segunda-feira, 19 de julho de 2010

PRÓXIMO DE ULISSES [o capítulo 5]

O quinto capítulo de Ulisses é de um apuro técnico incomparável. Reparem bem. A atenção de uma pessoa nunca se fixa num único foco, é verdade: oiço o meu interlocutor, consigo até responder-lhe, fazendo-o acreditar que nada mais, para além da sua conversa, me preocupa naquele momento. No entanto, ao mesmo tempo que lhe sigo o discurso, reparo na sua camisa & vou contando os seus botões & perguntando-me que chiadeira será essa que me chega, repentina, de um determinado andar de um prédio da esquina & interesso-me pelo Alfa Romeo que está precisamente a passar por nós. No fundo, a nossa atenção é uma forma de desatenção activa, em que, num curto tempo, diferentes pormenores do contexto vão trocando de lugar, disputando-nos o momentâneo interesse: ora estão em primeiro plano, ora, sem inteiramente desaparecer, recuam para um discreto segundo ou terceiro ou quarto planos. É assim que funcionamos, nessa espécie de contínua multiplicidade de atenções e sub-atenções simultâneas, nessa dispersão de todos os nossos sentidos por tudo aquilo que nos circunda e invade aqui e agora.

A personagem é Leopold Bloom. Viremos a saber que, saindo de casa, passa pelos correios onde, em nome de Henry Flower, recebe uma carta de uma amante. Não a lê imediatamente, mas sente vagamente, tacteando, que há, no interior do envelope, algum minúsculo objecto. Que será? Entretanto, também descobrimos que tem algumas compras para fazer à sua esposa e que acompanhará, mais tarde, um funeral. Cruza-se com um amigo. Um chato, na verdade: McCoy, que o cumprimenta e troca, com ele, algumas palavras acerca do falecido, que também conhecia. Mas, nessa altura, a sua atenção é atraída por uma mulher elegante.

É tudo isto que Joyce procura captar na sua complexidade, através de uma técnica muito difícil mas de fascinantes resultados: Bloom ouve as palavras de McCoy (falam sobre aquele homem, que havia sido companheiro de ambos) ao mesmo tempo que se continua interrogando acerca do objecto que está no envelope, e que tacteia; e ao mesmo tempo que segue, ao fundo, a mulher, reparando no seu vestuário e sondando-lhe, a partir dos pormenores - meias de renda, folhos -, o estatuto e o interesse sexual. Como cenas que se vão intercalando ou sobrepondo; como universos que não comunicam uns com os outros, mas em que temos de funcionar simultaneamente, sem nos perdermos; como se jogássemos não um jogo de xadrez com múltiplos adversários, mas vários jogos completamente diferentes, sem nos perdermos nem confundirmos.

O resultado é um assombro. Vertiginoso.

CAMILO CASTELO BRANCO: OS MISTÉRIOS DE LISBOA

É muito fácil, aos intelectuais, denegrir e ridicularizar o conceito e os exemplos de telenovela. Mas, a propósito de telenovelas, gostaria de lembrar dois pormenores. Primeiramente, que algumas houve que foram primorosas adaptações de obras de qualidade, como Grabriela, de boa memória, ou a portuguesa Chuva na Areia. Em segundo lugar, que o formato "telenovela" descende de digníssimos antepassados: nomeadamente o "folhetim" (diariamente, em um jornal) e o "romance de cordel" (vendidos em fascículos, regularmente).

Alguns dos melhores autores portugueses dedicaram-se à escrita do folhetim e do romance de cordel. Tinha saída: uma novela principiava a ser publicada e era deixada debaixo da porta, gratuitamente, na esperança de que as pessoas comprassem as seguintes. Todas as semanas era vendido um novo número, com a continuação de uma história rocambolesca, que mantivesse os leitores viciados, pelo que teria de sustentar um "suspense", promessas de magníficas reviravoltas, segredos profundos, personagens exuberantes, nem sempre muito profundas, mas com inesperados alçapões e espantosas revelações escavadas a passados obscuros.

É evidente que a fórmula é superficial e não tem como prioridade senão fazer render o peixe; não devemos esperar dela muito mais do que o expediente a que recorreram escritores que precisavam de ganhar dinheiro: no entanto, terá sempre esse valor e esse interesse históricos e biográficos, no pior dos casos; e, no melhor (quando calhou o autor ser efectivamente uma pessoa de génio), revelar-se a genuína descoberta de um texto que merece que o leiam por si mesmo...

Assim é com Mistérios de Lisboa. Podemos sorrir da ingenuidade com que se nos oferece esse incredível padre que, no seu passado, terá sabido ser cigano ou pirata; ou essas outras personagens que são autênticos e tenebrosos enigmas ambulantes, que só muito adiante se perceberá a que vêm exactamente; não precisamos de levar demasiado a sério aqueles amores românticos e desesperados, de "perdição", na verdadeira acepção da palavra; é natural que nos sintamos distantes dos diálogos gongóricos, das tiradas grandiloquentes. Mas por que seria o realismo necessariamente melhor? Por que não haveríamos de fruir também este espírito da aventura, em que tudo é possível, cheio de palpitação, numa efervescência que acelera o ritmo cardíaco?

O talento de Camilo Castelo Branco está plasmado em cada linha. Imaginamos as donas de casa ou as sopeiras, que foram sempre grande leitoras - quando sabiam ler -, seguindo, de mão intranquilamente pousada sobre o coração, as desventuras desta mulher maltratada, separada do filho legítimo de um amor ilegítimo, tísica e infeliz; os estratagemas deste padre Dinis, que foi tudo na vida e tudo estará pronto a ser de novo, em defesa dos indefesos; a maldade sobranceira daquele irmão, sem piedade, da protagonista, a súbita conversão (e "explicação") do marido à hora da morte, a troça cruel e maledicente - e hipócrita - dessas mulheres de sociedade, com as quais, no fundo, Camilo estaria ajustando as suas contas. Entramos, cavalgamos. Não se diga que perdemos tempo. Nunca se diga que se perdeu tempo lendo mesmo o pior de Camilo, que é melhor do que a maioria do que por aí se faz nas Letras...

domingo, 18 de julho de 2010

JOÃO TORDO: HOTEL MEMÓRIA


Agora que Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto e valter hugo mãe, com provas dadas, não podem já ser considerados recém-chegados à literatura portuguesa, a quem caberá a designação de "novíssimo" das lusas letras? Tanto pela idade como pela relativa proximidade da sua estreia enquanto romancista, diria: João Tordo.

Há que lembrar que o não conhecia de todo. Nada no seu primeiro livro, quando estava com este nas mãos, numa livraria, me atraía em particular, a não ser mesmo o preço. O autor era-me estranho. O título, Hotel Memória, não me parecia promissor. A capa era feia. Também o não folheei porque, se bem me lembro, era um daqueles livros que, por alguma ignota razão, vêm envolvidos em papel celofane. Estive com ele, Que faço eu com isto? Trago, deixo-o? - e, num improvável palpite, trouxe-o comigo.

Acertei em cheio. A escrita é relativamente simples, não tem a poesia de um Peixoto, a originalidade aforística de um Tavares, a ausência de vírgulas de um hugo mãe. Mas vai-nos hipnotizando como alguém que principia a revelar um segredo que pressentimos fatal. Que é precisamente aquilo de que se trata. Aliás, o primeiro período não poderia ser mais bem escolhido, contendo prodigiosas promessas de mistérios e aventuras. «Quando a conheci», assim inicia, «já ela trabalhava para um morto».

João Tordo nunca desmerece deste início. Vai mantendo o mistério e a surpresa - pior, vai complicando o mistério, ramificando-o, acrescentando-lhe tonalidades, numa estrutura que adivinhamos complexa mas em que nunca surgem esquecimentos ou desleixos. Perguntamo-nos: E aquela fuga, ou aquele encontro no metropolitano (estou a inventar exemplos...), pré-anunciados páginas atrás e não víamos como caberia na trama, será que os esqueceu entretanto, será que já não vêm a jeito? No momento certo, aparecem, encaixam-se num puzzle perfeito, num romance muito bem urdido nos seus cursos, nas suas articulações e na sua fluência. Pode até parecer paternalismo meu: como se, de um jovem autor, não fosse esperável - e exigível, ou por causa da sua juventude ou por se tratar de um primeiro romance - que não se enganasse, que não se perdesse, ou que não tivesse unhas para aguentar o plano. Não é paternalismo. Simplesmente, de facto, em Tordo, a grande surpresa e o núcleo emotivo passam pelo engenho da multiplicação quase infinita de possibilidades.

O Hotel Memória referido no título é um tal Memory Hotel, de Nova Iorque, cidade que será o pano de fundo onde se cruzam e desencontram uma rapariga enigmática, um milionário excêntrico, um fadista emigrado para os Estados Unidos (o inesquecível Daniel da Silva); a paixão, a morte, segredos e revelações que se vão desenhando num tom contido mas irresistível. Percebe-se muito bem o que João Tordo trouxe da voz de Camilo, um dos seus santos tutelares.

Reencontrei-o, pois, ao livro. Queria folheá-lo por alto, simplesmente para refrescar a memória, de modo a escrever sobre ele e - que querem? Tenho estado a relê-lo na íntegra, num alvoroço, com o prazer das primeiras leituras e das grandes descobertas.

NÃO É UMA QUESTÃO DE MÉTODO, É DOENÇA

Uma amiga dizia-me que se vem atrasando na leitura do meu blogue. Que sou rápido. E perguntava-me, ou curiosa ou desconfiada, como leio tanto em tão pouco tempo.

O que referi em relação à leitura de Ulisses pode fazer uma primeira luz sobre o meu método. [Irão ver que, infelizmente, não se trata de método]. Dizia eu que o ia reatacar paralelamente, ou seja, ao mesmo tempo que lia outras coisas, até para repousar das dificuldades com que me debatesse. Este é um primeiro aspecto. Com Ulisses, afinal, esta tentativa de partilha não tem estado a dar certo, porque se trata de uma obra invasora: ocupa o espaço e o tempo, exige concentração, pede que voltemos atrás, às vezes que releiamos várias páginas que acabávamos de ler, sem perceber que as não tínhamos percebido. Mas, em geral, passo de um livro para outro. Não confundo, não misturo: digamos que, enquanto leitor, tenho heterónimos.

Por exemplo, neste momento, na minha cabeceira, está a Obra Reunida, de Juan Rulfo, que ainda não terminei; Infância, de Graciliano Ramos, que comecei há pouco; o extraordinário Mistérios de Lisboa, do Camilo - com um belíssimo prefácio de João Tordo, que me fez, entretanto, pescar, à estante, um livro da sua autoria, o primeiro, se não o único, que dele li: Hotel Memória, que é uma pérola!

Se a isto acrescentarmos que, por vezes, os livros sobre que aqui escrevo são simplesmente os de que me lembro e acerca de que me apetece escrever, muitas vezes sem os ter sequer relido - é o caso de Crime e Castigo ou de A Náusea -, com toda a falta de rigor que possa decorrer desses comentários elaborados unicamente a partir da memória, resolve-se o estranho mistério de um bloguista que, aparentemente, lê e escreve sobre dezenas de obras, mais rapidamente do que os seus próprios leitores o possam ler.

Não é um método: é um modo. É uma relação doentia com os livros. Há quem me fale em "reduzir", como se falaria a um fumador. É um gasto incomportável - por muito que recorra às bibliotecas, torna-se-me difícil entrar numa livraria sem "comprar" uma coisinha. Também, aqui, analogamente a um viciado - um alcoólico, que melhor faria mantendo-se à distância dos bares que lhe são as livrarias.

Referi, uns quantos parágrafos acima, um livro de João Tordo. Tenho de vos falar dele, um destes dias. Hotel Memória. Para vos deixar repousar da minha obsessão pelo Ulisses...

sábado, 17 de julho de 2010

PROUST & JOYCE

Segundo De Bottom, Proust e Joyce ter-se-ão encontrado, um dia, ou uma noite, numa das mais improváveis reuniões entre dois génios.
Consta que que mal falaram. A não ser, já não me lembro bem, para um pedir um lenço emprestado a outro. Qualquer coisa assim.

A originalidade e o génio de Proust são subtis. Tanto mais enormes quanto menos se dá por eles - a não ser no fim da leitura, quando, um pouco surpreendidos, sentimos que o nosso universo se transformou completamente e que não há nenhuma outra obra que se possa comparar à sua monumental busca.

Pelo contrário, a originalidade e o génio de Joyce são visíveis. Não diria "forçados", mas, muitas vezes, demasiado visíveis. Há como que uma orquestra de trombetas a anunciar cada diferença. Talvez por isso sejam menos duradouros no nosso espírito...

Um pouco como se, no exercício da ironia, Marcel Proust mantivesse uma delicadeza e uma candura tais, que alguns nem se apercebessem dela.
Enquanto James Joyce a escrevesse sempre em itálico, ou a sublinhasse, e precisasse ainda de acrescentar: Mas atenção, isto sou eu a ironizar!

O CAPÍTULO 3 DE ULISSES

É fascinante, de facto. (Ainda o terceiro capítulo).

1. Palavras inventadas, palavras longamente compostas. Expressões em latim, em alemão, pedaços inteiros de diálogos em francês que evoca de uma sua passagem por Paris. «Sua» de Dedalus, que parece ser, mas só até certo ponto, o próprio Joyce.

2. Pergunto-me como pode alguém ter traduzido uma tal obra. Terá sido a empresa de uma vida, certamente. Que Joyce haja escrito este romance demorado e complexo é já espantoso. Mas que um homem se tenha aventurado a traduzi-lo? Que profundo conhecimento do romance, que paixão, que domínio da língua portuguesa e da língua inglesa, que cultura, quanto tempo!

3. Será que, também, «ler» Ulisses deverá constituir a empresa de uma vida?

4. Nunca tinha lido integralmente a obra. Contudo, aqui, ali, reconheço excertos, às vezes bem longos, por onde já passara. A sensação de déjà-lu nunca me abandona. Porquê? Porque, nunca a tendo conquistado, a fui vagamente folheando? Não sei. Não me lembro.

5. Ou será porque, como no conto de Borges, também o Ulisses existe como ideia, prévia ao texto escrito?

6. O passeio pela praia, onde depara com apanhadores de ameijoas e descreve o teatro do seu labor, é notável. Bem como o modo como, em sua mente, de um momento para o outro, os vê como se fossem mercadores ou ladrões árabes, das mil e uma noites, ricamente paramentados, carregando despojos...

7. «- Farrapo! Fora daí, rafeiro!
«O grito trouxe-o de volta furtivamente para o dono e um brusco pontapé sem bota atirou-o ileso através de uma língua de areia, encolhido no voo. Escapuliu-se comprometido, num rodeio. Não me vê. Correu ao longo da beira do molhe, andou ao acaso, cheirou uma rocha e por sob uma pata traseira, erguida, mijou rapidamente numa rocha não cheirada. Os prazeres simples dos pobres. Depois as patas traseiras espalharam areia em todas as direcções: depois as patas dianteiras rasparam e cavaram. Algumas coisas enterrara ali a avó dele. Fossou na areia, esparrinhando, escavando e parou para escutar o ar, voltou a atirar areia com a fúria das garras, a cessar quase a seguir, um leopardo, uma pantera, engendrado em adultério, abutreando os mortos.»

8. Por outro lado, um exemplo irresistível de uma passagem sobre um monólogo interior, na sua sintaxe solta e desrespeitadora: «Vem. Tenho sede. O céu está a enevoar-se. Não há nuvens negras em parte nenhuma, não é verdade? Trovoada. Ele cai, todo luz, orgulhoso relâmpago do intelecto. Lúcifer, dico qui nescit occasum. Não o meu chapéu de concha e bastão e as suas minhas sandálias sapatas. Onde? Para as terras do poente. O poente a si próprio se encontra.»

QUASE DIÁRIO DE UMA LEITURA: AINDA ULISSES

Mas há passagens, páginas, capítulos que se tornam ininteligíveis.

O terceiro capítulo, com que me debato agora, é um exemplo. Eu diria que o equívoco reside neste pormenor: o puro exercício do pensar nunca pode ser lido por outrem. O seu movimento condutor é um fio interior, de si para si e, nessa medida, transparente ao próprio: posso, na minha mente, repetir obsessivamente uma palavra, posso associar palavras simplesmente por causa da semelhança da sua sonoridade, posso intersectar recordações, ou trautear vagamente refrões, ou até inventar neologismos; muito bem: tudo isso é a deslocação interior a que chamo, à falta de melhor, "pensar" - esse turbilhão de memórias, sons, sensações, repetições, ideias. Mas esse turbilhão tem, enquanto o vou construindo cá dentro, um sentido para mim, uma transparência. (Pelo menos num primeiro nível. Já sabemos que se me puser a "psicanalisar" esse primeiro sentido, descubro sentidos segundos, ocultos, recalcados, de que nem suspeitava...); ora essa "transparência" interior perde-se completamente no momento em que a transformo em palavras, em que a plasmo numa linguagem, a escrevo, a dou a ler a um leitor.

Há uma inundação delirante de imagens e frases (desvendando-nos o pensar de Dedalus), cujo sujeito da enunciação muda constantemente da primeira para a terceira pessoa do singular: não deixa de ser interessante; às vezes, neste monólogo interior, vejo-me como "eu", outras vezes como "ele". Mas também não facilita a vida ao leitor. Todavia, é, na verdade, muito belo. Como uma música, confesso, que não tem qualquer "significado", nem tem de o ter, ou como um poema, que nos cativa pela sua forma mas cuja semântica tenha deixado de importar. Num certo sentido, parece que somos arrastados pela torrente; estamos prestes a afogar-nos. Mas há pequenas rochas de sentido, há galhos que, não nos aguentando por muito tempo, permitem que respiremos fundo: refiro-me a situações que vão sendo intercaladas, de modo a não nos esquecermos do contexto - a visita a um tio doente - em que a torrente interior de Dedalus invade as páginas.

A propósito da experiência de se sentir arrastado nas águas vivas, sempre na proximidade do afogamento, não é fácil ir-se buscar um termo como «gostei» ou «estou a gostar».
Seja como for: é uma experiência cuja intensidade vale a pena...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

RECOMEÇANDO ULISSES, DE JAMES JOYCE



Mas, é claro, falar tão abundantemente de Ulisses como sendo o meu calcanhar-de-Aquiles, dói um bocado. Um tipo tem o seu orgulho. E um tipo com a mania de que é um leitor com talento só até certo ponto está preparado para admitir que um livro lhe resista assim.
Sei que não sou único. Chega-me aos ouvidos a existência, até, de um Clube de Pessoas que Odeiam Ulisses de James Joyce. Ser-me-ia mais fácil aderir a um tal clube do que regressar à monumental obra. Mas não é digno. Envergonhar-me-ia sempre desta fraqueza.

Tenho Ulisses em casa. Todavia, parte do mal reside no Ulisses que tenho ali na estante. Cansei-me tanto de lidar com ele, de regressar ao combate e ser sucessivamente vencido que, agora, quando me aproximo, sinto uma leve náusea. É tudo aquilo: a cor, a textura, o tamanho, a mancha laranja de humidade nas páginas, a própria tradução. Vem-me um fastio à alma, uma tristeza, uma frustração antecipada. Solto um suspiro. E reponho-o na sua prateleira.

Esta tentativa que faço agora precisa, portanto, de algumas modificações. Trago, da biblioteca, um volume de uma edição diferente. É uma mudança essencial. A capa continua a não ser lá muito bonita, mas esta tradução agrada-me. É a de João Palma-Ferreira.

Principio por ler a Nota do Tradutor. Depois, adentro a obra. E, curiosamente, ela deixa-se penetrar. À medida que sigo as linhas, vou pensando na possibilidade de fazer um diário da minha leitura de Ulisses. Não vale a pena, evidentemente. Descansem, não porei em prática a peregrina ideia.

Compenetro-me da escrita de Joyce, de uma tal correcção que nos apetece escrever assim. Não preciso, para exemplificar, senão das primeiras linhas:

«Pomposo, roliço, Buck Mulligan veio do alto da escada, trazendo uma tigela com espuma de barbear, na qual se cruzavam, em cima, um espelho e uma navalha. O roupão amarelo, solto, sustinha-o por detrás, gentilmente, a brisa suave da manhã.»

As palavras parecem compor quadros a partir de um mundo de pequenas coisas, pormenores quotidianos, oferecendo-no-los numa linguagem perturbadoramente poética para uma descrição tão irrisória. Mas, a partir desta tarefa de cantar o trivial e talvez até o mesquinho, há personagens que se vão desenhando nas suas manias, suas ideossincrasias, seus diálogos.
E os diálogos, misturando, uma vez mais, os interesses quotidianos e uma especulação complexa, têm, frequentemente, um tom surrealista, como se as ligações entre os temas fossem sempre feitas de uma forma aleatória, abrindo-se, a cada instante, uma inesperada porta de último instante...

Mas esse é o projecto de Joyce, como sabemos: estas ligações correspondem a um monólogo interior, que nunca é o fio lógico que os romances procuram habitualmente representar - como se o "pensar", enquanto exercício subjectivo, pudesse alguma vez ser a construção lógica e sintáctica de que nos convenceram. Na verdade, é mais esta estranha e imprevisível liberdade de que Joyce se aproxima; e que vai contaminando as páginas, nas associações incorrectas, nos desvios improváveis.

Não canto vitória. Leio Ulisses lenta e paralelamente a outros, que vou devorando com mais gosto. Estou no terceiro capítulo. Confesso que o segundo me foi particularmente interessante: uma aula de História de Stephen Dedalus, perante alunos sempre a um passo de exorbitar do respeito que lhe devem, seguida da conversa com o velho Director, Mr. Deasy, que vem para lhe pagar, lhe dar conselhos, para o provocar.

E então? Vamos andando. Já era tempo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

GRACILIANO RAMOS: ANGÚSTIA

Se me tivessem perguntado «Conhece Graciliano Ramos?», responderia prontamente que sim. Lembrava-me bem de ter lido diversos livros dele: Vidas Secas, por exemplo, São Bernardo ou Memórias do Cárcere.

Florinha Afável, que já percebi como o considera um autor maior, e vem trabalhando sobre ele, refere, porém, outros títulos, que eu ignorava: Infância, Insônia, Angústia.

A menção a Angústia, a propósito, se me não equivoco, da influência de Crime e Castigo, de Dostoievski, ficou a moer-me o espírito. E não descansei enquanto não trouxe de uma biblioteca vizinha o volumezinho, que tenho andado a ler.

E é, certamente, espantoso. Posso dizer que até se conhecer Angústia não se conhece realmente Graciliano Ramos. GR escreve de um modo delicioso, num tom queirosiano, mas com a bela e musical toada brasileira, na descrição de caracteres que, na sua vida remendada, convivendo de perto com a miséria e ausência de horizontes largos, farão escolhas inesperadas, e que - quase sempre - os condenam.

Encontro em GR um sarcasmo terrível, temível, que faz rir, sem dúvida, mas sempre amargamente. As suas personagens raramente têm bondade, raramente são positivas. (Em Dostoievski pressente-se, por vezes, o sopro de um anjo salvador). E no entanto, agrada-me muito essa dimensão tragicómica, que está sempre presente em Graciliano.

Querem ver Julião Tavares? Pois aí está Julião Tavares:

«Foi por aquele tempo que Julião Tavares deu para aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogiá-lo, mas disseram mentira. Julião Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíram. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor. No relógio oficial, nos cafés e noutros lugares frequentados cumprimentava-me de longe, fingindo superioridade:
«- Como vai, Silva?
« À noite chegava-me a casa, empurrava a porta e, quando eu menos esperava, desembocava na sala de jantar, que, não sei se já disse, é o meu gabinete de trabalho. E lá vinham intimidades que me aborreciam. Linguagem arrevesada, muitos adjectivos, pensamento nenhum.»

É, de facto, magnífico. Hesito: devo desvendar aqui uma peça fulcral do livro, um trecho-chave (a chave, aliás, do próprio romance), como exemplo fulgurante da sua escrita - a tal ponto ela aqui nos agarra, que o leitor parece oscilar, também, ora para trás, ora para diante, à medida da narração do crime? Não resisto. Ei-la, pois:

«Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto é absurdo, é incrível, mas realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas mãos apertadas afastaram-se. Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se. Exactamente o que eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim [...]. E larguei o corpo, que foi bater numa cerca, por baixo de uns galhos de árvore...»

É extraordinário observar como tão poucas palavras, escolhidas a dedo, constituem magistralmente uma síntese que passa, como um filme, na nossa cabeça.

Já trouxe para casa Infância. Já encomendei Insônia.
E os meus agradecimentos.

sábado, 10 de julho de 2010

DOSTOIEVSKI HÁ-DE VOLTAR PARA AGARRÁ-LA

Gosto muito de ler o blogue de Florinha Afável, embora, por vezes, me sinta um intruso, alguém que devassa uma intimidade, um voyeur. Todavia, é fascinante esse equilíbrio que Florinha consegue entre as suas confissões e a auto-análise destas, tudo servido por uma escrita muito viva, e pontuado pelas imperdíveis referências a livros, filmes, músicas que vai consumindo. Em suma, é, no mundo dos blogues, de uma originalidade extrema, que cativa e a que retornamos, como hipnotizados...

Soube, pelo seu blogue, informações algo intrigantes acerca da sua interacção com o Profissão: Leitor. A primeira, é que não tem conseguido comentar. Que tenta, que já tentou, mas lhe aparece uma sistemática mensagem de erro. Não sei que possa eu fazer quanto a isso, posto que não sou um às dos computadores. É uma notícia simultaneamente alegre (Florinha tem querido comentar) e triste (os comentários não aparecem...)

Do mesmo modo, uma sua outra notícia alegre-triste dá conta de que decidiu, seguindo um post meu, ler Crime e Castigo - e que não gostou taaaanto como esperava! Apesar de!

Que dizer, cara autora-leitora longínqua e próxima, senão que às vezes é duro sentirmo-nos responsáveis por conselhos que acabaram não sendo bem-sucedidos? Nunca escrevo para fazer estilo, amiga Florinha, e se não me custa assumir que há livros e escritores consagrados que nunca penetrei para lá das primeiras páginas (olhe, Ulisses de James Joyce: não fui capaz, não fui capaz, não fui capaz...), outros há que me agarraram com seus tentáculos - e certamente isso ocorreu com Dostoievski todo, que é, do meu ponto de vista - e não me atire já para o caldeirão dos infernos -, um psicanalista frequentemente muito mais profundo e interessante do que o próprio Freud. Basta, precisamente, ler Crime e Castigo para confirmar o que digo. Está lá tudo, avant-la-lettre. Tudo! A psicanálise, o existencialismo, o próprio Joyce (que não li, mas pelo que me parece...).

Mas, claro, se isso nos indica a importância e a grandeza da obra, não obriga a que dela gostemos. Espero que Florinha não tenha dado o seu tempo por inteiramente perdido. E, já agora, não deite fora Crime e Castigo: Dostoievski é um escritor enorme, original e observador, Florinha é uma escritora e uma leitora sedenta, fina e sensível - e as belas almas estão por força destinadas a encontrar-se, mais tarde ou mais cedo.

domingo, 4 de julho de 2010

PEDRO PÁRAMO, POR JUAN RULFO


Uma vez imaginei como personagem de um conto que escrevi, um escritor da América Latina que, sem ter chegado a publicar coisa alguma, acabaria por se tornar uma influência secreta e fundamental de toda a literatura latino-americana: quer porque falava, com amigos escritores, em encontros e tertúlias de café, acerca do que andava escrevendo; quer porque enviava, a editoras, manuscritos que nunca foram aceites mas, entretanto, passavam pelas mãos de escritores vários, que, inconscientemente ou não, os digeriam e reproduziam. De maneira que o seu estilo e as suas ideias iam marcando, semeando, correndo como uma força subterrânea, nunca tendo visto a luz do dia. O irónico contra-senso reside em que, muitos anos após a morte desse autor, quando os amigos se reúnem para lhe publicar finalmente a obra completa, descobrem, relendo-a, que esta parece uma gigantesca manta de plágios, uma série de cópias e de inoriginalidades, como se não tivesse sido ele o verdadeiro mas oculto modelo, o obscuro inspirador, o ignorado influenciador.

Há poucos dias, ao deparar com a Obra Reunida de Juan Rulfo e, aí inclusa, a notável novela Pedro Páramo, não consegui evitar um sobressalto: porque Juan Rulfo, escritor mexicano falecido em 1986, é perturbadoramente semelhante àquela minha personagem, na sua discrição e no desconhecimento que rodeou praticamente tudo quanto escreveu:
mas, não obstante, escritores ilustres como Gabriel Garcia Márquez, que o prefacia, Octávio Paz, Pablo Neruda, Juan Carlos Onetti ou Jorge Luís Borges são unânimes em reconhecer que estava lá, em gérmen ou explicitamente, o que viria a indicar quase todos os caminhos importantes das literaturas hispânicas, do realismo fantástico às estranhas geometrias borgesianas.

Pedro Páramo é, sobretudo, um texto inesquecível. Susan Sontag escreve: «Não é apenas uma das obras-primas da literatura mundial do século XX, é também um dos livros mais influentes do século, tanto que será difícil sobrestimar o seu impacto na literatura de língua espanhola.» Não é um romance - aliás, preferia chamar-lhe novela -, não é um romance fácil: os tempos misturam-se, de modo que nos precipitamos de um episódio para um outro anterior, ou posterior; o espaço dilui-se, ainda que a narrativa se concentre num lugar chamado Comala, onde, por sua vez, também os mortos e os vivos se confundem, e se encontram, hesitando, muitos vezes, acerca do seu estado. Estou morto? Estou vivo? Está morta? Falei agora com a tua mãe. Não é possível, minha mãe morreu há muito tempo...

Afirmar que se trata de um livro «difícil», significa que uma certa maneira de ler, rotineira, que se apega preferencialmente a um traçado de sequências lógicas e cronológicas, tem dificuldade em adaptar-se a esta narrativa em que tudo se funde e difunde: perdemo-nos no tempo ou na idade desta ou daquela personagem ao longo da história. (E, porém, impressiona como, a uma segunda leitura - porque este é um livro que carece de uma segunda leitura, claro -, tudo se encaixa luminosamente. Não há qualquer desleixo na oficina de Rulfo, existem uma ordem e uma lógica subjacentes, de um rigor impecável; Garcia Márquez lembra que o rigor é tal, que nem entre o tipo de plantas referidas, o lugar e a estação do ano há desacertos...)

Em todo o caso, se, num momento inicial da primeira leitura, sentimos que nada é dominado por nós, pelo leitor, a verdade é que se goza ininterruptamente esse modo de contar: porque a linguagem de Rulfo toca-nos sempre fundo. Pedro Páramo é um poema. E, tal como é vocação de toda a poesia, a sua missão é criar um mundo. Nesse mundo, chocam-se furores e movimentos aquém ou para além de toda a moral. O amor e o ódio, a vida e a morte.

E sublimemente se chocam, e se reúnem, e se desunem, na demanda de um tempo glorioso que há-de vir. O redentor reencontro dos amantes infelizes.

sábado, 3 de julho de 2010

MILLÁS DE NOVO: OS OBJECTOS CHAMAM-NOS


Os objectos chamam-nos, decerto.
Exemplo de certo objecto que, acontecendo estar na proximidade, nunca deixo de ouvir chamar por mim, é um livro de Juan José Millás.

A escrita de Millás não tem a menor particularidade que surpreenda. Muito simples e agradável, isenta de especiais acrobacias estilísticas, clara e fluente mas comum. O que diferencia os textos deste autor é a forma como nos expõem um mundo próximo e estranho, de uma singularidade maravilhosa.

O planeta Millás tem um lado politicamente incorrecto que, no entanto, não choca, porque se não assume provocatoriamente: antes com a ingenuidade de uma criança que não tivesse tido tempo de interiorizar e aprender a lidar com determinadas convenções.

Aliás, a perspectiva é sempre a de alguém que não cresceu: muito do seu humor radica nessa transferência incompleta, para o mundo dos adultos, de um adulto que só exteriormente o deveio; as referências e a lógica de Juan José Millás dizem respeito aos desenhos animados e aos mitos infantis: a presença distante e protectora da mãe, os amigos invisíveis, o desejo sexual que se desenvolve na visão de um manequim (um boneco de montra), que sua das axilas...

Algo de perverso assombra de maneira fascinante este universo. As referências infantis são desordenadas a partir de impulsos quase patológicos. Poderia inventar uma espécie de conto policial em que alguém assassina, precisamente, um amigo invisível?

Com Os Objectos Chamam-nos estamos perante qualquer coisa que não saberíamos classificar adequadamente: pequenos textos desligados, que poderiam ser contos de duas, três páginas, mas nem sempre têm a forma habitual de contos - às vezes, dir-se-ia que se aproximam de observações ou de memórias; mas mesmo quando nos mergulha em pleno absurdo, por alguma misteriosa razão fá-lo com uma seriedade e uma credibilidade que se tornam profundamente realistas. Como se a sua tarefa fosse a de mostrar que certos impossíveis são, contudo, incontestáveis factos.

Millás é de uma graciosa originalidade. O seu humor é contagiante. Já no livro que anteriormente dele lera, me tinha sucedido rir alto, atingido de frente pelo cómico de uma situação narrada. Rimo-nos, às vezes, por aproximação - aquele não seria exactamente o nosso humor, mas anda perto: o humor de Millás não me faz rir por aproximação. Atrai as minhas gargalhadas com a maior das simplicidades, e elas comparecem. É fatal.

JEAN-PAUL SARTRE: A NÁUSEA

É verdade que foi uma síntese da filosofia de Sartre, descoberta - tinha eu dez anos - num compêndio de capa dura, roxa, e que pertencia ao meu irmão, o que decidiu a minha vocação filosófica. Mas, reconhecida e agradecida esta influência, posso hoje confessar que considero Sartre um filósofo estimulante mas pouco rigoroso, de alguma forma menor; e um escritor sofrível, porém com três execpções que bastariam para o consagrar: Les Mouches, Les Mots, La Nausée.

A Náusea é uma obra-prima de perspicácia, urdida, toda ela, à volta de uma consciência, a do protagonista e narrador, que, ao mesmo tempo que se confronta com a sua inequívoca autenticidade, sente uma espécie de repugnância visceral em relação ao mundo: as coisas, na sua consistência, o material, o corpóreo, numa fixidez sensorial e nojenta.

Mas também os outros homens, as outras consciências, se lhe vão revelando numa fuga à autenticidade que lhes compete: como se temessem a transparência, a responsabilidade e a angústia próprias das consciências e, ao invés da liberdade, preferissem ancorar-se ao mundo. Os homens tornam-se, pois, "coisas" do mundo, fixas, entre preconceitos e ideias feitas, estatutos, convenções. É fascinante essa percepção da má-fé da humanidade, tal como nos aparece representada na série de indivíduos que habitam a pequena povoação onde tudo se passa.

Mas "tudo" o que se passa é pouco - é, a bem dizer, quase nada: uma revelação negativa (tal como em Vergílio Ferreira, cuja Aparição tanto bebe em A Náusea), ou seja, a revelação da repelência perante a natureza das coisas, como se, ao "pesar" sobre nós, o mundo nos aspirasse e nos fosse transformando em seres cada vez mais fixos e previsíveis, como árvores, como pedras. Rotuláveis, rotulados: o senhor doutor, o senhor professor, a mulher de má vida, o humanista - penso na impressionante e extraordinária personagem que é o «autodidacta», cheio de amor (abstracto) pela humanidade (abstracta), vivendo para os livros que devora metodicamente, numa biblioteca, por ordem alfabética dos autores.

Sentimos piedade por estes homens. Pelo autodidacta, concretamente - pela sua ingenuidade, pela sua esperança, pela sua fé na marcha do progresso: mas podemos não compreender o narrador deste texto (Antoine, se me não engano... Antoine quê...?) quando, numa consciência superior e cínica, detecta as ilusões dos que o rodeiam e, ao contrário do autodidacta, vê germinar em si uma anti-fé na humanidade, um rancor, uma tristeza - uma náusea?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

ANTÍDOTO

O que vou dizer acerca da literatura é, evidentemente, válido para toda a arte. Mas, num blogue acerca de livros, não fica mal recordar que a literatura em especial é um antídoto eficaz contra a xenofobia.

Porque, perante o madrileno arrogante que me grita aos ouvidos, numa loja de Madrid, posso sempre pensar: «Estes espanhóis são tramados!»; ou suceder-me digerir dificilmente que a selecção espanhola nos tenha eliminado do Mundial. Mas, por muitos preconceitos que a relação quotidiana com los hermanos alimente, nada me fará não amar o povo em que foi produzido D. Quijote de La Mancha.

O ponto é este: português ou não, trago o Quijote dentro de mim. É património meu. Faz parte do que sou: de como olho, de como sinto, de como penso. E, claro, nessa medida, Cervantes é meu irmão.

terça-feira, 29 de junho de 2010

GEORGE ORWELL E A SOCIOLOGIA



Sei, de há muito, que George Orwell é um autor proscrito. E tenho observado que sobretudo da margem esquerda da política é que surgem os seus detractores mais ferozes e implacáveis. Um colega meu, comunista, tratou-o uma vez, furiosamente, de: «esse escritor fascista».

Ora se atentarmos no percurso de Orwell, no modo como, mais do que dissertar acerca de - ele viveu efectivamente em meios proletários e entre as classes trabalhadoras; acompanhou os mais pobres; sofreu, com eles, a miséria que descreveria em textos magníficos - um dos quais Maria Filomena Mónica não hesita em considerar a obra capital da sociologia -; e se atentarmos, principalmente, na sua participação na Guerra Civil de Espanha, do lado das forças anti-franquistas - experiência de que resultaria uma outra obra maior: Homenagem à Catalunha -, percebemos que não resta qualquer lugar para equívocos. Orwell foi um homem e um escritor politizado e revolucionário, desassombrado e crítico. Um homem e um escritor de esquerda, obviamente.

...Mas, repito, crítico! Aí é que está o busílis. Porque os seus livros políticos - 1984 e Animal Farm - são obras que não poupam a União Soviética de Estaline: vivia-se um tempo histórico em que, para toda a esquerda, a Rússia se tornara incriticável. Vivia-se um período aparentemente decisivo, em que os não-alinhados tinham de "alinhar", ou seja, mesmo permanecendo subjectivamente críticos do estalinismo, se o eram, deviam calar a boca e aliar-se-lhe objectivamente, assumir-se como compagnons de route, quer dizer, «idiotas úteis», sob pena de estar a fortalecer o campo inimigo: mas George Orwell optou por não calar coisa alguma.

É verdade: as críticas que dirige ao comunismo na sua versão estalinista e, precisamente, por outro lado, aos idiotas úteis, os intelectuais socialistas, de hábitos e tiques burgueses e ideias radicais, são verdadeiramente polémicas e devastadoras. Terá, por vezes, exagerado? Pessoalmente, penso que não. Identifico-me até ao fundo com os textos em que ridiculariza realisticamente esse típico esquerdista de salão, desgrenhado, mal vestido e vegetariano (a que hoje acrescentaríamos o inevitável lenço à Arafat, mas é, no esqueleto, uma personagem de sempre), muitas vezes pouco higiénico por, digamos, opção ecológica. É uma crítica pequeno-burguesa? É uma crítica estreita? Uma raivinha de quem está ainda demasiado preso aos modelos convencionais? Quem sabe?

Estou com Maria Filomena Mónica. Animal Farm é uma fábula interessante, mas datada. 1984 é um livro a que devemos regressar sempre, porque nos descreve brilhantemente os mecanismos da construção totalitária que, mais do que proibir ou castigar, molda e manipula a linguagem, vai criando uma nova língua e, através dela, sub-repticiamente, uma certa forma de pensar. Não é, contudo, nos seus romances que encontramos o que George Orwell nos dá de melhor: é nos testemunhos, é nos textos sobre a guerra, sobre a vida num colégio inglês, o trabalho nas minas, as famílias de classe baixa ou a passagem por um sinistro hospital francês para desvalidos. É na descrição dos homens imperfeitos e esperançados, ou imperfeitos e desesperados. É na exposição da sociedade - e de qualquer sociedade, seja um colégio, um hospital ou uma comunidade - como um conjunto de séries, hierarquicamente dispostas, de opressões sobre opressões. Já sabíamos? Marx já tinha posto o dedo na ferida? Estava tudo dito? Ah, não com tanta vivacidade, não deste modo que nos faz ver de tão perto; talvez com mais profundidade e rigor intelectuais, mas não com tamanho talento, sensibilidade e espírito de observação.

domingo, 27 de junho de 2010

O MISTÉRIO EM A. M. PIRES CABRAL


Aprecio o estilo e as histórias de A. M. Pires Cabral.
Descobri-o com um romance muito belo, na sua escrita elegante, discreta e fluente, O Cónego, que se vai armadilhando em torno de um mistério que as personagens pressentem na leitura de certos papéis sobre o passado de (é claro) um cónego.

Se todo e qualquer romance tem, no seu melhor, que ver com um "mistério" (a dialéctica, afinal, entre o que se conta e o que se oculta), é talvez nesse jogo de escondidas com o leitor que encontramos um dos mecanismos para a separação das águas: o demarcar, dos grandes romances, os romances menores.

Depois li São Cirilo, cronologicamente anterior, completamente diferente, ao jeito de uma alegoria: mas, o que é curioso, encontro nessa novela antiga de Pires Cabral a mesma forma interessantíssima de lidar com o mistério. Não vale a pena desvendá-la, seria uma perda para o leitor que o queira ler e descobrir por si. Digamos, de uma forma também misteriosa q.b., que, nos textos do autor, o que o leitor ignora e o espicaça é sempre tratado ao contrário de como o deveria ser num romance policial.

Que dizer? Deixei-me seduzir completamente pela escrita de A. M. Pires Cabral. Tendo iniciado ontem um seu livro de contos, editado pela Cotovia, e que é, com outro título (O Porco de Erimanto), a recuperação de uma obra de juventude, agora rescrita e com alguns contos mais, reencontro, num estilo menos discreto, extremamente irónico, assumidamente queirosiano, a limpidez da narrativa, a obscuridade de um mistério.

É encantador.

domingo, 20 de junho de 2010

DEUS E JOSÉ SARAMAGO


Saramago foi, malgré-lui, o mais cristão dos escritores portugueses. Não tanto por causa do seu tão difundido "humanismo", mas pelo facto de ter erigido o Deus cristão, a Bíblia e o próprio Cristo a adversários arquetípicos e tema obsessivamente único. Os seus últimos anos foram vividos nesse desvario de boneco com o mecanismo sonoro quebrado: Não há Deus, não há Deus, não há Deus!; essa fúria mostrava-nos uma revolta similar à de Lúcifer ou de Caim, que é sempre, em última instância, a de um filho contra o pai.

Saramago foi um escritor de extraordinário talento: fez mais pela língua portuguesa do que todos os acordos ortográficos, todos os Institutos Camões no movimento de se implantarem pelo mundo fora, ou as tentativas de intercâmbio promovidas pelo governo. Fez mais pela literatura portuguesa contemporânea (num país em que a grande referência literária se resume a uns quantos jornalistas que resolveram escrever romances) do que a sede devoradora da Editora Leya mais os seus prémios literários.

A personagem embirrante e maledicente em que se instalou, na qual se tornava difícil separar o génio do mau génio, ou os cursos de banalidade que prodigalizava nas entrevistas que ia concedendo, deixavam-me sempre algo perplexo: É isto Saramago? É isto o nosso Nobel? Este conjunto de chavões e de frases feitas, esta raiva irreflectida?!

Nunca fiz inteiramente as pazes com Saramago; mas, lendo alguns dos seus melhores livros, o memorial, o evangelho, Ricardo Reis, as intermitências, a viagem, talvez Caim, estou seguro da sua absolvição. Se Deus, a existir, for um leitor de bom gosto (e teria de ser, é claro), Saramago está no céu, Sousa Lara nunca para lá irá.

Reconciliei-me? Até ao ponto, somente, em que a morte tudo e todos reconcilia. Mas apetecia-me principiar a relar o Memorial do Convento.

terça-feira, 15 de junho de 2010

NABOKOV: O LIVRO PROIBIDO


«Florinha Afável» escreveu no seu blogue, há longos meses, acerca de um «clássico» que acabara de ler. Lolita, de Nabokov. Pensei comentar - não sei, aliás, se cheguei a fazê-lo; pensei aproveitar para escrever o meu próprio post sobre Lolita. Não era o momento. Não o fiz.

Nabokov escreve muito bem - e tanto nos seus contos mais curtos como nas suas novelas e nos romances demorados, o texto nabokoviano constitui sempre uma fruição para o espírito, ora na contenção com que, em frases breves, acerta no núcleo de uma determinada emoção; ora no espraiar-se paciente, rebuscado, gongórico, de uma expressão que vive das mais conseguidas figuras de estilo. Mas, claro, seria pouco corajoso da minha parte que, para comentar um dos livros da minha vida, me refugiasse - e precisamente por se tratar de Lolita - na perfeição estética da escrita.

A questão, se quiser enfrentá-la crua e friamente, é que Lolita (não há quem o não saiba) tem que ver com um pedófilo e a sua fixação por uma ninfeta: precisamente Lolita.

Há outras histórias acerca de monstros, é certo: tome-se, por exemplo, Hannibal Lector, em O Silêncio dos Inocentes. Não podemos deixar de sentir algum miserável fascínio pela personagem hedionda, pelo seu requinte, pela elevação a arte dos seus actos horrorosos. Mas, ainda assim: sabemos que, na tensão que o romance desenha, temos sempre uma pessoa certa com cujo ponto de vista nos possamos identificar, a personificação do Bem e, simultaneamente, da inocência. Em Lolita, não encontramos essa possibilidade. Estamos face a face com Humbert Humbert. Estamos face a face com o mal.

E, curiosamente, se não é tanto o fascínio que aqui nos move, é a piedade e a compreensão em relação à tortura obsessiva de um homem de meia idade perante uma paixão descontrolada e doentia por uma garota de doze anos. E, de facto, não poderíamos não falar, aqui, de «paixão»: uma paixão imoral e proibida, intolerável e repugnante, psicótica, mas também triste, amargurada, sofrida, dilacerante.

Será o momento de nos perguntarmos se, ideologicamente, Lolita pode ser visto como um branqueamento da pedofilia. Não pode. De forma nenhuma. Primeiramente, porque seria um erro crasso reduzir a mera "ideologia" o conteúdo de uma das mais complexas, intensas e contraditórias obras de arte, que se assume, toda ela, no risco e na coragem de tomar como protagonista e narrador (alguém, portanto, que nós, leitores, seguimos, perscrutamos e a cujo pensar temos acesso) uma figura limite, execrada pela moral da nossa civilização. Precisamente: é no limite, ou mesmo para além de todos os limites, que as obras de arte valem a pena. Não simpatizaremos com Humbert Humbert, não o toleramos, nem à sua astúcia, nem ao seu desejo lúbrico. Odiamo-lo; e odiamo-nos a nós mesmos por não o odiarmos sempre e por não o odiarmos linear e liquidamente. Mas é uma história trágica e tremenda, uma história de infelicidade, inesperadamente maravilhosa e febrilmente cruel.

No pior da humanidade - e é terrível, talvez, intuirmo-lo assim - nunca estamos perante o outro de nós, o inverso da nossa tranquilidade racional. Estamos, quando muito, numa insondável e obscura dimensão humana. Algures, próxima. Porque é inegável que o sofrimento, as ideias, os medos de Humbert Humbert nos são acessíveis: há, entre nós, algum tipo de comunicação - não se trata de o explicar, nunca se cuida de aqui "psicologizar" ou "psicanalizar" o malfeitor, nunca de o compreender. É, num certo sentido, ainda pior: mais do que revelar como, sob o mal, encontramos razões humanas, o que se revela é como toda a razão humana está contagiada pelo mal e com ele se mistura e confunde perversamente. O mal rararamente é inumano. Ou, sequer, inteiramente irracional.

terça-feira, 8 de junho de 2010

APÓS LER RAY LORIGA: HERÓIS


Descobrir algo à luz de expectativas elevadas pode ser esmagador. Se me disserem, por exemplo, «Este é o melhor livro de sempre» (e, atenção, ninguém mo disse), põem-me perante uma ideia reguladora, aprisionam-me numa forma. Loriga muda, efectivamente, a nossa maneira de ler, de lidar com a linguagem e de ver o mundo, mas não devem prometer a mudança antes de começarmos a lê-lo, não devem garantir-nos antecipadamente a transformação, através dele, antes de termos principiado a transformar-nos por ele: do mesmo modo que se não aprende a nadar primeiro, para se entrar na água depois - aprende-se a nadar nadando.

Há almas criadoras que forjam unidades mais ou menos totalitárias, e outras que fazem do fragmento e da dispersão uma forma de arte. Ray Loriga, semelhantemente a Montaigne, com quem lhe encontro subtis afinidades, é uma destas últimas.

Em Loriga , a fragmentação tem que ver, primeiramente, com a observação de uma realidade que se apresenta, ela mesma, fragmentária, múltipla, volúvel, mutável, sem coluna vertebral nem razão de ser: a linguagem do autor exprime esse permanente espanto perante a inquietante multiplicidade. Mas, ao invés de conduzir toda a variedade a um Uno, a Deus, a uma narrativa, uma certeza, ensaia, em cada momento, as mais insensatas e imprevisíveis ligações. É uma forma de humor, sem dúvida. A estranheza das suas enumerações, por exemplo, em que vai coleccionando o que nada parece ter em comum, mostra como opera essa linguagem que tudo atrai sem verdadeiramente desenhar um fio.

Mas é certo que essa "perplexidade magnética", chamemos-lhe assim, cria uma forma absolutamente nova e originalíssima de interrogar a realidade. Porque o mal radical da "interrogação", é que se torne demasiado sábia - ou previsível, o que vai dar no mesmo. Sinto uma espécie de aversão imediata por aqueles alunos que me fazem perguntas preparadas, ensaiadas, estudadas, perguntas que não têm que ver com curiosidade (a curiosidade é sempre inocente), mas com exibição, "vejam como eu pergunto tão bem, reparem como a minha pergunta é inteligente»: em Ray Loriga, as perguntas são impossíveis, ilógicas; nunca vêm da superfície mas do recôndito, do secreto, dos intertícios, do outro lado do espelho.

E, portanto, sim: sem forçar, sem ter de chegar a uma conclusão que fora previamente imposta sob a forma de expectativas, mas porque eu, leitor, percebi, por fim, que me entregara a um texto que nunca se me entregou (porque se manteve seguro na sua personalidade e diferença, porque me desafiou e exigiu de mim, do princípio ao fim...), não posso senão concordar com Tiago Torres da Silva, que mo tinha recomendado. Heróis muda a maneira de um gajo olhar para as coisas. Irónico e pessimista, ingrato, estranho e inocente. Muda tudo.

sábado, 5 de junho de 2010

RAY LORIGA: PRIMEIRAS IMPRESSÕES


Leio este livro na iminência de uma revelação que não se dá: ou não se deu, ainda.

Explico melhor:
Tiago Torres da Silva (sorridente, na primeira foto), o extraordinário letrista de algumas das mais belas canções que conheço em língua portuguesa - mas também em crioulo e, ultimamente, em castelhano -, convidado a vir falar à Biblioteca da minha escola, dizia-me depois, numa animada conversa que oscilava perigosamente, como no passeio de um bêbedo, entre diversos temas:

«Já leste Ray Loriga? É um autor espanhol. É fantástico, é fundamental. Tens de conhecer: a tua visão da realidade e da escrita muda radicalmente. Foi a minha mais decisiva influência, nos últimos tempos...»

Não conhecia Ray Loriga. Mas fiquei impressionado e ansioso por mergulhar na sua obra.
Na livraria, que sim, sabiam de que se tratava, estava até traduzido; mas que, de momento,
se encontrava esgotado. (Tiragens pequenas; nenhuma reedição...). Se, todavia, eu quisesse esperar que mandassem vir...

Esperaria, é claro. Encomendei. Foi até essa a razão pela qual deixei o blogue em suspenso: o meu próximo texto teria de ser sobre Loriga.
Ontem, dirigi-me de novo à livraria. E Ray Loriga esperava-me, num livro publicado pela Difel em 1998, Heróis. Comecei a lê-lo imediatamente, sentado num banco à porta da livraria, aguardando ser arrebatado, levado por entre anjos, ao som de Bowie.

Infelizmente, porventura porque as expectativas eram insuportáveis e deslocadas, pressinto em cada linha promessas, mas não as vejo cumpridas (é sina!), como se entre o leitor que sou e a verdade radicalmente transformadora do texto não houvesse senão uma leve película que, no entanto, maldita película!, não me deixa passar, não me deixou ainda passar.

Claro que serei paciente e claro que serei justo. Percebo que o facto de estar a chapinhar à beira de água não prova que, uns passos mais adiante, esta água não devenha oceano. E, portanto, para o bem ou para o mal, o meu post sobre Ray Loriga está ainda por ser escrito. Só não quis deixar de partilhar também estas primeiras impressões de leitor à descoberta, de ansioso compulsivo, de homem com vontade de ter Fé, que ergue os braços ao céu e grita: «Mas então, Deus? Mostras-te ou não te mostras!?»