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sexta-feira, 21 de março de 2014

CHARLES BAUDELAIRE: AU LECTEUR



 

La sottise, l'erreur, le péché, la lésine,
Occupent nos esprits et travaillent nos corps,
Et nous alimentons nos aimables remords,
Comme les mendiants nourrissent leur vermine.

Nos péchés sont têtus, nos repentirs sont lâches ;
Nous nous faisons payer grassement nos aveux,
Et nous rentrons gaiement dans le chemin bourbeux,
Croyant par de vils pleurs laver toutes nos taches.

Sur l'oreiller du mal c'est Satan Trismégiste
Qui berce longuement notre esprit enchanté,
Et le riche métal de notre volonté
Est tout vaporisé par ce savant chimiste.

C'est le Diable qui tient les fils qui nous remuent !
Aux objets répugnants nous trouvons des appas ;
Chaque jour vers l'Enfer nous descendons d'un pas,
Sans horreur, à travers des ténèbres qui puent.

Ainsi qu'un débauché pauvre qui baise et mange
Le sein martyrisé d'une antique catin,
Nous volons au passage un plaisir clandestin
Que nous pressons bien fort comme une vieille orange.

Serré, fourmillant, comme un million d'helminthes,
Dans nos cerveaux ribote un peuple de Démons,
Et, quand nous respirons, la Mort dans nos poumons
Descend, fleuve invisible, avec de sourdes plaintes.

Si le viol, le poison, le poignard, l'incendie,
N'ont pas encor brodé de leurs plaisants dessins
Le canevas banal de nos piteux destins,
C'est que notre âme, hélas! n'est pas assez hardie.

Mais parmi les chacals, les panthères, les lices,
Les singes, les scorpions, les vautours, les serpents,
Les monstres glapissants, hurlants, grognants, rampants,
Dans la ménagerie infâme de nos vices,

II en est un plus laid, plus méchant, plus immonde !
Quoiqu'il ne pousse ni grands gestes ni grands cris,
Il ferait volontiers de la terre un débris
Et dans un bâillement avalerait le monde ;

C'est l'Ennui ! L'oeil chargé d'un pleur involontaire,
II rêve d'échafauds en fumant son houka.
Tu le connais, lecteur, ce monstre délicat,
- Hypocrite lecteur, - mon semblable, - mon frère !

Charles Baudelaire, Les Fleurs du mal

sábado, 26 de março de 2011

DANIEL FARIA: POESIA



Descubro Daniel Faria, no seu Poesia, que reúne seis livros (Uma Cidade com Muralha, Oxálida, A Casa dos Ceifeiros, Explicação das Árvores e de Outros Animais, Homens que são como Lugares mal Situados e Dos Líquidos), e ainda diversos inéditos que o poeta havia oferecido a amigos seus, e aqui se recuperam; descobrindo-o, percebo, subitamente, e por antítese, o que eu próprio teria querido dizer, num post anterior, acerca da maioria dos novíssimos da poesia portuguesa. Achava que, por alguma razão, e como se respirassem um certo ar do tempo, asfixiantemente comum, todos os poemas «de hoje» se parecem de um modo irremediável... Em Daniel Faria, que morreu tão jovem, aos 28 anos, cada poema contém um segredo absolutamente indispensável, que não se confunde com esse «ar do tempo». Cada poema seu é um segredo indispensável. Quando leio, por oposição a Daniel Faria, num livro de um outro autor - aliás vagamente na moda -, numa livraria, este poema feito de um único verso dedicado a Barcelona, «A cidade incendiada pelo olhar desprevenido», sinto que nem as palavras, nem a experiência de absoluta surpresa e encantamento que elas visariam transmitir, têm seja o que for que nos faça parar e ansiar por reler. Há, aqui, qualquer coisa de trivial, uma espécie de mediocridade que, mais do que provocar uma revelação ao espírito, se limita a evocar a imagem de um turista, em calções e de máquina fotográfica, exclamando: «Ena!»
Leio, agora, estes versos de Daniel Faria: «O pássaro amanhece/ e o seu bico não fere o seu canto»: são palavras que não esperamos e se acertam num sentido frágil, que tem de ser protegido, ao mesmo tempo de uma beleza e de um leveza extremas, como um brilho inseguro, tremente, que poderia estar ou não estar onde nos pareceu vislumbrá-lo. E se fosse uma ilusão? Um mero reflexo? E se, ao olhar de novo, percebêssemos que não estava lá?
Neste «pássaro que amanhece» (inversamente à tal metáfora do incêndio, que já lemos tantas vezes quantas vezes vimos, no cinema, um polícia tendo de decidir se deve cortar o fio amarelo ou o fio vermelho, para desmontar uma bomba), neste «pássaro que amanhece» há algo que tem de ser dito - embora pudesse nunca vir a ser dito, se o poeta não atingisse a expressão e a imagem exactas de uma verdade tão simples. Eis um outro poema muito bonito e simples (embora, de facto, complexo, se atentarmos na construção) de Daniel Faria: Houvesse um sinal a conduzir-nos/ E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores/ A incomparável paciência de procurar o alto/ A verde bondade de permanecer/ E orientar os pássaros. Porque, como dizia O'Neill, em poesia não há senão esta fronteira: os poemas que têm absolutamente de se escrever, e os poemas que poderiam ser escritos ou não...

domingo, 13 de março de 2011

ADÍLIA LOPES: OBRA


É uma coisa de que me orgulho muito, devo confessar:

Na Biblioteca da escola em que lecciono, numa sessão de uma série a que chamei Ouvisões, convidei os alunos a ligar e a expor a poesia de Adília Lopes (que poucos conheciam e é ainda desconhecedíssima, se exceptuamos os consumidores oriundos de uma certa elite cultural), a pintura de Paula Rego (que todos reconhecem e se tornou indiscutível) e a música dos Deolinda, que ultimamente está na moda, merecidamente, aliás, mas, à época, dava os primeiros passos, ou os primeiros acordes - de maneira que ainda constituíam novidade.


O ponto comum deste cruzamento (poesia, pintura e música) era o grotesco: um certo trabalho sobre o grotesco; e, claro, o facto de esse trabalho artístico ser, nos três casos, realizado por mulheres. [Também nos Deolinda, porque embora haja, na banda, músicos do sexo masculino, não só a vocalista, Ana Bacalhau, é uma mulher, como a imagem ou o heterónimo para que o grupo remete, a Deolinda que lhe dá nome, seria uma jovem típica portuguesa, à janela, entre gatos...]


Voltemos a Adília. A sua poesia possuía-me completamente. Lera excertos, lera alguns livros breves, um já com muitos anos (talvez o seu primeiro, Um Jogo Bastante Perigoso...) e vinha de resdecobri-la, e completá-la na gigantesca Obra, que reúne poemas seus de várias proveniências.


Os poemas de Adília têm uma forma quase crua de enunciar nomes e espaços. Quando nos fala das paredes «em obras» da faculdade, ou do escritório de um senhor que não me lembro quem seja, ou de um conferencista, ou de um escritor ou de um professor, nós sabemos que está a nomear objectos reais do seu círculo geográfico, académico, familiar, de amizades. E a «oficina do grotesco» (para referir o nome de um grupo dramático de boa memória) principia precisamente aí, nesse enunciar o real para o denunciar em inesperadas deformidades. Um desejo insatisfeito, uma omnipresente frustração perante a monstruosidade de que resulta o choque entre o desejado prazer e a penosa realidade tornam os sonhos em pesadelos risíveis: objecto da vingança perpetrada pelo escárnio e pelo maldizer.


A poesia de Adília é, por vezes, brutal: com os meus alunos, procedeu-se a uma selecção, próxima de censura, que evitava os poemas de linguagem mais explícita e escabrosa. Mas é um canto que caminha sempre entre uma sensibilidade triste, uma ternura talvez demasiado frágil e quase inocente, que regressa continuamente, e o riso sarcástico e endemoninhado: caminha na proximidade dos contos e mitos infantis (a carochinha, a sereia, o príncipe), mas para deles extrair uma assustadora perversidade.


É uma poesia imperdível: como raros autores na novíssima poesia portuguesa, Adília não é igual a ninguém mais. Inventou-se, forjou-se, ri-se. À nossa custa, sem dúvida. À sua custa, certamente. E corajosamente.

terça-feira, 8 de março de 2011

UMA SENSAÇÃO DESAGRADÁVEL APÓS TER LIDO UM POEMA DE HOJE

Um ligeiro problema com a poesia portuguesa de agora é que todos os poemas, de todos os jovens poetas, se parecem imenso. Mesmo os melhores poemas têm um incómodo travo a déjà-vu. E talvez aconteça algo semelhante em todas as épocas, talvez haja, nesta fisionomia familiar e comum, algo de espírito do tempo, a que se não consiga fugir.

Deste ponto de vista, Gonçalo M. Tavares - que não é, em primeiro lugar, um poeta - surge como uma total surpresa. E não deixa de ser curioso que um dos meios de que se serve para formar o seu próprio singularíssimo rosto poético, consiste em ir beber a fontes ainda mais antigas do que as fontes em que quase todos hoje bebem.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

«O» POEMA DE JOSÉ RÉGIO

O sublime Cântico Negro, de Régio, no incontornável blogue «suplementar» de Mariana, ou seja, aqui:

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA: OS AMIGOS

Um amigo enviou-me este poema de J.T.M., que me calou fundo:


Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça, «Os Amigos» in De Igual Para Igual

É muito, muito, muito bonito, não é? Obrigado, amigo.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

WILLIAM CARLOS WILLIAMS: «SO MUCH DEPENDS UPON» (1923)

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens.

*

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água
da chuva

ao lado das galinhas
brancas

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONSTANTINO CAVAFY: ÍTACA



«Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Cíclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseídon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Cíclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
Terás compreendido o sentido de Ítaca




Tradução de Jorge de Sena

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

RUI KNOPFLI: O ESCRIBA ACOCORADO



Há uns anos, pediram-me que escrevesse um artigo sobre Rui Knopfli. Assim o fiz. Considerava-me, aliás, imodestamente, a pessoa indicada para a tarefa: eu era moçambicano como ele (embora de uma outra geração: lembro-me de lhe ser apresentado numa festa, eu garoto, ele já poeta consagrado) e habitávamos ambos, intelectualmente, uma mesma cultura africana, em relação à qual, ao mesmo tempo, nos sentíamos «outsiders». Escrevi o artigo com grande prazer, carregando-o do que me pareciam observações ousadas e pertinentes, eticamente corajosas e politicamente incorrectas. Fi-lo num computador fixo - que, entretanto, se avariou. Não consegui salvar nenhum dos documentos que o computador albergava. Mandei-o à merda (ao computador, claro. E esta palavra, inabitual neste blogue, não visa senão mostrar a raiva e a indignação que senti). O artigo foi à vida. Nunca mais o reconstituí.

Estou agora com O Escriba Acocorado nas mãos. É um livro com quinze poemas magníficos, em cujos versos nos ecoam Homero, Camões e Villon, ou ecoam heróis e mitos ocidentais, muito mais do que os poetas africanos ou de que paisagens de grandes savanas e selvas luxuriosas. Como escreve Eugénio Lisboa, no seu posfácio, numa «África primitiva e hirsuta, a que no, no fundo, não sente pertencer (onde se não insere), ele, o poeta "desenraizado", fica abusivamente de fora»; a observação de E. Lisboa vem a propósito de um certo poema em que Rui knopfli menciona uma flor, que despe sucessivamente das características esperadas (não é uma rosa multicolor, nem uma flor barrocamente complicada, não tem cheiro nem cor...), para concluir: «É uma flor de plástico». Ou seja, é esta ironia final que, num certo sentido, o faz, simbolicamente, acolher uma natureza falsa, ao invés da pujança da natureza que nos habituámos a ligar a uma ideia de África.
A ironia é, na poesia de Knopfli, a expressão de um desencanto, como perante um crepúsculo de crenças e de ideais. A beleza intensa e aguda, e dolorosa, dessa poesia, é precisamente a do desenraizamento: a de uma liberdade que não tem um meio a que se ajustar. Quando muito, um universo que se funda em memórias de um passado colonial, e em referências que remetem para uma europa mítica, de capitais esplendorosas (mas decadentes, ou esvaziadas), nunca visitadas pelo poeta, só vaga e falsamente tentadoras ainda.

As memórias são evidentes, até em alguns títulos de obras suas, como Mangas Verdes com Sal ou O Monhé das Cobras. São memórias trespassadas, elas próprias, de uma ironia que utiliza certas ideossincrasias do colono português (como um certo gosto pela fruta «exótica», de que se apropriava, ou o desprezo contido na expressão «monhé», com que eram referidos os indianos em Moçambique), sem, contudo, se identificar com essas ideossincrasias. Sem fazer delas o seu «discurso ideológico», mas um discurso que se recorda distanciadamente. Por outro lado, as referências europeias fundam esta poesia que se escreve em linguagem erudita, sem concessões, em busca de uma dicção serena e triste, aristocrática e descrente, desenrainzada, mas tendo sabido aprender de universos diferentes; descomprometida, mas de uma sensibilidade subtil, de uma atenção ao mundo em transformação que é, já de si, uma forma superior de compromisso.

Há um ritmo em que a mudança de estrofe põe pausas, mas não pontos definitivos; um ritmo que se prolonga como, se a partir do momento em que principiássemos a ler a poesia de Rui Knopfli, ela nos arrastasse consigo sem estações, exigindo um pouco mais sempre, numa espécie de movimento contínuo. Respiramos, mas prosseguimos: é uma cadência musical que em todas as músicas bebe mas a nenhuma se sujeita, nem ideológica nem literariamente: avessa a escolas, correntes ou «ismos», a poesia de Knopfli brilha numa solidão e numa errância que não aportam, não se quebram, não se fixam. E, aí, mesmo a desilusão ou a descrença são singulares formas de beleza.

domingo, 16 de janeiro de 2011

ANTONIO MACHADO: POESIA


El ojo que ves no es
ojo porque tú lo veas;
es ojo porque te ve.

Antonio Machado, Consejos, Coplas, Apuntes, Poesía

sábado, 15 de janeiro de 2011

MIGUEL-MANSO: SANTO SUBITO (COMEÇADO A LER HOJE MESMO)



Voltei à Trama. Falei com Catarina que, no primeiro dia, seguindo o mandamento da sua voz interior, me não ligou nenhuma, completamente presa ao trabalho, e hoje me prestou uma atenção e um sorriso que me deixaram bem disposto para o resto do dia.

E saio de lá com Santo Subito, de Miguel-Manso, que me fora indicado pelo Homem do Fraque como um dos livros imperdíveis do ano passado.

Esta poesia de Miguel-Manso remete para uma cultura dos livros: Regresso à Biblioteca de Francisco Vieira, por exemplo, que é uma das partes do livro, evoca, nos títulos, Li Ching-Yuen, Àlvaro de Campos/Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, Joseph Conrad, Peter S. Clements, Karl Marx-Friedrich Engels, João Falco/Irene Lisboa, Soeiro Pereira Gomes, Heinrich Harrer, Herberto Helder. São poemas que, mesmo quando mais longos, e alguns são-no, outros não, vivem, cada um deles, de um ângulo, uma invenção, um achado poético. Às vezes, um único verso é, como um aforismo, uma síntese total, uma descoberta poética.

Neste livro em que a experiência da cultura, da poesia e até simplesmente da língua latinas, isto é, do Latim como língua em que se exprimiram o melhor da cultura e da poesia, são um esteio permanente, há todavia uma erupção da fala simples, jovem, contemporânea, coloquial («A poesia, tipo,/ não precisa de, bom,/não é exactamente uma canção, uma praça ou um parque de Outono [...]», ou: «sim, Rui/[...]aquele mesmo hotel/cujo nome não me lembro/e é melhor assim [...]»), uma tensão entre a abundância e o despojamento (como entre o erudito e o simples) que afectam o leitor, que o obrigam a, digamos, uma leitura em estado de perplexidade. Porque, em última análise, nada, aqui, se lê simplesmente: há no verso que, numa primeira leitura, nos soa elementar, uma qualquer ameaça oculta, uma dúvida corrosiva. Um perigo sob a forma de um clarão. Uma tristeza perante os paradoxos injustos da realidade; um desafio ao que na realidade nos escapa: como no arrepiante «Café Gelo». Ou, mais metafisicamente, como perante o absurdo do nosso limite: porque, afinal, «está muito mal contado, isto da morte».

Miguel-Manso teria podido manter-se-me desconhecido? Claro que sim - como todos os autores discretos. E ainda pensam que a blogosfera não tem um papel inigualável?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CAMILO PESSANHA: VIOLONCELO

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trémulos astros,
Soidões lacustres...
_ Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha, in Clepsidra

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

e.e.cummings: a poesia criando a sua regra


No texto em que descrevia o que fora a nossa sessão de homenagem a Tolstoi, o jovem João d'Eça aboliu as letras maiúsculas. Num comentário ao post, dizia-se que tal se deveria à pressa, ou à influência de valter hugo mãe.

Posso escrever unicamente com minúsculas. Na poesia, então, a tendência generaliza-se; é muito difícil resistir. Mas parece-me que o facto significa, antes de mais, que seguimos uma moda. Podemos fazê-lo se ela nos for útil, enquanto o é, na medida em que o seja. Mas, dois pormenores: 1: não vale a pena reivindicar o acto como um gesto de originalidade e rebelião, porque se há coisa que deixou de ser é um gesto de originalidade e rebelião. 2: não vale a pena encontrar-lhe uma fundamentação teórica, como seja a pretensa «democratização» das palavras, porque as palavras não têm necessidade de ser cidadãs de uma qualquer democracia, tanto mais que as empregamos para exprimir diferenças, mais do que uma sonhada igualdade entre elas. [Escrito pós-comentário de Mariana: Ou, pelo menos, não vale a pena confiar excessivamente na tentativa de teorização fácil que tende também a impor-se...]

Dito isto, falemos daquele poeta em quem essa opção foi verdadeiramente original, um gesto de rebeldia e subversão, de modo a desconstruir a forma gramatical a priori, o modelo convencional da fabricação da frase, ou do verso, ou da poesia: e.e.cummings.

Nos poemas de e.e.cummings tudo é possível: um pontuação que interrompe abrupta e erradamente, uma exaltante liberdade no uso dos meios da escrita, ligações e intervalos estranhos e inovadores. Mas basta prestarmos atenção ao seu lindíssimo poema, na lindíssima tradução de Augusto de Campos, que se transformou numa lindíssima balada, cantada na inesperada voz de Zeca Baleiro - apresentada no meu post anterior - para percebermos que, na poesia de cummings, se trata de uma busca muito séria e expressiva de sentido e de beleza. E essa busca, esse sentido, essa beleza justificam e compreendem que tenha de se escavar a norma, subvertendo-a, para dela extrair a pura maravilha.

Os que vieram depois, se quiserem, continuem por aí. Mas não se esqueçam de que, agora, é fácil. Não se esqueçam de que, para serem «originais» por esse caminho, chegaram talvez demasiado tarde. E de que não há muitos e.e. cummings.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O QUE AMO EM E. DICKINSON

Convencionou-se que dispensar maiúsculas é rebelde e irreverente; não conheço nada mais «à moda», mais fácil, mais banal. Parece-me particularmente revolucionário, pelo contrário, o emprego de maiúsculas por Emily Dickinson, que carrega de palavras importantes e significativas os versos, a cada passo, obrigando a que nos detenhamos na aura aristocrática que a maiúscula confere.

Toca-me a necessidade que tem de quebrar as frases com os seus travessões, aqueles traços que interrompem blocos de sentido, para que não atravessemos demasiado precipitadamente para o bloco seguinte.

Toca-me que se pressinta uma visão de perfeita intensidade sob cada um dos poemas que escreveu: a compreensão funda de uma ideia que habita outro mundo, não o mundo das palavras mas o de certos imensos e esplendorosos silêncios, embora nas palavras tenha Emily de se exprimir e comunicar.

Toca-me a ausência de um sistema: cada poema é único e só. Nasce, clareia e dissolve-se. E assim deve ser, para que haja espaço para um outro poema - novo e solitário momento único, que não subsiste para além de si nem se relaciona com nada para lá de si.

Toca-me que um poema seu seja tão difícil quando a ele chegamos e iniciamos a leitura - e tão simples e intuitivo quando o lemos e dele partimos, plenos daquilo em que ele nos transformou.

E gosto da confusão: da ideia de que tudo sobrou em cadernos que ela foi preenchendo com muitas centenas de poemas, os quais não podemos catalogar nem organizar segundo critério nenhum, uma vez que o caos reina nesses cadernos e nem uma elementar sucessão temporal se deixa aí determinar.

sábado, 27 de novembro de 2010

EMILY DICKINSON: POEMA 249 [1861]


Wild Nights - Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!

Futile - the Winds -
To a Heart in port -
Done with the Compass -
Done with the Chart!

Rowing in Eden -
Ah, the Sea!
Might I but moor - Tonight -
In Thee!
***
Ou, na tradução discutível (como qualquer uma seria) de Nuno Júdice:
-
Noites Selvagens - Noites Selvagens!
Estivesse eu contigo
As Noites Selvagens seriam
A nossa luxúria!
-
Fúteis - os Ventos -
Para um Coração no porto -
Inúteis as Bússolas -
Inútil o Mapa!
-
Remando no Paraíso -
Ah, o Mar!
Pudesse eu atracar - Esta noite -
Em Ti!

domingo, 21 de novembro de 2010

BORGES, LEITOR DE DANTE

Reproduzo esta pintura belíssima, que pedi emprestada ao blogue de Bea7rix Kiddo (o magnífico Tenho Estado a Ler Whitman), porque me parece a ilustração adequada ao contexto de uma conversa que ela e Morcegos no Sótão travaram, então, e no mesmo blogue, a propósito de Dante. Pensei meter-me nessa conversa, comentando, por minha vez. Mas preferi não me tornar intruso.

A questão aparecia por causa de A Divina Comédia. Nenhum dos dois a tinha lido, ambos desejavam fazê-lo. Morcegos no Sótão preocupava-se, entretanto, com o italiano que deveria dominar para se abalançar a uma tal leitura. Bea7rix recordava a premiadíssima tradução de Vasco Graça Moura - que, porém, se encontra esgotada. Mas, com certa ironia, propunha-se aprender italiano depois de ter lido A Divina Comédia.

Ocorreu-me uma pequena conferência em que Borges nos apresenta a sua própria leitura, fascinante, do poema de Dante. [Se não se trata de uma conferência, seria uma entrevista entre várias que lhe haviam sido feitas não me lembro já por quem. Ainda procurei por aí, na minha estante, entre livros que julgo ter adquirido na mesma altura. Não o encontrei, pelo que terei de a reconstituir de memória].
*
O que Jorge Luís Borges conta é como, na sua juventude, aprendeu o italiano precisamente com A Divina Comédia. Possuía, obviamente, uma edição bilingue: mas, tanto quanto me parece, as traduções do poema são, na sua maioria, bilingues. Borges ia de eléctrico, a cegueira ainda o não invadira, e aproveitava um percurso demorado para mergulhar no texto. Começava sempre pela versão original. Lia um primeiro conjunto de versos, tentando apreender-lhes o sentido, o que, curiosamente, conseguia fazer com mais facilidade do que temera. Afinal, o italiano - e mesmo o italiano de Dante; não sei, aliás, se Borges não diz: principalmente o italiano de Dante - não é tão irredutivelmente diferente do castelhano (ou do português), que não seja possível retermos uma ideia, uma significação. Então, lia a tradução; depois, porventura, voltaria aos mesmos versos anteriores, em italiano, para confirmar, para consolidar.
*
A seguir, lia os seguintes, e assim progredia. Este era o seu método. E percebeu que, ao fim de algum tempo - ou seja, ao cabo de umas quantas viagens -, o seu italiano se aperfeiçoara o suficiente para prescindir da tradução, a não ser pontualmente.
*
Pessoalmente, gosto muito da tradução feita por Sophia. É muito cuidada, muito bonita. Mas não me lembro de que seja bilingue.
A de Vasco Graça Moura, que li mais tarde - e emprestei, e nunca mais recuperei... - é bilingue. Está esgotada? Raios!

sábado, 20 de novembro de 2010

MARGARIDA VALE DE GATO: MULHER AO MAR



Há várias maneiras de um livro ser ou devir invisível. Perdoem-me a insistência, como se me tivesse especializado no tema da «literatura invisível» ou, mais prosaicamente ainda, como se estivesse com uma tecla emperrada, marcando continua e obcecadamente um único carácter.

Mas para além de livros que desaparecem no tempo, e as editoras esqueceram de vez, outros existem que, apesar de recentes, no entanto não vingam. E evaporam-se. Não deixam sequer um rasto, a pegada a que teriam direito, e a que nós, leitores, temos direito.

Falo de um, que foi publicado em Abril de 2010; teve uma segunda edição de 300 exemplares. (Que é isso? Uma insignificância...). A seguir, desapareceu. Haviam-me falado acerca dele (e sou um ouvinte muito atento a esses rumores), não o encontrei, tive de o pedir, esperar, tornar a pedir, esperar ainda mais. Tenho-o por fim nas mãos - é um dos 300 exemplares da 2ª edição de Mulher Ao Mar, de Margarida Vale de Gato, a preciosa tradutora de vários autores ingleses. E não sei se de outros.

Gonçalo M. Tavares é um génio. A sua poesia é mesmo extra-terrestre. Visita-nos, vinda de um planeta desconhecido. Viagem à Índia é um livro maior. Mas o que quer que faça tem circulação imediata, exibição delirante, infindáveis comentários de sumidades que não há forma de se sumirem. E é um ganho que assim seja. Mas, na minha elementar opinião, Margarida Vale de Gato é uma poeta absolutamente extraordinária. (Emprego, para ela, o termo "poeta" deliberadamente, com uma vénia à minha amiga Elisa, que reserva "poetiza" para as poetas pequeninas, que se dedicam ao tricot das palavras). De modo que algo de injusto se insinua neste seu veloz regresso à invisibilidade. Vens do nada e ao nada voltarás!Se não injusto para a autora, que acredito que se não preocupe com tal absorção pelo esquecimento prematuro, sem dúvida para os leitores que a não descobrirão.

Este livro de umas setenta e tal páginas arranca-nos ao sossego e atira connosco para pinturas que principiam por nos enganar: sob a paciência e a virtude femininas, que a sociedade consagra, o que inesperadamente se abre, em cada um dos seus poemas, é a cortina para o sublime espectáculo dos segredos mais ocultos da mulher: a raiva e o desejo - mas isso não é novo, temo-lo vindo a saber, cada vez mais, nas últimas décadas -, a loucura do ciúme ou da culpa, a transgressão assumida, a hipocondria, o mero e tremendo ressabiamento. A sombra de Sylvia Plath, Emily Dickinson, Christina Rossetti ou Ana Karenina (que será, para todo o sempre, a sombra dessa luta contra os homens que as dominaram, ou desprezaram, ou incompreenderam até à morte...) pressente-se em todas as páginas.

Esta segunda edição acrescenta um pósfacio de Hélia Correia: as palavras com que fizera a apresentação do livro, no seu lançamento, em 25 de Abril; pretexto para equacionar a poesia de Margarida Vale de Gato como uma revolução. Relendo o texto de Hélia Correia, detenho-me nos meus sublinhados, «um rompimento assim a si mesmo se espanta. Perde as margens», «é a infiltração de uma desordem, de um descaramento - essa mulher de Rilke que bruscamente afasta as mãos do rosto de maneira que ele vai colado nas suas palmas, deixando, por momentos, o nada em seu lugar»; «A que com elas [com essas mulheres] fala alcançou já o outro lado do poema, aquele em que pode dizer o que quiser, como quiser, com as palavras que quiser». É talvez preciso uma mulher, e uma mulher como Hélia Correia, para compreender esta poesia «do outro lado», já sem proibições, que infiltra uma «desordem» e um «descaramento».

Toca-me particularmente, em Mulher ao Mar, a gramática revolucionária e ululante, como se as quebras de uma desordem interior, vivida por dentro de uma alma fragmentária, carecessem de se exprimir sob a forma de rupturas ou desvios sintácticos. Como se reconhecesse na poesia "rap", ou nos poemas de certos cantos alentejanos, a forma irmã, expressão de uma outra respiração.
Uso literalmente, aqui, o termo "respiração": se o poema, como a canção, exige "ser dito", ser entoado em voz alta, então torna-se evidente que a respiração monocórdica, compassada, com pausas previstas, a que recorremos aquando das leituras de outros textos (nas leituras consideradas "bem feitas"), de nada nos serve aqui. Algo de uma asma plena de energia tem também de se infiltrar para que, ao dizer estes poemas, nos reecontremos com o seu negro sentido, nas asperezas do entrecortado, das pontes destruídas, das frases rompidas. Das vírgulas inexistentes, ou cortanto inesperada e provocadoramente a fluência. Pensando bem, não espanta que o tivessem suprimido. Toda a revolução, lembra Hélia Correia, tende a integrar-se: apomos-lhes, a prazo, «formas sossegadas», «uma assembleia, uma constituição, um modelo europeu». É o caso do 25 de Abril. Ou, então, não há formas sossegadas que se lhes aponham e as solucionem. Não há reconciliação. Como o livro de MVG. Que fazer? Ainda para mais ninguém lhe pega? Delete!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

GONÇALO M. TAVARES: UMA VIAGEM À ÍNDIA


A linguagem é, para já, um mero instrumento. Aprendemos a utilizá-la para nomear os objectos ausentes, para os descrever, para narrar o que aconteceu outrora, ou o que poderá acontecer. (Ou, redundantemente, o que está a acontecer...)

Mas é possível cairmos no interior da linguagem. Absorvidos por ela, como por um profundo buraco negro, descobrimos, no seu interior, a possibilidade de se criar um mundo que só a ela própria pertence, e que pouco tem que ver com o mundo que ficou lá fora. (Claro, também eu duvido que no interior de um buraco negro se possa criar seja o que for. É, sem dúvida, uma analogia claudicante...). Não só a linguagem, nesse momento, deixa de «representar» o exterior, como nem sequer o tem como vaga referência. Tal como a música, a que podemos acrescentar uma «letra», mas tem, no entanto, um sentido próprio, independente dessa letra e do que as palavras lhe sobreponham, também a linguagem é capaz de criar música, pôr-se face a face consigo, testar os seus limites, subvertê-los. Descobrir um sentido, uma plenitude, em si e a partir de si. E, na minha experiência quase autodidáctica da questão, isto é a poesia.

Uma Viagem à Índia apresenta-se como sendo um poema. Não tenho dúvida de que é, antes de mais, um romance. A história de uma personagem - Bloom - que demanda a Índia, em busca de uma mulher e de sabedoria. Poderia ser um romance que se quisesse assumir, num gesto irónico e paródico, nas formas da poesia. Mas tratar-se-á disso? Ou de outra coisa, um poema, efectivamente, uma experiência de criação a partir do Verbo, à imagem do Génesis, Canto, Revelação?

A resposta a essa pergunta principia no momento em que nos apercebemos de que o texto em causa não poderia ter sido escrito de outro modo. Com palavras diferentes das que são usadas. Que história ali fica, se a despojamos da linguagem em que ela se oferece? Poderíamos transpô-la para outro registo, para outro tipo de discurso, resumi-la, abreviá-la? «Tendo a Índia como derradeiro objectivo, Bloom encontra-se com três homens, um pai e seus dois filhos, que o querem assaltar...». Não é possível, perde-se o essencial: não há nada para contar fora das palavras com que Gonçalo M. Tavares reinventa Bloom, e vai inventando as peripécias de que se faz a sua viagem impossível. Tudo, ali, é literário: Lisboa, Londres ou Paris, sobretudo a Paris que vemos aparecer diante de nós, não são as cidades geograficamente reais, mas um concentrado de sonho e mito: «Ah! Paris! Em nenhuma cidade se está mais perto de Paris que em Paris. Daí a sua grandeza.»

Em um sentido muito similar àquele em que Walter Pater proclamava que toda a Arte aspira à condição de música, poderíamos dizer que, desde o início, toda a obra de Gonçalo M. Tavares aspira à condição de poesia. São já poemas os seus romances, em que tudo se transformaria se mudasse de habitat, quer dizer, se fosse arrancado à sua forma de exprimir, ao modo como a história é contada. Se o desligássemos do acto linguístico de contar. A linguagem nunca é pretexto: porventura, a matéria sim, essa será pretexto para o exercício da linguagem.

Obviamente, Uma Viagem à Índia é um texto que não deixa pedra sobre pedra. Trata-se de sabotar todos os lugares e livros e categorias que nos habituámos a frequentar tranquila e rotineiramente, instaurando-se um maravilhoso universo paralelo, atemporal, meta-literário, onde improváveis sequências de sentido nos surpreendem continuamente. É uma odisseia. Mas uma odisseia totalmente humana: porque, e isso nos é lembrado e repetido, a aventura narrada não diz respeito aos deuses; o mundo dos deuses fica longe e longe deve permanecer. Aqui, fala-se do que ocorre ao nível do olhar humano. O próprio Destino não é senão uma paródia. Falar-se-á em profecia ou em adivinhação, mas, em última análise, nada há para se revelar; o misticismo é um logro; o sonho da Índia acabou sendo esvaziado pelo Ocidente.

Numa entrevista concedida ao JL, Gonçalo M. Tavares explicava que, quando se é dextro, é preciso tentar escrever com a mão esquerda, ou seja, recusar o que se aprendeu a fazer demasiado habilmente. É preciso experimentar o que se não experimentou. Bem ou mal, só isso vale a pena. Por isso, Uma Viagem à Índia é tudo o que não esperávamos e, onde quer que o esperássemos, se recusa a comparecer. Romance e poesia, mito e filosofia, revisitação e despedida, reconhecimento e exploração de desconhecidos percursos no meio dos que julgávamos conhecer, habilidade e desconstrução de toda a habilidade em que assentáramos, aventura e desventura, é uma obra daquelas que se percebe que algo marcam, algo apontam, algo trazem. Se não a Índia, a impossibilidade da Índia. Se não o que a Índia é, talvez a ideia do que já não pode ser.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

AS QUYBYRYCAS: IONANES GARABATUS, ALIÁS JOÃO PEDRO GRABATO DIAS




Agora que está prestes a ganhar uma incontornável - e porventura justíssima - visibilidade o último livro de Gonçalo M. Tavares, um poema em dez cantos, à maneira de Os Lusíadas, apetece-me contrapor-lhe um outro longo poema, anterior, igualmente extraordinário, porém invisível.

Hei-de talvez ainda falar de Uma Viagem à Índia, de GMT. Mas é uma obra que não carece de mais publicidade do que aquela que já a sufoca: tem um prefácio de Eduardo Lourenço; dedicam-lhe a capa e diversas páginas do JL: incensam-na; há-de estar mencionada nos próximos magazines literários. Já o poema a que me quero referir, escrito por um poeta quinhentista, Ioannes Garabatus, com 11 Cantos, intitula-se As Quybyrycas e parece ter-se sumido no tempo. Haverá aí quem se lembre deste «poema éthyco em outavas, que corre sendo de Luís Vaaz de Camões em Suspeitíssima Atribuiçon»? Pois é uma verdadeira obra-prima, a principiar logo pelo jogo entre falsidade e verosimilhança, pelas piscadelas de olho, pelo carácter satírico, enganador e burlesco, e político, como se verá, que o sustentam.

Porque Ioannes Garabatus não existe, e o poema não data de Quinhentos, ao contrário do que garante, mas, mais prosaica e proximamente, de 1972.
O seu autor é João Pedro Grabato Dias; por sua vez, João Pedro Grabato Dias não existe senão como heterónimo do pintor e poeta António Quadros. No entanto, este longo texto (1180 estâncias), que começa por ser uma brincadeira - algo, no limite, semelhante à obra de um falsário, ainda que, em rigor, toda a literatura passe por esse jogo entre o verdadeiro e o falso - constrói-se como uma obra maior, «uma epopeia satírica e de sentimento anti-epopeico», que reconstitui, aparentemente, uma época, com o intuito de que lhe reconheçam os sinais da contemporaneidade, as dores, os males e os erros de Portugal dos anos Setenta, anterior ao 25 de Abril.

Todavia, está lá o rigor complexo da poesia superior, a beleza da expressão e do sentimento, o cuidado e o talento postos numa Arte que se não desleixa e não se deixou confundir, em momento algum, em excerto algum, com a mera propaganda política.

P.S.: Embora não haja sido deliberado, não deixa de ser interessante que a pesquisa, na internet, por imagens que ilustrassem o presente post, acabasse mostrando a diferença entre a visibilidade e a invisibilidade respectivas das obras e dos autores que refiro, através da brutal diferença entre dimensões e cores (ou ausência de cor) num e noutro caso.

domingo, 5 de setembro de 2010

CESÁRIO VERDE: CRISTALIZAÇÕES

Cristalizações


A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra — que união sonora! —
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

Lisboa, Inverno de 1878
Coimbra, Revista de Coimbra, n.0 1, 1879, republicada
em Correspondência de Coimbra, 17 de Junho de 1879

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Notas:



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