Há 4 dias
Mostrar mensagens com a etiqueta uma opinião vale o que vale. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta uma opinião vale o que vale. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 8 de maio de 2015
EDITORA UTOPIA
Não tenho dúvidas de que um editor que tenha, na sua alma, a vocação de oferecer ao mundo aquilo que vale a pena ser lido, deve começar por ter criado uma exigente pureza da sua consciência leitora. Há-de manter incólume uma capacidade para descobrir segredos e raridades, mesmo depois de já ter lido muita coisa, muita coisa, muita coisa. [Porque se termos lido bastante nos refina o talento para descobrir o que é bom, lermos em modo de trabalho, de enfiada, já cansados e com a ansiedade do que nos falta ainda ler, confunde critérios e embota a perspicácia]. Sobretudo, um editor fervoroso não pode ceder ao preconceito. Não pode ler mais ligeira ou menos respeitosamente o jovem estreante, desconhecido, sem créditos. A isso me refiro quando lhe peço que mantenha a pureza do olhar, o gosto pela descoberta, a sensibilidade para a surpresa. O mais difícil será não ceder às expectativas do mercado. Ler sem pensar «Terá saída? Venderá bem? Haverá público para isto?» [Porque a pergunta certa parece-me outra: «Isto é mesmo bom? É excelente? Merece?»]
Arriscar contra a generalidade e contra quem manda. Esta seria a minha carta de princípios como editor.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
CONCURSOS DE LEITORES: UMA NOTA
Acho curiosa a ideia de um concurso - não me levarão a mal a sinceridade - em que, para ganhar como prémio um certo livro, o concorrente tenha de responder a perguntas acerca desse mesmo livro.
Pressupõe-se que já o leu? [E para que o quereria então receber?]
Ou trata-se de adivinhar a resposta?
Pressupõe-se que já o leu? [E para que o quereria então receber?]
Ou trata-se de adivinhar a resposta?
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O CONTEMPORÂNEO «INCONTORNÁVEL»
Dava, há dias, comigo a pensar isto: Saramago é, para todos os portugueses, o único autor português contemporâneo verdadeiramente «incontornável». [Usei aspas para que se intuísse alguma ironia que a palavra me merece].
Até no seu modo polémico, José Saramago conseguiu que todos os portugueses se definissem, literária e esteticamente, em relação a ele. Da mesma forma que, a propósito de Nietzsche, Eric Weil afirma que, se podemos falar de um autor cristão, é precisamente dele - na medida em que todo o seu pensar se configura em relação a Cristo, ainda que para o contestar -, também faz sentido dizer-se que os portugueses são todos saramaguianos. Mesmo os que o odeiam, mas fazem desse ódio uma referência como não existe outra com o mesmo peso, com idêntica intensidade.
O século XX português é absolutamente saramaguiano. Torga, Jorge de Sena, Nemésio, Sophia ou David Mourão Ferreira - cinco exemplos imediatos de autores portugueses que considero melhores do que Saramago, isto é, mais profundos e mais cultos - não tiveram o seu impacto. Não fizeram a mesma revolução na escrita: foram herdeiros e continuadores de uma tradição, enquanto que José Saramago a transformou radicalmente. Aqueles foram sínteses brilhantes e inovadoras, este foi o advento de um outro mundo.
Nem sempre gostei de Saramago. Como homem, critiquei-lhe a presunção e a arrogância. Como escritor , considerei-o bastas vezes superficial. Comparem uma página de Clarabóia (mas, para não sermos injustos, uma página de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é do seu melhor, se não o seu melhor) com uma página de Mau Tempo no Canal. Há, em Saramago, uma ausência de densidade ou de riqueza na reflexão, que, pelo contrário, encontramos em cada linha de Nemésio. E, no entanto, ninguém se define em relação a Nemésio. Gosta-se ou não, mas não se está num território virgem, inexplorado, em que se semeiam religiões, fés radicais, terríveis incompreensões, radicais antipatias. Saramago suscita-as. E influencia-nos. A todos. De um ou de outro modo, para o mal ou para o bem, mas a todos.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
LER NO ORIGINAL: UMA MERA OPINIÃO
Num comentário ao meu "post" sobre a redescoberta, que recentemente fiz, de Os Buddenbrook, o autor trata de «imensa presunção» o critério por si próprio estabelecido de não ler obras senão na sua língua original.
Não creio que seja presunção. Parece-me antes uma exigência rigorosa e salutar. Lendo, em inglês, The Lottery [que encomendei por não estar traduzido], apercebo-me, com óbvio deleite, da vantagem que há em descobrir Shirley Jackson no «seu» inglês: «David Turner, who did everything in small quick movements» ou «What could she be waiting for with such a ladylike manner?» ou «She had a plate with a cup of tea and a piece of chocolate cake; I had a plate with a cup of tea and a piece of marshmallow cake. We maneuvered up to one another catiously, and smiled» são alguns exemplos, que elenco ao acaso, folheando o livro sem especial atenção, não de períodos «intraduzíveis», nem, sequer, «dificilmente traduzíveis»: e, todavia, duvido que outra língua pudesse captar inteiramente o espírito deste inglês, ou melhor, o espírito do inglês de Shirley Jackson.
Posto isto, deparo-me com um problema. Leio em inglês, mas muito mal em alemão. Em francês, mas não em russo. Em italiano ou em castelhano, mas não em grego (antigo ou contemporâneo), árabe ou chinês. Isto significa, em bom rigor, que estariam excluídos das minhas possibilidades, e portanto, do meu projecto de leitura, os pré-socráticos, Platão ou Aristóteles, Virgílio, a Bíblia, Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Púchkin, Bulgakhov, Kierkegaard, Goethe, Schoppenhauer, Nietzsche, Freud, Hegel ou, precisamente, Thomas Mann. Ou Mao, Lenine, Trotski, Kyoichi Katayama. [Lanço nomes como poeira, uma vez mais ao acaso da memória]. E, portanto, não posso não depender da tradução: não conviver, de algum modo, com obras traduzidas.
É possível que as traduções a que recorro provoquem danos? Até certo ponto: como não domino a língua original, não sou capaz de, pessoalmente, verificar a qualidade daquela. Mas posso certificar-me pelo menos de que a língua em que a vou ler é rigorosa e está correctamente utilizada; de que as frases têm sentido. A intuição tem, aí, um papel. «Pressinto» uma tradução certa. Posso, sobretudo, preferir traduções que as pessoas nas quais confio me afiancem ser bem feitas, posso aprender a distinguir entre diferentes tradutores.
Não me lamento. Aprendo alguma coisa acerca de tradução: que mundo é esse, que lutas travam os tradutores, quem são os parasitas da profissão, que outros estão acima de qualquer suspeita.
Corro riscos? Corro riscos. Mas como só tenho acesso a alguns dos livros que mais admiro por via de tradução, prefiro conhecê-los numa versão estropiada [se não houver outra ou eu a ignorar] do que não conhecê-los de todo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)