É com certa euforia que descubro [não seria adequada a expressão: «acabo de descobrir», uma vez que me sinto muito longe de haver acabado este processo] As Lojas de Canela, de Bruno Schulz.
Proporcionou-me o encontro David Grossman, autor de Ver: Amor, um romance que talvez não perca tempo a comentar, mas, no que me diz respeito, é resgatado pelo seu amor à obra de Schulz.

«Depois de arrumar a casa, Adélia puxava os estores de linho e mergulhava tudo na penumbra. Nessa altura as cores baixavam uma oitava, os quartos enchiam-se de escuro como se fossem mergulhados de repente numa luz de profundidades marinhas que se reflectia nos espelhos verdes da água [...]»
«O cãozinho era de veludo e morno, todo ele vibrante com as pulsações do seu pequeno e apressado coração. Em vez de orelhas tinha duas pétalas, tinha olhos azulados e turvos, uma boca cor-de-rosa onde podíamos, sem perigo, enfiar um dedo, delicadas e inocentes patas com uma almofada por baixo que era rosada e nos enternecia.»
«A casa abandonada não o reconhecia como dono, os móveis e as paredes espreitavam-no com uma desaprovação emudecida. [...] E depois de andar de um armário para outro, quando acabava por encontrar toda a roupa necessária e se vestia entre móveis que o suportavam em silêncio e com ar ausente, ao ficar finalmente pronto e em condições de sair, com o chapéu na mão, sentia-se no derradeiro instante incomodado por não encontrar a palavra capaz de quebrar aquele mutismo hostil [...]»

vão passando de «peça» para «peça», ou de um conto para outro, como se mudassem de aposento, possibilitam-nos captar uma época, uma cidade e seus habitantes, a família do narrador. São figuras maiores, na sua autenticidade como nas suas idiossincrasias, que Schulz revela sempre sob um halo encantador, por insuportáveis que pudessem ter sido. [Imaginem o que seria viver com aquele pai, em acelerada decomposição mental, mas vista benevolamente pelo narrador, sobretudo na sua dimensão criativa e exótica; ou com o tio Carlos, a sós na casa de que não cuida e o repudia.]
Nunca a tal ponto me lembro de assistir à (re)criação de um mundo a partir de peças desiguais e aparentemente desconexas, num fino limiar entre a realidade e o delírio: mas é o que Bruno Schulz faz. "As Baratas" e principalmente "A Borrasca" são maravilhas de inversão mágica - veja-se como, neste último, uma sublime tempestade se abate sobre a cidade, a partir da desarrumação da casa, loiça suja, móveis desarrumados, que parecem acordar todas as noites, explodindo pelos ares e convocando os ventos! O que nos expõe é uma realidade tão intensa e tão completa, que nos custa crer que, dali a pouco, a guerra irromperia, os pilares em que esse mundo assentava desabariam, e o próprio Schulz, cidadão polaco de origem judaica, seria infamemente assassinado por um oficial nazi.
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