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terça-feira, 9 de setembro de 2014

DESMOND MORRIS: O MACACO NU



     Lendo, displicentemente, um livro a que, entre mais dois ou três prémios, se atribuiu o Pulitzer [foi o Pulitzer, não foi?], cujo título é O Terceiro Chimpanzé, dou por mim quase a bocejar ante a sensação de déjà-lu. Não preciso muito tempo para situar a origem desta minha ausência de surpresa. Há muitos anos, era eu um adolescente curioso e complexado, descobrira e li, mas então sim, num vórtice de fascínio e espanto, o estimulante O Macaco Nu, de Desmond Morris.

     Impressiona como um livro dos anos setenta pode soar-nos ainda hoje tão revolucionário. Já o não encontramos em livrarias, e duvido que consigamos mandá-lo vir de quaisquer catacumbas. Por mim, tive sorte. Comprei recentemente um exemplar, não especialmente bem tratado, numa feira de quinquilharia, num jardim, ao preço da uva mijona. Reli-o com gosto. A tese é aquela que o autor de O Terceiro Chimpanzé se limita a retomar, aliás com menos brilho e ousadia. E com a qual continuo a provocar, todos os anos, os meus alunos do 10º: com mais ou menos gravata, mais ou menos brincos, conduzindo um automóvel ou uma moto, dançando o Tango, escutando Bach ou Mozart, ou mesmo sendo Bach, Mozart ou Paula Rego, o homem permanece, na sua natureza mais funda, o que sempre foi: uma de várias dezenas de espécies de símios. Um macaco que se  diferencia de outros não tanto pelos seus talentos culturais [posto que diversos símios mostram um assinalável desenvolvimento cultural, embora admitamos que o ser humano alcançou um outro patamar], mas, segundo Morris, pela sua intrigante nudez. Quer dizer: por ser o único a não possuir o corpo completamente revestido de pêlos. Excluindo Tony Ramos, suponho. Eis as primeiras palavras da introdução, que não esqueci:

     «Existem actualmente cento e noventa e três espécies  de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens.»

     A etologia, essa assustadora ciência que devolve o homem à natureza, num estudo comparativo que detecta padrões comuns do comportamento humano, de gansos ou de ratos, foi para mim, à época, uma revelação de que nunca mais me consegui inteiramente lavar. Sobretudo no que respeita à sexualidade. Um dos capítulos de O Macaco Nu constitui uma fenomenologia minuciosa do acto sexual, que não deixa de fora a sedução, a aproximação, o envolvimento dos corpos,  descrevendo as alterações físicas, a mudança da respiração ou do batimento cardíaco, projectando para o puro delírio a minha mente então virgem. Mais poderosamente do que o faria uma revista pornográfica.

     Claro que, hoje, não tenho dúvidas de que uma redução, não é verdade? reduz... O homem é mais do que um macaco. No mínimo, mais do que um macaco entre os demais: será necessariamente um macaco especial [e, para já, tão interessante como a sua particular quase ausência de pilosidade é , sem dúvida, o inacreditável facto de o falo humano ser o de maiores proporções entre todas as espécies de símios: maior do que o do gorila, quem diria?] É evidente que a redução do ser complexo, em que o homem se tornou, à sua mera animalidade, comporta perigos; se é uma útil machadada na arrogância antropocêntrica, não deixa de nos embaraçar com uma interrogação delicada entre mãos: a de saber se a moral, por exemplo [na medida em que contraria o instinto, e se propõe "elevar" a nossa acção] não se resume ou a um constrangimento artificial, ou a uma mera superestrutura que mascara móbiles indispensáveis para a adaptação da espécie. Seja como for, e com as devidas precauções - que se aplicam, de resto, a todas as "reduções", da psicanálise ao marxismo, sem que por isso deixem de ser teorias riquíssimas e muito instrutivas - O Macaco Nu é uma obra aliciante. O seu carácter desmistificador é de uma lucidez arrepiante. E mantém-se saudavelmente irreverente.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

TIAGO PATRÍCIO: TRÁS-OS-MONTES [QUESTÕES DE ESTILO]



Vou principiar este post por uma confissão; a seguir, abandono a sobredita, para me referir a Trás-os-Montes, Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, 2011; por fim, retomarei a confissão, de modo a extrair dela algumas dúvidas que gostaria de aplicar ao caso de Trás-os-Montes.

Vamos, pois, realizar o plano.

1. Um dia, aí pela minha juventude, pensei escrever um romance que reuniria todos os clichés que particularmente me enervavam. Fá-lo-ia, bem entendido, com uma intenção crítica e irónica. Desisti da ideia, quando me dirigi esta pergunta muito simples: E como se distinguiria um romance ironicamente carregado de lugares-comuns, de um romance ingenuamente feito de lugares-comuns? Que outros indícios, que outros instrumentos teria de acrescentar, para que se entendesse: Isto é deliberado, tem uma intenção subterrânea, autodestrói-se de propósito e com um propósito?

2. Um leitor deste blogue, leitor meu cujas opiniões acerca de livros vou pesquisando com interesse e consideração, mencionou Trás-os-Montes como, na sua perspectiva, um dos melhores livros publicados em 2012.
     Passara-me despercebido. Comprei-o.
     Na badana, Eduardo Pitta, desconcertado, adverte-nos para que a «narrativa abre de forma desconcertante», acrescentando: «A economia narrativa não prejudica (antes pelo contrário) a idealização do mundo rural.»
     Muito bem. Sinto-me já electrizado. Concentro-me nas primeiras linhas, preparado para me desconcertar, e leio: «Teodoro vivia numa casa cansada.»

3. A metáfora da casa cansada nada tem de desconcertante. É, ao invés, uma metáfora gasta e morna - embora, verdade seja dita, na enumeração das características desse cansaço, a metáfora pareça acordar, ganhar luz e tornar-se interessante: «uma casa com dores de costas que reagia mal aos dias húmidos e tinha dificuldade em dormir à noite.»

4. Mas, num certo sentido, é como se essa «abertura desconcertante» [que principia por não sê-lo, mas ao longo do período desata a sê-lo] esgotasse o fôlego estilístico do autor, que, daí em diante, se limita a contar os seus episódios num registo seco, sem nenhum risco e sem nenhuma surpresa.
Os episódios, que têm por objecto o crescimento de quatro crianças transmontanas, não se desenvolvem segundo qualquer fio condutor que os una na promessa de algo, mas, pelo contrário, como uma série dispersa de minúsculas estórias; deste carácter fragmentário resulta, aliás, que as personagens não consigam profundidade: como pode ser, o mesmo Teodoro cujas primeiras descrições nos conduzam a imaginar um garoto sempre um pouco deslocado, tímido, inibido, obcecado com a sua procura de padrões e de simetrias, o mesmo que se aventura, mata desapiedadamente pássaros, perseguidor e brigão?

5. Fixemo-nos, por um momento, no despojamento estilístico que, notoriamente, tanto impressionou os críticos e o júri. Deve ser a isso que Pitta se refere como «economia narrativa»; ou que leva o presidente do júri, Vasco Graça Moura, a afirmar: «as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes e à maneira como o estilo narrativo encontra uma sugestiva economia na expressão e comportamentos das personagens.»

6. Regressemos à minha confissão inicial: perante um texto que não se aventura nem corre riscos estilísticos de monta, como posso perceber se se trata mesmo de uma «economia narrativa» [e expressiva] deliberada, «uma sugestiva economia na expressão e comportamento das personagens», ou do sinal de uma incipiência, sintoma de pouco talento e nula inventividade?

7. A minha descoberta de "Trás-os-Montes", o livro, porém, não acaba aqui. Porque numa noite de insónia em que uma passagem do romance me não saía do espírito [não por eu saber de cor as palavras, mas por me soar continuamente na memória uma certa melodia desse trecho], desci à procura do livro, abri-o e, num ponto marcado, li:

     «A missa em latim, a que Teodoro não chegou a assistir, como um discurso codificado como um todo, era uma decantação da linguagem de Deus, com marcações que as pessoas decoravam para dar as respostas certas naquela homilia fechada. Era o prazer da repetição infinita.»

     Percebo então, num fiat lux, que esta simplicidade é a de uma economia muito bela e, evidentemente, procurada, eu diria: sábia e pacientemente procurada; percebo sem mais sombras que um período, como o que venho de citar, deve ter sido relido pelo seu autor, evitando a tentação da exuberância, excluindo outras possibilidades, até lhe restar um parágrafo muito próximo da perfeição na sua clareza e na sua simplicidade. Confiro: vou descobrindo outros parágrafos, outras passagens, páginas inteiras. A mesma simplicidade que é, para usar a palavra do autor, «uma decantação», em busca de evidências essenciais, de uma pureza clara.

8. Para já, é simplesmente um livro a que deverei tornar, na convicção de que os preconceitos que fui cultivando não mo deixaram descobrir na sua límpida pureza. Se o premiaria? Não. Se está na minha lista dos melhores que li? Não. Se merece a descoberta, o regresso, o reatar...? Tratemos disso...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O CONTEMPORÂNEO «INCONTORNÁVEL»



Dava, há dias, comigo a pensar isto: Saramago é, para todos os portugueses, o único autor português contemporâneo verdadeiramente «incontornável». [Usei aspas para que se intuísse alguma ironia que a palavra me merece].

Até no seu modo polémico, José Saramago conseguiu que todos os portugueses se definissem, literária e esteticamente, em relação a ele. Da mesma forma que, a propósito de Nietzsche, Eric Weil afirma que, se podemos falar de um autor cristão, é precisamente dele - na medida em que todo o seu pensar se configura em relação a Cristo, ainda que para o contestar -, também faz sentido dizer-se que os portugueses são todos saramaguianos. Mesmo os que o odeiam, mas fazem desse ódio uma referência como não existe outra com o mesmo peso, com idêntica intensidade.

O século XX português é absolutamente saramaguiano. Torga, Jorge de Sena, Nemésio, Sophia ou David Mourão Ferreira - cinco exemplos imediatos de autores portugueses que considero melhores do que Saramago, isto é, mais profundos e mais cultos - não tiveram o seu impacto. Não fizeram a mesma revolução na escrita: foram herdeiros e continuadores de uma tradição, enquanto que José Saramago a transformou radicalmente. Aqueles foram sínteses brilhantes e inovadoras, este foi o advento de um outro mundo.

Nem sempre gostei de Saramago. Como homem, critiquei-lhe a presunção e a arrogância. Como escritor , considerei-o bastas vezes superficial. Comparem uma página de Clarabóia (mas, para não sermos injustos, uma página de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é do seu melhor, se não o seu melhor) com uma página de Mau Tempo no Canal. Há, em Saramago, uma ausência de densidade ou de riqueza na reflexão, que, pelo contrário, encontramos em cada linha de Nemésio. E, no entanto, ninguém se define em relação a Nemésio. Gosta-se ou não, mas não se está num território virgem, inexplorado, em que se semeiam religiões, fés radicais, terríveis incompreensões, radicais antipatias. Saramago suscita-as. E influencia-nos. A todos. De um ou de outro modo, para o mal ou para o bem, mas a todos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

JOSÉ SARAMAGO: CLARABÓIA

Tenho, com a obra de Saramago, a relação complexa que muitos outros portugueses.
Reconheço a originalidade da sua escrita; a pertinência de reduzir toda a pontuação ao essencial, de modo a melhor conjugar uma variedade de vozes num mesmo período, abatendo fronteiras e limites, desprezando calcificações e departamentos, na busca de um texto múltiplo e polifónico. Sinto que esta linguagem devolve ao leitor uma cadência oral, fazendo cada um de nós ouvir no seu espírito um leitor íntimo que lhe segreda palavras audíveis, ouvidas dentro.

Daí a minha curiosidade pelo primeiro romance de Saramago: esse que escreveu quando era um jovem e ainda não descobrira o seu estilo (e a sua voz); o tal que foi recusado por uma editora que, tantos anos volvidos sobre um arrogante silêncio, se prontificava agora a publicá-lo. [Penso que a história tenha sido assim]. Comprei-o. Tenho estado a ler.

Já se adivinha a voz de Saramago? Diria que não. Os sinais não existem ainda ou são discretos. Nada anuncia a revolução por vir. E, contudo, um editor inteligente teria publicado o romance do jovem desconhecido? Sem dúvida: desde a ideia de ir transitando, de apartamento em apartamento, de andar em andar, pelos diferentes moradores de um mesmo prédio, até à forma como nos descreve as personagens e narra as situações, mais lírica e menos ironicamente do que a do último Saramago, tudo em Clarabóia é um assombro e uma delícia: no espírito de observação, na captação e compreensão dos sentimentos, na beleza da expressão, este livro não mostra somente o que Saramago ainda não ganhara; mostra também o que perdeu com o seu enquistamento num estilo que, por novas possibilidades que lhe oferecesse (e lhe ofereceu, e nos ofereceu), o dominou, lhe exigiu muito, lhe cortou outras possiblidades.

quarta-feira, 9 de março de 2011

MIKHAIL CHOLOKHOV: O DON TRANQUILO **



Na (dir-se-ia que descoordenada mas, de facto, dotada de uma lógica própria) minha leitura de diversos livros quase simultaneamente, venho de fechar o segundo volume de o Don Tranquilo.

O Don em causa, para evitar equívocos, não é uma pessoa, mas o rio don, aliás só periódica e ilusoriamente tranquilo. Que acontece do primeiro volume para o segundo? Tudo muda. Sobre as mesmas paisagens, na proximidade visível e audível do omnipresente rio, tendo como personagem colectiva os cossacos e os seus cânticos dolentes e sarcásticos, tudo muda porque os ventos da história transformam a geografia humana. E o que no volume anterior era tão-só pressentido, as rodas de uma revolução iniciando clandestinamente a sua marcha - os propagandistas perseguidos pela polícia do czar, as reuniões secretas com camponeses absorvendo a nova verdade... -, abate-se, neste segundo volume, em toda a sua força. Vivemos, agora, os tempos da revolução bolchevique. O exército conhece fissuras e discussões internas. As personagens, algumas das quais já nossas conhecidas do primeiro livro, vão-se situando, inseguras ou firmes nas suas ideias, perante uma nova realidade, perante novas expectativas e outras promessas.

Ler estes dois volumes tem, precisamente, isso de extraordinário: mostrar-nos o labor da história e a mudança das pessoas, determinada pelo tempo. Sabemos já que, ao longo dos quatro livros que constituem o Don Tranquilo, o rio será precisamente metáfora de um tempo enganador, pacífico e tremendo, carregando em si inimizades e amores, revolução e serenidade, guerra e paz. (E não uso inadvertidamente o título de Tolstoi, consciente, agora, do modo como Cholokhov procura, no seu romance, seguir a visão imensa do mestre).

Este volume é o mais claramente político. Para quem, como eu, tinha lido o anterior há não muito tempo, falta, aqui, o esteio dramático que tanto me interessara naquele: falta, antes de mais, Aksínia. A personagem que tinha tocado o primeiro livro com uma força e uma grandeza atordoadoras, profundamente femininas, tem, agora, uma breve aparição. E falta amor: falta a pulsação de uma história de amor impossível, precisamente a de Aksínia. É só já quase nas últimas páginas, que venho de ler, que um amor capaz de mover montanhas se assume na relação trágica de Buntchuk e Ana. Mas lembrar-nos-emos de Ana como de Aksínia? Sonharemos com ela? Desejá-la-emos com a mesma dolorosa intensidade dos sonhos irrealizáveis? Compreende-la-emos tão completamente, na sua semelhança e na sua diferença em relação a nós mesmos?

O que é fascinante neste volume diz respeito mais à psicologia de massas do que à de indivíduos; mais à História do que à história (ou a estória); mais ao testemunho da revolução bolchevique do que ao testemunho da paixão erótica; muito mais à consciência de personalidades políticas (e aos dilemas éticos que as escolhas políticas implicam) do que à consciência de pessoas existindo, como se a existência fosse um terreno de relações e sentimentos prévio a todo o compromisso ideológico. Este volume é um excelente ensaio de História e das ideias políticas na Rússia, mas é um insuficiente romance. Coisa que o primeiro, seguramente não era.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A LEITURA

À parte o facto de que a experiência de nos embrenharmos num livro é uma experiência tão excepcional, que não pode ser legitimamente comparada a nenhuma outra, o acto de ler é, em certas ocasiões, tão flagrantemente semelhante ao acto sexual, que, também na experiência da leitura gostaríamos, por vezes, de nos poder reter: adiar indefinidamente o desfecho, quando percebemos as últimas páginas a aproximar-se tão depressa...

sábado, 17 de julho de 2010

PROUST & JOYCE

Segundo De Bottom, Proust e Joyce ter-se-ão encontrado, um dia, ou uma noite, numa das mais improváveis reuniões entre dois génios.
Consta que que mal falaram. A não ser, já não me lembro bem, para um pedir um lenço emprestado a outro. Qualquer coisa assim.

A originalidade e o génio de Proust são subtis. Tanto mais enormes quanto menos se dá por eles - a não ser no fim da leitura, quando, um pouco surpreendidos, sentimos que o nosso universo se transformou completamente e que não há nenhuma outra obra que se possa comparar à sua monumental busca.

Pelo contrário, a originalidade e o génio de Joyce são visíveis. Não diria "forçados", mas, muitas vezes, demasiado visíveis. Há como que uma orquestra de trombetas a anunciar cada diferença. Talvez por isso sejam menos duradouros no nosso espírito...

Um pouco como se, no exercício da ironia, Marcel Proust mantivesse uma delicadeza e uma candura tais, que alguns nem se apercebessem dela.
Enquanto James Joyce a escrevesse sempre em itálico, ou a sublinhasse, e precisasse ainda de acrescentar: Mas atenção, isto sou eu a ironizar!