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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

JOHN UPDIKE: CORRE COELHO




Falar deste romance de Updike é, antes de mais, uma oportunidade para trazer à baila dois livros de uma lista da qual, no início das férias, prometia tratar.
Um deles é O Homem que Gostava de Cães, do recém-descoberto Leonardo Padura.
A dada página, o narrador confessa:

«Eu, ao contrário da primeira vez, mantive-me sentado, com o romance que estava a ler nas mãos - tinha começado Corre, Coelho, aquele livro que Updike nunca superou

Parece promissor, apesar de John Updike não estar, aqui, em competição senão consigo próprio.

O outro seria A Herança Perdida, do estimulante James Wood, e aí escorrego em provocações tão maldosas como esta:


«John Updike é seguramente um dos menos trágicos dos grandes escritores, e o mais complacente de todos os escritores teológicos

Mal conseguira recomeçar a respirar e já, pouco adiante, embatia neste outro arrepiante comentário:

«No seu pior, a sua escrita é de um lirismo inofensivo e inchado, de uma liberalidade aristocrática, como se a linguagem fosse uma despesa sem importância para um homem muito rico e Updike acrescentasse a cada frase uma generosa gorjeta

Compreendo Wood. A sua sentença assassina, para além de muitíssimo bem achada, tem razão de ser. As descrições a que Updike nos sujeita estão sempre no limiar do rococó. A tradução que leio é de Fiama Hasse Pais Brandão, que consigo imaginar com sucessivos estremecimentos de volúpia perante períodos que me abstenho de transcrever.

Mas regressemos à acusação fatal: a ausência de tragicidade; sim. Posso compreender Wood. O problema da visão religiosa de Updike é a de que lhe falta o demónio. O inferno. Sigam este diálogo:

« "Ora digam lá, ele fê-los acreditar no inferno?" Harry ri. A imitação de Eccles é perfeita. [...]
«E fez? Você acredita?
«Fez, acho que sim. O inferno como Jesus o descreveu: afastamento de Deus.
«Bem, se é isso, pode-se dizer que estamos todos já mais ou menos no inferno

Teologicamente, esta perspectiva é moderna e interessante. Não me queixo: pessoalmente, o diabo não me faz a menor falta. A eterna ausência de Deus parece-me punição suficiente; mas Harry, o Coelho, é lúcido: sem inferno à maneira antiga, sem mal que não seja «psicanalisável» e «compreensível», não é possível esperar-se uma tragédia com alguma espessura.

A vida de Coelho está degradada. Olha em torno de si, e tudo são restos. Sem verdadeiramente traçar um plano ou decidir um rumo, principia a correr. [Metaforicamente: vai no seu carro; embora, mais tarde, assistamos a momentos de efectiva corrida a pé...] É de Deus que foge? Não creio - é mesmo de Janice, é mesmo do filho, por quem, no entanto, sente amor, de seus pais e de seus sogros, é do vazio que marca tudo o que vive e em que toca. Claro que a questão decisiva é a da incapacidade da escolha; e claro que há tragédia bastante no afogamento de uma criança recém-nascida. Ainda assim. Pergunto-me que há a acrescentar a este romance, que permitiu a Updike querer continuá-lo, numa extensa obra dedicada ao mesmo Coelho.

Uma coisa sabemos, a fazer fé em Padura: na sua corrida, Updike não conseguiu superar-se a si próprio.

sábado, 3 de agosto de 2013

HÁ SEMPRE UM DÂMASO CÂNDIDO SALCEDE NUMA ESQUINA PERTO DE SI



Camões, Pessoa e todo o seu drama em gente. Eça, Camilo. Alguma coisa de Saramago. E Gonçalo M. Tavares. [Embora o último seja muito novo, muito recente, e possa parecer precipitação minha incluí-lo; mas, enfim, a considerar que, dos novíssimos escritores, já poderia propor algum, não tenho dúvidas de que seria GMT.] Se não os vejo como deuses, encaro-os como o estofo da poesia e da literatura em língua portuguesa.

Neste  estatuto, há lugar para outros tantos, entre os quais muitos escritores brasileiros que não me dei ao trabalho de mencionar. A minha paixão não se concentra nos referidos, numa relação de exclusividade. Falo destes, porque são mais universal e inequivocamente aqueles sem os quais o português literário seria, de certeza, outra coisa qualquer.

Com a minha longa introdução, procuro que se não enganem acerca das intenções dos argumentos que usarei. Não há deuses. Querer continuar-se Os Maias não me parece, portanto, um acto de profanação. Só mesmo um gesto disparatado e ridículo.

O Expresso (jornal, aliás, cuja revista-cartaz, dirigida por Pedro Mexia, degusto, regularmente, com prazer e proveito) convidou José Luís Peixoto e José Eduardo Agualusa, Mário Zambujal (e a que título Mário Zambujal?) e José Rentes de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Clara Ferreira Alves (e porquê Clara Ferreira Alves?) para prosseguirem Os Maias. Pode ter sido uma ideia de algum senhor do marketing. Muito baixinho e com demasiada energia, ao jeito destes últimos assessores do governo de P. P. Coelho, tão satisfeitos com o seu poderzinho, benza-os Deus! No fundo, um Dâmaso Salcede do Portugal do século XXI (que, naturalmente, pouco mudou em relação ao Portugal de Eça). Mas os escritores convidados prestaram-se a isso!? Não os fez estremecer, não, repito, o pavor do sacrilégio, mas o receio do ridículo?

Os Maias não precisa de prolongamento. Eis o ponto. Queiram seguir-me: basta ler-se o "início da continuação", pelo punho de José Luís Peixoto, para nos apercebermos da vertiginosa extensão da tonteria e do equívoco. Ora vejam: «Ainda o apanharam!» Ora abóboras! Com um só período, escangalha-se o fim, sabiamente aberto, que Eça de Queirós carregara de uma subtil ironia, de tristeza e cepticismo, de um conformismo nervoso e eufórico, de um quasi-optimismo melancólico, num paradoxo em que o cómico alivia, mas não apaga o trágico. Faz-se dele um princípio obtuso: «Ainda o apanharam» - e seguem por aí fora.

Julgava-se homenagear a sua referência maior? Isso é que é trágico, menino, isto é que é trágico.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ANDRÉ GIDE: JOURNAL



Meu avô lia livros em francês.
Eram uns volumes da Gallimard, que ora lhe via entre as mãos, ora pousados em mesinhas de cabeceira, do formato e da espessura certos, com as capas que, quando não forradas, deixavam ver os títulos e os nomes de autores que, naturalmente, me fisgavam o interesse desde então: Pascal, Proust, Alain.

Sobre Proust, estamos conversados: quando, muito mais tarde, principiei a lê-lo com intenção e possibilidade de chegar ao fim, percebi que nunca mais lhe preferiria nenhuma outra obra na vida; acerca de Alain, não estamos minimamente conversados: continuo à procura dos volumes dos seus Propos; tento, periodicamente, encomendar o primeiro, ou o segundo ou qualquer um, ansioso por compreender o fascínio que a filosofia leve, mas não superficial, fragmentária e perspicaz, de um professor de província [ou estarei totalmente equivocado?] poderia ter exercido sobre o meu cosmopolita avô.

Comprei e venho lendo, por estes tempos, o Journal, de André Gide: não o diário na íntegra, que terá milhares de páginas, mas páginas sabiamente escolhidas, e convenientemente apresentadas, de forma a penetrarmos no espírito de Gide, como se entrássemos em sua casa. Porque Gide é particularmente acolhedor: e, falando do seu árduo treino de piano, da sua escrita, da sua inquietação perante a dificuldade, em certas fases, que essa escrita lhe custa, ou da sua fé e das suas crises ou das suas leituras [interessantíssima a referência a uma "constelação" de afinidades, de que fariam parte Nietzsche, Dostoievski e Blake] e, sobretudo, das suas conversas, senta-nos à sua mesa, viaja connosco na carruagem que nos faz ver, aproxima-se no seu génio e na sua fragilidade. Às vezes, com o pequeno livro nas mãos, sinto-me regressado à infância: tornei-me, de certa forma, o meu avô: este livro, que sublinho, que cheiro e temo estar lendo demasiado depressa, arriscando-me a concluí-lo de um momento para o outro, faz parte daquela "constelação" de livros a que a imagem do avô me estará para sempre associada.

Relativamente a Gide, mantinha, até agora, uma reserva tensa. Custava-me que fosse um dos responsáveis - aliás, parece que o principal - por que a obra de Proust não tivesse sido inicialmente publicada; custava-me a leitura que fez de "À la Recherche", tratando-a como a série interminável de descrições de bailes, nos salões aristocráticos de Paris. Lendo o seu diário, entendo-o um pouco melhor. Percebe-se que Gide é penetrante, e que tem sempre razão nas suas reflexões - isto é, pelo menos uma certa razão, mesmo nos casos em que o tempo viria mostrar que, no essencial, a sua visão estava errada. Há sempre qualquer coisa de subtil e profundo que ele "capta"; saber se essa "captação subtil e profunda" é o importante, o que há-de contar, isso depende mais do porvir, do sentido do porvir, ou do que a História, na sua parte de acaso, acabar por distinguir...

Tudo o que Gide diz a respeito de Proust, nomeadamente da sua relação enganadora com a homossexualidade, é absolutamente correcto. Que o acuse de, na sua obra, tratar falsamente a homossexualidade, expondo-a num retrato que guarda dela unicamente o cómico e o sórdido, transferindo toda a beleza e inocência para as relações heterossexuais, é indiscutível. Que Proust tem de ser lido para além disso, porém, no sentido em que a sua obra é inesgotável e infinitamente superior a esse aspecto, é uma evidência que André Gide recusou. Eu diria que a sua homossexualidade, assim confrontada, não lhe possibilitou ser um leitor total...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

HAROLD BLOOM: GÉNIO


Confesso que sou sensível a teorias que provocam. Se acontece a "provocação" ter substância, isto é, sobreviver a um primeiro sobressalto, então, ainda que discordemos da teoria, ter-nos-emos deslocado: há um movimento da nossa estrutura de referências que, se não conduz necessariamente a uma mudança de paradigma, também se não faz sem efeitos, mesmo que mínimos e subliminares.


Um exemplo: lia, com esse tipo de espanto, um crítico literário espanhol afirmar que Kafka era «um mau romancista». Acrescenta que, em O Processo, a primeira frase constitui um erro fatal. Abre-se a cortina com um período excessivamente revelador, porque conteria já todo o desenvolvimento e o fim da história. Discordo do juízo de valor, mas não posso deixar de concordar que a abertura de O Processo, de resto um livro extraordinário, é, a esta luz, uma abertura infeliz.


Harold Bloom é um destes pensadores.
Se abstrairmos, nas suas análises subtis, de algum elemento de arbitrariedade e de algum elemento de busca de efeito a todo o preço, o que resta é, ainda assim, uma visão competente e sagaz, muito estimulante, de uma cultura enciclopédica, conservadora e todavia original, e sempre provocadora.


Estou com um livro seu, Génio, entre mãos.
Pessoalmente, dispensaria que ele o tivesse organizado à imagem do Talmude. Mas concedo que, se prescindimos de uma exposição histórica de certos autores, carecemos de um outro critério de arrumação. E, é certo, por artificial que seja o que obtemos, o Talmude fornece uma chave de organização tão boa como outra.

Por outro lado, existem aquelas convicções muito fortes, a que eu chamaria "manias", de Bloom. Insistir em que José Saramago é o mais talentoso de todos os autores contemporâneos parece-me pouco razoável. Mas muito bem. Admitamos que há, no mais racional dos críticos literários, um incontornável lugar para o "gosto", e que o gosto tem razões que a razão desconhece.

Resulta, de tudo isto, um livro maior mas desigual, e com debilidades [que mo fazem ler sentindo-me interpelado, agastado, comovido], erigido sobre a tese do génio, isto é, a ideia de que, mais do que à cultura, ao tempo, a uma técnica que se aprenda ou às influências, o que verdadeiramente explica a grandeza de algumas obras literárias é, paradoxalmente, algo da ordem do inexplicável: o génio do seu autor. O tempo, a cultura, a técnica ou as influências de Marlowe não eram diferentes das de Shakespeare - e, no entanto, Marlowe nunca seria Shakespeare. Nem Marlowe nem, segundo Bloom, nenhum outro alcançou, alcançaria ou alcançará uma realização literária tão múltipla e tão perfeita. (Dante teria sido quem mais se aproximou).

E sob o princípio do génio, dividindo os autores por diferentes tipos de génio, incluindo, na obra, os portugueses Luís de Camões, Eça de Queirós e José Saramago, Harold Bloom apresenta-nos os génios cujas obras, para ele, formam o cânone da literatura ocidental. Poderemos não nos render, mas saímos acrescentados da leitura.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ARTHUR KOESTLER: O ZERO E O INFINITO



1.

As etiquetas foram-me importantes, durante a minha juventude. Falo de etiquetas filosóficas ou ideológicas: tornei-me sucessivamente cristão, existencialista e marxista. Por esta ordem.
A verdade é que fui um marxista tardio, ou seja, casei com a teoria de Marx, de Engels e de Lenine numa altura em que já se conhecia muito bem a natureza da URSS, e alguns dos intelectuais mais honestos haviam posto (e há muitos anos) estrondosamente fim a namoros antigos com o comunismo soviético, apontando sintomas da opressão e da asfixia totalitárias. Já lera Orwell, já lera até As Mãos Sujas, de Sartre, e Les Aventures de la Dialectique, de Merleau-Ponty, mas nenhuma argumentação conseguira romper o meu fascínio intelectual.


2.

Um dia, li O Zero e o Infinito. Não sei sequer o que me levara a comprá-lo: não creio que já tivesse ouvido mencionar o autor. Era uma tradução portuguesa, se a memória não me atraiçoa, numa edição que tinha uma capa vermelho viva.
É um romance da autoria de Arthur Koestler: os seus camaradas de um passado comum de militância comunista apodavam-no entretanto de traidor e renegado. Koestler rompera com o partido antes ainda do Pacto Germânico-Soviético, e os seus ex-companheiros nunca lhe perdoaram que escrevesse acerca do despertar do seu sono dogmático.
«Escrever» aquele livro: em O Zero e o Infinito fala-se de um velho comunista inspirado em Trotski (e quem diz «Trotski» diz todos aqueles que, de um modo ou de outro, sofreram e sucumbiram por causa das suas discordâncias em relação ao programa de Estaline.)

3.

Resumida (e reduzida) a estes termos, parece uma obra política. É-o, sem dúvida: mas é principalmente uma obra filosófica, no sentido em que se trata - como em 1984, de algum modo - da discussão entre diferentes concepções: o poder não eliminará a fonte perturbadora sem primeiro tentar convencê-la; por outras palavras: mais do que uma luta entre forças físicas, é a uma luta intelectual que assistimos; antes do mero exercício do poder, é uma luta de ideias que testemunhamos, uma luta de olhares, uma luta pela razão. (Falsa e injusta porque, naturalmente, desigual).
É, porventura, um livro datado. Estou certo que sim.
E, no entanto, não estarei a falsear grandemente os dados se vos disser que a minha terapia ideológica (que me não tornou necessariamente um anti-marxista) principiava nesta leitura.

domingo, 6 de março de 2011

UMA CONVERSA NO INTERIOR DE CORRECÇÕES

Jonathan Franzen, soube eu entretanto, é ostracizado por uma certa corrente de consumidores norte-americanos, que lhe não perdoa o facto de se ter recusado a ser entrevistado num programa da Oprah. Acusam-no de quê? De elitismo. De snobismo. Não de timidez, por exemplo, ou, mais provavelmente ainda, de querer evitar equívocos e demarcar as águas, não deixando que o confundissem com um autor de «literatura light». Mas de elitismo. E snobismo.

Venho de ler o fim do terceiro capítulo do seu Correcções, que me parece bem arrojado. Lembra-me Ulisses [que, by the way, ainda não foi desta que consegui concluir].

Enid e Alfred, personagens já nossas conhecidas [cf. post anterior] estão num cruzeiro. Uma tarde, encontram-se, no convés, com dois casais nórdicos. Há uma rivalidade latente - mas cada vez mais manifesta - entre os suecos e os dinamarqueses. Na conversa, tudo se choca de um modo atordoador: alguém expõe insistentemente a sua teoria acerca do efeito de estufa, enquanto Enid fala de acções, um dos maridos nórdicos alfineta o outro marido nórdico, uma mulher fala de deficiência visual (olhos preguiçosos), uma diferente mulher corrige-a (não é possível haver «olhos preguiçosos», mas «olho preguiçoso», atendendo que se trata de um dos olhos compensar a preguiça do outro), de vestidos, de leituras; há vozes exteriores ao grupo, de que vamos captando, descontinuamente, algumas frases, até que surge o que é interpretado como um insulto, a que um dos casais reage, deixando o grupo. Está lá tudo, mais a cor, o movimento levemente desagradável do navio, as memórias pessoais que não cessam de interferir e de que o leitor é também testemunha.

«Está lá tudo», escrevi, mas como, precisamente, se junta tudo isto? Num estranhíssimo mosaico onde nada se ajusta, em que há falas sobrepostas, ou que se interrompem, ou paralelas, em que nunca se faz silêncio mas tudo é fragmentário. Nenhuma linha agregadora, antes várias minúsculas linhas quebradas num quase doloroso entrecruzamento. O efeito é perturbador. A estranheza provoca-nos, ao mesmo tempo que nos fascina, absolutamente irresistível. É uma leitura trabalhosa de que, todavia, não podemos separar-nos um instante.

Mas, lá está: preconceito à parte, não sei se o bando histérico que constitui o público habitual de Oprah conseguiria apreciar, de facto, este modo real e irreal de se nos expor um mundo em que nada progride, eppur si muove!

domingo, 30 de janeiro de 2011

DE LEITORES E DE LEITURAS

A questão das leituras é especialmente complicada.
A mim, parece que é quase impossível que o modo como um leitor interpreta um romance não tenha que ver com um parti-pris ideológico. No sentido lato de «ideológico».
Sobretudo, julgo que uma mulher lê sempre com o que há em si de mulher, um homem como um homem. E podem dizer-me: Raio, que se esperava?
A questão é que ler como mulher significa, de algum modo, julgar as mulheres de um romance. Não sei se os homens também não julgam principalmente as personagens femininas - embora, no seu caso, de uma perspectiva masculina.

O problema é que se espera sempre uma identificação, ou seja: uma leitora aguarda, mais ou menos secretamente, que as mulheres de um romance sejam interessantes, ou que alguma delas o seja: mas o que é ser interessante? E por que teria de haver um modelo, um exemplo, quando no dia-a-dia encontramos pessoas de todos os tipos, interessantes e desinteressantes, e a própria verosimilhança exige que as personagens incorporem diferentes características e defeitos, insuficiências, limitações e manias, independentemente de serem femininas ou masculinas?

Uma leitura «feminista» ou uma leitura «masculinista» excluem, na minha opinião, diversas possibilidades e nuances: por exemplo, a possibilidade de que uma personagem feminina, porventura extraordinária, nos seja apresentada a partir do olhar de uma personagem masculina, que a diminui na sua grandeza; digamos: um marido infeliz e esgotado por muitos anos de relacionamento. Ou, claro, vice-versa. Mas também ao leitor cabe mover-se por entre essas perspectivas ilusórias e redutoras; cabe descobrir o «interesse» ou o «valor» deste ou daquela, para além da visão que (mesmo quando não seja directamente expressa por uma personagem) se percebe que recupera e reconstitui, para efeitos romanescos, a visão dessa determinada outra personagem. [James Wood é nada menos que brilhante nessa análise do ponto de vista que subjaz ao discurso; na análise do «quem realmente fala, aqui? Será mesmo o autor?»]

Não sou melhor leitor do que ninguém. Mas um segredo tenho: não julgo. Farejo com mais interesse as complexidades de carácter e a verosimilhança do que o reconhecimento. E, é verdade, gosto de pessoas impossíveis, aprecio personalidades malévolas e mesquinhas, não enjeito gente superficial ou estúpida, ou reaccionária. Talvez na vida o faça - mas, na literatura, certamente não.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

E QUANTO ÀS OBRAS MAGNÍFICAS QUE NADA TÊM A DIZER?



Numa demorada discussão com o meu amigo Francisco, hoje, apercebi-me de que nos divide a importância da «mensagem».

Francisco exige mensagem à arte. Considera insatisfatória uma obra que, mesmo tocando-lhe nas vísceras e nos sentimentos, não lhe fale igualmente à razão. A tudo tem de subjazer uma intenção - e o trabalho do receptor é sempre um trabalho hermenêutico, o desvendamento de uma narrativa intrínseca. Só faz sentido, para o meu amigo, o que é verbalizável. Aquilo de que se dirá: «Percebo o que queres dizer, autor».

Meu amigo entende que o objecto de arte que não contém um discurso a revelar é um objecto de arte menor e pobre. A Miró, Francisco preferirá sempre o Picasso da Guernica.

Do meu ponto de vista, pelo contrário, é menor & pobre uma arte que se deixe resumir a um discurso (ético, político, religioso, o que seja). A arte, mesmo quando contém uma concepção sobre o real no seu ventre, é arte na medida em que a supera, em que se torna essencial para além dessa concepção.

Francisco pede-me exemplos; digo-lhe: a expressão artística de Nietzsche é sempre maravilhosa, até quando, na minha perspectiva, está errada. Consigo fruir, fascinado, o movimento do seu pensar, mesmo nos momentos - frequentes - em que filosófica ou ideologicamente não estou de acordo com o conteúdo desse pensar. A poesia de Camilo Pessanha, que me prende e me deslumbra, não fala à minha razão. Interessa-me muito pouco semanticamente. Ligo-me a ela pela sua sonoridade, pela transformação das palavras em pura música.

E, finalmente, os surrealistas nunca me falaram à razão: falavam-me à desrazão. Nunca me interessaram pelo propósito, mas pelo despropósito. Até eles tinham um programa revolucionário? Quando começaram a tê-lo, começaram a escangalhar-se...

sábado, 6 de novembro de 2010

IRRITANTE HIPÉRBOLE

O Bom Inverno, de João Tordo, traz agora uma cinta que apresenta o autor como a maior revelação das letras portuguesas do nosso século. [Qual é o nosso século?]

Aprecio João Tordo. Alguns dos posts que publiquei são, a esse respeito, perfeitamente inequívocos.
Não seria justo para o autor que estas palavras negras sobre uma cintazinha branca me levassem a criar algum tipo de preconceito contra ele.

É muito irritante. Demasiado arrogante. Mas saibamos apagá-las da memória. E acreditemos que João Tordo nada tem que ver com uma publicidade tão absurda. (Se calhar, é a citação de algum tonto! Post-scriptum: é-o, de facto. Dei-me, já posteriormente, ao trabalho de ir verificar melhor...)

Desculpem o desabafo. Por favor, senhoras e senhores, voltem às vossas leituras.

Obrigado

sábado, 23 de outubro de 2010

SUBSÍDIOS PARA UMA LISTA DE LIVROS INVISÍVEIS

Não é verdade que os livros não dêem dinheiro. Dão. Talvez não todos os livros e talvez não aos autores. Mas se não fosse um objecto de consumo capaz de fazer circular muita massa, não haveria tantos comerciantes de poucas letras a meter-se no negócio, a comprar direitos, a comprar escritores, a comprar livrarias, a comprar editoras, a absorver, a devorar.

Numa simples viagem pela galáxia dos blogues, descubro vários, alguns de grande qualidade, que se dedicam aos livros. Observo que, em geral, se trata de comentar os livros da moda, ou seja, os que estão aí, acabados de ser lançados, os que as editoras e as livrarias querem vender. Propositadamente ou não, conscientemente ou não, esses blogues reduzem-se, pois, a veículos de um monumental marketing. Assim funciona o sistema.

Isto só me enerva porque, entretanto, os livros que não estão na moda; os que não vêm agora mesmo das gráficas, ainda frescos de tinta; os que não acabaram de ser referidos na revista Ler, ou na Actual, do jornal Expresso, ou na horrorosa Os Meus Livros -, aqueles outros, permanecem completamente ignorados e esquecidos. Procurei, ultimamente, o Don Tranquilo, e assustei-me com tamanho recalcamento: não o conheciam; pediram-no à distribuidora, que mandou dizer, muito tempo mais tarde, que estava esgotado. Vale a pena mencionar o episódio porque, antes, já andara, atarantado, à procura de Maus, na tradução portuguesa, e mandaram-me passear; quis um romance de Ray Loriga, mesmo na Língua-Mãe do autor, e nada. Experimentem perguntar por Herzog, de Bellow. Ou por Fahrenheit 451, de Bradbury. Ou por Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein, que foi como uma Bíblia para os jovens que nós éramos.

O que eu penei por um certo livro de Mario Vargas Llosa (A Cidade e os Cães), antes de o «agraciarem» com o Nobel. Agora, claro, reeditaram-lhe a obra completa. Na altura, tropeçava em Gabriel Garcia Marquez por todo o lado, que não me interessava, e mal sabiam quem fosse Llosa.

Estou, no fundo, a elaborar a minha lista alternativa, uma lista invisível, de títulos que, por enquanto - até que haja uma nova tradução, ou algum prémio retrospectivo, ou a morte do autor, que tende a tornar a sua obra em best-seller - não interessam às editoras nem às livrarias. Nem ao menino Jesus. Esgotados? Não acredito. Mais facilmente os terão queimado, para não incorrerem no crime de lesa-despezismo que é manterem-nos em depósito!

E é assim que as livrarias nos apresentam uns suspeitos tops de vendas, que duvido que não sejam forjados em função de quem pague mais, como parte deste marketing que nos cria apetências e condiciona o que devemos ler, ao mesmo tempo que nos desaparece da vista - e do coração, e do pensamento - o que poderíamos ler.

Não consigo fugir a este sistema. Nem quero. Mas tento não lhe estar submetido. Comprei, por exemplo, Livro, de José Luís Peixoto, e estou já à espera do próximo de Gonçalo M. Tavares. Mas, entrementes, é claro, faço questão de me não me deixar manipular por essa agenda. Não que tal resistência tenha, em si, alguma importância. Ah, não se leia este texto como um manifesto. Já se entendeu que não estou do lado daqueles que recusam ler o que «todo o mundo anda a ler». Só não abdico de continuar procurando e de, aqui, falar acerca daquilo que ninguém anda a ler. Daquilo que está a um passo de nos desaparecer das memórias curtas.

De cada vez que consigo devolver, à consciência, algum livro recalcado, seja porque mo emprestaram, seja porque o trouxe de uma biblioteca, ou porque existia um depósito em que restava um derradeiro exemplar, recordo esta verdade simples: a literatura é infinitamente mais do que aquilo em que o mercado toca.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PRÉMIO NOBEL 2010


Não vejo mal algum em que o Prémio Nobel seja, frequentemente, uma mera eleição política. Até certo ponto, compreendo e aceito que há áreas onde o reconhecimento que um tal prémio confere se torne o objectivo a ter em conta, condicionando a escolha, de maneira que esta possa vir a ser usada como manifesto, forma de consciencialização ou de pressão. Poderia o Prémio Nobel da Paz, por exemplo, deixar de ser um modo de intervenção política? Podia a sua escolha ser inocente? Não haver sido planeada com o intuito de dar força a um projecto, ou de obrigar um regime a mudar (pense-se nos prémios recebidos por Arafat, Peres, Rabin, Ramos Horta, Obama ou Liu Xiaobo)?

No caso da literatura, é claro, a politização do prémio torna-o ambíguo e, em última análise, irrelevante. Não porque a literatura não seja política. Mas porque o é num outro sentido: não como refém das urgências do tempo, dos interesses e maquinações de grupos, da defesa de minorias ou do ataque aos regimes corruptos. Porque, enquanto subordinada, em primeiro lugar, a uma visão política, a literatura diminui, desvirtua-se, abrevia-se. Reduz-se: a um texto de propaganda, a um instrumento pedagógico e didáctico, a uma condicionadora de mentalidades.

Temo que, em diversas momentos, o Prémio Nobel de Literatura funcionasse como uma chamada de atenção, valesse como uma negociação para impor o autor que melhor representaria um ideal ou uma virtude. E, por isso, não tenho dúvidas de que se escolheram escritores menores, escritores menoríssimos, considerados , todavia, a voz «necessária» do Zeitgeist.

Em nome dessa perspectiva politicamente correcta, Jorge Luís Borges nunca foi agraciado, nem poderia tê-lo sido. E quem se atreveria, por exemplo, a propor um homem como Ferdinand Céline, raivoso anti-semita, repugnante colaboracionista e também - já agora -, um dos maiores escritores da língua francesa?

Postos estes dois exemplos, várias vezes a atribuição do prémio me surpreendeu. Sucedeu quando calhou a vez a Saul Bellow - homem não especialmente de esquerda, bem pelo contrário. Ou a V. S. Naipaul, que dificilmente se quadraria nos critérios estreitos e estritamente ideológicos a que o Nobel nos habituara. Ou, como agora, em 2010, a Vargas Llosa, odiado por todas as esquerdas pelas suas opiniões, pelos seus artigos, pelas suas cumplicidades, pelos seus desprezos.

Gosto muito dos livros de Vargas Llosa. A Cidade e os Cães, que talvez venha em breve a comentar, é certamente o meu preferido. Posso dizê-lo. Di-lo-ei sem ter de me sentir minimamente comprometido com as posições políticas de Mário Vargas Llosa.

E, portanto, congratulo-me com este prémio que, do ponto de vista literário, é muitíssimo justo.
E congratulo-me pelo facto de o Nobel - independentemente de escolher quem pessoalmente me agrada, ou não -, ser capaz, ainda, de uma escolha que me desorienta: que desmente e se não cinge aos critérios pobres de que o acusava.

terça-feira, 29 de junho de 2010

GEORGE ORWELL E A SOCIOLOGIA



Sei, de há muito, que George Orwell é um autor proscrito. E tenho observado que sobretudo da margem esquerda da política é que surgem os seus detractores mais ferozes e implacáveis. Um colega meu, comunista, tratou-o uma vez, furiosamente, de: «esse escritor fascista».

Ora se atentarmos no percurso de Orwell, no modo como, mais do que dissertar acerca de - ele viveu efectivamente em meios proletários e entre as classes trabalhadoras; acompanhou os mais pobres; sofreu, com eles, a miséria que descreveria em textos magníficos - um dos quais Maria Filomena Mónica não hesita em considerar a obra capital da sociologia -; e se atentarmos, principalmente, na sua participação na Guerra Civil de Espanha, do lado das forças anti-franquistas - experiência de que resultaria uma outra obra maior: Homenagem à Catalunha -, percebemos que não resta qualquer lugar para equívocos. Orwell foi um homem e um escritor politizado e revolucionário, desassombrado e crítico. Um homem e um escritor de esquerda, obviamente.

...Mas, repito, crítico! Aí é que está o busílis. Porque os seus livros políticos - 1984 e Animal Farm - são obras que não poupam a União Soviética de Estaline: vivia-se um tempo histórico em que, para toda a esquerda, a Rússia se tornara incriticável. Vivia-se um período aparentemente decisivo, em que os não-alinhados tinham de "alinhar", ou seja, mesmo permanecendo subjectivamente críticos do estalinismo, se o eram, deviam calar a boca e aliar-se-lhe objectivamente, assumir-se como compagnons de route, quer dizer, «idiotas úteis», sob pena de estar a fortalecer o campo inimigo: mas George Orwell optou por não calar coisa alguma.

É verdade: as críticas que dirige ao comunismo na sua versão estalinista e, precisamente, por outro lado, aos idiotas úteis, os intelectuais socialistas, de hábitos e tiques burgueses e ideias radicais, são verdadeiramente polémicas e devastadoras. Terá, por vezes, exagerado? Pessoalmente, penso que não. Identifico-me até ao fundo com os textos em que ridiculariza realisticamente esse típico esquerdista de salão, desgrenhado, mal vestido e vegetariano (a que hoje acrescentaríamos o inevitável lenço à Arafat, mas é, no esqueleto, uma personagem de sempre), muitas vezes pouco higiénico por, digamos, opção ecológica. É uma crítica pequeno-burguesa? É uma crítica estreita? Uma raivinha de quem está ainda demasiado preso aos modelos convencionais? Quem sabe?

Estou com Maria Filomena Mónica. Animal Farm é uma fábula interessante, mas datada. 1984 é um livro a que devemos regressar sempre, porque nos descreve brilhantemente os mecanismos da construção totalitária que, mais do que proibir ou castigar, molda e manipula a linguagem, vai criando uma nova língua e, através dela, sub-repticiamente, uma certa forma de pensar. Não é, contudo, nos seus romances que encontramos o que George Orwell nos dá de melhor: é nos testemunhos, é nos textos sobre a guerra, sobre a vida num colégio inglês, o trabalho nas minas, as famílias de classe baixa ou a passagem por um sinistro hospital francês para desvalidos. É na descrição dos homens imperfeitos e esperançados, ou imperfeitos e desesperados. É na exposição da sociedade - e de qualquer sociedade, seja um colégio, um hospital ou uma comunidade - como um conjunto de séries, hierarquicamente dispostas, de opressões sobre opressões. Já sabíamos? Marx já tinha posto o dedo na ferida? Estava tudo dito? Ah, não com tanta vivacidade, não deste modo que nos faz ver de tão perto; talvez com mais profundidade e rigor intelectuais, mas não com tamanho talento, sensibilidade e espírito de observação.

sábado, 16 de janeiro de 2010

ROBERTO BOLAÑO: 2666



Já há muito não subo a este blogue. Hesito na palavra passe, sinal mais do que evidente de que não tenho recorrido frequentemente a ela.

Não sei bem sobre que falar. Mas, afinal, sei. Isto é, de miríades de possibilidades que respiro (e se me referisse a Camus, de que se comemoram cinquenta anos da morte?, e se me referisse a John Fante, escritor semi-maldito que acabei de descobrir?, por que não a um português, digamos Nuno Morais, poeta malogrado por cuja poesia me apaixonei?), há já uma possibilidade mais forte do que as outras, que se define e torna nítida. No momento em que teclo estas palavras, já ela se esclareceu e tornou real. Bolaño. 2666. É isto.

De Roberto Bolaño, autor chileno, conhecia, quase por acaso, um livro chamado Os Detectives Selvagens. Se quisesse reduzir 506 páginas a dois adjectivos, escolheria estes: originalíssimo e desigual.

A linguagem é extraordinária; a narração principia e, durante muito tempo, mantém-se numa crueza hilariante; as personagens multiplicam-se na sua riqueza e autenticidade. Mas o problema é, em parte, precisamente esse: demasiadas personagens, implicando universos diversificados, num labirinto em que nos perdemos, sem dúvida interessante mas, é verdade, nem sempre igualmente
interessante. O entusiasmo do leitor vai-se esbatendo: cede a vez ao cansaço e à confusão.

O livro de que vos quero falar, todavia, é outro. 2666 tem uma história subjacente: avisado da proximidade da morte, Roberto Bolaño decidiu escrever um longo romance, de forma a que a sua família pudesse ficar amparada. Dividiu o gigantesco texto em cinco partes; transformou-o, portanto, em cinco romances, que pediu ao seu editor que publicasse em separado. Assim, durante pelo menos cinco anos, a mulher e os filhos poderiam sobreviver à custa dos direitos autorais...
Foi, porém, o próprio editor, homem inteligente, sensível, desrespeitador e de bom gosto, que percebeu que esta obra enorme não podia, sem prejuízo, ser espartilhada. Talvez mais tarde - mas numa primeira fase, tornava-se absolutamente imprescindível que o leitor tivesse aceso à sua unidade intrínseca.

2666, de 1025 páginas, é, portanto, o género de obra que costumamos referir como um «romance falhado», não querendo com isso propriamente menosprezá-la, mas tão-só caracterizá-la enquanto tentativa impossível de abarcar a totalidade. Musil, com O Homem sem Qualidades, e talvez também Proust, escrevendo Em Busca do Tempo Perdido (sem que em qualquer caso se trate de diminuir a grandeza ou o génio criativo que revelam), seriam autores de similares esforços para dar conta de todos os pormenores, todos os sujeitos, todo o passado, todo o presente e todo o futuro, num sistema universal e particular, aberto e fechado, um texto inconclusivo mas concluído.

Deparamos, em 2666, com a mesma diferença de universos («registos», como agora se diz) que em Os Detectives Selvagens: mas existe aqui, de algum modo, uma tensão equilibrada. Cinco partes que se lêem como romances diferentes, mesmo que a princípio a unidade ou o fio condutor que os liga pareçam ténues, conseguem encaixar-se, a prazo, como as peças de um gigantesco puzzle onde não temos, nem esperamos ter, senão no fim, uma visão de conjunto. A dispersão perturba menos, é quase uma condição organizadora de um todo que tende fatalmente a dispersar-se nas suas partes.

A narração de Bolaño é brilhante. O sarcasmo está sempre presente, como uma faca de ponta-e-mola; a noção do ridículo é uma constante que, todavia, nem por um momento faz com que nos distanciemos das personagens, ou deixemos de sentir fundamente a sua tristeza. O enigma que, de certo modo, se transforma em diferentes enigmas - onde está Archimboldi, quem comete a série de violações, quem comete a série de sacrilégios, e que terão estas interrogações que ver umas com as outras - permanece sempre audível e interessante, motor surdo de um suspense que subsiste às variações de ritmo.

Meu primo - de quem tanto aqui tenho falado, e de quem falarei porventura ainda mais, agora que sei que, lá da longínqua América, se foi tornando um leitor atento deste blogue - recebeu, no Natal, um exemplar deste livro. Iniciou-o: «Tem graça», afirma. Mas torce ainda demasiado o nariz. Há aspectos que lhe parecem forçados, como um experimentalismo bacoco em prol da originalidade pela originalidade.

Não digo que não leia, aqui ou ali, algo que pode ser atribuído a uma certa pose intelectual, a um certo brilho desnecessário, a uma originalidade vã. O que digo é que nada disto, nada, retira à progressão e à grandeza da obra, à sua ambição totalitária e ao pormenor da sua multiplicação por ângulos diferentes, às personagens, às situações, à comédia, à tragédia e ao mistério, uma grama que seja de sentido e força.

Não se pode fechar o sistema. Qualquer tentação e tentativa de o fazer não pode senão concluir-se num falso fim e num falhanço. Nevertheless, há falhanços magníficos. É o caso.

sábado, 24 de outubro de 2009

SARAMAGO: A PROPÓSITO DA RECENTE POLÉMICA

Conforme diz Nicolau Tolentino de Mendonça, em diálogo aceso mas cortês com José Saramgo, o problema não está tanto no livro Caim, da autoria do Nobel português. O problema está naquilo a que o
teólogo chama o «hipertexto». E de facto, como diria o Diácono Remédios, Num habia nexexidade.

E nem se compreende o sentido e o alcance das palavras com que Saramago, em discurso directo, agride a Bíblia e os crentes, a não ser por uma espécie de fé cega contra a igreja católica, apostólica, romana, ou por um acto publicitário que vise desta forma chamar a atenção sobre o seu último romance.

Nunca apreciei a personalidade de Saramago: talvez resida nessa depreciação a minha dificuldade em amá-lo como escritor. Qualquer coisa da sua arrogância, da sua presunção mas, ao mesmo tempo, da enorme banalidade de certas afirmações, que nunca se coíbe de fazer quando entrevistado, revestindo-as sempre da gravidade de uma sabedoria maior, unem-se para fundar um preconceito meu: já o leio a partir desse incómodo, dessa lente crítica e distanciadora.

Como não sou tolo, em relação a uma parte substancial da sua obra, contudo, a inegável qualidade impôs-se-me, furando a asfixia da minhe lente anti-saramago, preparada de antemão para o recusar. Assim, reconheço que Memorial do Convento é um grande livro, bem como O Ano da Morte de Ricardo Reis ou o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Também Intermitências da Morte me parece, com efeito, um texto irónico extraordinário (tal como A Viagem do Elefante) - ao mesmo tempo que considero, por outro lado, o tão celebrado Ensaio sobre a Cegueira um livro paupérrimo, todo em torno de uma metafórica pouco inovadora, de que se abusou já muito, ou, A Caverna, uma obra menoríssima e, para além de tudo, muito aborrecida... Ah! E já agora: detesto Todos os Nomes!

Com esta tentativa de mostrar que não estou completamente inquinado pelo preconceito contra o homem-Saramago, distinguindo com algum fundamento, no que respeita à obra, o trigo do joio, abalanço-me, pois, a falar acerca de Caim, que ainda não acabei...

... Mas que já posso encarar como uma das melhores coisas que Saramago escreveu. Um pouco como se, de facto, a velhice revelasse, ao mesmo tempo, o progredir da sua senilidade ao nível do contacto humano e das relações (o progredir da sua senilidade quando é chamado a falar), mas, ao mesmo tempo, a maturidade que atinge como romancista.

Caim é um excelente tema? Claro que é, e não de agora. Recordo, para não recuar muito mais, o papel de James Dean em A Leste do Paraíso (a partir de um romance de John Steinbeck), representando um Caim moderno (isto é, dos anos 50), em luta contra um pai tirânico e injusto na maneira como o trata, em comparação com o cuidado que dispensa ao irmão.

Mas em Caim, precisamente, está tudo o que é humanamente mais rico, o ciúme e a inveja que contaminam as relações filiais e fraternas, o amor contraditório e incompleto, a injustiça, a desigualdade, a sem-razão. É por isso que me parece inteligente e literariamente interessante a laicização destas relações - Deus é um pai, e um pai, mesmo sendo Deus, é sempre uma figura injusta e dividida, com medos e dilemas. Deus não seria pai se não fosse este pai profundamente humano e irascível, cansado, em luta com o seu filho. E, claro, por mim falo. Embora não seja Deus.

Esta dessacralização do texto, ou melhor, esta dessacralização das personagens (Azael, que os expulsa do paraíso, é seduzido por Eva, deixando sempre ver uma comovente faceta piedosa...) não as desvirtua, antes as enobrece. É um romance profundo, tocado por uma ironia e por um humor corrosivos, que reduzem todo o mal à imperfeição humana, numa escrita que todos reconhecemos, nem sempre fácil mas muito bela e, de facto, muitíssimo inovadora.

Se ao menos o homem ficasse calado...!