domingo, 14 de março de 2010
À VOLTA DE TÍTULOS
Mas há, evidentemente, qualquer coisa de pessoal na maneira como um título nos agarra, ou, pelo contrário, nos agride, e que tem que ver com a experiência própria de cada leitor: cruzamentos e coincidências que despertam e surpreendem, em cada um, memórias e sensibilidades carregadas e prontas a explodir à menor das faíscas.
Já aqui falei sobre três títulos que me parecem achados perfeitos. O Homem sem Qualidades . Ó. Dramaticamente Vestida de Negro. Sê-lo-iam para todos?
Em Busca do Tempo Perdido é, em si mesmo, um nome muito forte e bonito, embora o prefira em francês: À la Recherche du Temps Perdu - que, todavia, nunca agradou ao seu autor, Marcel Proust, «em busca» de outra coisa qualquer.
Nenhum, porventura, me parece tão conseguido como Um Estranho numa Terra Estranha, que li em adolescente e, há algum tempo, uma amiga em suspenso me tornou a emprestar e me agradou reler. (Não tenho "ex-amigos". Mas há, por vezes, amizades que, devido ao desgaste, ao equívoco, à diferença de personalidades ou de interpretação dos factos, acabam ficando entre parêntesis por algum tempo...).
The Catcher in the Rye parece-me um excelente título, que não se consegue verter em português. Os Detectives Selvagens também está prenhe de promessas. A Náusea é um nome que choca, talvez, mas a que, inegavelmente, não conseguimos fugir. Fascínio/repelência, belo/horroroso.
Atrai-me Viagem ao Fim da Noite. Dez Dias que Abalaram o Mundo condensa, de um modo admirável, a revolução sobre que o livro se debruça. Crime e Castigo é um livro que compraria só por se chamar como se chama.
Uma Abelha na Chuva é este título belíssimo, de uma poesia melancólica. Sinais de Fogo é um nome suficientemente intrigante. O Livro de Areia também.
A Casa da Morte Certa parece - enganadoramente- reenviar para um policial, com um mistério que chama por nós a partir de uma certa casa. É certo que grandes livros possuem títulos, deste ponto de vista, completamente errados. Gente Feliz com Lágrimas é de um mau-gosto atroz e atroador. Claro, estamos no plano do que é estritamente pessoal.
Fogo Pálido é encantador. Mais belo, ainda em inglês, ora pronunciem lá: Pale Fire. Ou Por Quem os Sinos Dobram, não concordam? Ou Os Passos em Volta.
Porventura, estou enganado. Alguns títulos tornaram-se tão perfeitos para mim somente depois de haver conhecido a obra, e porque, conhecendo-a, deixei de ser capaz de pensar naquele título em abstracto, sem o associar de imediato ao conteúdo, da mesma maneira que tal romance já não é nem seria concebível separadamente do nome que eternamente vestiu e para sempre se lhe adequou.
sábado, 13 de março de 2010
FERNANDA BOTELHO: DRAMATICAMENTE VESTIDA DE NEGRO

Um título é muito importante. Corrijo: é fundamental.
Trata-se da parte da obra a que temos imediata e publicamente acesso, isto é, antes de a tornarmos unicamente nossa; mais: trata-se da pele - daquela superfície a partir da qual decidimos se, de facto, vale a pena tornar unicamente nossa a substância. (Comprar, levar, abri-la e amá-la).
Livros há que poderíamos comprar mesmo que não soubéssemos nada acerca deles. Só porque o título enuncia um programa que nos fisga. Ou porque nos surpreende admiravelmente. Um exemplo do primeiro caso: O Homem sem Qualidades. Um exemplo do segundo: Ó.
Acerca de Fernanda Botelho, tenho uma história para contar que tem que ver com a forma como o título é, muitas vezes, a antecâmara a partir da qual nos entusiasmamos, ou permanecemos indiferentes, ou nos afastamos.
Antes de conhecer a sua obra, ocorreu, com esta, o meu primeiro contacto sob a forma de um título que me caiu nos olhos: Esta Noite Sonhei com Brueghel. E, apesar de gostar tanto da pintura de Brueghel, odiei de tal forma o título, pedante na sua remissão directa, gratuita e excessiva para a cultura e para a sofisticação, que se começou a elaborar então, inconscientemente, o meu preconceito contra Fernanda Botelho.
Nós somos assim. Eu sou: imponderado, com ideias calcificadas por causa de algum rumor ou de algum título que me tenha caído mal, ou de uma frase, ou de uma interpretação pouco cuidada. Redime-me, de certa forma, a capacidade para, quando o destino me apresenta uma
segunda oportunidade, repensar o que já parecia enraizado, rever o que vira precipitadamente, reconstruir a perspectiva, acabar apaixonando-me, se for caso disso, pelo que, num início errado, começara por detestar ou desprezar.Assim sucedeu comigo como leitor de Fernanda Botelho. Felizmente, graças a um outro título: Dramaticamente Vestida de Negro. Há, neste, qualquer coisa que fascina: o apelo de um segredo ou de um mistério, como se se tratasse de uma novela policial, o apelo de uma dimensão sombria ou, pelo contrário, histérica, como se o «dramaticamente» do título evocasse uma representação cabotina e excessiva, um qualquer "overacting".
O meu amor pela obra de Fernanda Botelho tem, depois de uma falsa partida, esse maravilhoso recomeço. Porque Dramaticamente Vestida de Negro é um romance maior acerca da solidão e da idade, com uma construção cerebral, que se observa na "gestão" (palavra horrorosa, reconheço!) que a narradora faz do que quer ir contando ao leitor, de modo que haja sempre um veio que não descobrimos senão no momento certo; mas, ao mesmo tempo, essa construção cerebral, friamente calculada para nos ir surpreendendo, não abafa a emoção - e esse equilíbrio entre o pensamento e a sensibilidade, a que, como sabemos, toda a literatura deve tender, porém, na prática, só os grandes escritores conseguem realizar, fez-me, como um cientista que houvesse descoberto um dos pilares do universo, procurar e ler, um a um, todos os romances de Fernanda Botelho. De alguns, gostei menos. (A Gata e a Fábula não veio a ser um dos meus preferidos). De outros, gostei muito. (Acho primoroso Lourenço é Nome de Jogral, mau-grado algum cepticismo em relação ao título). Mas, de nenhum, gostei ou gostaria tanto como de Dramaticamente Vestida de Negro: Ah! Os primeiros amores. Os amores que nenhum outro substituirá...
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terça-feira, 9 de março de 2010
NUNO RAMOS: Ó
A EXPECTATIVA.
Este era o livro impacientemente aguardado. O mais ansiado durante os últimos meses. Por que razão? Oh, por várias: porque devo reconhecer que pouco conheço de entre os novíssimos da literatura brasileira, e me mantenho curioso; porque todas as abordagens, em que ia tropeçando, feitas a esta obra - Prémio PT em Novembro de 2009 -, davam conta de uma certa perplexidade em relação ao género: de que se tratava exactamente, afinal? Não tanto um romance, não crónicas também, nem contos, nem propriamente ensaios, mas algo que se representaria num cruzamento dessas possibilidades, sem se acantonar especificamente em nenhuma, sem se esgotar em qualquer delas, antes fluindo entre categorias, numa recusa de limites pré-fabricados; porque me remetiam explicitamente para Proust e Montaigne, dois escritores que admiro: só o facto de que um autor contemporâneo os conheça e os reivindique como mestres constitui, do meu ponto de vista, um ponto a seu favor. E, «last but not the least», porque tive a oportunidade de debicar algumas entrevistas concedidas por Nuno Ramos - em jornais, revistas, na rádio -
e, de todas as vezes, deparei com um homem tímido, perspicaz e sensível.
Era este, portanto, o meu estado. Por causa de tal estado, aliás, não foram poucas as vezes que entrei, ultimamente, em livrarias, só para perguntar: «Já tem Ó?». (É o título da obra). E devolviam-me sempre a pergunta: «Ó?!», sem saber se eu estaria a brincar.
Finalmente, confesso, a publicidade e o marketing terão tido o seu papel no desencadear do meu interesse. Não tanto o isco do prémio - borrifo-me para as obras premiadas -, mas a atmosfera de estranheza que envolvia o livro, a começar pelo extraordinário título.
O OBJECTO QUE FOLHEIO
Tenho-o, por fim, nas minhas mãos. É um objecto de culto. A capa é discreta, as folhas cheiram agradavelmente. Mergulho todos os meus sentidos neste livro. E, para dizer a verdade, até a cadência da sua escrita no português do Brasil, familiar e distante, me comove e retém.
A PERPLEXIDADE
Perceberam que o livro me vem encantando. Entendo a perplexidade, embora, em rigor, essa diluição e dispersão por todas as formas possíveis não seja uma novidade. Carlos de Oliveira, por exemplo, em Finisterra, procurava já, um pouco, o mesmo tipo de libertação da voz, embora mantendo um fio condutor vagamente romanesco. Mas também Herberto Hélder, em Os Passos em Volta, usa de um pendor similarmente flutuante e desobediente, ao longo da construção de textos que, sendo um pouco de tudo, entre a poesia e a reflexão filosófica, a evocação ou a narrativa, nunca são definida e definitivamente coisa alguma.
Na obra de Nuno Ramos há qualquer coisa de jogo. Ora se, como lembra Nietzsche, para uma criança o jogo é a coisa mais séria do mundo, aqui, pelo contrário, ao distanciar-se leve, leve, muito levemente do seu próprio jogo, o que Nuno Ramos vai urdindo torna-se um saboroso exercício de ironia. Ao mesmo tempo, de mitologia: da mesma maneira que, ao criar a figura do Bom Selvagem, Rousseau nos previne que a não devemos entender como um facto histórico, mas como um "mito", cuja função seria heurística, mais para nos ajudar a pensar e a compreender do que para nos informar, também em Ó a figura (entre outros exemplos) da comunidade silenciosa, sem linguagem, em face dos primeiros homens a usar a fala, serve sobretudo para um irónico testar de hipóteses com que não nos comprometemos, uma criação de ideias e de conceitos, o engenhoso explodir de possibilidades que sejam clarões, aventuras e risos do acto de pensar.
A DESCOBERTA DE Ó: A INTIMIDADE
Pelo que a leitura de Ó tem, realmente, qualquer coisa de aventura. A surpresa é constante. A felicidade da formulação deixa-nos sem fôlego. Principia assim: «Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes.». E mesmo que este corpo possa ainda ser um corpo ficcionado, só longinquamente aparentado com o corpo real do autor, a verdade é que o modo como é exposto cria, no texto, um elemento de intimidade que ora nos choca, ora nos comove, mas nos cativa sempre, como se se tratasse de observarmos em nós próprios a degradação a que o nosso próprio corpo está sujeito, com suas excrescências, seus fluidos, seus odores, transformações, perversões. Um pouco como Samsa que se descobre feito insecto, esta é a obra mais dolorosa que conheço acerca da metamorfose (que cada um de nós sofre) no insecto derradeiro: a velhice. É uma intimidade física, de cada um com o seu corpo e de cada corpo com o corpo de outrem, a mulher, a mãe, a multidão que nos envolve e a que não podemos escapar.
A DESCOBERTA DE Ó: FICÇÃO E COMICIDADE
Há, frequentemente, uma aparência de "informação" credível nestes textos: em dado momento, observando e ligando pormenores imprevisivelmente ligáveis, Nuno Ramos pára, como se pousasse a caneta, para nos contar um episódio verídico; algo assim: "Isto faz-me lembrar, por exemplo, a história de Ancona Lopes". Ou seja, arranca num tom que conserva toda a verosimilhança. Querem confirmar?
«Vale a pena lembrar uma estranha teoria da inexpressividade, que teve seus dias de glória nos anos 50, em São Paulo. Ancona Lopes, o famoso director do Cambuci, bairro próximo ao centro de São Paulo, oferecia a seus alunos, depois da aula, um princípio da arte de representar que resumia esta teoria à perfeição.».
Nada, pois, a criticar relativamente ao formalismo quase académico desta introdução. Mas é no prosseguimento, e à medida que nos confrontamos com os pormenores rocambolescos e impagáveis da história, que Nuno Ramos nos narra, do pobre Ancona Lopes, que nos apercebemos do logro. Nenhuma das referências é verídica. A comicidade surge, aqui, do facto de uma mais do que improvável fantasia aparecer enquadrada por um cuidado aparelho de pormenores realistas, históricos e biográficos.
CONCLUSÃO
Serve o exemplo referido para que se tenha consciência de que, da mesma forma que o autor varia de tom, de estilo, de género, sem pedir licença, numa amálgama em que tudo são conexões brilhantes e ágeis, também para o leitor de Ó se trata de uma experiência de mutabilidade de estados de espírito: ainda nem bem a minha melancolia se completou, e é já com a angústia que tenho de me haver, a qual interrompo com uma brusca gargalhada que, por sua vez, se transformará num subtil sorriso. Perco-me, reencontro-me, disperso-me, torno a perder-me. Não sei onde estou, mal me lembro de quem sou. Experimento-me outro. Sigo as curvas e a degradação deste corpo desconfortável consigo mesmo. Sou eu? Este corpo parece-se muito comigo. Embora às vezes o estranhe. Aliás, tanto o estranho quando se não parece, como o estranho por tanto se parecer.
Este era o livro impacientemente aguardado. O mais ansiado durante os últimos meses. Por que razão? Oh, por várias: porque devo reconhecer que pouco conheço de entre os novíssimos da literatura brasileira, e me mantenho curioso; porque todas as abordagens, em que ia tropeçando, feitas a esta obra - Prémio PT em Novembro de 2009 -, davam conta de uma certa perplexidade em relação ao género: de que se tratava exactamente, afinal? Não tanto um romance, não crónicas também, nem contos, nem propriamente ensaios, mas algo que se representaria num cruzamento dessas possibilidades, sem se acantonar especificamente em nenhuma, sem se esgotar em qualquer delas, antes fluindo entre categorias, numa recusa de limites pré-fabricados; porque me remetiam explicitamente para Proust e Montaigne, dois escritores que admiro: só o facto de que um autor contemporâneo os conheça e os reivindique como mestres constitui, do meu ponto de vista, um ponto a seu favor. E, «last but not the least», porque tive a oportunidade de debicar algumas entrevistas concedidas por Nuno Ramos - em jornais, revistas, na rádio -
e, de todas as vezes, deparei com um homem tímido, perspicaz e sensível.Era este, portanto, o meu estado. Por causa de tal estado, aliás, não foram poucas as vezes que entrei, ultimamente, em livrarias, só para perguntar: «Já tem Ó?». (É o título da obra). E devolviam-me sempre a pergunta: «Ó?!», sem saber se eu estaria a brincar.
Finalmente, confesso, a publicidade e o marketing terão tido o seu papel no desencadear do meu interesse. Não tanto o isco do prémio - borrifo-me para as obras premiadas -, mas a atmosfera de estranheza que envolvia o livro, a começar pelo extraordinário título.
O OBJECTO QUE FOLHEIO
Tenho-o, por fim, nas minhas mãos. É um objecto de culto. A capa é discreta, as folhas cheiram agradavelmente. Mergulho todos os meus sentidos neste livro. E, para dizer a verdade, até a cadência da sua escrita no português do Brasil, familiar e distante, me comove e retém.
A PERPLEXIDADE
Perceberam que o livro me vem encantando. Entendo a perplexidade, embora, em rigor, essa diluição e dispersão por todas as formas possíveis não seja uma novidade. Carlos de Oliveira, por exemplo, em Finisterra, procurava já, um pouco, o mesmo tipo de libertação da voz, embora mantendo um fio condutor vagamente romanesco. Mas também Herberto Hélder, em Os Passos em Volta, usa de um pendor similarmente flutuante e desobediente, ao longo da construção de textos que, sendo um pouco de tudo, entre a poesia e a reflexão filosófica, a evocação ou a narrativa, nunca são definida e definitivamente coisa alguma.
Na obra de Nuno Ramos há qualquer coisa de jogo. Ora se, como lembra Nietzsche, para uma criança o jogo é a coisa mais séria do mundo, aqui, pelo contrário, ao distanciar-se leve, leve, muito levemente do seu próprio jogo, o que Nuno Ramos vai urdindo torna-se um saboroso exercício de ironia. Ao mesmo tempo, de mitologia: da mesma maneira que, ao criar a figura do Bom Selvagem, Rousseau nos previne que a não devemos entender como um facto histórico, mas como um "mito", cuja função seria heurística, mais para nos ajudar a pensar e a compreender do que para nos informar, também em Ó a figura (entre outros exemplos) da comunidade silenciosa, sem linguagem, em face dos primeiros homens a usar a fala, serve sobretudo para um irónico testar de hipóteses com que não nos comprometemos, uma criação de ideias e de conceitos, o engenhoso explodir de possibilidades que sejam clarões, aventuras e risos do acto de pensar.
A DESCOBERTA DE Ó: A INTIMIDADE
Pelo que a leitura de Ó tem, realmente, qualquer coisa de aventura. A surpresa é constante. A felicidade da formulação deixa-nos sem fôlego. Principia assim: «Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes.». E mesmo que este corpo possa ainda ser um corpo ficcionado, só longinquamente aparentado com o corpo real do autor, a verdade é que o modo como é exposto cria, no texto, um elemento de intimidade que ora nos choca, ora nos comove, mas nos cativa sempre, como se se tratasse de observarmos em nós próprios a degradação a que o nosso próprio corpo está sujeito, com suas excrescências, seus fluidos, seus odores, transformações, perversões. Um pouco como Samsa que se descobre feito insecto, esta é a obra mais dolorosa que conheço acerca da metamorfose (que cada um de nós sofre) no insecto derradeiro: a velhice. É uma intimidade física, de cada um com o seu corpo e de cada corpo com o corpo de outrem, a mulher, a mãe, a multidão que nos envolve e a que não podemos escapar.
A DESCOBERTA DE Ó: FICÇÃO E COMICIDADE
Há, frequentemente, uma aparência de "informação" credível nestes textos: em dado momento, observando e ligando pormenores imprevisivelmente ligáveis, Nuno Ramos pára, como se pousasse a caneta, para nos contar um episódio verídico; algo assim: "Isto faz-me lembrar, por exemplo, a história de Ancona Lopes". Ou seja, arranca num tom que conserva toda a verosimilhança. Querem confirmar?
«Vale a pena lembrar uma estranha teoria da inexpressividade, que teve seus dias de glória nos anos 50, em São Paulo. Ancona Lopes, o famoso director do Cambuci, bairro próximo ao centro de São Paulo, oferecia a seus alunos, depois da aula, um princípio da arte de representar que resumia esta teoria à perfeição.».
Nada, pois, a criticar relativamente ao formalismo quase académico desta introdução. Mas é no prosseguimento, e à medida que nos confrontamos com os pormenores rocambolescos e impagáveis da história, que Nuno Ramos nos narra, do pobre Ancona Lopes, que nos apercebemos do logro. Nenhuma das referências é verídica. A comicidade surge, aqui, do facto de uma mais do que improvável fantasia aparecer enquadrada por um cuidado aparelho de pormenores realistas, históricos e biográficos.
CONCLUSÃO
Serve o exemplo referido para que se tenha consciência de que, da mesma forma que o autor varia de tom, de estilo, de género, sem pedir licença, numa amálgama em que tudo são conexões brilhantes e ágeis, também para o leitor de Ó se trata de uma experiência de mutabilidade de estados de espírito: ainda nem bem a minha melancolia se completou, e é já com a angústia que tenho de me haver, a qual interrompo com uma brusca gargalhada que, por sua vez, se transformará num subtil sorriso. Perco-me, reencontro-me, disperso-me, torno a perder-me. Não sei onde estou, mal me lembro de quem sou. Experimento-me outro. Sigo as curvas e a degradação deste corpo desconfortável consigo mesmo. Sou eu? Este corpo parece-se muito comigo. Embora às vezes o estranhe. Aliás, tanto o estranho quando se não parece, como o estranho por tanto se parecer.
sábado, 6 de março de 2010
SHAKESPEARE: UM PROGRAMA DE VIDA SEGUNDO POLÓNIO
Sigo, nesta transcrição, a tradução de Hamlet proposta pelo Dr. Domingos Ramos.
O conjunto de conselhos que Polónio oferece a seu filho, Laertes, aquando da partida deste para França, não constitui, por si só, um admirável programa moral de vida?
«Fixa na tua memória estes conselhos: não dês língua aos teus pensamentos e nem executes pensamentos que não tenhas reflectido. Sê afável, mas evita por todas as formas ser banal. [Esta, talvez a minha predilecta: "Sê afável, mas evita por todas as formas ser banal.»]. Quando tiveres experimentado a afeição dos teus amigos, engasta-os na tua alma em círculo de aço; mas não prostituas os teus apertos de mão a todo o desconhecido, a todo o camarada indiferente. Não te metas em disputas; mas uma vez entrado nelas, aguenta-te de modo que o teu adversário tenha medo de ti. Presta a todos os teus ouvidos, mas a poucos a tua voz; aceita a opinião de todos, mas reserva a tua. [...] Não emprestes nem peças emprestado, porque emprestando, perde-se quase sempre o dinheiro e o amigo, e pedir emprestado embota o fio ao espírito de ordem. Sobretudo, sê sempre verdadeiro para contigo mesmo e disto seguir-se-á, como o dia segue a noite, não poderes tu ser falso para com ninguém. Adeus! que a minha benção faça frutificar em ti estes conselhos.»
O conjunto de conselhos que Polónio oferece a seu filho, Laertes, aquando da partida deste para França, não constitui, por si só, um admirável programa moral de vida?
«Fixa na tua memória estes conselhos: não dês língua aos teus pensamentos e nem executes pensamentos que não tenhas reflectido. Sê afável, mas evita por todas as formas ser banal. [Esta, talvez a minha predilecta: "Sê afável, mas evita por todas as formas ser banal.»]. Quando tiveres experimentado a afeição dos teus amigos, engasta-os na tua alma em círculo de aço; mas não prostituas os teus apertos de mão a todo o desconhecido, a todo o camarada indiferente. Não te metas em disputas; mas uma vez entrado nelas, aguenta-te de modo que o teu adversário tenha medo de ti. Presta a todos os teus ouvidos, mas a poucos a tua voz; aceita a opinião de todos, mas reserva a tua. [...] Não emprestes nem peças emprestado, porque emprestando, perde-se quase sempre o dinheiro e o amigo, e pedir emprestado embota o fio ao espírito de ordem. Sobretudo, sê sempre verdadeiro para contigo mesmo e disto seguir-se-á, como o dia segue a noite, não poderes tu ser falso para com ninguém. Adeus! que a minha benção faça frutificar em ti estes conselhos.»
sexta-feira, 5 de março de 2010
WILLIAM SHAKESPEARE: HAMLET
Eis um bom iníc
io para um texto acerca de Hamlet: a primeira vez que o li, fiquei extremamente frustrado. Não podia ter sentido um desapontamento maior. Entendam isto, por favor: esperava imenso de uma peça tão enaltecida, tão unanimemente aclamada. A minha leitura fora precedida por referências fortes, imagens marcantes, uma ideia com algo de mítico - e que podemos resumir, superficialmente, na cena que todos associam de imediato a essa obra: Hamlet, de caveira na mão, entoando as célebres e enigmáticas palavras: «Ser ou não ser: eis a questão!». Esperava, pois, algum tipo de arrebatamento espiritual.
Ao invés do esperado estremecimento fundo, ao invés de sentir que entrava pelo corredor de um «clássico», de uma tragédia nuclear da literatura Ocidental, deparei-me com um entrecho muito fraco, frequentemente ridículo (como em quase todos os momentos em que os homens avistam o espectro) e, co
mo escreveu Jorge de Sena, expondo-se numa verdadeira pirotecnia verbal, tão grandiloquente como pouco convincente.
Na altura, faltava-me - entre outras coisas - saber que um clássico raramente deve ser lido em si; um clássico não pode ser abstraído das significações que atraiu e incorporou, como se se tratasse de um objecto que pudéssemos isolar num frente a frente connosco. É que sobre o texto propriamente dito, o texto em si, o tempo foi depositando subtis camadas de interpretações que o enriqueceram, o completaram e o transformaram. Há sentidos que só poderemos perceber com uma atenção amadurecida, um cuidado que se tenha vindo a cultivar. O tempo fez, de certos diálogos, de certas frases, incontornáveis mitos. E só quando nos dotámos das armas e dos instrumentos necessários, quando nos apetrechámos de tudo quanto nos ajudará a ler nas entrelinhas e a revelar sentidos ocultos, só quando estamos cultural, estética, histórica, psicológica e filosoficamente preparados para reenfrentar algo como Hamlet (e eu não sinto que o esteja, ainda...), é que ele poderá afirmar-se a nossos olhos como aquilo que é, ou em que se tornou: uma tragédia sublime.
Muitos pensadores tiveram algo a dizer sobre Hamlet. Prova de que o(s) problema(s) que sustenta(m) a obra, pela sua profundidade, permite(m) diferentes leituras e infinitas discussões. Qual a natureza da sua relação com a mãe? Será o conflito de Hamlet com o irmão de seu pai, que desposa sua mãe, uma máscara do complexo de Édipo, tal como Freud defendeu?
E que dizer da sua loucura? Não é verdade que, mesmo que tenhamos indícios para a encarar como um embuste e uma estratégia, contém um elemento de inegável autenticidade e, num certo sentido, de extrema lucidez?
Gosto de pensar em Hamlet como sendo um exemplo da figura do "intelectual", típica da nossa cultura.
O intelectual é, antes de mais, o sujeito do pensamento: mas de um pensamento que, pela sua penetração e radicalidade, acaba incompreendido pelos demais, os que vêem nele uma certa inocência, uma certa alienação e a perpétua impotência para se prender ao real e intervir eficazmente; palavras ocas; conhecimentos aéreos: o intelectual é o que acusa e denuncia, sim, mas suscitando mais facilmente o riso do que a adesão.
Todavia, o intelectual é o que nunca se cala: reflecte e dá voz aos seus pensamentos, numa melancolia perfeitamente hamletiana, enquanto as catástrofes se sucedem e o mundo deflagra. É o que interroga a vida, a morte, o bem e o mal. É o que se questiona sobre a condição e a finitude. É o que fala de mais e não age.
Hamlet, como bem sabemos, agirá, a seu tempo. E, por sua vez, agirá de um modo implacável e terrivelmente eficaz. Mas ao longo de toda a tragédia, e até ao seu desenlace fatal, é um jovem que ora não compreendemos, ora compreendemos ao ponto de com ele nos identificarmos. E, nessa oscilação, num ou noutro extremo, é sempre aquele que procura enunciar os seus sentimentos contraditórios e complexos, ao mesmo tempo que procura o caminho da vingança, ou seja, da passagem da consciência ao acto.
Lê-lo é, de cada vez que o torno a ler, uma compreensão mais profunda de Hamlet, Príncipe da Dinamarca. Ou do intelectual. Ou, realmente, do Homem. Ou, afinal, de mim próprio.
io para um texto acerca de Hamlet: a primeira vez que o li, fiquei extremamente frustrado. Não podia ter sentido um desapontamento maior. Entendam isto, por favor: esperava imenso de uma peça tão enaltecida, tão unanimemente aclamada. A minha leitura fora precedida por referências fortes, imagens marcantes, uma ideia com algo de mítico - e que podemos resumir, superficialmente, na cena que todos associam de imediato a essa obra: Hamlet, de caveira na mão, entoando as célebres e enigmáticas palavras: «Ser ou não ser: eis a questão!». Esperava, pois, algum tipo de arrebatamento espiritual.Ao invés do esperado estremecimento fundo, ao invés de sentir que entrava pelo corredor de um «clássico», de uma tragédia nuclear da literatura Ocidental, deparei-me com um entrecho muito fraco, frequentemente ridículo (como em quase todos os momentos em que os homens avistam o espectro) e, co
mo escreveu Jorge de Sena, expondo-se numa verdadeira pirotecnia verbal, tão grandiloquente como pouco convincente.Na altura, faltava-me - entre outras coisas - saber que um clássico raramente deve ser lido em si; um clássico não pode ser abstraído das significações que atraiu e incorporou, como se se tratasse de um objecto que pudéssemos isolar num frente a frente connosco. É que sobre o texto propriamente dito, o texto em si, o tempo foi depositando subtis camadas de interpretações que o enriqueceram, o completaram e o transformaram. Há sentidos que só poderemos perceber com uma atenção amadurecida, um cuidado que se tenha vindo a cultivar. O tempo fez, de certos diálogos, de certas frases, incontornáveis mitos. E só quando nos dotámos das armas e dos instrumentos necessários, quando nos apetrechámos de tudo quanto nos ajudará a ler nas entrelinhas e a revelar sentidos ocultos, só quando estamos cultural, estética, histórica, psicológica e filosoficamente preparados para reenfrentar algo como Hamlet (e eu não sinto que o esteja, ainda...), é que ele poderá afirmar-se a nossos olhos como aquilo que é, ou em que se tornou: uma tragédia sublime.
Muitos pensadores tiveram algo a dizer sobre Hamlet. Prova de que o(s) problema(s) que sustenta(m) a obra, pela sua profundidade, permite(m) diferentes leituras e infinitas discussões. Qual a natureza da sua relação com a mãe? Será o conflito de Hamlet com o irmão de seu pai, que desposa sua mãe, uma máscara do complexo de Édipo, tal como Freud defendeu?
E que dizer da sua loucura? Não é verdade que, mesmo que tenhamos indícios para a encarar como um embuste e uma estratégia, contém um elemento de inegável autenticidade e, num certo sentido, de extrema lucidez?
Gosto de pensar em Hamlet como sendo um exemplo da figura do "intelectual", típica da nossa cultura.
O intelectual é, antes de mais, o sujeito do pensamento: mas de um pensamento que, pela sua penetração e radicalidade, acaba incompreendido pelos demais, os que vêem nele uma certa inocência, uma certa alienação e a perpétua impotência para se prender ao real e intervir eficazmente; palavras ocas; conhecimentos aéreos: o intelectual é o que acusa e denuncia, sim, mas suscitando mais facilmente o riso do que a adesão.
Todavia, o intelectual é o que nunca se cala: reflecte e dá voz aos seus pensamentos, numa melancolia perfeitamente hamletiana, enquanto as catástrofes se sucedem e o mundo deflagra. É o que interroga a vida, a morte, o bem e o mal. É o que se questiona sobre a condição e a finitude. É o que fala de mais e não age.
Hamlet, como bem sabemos, agirá, a seu tempo. E, por sua vez, agirá de um modo implacável e terrivelmente eficaz. Mas ao longo de toda a tragédia, e até ao seu desenlace fatal, é um jovem que ora não compreendemos, ora compreendemos ao ponto de com ele nos identificarmos. E, nessa oscilação, num ou noutro extremo, é sempre aquele que procura enunciar os seus sentimentos contraditórios e complexos, ao mesmo tempo que procura o caminho da vingança, ou seja, da passagem da consciência ao acto.
Lê-lo é, de cada vez que o torno a ler, uma compreensão mais profunda de Hamlet, Príncipe da Dinamarca. Ou do intelectual. Ou, realmente, do Homem. Ou, afinal, de mim próprio.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
FREUD: PSICOPATOLOGIA DA VIDA QUOTIDIANA
Florinha Afável, no seu blogue, Literatura e Confissões, que venho lendo com grande prazer, postou recentemente um texto sobre Freud, a transferência e a contra-transferência. Florinha reflecte, interroga-se, entre o registo teórico, o registo da sua própria experiência (por exemplo, a propósito da relação professor-aluno) e o do sonho. Seguimo-la nessa reflexão e nessa descrição, deliciados.
O post de Florin
ha leva-me de volta a Freud, que, em determinado período da minha vida, li obcecadamente. Li tanto, que me cansei. Já na ressaca, como é natural, comecei a pôr todo o seu edifício em causa. Não teria ele uma concepção demasiado saturada de sexo? (Jung acusava-o disso). Não seria o complexo de Édipo uma ficção? (Deleuze e Guatarri nunca o levaram a sério). E a relação entre o ego e o id, sob a fronteira do superego, não poderia ser vista como um drama entre personagens conflituosas, mais do que um processo psicossomático? (A Dona Glória sempre teve tal desconfiança...).Volvidos muitos anos, e neste momento, em que o Zeitgeist tão céptico se tem mostrado em relação ao pensamento de Sigmund Freud, atacando-o por todos os lados simultaneamente, redescubro-o, confesso, com um novo gosto: é um dos romancistas mais aliciantes que já li.
Repare-se, por exemplo, em Gradiva, magnífico ensaio onde, a propósito de um romance de Jensen, faz uma análise penetrante do
se
ntido oculto de uma figura feminina, num baixo-relevo romano; ou, então, leia-se Uma Memória de
Infância de Leonardo da Vinci, esse outro texto em que, sobre uma base de sustentação tão frágil, Freud compõe uma explicação incrível, porventura incredível, mas, ainda assim, fascinante, a partir da qual todos os meandros da personalidade de Leonardo da Vinci parecem revelar-se.É nesses livros, tidos por menores, em que trabalha "no concreto", escavando metódica e pacientemente episódios, recordações, fantasias, como, insisto, se tratasse de escrever contos, ou novelas, ou romances, que considero Freud de uma agilidade e de uma agudeza incomparáveis. Mais, certamente, do que nas obras puramente teóricas, onde organiza um sistema que, em inúmeros aspectos, me parece - não improvável, mas insuficientemente provado.
Deste ponto de vista do que mais me interessa em Freud, há, precisamente, um livro imperdível. Refiro-me a Psicopatologia da Vida Quotidiana. Porque, aí, tudo se torna relevante: os detalhes, as descrições, as palavras, a atenção aos erros, aos deslizes, aos menores enganos. E a nossa inocência sofre um abalo quando pela primeira vez nos é mostrado que nenhum engano é simplesmente um engano, mas uma mensagem, uma advertência, um sentido secreto, um sintoma pronto a ser descodificado. Nenhuma compulsão, ou mania, ou desajustamento, são simples erros de funcionamento, mas formas de comunicação, incompreendidas, desrespeitadas e temidas.
Os «actos falhados», os desvios à norma, os comportamentos ridículos e obsessivos perseguem-nos, ilustram-nos, explicam-nos. Nesse livro, os exemplos abundam, e são narrados numa escrita clara, riquíssima, plena de humor e de sentido da eficácia narrativa.
Não é no todo que Freud funciona. Porém, na inteligência dos pormenores, continuará insuperável.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
LARKIN: OS VELHOS IDIOTAS
Penosa e deficiente tradução minha de um poema terrível:
Que pensam eles que aconteceu, os velhos idiotas,
Para os tornar nisto? Será que de algum modo supõem
Que se é mais crescido quando a boca se abre e se baba
E se mijam todos insistentemente, e não se lembram
Quem telefonou esta manhã? Ou então, que, se lhes apetecesse,
Podiam trazer as coisas de volta ao quando dançaram toda a noite,
Ou foram ao próprio casamento, ou marcharam, armados, num certo Setembro?
Ou imaginam que nenhuma mudança houve,
E que sempre se comportaram como aleijados ou bêbedos,
Ou se sentaram dias num leve contínuo sonho
Vendo a luz mover-se? Se não o supõem (e não podem), é estranho:
Por que não estão a gritar?
À morte, quebramo-nos: os pedaços que éramos
começam a fugir uns dos outros para sempre
Com ninguém para ver. É só um olvido, é certo:
Já o tivémos antes, mas então ia acabar tudo,
E estava sempre a combinar-se com um esforço extremo
Para fazer desabrochar a flor de um milhão de pétalas
Que é estar aqui. Da próxima não se poderá fingir
Que haverá algo mais. E são estes os primeiros sinais:
Não saber como, não ouvir quem, o poder
Da escolha desaparecido. O seu olhar revela que estão prontos:
Cabelo de palha, mãos de sapo, rosto de passa em rugas -
Como podem ignorá-lo?
Talvez ser velho seja ter quartos iluminados
Dentro da sua cabeça, e gente dentro, representando.
Gente que se conhece, mas que não se consegue nomear; cada vulto
Como uma perda profunda, assomando a portas conhecidas,
Pousando uma vela, sorrindo das escadas, tirando
Um livro conhecido das estantes; ou às vezes simplesmente
As salas em si mesmas, cadeiras e uma lareira crepitando,
O vento no arbusto, à janela, ou a débil
Amizade do sol na parede, num solitário
Fim de tarde de Verão, depois da chuva. Isso é onde eles vivem:
Não aqui e agora, mas onde uma vez tudo aconteceu.
Por isso é que dão
A impressão de uma ausência surpreendida, tentando estar lá
Mas estando aqui. Porque os quartos se vão afastando, abandonando
O frio incompetente, o constante usa-e-estraga
Do ar respirado, e eles acocorando-se diante
Do morro da Extinção, os velhos idiotas, não se apercebendo
Quão perto está. Deve ser isto que os mantém sossegados:
O pico que se mantém sob visão de onde quer que se vá
Para eles é um campo que se eleva. Será que nunca adivinham
O que os puxa para trás, e como tudo acabará? Nem à noite?
Nem quando os desconhecidos chegam? Nunca, ao longo
Desta horrorosa infância invertida? Bem,
Havemos de o descobrir.
Que pensam eles que aconteceu, os velhos idiotas,
Para os tornar nisto? Será que de algum modo supõem
Que se é mais crescido quando a boca se abre e se baba
E se mijam todos insistentemente, e não se lembram
Quem telefonou esta manhã? Ou então, que, se lhes apetecesse,
Podiam trazer as coisas de volta ao quando dançaram toda a noite,
Ou foram ao próprio casamento, ou marcharam, armados, num certo Setembro?
Ou imaginam que nenhuma mudança houve,
E que sempre se comportaram como aleijados ou bêbedos,
Ou se sentaram dias num leve contínuo sonho
Vendo a luz mover-se? Se não o supõem (e não podem), é estranho:
Por que não estão a gritar?
À morte, quebramo-nos: os pedaços que éramos
começam a fugir uns dos outros para sempre
Com ninguém para ver. É só um olvido, é certo:
Já o tivémos antes, mas então ia acabar tudo,
E estava sempre a combinar-se com um esforço extremo
Para fazer desabrochar a flor de um milhão de pétalas
Que é estar aqui. Da próxima não se poderá fingir
Que haverá algo mais. E são estes os primeiros sinais:
Não saber como, não ouvir quem, o poder
Da escolha desaparecido. O seu olhar revela que estão prontos:
Cabelo de palha, mãos de sapo, rosto de passa em rugas -
Como podem ignorá-lo?
Talvez ser velho seja ter quartos iluminados
Dentro da sua cabeça, e gente dentro, representando.
Gente que se conhece, mas que não se consegue nomear; cada vulto
Como uma perda profunda, assomando a portas conhecidas,
Pousando uma vela, sorrindo das escadas, tirando
Um livro conhecido das estantes; ou às vezes simplesmente
As salas em si mesmas, cadeiras e uma lareira crepitando,
O vento no arbusto, à janela, ou a débil
Amizade do sol na parede, num solitário
Fim de tarde de Verão, depois da chuva. Isso é onde eles vivem:
Não aqui e agora, mas onde uma vez tudo aconteceu.
Por isso é que dão
A impressão de uma ausência surpreendida, tentando estar lá
Mas estando aqui. Porque os quartos se vão afastando, abandonando
O frio incompetente, o constante usa-e-estraga
Do ar respirado, e eles acocorando-se diante
Do morro da Extinção, os velhos idiotas, não se apercebendo
Quão perto está. Deve ser isto que os mantém sossegados:
O pico que se mantém sob visão de onde quer que se vá
Para eles é um campo que se eleva. Será que nunca adivinham
O que os puxa para trás, e como tudo acabará? Nem à noite?
Nem quando os desconhecidos chegam? Nunca, ao longo
Desta horrorosa infância invertida? Bem,
Havemos de o descobrir.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
PHILIP LARKIN: JANELAS ALTAS
Não se trata de uma redução. Mas, para se compreender melhor, em português, qual a atmosfera que impregna a sua obra, poderíamos pensar numa síntese de Bocage e de Fernando Pessoa.

De Bocage, temos a linguagem grosseira e popular, que não recua diante dos termos obscenos, sobretudo quando se trata de escrever sobre os órgãos ou o acto sexuais.
De Pessoa, temos, antes de mais, a vida do próprio: um burocrata com emprego fixo e horários estritos; um manga-de-alpaca que esgota a sua vida no escritório de uma dessas ruas típicas da cidade em que vive, mas que, na poesia, secreta, inspirada e inesperadamente, adquire toda a sua força e sentido. De Pessoa temos, pois, essa semelhança biogr
áfica, mas não só: uma contenção avessa a delírios românticos, a arroubos líricos, que achou a forma mais apurada num dos heterónimos pessoanos, Alberto Caeiro.
E que obtemos? Philip Larkin.
Vou folheando os poemas de High Windows, e onde outros leram a pose reaccionária e uma espécie de desprezo pelo feminino,
eu leio uma candura de adolescente para quem tudo é perigoso e, ao mesmo tempo, invejável. Vejo Holden Caulfield, a personagem (e narrador) de The Catcher in the Rye, com o seu azedume e a sua brutalidade, sob os quais tange uma sensibilidade em ferida e uma intensa carência.
É uma poesia completamente diferente da que conhecemos. (Mau grado tantos imitadores). Mostra-nos o absurdo do quotidiano sob o modo de uma lista de pequenos nadas monótonos e sem brilho. Os gestos mais simples tornam-se objecto de enunciação: espreito namorados, ou olho para uma janela, ou ponho pedras de gelo num copo com "três doses de gin, limão em rodela,/Mais um quarto de tónica [...]".
Mas se, de facto, esta poesia se debruça sobre o dia-a-dia, denunciando-o na sua dimensão mais superficial e vazia, reconstituindo, em exaustivas descrições, o tom de rotinas ou de rituais - como em "Livings", que principia assim: «Lido com lavradores, coisas como desinfectantes e rações» -, a verdade é que a sua linguagem, aparentemente coloquial, procura e encontra algumas das formas mais límpidas e correctas da perfeição.
Por exemplo, em "Friday Night in the Royal Station Hotel":
«Pelas portas abertas, a sala de jantar afirma/Uma solidão mais vasta, de facas e copos/ E silêncio assente como uma alcatifa.»
Ou este conjunto, ao qual nada se acrescentaria ou retiraria, de tal modo nos parece estarmos diante de uma formulação que suspende, durante o tempo da sua leitura, o movimento do mundo:
«Em vez de palavras, vêem-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo,
Que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.»
A poesia de Larkin tem sido vista como uma reacção ao lirismo exacerbado do neo-romantismo, por um lado (de Dylan Thomas) e, por outro lado, contra o modernismo (de T. S. Eliot e Ezra Pound): há, nela, uma espécie de revolta contra tudo quanto seja excesso, exuberância, revolução; ora penso que a escolha de uma forma «clássica», para a qual métrica e rima são essenciais, constrói, muito mais do que a expressão mais justa dessa revolta, uma expressão de uma musicalidade irresistível. Mais do que no programa, portanto, na sonoridade...
O que descubro em Philip Larkin?
Um cinismo desesperado, sob a vulgaridade do quotidiano trivial, uma sensibilidade fin
a que, ao invés de se assumir nas lágrimas, prefere a ironia ou o sarcasmo doridos e dolorosos (veja-se o pungente "The Old Fools"), um desequilíbrio emocional triste e neurótico, vazado na perfeição de uma linguagem em que as imagens brilham, limpas, nítidas, tão bonitas, e os versos revelam uma invulgar inteligência poética.
É uma poesia dura, como dizia há tão pouco, citando uma ex-aluna, sobre A Metamorfose, de Kafka. E, sim, tal como também dizia ao mesmo propósito: é algo que nunca esqueceremos.

De Bocage, temos a linguagem grosseira e popular, que não recua diante dos termos obscenos, sobretudo quando se trata de escrever sobre os órgãos ou o acto sexuais.
De Pessoa, temos, antes de mais, a vida do próprio: um burocrata com emprego fixo e horários estritos; um manga-de-alpaca que esgota a sua vida no escritório de uma dessas ruas típicas da cidade em que vive, mas que, na poesia, secreta, inspirada e inesperadamente, adquire toda a sua força e sentido. De Pessoa temos, pois, essa semelhança biogr
áfica, mas não só: uma contenção avessa a delírios românticos, a arroubos líricos, que achou a forma mais apurada num dos heterónimos pessoanos, Alberto Caeiro.E que obtemos? Philip Larkin.
Vou folheando os poemas de High Windows, e onde outros leram a pose reaccionária e uma espécie de desprezo pelo feminino,
eu leio uma candura de adolescente para quem tudo é perigoso e, ao mesmo tempo, invejável. Vejo Holden Caulfield, a personagem (e narrador) de The Catcher in the Rye, com o seu azedume e a sua brutalidade, sob os quais tange uma sensibilidade em ferida e uma intensa carência.É uma poesia completamente diferente da que conhecemos. (Mau grado tantos imitadores). Mostra-nos o absurdo do quotidiano sob o modo de uma lista de pequenos nadas monótonos e sem brilho. Os gestos mais simples tornam-se objecto de enunciação: espreito namorados, ou olho para uma janela, ou ponho pedras de gelo num copo com "três doses de gin, limão em rodela,/Mais um quarto de tónica [...]".
Mas se, de facto, esta poesia se debruça sobre o dia-a-dia, denunciando-o na sua dimensão mais superficial e vazia, reconstituindo, em exaustivas descrições, o tom de rotinas ou de rituais - como em "Livings", que principia assim: «Lido com lavradores, coisas como desinfectantes e rações» -, a verdade é que a sua linguagem, aparentemente coloquial, procura e encontra algumas das formas mais límpidas e correctas da perfeição.
Por exemplo, em "Friday Night in the Royal Station Hotel":
«Pelas portas abertas, a sala de jantar afirma/Uma solidão mais vasta, de facas e copos/ E silêncio assente como uma alcatifa.»
Ou este conjunto, ao qual nada se acrescentaria ou retiraria, de tal modo nos parece estarmos diante de uma formulação que suspende, durante o tempo da sua leitura, o movimento do mundo:
«Em vez de palavras, vêem-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo,
Que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.»
A poesia de Larkin tem sido vista como uma reacção ao lirismo exacerbado do neo-romantismo, por um lado (de Dylan Thomas) e, por outro lado, contra o modernismo (de T. S. Eliot e Ezra Pound): há, nela, uma espécie de revolta contra tudo quanto seja excesso, exuberância, revolução; ora penso que a escolha de uma forma «clássica», para a qual métrica e rima são essenciais, constrói, muito mais do que a expressão mais justa dessa revolta, uma expressão de uma musicalidade irresistível. Mais do que no programa, portanto, na sonoridade...
O que descubro em Philip Larkin?
Um cinismo desesperado, sob a vulgaridade do quotidiano trivial, uma sensibilidade fin
a que, ao invés de se assumir nas lágrimas, prefere a ironia ou o sarcasmo doridos e dolorosos (veja-se o pungente "The Old Fools"), um desequilíbrio emocional triste e neurótico, vazado na perfeição de uma linguagem em que as imagens brilham, limpas, nítidas, tão bonitas, e os versos revelam uma invulgar inteligência poética.É uma poesia dura, como dizia há tão pouco, citando uma ex-aluna, sobre A Metamorfose, de Kafka. E, sim, tal como também dizia ao mesmo propósito: é algo que nunca esqueceremos.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
KAFKA: A METAMORFOSE
Não me lembro de quando li Kafka pela primeira vez.
Sei, vagamente, que era um tempo estranho da minha vida. Estava em Portugal, recentemente vindo de Moçambique, de onde o curso dos acontecimentos me expulsara de vez: era um jovem de óculos muito grandes e muito graduados e uma cabeleira comprida e avessa a pentes. Usava camisolas de gola alta. Não tinha amigos - e os colegas que descobria, antes os não descobrisse.
Lia muito, mui
to, muito. Aproveitava, por exemplo, para me abastecer de livros que, na terra de onde vinha, não eram comuns. Li Sartre. (As Palavras). Li Nietzsche. (Humano, Demasiado Human
o). Li Kafka. Não recordo por que ordem, mas devorei
O Processo, O Castelo, América e, obviamente, A Metamorfose.
Pelas leituras que fazia, descobrirão alguma coisa sobre o género de jovem que eu era e o adulto em que me viria a metamorfosear. Depressivo, inquieto e inquietante, ligeiramente perturbado, triste, desenvolvendo um cinismo e uma descrença teimosas relativamente à humanidade.
Alguma coisa boa me veio
destas descobertas. Uma, foi ter confirmado a inclinação para a filosofia, que me levou ao curso de que nunca me arrependi.
Outra, foi precisamente essa descrença - e essa atenção à estranheza do mundo dos homens.
Kafka, para me fixar num dos autores referidos, é dolorosamente fabuloso. A Metamorfose, mais do que uma novela de horror, toca-nos como um livro de uma delicadeza surpreendente. O que incomoda é que, por uma vez, o monstro não é o outro, vindo de longe para nos assustar: o monstro é o sujeito mais vulnerável e carente que imaginar se possa. Bem sei: em Frankenstein, por exemplo, é também da vulnerabilida
de do monstro que se fala; mas não como em A Metamorfose, em que só nos resta a possibilidade de nos identificarmos com a criatura em que Gregor Samsa se transforma.
O protagonista, que acorda, certa manhã, como um insecto de inúmeras patas, não é senão, no interior da sua carapaça, da sua «insectez», do seu aspecto hediondo e repelente, o mesmo homem de sempre - o caixeiro viajante que se preocupou obsessivamente com a família, sustentou a casa, pagou, dedicada e generosamente, os estudos da irmã.
E, por uma vez, os «normais» - o pai, a mãe, a irmã até certo ponto - deixam que neles se revele a única e inesperada monstruosidade: a que pode ser criada por um misto de medo e preconceito. Chamemos-lhe insensibilidade. Essa sim, a mais tenebrosa de todas as disformidades, a esvaziadora dos afectos e dos sentimentos, a que faz esquecer os laços e as relações, a que nos torna malévolos perante o que nos aparece como diferente.
E lembro-me de que, muito mais tarde - já, então, eu professor de liceu- houve uma aluna que, numa reunião em que falávamos acerca de A Metamorfose, disse tratar-se de um livro duro - e que nunca esqueceríamos. Retomo-a: é um livro duro. Ensina que todas as pessoas boas, que nos habituámos a amar, os próximos, a família, virão, em certas terríveis circunstâncias, a tornar-se inimigos nossos e seres maus. Mas, ao mesmo tempo, delicado: porque há uma delicadeza no modo como Kafka trata o desamparo, a desastrosa quebra da rotina, o temor do mundo, a infelicidade.
E, por tudo isto, é, de facto, um livro que não esqueceremos.
Sei, vagamente, que era um tempo estranho da minha vida. Estava em Portugal, recentemente vindo de Moçambique, de onde o curso dos acontecimentos me expulsara de vez: era um jovem de óculos muito grandes e muito graduados e uma cabeleira comprida e avessa a pentes. Usava camisolas de gola alta. Não tinha amigos - e os colegas que descobria, antes os não descobrisse.
Lia muito, mui
to, muito. Aproveitava, por exemplo, para me abastecer de livros que, na terra de onde vinha, não eram comuns. Li Sartre. (As Palavras). Li Nietzsche. (Humano, Demasiado Human
o). Li Kafka. Não recordo por que ordem, mas devoreiO Processo, O Castelo, América e, obviamente, A Metamorfose.
Pelas leituras que fazia, descobrirão alguma coisa sobre o género de jovem que eu era e o adulto em que me viria a metamorfosear. Depressivo, inquieto e inquietante, ligeiramente perturbado, triste, desenvolvendo um cinismo e uma descrença teimosas relativamente à humanidade.
Alguma coisa boa me veio
destas descobertas. Uma, foi ter confirmado a inclinação para a filosofia, que me levou ao curso de que nunca me arrependi.Outra, foi precisamente essa descrença - e essa atenção à estranheza do mundo dos homens.
Kafka, para me fixar num dos autores referidos, é dolorosamente fabuloso. A Metamorfose, mais do que uma novela de horror, toca-nos como um livro de uma delicadeza surpreendente. O que incomoda é que, por uma vez, o monstro não é o outro, vindo de longe para nos assustar: o monstro é o sujeito mais vulnerável e carente que imaginar se possa. Bem sei: em Frankenstein, por exemplo, é também da vulnerabilida
de do monstro que se fala; mas não como em A Metamorfose, em que só nos resta a possibilidade de nos identificarmos com a criatura em que Gregor Samsa se transforma.O protagonista, que acorda, certa manhã, como um insecto de inúmeras patas, não é senão, no interior da sua carapaça, da sua «insectez», do seu aspecto hediondo e repelente, o mesmo homem de sempre - o caixeiro viajante que se preocupou obsessivamente com a família, sustentou a casa, pagou, dedicada e generosamente, os estudos da irmã.
E, por uma vez, os «normais» - o pai, a mãe, a irmã até certo ponto - deixam que neles se revele a única e inesperada monstruosidade: a que pode ser criada por um misto de medo e preconceito. Chamemos-lhe insensibilidade. Essa sim, a mais tenebrosa de todas as disformidades, a esvaziadora dos afectos e dos sentimentos, a que faz esquecer os laços e as relações, a que nos torna malévolos perante o que nos aparece como diferente.

E lembro-me de que, muito mais tarde - já, então, eu professor de liceu- houve uma aluna que, numa reunião em que falávamos acerca de A Metamorfose, disse tratar-se de um livro duro - e que nunca esqueceríamos. Retomo-a: é um livro duro. Ensina que todas as pessoas boas, que nos habituámos a amar, os próximos, a família, virão, em certas terríveis circunstâncias, a tornar-se inimigos nossos e seres maus. Mas, ao mesmo tempo, delicado: porque há uma delicadeza no modo como Kafka trata o desamparo, a desastrosa quebra da rotina, o temor do mundo, a infelicidade.
E, por tudo isto, é, de facto, um livro que não esqueceremos.
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personagens inesquecíveis
sábado, 20 de fevereiro de 2010
KARL PROTZKA (II): SOB O SIGNO DA INVISIBILIDADE
Protzka viveu, realmente, sob o signo da invisibilidade.
Um pouco mais, e chegaríamos a pensar que nunca existiu!
Sabem por que razão o meu post anterior não tem uma única imagem? Porque não encontrei uma única imagem. Uma internet tão grande, tão tentacular, ligada ao passado, ao presente, ao futuro, e não me foi eficaz para aceder a uma fotografia que me mostrasse se Protzka era alto e magro, como sempre o imaginei, ou gordo e baixo. Ou assim assim.
Por outro lado, a wikipédia não o refere. A mesma wikipédia que sabe tudo sobre José Cid ou Fábio Coentrão ignora um dos mais prodigiosos escritores que não escreveram livro algum.
Falava em invisibilidade? Coincidência: o seu próprio livro se chama - mas penso que o título não foi da sua responsabilidade... - O Órgão Invisível. E esta?!
Bem, como diriam as minhas leitoras brasileiras: bota «invisível» nisso.
Um pouco mais, e chegaríamos a pensar que nunca existiu!
Sabem por que razão o meu post anterior não tem uma única imagem? Porque não encontrei uma única imagem. Uma internet tão grande, tão tentacular, ligada ao passado, ao presente, ao futuro, e não me foi eficaz para aceder a uma fotografia que me mostrasse se Protzka era alto e magro, como sempre o imaginei, ou gordo e baixo. Ou assim assim.
Por outro lado, a wikipédia não o refere. A mesma wikipédia que sabe tudo sobre José Cid ou Fábio Coentrão ignora um dos mais prodigiosos escritores que não escreveram livro algum.
Falava em invisibilidade? Coincidência: o seu próprio livro se chama - mas penso que o título não foi da sua responsabilidade... - O Órgão Invisível. E esta?!
Bem, como diriam as minhas leitoras brasileiras: bota «invisível» nisso.
Etiquetas:
não-escritas e não-leituras,
objecto de culto
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
QUEM FOI KARL PROTZKA? (I)
Karl Protzka é, com certeza absoluta, o escritor mais obscuro do mundo inteiro. Cidadão do Império Austro-Húngaro e de Viena, de onde nunca saiu senão por poucos meses, viveu o auge e a decadência imperiais: é aquele mesmo a quem Musil se refere, nos «Diários», como o seu «amigo bizarro».
Eu próprio, que aqui dele falo, conheço-o pelo mero acaso de o meu avô ter sido o tradutor para português, penso que nos anos cinquenta, do único livro a que se resume a sua obra.
Chama-se O Órgão Invisível. Tentei ler várias vezes o exemplar já velho e meio-carcomido que me veio parar às mãos, depois de ter passado orgulhosamente por várias estantes de familiares. Devo ter querido lê-lo com quinze ou dezasseis anos - que loucura! - e desistido ao fim da terceira ou quarta páginas; retomei-o aos vinte, e não avancei muito mais; a seguir talvez aos vinte e tal, por fim aos trinta. Não sei com que idade mergulhei efectivamente naquele estranhíssimo romance que é o contrário de um romance (o meu avô fascinava-me repetindo amiúde estes pormenores, razão principal de todas as minhas tentativas de leitura), ou que é um não-romance, se não um anti-romance: Protzka sonhava escrevê-lo mas, aparentemente, buscava, para o iniciar, uma série de condições ideais, desde a cadeira e a secretária ao papel, passando pela luz, pela caneta ou pelo estado de espírito perfeitos; em vez disso, nunca os reunindo, protelava, protelava sempre, mas ia enchendo caixas com apontamentos acerca do mundo que borbulhava em torno de si e do adiado romance: acerca do que os outros pensavam dele próprio e ele dos outros, acerca do que lhe perguntavam sobre o seu romance e de tudo quanto inventava: que estava a escrevê-lo (o que era falso), que o ia publicar, que concluíra o décimo quarto capítulo...!
Já depois de morto, os seus filhos reuniram esta gigantesca massa de apontamentos, organizando-a numa espécie de pararomance sobre o que seria o seu romance e, sobretudo, sobre a estranheza das relações humanas que se moviam à volta de um romance prometido, desejado, idealizado mas incapaz de vir à tona.
Das duas primeiras páginas, cito estas palavras:
«Uma relação - falo de toda e qualquer relação entre duas pessoas, filial ou fraterna, de amizade ou inimizade, erótica ou irónica - é um corpo que mergulha as suas pernas, por vezes até à cintura, por vezes até ao pescoço, no silêncio e no invisível: pois que o corpo de uma relação entre dois sujeitos é composto não principalmente pelo que os dois dizem um ao outro, e sim pelo que, sobretudo, não dizem um ao outro.[...] desse não-dizer transparecem sempre sintomas: mas transparecem mal, incompreendidos, falseados, deturpados. [...] Como essas indicações, que talvez nem o sejam, nunca se dizem, como nunca se esclarecem por palavras, como, na maioria dos casos, são meras ausências, adensam-se, a pouco e pouco, numa atmosfera de equívocos em que respiram todas as relações. Já imaginaram alguém que compreenda os desejos, ou as intenções de outrem, a partir, quase só, desse espelho invisível e deformante? O ter-lhe certa pessoa falado em último lugar numa reunião de amigos, ou o ter passado na rua como se o não visse, ou, pelo contrário, ter-lhe vindo imediatamente ao encontro, ou, durante a conversa, nunca o ter olhado nos olhos? [...] Ou um certo tom de voz (conhecem algo mais indefinível do que um «tom»?)! [...] O meu romance versará, no fundo (e a expressão «no fundo» é bem escolhida) essa trágica impotência: o paradoxo de um incomunicável resíduo de toda a comunicação ser, talvez, a parte mais importante de toda a comunicação.»
Nunca encontrei qualquer exemplar à venda. Em lado nenhum. Que eu saiba, não voltou a ser traduzido. O que releio frequentemente está muito gasto, muito velho. Gostaria de o mandar encadernar. Não tenho ideia de um outro autor tão profundo e tão extraordinário que seja tão profunda e tão extraordinariamente invisível.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
MEMÓRIAS COLONIAIS

Nem de propósito.
Tendo escrito, no post anterior, a propósito de O Leopardo, acerca da ambivalência própria de toda a revolução - em que é demasiado fácil ver-se unicamente o que se perdeu, ou, pelo contrário, o que se ganhará, em recortes ideológicos estreitos, que impedem a compreensão simultânea do que se perde e do que se ganha -, venho agora falar sobre
um outro livro, que me remete para o mesmo problema. É o exemplo de uma abordagem contrária àquela que O Leopardo consegue. Diria, o exemplo da forma "errada" (porque parcial) de entender o que se passou. Chama-se Cadernos de Memórias Coloniais. Escreveu-o Isabela Figueiredo.Hesitei muito. Por um lado, porque este é um blogue onde, sobre os livros, se tem uma preocupação eminentemente literária; ora pergunto-me se a crítica que me apeteceria fazer não será mais política e ideológica do que outra coisa; por outro lado, porque sendo eu mesmo moçambicano de nascimento, tendo vivido em Lourenço Marques, nos mesmos sítios, durante o mes
mo tempo que o texto vai fragmentariamente rememorando - ter-nos-emos cruzado alguma vez, Isabela e eu? -, mas não coincidindo com ela no teor da memória nem na interpretação dos factos, não correrei o risco de ser injusto? De me faltar distanciamento crítico? De responder às memórias da autora, com tudo o que nelas é pessoal e legítimo, com a divergência das minhas memórias, igualmente legítimas, igualmente pessoais?Corro o risco.
Numa crítica do Expresso, alguém escrevia, há umas semanas, que estes «cadernos» seriam decisivos. Porque poriam os pontos nos ii: revelariam o colonialismo moçambicano na sua dureza, na sua crueldade - contra uma visão nostálgica, muito propagada, segundo a qual a opressão teria sido, aí, mais meiga e gentil, mais evoluída e bondosa. Um colonialismo completamente diferente do inglês? Pelos vistos, não foi. Ou, como a própria afirma, talvez diferente, dificilmente melhor.
Claro que opressão é opressão. Não existem opressões mais ou menos meigas, mais ou menos gentis. Não existe opressão boa. A contradição nos termos soa ridícula. Mas a minha primeira objecção é a de que, redutoramente, Isabela faz, de um ajuste de contas com o seu pai, um ajuste de contas com todo o passado moçambicano. Traiu o pai, como continuamente repete? Assunto seu. Não me cabe julgá-la. Mas que o seu olhar crítico sobre o pai e sobre a relação entre ambos (que terá ficado totalmente por resolver), seja a única medida do que foi o Moçambique dos anos sessenta e setenta, parece-me, naturalmente, a assunção de uma lente redutora.
Há erros factuais. Pormenores desacertados que servem para nos mostrar como a memória é elástica, deturpadora, subjectiva.
Mas, em primeiro lugar, por que descontextualizar? Vivia-se, então, em Portugal, o tempo do singular fascismo português. E, mesmo já sob o marcelismo, a «metrópole» permanecia um espaço canhestro e fechado, generalizadamente inculto e pobre. O colonialismo não podia deixar de ser, com todas as suas desigualdades e injustiças, senão uma expressão de um regime feito de censura e medo da evolução.
Contudo, em mais do que um aspecto, Moçambique tornar-se-ia a ponta mais evoluída do icebergue que era Portugal; o meio da formação de uma autêntica vanguar
da - política, artística, cultural no sentido mais lato. De algum modo, por exemplo - e à semelhança do que ocorrera, ou ocorria, nos EUA, por causa do Vietname -, também ali se criava, entre os jovens estudantes em idade de ser chamados para a o serviço militar, um espírito de rebeldia e contestação.E surgiam, é claro, jornais e revistas modernos, de reflexão e crítica. (Chegou a haver projectos, desenvolvidos por colonos, em que se propunha o fim da censura, o que, na «metrópole», estava longe de se idealizar); e jornalistas, escritores, poetas, pintores, fotógrafos, de várias r
aças - José Craveirinha, Albino Magaia, Kok Nam, o próprio Mia Couto, que tão popular viria a ser mais tarde, Rui Knopfli, Malangatana Valente, os extraordinários irmãos Honwana -, que expressavam uma nova visão, um novo ideal, em linguagens que eram já outras, por onde perpassavam a voz do povo e a luta contra a opressão.Isabela não via, não ouvia, não sentia, não pressentia? Por criança que fosse, deste mundo complexo e em ebulição, contraditório e estranho, evoluindo e abrindo-se (embora contendo ainda, em si, a infecção, a injustiça, a d
esigualdade e a exploração), Isabela nada captou? Não tinha olhos senão para os «brancos que iam às pretas», como se a isso pudesse, hoje, reduzir o painel do pior e do melhor que eram aquela vida e aquela realidade culturais? Não estava senão com o pai diante dos seus olhos, esse pai enorme, que agredia os seus empregados, na hora do pagamento? Ou que os ia buscar às casas pobres, em caniço, para que não faltassem ao trabalho, aos murros e aos gritos?
Como esquecer, por exemplo, que os mais consistentes militantes da Frelimo, Samora Machel, Graça Simbine, Aquino de Bragança, Joaquim Chissano - tinham sido formados por professores portugueses, ou nas escolas dos missionários católicos e protestantes? Não o refiro como justificação do colonialismo, evidentemente, mas como observação de que, no seu melhor, este ensinou, formou, construiu, pensou, criticou, criou.«Ainda hoje os vejo envolvidos na mesma nostalgia. "A independência foi mal feita, e os culpados foram o Mário Soares e o Almeida Santos, que nos venderam e entregaram aos pretos". Eu traduzo, "aquilo que entregaram aos pretos deviam tê-lo entregue a nós, que logo tratávamos da negralhada". Quando revelam, com lágrimas sinceras, "deixei o meu coração em África", eu traduzo, "deixei lá tudo, e tinha uma vida tão boa".».
Percebemos o problema de má tradução: Isabel Figueiredo faz, de um sector, a voz de um todo - um todo mais difícil e variegado do que alguma vez a sua memória poderá entender.
Dirá, numa entrevista incluída no livro: «O colonialismo era o meu pai».
Aí radica, porventura, o seu erro crasso de perspectiva. Lamento contrariá-la, Isabela. Não era.
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domingo, 14 de fevereiro de 2010
GIUSEPPE DI LAMPEDUSA: O LEOPARDO
Salinger é o autor de um único livro. Não porque não tenha escrito e publicado outros, mas porque, na minha perspectiva, depois de se ter feito a obra perfeita - que é aquilo que Catcher in the Rye precisamente é -, se torna difícil escrever alguma coisa que lhe não seja inferior.
Admiro os escritores de obras únicas que são obras-primas. Emily Brönte, de que já aqui falei, é outro caso. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de Il Gattopardo, é claro, também.
O Leopardo, que permaneceu impublicado durante muito tempo, recusado por inúmeras editoras (o que não deixa de ser um extraordinário exemplo de ignorância e cegueira), só viria a público após a morte do autor. Nada menos do que um ano e meio após a sua morte. Mas, então, para ganhar o merecido reconhecimento a que, mais tarde, o filme de Luchino Visconti (com Burt Lancaster e Alain Delon) emprestaria a imagem definitiva.

Romance construído numa escrita delicada, complexa, belíssima, O Leopardo descreve as perturbações sofridas, numa Sicília há muito imutável, por uma família aristocrata, abastada, submetida à revolução: as personagens não são lineares, as ideologias não são lineares. Perante a implantação de uma nova ordem, percebemos tanto as insuficiências humanas da anterior, como o oportunismo corroendo, desde o início, os ideais da que chega: o arrivismo, a inveja, a incompetência ou o ressentimento, os quais seriam, por dentro da justiça e da justeza da Causa do progresso, parte do seu motor prático; percebemos como o velho regime, decadente e injusto (ou não haveria revolução), desaparecerá levando consigo, porém, um refinamento de maneiras e cultura que não poderão regressar tão cedo. Porque de tudo, do bom e do mau, se faz uma revolução.

Não podemos amar Don Fabrízio, Príncipe de Salina, que não é amável, isto é, não se deixa amar, nem tão-pouco odiá-lo na sua grandeza um pouco assustadora, aparentemente inflexível, embora, de algum modo, tentando ceder e negociar - segundo o maquiavélico princípio que hoje tão bem conhecemos, e constantemente confirmamos: «É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.»;
É com uma profundidade sem preconceitos que travamos conhecimento com uma figura psicológica plena de contrastes e de contradições, sua esposa, a Princesa, que, sob a fragilidade esperada, esperável, ou sob o medo e o desprezo pelo sexo brutal do Príncipe, oculta uma força própria e uma sabedoria fulgurantes; ou com Tancredi, o sobrinho gastador, corajoso e insensato; ou o Padre Pirrone, filósofo e conselheiro mas, paradoxalmente, amante da boa vida que aquela família lhe proporciona; bem!, e que dizer de uma personagem secundária mas, todavia, essencial enquanto símbolo do novo Poder - o Presidente da Câmara, pai, se bem me lembro de uma rapariga lindíssima, que irá ser o centro de uma paixão devastadora?
É o ajustamento, ao novo tempo histórico, da austera família de Don Fabrízio e da rede que ela teceu e manteve ao longo de séculos, o que acompanhamos por estas páginas dolorosas, irónicas e melancólicas.
Teria de ser
o único livro do autor. Aliás, é um livro historicamente único, também: e na sua visão imparcial e completa de uma revolução, entre a consciência de como o progresso é um ganho inevitável, e a intuição trágica de que algo fundamental terá de se perder, continuará sendo um livro único.
Admiro os escritores de obras únicas que são obras-primas. Emily Brönte, de que já aqui falei, é outro caso. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de Il Gattopardo, é claro, também.

O Leopardo, que permaneceu impublicado durante muito tempo, recusado por inúmeras editoras (o que não deixa de ser um extraordinário exemplo de ignorância e cegueira), só viria a público após a morte do autor. Nada menos do que um ano e meio após a sua morte. Mas, então, para ganhar o merecido reconhecimento a que, mais tarde, o filme de Luchino Visconti (com Burt Lancaster e Alain Delon) emprestaria a imagem definitiva.

Romance construído numa escrita delicada, complexa, belíssima, O Leopardo descreve as perturbações sofridas, numa Sicília há muito imutável, por uma família aristocrata, abastada, submetida à revolução: as personagens não são lineares, as ideologias não são lineares. Perante a implantação de uma nova ordem, percebemos tanto as insuficiências humanas da anterior, como o oportunismo corroendo, desde o início, os ideais da que chega: o arrivismo, a inveja, a incompetência ou o ressentimento, os quais seriam, por dentro da justiça e da justeza da Causa do progresso, parte do seu motor prático; percebemos como o velho regime, decadente e injusto (ou não haveria revolução), desaparecerá levando consigo, porém, um refinamento de maneiras e cultura que não poderão regressar tão cedo. Porque de tudo, do bom e do mau, se faz uma revolução.

Não podemos amar Don Fabrízio, Príncipe de Salina, que não é amável, isto é, não se deixa amar, nem tão-pouco odiá-lo na sua grandeza um pouco assustadora, aparentemente inflexível, embora, de algum modo, tentando ceder e negociar - segundo o maquiavélico princípio que hoje tão bem conhecemos, e constantemente confirmamos: «É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.»;
É com uma profundidade sem preconceitos que travamos conhecimento com uma figura psicológica plena de contrastes e de contradições, sua esposa, a Princesa, que, sob a fragilidade esperada, esperável, ou sob o medo e o desprezo pelo sexo brutal do Príncipe, oculta uma força própria e uma sabedoria fulgurantes; ou com Tancredi, o sobrinho gastador, corajoso e insensato; ou o Padre Pirrone, filósofo e conselheiro mas, paradoxalmente, amante da boa vida que aquela família lhe proporciona; bem!, e que dizer de uma personagem secundária mas, todavia, essencial enquanto símbolo do novo Poder - o Presidente da Câmara, pai, se bem me lembro de uma rapariga lindíssima, que irá ser o centro de uma paixão devastadora?
É o ajustamento, ao novo tempo histórico, da austera família de Don Fabrízio e da rede que ela teceu e manteve ao longo de séculos, o que acompanhamos por estas páginas dolorosas, irónicas e melancólicas.
Teria de ser
o único livro do autor. Aliás, é um livro historicamente único, também: e na sua visão imparcial e completa de uma revolução, entre a consciência de como o progresso é um ganho inevitável, e a intuição trágica de que algo fundamental terá de se perder, continuará sendo um livro único.
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domingo, 7 de fevereiro de 2010
valter hugo mãe: a máquina de fazer espanhóis

Estou a ler um livro de que se tem falado muito, ultimamente. E há tanto a dizer acerca dele, e dos aspectos em que me parece conseguido, ou dos menos conseguidos, ou dos totalmente desconseguidos, que terei de desdobrar esta crítica em diferentes tópicos.
Principiemos por um ponto que, intransigentemente, tardo em compreender na obra do autor, valter hugo mãe. E que é, precisamente - como se vê, desde logo, pela forma como redige o nome - a recusa das letras maiúsculas.
Ao que me parece, e antes de mais, acede-se à língua - a qualquer língua - como se entrássemos numa casa cujos fundamentos existem já. Há uma gramática que, mais do que um uniforme apertado, é um modo de nos familiarizarmos e acordarmos no uso das palavras, e de as articular entre si, modo esse que veio evoluindo até fazer da fala e da escrita instrumentos eficazes, partilhados, claros. Comuns - de «comunicar».
Será que penso, portanto, que a adulteração dessas regras, ou o recurso a excepções, quando tornem o texto mais expressivo ou mais belo, são inaceitáveis? Obviamente que não. Todos os poetas se revelam, de algum modo, autênticos experimentalistas da língua. Fernando Pessoa foi-o, entre nós, de um modo extremo. E que dizer do português-moçambicano de Mia Couto, que bebe no modo de o seu povo se apropriar quotidianamente do português? Já para não falar de Saramago, que revolucionou a escrita, procurando que cada período fosse a expressão de uma multiplicidade de vozes em diálogo?
E no entanto, a eliminação das maiúsculas em nome de uma pretensa «dignidade democrática» de todas as palavras, que as igualasse entre si, soa como uma espécie de cedência à pura sede da originalidade pela originalidade. O que irrita. (Tanto mais, aliás, que nem se trata verdadeiramente de uma prática original). A prosa torna-se gratuitamente menos clara por causa dessa opção. E se a esta modernidade não falta coerência - porque, convenhamos, há coerência de sobra em que um autor submeta toda a sua obra a um tal espartilho - , falta-lhe um sentido relevante, pelo qual valesse a pena pôr em causa a tradição, e lutar!
Principiemos por um ponto que, intransigentemente, tardo em compreender na obra do autor, valter hugo mãe. E que é, precisamente - como se vê, desde logo, pela forma como redige o nome - a recusa das letras maiúsculas.
Ao que me parece, e antes de mais, acede-se à língua - a qualquer língua - como se entrássemos numa casa cujos fundamentos existem já. Há uma gramática que, mais do que um uniforme apertado, é um modo de nos familiarizarmos e acordarmos no uso das palavras, e de as articular entre si, modo esse que veio evoluindo até fazer da fala e da escrita instrumentos eficazes, partilhados, claros. Comuns - de «comunicar».
Será que penso, portanto, que a adulteração dessas regras, ou o recurso a excepções, quando tornem o texto mais expressivo ou mais belo, são inaceitáveis? Obviamente que não. Todos os poetas se revelam, de algum modo, autênticos experimentalistas da língua. Fernando Pessoa foi-o, entre nós, de um modo extremo. E que dizer do português-moçambicano de Mia Couto, que bebe no modo de o seu povo se apropriar quotidianamente do português? Já para não falar de Saramago, que revolucionou a escrita, procurando que cada período fosse a expressão de uma multiplicidade de vozes em diálogo?
E no entanto, a eliminação das maiúsculas em nome de uma pretensa «dignidade democrática» de todas as palavras, que as igualasse entre si, soa como uma espécie de cedência à pura sede da originalidade pela originalidade. O que irrita. (Tanto mais, aliás, que nem se trata verdadeiramente de uma prática original). A prosa torna-se gratuitamente menos clara por causa dessa opção. E se a esta modernidade não falta coerência - porque, convenhamos, há coerência de sobra em que um autor submeta toda a sua obra a um tal espartilho - , falta-lhe um sentido relevante, pelo qual valesse a pena pôr em causa a tradição, e lutar!
Contudo, quando se trata do seu último livro, a máquina de fazer espanhóis, é fundamental não deixarmos que essa opção do autor (afinal, bem vistas as coisa, um mero pormenor), se transforme num bloqueio a priori. Porque perderíamos a oportunidade de aceder a uma sensibilidade fascinante: o narrador é um homem de oitenta e quatro anos, que enviuva de Laura, a mulher que amava ainda e sempre e, vítima de um ataque, na sequência desse falecimento, acaba num Lar de Terceira Idade. Ora é nesta apreensão do mundo a partir de uma situação particular (porventura comum na vida mas, na verdade, invulgaríssima na literatura), que radica o carácter revolucionário do romance de valter hugo mãe: muito mais do que a questão das minúsculas.
«um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua de razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico.». Se imaginarmos a voz e a reflexão próprias de um homem idoso, que não se limite à pieguice politicamente correcta que nos dá jeito atribuir-lhe, mas , pelo contrário, conserve o cinismo e a crueldade capazes de pôr em causa o mundo que vai perdendo - e a injustiça da maneira como esse mundo se volta contra ele -, percebemos a grandeza deste texto. A reflexão é genuína, autêntica, credível: sendo escrito por um autor que nasceu em 1971, não pode deixar de ser a de um jovem capaz de se colocar no lugar do outro, e de o compreender por dentro, emprestando-lhe os seus meios.
É um livro que se lê tensamente, mas, todavia, na proximidade de uma alegria, como reza a contracapa, «complexa, até difícil de aceitar».
valter hugo mãe não me convenceu com o seu livro premiado, o remorso de baltazar serapião (Prémio José Saramago, 2006) - que me cansou e de que desisti a meio. Convence-me, porém, com esta sua máquina. Lindíssimo.
«um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua de razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico.». Se imaginarmos a voz e a reflexão próprias de um homem idoso, que não se limite à pieguice politicamente correcta que nos dá jeito atribuir-lhe, mas , pelo contrário, conserve o cinismo e a crueldade capazes de pôr em causa o mundo que vai perdendo - e a injustiça da maneira como esse mundo se volta contra ele -, percebemos a grandeza deste texto. A reflexão é genuína, autêntica, credível: sendo escrito por um autor que nasceu em 1971, não pode deixar de ser a de um jovem capaz de se colocar no lugar do outro, e de o compreender por dentro, emprestando-lhe os seus meios.
É um livro que se lê tensamente, mas, todavia, na proximidade de uma alegria, como reza a contracapa, «complexa, até difícil de aceitar».
valter hugo mãe não me convenceu com o seu livro premiado, o remorso de baltazar serapião (Prémio José Saramago, 2006) - que me cansou e de que desisti a meio. Convence-me, porém, com esta sua máquina. Lindíssimo.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
ÀS MINHAS SEGUIDORAS
Às minhas 3 seguidoras, curiosamente brasileiras todas elas, e que não conheço - mas cujos blogues tenho espreitado -, Florzinha Afável, Stella e Fernanda Lym, um obrigado muito sentido.
Se um dia quiserem comentar, por favor, não hesitem.
Mas, ainda que o não façam, todo tremo de euforia contida só de pensar que, no longínquo Brasil, três florzinhas afáveis se interessam pelo que quer que eu escreva acerca dos livros que amo.
Se um dia quiserem comentar, por favor, não hesitem.
Mas, ainda que o não façam, todo tremo de euforia contida só de pensar que, no longínquo Brasil, três florzinhas afáveis se interessam pelo que quer que eu escreva acerca dos livros que amo.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
HOMENAGEM PÓSTUMA A PROPÓSITO DE UMA HOMENAGEM ANTE-PÓSTUMA
J. D. Salinger faleceu, julgo que na passada 4ª-feira.
No domingo anterior dedicara-me a invadir o meu irmão, lendo-lhe precisamente passagens de The Catcher in the Rye, que tinha acabado de comprar, ou re-comprar, muito pouco tempo antes.
Pela mesma altura, sensivelmente, escrevera um post sobre esse autor e esse livro que considero de uma sensibilidade ímpar.
Fico feliz por ter comprado o livro e escrito o "post" antes da morte de Salinger. Sem a prever. Não fiz parte daqueles que se lembram de um autor quando e porque este morreu.
Há coincidências espantosas. Que, pois, esse meu interesse espontâneo, gratuito, que essa memória que não foi senão a saudade da personagem (e narrador), que esse meu regresso à obra, que me surgiram do nada, a propósito de coisa nenhuma, sejam a minha homenagem
a J. D. Salinger.
Até sempre.
No domingo anterior dedicara-me a invadir o meu irmão, lendo-lhe precisamente passagens de The Catcher in the Rye, que tinha acabado de comprar, ou re-comprar, muito pouco tempo antes.
Pela mesma altura, sensivelmente, escrevera um post sobre esse autor e esse livro que considero de uma sensibilidade ímpar.
Fico feliz por ter comprado o livro e escrito o "post" antes da morte de Salinger. Sem a prever. Não fiz parte daqueles que se lembram de um autor quando e porque este morreu.
Há coincidências espantosas. Que, pois, esse meu interesse espontâneo, gratuito, que essa memória que não foi senão a saudade da personagem (e narrador), que esse meu regresso à obra, que me surgiram do nada, a propósito de coisa nenhuma, sejam a minha homenagem
a J. D. Salinger.
Até sempre.
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sábado, 23 de janeiro de 2010
J. D. SALINGER: THE CATCHER IN THE RYE

Escrevo o texto, propositadamente, numa espécie de deserto cortado por uma ilustração única e diminuta. O homem que nos sorri dessa fotografia antiga é J. D. Salinger, o qual, desde a publicação e quase imediato sucesso da sua obra-prima, preferiu manter-se num estado prático de reclusão. Para quê, pois, expor, mais do que o estritamente necessário, um autor que recusa a exposição?
Terei de falar novamente do meu primo? Claro que sim. Como este estudava, então, algures em Inglaterra, conhecia bem um livro de leitura obrigatória para a aprendizagem da língua inglesa: The Catcher in the Rye. Apresentou-mo, portanto.
Comecei por lê-lo em inglês. Percebi, desde as primeiras páginas, que aquele romance escrito nos anos cinquenta permanecia actual; mais: de uma novidade e uma originalidade absolutas. Mais tarde, comprei-o em português; hélàs!, emprestei-o; perdi-o de vista. Ontem, comprei-o de novo, numa tradução que lhe oferece o nome suspeito e pouco feliz de À Espera no Centeio.
A forma revela-se um achado: o narrador é Holden Caulfield, um adolescente de dezasseis anos. E que, de facto, escreve como um adolescente de dezasseis anos. A linguagem rebelde e aparentemente pouco sofisticada de Caulfield, sustentada nos pilares que são as palavras obscenas e violentas do léxico adolescente em qualquer tempo e em toda a parte, vai-se mostrando o meio perfeito para a apresentação da sua perspectiva - que é, naturalmente, a perspectiva de, que esperavam?, um adolescente de dezasseis anos. Do seu ponto de vista, os velhos são deprimentes, os adultos são em geral pessoas entediantes, as exigências e expectativas, de que o cercam, completamente falhas de sentido.
Este distanciamento em relação ao mundo que descreve, no entanto, minuciosamente, assume-se como um veio poderoso de humor. Reconheço, aliás, aquele humor ácido. Tenho um filho de catorze anos e, acreditem, os adolescentes olham hoje para as coisas com a mesma incompreensão irónica que há cinquenta anos.
É, num certo sentido, um livro que nos resgata: embora Caulfield seja, para nós, o «estrangeiro», isto é, o objecto estranho que vai lidando com os seus dias através de decisões erradas e perigosas, a sua tentativa de comunicar connosco, leitores, aproxima-o, faz-nos entrar em si, fá-lo entrar em nós. Nasce uma telepatia. Como se, dentro de cada um de nós, um adolescente que nunca morreu despertasse e estabelecesse o contacto: sim, Caulfield, compreendo-te bem, o sistema é tramado, as opções que se te abrem são todas igualmente más, mais vale seguir essa espécie de instinto louco, duro, aventureiro e generoso.
Mas mais do que isto, como é evidente, Caulfield, sob o azedume do seu riso, sob a ironia tensa, a pura propensão para o disparate (mais, até, do que para a revolta), torna-se uma figura comovente. Veja-se o diálogo com a irmã, um momento que se crava com toda a força numa zona vulnerável do peito do leitor.
Não me importo de emprestar este livro a outra pessoa, porque Salinger merece que o conheçam.
De resto, é claro, eu iria comprar imediatamente um novo exemplar.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
INJUSTIÇAS
Temo ter sido injusto, no post em que procurava lembrar e referir os marcos do meu passado como aprendiz de leitor.
Então, e sobre Júlio Verne, nem uma palavra? Pois havia uma colecção bem bonita, com livros de capas apetitosas, coloridas: sei que me ofereceram, em certo aniversário, Atribulações de um Chinês na China, que li com algum entusiasmo. Sei que havia, na minha cabeceira, A Volta ao Mundo em 80 Dias.
Então, e sobre Mark Twain, nada a dizer?
Como é possível?
Talvez ainda antes de Os cinco e de Os Sete, Tom Sawyer foi o livro que me conquistou: tratava-se de um rapaz hiperactivo. (Sabia eu lá na altura o que era isso! Aliás: o próprio Mark Twain não fazia ideia, na época em que escreveu simplesmente sobre um puto irrequieto e aventureiro, que possibilidades diagnósticas reservaria o futuro). Esse garoto dotado de uma imaginação inesgotável, que o mundo dos adultos não era capaz de digerir, agarrou-m
e, prendeu-me, levou-me consigo.
Depois li Huckleberry Finn; apreciei-o também devidamente, mas não como a Tom Sawyer, ah, não, nada como Tom Sawyer - e a sua temível tia Polly; o irmão perfeito, invejoso e delator (até porque eu tinha um irmão perfeito, invejoso e delator); a Becky, por quem nos apaixonámos os dois ao mesmo tempo, Tom e eu; o Huck; o preto Jim. E, claro, o malvado Injun Joe!
Recordo as cenas como se as relesse, Deus do céu!, desde aquela encenação que Tom faz, logo num dos capítulos iniciais, para persuadir os seus amigos de que tarefa que a tia o obrigara a desempenhar era, na verdade, um prazer - o que teve como resultado que lhe pagassem (em berlindes ou ratos mortos atados por um fio) para a realizar em vez dele -, passando pela sua inesquecível e malograda tentativa de suicídio por amor, até aquela outra, já no fim, que nos oferece o dramático confronto com Injun Joe, que tantos pesadelos me provocou...
Tom Sawyer e Huckleberry Finn são livros, perdoem-me a expressão detestável, infanto-juvenis como se não fazem já. Maduros, interessantes, profundos - sem cedências. Uma porta aberta para o gosto de ler.
Esqueci-os?
Imperdoável.
Então, e sobre Júlio Verne, nem uma palavra? Pois havia uma colecção bem bonita, com livros de capas apetitosas, coloridas: sei que me ofereceram, em certo aniversário, Atribulações de um Chinês na China, que li com algum entusiasmo. Sei que havia, na minha cabeceira, A Volta ao Mundo em 80 Dias.
Então, e sobre Mark Twain, nada a dizer?
Como é possível?
Talvez ainda antes de Os cinco e de Os Sete, Tom Sawyer foi o livro que me conquistou: tratava-se de um rapaz hiperactivo. (Sabia eu lá na altura o que era isso! Aliás: o próprio Mark Twain não fazia ideia, na época em que escreveu simplesmente sobre um puto irrequieto e aventureiro, que possibilidades diagnósticas reservaria o futuro). Esse garoto dotado de uma imaginação inesgotável, que o mundo dos adultos não era capaz de digerir, agarrou-m
e, prendeu-me, levou-me consigo.Depois li Huckleberry Finn; apreciei-o também devidamente, mas não como a Tom Sawyer, ah, não, nada como Tom Sawyer - e a sua temível tia Polly; o irmão perfeito, invejoso e delator (até porque eu tinha um irmão perfeito, invejoso e delator); a Becky, por quem nos apaixonámos os dois ao mesmo tempo, Tom e eu; o Huck; o preto Jim. E, claro, o malvado Injun Joe!
Recordo as cenas como se as relesse, Deus do céu!, desde aquela encenação que Tom faz, logo num dos capítulos iniciais, para persuadir os seus amigos de que tarefa que a tia o obrigara a desempenhar era, na verdade, um prazer - o que teve como resultado que lhe pagassem (em berlindes ou ratos mortos atados por um fio) para a realizar em vez dele -, passando pela sua inesquecível e malograda tentativa de suicídio por amor, até aquela outra, já no fim, que nos oferece o dramático confronto com Injun Joe, que tantos pesadelos me provocou...
Tom Sawyer e Huckleberry Finn são livros, perdoem-me a expressão detestável, infanto-juvenis como se não fazem já. Maduros, interessantes, profundos - sem cedências. Uma porta aberta para o gosto de ler.
Esqueci-os?
Imperdoável.
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sábado, 16 de janeiro de 2010
ROBERTO BOLAÑO: 2666
Já há muito não subo a este blogue. Hesito na palavra passe, sinal mais do que evidente de que não tenho recorrido frequentemente a ela.
Não sei bem sobre que falar. Mas, afinal, sei. Isto é, de miríades de possibilidades que respiro (e se me referisse a Camus, de que se comemoram cinquenta ano
s da morte?, e se me referisse a John Fante, escritor semi-maldito que acabei de descobrir?, por que não a um português, digamos Nuno Morais, poeta malogrado por cuja poesia me apaixonei?), há já uma possibilidade mais forte do que as outras, que se define e torna nítida. No momento em que teclo estas palavras, já ela se esclareceu e tornou real. Bolaño. 2666. É isto.De Roberto Bolaño, autor chileno, conhecia, quase por acaso, um livro chamado Os Detectives Selvagens. Se quisesse reduzir 506 páginas a dois adjectivos, escolheria estes: originalíssimo e desigual.
A linguagem é extraordinária; a narração principia e, durante muito tempo, mantém-se numa crueza hilariante; as personagens multiplicam-se na sua riqueza e autenticidade. Mas o problema é, em parte, precisamente esse: demasiadas personagens, implicando universos diversificados, num labirinto em que nos perdemos, sem dúvida interessante mas, é verdade, nem sempre igualmente
intere
ssante. O entusiasmo do leitor vai-se esbatendo: cede a vez ao cansaço e à confusão.O livro de que vos quero falar, todavia, é outro. 2666 tem uma história subjacente: avisado da proximidade da morte, Roberto Bolaño decidiu escrever um longo romance, de forma a que a sua família pudesse ficar amparada. Dividiu o gigantesco texto em cinco partes; transformou-o, portanto, em cinco romances, que pediu ao seu editor que publicasse em separado. Assim, durante pelo menos cinco anos, a mulher e os filhos poderiam sobreviver à custa dos direitos autorais...
Foi, porém, o próprio editor, homem inteligente, sensível, desrespeitador e de bom gosto, que percebeu que esta obra enorme não podia, sem prejuízo, ser espartilhada. Talvez mais tarde - mas numa primeira fase, tornava-se absolutamente imprescindível que o leitor tivesse aceso à sua unidade intrínseca.
2666, de 1025 páginas, é, portanto, o género de obra que costumamos referir como um «romance falhado», não querendo com isso propriamente menosprezá-la, mas tão-só caracterizá-la enquanto tentativa impossível de abarcar a totalidade. Musil, com O Homem sem Qualidades, e talvez também Proust, escrevendo Em Busca do Tempo Perdido (sem que em qualquer caso se trate de diminuir a grandeza ou o génio criativo que revelam), seriam autores de similares esforços para dar conta de todos os pormenores, todos os sujeitos, todo o passado, todo o presente e todo o futuro, num sistema universal e particular, aberto e fechado, um texto inconclusivo mas concluído.
Deparamos, em 2666, com a mesma diferença de universos («registos», como agora se diz) que em Os Detectives Selvagens: mas existe aqui, de algum modo, uma tensão equilibrada. Cinco partes que se lêem como romances diferentes, mesmo que a princípio a unidade ou o fio condutor que os liga pareçam ténues, conseguem encaixar-se, a prazo, como as peças de um gigantesco puzzle onde não temos, nem esperamos ter, senão no fim, uma visão de conjunto. A dispersão perturba menos, é quase uma condição organizadora de um todo que tende fatalmente a dispersar-se nas suas partes.
A narração de Bolaño é brilhante. O sarcasmo está sempre presente, como uma faca de ponta-e-mola; a noção do ridículo é uma constante que, todavia, nem por um momento faz com que nos distanciemos das personagens, ou deixemos de sentir fundamente a sua tristeza. O enigma que, de certo modo, se transforma em diferentes enigmas - onde está Archimboldi, quem comete a série de violações, quem comete a série de sacrilégios, e que terão estas interro
gações que ver umas com as outras - permanece sempre audível e interessante, motor surdo de um suspense que subsiste às variações de ritmo.Meu primo - de quem tanto aqui tenho falado, e de quem falarei porventura ainda mais, agora que sei que, lá da longínqua América, se foi tornando um leitor atento deste blogue - recebeu, no Natal, um exemplar deste livro. Iniciou-o: «Tem graça», afirma. Mas torce ainda demasiado o nariz. Há aspectos que lhe parecem forçados, como um experimentalismo bacoco em prol da originalidade pela originalidade.
Não digo que não leia, aqui ou ali, algo que pode ser atribuído a uma certa pose intelectual, a um certo brilho desnecessário, a uma originalidade vã. O que digo é que nada disto, nada, retira à progressão e à grandeza da obra, à sua ambição totalitária e ao pormenor da sua multiplicação por ângulos diferentes, às personagens, às situações, à comédia, à tragédia e ao mistério, uma grama que seja de sentido e força.
Não se pode fechar o sistema. Qualquer tentação e tentativa de o fazer não pode senão concluir-se num falso fim e num falhanço. Nevertheless, há falhanços magníficos. É o caso.
sábado, 2 de janeiro de 2010
COMO SE FORMOU UM PROFISSIONAL DA LEITURA
Não me lembro, numa primeira infância, senão dos livros muito coloridos de Noddy e de uma excitante edição de O Sítio do Pica-pau amarelo. Estava em Moçambique, na casa do meu tio e, lá em baixo, para onde eu gostava de me escapar sozinho, penetrava na gruta mágica de Ali-Baba, que era a salinha de brinquedos que o tio António mandara fazer às netas, a partir de um antigo galinheiro: perdia-me entre brinquedos e livros.
Mais tarde, com oito ou nove anos, já em Lisboa, recordo um volume magnífico - talvez no português do Brasil -, que reunia Robin Hood, Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, do qual retenho perfeitamente o poema da Morsa e do Carpinteiro, que devo ter relido vezes sem conta, surpreendido, divertido, fascinado.
A seguir, de volta a Moçambique, para além das leituras proibidas que pescava secretamente entre as estantes do meu irmão - O Homem, sobre um primeiro presidente negro dos Estados Unidos, que agora faria sentido reler, e A 25ª Hora -, o que marcou decisivamente o meu gosto pela leitura foi a descoberta da senhora dona Enid Blyton: Os Cinco, é claro, mas, mais do que esses, Os Sete: o clube que formavam, as excursões em bicicleta e os deliciosos «lanches ajantarados» que as mães lhes preparavam, ou as merendas, descritas com todo o detalhe, que levavam nas viagens. Devorei Os Sete. (Hoje, nem me lembro senão de um ou dois deles, um tal Pedro e uma tal Bárbara. E um cão, que era o Toy!)
Com alguma curiosidade, pergunto-me qual foi o primeiro livro literariamente excelente que li, aquele que terá marcado o despertar do meu gosto, o meu prazer, o meu vício, a minha paixão pela leitura. Estou em crer que pudesse ser O Idiota. (Sempre era Dostoievski!). Estava na mítica estante do meu irmão, e este detestava-o, com aquela sua arrogante necessidade de pôr em causa tudo quanto fosse consagrado e respeitado. «Génios tão indiscutíveis», reclamava ele, sarcástico, «e repara como logo da primeira para a segunda página entram em contradição». Era verdade. Não me lembro de que contradição se tratava, algum pormenor na descrição do vestuário, mas lá estava, aliás assinalado pelo tradutor.
Mas talvez não tivesse sido esse o meu clique. Talvez uma peça de teatro do Arthur Miller, talvez um livro de contos de O. Henry, talvez o Gorki. Talvez mesmo Nietzsche, de que não percebia uma palavra e que no entanto me mantinha cativo, absorvendo parágrafos completos. (Assim Falava Zaratustra, já perceberam...).
Em todo o caso, foi assim que a minha formação se foi tecendo. Darwinisticamente. Entre tropeções bem-sucedidos, acidentes e erros que pegaram, descobertas imprevisíveis, lixo que ficou pelo caminho, deslumbramentos precoces e revelações tardias.
Atrevo-me a achar que o resultado é interessante.
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