
Antes de mais, um comentário sobre o tradutor: não só a tradução propriamente dita me soa muito bem, e me parece excelente - com a justificação criteriosa de algumas opções -, como o enquadramento histórico e cultural do romance é exaustivo, muito culto, raramente no limiar do excesso picuinha e do exibicionismo, os quais, mesmo quando sucedem, não deixam de ser interessantes. Pode parecer desnecessário, mas nenhum leitor se deve sentir coagido a ler o que dispensa, e a verdade é que esta estória ganha cambiantes e contornos quando os pormenores fazem sentido à luz dos loucos anos entre as Grandes Guerras, que o tradutor reconstitui em notas completíssimas. De momento não tenho comigo o nome deste senhor, mas brevemente estarei em condições de reparar a injustiça.
Evitemos os adjectivos grandiloquentes ou a apologia fácil de E. W. Mas agrada-me supinamente a sua abordagem dos sentimentos. Recorda-nos George Eliot. Middlemarch. Não há punhadas nas portas da sua escrita nem solas ecoando pesadamente sobre o soalho da ficção que ela constrói; tudo é, pelo contrário, o movimento de subtis delineamentos, ambíguas aproximações. O traço grosso não existe: apenas pinceladas impressionistas. A analogia merece que nos detenhamos: numa pintura impressionista concluída, percepcionamos figuras; mas imaginemos agora que seguimos a produção do quadro, as linhas que não se agarram, as cintilações aparecendo diante dos nossos olhos - como adivinhar a "figura" que nascerá, a paisagem, as nuvens, o mar, um barco?
Sono Crespuscular também não progride segundo uma linha recta. Sentimos pulsações. Breves emergências. Julgamos ver os pontos em que se vai desenhando uma paixão perversa, mas será que o é? Será mesmo uma paixão? [Haveria outras explicações.] E em que medida perversa?

Por fim, rendo-me a esta fenomenologia do auto-engano. Recordemos de novo George Eliot que, nesse aspecto, nos deslumbra. Mas Wharton também. Será um segredo de escritoras? E só de algumas? Não. Shakespeare e Dostoievski descrevem brilhantemente as operações de uma consciência que refaz o que está diante de si, da forma mais conveniente, mais desejável para si própria. Não uma consciência cega, pois que, num certo ponto de si, talvez saiba a verdade, mas que, obstinadamente, a si mesma a mascara: sob uma «análise», uma racionalização, uma fé, um ideal. Pauline revela-se, a esta luz, uma personagem admiravelmente patética. E naturalmente cómica. E triste, embora nem dessa tristeza se aperceba.
Edith Wharton, sim. Obrigado ao recomendador.
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