sexta-feira, 27 de abril de 2012

UMBERTO ECO: HISTÓRIA DO FEIO

Por causa de quem tenha percebido que eu não gostaria de Umberto Eco, devido a um "post" em que me insurgia pelo facto de, numa conferência, ter sido ele o indesejável revelador do assassino em certo romance de Agatha Christie (o extraordinário O Assassinato de Roger Ackroyd), sinto-me no dever de desfazer o equívoco. Eco é um escritor maior. Do texto de reflexão filosófica ao de história de filosofia medieval, dos ensaios sobre estética às conferências sobre literatura, dos artigos de observação do quotidiano aos romances de grande fôlego, Umberto Eco é um devorador que merece ser devorado.

Em filosofia, de que sou um professor inábil, entro agora no domínio da experiência estética - e, para interessar alunos para os quais todas as distinções abstractas ou subtis são penosas, recupero um livro que me ofereceram há vários anos, mas a que nunca deixei de regressar, e sempre completamente seduzido. Não, não falo de História do Belo. Falo de História do Feio.

Porque o feio, como precisamente o belo, tem uma história: feita de gostos que se foram adaptando e transformando, repelências que pareciam imediatas, naturais e universais até descobrirmos que são, em outras culturas, movimentos de estima e apreço. O livro é maravilhoso. Desejei-o, folheei-o e contemplei-o, em livrarias, muitas vezes, até ter a sorte de o receber um dia como prenda. Com a beleza de imagens da fealdade e da sua representação ao longo dos séculos, ou em diversas civilizações, com excertos de textos - contos, ensaios - de muitos autores, mas, sobretudo, com a abordagem do próprio Eco, complexa e profunda, polémica e convincente, erudita e estimulante, a História do Feio é, paradoxalmente, um livro de uma perturbadora beleza.

terça-feira, 24 de abril de 2012

ANDREI NÉVI: PETERSBURGO



Anunciei, um dia, em um post, que tropeçara num autor russo que não conhecia. "Tropeçara", aliás, é literal: numa biblioteca, cheguei a chocar contra uma prateleira em que divulgavam a obra. Levei-a comigo. [Vá-se lá saber porquê. A capa? A referência, na contracapa, a este paradoxal Andrei Névi? O cheiro da alma russa? Ou, propriamente, "Petersburgo"?]

Andrei Névi era um aristocrata louco, enfant terrible et gatê, desajustado. Foi um desses intelectuais descontentes, que acreditaram ver, na revolução russa, um movimento contra o seu tédio, o seu niilismo de jovem rebelde, a sua saudade de futuro, o seu desejo de felicidade e liberdade. A obra da sua vida, escrita e muitas vezes rescrita, incompreendida, é precisamente este Petersburgo, de que Trotski, entre o fascínio e o peso da ideologia, afirmava, não sem razão: a perfeição do estilo, o rigor extremo da forma, como expressão de uma visão decadente e pessimista.

O texto é revolucionário: escrito de um modo perturbadoramente fragmentado, com reticências e travessões que separam abruptamente as ideias numa mesma frase, com hesitações que lançam o leitor numa espécie de vertigem e de incómodo, narra o complexo de relações entre um pai "geométrico" - que percepciona a realidade numa neurótica geometria: tudo lhe são figuras tridimensinais, a escada, os prédios, as ruas -, seu filho, vivendo entre uma espécie de amor-ódio pelo progenitor, uma paixão frustrada - e ridícula - por uma mulher casada e uma adesão pouco convicta ao movimento anarquista que o suga e o aproveita, uma mãe ausente que se torna subitamente presente, revolucionários que vão girando em torno do projecto de utilização de uma bomba.

Se é um romance fácil? Longe disso. As quebras e os cruzamentos complicam-se numa linguagem que é, ela própria, uma linguagem fracturada, como numa catedral em que os desvios, as transgressões e as soluções de continuidade ganham tanta importância, na visão do conjunto, como os arcos, as ligações e as continuidades. Todas as falhas são, paradoxalmente, planeadas com uma impressionante precisão. E, à maneira do "romance russo" [Tolstoi, por exemplo], os percursos individuais, as vidas concretas acabam conjugando-se numa ideia de um todo, que é a Rússia, São Petersburgo, uma época, uma revolução germinando já nas entranhas...

terça-feira, 17 de abril de 2012

DOIS CONTOS QUE LI NÃO SEI JÁ QUANDO

Lembro-me de ser miúdo e ter lido, em dois números diferentes de alguma revista, dois contos que me impressionaram.
Posto isto, não sei que revista era; e precisemos: não sei se li um conto em um número e outro em outro, nem sequer se se tratava, de facto, da "mesma" revista; e, já agora, também não garanto que fosse miúdo, ou quão miúdo seria. Na memória, vejo-me bem pequeno. Mas a memória é uma fonte de enganos e, no meio do nevoeiro, não ressaltam senão estas histórias, com toda a nitidez.

Conto-os telegraficamente:

Em um deles, narrava-se como um homem cometera um assalto grandioso. Levou muito dinheiro e escondeu-o. Tinha um sonho e infinda paciência. Suspeitaram dele, prenderam-no. Fizeram perguntas, torturaram-no. Mantinha-se, porém, em silêncio, sempre em nome do seu sonho, o qual teria de esperar. Fizeram-no passar fome, impediram-no de dormir. Perdeu a mulher, raptaram-lhe os filhos. Ameaçavam-no constantemente. A sua resposta era o silêncio: esperaria que se esquecessem e o deixassem. Esperaria o tempo que fosse preciso, sofreria o que tivesse de sofrer. Envelheceu. Vivia só, com fome, com frio - e ao fim de todo esse tempo, num raro momento de felicidade no todo da sua vida de adulto, foi desenterrar o dinheiro. E descobriu que aquelas notas estavam fora de circulação.

No outro conto, tratava-se de um [jovem] casal enamorado. Sem dinheiro, a jovem possuía algo de que se orgulhava: o seu longo e invejado cabelo; o jovem, por sua vez, era proprietário de um relógio em prata, que gostava de mirar [apesar de lhe faltar uma corrente a condizer]. No Natal, a mulher sacrificou o objecto da sua vaidade - cortou e vendeu o cabelo, com o fito de comprar a corrente em prata, lindíssima, devida ao relógio do esposo.
Acontece que a prenda deste, era um caríssimo enfeite para o cabelo dela. «Deixa lá», respondia-lhe a mulher, «há-de voltar a crescer!»
E esperava ansiosamente que ele desembrulhasse a sua preciosa corrente:- o que ele fez, para confessar que, para comprar o enfeite, tivera de vender o relógio.

E estes dois contos nunca me largaram na vida...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

JOÃO RICARDO PEDRO: O TEU ROSTO SERÁ O ÚLTIMO






Há que falar com toda a sinceridade: comecei a leitura desta obra, com as expectativas manchadas pelo pecado radical do preconceito. Não me agradava o mito do jovem engenheiro que, subitamente lançado no desemprego, com tempo de sobra, desata, pela primeira vez na vida, a escrever umas coisas. Não o faz para dar voz a uma urgência de alma, a uma vocação profunda, a um gosto, sequer - fá-lo porque tem muito tempo e, já agora... O resto é bem conhecido: o romance ganhou o Prémio Leya, disseram-se dele exageros tão insuportáveis como: «Nunca um primeiro romance foi tão intenso», o autor foi capa do Expresso, de olhos nostálgicos e barba por fazer; entrevistaram-no; exibem-no.

Admito que neste preconceito houvesse alguns grãos de inveja. Ironizo, ou então antecipo previsíveis interpretações. Mas uma coisa é certa: não foi certamente a inveja que me impediu de, principiando a ler o romance de João Ricardo Pedro, perceber quase de imediato que se trata de um texto magnífico. Muito bem escrito, revelando aquele prazer da linguagem que caracteriza o melhor da literatura portuguesa, narra uma história a que nos prendemos pela surpresa e pelo afecto.

Um crítico chamava a atenção para a quase autonomia de cada um dos capítulos, como se as mesmas personagens fossem sendo retratadas em peças breves, descontínuas, como miniaturas ou como contos; mas isso é conversa fiada. Ao dizê-lo, arriscamo-nos, na minha óptica, a perder de vista o essencial. E o essencial é que, nessa aparente descontinuidade, nessa "autonomia" de cada um de vários contos, se ocultam linhas invisíveis, secretos nexos que só a partir de um certo ponto começam a manifestar-se, mostrando uma construção que tudo suporta desde o início e a cada passo. Mais do que isso, atentemos na precisão e complexidade dessas linhas, que solucionam problemas e esclarecem perguntas, sem peripécias forçadas nem coincidências abruptas. E mais ainda do que isso, atentemos em como nem mesmo essas linhas tudo solucionam, deixando em aberto questões que não conseguiremos esclarecer, mas que poderemos interpretar a nosso bel-prazer.

Para mim, há diversos pontos altos ao longo da narrativa [o episódio de início, com o aparecimento de um rapaz que perde o olho e a quem o olho de vidro devolve um rosto e uma alegria; ou o da prova de que os ciclistas nem precisam de sair da bicicleta para mijar; ou o do aparecimento do Índio; ou do esperma do Índio no sofá...], e um ponto máximo: o do surgimento de uma pintora sem perna que, na sala de um museu, em que dispôs o seu material, começa a pintar, reproduzindo, numa tela, em ponto grande, a imagem de uma outra mulher, também sem perna, de um quadro célebre. A imagem de uma mulher sem perna no seio de uma multidão variadíssima, ou seja, numa pintura em que ela estaria longe de ser o centro, a não ser, como acontece, que a isolássemos e todo o quadro, como por magia, passasse a ser lido a partir dessa figura.

É um livro cujas maravilhas não têm conta, quer no conteúdo, pela beleza e intensidade de cada uma dessas miniaturas, quer pelas linhas que as unem, quer na forma, por causa de uma escrita originalíssima, de raros saber e sabor. No caso, João R. Pedro faz, com a enumeração, sempre inesperada, quase ilógica, mas muito bela sempre, o mesmo tipo de revolução, no exercício do narrar, que Saramago fez a partir da pontuação. E nada disto me parece pouco.

terça-feira, 10 de abril de 2012

DULCE MARIA CARDOSO: O RETORNO












Tenho procurado a crítica, lida em algum blogue, ao romance O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. Queria fazer a minha própria análise em contraponto. Mas já se percebeu: pouco daquilo que eu programe vem a cumprir-se. Perdi o blogue de vista. Numa aturada navegação, ainda me esforcei por tropeçar no referido post, mas não sei já onde esteja.



O Retorno é um retrato implacável do último dia de uma família portuguesa em Angola - e, depois, da sua dramática integração no destino: à noite tomarão o avião que os deverá transportar à metrópole. O pai e a mãe serão "retornados", mas, de algum modo, os filhos hão-de ser "desenraizados", porque não "tornam" a lugar algum e, para eles, a metrópole não tem a substância da memória, e sim a dos sonhos e a dos mitos - as raparigas que fazem brincos de cerejas, para começar pela frase com que, precisamente, o romance inicia; mas quem tenha passado a sua infância em África, sabe bem em que consistem essas imagens de um inverno com neve, cachecóis e luvas de lã, ou protectores de ouvidos, que não conhecíamos senão das ilustrações dos livros de leitura, e contudo preenchiam os nossos sonhos e a nossa ideia de Lisboa, da metrópole, da Europa.


Lembro alguns dos senãos apontados ao livro. Alguém dizia - porventura no post do blogue já mencionado - que não podíamos considerar O Retorno um livro "decisivo" acerca, precisamente, do retorno dos portugueses provenientes de África; que, afirmá-lo, só revela até que ponto nos encontramos em face de uma assustadora carência de literatura sobre esse tema. Pensando bem, é verdade: estamos perante uma notória carência de literatura de ficção sobre o movimento de retorno nos anos setenta; mas isso não significa que este se não trate de um romance "decisivo": é-o, até porque, justamente, pouco mais há. Mas não só. É-o, porque transmite uma vivência, uma maneira de estar, reconstitui a ideologia e a linguagem do colonialismo. É-o, porque o faz, tantos anos volvidos, sem atenuar a crueza da experiência.









O que nos conduz a uma segunda crítica: ao que me dizem, os Angolanos - alguns Angolanos - encaram o romance com desagrado, acusando-o de racista. Ninguém fica bem neste retrato; mas se há racismo, ele é certamente o de uma visão de época e de grupo: os colonos viam os indígenas como "os pretos", referiam-se-lhes obviamente assim e tratavam-nos, desde sempre, com o desdém da raça colonizadora; por outro lado, mais tarde, no processo da independência, militantes dos movimentos triunfantes, no meio de guerras entre si [MPLA contra UNITA contra FNLA] terão inegavelmente olhado para os brancos como o inimigo a ser perseguido, humilhado, torturado, morto ou expulso.


Portanto, O Retorno está muito longe de ser um livro "politicamente correcto". Maravilhoso, esse aspecto. Numa terceira crítica, que também li, é dito que a visão do narrador soa pouco convincente. Que toda aquela segunda parte dificilmente poderia ter sido escrita por ele. Discordo. Por quem mais, se não por ele, poderia ter sido relatada a chegada à "metrópole", a decepção na descoberta de que afinal o frio não tem fascínio, as ruelas são estreitas e as meninas não usam brincos de cerejas,ou a incompreensão dos portugueses de primeira, que não viram com bons olhos a invasão de portugueses de segunda, os quais lhes emporcalhavam os hotéis e disputavam empregos, carregando a insuportável arrogância de quem viu outros horizontes e viveu de outra forma?



O Retorno surpreendeu-me. Reavivou feridas recalcadas. Reabriu experiências esquecidas ou que me envergonhei de assumir. Rescreveu - de um ponto de vista certamente comprometido e injusto, mas incontornável - um passado próximo, da História portuguesa, em que ninguém toca e que a ninguém agrada. Falou-me, sem complexos, de algo tão simples como isto: não há progresso sem dor, nada que se ganhe sem que algo se perca pelo caminho. É uma obra absolutamente extraordinária.

sábado, 7 de abril de 2012

AGATHA CHRISTIE: O ASSASSINATO DE ROGER ACKROYD





Um bom romance policial deve ler-se pelo menos duas vezes.

Uma primeira, espontaneamente, sem defesas prévias (tirando as que não conseguimos descartar por completo), tentando vagamente fixar alguns indícios que nos permitam descobrir, o assassino, primeiro do que o detective-protagonista; mas se se trata de um bom romance, o que se espera é que nos enganemos: por leitores inteligentes que sejamos, por leitores experimentados que nos consideremos.

Por isso, tem de haver uma segunda leitura: aquela em que tentamos perceber os truques que o mágico escondeu na manga, os fios invisíveis que nos escaparam na primeira vez. Como é que ele fez aquilo, como nos enganou, onde nos fez tropeçar, que falsas pistas semeou.

Umberto Eco, por quem a minha admiração não tem limites, cometeu um erro crasso. Em certa conferência, de resto brilhante, em que usava o livro de Agatha Christie como um exemplo de mestria e rigor na construção, acabou falando de mais. A conferência era acerca do conceito de narrador, e, naturalmente, em O Assassinato de Roger Ackroyd, o segredo vital, ou mortal, reside numa certa forma de narrar; infelizmente, Eco não foi capaz de apresentar a sua tese acerca do romance sem, despudoradamente, revelar o assassino.

Parti, pois, para o livro de Agatha Christie sabendo de antemão quem era o criminoso. Ter-me-á faltado, então, a leitura inocente que é indispensável na fruição de qualquer policial. Mas, mesmo assim, devo dizer que este romance é soberbo; e a leitura advertida que fiz valeu bem a pena.

Lembro-me de haver ouvido descrever Christie como sendo uma autora manhosa, que arranca os seus assassinos praticamente do nada, tendo "partilhado" [palavra da moda] muito poucos indícios com o leitor: fazendo, portanto, jogo sujo. Pode ser. Mas não é certamente o caso, nesta história em que se confundem duas lógicas, e tudo depende de sermos capazes de as separar: uma lógica das aparências, e uma lógica subterrânea, a de Poirot, que nos vai mostrando que nem todos os "dados adquiridos" estão provados; nem tudo o que se assume imediatamente como óbvio foi de facto visto ou ouvido -mas simplesmente presumido.

E presumimos tanto; quando escutámos uma voz por detrás de uma porta fechada partimos do princípio de que alguém estava a falar com alguém. Quando vimos uma pessoa com a mão sobre a maçaneta da porta do gabinete, partimos do princípio de que essa pessoa estava a sair do gabinete, etc. etc.

Na dúvida metódica, cartesiana, em relação aos dados dos sentidos, Poirot torna-se, nesta obra-prima de Agatha Christie, um verdadeiro filósofo, que nos ensina a olhar para a realidade uma segunda vez. Há que pensar sem acreditar excessivamente no que vimos - ou no que julgamos que significa tudo o que fomos percepcionando...

terça-feira, 3 de abril de 2012

DOS LIVROS QUE ME OCUPAM DURANTE ESTE MEU SILÊNCIO

O meu silêncio em matéria de blogue não significa coisa alguma. Nada de ilações. Continuo de boa saúde, lendo muito, e não desisti do prazer segundo que é partilhar, precisamente, o prazer primeiro do que venho lendo.

Posto isto, acontece que um desagradável desentendimento com a empresa que nem me vou dar ao trabalho de nomear, a Zon, me tem privado de internet.

Entretanto, descobri um magnífico autor russo que me escapara totalmente; voltei ao excelente O Assassinato de Roger Ackroyd, da papisa do romance policial, seguindo uma referência de Umberto Eco, que me alerta para a mestria da autora; mais do que tudo, estou a ler - encantado, diga-se já - O Retorno, de uma premiada autora portuguesa em cujo nome, de momento, hesito. E porque o romance me parece tão conseguido, gostaria de o comentar, usando como contraponto a opinião de um blogue também recentemente descoberto por mim - graças à minha leitora Carla: obrigado, Carla, por tudo -, mas em que o romance em causa foi pouco apreciado.

É o que tenciono fazer nos próximos tempos. Com ou sem Zon. Não: sem Zon!

Me aguardem!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

MÁRIO DE CARVALHO: QUANDO O DIABO REZA


Se lerem, no "i" deste fim-de-semana, uma série de respostas que Mário de Carvalho dispara contra as perguntas de um inquérito sobre o seu modo de escrever, perceberão melhor tudo quanto eu possa a seguir dizer-vos: notem a mordacidade à flor da pele, um humor ferino e o talento extraordinário para a desconstrução e para o jogo de palavras.

O inquérito era feito a propósito de Quando o Diabo Reza. Eu sei bem o que a minha amiga São pensaria do romance: em síntese, que não contém amor; não no sentido pacóvio de que lhe faltaria ser uma história de amor, como se não houvesse outras hipóteses, mas no sentido de que a visão do autor não revela um pingo de carinho pelas próprias personagens, nem as redime, caricaturando-as em todos os podres e ridículos, como se estivessem sempre de cuecas em público. Não estou de acordo. Falta à minha amiga, pelo menos em matéria de romance, o gosto da ironia, do cepticismo e da caricatura. A São exige, de uma história, personagens amáveis - leia-se: que possam ser amadas -, e receio que essa seja a menor das preocupações de Mário de Carvalho.

E no entanto, o que ele nos dá é algo absolutamente impagável. Para já, um outro tipo de amor, que se vê na forma como cultiva a língua portuguesa. É o amor que o faz procurar palavras e construções frásicas desusadas; um texto de Mário de Carvalho carece sempre, por isso, de uma leitura atenta, lenta, erótica. Ao mesmo tempo, compraz-se [como Dickens] na reconstituição de modos típicos do falar. Ele há o falar de um tendeiro que vende "Hugo Boss" e "Chanel" de feira; ele há o de uma mãe rabugenta, entre as sessões de certa seita fanática e a telenovela, que segue também religiosamente; ele há um seu filho que, em conluio com amigos [nada menos do que uma espécie de vendedor da banha da cobra e uma prostituta], planeia um golpe de mestre; e vão cinco pessoas, em torno dos quais nos é exposto o rosto de uma certa Lisboa de esquemas e fugas, misérias e expedientes. A outra face do romance, põe-nos perante um punhado de representantes de um outro nível social. São as vítimas do plano mencionado: aquele pai já velho, certamente muito rico, mas com o dinheiro misteriosamente aferrolhado no Banco, e aquelas filhas que lhe espreitam ansiosamente a morte. Cada uma delas tem, por sua vez, o indispensável empecilho: Ester presa a um marido que ela não ama e a não ama, Beatriz servindo-se de uma mulher a dias ucraniana que será sempre, e para todos os efeitos, "a russa".

Destas pessoas emanam e circulam os sonhos impossíveis, a desconfiança e o maquiavelismo barato, de tal modo que as "vítimas" são, afinal, os eticamente menos escrupulosos. Com estes ingredientes é-nos servido um mundo melancólico e rasteiro, em plena crise, sem amor, mas imperdível, que, de algum modo, funciona como nova crónica dos Bons Malandros: a minha amiga São não a apreciaria, mas eu leio-a com um prazer amargo: por que diabo todo o chocolate haveria de ser doce?

PS: Impossível não chamar a atenção para a lindíssima e luxuosa edição da Tinta-da-China: capa dura, em roxo (ou violeta?), a ilustração, o excelente papel, com uma fita de marcar, o cheiro... Porque ele há livros e livros!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

LUIGI PIRANDELLO: UM, NINGUÉM E CEM MIL


De Pirandello [venho eu de corda ao pescoço confessar], não conhecia senão a célebre peça em que seis personagens demandam o Autor.

Foi Harold Bloom que, no seu injusto e genial livro, Génio, me fez pensar sobre o que andaria porventura perdendo. Para Bloom, Luigi Pirandello é um dos 100 génios da literatura universal, juntamente com Pessoa, Eça e Saramago. A sua obra maior seria Henrique IV, que não li e tenho procurado por bibliotecas. Mas descubro, entretanto, Um, Ninguém e Cem mil. É magnífico.

Pirandello é, como muitos autores do seu tempo (caso de Fernando Pessoa, seu contemporâneo), um escritor que experimenta, contraria os padrões clássicos e, nesse processo, acaba transformando o acto e o rosto da literatura. A ironia com que distancia as personagens de si próprias, permitindo-lhes reconhecerem-se como personagens - e revoltarem-se contra o destino - é o seu leitmotiv. A fissura, portanto, de si a si. Esta adquire, aqui, inesperados efeitos e um alcance filosófico profundos, continuamente desmontados, aliás, pela auto-ironia. Trata-se de questões que não podemos levar a sério, visto que o narrador as conduz ao extremo, revelando-se, pois, um louco em pleno delírio; mas que, paradoxalmente, não podemos deixar de levar a sério: se contidas na forma da nossa normalidade, que as não deixa extravasar, elas são as nossas próprias questões - isto é, essa espécie de ruído existencial, essa ininterrupta melodia interna de dúvidas sobre nós e sobre o que somos para os outros.

De que falam Husserl, Sartre e Merleau-Ponty senão, precisamente, disso? Como me vêem os outros? Que imagem - ou que construção fazem de e sobre mim, eles que, não acedendo à minha consciência, não podem senão pressupô-la e interpretá-la? E como acedo, por minha vez, como surpreendo e capturo essa imagem que os meus familiares, amigos, vizinhos, próximos ou distantes, engendram de mim?

A pessoa que se olha ao espelho vê-se a si própria. Reconhece-se: não, o espelho não me permite aceder ao que os outros vêem em mim. O espelho sou ainda eu - eu reflectido, eu para mim, não eu para os outros. Este romance de Pirandello é um exercício de humor: dirigindo-se ao leitor num pseudo-ensaio cómico e perturbador, segmentado em parágrafos curtos, o narrador descreve a sua odisseia a partir do momento em que a mulher - e depois os amigos com os quais procura confirmar - refere o facto de o seu nariz «pender para o lado direito», pormenor de que nunca se apercebera. Tal constatação desencadeará, precisamente, a fissura, a distância de si a si, a dificuldade no auto-reconhecimento, a estranheza.

A sua argumentação é implacavelmente lógica. E essa forma inatacável parece tornar irrefutáveis mesmo as suas conclusões e paradoxos mais absurdos. «Je est un autre», afiançava Rimbaud. Ou, como em Nietzsche, ninguém está mais longe do conhecimento do sujeito do que o próprio sujeito. [Ou, ainda, Comte: Não posso estar à janela a ver-me passar na rua; e por aqui me fico, para não parecer um snobe das referências]. Nesta desagregação de identidade, o sujeito, que era "um" mas, num certo sentido, se perdeu, acabou como nada - "ninguém"; mas, por isso e simultaneamente, "cem mil", numa incontrolável profusão de figuras construídas pelos seus próximos, em nenhuma das quais poderá, alguma vez, voltar a encontrar-se.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

MARIO VARGAS LLOSA: TRAVESSURAS DA MENINA MÁ

Parecerá estranho que, sendo eu um admirador da obra de Vargas Llosa - desde há muito, ou seja, para o que importa, desde antes de o terem nobelizado -, nunca tenha tido a oportunidade ou a curiosidade de ler um dos seus romances mais interessantes, Travessuras da Menina Má. Leio-o agora: não é tarde de mais.

Há um fio neste romance: a própria "menina má". Apresentada logo no primeiro capítulo, ela é, desde miúda, uma rapariga que procura integrar-se e ser bem sucedida através do embuste. É o fio porque, ao longo do tempo, a chileninha vai desaparecendo, e reaparecendo sob uma nova forma, sob, digamos, um outro avatar, inesperado, improvável, fascinante. Para o narrador, porém, tudo recomeça a cada reencontro: se a menina má transforma, de cada vez, a sua identidade, o que subjaz permanentemente em todos os momentos desta evocação, o que nunca realmente muda, é a paixão desenfreada deste rapaz, depois jovem, por fim homem maduro, por ela; esse amor doentio e obcecado, contra o qual luta, mas sempre em vão.

Uma pergunta do domínio da ética: será a menina má realmente uma "menina má"? Bem. O título introduz essa ambiguidade e justifica a questão. Ao nível da maldade, não falamos de "travessuras", mas de malignidades, malevolências, maldades. A travessura comporta um elemento de inocência e de infantilidade. A paixão que o narrador por ela nutre predispõe-no, é claro, para uma espécie de perdão antecipado. Há todavia qualquer coisa de efectivamente terrível, indesculpável e pérfido nesta espécie de louva-a-deus; esta mulher que usa os homens como instrumentos tolos para alcançar os seus objectivos, e os cospe na maior das misérias e do sofrimento quando deixam de lhe servir. Mas, simultaneamente, compreendemo-la: à sua visão egocentrista, à sua ironia em relação a todo o compromisso, ao seu desprezo, à sua ausência de amor. É uma "menina má" profundamente humana e sofredora, é uma "menina má" carente e frágil, uma falsa dura, e nessa capacidade de penetrar no fundo dessa imensa fragilidade reside um dos méritos maiores deste romance que recusa julgar - que prefere amar.

Mas se a menina má é o fio, cujos aparecimentos e reaparecimentos conferem a unidade da história, não menos interessante é o modo como o romance vai extrapolando desse fio para outras esferas e para outras personagens, oferecendo-nos um retrato do Peru, de França e de Inglaterra [Paris e de Londres dos anos sessenta e princípios dos anos setenta] ou até do Japão ou Espanha: os guerrilheiros, os existencialistas, os hippies, os gentlemen e as ladies, os tenebrosos Fukuda, numa reconstituição deliciosa de um mundo em transformação e crescimento.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

CHARLES DICKENS: GRANDES ESPERANÇAS


Dickens é, penso eu, um autor que todos conhecem de nome mas praticamente ninguém leu. Conhece-se-lhe vagamente a obra sob a forma de uns quantos títulos "incontornáveis" e algumas personagens que devieram ícones literários, ou são referidas como caracteres-tipo da psicologia; tem-se a ideia geral de que há sempre órfãos muito infelizes, e pessoas extremamente mesquinhas que os exploram e maltratam. Há filmes que vêm tornar mais nítidos, no nosso horizonte mental, esses dois ou três traços. Não há Natal, por exemplo, em que alguma televisão não exiba o pavor de Mr. Scrooge ante os três fantasmas que o levam em visita turística.

A primeira surpresa na imagem oficial de Dickens surge com a tradução para português, já não muito recente, de Os Cadernos Póstumos de Mr. Pickwick, esse concentrado de humor e observação, a que já aqui me dediquei. A outra surpresa, pelo menos para mim, é a descoberta de Grandes Esperanças, a que cheguei por via de um outro livro.

Grandes Esperanças tem aquele tom folhetinesco, típico de época; aquelas personagens improváveis que conservam, do seu passado, um profundo e terrível desejo de vingança (o qual executam através de qualquer plano maquiavélico, que o leitor não pode senão ir compreendendo muito vagarosa e ansiosamente, página a página); contém um lado de aventura, ao jeito de A Ilha do Tesouro, que empolga e encanta: veja-se, logo de início, a série de encontros de Pip com os foragidos, e suas dramáticas consequências; há personagens malévolas e personagens de uma generosidade e de uma candura sublimes. Mas em todas estas facetas, articuladas numa história complexa, à volta de uma segredo que iremos perseguindo, a sensibilidade de Dickens consegue expor mundos interiores que nos são comuns, e em que nos reconhecemos bem: o das nossas próprias lutas, o da culpabilidade (sob cujo signo nos relacionamos e convivemos com o próximo: o caso de Pip e Joe é exemplar para compreendermos algo como o amor que se tem por uma pessoa que o merece, e a injusta vergonha que, socialmente, a sua presença faz sentir).

Grandes Esperanças é um romance que nos mostra o lado mais fácil da obra de Dickens - um certo maniqueísmo, um desenrolar vertiginoso, mistérios que mantêm um permanente "suspense", um ror de coincidências que explicam, por fim, o inexplicável; isto é: o aspecto folhetinesco - e o mais profundo e complexo: os indesejáveis mas compreensíveis sentimentos humanos, o amor que não entende os sinais ambíguos ou contraditórios, a formação de um adulto a partir dos fragmentos dolorosos da criança e do jovem. Grandes Esperanças é um romance perene: alguns dos melhores romances perenes, aliás, foram, como este, escritos no século XIX.

domingo, 29 de janeiro de 2012

TOMASI DI LAMPEDUSA: SHAKESPEARE


A Teorema edita, de Lampedusa, um livro intitulado Shakespeare: é um capítulo de um seu Curso de Literatura Inglesa.
Porque Lampedusa é Lampedusa [de O Leopardo: não vale a pena acrescentar seja o que for] e porque Shakespeare é Shakespeare, eis um livro para o qual já comecei a juntar dinheiro.
No jornal i fala-se, a propósito desta obra, em erudição e sentido de humor. Não era necessário.
A partir do momento em que li: há um "Giuseppe Tomasi de Lampedusa" acerca de "William Shakespeare", já me tinha rendido.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ITALO SVEVO: SENILIDADE

O que primeiramente nos toca ao lermos um romance de Svevo é a limpidez criativa da sua escrita: as frases, longas e muito bonitas, compõem-se de um modo sempre extremamente original, mas nem por isso fatigante, nem por isso provocando qualquer sensação de indigesta estranheza. É, pois, uma originalidade que nos soa imediatamente como um fluxo límpido, e que só nos apetece reler por causa da sua musicalidade característica, uma beleza que convida ao recomeço.

Depois, claro, toca-nos o seu humor. Os protagonistas masculinos de Svevo são homens mesquinhos, que tomam o seu interesse por princípio de acção, justificando os seus comportamentos, porém, com argumentos que raiam o desaforo. Como se fosse normal a "universalização" sistemática do interesse próprio; como se pudéssemos realmente assumir por lei moral a ideia de que «um acto é bom sempre que me traz algum benefício pessoal».

O centro de gravidade dos romances de Svevo [dos que eu li, pelo menos] é a tensão entre este egoísmo do homem e o seu interesse ou encantamento por determinada mulher, encantamento que se desdobra numa multiplicidade de sentimentos - atracção, desejo, medo, ciúme - mas nunca se identifica com amor ou paixão: o verdadeiro egoísta é demasiado centrado em si para se apaixonar por outrem. Ou para amar sem que se trate de amar-se.

Em "Senilidade", de tudo isto se trata; e também, já agora, de uma espécie de egoísmo feminino, embora na mulher permaneça sempre um enigma, um mistério que não conseguimos inteiramente reduzir a qualquer explicação. O que move as mulheres de Svevo é sempre mais ambíguo e inclassificável do que o que move os homens.

Como, porventura, na vida real.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

IRVIN D. YALOM: A PSICOLOGIA DO AMOR





Neste livro tudo convida ao equívoco. Não admira, pois, que me haja equivocado.
A começar pela capa, com aquele toque de mau-gosto que sugere uma obra virada para o consumo pouco exigente, tal como, aliás, o próprio título português, que não faz a menor justiça ao original "Love's Executioner". Eis, pois, um exemplo de como os editores, ansiosos por abranger um número quase infinito de leitores, acabam por deformar o objecto, afugentando dele o nicho que poderia verdadeiramente apreciá-lo.

Basta ler a última das dez narrativas - a melhor, quanto a mim -, para se perceber que Irvin Yalom, de facto, não é Freud, mas também não pretende sê-lo. Todavia, há, na descrição destes seus casos clínicos, qualquer coisa de verdadeiramente delicioso: a exposição da experiência da "contra-transferência", isto é, da vulnerabilidade do próprio psicólogo, que reage às histórias dos pacientes a partir dos seus próprios fantasmas e preconceitos, cansaços e impaciências. É nesse aspecto que o autor se torna, aos nossos olhos, uma pessoa frágil e cheia de dúvidas, sempre em estado de paixão por alguns dos seus pacientes, fascinado com certos casos ou absolutamente desinteressado de outros - embora, numa postura de permanente auto-vigilância, não deixe que a paixão o transporte, e se esforce por investir em todos por igual.

Cada um destes casos desperta curiosidade e questões; para isso contribui, naturalmente, a experiência e a eficácia literárias do autor [um psicólogo que é também o escritor de alguns romances que se lêem com agrado]. Daí a facilidade com que faz de um paciente uma personagem, no sentido mais nobre da palavra, apreendendo-o física e psicologicamente com uma impagável minúcia: a mulher apagada e sem chama, que oculta uma personalidade sedutora e atrevida, no limiar do indecoroso, ou - no já referido último capítulo - esse homem preconceituoso, de espírito burocrático, que, à noite, enquanto dorme, parece libertar um "sonhador" diferente de si, criador dos sonhos, de sonhos plenos de inteligência e de fantasia, que narrará no consultório, são somente dois exemplos dessas personagens marcantes.

Um livro que se lê contra as expectativas é, obviamente - não muitas vezes, mas é - a possibilidade de uma boa surpresa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ACERCA DE LIVROS QUE ME OFERECERAM PELO NATAL

Como me vou entendendo entre livros novos?
No Natal ofereceram-me A Psicologia do Amor, que é, curiosamente, mais interessante do que me parecia. Um psicólogo norte-americano, judeu, contemporâneo, conhecido por uns quantos best-sellers (Quando Nietzsche Chorou e outro sobre Schopenhauer) escreveu, à imagem de Freud, a descrição de casos seus. Em Freud, como sabemos, tratava-se de "pensar" os seus casos para erigir uma teoria e um método - a própria psicanálise. Aqui, claro, não há tanto. Um pouco de exibicionismo - «Vejam como sou bom a resolver problemas» -, um pouco de aproveitamento - «Reparem como estes casos são interessantes» -, temperados por um excelente poder narrativo, fazem das dez situações expostas algo que merece ser lido: porventura mais próximo de Dr. Phil do que de Freud ou Jung, mas ainda assim...

Meu irmão recebeu um livro de que não gostou. Ofereceu-mo para o trocar, em estado novo, pelo que muito bem entendesse. Para mim! Aceitei - não digo o que se foi, mas digo o que veio: Maldito Sejas Dostoiévski, uma edição da novíssima Teodolito, que me prende desde a primeira página. Crime e Castigo, anunciam, mas em Cabul, e hoje. Bah! Passam ao lado do essencial, mas quem esperava melhor das "frases de promoção"? É um livro interessante e original - com falhas e desvios, de que talvez venha a falar mais tarde, mas, em síntese, muito interessante.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CARLOS DE OLIVEIRA: UMA ABELHA NA CHUVA



Há que regressar aos autênticos iniciadores.
Por vezes esquecemo-nos. Lemos hoje um autor que nos parece de uma extrema originalidade, ou de um hermetismo que se deixa confundir com originalidade, e perdemos de vista como, anos antes - e porventura de forma maior, ou com mais razão - já alguém tinha aberto essa senda. De vez em quando, descobrimos um desses que abriram uma senda, um autêntico iniciador. Ou redescobrimo-lo. Ou, por algum motivo, torna-se evidente o que nos escapara numa primeira leitura, feita há já muito tempo.

É o caso de Carlos de Oliveira. Não digo que não haja quem se lembre dele: mas, convenhamos, Carlos de Oliveira foi sempre um autor discreto. Uma Abelha na Chuva, que é um romance de pequena extensão, talvez aquilo para que os portugueses possuem o termo "novela", era apresentado aos alunos do secundário. Penso que, actualmente, já nem isso - entre Eça e Saramago, esses gigantes "oficiais", escasseia o espaço para os demais. Mas Uma Abelha na Chuva é, mais do que tudo, uma história muito, muito, muito bem escrita, que apetece ler pela maravilhosa e criativa simplicidade do sabor das palavras. Aquela descrição física de uma personagem, com que abre o romance, contém tudo quanto é importante para o início de uma história: o gosto e o poder de dar a ver em todos os pormenores, quase como o cinema, e a capacidade de se apresentar uma situação, introduzindo, e simultaneamente adensando, um enigma.

Uma Abelha da Chuva é o texto de Carlos de Oliveira que mais aprecio. Mas em Finisterra, outra obra-prima, encontramos precisamente a origem portuguesa de tantos posteriores experimentalismos [atrever-me-ia a dizer que até de uma intelectual tão incensada ainda como Gabriela Llansol]. Sem falsas pirotecnias, sem forçar absolutamente nada, deixando que as palavras sejam guiadas pela alma das próprias palavras, pela sua poesia interna, que o leitor saboreia e a que regressa, um pouco perplexo, nunca certo de haver esgotado todo o seu sentido.

Há que voltar aos autênticos iniciadores. Há que reler os clássicos discretos. Há que nunca esquecer Carlos de Oliveira. [Que, pessoalmente, em matéria de escrita de romance, tanto me ensinou, mais até do "haver-me influenciado". Mas a quem interessa isso?] Há que retomar Uma Abelha na Chuva. Uma e outra vez.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ALESSANDRO MANZONI: OS NOIVOS [I PROMESSI SPOSI]








I Pomessi Sposi chama-se, em português, Os Noivos.


Obtive-o mercê de algum trabalho. Estava esgotado e nunca foi reeditado: mas encomendei-o em várias livrarias e, de uma, acabaram por me enviar um exemplar lindíssimo, de páginas amarelecidas. [Publicado em 1963].
Como não há fome que não dê em fartura, de uma adega de certa biblioteca recolheram também um exemplar da mesma edição, que eu tinha pedido há séculos e não tive coragem de agora recusar, pelo que tenho, neste momento, o livro em duplicado.

Raios! Meu primo não tinha mentido. Percebo até a sua inveja: «Ainda não leste? Que sorte teres ainda um livro desses pela frente.» [Percebo-a, porque sinto exactamente isso: «Que bom! Ainda não acabei de ler, ainda só vou a meio... Tanta página pela frente...»]
Passamos o primeiro capítulo, que descreve exaustivamente o local em que tudo se passa [«se passou», na presumida realidade, ou «se passará», do ponto de vista da narração] e é uma razão para que o livro não torne a ser publicado tão cedo em português (não por mim, diga-se, que sou um fanático das descrições bem escritas...), e entramos numa história de tom camiliano. É fácil perceber a influência de Os Noivos em Os Mistérios de Lisboa, sobretudo no que respeita a algumas personagens: estou naturalmente a pensar na figura, tipicamente romântica, de um frade que foi um homem da vida, um espadachim de passado tumultuoso e consciência pesada pelo arrependimento; ou nos próprios jovens enamorados, um jovem camiliano que ferve em pouca água e se apaixona perdidamente por uma moça camilianamente singela e cândida.

Há, em Os Noivos, a sistemática compreensão das personagens, reveladora de uma arguta inteligência emocional. Nunca se trata de explicá-las segundo uma psicologia de pacotilha. Trata-se da exposição de motivações desencontradas no interior de um mesmo sujeito, de mudanças de sentimento, da falsa interpretação, pelo próprio, do que está a sentir, ou do que o leva a determinadas decisões: é de uma subtileza e de uma penetração magistrais; penso [por exemplo] na jovem que professou, Gertrudes, depois de combates mais contra si mesma do que contra seu pai e sua mãe, que a manipularam e empurraram para uma tal situação. A mão dessa freira terá, na história, um papel decisivo. Para o bem, primeiro, para o mal, depois. E também esta visão está por todo o Camilo, como sabemos. O capítulo, sobretudo, em que se narra a história dramática da sua "escolha" é de uma profundidade que impressiona hoje da mesma maneira que no tempo do autor.

Existe qualquer coisa de comédia de enganos, de entrechos paralelos que vão sendo expostos separadamente, para que se perceba como se conjugaram para um determinado episódio [e o narrador volta atrás, para recuperar um fio que parecia esquecido, mas sem o qual se não captaria o "todo" das consequências]; qualquer coisa de uma explicação sociológica, que nos coloca em face dos pormenores históricos da sociedade da época, com classes e castas que se entrecruzam numa relação de forças nunca muito justa; qualquer coisa de um humor que se imiscui na tragédia: os caracteres são impagáveis nas suas fraquezas.

Estamos perante um tema de grande simplicidade: um casal de jovens prometidos não pode casar-se, porque o padre Abúndio, delicioso cobarde, se recusa a casá-los, visto que foi ameaçado por um nobre que está enamorado da rapariga. Mas o padre não diz as razões: adia, inventa, contorna sine die, de modo a que algo aconteça que o livre da sua responsabilidade.

I Promessi Spsosi é um clássico. É um romance magnífico, subtil, guiando-nos numa ânsia de saber mais e de continuar lendo, que nos domina por completo. É um daqueles livros que nos devoram: durante um certo período da nossa vida, enquanto estamos com ele, não nos larga, chama-nos, assombra-nos, ocupa-nos a mente. Acordamos a pensar nele, adormecemos com ele no espírito. Curiosamente, não tenho ideia de que Alessandro Manzoni tenha escrito qualquer outro romance. Penso que não, o que o emparceira com outros ilustres autores de alguma extraordinária obra única, como Tomasi de Lampedusa, autor do maravilhoso O Leopardo, ou numa acepção ligeiramente diferente, Proust lui-même.





Podia não o ter encontrado? Podia. Mas não era a mesma coisa.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

HAROLD BLOOM: GÉNIO


Confesso que sou sensível a teorias que provocam. Se acontece a "provocação" ter substância, isto é, sobreviver a um primeiro sobressalto, então, ainda que discordemos da teoria, ter-nos-emos deslocado: há um movimento da nossa estrutura de referências que, se não conduz necessariamente a uma mudança de paradigma, também se não faz sem efeitos, mesmo que mínimos e subliminares.


Um exemplo: lia, com esse tipo de espanto, um crítico literário espanhol afirmar que Kafka era «um mau romancista». Acrescenta que, em O Processo, a primeira frase constitui um erro fatal. Abre-se a cortina com um período excessivamente revelador, porque conteria já todo o desenvolvimento e o fim da história. Discordo do juízo de valor, mas não posso deixar de concordar que a abertura de O Processo, de resto um livro extraordinário, é, a esta luz, uma abertura infeliz.


Harold Bloom é um destes pensadores.
Se abstrairmos, nas suas análises subtis, de algum elemento de arbitrariedade e de algum elemento de busca de efeito a todo o preço, o que resta é, ainda assim, uma visão competente e sagaz, muito estimulante, de uma cultura enciclopédica, conservadora e todavia original, e sempre provocadora.


Estou com um livro seu, Génio, entre mãos.
Pessoalmente, dispensaria que ele o tivesse organizado à imagem do Talmude. Mas concedo que, se prescindimos de uma exposição histórica de certos autores, carecemos de um outro critério de arrumação. E, é certo, por artificial que seja o que obtemos, o Talmude fornece uma chave de organização tão boa como outra.

Por outro lado, existem aquelas convicções muito fortes, a que eu chamaria "manias", de Bloom. Insistir em que José Saramago é o mais talentoso de todos os autores contemporâneos parece-me pouco razoável. Mas muito bem. Admitamos que há, no mais racional dos críticos literários, um incontornável lugar para o "gosto", e que o gosto tem razões que a razão desconhece.

Resulta, de tudo isto, um livro maior mas desigual, e com debilidades [que mo fazem ler sentindo-me interpelado, agastado, comovido], erigido sobre a tese do génio, isto é, a ideia de que, mais do que à cultura, ao tempo, a uma técnica que se aprenda ou às influências, o que verdadeiramente explica a grandeza de algumas obras literárias é, paradoxalmente, algo da ordem do inexplicável: o génio do seu autor. O tempo, a cultura, a técnica ou as influências de Marlowe não eram diferentes das de Shakespeare - e, no entanto, Marlowe nunca seria Shakespeare. Nem Marlowe nem, segundo Bloom, nenhum outro alcançou, alcançaria ou alcançará uma realização literária tão múltipla e tão perfeita. (Dante teria sido quem mais se aproximou).

E sob o princípio do génio, dividindo os autores por diferentes tipos de génio, incluindo, na obra, os portugueses Luís de Camões, Eça de Queirós e José Saramago, Harold Bloom apresenta-nos os génios cujas obras, para ele, formam o cânone da literatura ocidental. Poderemos não nos render, mas saímos acrescentados da leitura.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

LLOYD JONES: MR. PIP


Mr. Pip é o nome do último livro que li. Enquanto espero que o meu primo consiga desencantar-me I Promomessi Sposi, do qual me dizia, sem ironia, «o quê?! Nunca o leste? Fico com inveja de ti, pá, e do teu projecto de vires a ler um livro como esse», mergulho em Mr. Pip e, por várias razões, sinto-me extasiado.

Primeiramente porque é, de certa forma, um livro em torno de um outro livro, Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Mas, em segundo lugar porque, ocorrendo num tempo, num espaço e com personagens plausíveis, reconstitui, todavia, um tempo, um espaço e personagens de uma plausibilidade "estranha", que nos é distante. E portanto há um tom quase surrealista e kafkiano na forma como seguimos os jovens negros de uma ilha, assolada por uma guerra civil, perante Mr. Watts, o professor improvisado [e o único branco da ilha], que lhes apresenta Grandes Esperanças, de Dickens.

É uma obra sobre confrontos: de culturas e de valores, de experiências e de visões do mundo e da vida. Com a dureza extrema subjacente ao testemunho da incompreensão e da intolerância, mas guiado pela busca da compreensão e da universalidade, que poderia ser precisamente achada em Grandes Esperanças (o qual representa, como Lolita em Teerão, a ideia e a experiência de uma obra criada num certo tempo e no contexto de uma certa cultura - lida por outras pessoas, de um tempo e de uma cultura sem as mesmas referências) e a ternura de todos querer reconciliar e salvar no seu coração - mesmo os inimigos que, em vida, nunca se aceitaram - é um livro muito belo. E muito duro. Mas muito belo.

domingo, 20 de novembro de 2011

ARISTÓTELES: POÉTICA


Soube que um leitor, atento e fiel, deste meu blogue (um único leitor, portanto, mas um que muito especialmente prezo) se tem ressentido do meu silêncio.

Não vale a pena explicar por que me remeti ao silêncio. Inúmeras razões, desde a expectativa de que a referência a "Mira-Lata" fizesse o seu efeito, até uma fase de hiperactividade profissional, passando por alguma desmotivação, poderiam ser justamente alegadas. Mas não me afastei dos livros, isso não: e para reatar a dinâmica "bloguista", escrevo hoje sobre um que, estranhamente, me tocou fundo. É a "Poética", de Aristóteles.

Descobri-o numa oficina de guionismo, patrocinada - gratuitamente - pelo clube de cinema que dinamizamos, o Francisco e eu, na minha escola. Temos recebido, semanalmente, a visita da realizadora Joana Pontes, a qual, perante uma audiência muito jovem, nos fala sobre "enredo", "plot point", "desenlace", sinopses e guiões propriamente ditos, princípios e fins, pontuando o seu iluminado ensinamento com exercícios e experiências colectivas de construção de estórias. Lembro-me que, numa das primeiras sessões, Joana Pontes trazia a "Poética", de Aristóteles. E de que nos disse: «É claro que tudo o que eu vos possa dizer, mais, o que os melhores guionistas hoje sabem e usam, já tinha sido descoberto por Aristóteles. Está tudo concentrado, com uma enorme clareza, neste livrinho...»

Posso ter pensado que houvesse algum exagero. Não me lembrava da "Poética". Tê-la-ia eu lido? É possível, se atendermos a que cursei filosofia e Aristóteles está longe de me ser um desconhecido. Mas não o li certamente segundo o prisma da sua "utilidade" ou da sua "actualidade". Fui em busca; não havia; encomendei-o.

Não há o menor exagero. Espanta-me reconhecer [uma vez mais] que, a despeito de termos evoluído tanto em matéria de tecnologia, no que diz respeito ao essencial [como seja contar uma história], tudo está nos Gregos. Ou nos Romanos. Não em Aristóteles em particular - porque Aristóteles reflecte, no caso da "Poética", sobre o que estava incorporado, de há muito, no que os poetas, seus contemporâneos e anteriores, já faziam. Não descobrimos nada de original na maneira de narrar com o fito de interessar o leitor ou o espectador; nada de novo na forma de "imitar" acções e acontecimentos, relações e decisões que exponham as personagens nos seus vícios e virtudes, encaminhando-as para a felicidade ou, mais provavelmente, para a infelicidade. Nada de novo sob o sol.

Aristóteles é um amante de teatro. Conhece a maioria das obras do seu tempo, tem predilecções (o "Édipo", de Sófocles, por exemplo, é, para ele, o protótipo da grande tragédia), compara, explica o que falha aqui e o que brilha ali, e traduz esse prazer pela imitação dos actos de homens representada para o público, numa série de lições absolutamente extraordinárias. Analisa as emoções fundamentais do leitor/espectador [que são a compaixão e o temor], a importância da estrutura, actuando, por dentro, como a necessidade que permite desenvolver coerentemente a história [por oposição aos "maus poetas", que optam por ir adicionando episódios que não fariam falta ao todo, se os eliminássemos], o papel da "peripécia" e do "reconhecimento" e, à medida que avanço no texto claríssimo, vou enchendo as margens de anotações: pequenas filas de aranhas desenhadas a lápis de carvão, que nem talvez eu próprio, mais tarde, consiga descodificar.

Descubro erros meus [a tentação, por vezes, para o "episódico", própria de todos os "maus poetas"] e erros de alguns contemporâneos premiados. Às vezes, obviamente, discordo. É importante não confundirmos um gosto particular com uma lei universal. Mas é um livro que faz qualquer autor sentir que os Antigos sabiam já tudo quanto sabemos - e talvez um pouco mais, porque estavam atentos a muito daquilo que esquecemos.