na mesma - respondeu ela. - Sempre na mesma.
     «Contudo, eu pensava que ela já o amara. Este é um dos espinhos do amor ilícito: as mais voluptuosas provas de amor da nossa amante são o testemunho de que o amor não é durável.»

     É uma insegurança que raia a paranóia: se não é o "legítimo" esposo dela que provoca ciúmes, é - como neste romance - o seu filho, possessivo, mimado, controlador. De forma que se cria um quadro em que todas as palavras e todos os gestos de Martha parecem ter um sentido oculto, onde é sempre possível ler «já não gosto de ti» ou: «não o suficiente para correr riscos». Ou seja o que for. Nesta descrição, Greene revela-se de uma sensibilidade e de uma acutilância magistrais: reconheço aqueles diálogos, aquelas suspeitas, os medos, os amuos, os remorsos. Ouvi falar.

     "Os Comediantes" é um título irónico e, nessa medida, enganador. Poderia pensar-se que estamos em face de um grupo de "indiferentes" aos acontecimentos do Haiti de "Papa Doc" e seus Tonton Macoute. Não invento; leio na contracapa: «[Na acção] intervêm algumas personagens ambíguas que mais parecem, de facto, "comediantes", tão indiferentes se mostram à tragédia que os cerca». É falso: Mr. Brown, já mencionado, Mr. e Mrs. Smith, até mesmo o impagável Jones, que se auto-intitula Major Jones, um puríssimo Falstaff, personagens cujos caminhos convergem, casualmente, para o país de um tirano, estão muito longe da indiferença. São cómicos precisamente porque os seus comportamentos não se ajustam à realidade. São cómicos porque guiar-se por um ideal devém facilmente risível num mundo denso de realidade. A comédia não resulta frequentemente do desajustamento entre o princípio do prazer e o princípio do real?

     Não é um dos mais famosos romances de Greene. Aproveito, portanto, para contar por que - e de onde - o trouxe. Mas acreditariam se vos dissesse que, em certos dias da semana, há um jovem que, no átrio do Centro Comercial Palmeiras, liquida livros ao preço da chuva? Edições «Livros do Brasil» [prestem atenção!] a 2,50: dois euros e cinquenta cêntimos!?

     Os Comediantes constituiu uma surpresa e tanto! O registo cómico da primeira parte, quando Brown, os Smiths, Jones, e um par de maravilhosos secundários se conhecem, num cargueiro holandês, a caminho do Haiti, vive tanto da sua ingenuidade [uma ingenuidade ridícula, porém com surpreendentes vislumbres de grandeza] como de uma espécie de surrealismo burlesco; mas é também o momento em que se antevê e adensa o enigma dos seus passados, dos percursos que os conduzem ao seu destino. Se a segunda parte, já em pleno terror haitiano, permite o cruzamento com outras personagens, a clarificação de uma parte dos mistérios que pesam sobre aqueles indivíduos e o desenvolvimento de uma história central, sobre uma paixão ilícita, é a terceira parte que nos devolve o Major Jones no seu melhor. Que faz, deste, uma personagem inesquecível e de primeiro plano. O aventureiro cómico, o burlão inocente, o materialista sonhador. Assistimos, perplexos, rendidos, à confissão sincera do grande mentiroso: eu diria que poucas vezes um romance tragicómico atinge, a este ponto, todo o esplendor da sua razão de ser.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

EDITH WHARTON: SONO CREPUSCULAR



Fui-lhe apresentado da forma que narrarei em duas palavras: há semanas, em seu sumarento editorial, no caderno do Expresso, que dirige, Pedro Mexia referiu uma recém-publicada tradução portuguesa de contos de Edith Wharton. Bastou isto. Procurei, na minha biblioteca predilecta, contos da autora; em vez disso, acabei por me decidir por um seu romance.

Antes de mais, um comentário sobre o tradutor: não só a tradução propriamente dita me soa muito bem, e me parece excelente - com a justificação criteriosa de algumas opções -, como o enquadramento histórico e cultural do romance é exaustivo, muito culto, raramente no limiar do excesso picuinha e do exibicionismo, os quais, mesmo quando sucedem, não deixam de ser interessantes. Pode parecer desnecessário, mas nenhum leitor se deve sentir coagido a ler o que dispensa, e a verdade é que esta estória ganha cambiantes e contornos quando os pormenores fazem sentido à luz dos loucos anos entre as Grandes Guerras, que o tradutor reconstitui em notas completíssimas. De momento não tenho comigo o nome deste senhor, mas brevemente estarei em condições de reparar a injustiça.

Evitemos os adjectivos grandiloquentes ou a apologia fácil de E. W. Mas agrada-me supinamente a sua abordagem dos sentimentos. Recorda-nos George Eliot. Middlemarch. Não há punhadas nas portas da sua escrita nem solas ecoando pesadamente sobre o soalho da ficção que ela constrói; tudo é, pelo contrário, o movimento de subtis delineamentos, ambíguas aproximações. O traço grosso não existe: apenas pinceladas impressionistas. A analogia merece que nos detenhamos: numa pintura impressionista concluída, percepcionamos figuras; mas imaginemos agora que seguimos a produção do quadro, as linhas que não se agarram, as cintilações aparecendo diante dos nossos olhos - como adivinhar a "figura" que nascerá, a paisagem, as nuvens, o mar, um barco?
Sono Crespuscular também  não progride segundo uma linha recta. Sentimos pulsações. Breves emergências. Julgamos ver os pontos em que se vai desenhando uma paixão perversa, mas será que o é? Será mesmo uma paixão? [Haveria outras explicações.] E em que medida perversa?


Por outro lado, prezo, como em todos os romances da minha vida, a "orquestração". Uma família complexa, de relações que se vão sobrepondo em camadas, um primeiro marido, com quem Pauline ainda se dá, ou que ajuda, moral e economicamente, um segundo marido que se preocupa com o enteado e o protege [a não ser que se não trate exactamente de cuidado, mas de uma recôndita outra intenção], ou dois meios irmãos que se amam, a paixão, o tédio, o cinema, a nova música, as novas ideias, as novas curas, são inúmeros personagens e elementos, que requerem uma visão de conjunto, e mediações bruscas, velozes, primorosas neste romance.

Por fim, rendo-me a esta fenomenologia do auto-engano. Recordemos de novo George Eliot que, nesse aspecto, nos deslumbra. Mas Wharton também. Será um segredo de escritoras? E só de algumas? Não. Shakespeare e Dostoievski descrevem brilhantemente as operações de uma consciência que refaz o que está diante de si, da forma mais conveniente, mais desejável para si própria. Não uma consciência cega, pois que, num certo ponto de si, talvez saiba a verdade, mas que, obstinadamente, a si mesma a mascara: sob uma «análise», uma racionalização, uma fé, um ideal. Pauline revela-se, a esta luz, uma personagem admiravelmente patética. E naturalmente cómica. E triste, embora nem dessa tristeza se aperceba.

Edith Wharton, sim. Obrigado ao recomendador.