sábado, 27 de julho de 2013

R.A.P. & M.E.C.


«Só as pessoas superficiais não julgam os outros pelas aparências...»

Oscar Wilde?
Não. Ricardo Araújo Pereira citando Miguel Esteves Cardoso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ROMAIN GARY: LUAR DE MULHER [UMA BREVE CITAÇÃO SEGUIDA DE UMA BREVE QUESTÃO]




«Rebuscou a carteira, tirou de novo um cartão de visita...
     »- Já me deu um, repeti.
     »Multiplicava as provas da sua existência.»


[Pergunto-me como é que um tipo que escreve assim pode ter sido quase completamente esquecido.]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

FRAGMENTOS



A Teresa recomendou-me "As Chaves do Reino"; ainda nem bem tinha acabado de ler a prescrição e já me encontrava em viagem para o achar. Está ali, em cima de uma mesa. Abençoada Ulisseia que tão bons livros traduziu e publicou numa certa época.

Com este poder da Teresa, que em poucas semanas revolucionou o meu universo de livros inesquecíveis, só talvez o meu primo, que me presenteou com uma extensa lista, e minha mãe, que me apresentou Somerset Maugham e Erskine Caldwell. [Mas não é maravilhoso perceber que, possivelmente até ao fim dos meus dias, esta lista será sempre uma lista provisória e incompleta?]

Porém, em relação aos relatos maternos, existem hoje dificuldades praticamente intransponíveis. Lembro-me, por exemplo, de que quando eu era menino ela me contava certa história policial em que uma mulher idosa teria cometido um assassinato. Uma jovem que tratava dessa velha - de família? uma enfermeira? - descreveu-lhe, por graça, como poderia ter sido a própria senhora a praticar o crime. Fitando-a, percebeu-lhe o desconforto, o ar sério e grave; soube que tinha acertado em cheio. Disse: «Estou sozinha com uma assassina»; e sentiu-se mal, ou desmaiou, ou qualquer coisa. Mas como diabo conseguirei chegar a um livro sobre o qual, apesar dos pesadelos que me provocou, não sei absolutamente mais nada, e de que a minha mãe já não se lembra?

Outro seria um extraordinário "Narrow Street", que leu em inglês, mas não sabe quem é o autor. Nas minhas pesquisas, acabo por ficar à beira da possibilidade de um tal Elliot Paul [e a obra chamar-se-ia então "A Narrow Street"], mas não será que que a minha mãe se referia antes a "Narrow Corner", do seu querido Maugham?

Ou então, um outro policial em que um homem, à noite, se sente incomodado na sua tranquilidade doméstica pelo ruído de um grupo. Sai, admoesta-os. «E desapareçam daqui, se não...»; mais tarde, a sós com a mulher, confessa-lhe: «Ainda bem que não perguntaram: se não, o quê...?»

Pode ser que um dia recupere algumas das obras a que pertencem estes deliciosos e saudosos fragmentos.  

terça-feira, 23 de julho de 2013

ROMAIN GARY: A PROMESSA




«Acabou-se. A praia de Big Sur está deserta e deixo-me ficar deitado na areia, no mesmo sítio onde caí. A bruma esbate as coisas; nem um mastro no horizonte; num rochedo em frente de mim, milhares de aves; noutro uma família de focas: luzidio e devotado, o pai emerge incansavelmente das vagas com um peixe na boca. As andorinhas-do-mar aterram às vezes tão próximo que contenho a respiração e os meus velhos gostos despertam: pouco falta para que elas venham poisar na minha face, aninhar-se-me no pescoço, nos braços, e recobrir-me completamente... Aos quarenta e quatro anos continuo a sonhar com uma espécie de ternura essencial

Sei que este início sobreviverá, como um pai-foca, incansável e devotado, a milhares de páginas dos romances que desejo poder vir ainda a ler. Cria um espaço próprio em nós, não é verdade? Torna insípido quase tudo o que lemos antes, e, posso adivinhar, muito do que esteja para vir. Por que interrompo a citação? Por que não continuo simplesmente citando esta reunião sagrada entre as visões do seu passado, e as frases, de uma beleza dolorosa, com que Romain Gary no-lo oferece nesta obra?

[Uso uma tradução, já com alguns anos, de Augusto Abelaira, que se chama "A Promessa", e não "Promessa ao Amanhecer"; o título original é "La Promesse de l'Aube": promessa "do" amanhecer...].

Existe uma injustiça no cerne da relação entre a mãe e seu filho; não sei se lhe chame injustiça, mas como designá-la então? De um lado, porque uma mãe, criando vida a partir do seu próprio corpo, abdica sempre de si mesma, e será capaz dos mais drásticos sacrifícios para que o filho se realize; do outro lado, porque um filho é necessariamente, e antes de mais, um projecto da mãe por interposta pessoa. Uma promessa: um filho deverá encarnar, como escreve Gary, o «happy end» da mãe.

Lendo este livro, apercebemo-nos a cada passo desta injustiça. Mas também de como ela é inseparável de uma espécie de essencial vulnerabilidade humana. Desse reconhecimento, aliás [que nunca se confunde com a aceitação da estupidez ou da indignidade, com os seus próprios e bem diferentes deuses, inscritos na mitologia infantil que Gary reconstitui], desse reconhecimento de uma fragilidade inerente à condição humana, nasce o génio para a escutar, compreender e amar; amá-la como, talvez, ao que há de mais autêntico. «Tive sempre uma grande tendência para procurar, por trás das grandes razões, um impulso íntimo e procurar no coração das imponentes sinfonias o débil e terno som de uma flauta que subitamente afaga os ouvidos


Não há, na vida de Gary, senão a mãe que se lhe devotou e a que se dedica inteiro, entre improváveis insuficiências e certezas absurdas. Falar tão-só (e repetidamente, como o faço) de "injustiça" a propósito deste laço seria, isso sim, uma injustiça extrema e uma burrice de leitura; nenhum dos dois tem contas a pedir: sabem ambos que a essência da sua relação é um amor infinito, uma fusão inquebrável. A fragilidade como um dos paradoxais modos de uma força sobre-humana. Ou o inverso.

Um exemplo deste sentido da debilidade, o terno e sofrido som da flauta, encontra-se, aqui, não tanto na ausência de um pai, mas na descoberta tardia do destino deste. [O pai, com a sua expressão melancólica, tê-lo-á visto uma ou duas vezes na vida, porque era casado com outra mulher de quem tinha outros filhos.] Saber-se-á que ele fora liquidado num campo de concentração; mas só mais tarde Gary descobre que não terá entrado sequer no local onde o gazeariam. Sucumbiu, de pavor, na fila que era dirigida para a câmara de gaz. Porém, essa fraqueza - não ousaria chamar-lhe cobardia -, essa falta de heroicidade, é o que reconcilia Gary com a ideia de haver sido seu filho. O que o faz aceitar aquele desconhecido como sendo, por direito, um pai humano, que o mereça.

É difícil resistir à tentação de ler este texto profundo sem, precisamente, o encerrar numa «imponente sinfonia», deixando escapar a autenticidade que o constitui. É com um sentido de humor subtilíssimo que Romain Gary desafia os leitores que lhe abordam a memória munidos de um discurso correcto, seja o da psicanálise, ou outra tábua de ideias feitas. Arriscamo-nos a não escutar o débil, o frágil, o belo, o comovente amor, a total entrega de um filho a essa mãe «desmedida», excessiva, ressentida, escandalosa, uma figura inesquecível de russa, fumadora inveterada, negociante atrevida e talentosa, que não admite que o menino venha a ser menos do que «um grande homem», um génio, um ser de eleição; o quê, tornou-se indiferente: um violinista, um tenista, um escritor, um diplomata. Um destino que se cumprisse, desforrando-a das perseguições dos deuses da idiotice, da maldade, da infâmia e da vileza; de todos os que troçaram e a ridicularizaram, e os amesquinharam e incompreenderam.

É uma obra imensa sobre o sentido da imperfeição e do perdão. Sobre a fé numa França que a mãe idealizara, e os acolherá, nem sempre com justiça ou isenta de estupidez e preconceito. Sobre o cepticismo, que é uma inevitável dimensão de qualquer fé: ou seja, a descoberta, pelo malabarista, de que nunca há-de conseguir jogar com sete bolas. Faltará sempre a realização do espectáculo com essa sétima bola, posto que, se fosse capaz, passaria imediatamente a desejar incluir uma oitava - a qual seria, nesse outro nível, a sempre ambicionada e impossível sétima bola.

     

       

domingo, 14 de julho de 2013

ROBERT BRASILLACH: COMO O TEMPO PASSA



Meu avô citava-me uma frase temível, com que Brasillach se elevava sobre a mediocridade virtuosa dos seus perseguidores. Guardei-a comigo durante séculos. Um dia, tentei recordá-la. Tinha-a esquecido. Irrevogavelmente.

Certa vez, passei por um alfarrabista e topei, em francês, com um livro desse autor que meu avô tanto admirava. Comme le Temps Passe. Trouxe-o comigo. Li-o, com a lentidão e o esforço de quem ainda não estava preparado. Pela segunda vez, esqueci Brasillach.

Foi a Teresa que mo sugeriu agora, numa tradução portuguesa que nem sabia existir, da Ulisseia.

Robert Brasillach [se queremos começar por um ponto incontornável, que Teresa também refere] foi fuzilado aos 36 anos, devido à sua colaboração com as forças nazis. Muitos intelectuais franceses, naquela intolerância que a França herdou directamente da sua revolução, aquela estreiteza que não admite mais do que um único ângulo, proscreveram Brasillach, sublinhando os filmes ou as fotos em que ele aparece entre oficiais nazis, ou aqueles em que o vemos no uniforme da traição. Que merda que este homem, como Céline, outro fulgurante fantasma do lado errado, haja sido também um escritor de génio.

Mas Céline foi sempre um provocador: o seu anti-semitismo ou a sua veia fascizante estão presentes na  obra extraordinária que nos legou, sobretudo em Morte a Crédito, sob a forma de desprezo pelos pequeno-burgueses ou de sarcasmo. Em Céline há uma bem-vinda truculência, mas nenhuma gentileza. [Não é rigorosamente verdade: a sua "petite musique" tem inesperados surtos de delicadeza e amor.] O que Brasillach, pelo contrário, revela na sua obra é uma personalidade gentil e melancólica. Nenhuma agressividade, nenhuma truculência.

Como o Tempo Passa é um dos mais interessantes romances que li, não nos últimos meses, mas desde sempre.

Primeira questão: com que idade o terá escrito, se foi morto aos 36 anos?
Retomemos, como segunda questão, a que já formuláramos: como pode este homem, não só que escreve com tamanho talento, mas mostrando este espírito de observação e compreensão, esta sensibilidade, esta captação dos sentimentos humanos, esta proximidade do mais refinado e do mais subtil do espírito, esta cultura, haver sido um simpatizante do nazismo? A minha resposta apontaria para a tese do equívoco. Tem de ter havido um equívoco na posição política de Brasillach, um engano em relação ao autêntico alcance e prática do nacional-socialismo, um desconhecimento dos campos de concentração, do assassinato mecanizado em larga escala. Desengano-me. A menor pesquisa exige que me desengane: na forma da sua colaboração em jornais, nas denúncias dos patriotas franceses, que não hesitou em fazer, sobretudo no anti-semitismo que assumiu e ostentou, está claro que a tese do equívoco é uma tese ingénua.

O que não se explica é, então, o romance maravilhoso acerca da transição do século XIX para o século XX, como um movimento prodigioso, exuberante e demasiado veloz; tendo vivido a sua infância feliz numa ilha descrita como o éden, René e Florence criam uma ligação aparentemente indestrutível. O início não é sempre o éden, a felicidade e o que se julga indestrutível? Bravios, livres, magníficos, desconhecendo qualquer disciplina severa ou currículos rígidos, não precisando, para um enquadramento mínimo, senão da tia Esperança e de um bizarro professor, Matricante, os dois meninos têm tudo quanto lhes falta. Marca-os a imagem de um tutor que nunca realmente viram, que designam respeitosamente por A Figura, e de que temem o retrato que se encontra no escritório.

Quando arrancado ao éden para ir estudar em Paris, René será o jovem um pouco perdido, uma espécie de "homem sem qualidades", que nenhum traço final define. Como o próprio tempo, ele é a substância mutável, curiosa, flexível, com saudades e recordações que o visitam, mas o não enraízam. Conhecerá por fim A Figura - um prestidigitador com pouca fé no futuro da sua arte - e há-de reencontrar, ao longo dos anos seguintes, o seu mestre Matricante. Este será sobretudo o instrumento do tempo, que se apaixona pelas grandes invenções quando ninguém ainda crê nelas: o cinema, no início; mais tarde o automóvel, na sua expansão. René segui-lo-á, sem convicção, mas curioso, em todas essas incursões mágicas e maravilhadas.

A simplicidade do reencontro com Florence, nessa Paris que tão pouco se parece com o mundo fechado da sua infância, e o narrador nos descreve nos múltiplos pormenores que reconstituem a Cidade-Luz num tempo de luz, faz dele um destino. Mas tudo isto sem excesso estilístico, sem uma voz narrativa que se imponha grandiloquentemente. Há, pelo contrário, um estilo perfeito, feito de frases tão belas, mas ao mesmo tempo tão naturais, que chegam a passar despercebidas; é em geral a uma segunda leitura que lhes captamos o segredo, e nos surpreendemos, esquecidos por uns instantes de respirar. Como se tivéssemos sido atingidos.

Mas é uma simplicidade enganadora. Em determinadas situações, compreendemos o encadeamento surdamente exigido para que o leitor duvide do que compreendeu. Quando René, entretanto casado com Florence, de quem teve um filho, se afasta dela, por que razão se afasta? Por causa de uma conversa sobre o sentido da guerra? Ou porque assistiu ao espectáculo de um beijo trocado entre Florence e um jovem militar estouvado? E viu, realmente, o espectáculo? A que assistiu efectivamente René? Ou a que foge? Florence não o sabe. Mas o leitor também não está certo.

Nesta reconstituição do tempo como um contínuo movimento de encontros, perdas, por vezes de reencontros (mas não de tudo o que quereríamos reencontrar, e nem sequer necessariamente do que nos parecia então essencial), libertam-se episódios paralelos, histórias minúsculas, de personagens secundárias que são outros tantos braços do tempo. Como a de Patrice e do seu cego. Ou como a de sua mãe. São apontamentos comoventes, terríveis, luminosos no modo como se destacam do denso conjunto de sombras que as sufoca. Ou a do pequeno espanhol, tão prematuramente morto; e a propósito da noite passada, em Toledo, por René e Florence, atentemos nas quinze páginas [quinze!] em que nos é contado o modo  como os dois jovens se entregam um ao outro, num misto de pormenorizada descrição dos gestos e das expectativas, na encantadora dança dos dois corpos, e de cuidadosas elipses, ou sugestões, com que se evita uma exposição grosseira. São quinze páginas inesquecíveis, que todos os escritores portugueses deveriam ser obrigados a ler, se é verdade que a literatura portuguesa é conhecida como generalizadamente pobrezita na descrição do acto sexual.

Robert Brasillach permanece um enigma.
Como o Tempo Passa, em todo o caso, é uma obra literária maior. Se não resgata o homem, resgata-se a si própria.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

GEORGES PEREC: A VIDA, MODO DE USAR



Georges Perec é um escritor sobejamente conhecido. Por mim, só o era de ouvido. Mas acontece que uma das suas primeiras obras, O Condottiere, recusada por diversas editoras, e sobretudo por essa recusadora-mor que é a Gallimard, veio a ser recentemente redescoberta, numa mala - aliás como Perec tinha previsto, em carta onde se lamentava das sucessivas recusas -, e publicada agora sob os justos holofotes e ao som de trombetas.

Imagino-me no lugar de um conselheiro editorial da Gallimard. Vejo-me olhando, com alguma relutância, para o original de um escritor desconhecido, depois principiando a folheá-lo e, por fim, embrenhando-me no texto. Pergunto-me, honestamente: haveria a menor possibilidade de deixar escapar tudo o que se diz [mas agora é fácil dizê-lo] que germinava já neste seu início? deixar-me-ia enganar, empurrando para longe as folhas, com algum enfado, e comentando para os meus botões: «Este tipo é um fala-barato», ou «Há aqui ideias interessantes, mas o sujeito perde-se em palavreado: tal como está, parece-me impublicável»? Ou intuiria a luz, «Espera aí, espera aí», uma leve incerteza progressivamente consumida pelo reconhecimento do génio...?

Neste livro é imperdível, antes de mais, o prefácio [da autoria de um magnífico Claude Burgelin], que historia, enquadra, liga, aprofunda, compreende, em síntese: faz luz. Falarei, porém, do romance em si em outra altura. Ou talvez não. Em todo o caso, ele foi a porta correcta para a descoberta de Perec, nomeadamente de um seu outro livro: A Vida, Modo de Usar, que li a seguir.   

Todo o experimentalismo é exigente. E, portanto, cansativo. Sem o respaldo daquilo a que já nos habituámos, o novo precisa de um corpo-a-corpo. Há-de haver uma razão para ser tão difícil lermos Ulisses. Não que não seja absolutamente indispensável: de se experimentar, de se inovar, nascem as novas formas, um horizonte mais rico de possibilidades, de que entretanto aprenderemos a apropriar-nos também. Mas os nossos sentimentos, a sensibilidade, estão formados, ou até treinados, para reagir ao que lhes toca de um dado modo.

Por outro lado, se as experimentações permitem uma evolução técnica da arte, nem por isso advirá delas qualquer progresso qualitativo, ou da essência, ou da grandeza, ou da genialidade. Não se "evoluiu" para além de Homero, Dante, Shakespeare ou Proust. Nem acredito que a força intemporal da obra destes pudesse ter melhorado pelo facto de haverem conhecido outros recursos, outras figuras, outros meios.

Isto dito, A Vida, Modo de Usar é uma obra que consumimos em pequenas doses de cada vez. E, de cada vez, deixa-nos fascinados. Mas é um fascínio que precisa de se recolher, se desligar momentaneamente. Há um excesso que não é da ordem da urgência nem da impaciência, mas da concentração. Há uma forma que pede o seu tempo de digestão.

Vejamos: entra-se num prédio, visto rigorosamente como um puzzle, e vai-se descrevendo cada um dos apartamentos como se descreveriam as peças do mencionado puzzle. O que é particularmente bem conseguido é que, em cada uma dessas apresentações há como que uma suspensão do tempo. Estamos num dos quartos das criadas, por exemplo, e é como se acabássemos de chegar, surpreendendo a cama, os móveis, mas também as pessoas que lá se encontravam nesse preciso instante, um homem que fuma e lê o jornal, ou uma mulher que se penteia. Essa quase-cristalização, que captura o momento, com pessoas ocupadas em tarefas que fazem parte desse tempo subtraído ao tempo, funciona como uma ponte para se irem introduzindo explicações, um passado, uma biografia, uma história, seja a propósito de uma estante, um pente, uma caixa de charutos ou um jornal tombado no chão. Bruscamente, essa imersão na história, na biografia, parece acelerar. A narrativa ilumina-se, como quando se conta o episódio da jovem ama que deixara afogar o bebé no banho, e será perseguida pelo pai da criança, que a assassinará muitos anos mais tarde. Liga-se, pois, o tempo suspenso, enclausurado na sua lógica própria, a um tempo e a uma lógica exteriores, que o ultrapassam e acomodam. Das duas uma. Ou perguntamos «Mas para que diabo serve esta minúcia?», ou nos deixamos seduzir pela sua riqueza um pouco vã, mas cativante.

Um puzzle é uma estrutura que devemos construir. Eventualmente, uma vez composta, mostra uma figura e, então, oferece um sentido. Porém, em Perec, o sentido vem sempre em diferido. O espectáculo principal é o da sua construção. É o de nos fixarmos atentamente em cada peça, e esgotá-la, antes de a ajustarmos ao todo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

PASCAL BRUCKNER: LUA DE MEL, LUA DE FEL




     Agora que uma versão light do sado-masoquismo ganhou um novo lugar entre as donas de casa que sentem a sua vida real esvaziada da mínima vibração erótica, graças a coisas como As 50 Sombras de GreyO Inferno de Gabriel  e outras deprimentes pepineiras, é interessante descobrir que, se não quisermos recuar até ao divino marquês, já mais próximo de nós (anos 80) Pascal Bruckner escrevera uma extraordinária e crudelíssima Bíblia da relação sado-masoquista.

     Descobri aqui, num dos poucos blogues que não me cansei de seguir - não disse: o único; disse: um dos poucos - a referência ao livro, de que me pus de imediato em busca, e ao filme, que hei-de certamente ver: Roman Polanski servindo-se de Hugh Grant, Emmanuelle Seigner e Peter Coyote, aponta-me, no mínimo, para um casting inteligente.


     A questão que desde logo não posso deixar de pôr é a do efeito não-realista da escrita de Bruckner. Conrad, que amo, usara o mesmo recurso. Camus, que é mais fraco mas, ainda assim, um «clássico», também. Trata-se de, ao contrário de Hemingway, criar um texto literário, e até poético, para se nos contar uma estória que deve tocar-nos pela sua verosimilhança. Ou seja, abdica-se de uma escrita em jeito de "reportagem". O problema parece tornar-se ensurdecedor quando se espera que acreditemos na existência de uma narração oral, ou seja, de um homem que vai apresentando, a alguém (o escritor que tudo transcreverá em nosso benefício), uma trágica sucessão de episódios. Sentimo-nos desconfortáveis, porque as pessoas não falam efectivamente dessa maneira, grandiloquente e trabalhada. Aquele é o modo da "escrita", necessariamente: nem o tempo nem o contexto de uma conversa o permitiriam.


     Mas, à medida que penetramos no que está sendo narrado, começamos a compreender o sentido, a razão de ser, o objectivo último desta escolha; confrontamo-nos até com o imperativo categórico que preside à assunção da forma em causa.
Façamos uma analogia com a ópera. Também ninguém fala a cantar; não me parece que haja assim tantas pessoas que, nos últimos instantes de vida os gastem em impressionantes malabarismos vocais, ao invés de gemidos ou de arquejos. Nem é realmente habitual que se cante um pouco, ainda, quando se está com muita pressa para ir combater, ou evitar que uma catástrofe se abata sobre inocentes. Claro, bem sei que para os ignorantes da ópera, o que mencionei são itens de uma longa lista de motivos que a tornam ridícula. Mas para todos os que aprenderam a devotar-se-lhe, o canto não é um excesso na exposição operática do real: pelo contrário, é o elemento artificial (próprio da arte, pois) que o sublima e intensifica, que o torna mais triste ou mais feliz, mais comovente ou insuportável, mais belo ou mais feio, ou tremendo. Também neste romance, é disso que se trata: de uma sublimação do chocante e do agressivo, de um cântico à perversão, indispensável para que os desvios mais assustadores, na perspectiva do leitor «normal», sensato, burguês, sejam recuperados segundo uma luz que lhes traz um inesperado sentido e uma terrível beleza.

     É uma estória que nos prende e sufoca. Muito dura, verdadeiramente ousada, na procura obcecada da experiência da transgressão e do ilimitado, que consegue transformar as substâncias ou os odores mais repelentes em hinos de glorificação ao corpo feminino. Ao corpo como um todo, não como a superfície visível e aceitável, em que se ocultam, como segredos proibidos, todos os potenciais dejectos, toda a porcaria, líquida ou sólida.

     Mas é também um romance sobre a cobardia, as ilusões ou, mais propriamente, o desfazer das cálidas crenças e mitos, no momento em que um casal, concentrado na bolha do seu amor, dos seus gostos comuns, das suas «ideias eternas», numa viagem, de barco, em direcção ao seu sonho exótico de sempre, se encontra com um outro casal: Franz e Rebecca, que tendo já, de algum modo, levado ao extremo a sua destruição mútua, a expandem agora aos outros, malévola e persistentemente.

     E percebo, Teresa, por que este livro a tocou tanto. Certamente porque rapta o leitor do princípio ao fim. Mas também por ser a paradoxal fusão entre uma radical ousadia, e o requinte e o bom-gosto, fusão essa que, Teresa, a si lhe assenta como uma luva.

terça-feira, 25 de junho de 2013

DULCE MARIA CARDOSO: OS MEUS SENTIMENTOS


     A construção deste romance é um mapa quase indiscutível das próprias referências. A escrita de José Saramago, para começar, nos seus períodos extensos e sem outro modo de articulação que não a mera vírgula, e os sobressaltos típicos dos textos de Lobo Antunes: as interrupções que intercalam uma outra fala, de um outro contexto, que só indirecta e invisivelmente remetem para o período que vinha sendo enunciado.

     Esta conjugação de meios possibilita a fundação de um discurso denso, longo mas fracturado, a partir do qual, no entanto, o leitor compreende a estrutura que a tudo subjaz. Mais: esta conjugação de meios, de quebras, desvios, alusões, permite que o leitor se engane na forma como, na sua mente, vai completando a referida estrutura.
Surpreende-se, ajusta, por fim, fragmentos de cujo ajustamento não suspeitou, percebe - mas tarde - quem é, afinal, o homem que fez mal a um outro homem, e por que razão o fez. O leitor vai entendendo, mas só à medida que progride e a progressão é também um recuo, que nos descoculta os antecedentes e os motivos.

     É um romance acerca da incompreensão. Na minha leitura, trata-se disto: um romance que nos mostra precisamente a incompreensão como prerrogativa das pessoas perfeitas; ou, invertendo os termos, de um romance sobre as pessoas "perfeitas" como as mais imperfeitas das pessoas: as que não compreendem os outros, as diferenças, o sofrimento alheio; as que podem não ver e não ouvir o que as incomodaria; as que fazem da sua perfeição um exercício permanente e esforçado de cegueira.

     A voz que escutamos ao longo de todo o texto, o pensar lúcido e cruel cujas palavras o leitor vai seguindo, em transe, é pelo contrário a voz da anomalia, da anormalidade, da imperfeição. É a voz do «mostrengo», que desafia a vida, a mãe, o pai, que resiste à incompreensão e à ingratidão, tudo compreendendo subtilmente, e vendo mais fundo e tudo ouvindo. E recusando a perfeição dos outros; armadilhando-a, desmontando-a, ou seja, assumindo-se numa hostilidade que as palavras desmentem, numa prática que as palavras desmentem. As palavras falam sobretudo de amor. É a um outro nível que percebemos que o discurso do amor pode conter a mais patética forma de vingança.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

MIGUEL ESTEVES CARDOSO: O AMOR É FODIDO



Apesar do seu óbvio espartilho ideológico [chamavam-lhe, com graça, o Sectário-Geral do PCP, repito: o Sectário-Geral] Mário Castrim era um crítico culto, sensível, certeiro e, já agora, com imenso sentido de humor.
Lembro-me da sua indignação quando se apercebeu de que as livrarias escondiam o título do único romance de Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido. Porque, mais do que diante de um palavrão, estamos perante uma expressão popular, que captura com toda a intensidade a frustração e o sofrimento, mas também o conformismo relativo, daqueles que têm de se haver com as questões do amor. Que o título fosse O Amor é um Sentimento Terrivelmente Frustrante e Provocador de Grande Sofrimento, mas Enfim, há que Suportá-lo dificilmente diria tanto, e com tanta força, como o simples e eficaz O Amor é Fodido. Muito menos O Amor é Lixado, ou O Amor é Tramado.


Posto isto, e se não estamos em face de uma obra maior da literatura portuguesa, estamos sem dúvida nenhuma a falar de um romance cuja peculiaridade torna imperdível. Aquela estória é, toda ela, Miguel Esteves Cardoso. É, como diriam os brasileiros, a sua cara. Observem o humor aparentemente cínico. [Há páginas absolutamente impagáveis. Recordo-me do equívoco suscitado pela expectativa do primeiro período, prontamente desmontado nos seguintes: «Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar.» Ou da narração de certa experiência erótica, com uma mulher que lhe pedia que a insultasse, lhe chamasse nomes durante o acto.] Mas o cinismo, e no cultivar desse engano MEC é do melhor,o cinismo não é senão uma capa dura, de machão lidando com as mulheres, sob a qual se oculta um desamparo de menino que nunca cresceu completamente. E portanto, sob o sarcasmo encontro, curiosa e paradoxalmente, a ternura e a necessidade de amor e de cuidado. Ou seja: o verdadeiro registo deste texto enganador e provocador não é o do escárnio e maldizer, não é seguramente o da misoginia, mas o de um lirismo discreto e com vergonha de si.

Parte do interesse do romance reside em que nada é o que parece. Os equívocos e os enganos sucedem-de, de modo que o leitor vai sendo constantemente induzido em erro. O início é taxativo - hilariante -, mas serve para que Miguel Esteves Cardoso comece imediatamente a desmontá-lo, frase a frase. Não quero insistir, que não me interessa estragar surpresas. No mesmo sentido, a visão que o narrador explicita acerca das mulheres - e acerca de Teresa em particular - é um aspecto da arte de enganar o leitor. As mulheres são más e pérfidas. Teresa é terrível. «Como eras má. Ingrata, caprichosa, cruel e má.» Mas isto não é verdade, e a cada momento, subrepticiamente, se desmente tal ideia, esgotando-se toda no que afinal é: expressões da raiva e dores de mal-amado; gritos d'Alma. Nada mais.

 Não que Teresa seja, vamos lá a ver, propriamente boa peça. Mas, como em As Travessuras da Menina Má, o narrador ama-a. Não gosta dela, ou não gosta do que ela lhe faz, mas ama-a como a ninguém mais, insubstituivelmente. Por muito que lhe chame odiosa, se ofenda, se revolte, jure não perdoar-lhe, e deixá-la, a verdade é que não consegue não vê-la como a mulher da sua vida. Todas as imperfeições dela são aspectos de uma espécie de perfeição divina, de deusa pagã, amoral, a quem tudo se consente.

A linguagem é ousada: imagino alguns leitores corando ao ler as frases com que, num Lar, um homem e uma mulher, idosos, incapazes de «mobilidade ou de vida sexual», se incentivam mutuamente, inventando, imaginando o que lhes apetecia fazer, com as palavras mais explícitas e ordinárias do léxico popular lusitano. Compreendendo o que está em causa para os dois desgraçados, diria que os seus diálogos são mais comoventes do que «porcos».

Castrim poderia considerar que se trata de uma forma ideologicamente ambígua de um homem falar sobre as mulheres.
Aceito. Este livro é de uma autenticidade que só existe porque se escreve num patamar onde a ideologia - e a moral - ainda estão por ser erigidas. Como quer que o analise a posteriori, numa perspectiva moral, a verdade é que esta autenticidade desarmante me desarma.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

DAVID ALMOND: O MEU NOME É MINA E GOSTO DA NOITE



Sendo eu professor de filosofia, não me espanta a desgastante insistência com que amigos, meros conhecidos, colegas, alunos, durante anos me convidavam à leitura de O Mundo de Sofia. «Genial», houve quem jurasse: «Uma genial introdução às teorias filosóficas fundamentais.»

Nunca apreciei O Mundo de Sofia. Uma história de segundo plano, criada unicamente com intuitos didácticos, isto é, como forma [pouco convincente] de ligar explanações das teorias, não poderia ser mais do que uma obra arrumada e previsível. Como um manual com pretensões a ser divertido, «lúdico», na verdade complacente.

O Meu Nome é Mina e Gosto da Noite, por outro lado, constitui tudo quanto O Mundo de Sofia desejaria ser sem disso minimamente se aproximar.

O Meu Nome é Mina é o título de uma obra secundariamente didáctica - e talvez resida aqui o seu segredo -, com o objectivo principal de nos surpreender e encantar. Não é um meio para, mas um fim em si mesmo: o exercício poético de desvendar o mundo, através dos olhos de uma rapariguinha que se não adapta aos filtros que os educadores oficiais impõem.

A escola - e as instituições educativas em geral - é explicitamente tratada como uma gaiola. Não dá a ver, torna pelo contrário invisível tudo o que transborda dos padrões; não nos abre para segredos e insuspeitadas possibilidades, antes fecha-nos para eles; ignora-os sistematicamente. Pior: rejeita-os. Nunca se preocupa com o encantamento. A sua esfera é do simples treino, que desencanta. Não nos torna sábios: limita-se a dotar-nos de competências.

Onde, neste romance, temíamos um reajustamento, uma reviravolta final, descobrimos que não haverá reviravolta. A escola manter-se-á, da primeira à última página, um inimigo idiota: uma estrutura burocrata e mutiladora, uma fábrica de incompreensões.

O romance visa ensinar-nos alguma coisa? Sem dúvida. Fala-nos da metempsicose; passeia-se por antigos mitos, antigos deuses e antigos lugares sagrados; ou de como os ossos das aves são ocos, e por isso mais leves, para que elas consigam voar, ou de sermos pó de estrelas; mas fá-lo como estratégia poética, mais do que como um método para nos fazer «aceder a conteúdos»: os conhecimentos que interessam a Mina são muito bonitos e surpreendentes, nascidos no lugar onde a ciência e a poesia se fundem, e valem pela sensação de leveza, beleza e espanto que lhe proporcionam, e ao leitor. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

RUBENS FIGUEIREDO: PASSAGEIRO DO FIM DO DIA


Num programa dedicado ao livro e ao autor portugueses, que revejo na internet, a minha amiga Paula Fonseca faz a distinção crucial entre o prazer imediato, que se obtém por exemplo em jogos virtuais, e se esgota logo, e o prazer inteiramente de outro género, lento e duradouro, que a leitura pode proporcionar.

Porém, alguns livros, à imagem de qualquer episódio de certa série policial ou de um jogo de computador em que dizimamos vampiros, procuram viciar o leitor: um início que o prenda (como não será, pelo que dizem todos os jovens, o de Os Maias); capítulos em que se gera ansiedade e tensão, para que se passe de imediato para o seguinte; personagens fáceis, distribuíveis sem equívoco num mapa maniqueísta.

Outros, como A la Recheche du Temps Perdu, são obras complexas, que exigem muito. Uma concentração absoluta e um gosto que tenha de se ir refinando, paciente, lenta e arduamente. São obras maiores - não porque a dificuldade seja, em si mesma e por si só, um critério de qualidade, mas porque só estes textos, que nos obrigam a escapar às rotinas de leitura, à banalidade, à preguiça, estão vocacionados para que nos descubramos a nós mesmos, no que temos de mais profundo e mais interessante. Na terra prometida de nós que em todos há e simultaneamente nos devolve aos outros, a um mundo inteligível a que pertencíamos desde sempre.

Passageiro do Fim do Dia é uma destas obras.
Num certo sentido, principia mesmo por nos recusar qualquer história, o que é logo uma dificuldade para o leitor. Como poderíamos chamar propriamente "história" à narração de um fim de tarde de sexta-feira, em que o protagonista se dirige, em autocarro, até ao bairro onde vive a sua namorada, para passar o fim-de-semana (como, aliás, sucede todos os fins-de-semana)? Mas impressiona-me particularmente observar como um texto tão despojado em termos narrativos, se torna, afinal, de uma riqueza e de uma exuberância inesgotáveis no que respeita ao detalhe, à descrição, à vivacidade dos pequenos episódios que a memória do narrador constantemente rebusca.


O Bairro do Tirol, destino do protagonista, é um lugar pobre, de vidas remediadas, pessoas com pouco dinheiro e menos futuro, com medo de sair de casa. E o bairro vizinho é um lugar de ódios viscerais e de rivalidades antigas contra a gente do Tirol, sempre prestes a explodir e a incendiar-se. Este cenário de guerra iminente e pobreza que se agarra tem sido insistentemente apontado pelos críticos, que vêem em Passageiro do Fim do Dia um regresso inesperado e feliz à literatura social e de intervenção. Eu tenho dificuldade em contestar essa evidência. Mas Passageiro do Fim do Dia não é um panfleto: a sua revolução começa por ser uma revolução artística e estética, elevando o pormenor a uma dignidade de que nos tínhamos desabituado. O observador é, de alguma forma, um Meursault brasileiro, um «estrangeiro» observador - não porque não esteja afectivamente ligado às coisas, mas porque todas se decompõem até ao infinito, numa espécie de caleidoscópio de formas, de sons, de expressões, de cores, como num mundo em que o familiar se dissolve, e tudo é objecto de uma surpresa contínua, um espanto distanciado.

Ao mesmo tempo - como em Proust - a memória flui em face de cada pormenor, e a partir dos mais insignificantes aspectos, exaustiva e minuciosamente captados e descritos, devolve a Pedro (o jovem «passageiro do ônibus») traços de acontecimentos passados, marcantes. De maneira que este tempo, esta viagem de um fim de dia, se prolonga quase indefinidamente: em primeiro lugar, objectivamente, porque há acontecimentos que atrasam o percurso da camioneta; em segundo lugar, subjectivamente, porque estas horas se abrem, se estendem, se relacionam com outros tempos, se distraem no minúsculo do presente e no minúsculo do passado longínquo. O tempo é aqui de outra ordem, incomensurável, sem medida nem fronteiras, por dentro e por fora, aproximando e afastando, casando o recuo e a atenção a tudo aquilo de que é feito o aqui, o agora.     

sexta-feira, 15 de março de 2013

MIHALY CSIKSZENTMIHALY: FLUIR



Os livros de teoria científica tendem a ser complexos, quando os autores visam ser respeitados; ou simplistas, quando estão preocupados com um trabalho de divulgação entre os leigos.

Tenho descoberto algumas surpresas: obras que aliam o humor e a capacidade de comunicação a uma informação que não falseia nem reduz; que convidam o leitor não especializado a penetrar na área, às vezes a partir de uma tese criativa e fascinante, mas sem ignorar nem trair os conhecedores. A Lua de Papel é, em Portugal, uma editora que arrisca nesse campo, com traduções cuidadas de textos interessantíssimos, sobre filosofia ou psicologia.

Publicado não pela Lua de Papel mas pela Relógio d'Água, outra editora a quem os portugueses nunca agradecerão o bastante, Fluir, da autoria de um psicólogo polaco de nome impronunciável, é um exemplo desta fusão entre o trabalho sério e rigoroso, suportado por muitos anos de pesquisa, e uma clareza que nos faz sentir sábios, apelando continuamente para o que de facto já conhecemos, isto é, para aquilo que um leitor medianamente instruído não ignora, mas de forma a conduzir esses conhecimentos, capítulo após capítulo, para limiares luminosos de descoberta.

O tema é muito belo. E, de algum modo, segundo Csikszentmihaly, é familiar à prática e à experiência de todos nós. Chamemos-lhe, para simplificar, a felicidade. Mau! Não simplifiquemos demasiado. Não que a palavra nos atemorize, mas não gostaríamos que se começasse a tomar esta obra preciosa por aquilo que não é - um livro de auto-ajuda. A felicidade, aqui, refere um estado. O estado de experiência óptima: mais comum do que poderíamos pensar, embora a psicologia pouco se tenha debruçado sobre ele.

O estado de "fluxo", ou de "fluir", ocorre naqueles momentos exaltantes em que nos entregamos ao exercício de uma actividade que nos dá um prazer máximo, e que depende de nós: não somos obrigados a ela, mas desfrutamo-la; mesmo as dificuldades que lhe são inerentes, e a constituem como um desafio, fazem parte do prazer que nos proporciona; a atenção, a fruição, a intensidade com que nos oferecemos a essas experiências, permite que o nosso ego esteja voltado para si próprio, diferenciando-se, mas também voltado para o que o transcende, integrando-se, numa unidade orgânica em que cresce e se torna sempre mais complexo. Por outras palavras: a multiplicação de tais experiências é, em si mesma, evolução, complexificação.

A experiência de criar, ou do fruir da arte, ou do pensar, ou do desporto, ou da dança, ou da leitura (e certamente que a leitura absorvente de Fluir), correspondem a momentos de fluxo. A felicidade não é uma dádiva: é um "fazer acontecer". Nada de novo, talvez. Mas acredito que nunca seja de mais lembrá-lo.

sábado, 2 de março de 2013

FREUD: SOBRE OS SONHOS



Ricardo Araújo Pereira acedeu a um convite do clube de cinema Gostos Discutem-se, da minha escola.
Escolheu um filme: "Annie Hall", de Woody Allen.
E após a exibição, conversou connosco, num auditório repleto de alunos que lhe bebiam as palavras, a respiração, as pausas, e professores que faltaram porventura a reuniões fundamentais porque se esqueceram de tudo quanto não fosse aquele momento único e - nos precisos termos em que se deu - irrepetível.

Ricardo Araújo é um homem culto, que fala despretensiosamente acerca de Adília Lopes, Mark Twain, Groucho Marx, David Lodge, das teorias de Hobbes ou de Freud. E todos saem curiosos, com vontade de ir à procura para conhecerem [os mais novos] ou para recordarem [os mais velhos]

Nessa sessão, Freud foi referido a propósito do riso e da sua explicação para o facto de o homem rir. Gostaria muito de encontrar esse específico ensaio sobre o riso; na falta dele, apeteceu-me simplesmente regressar a Freud, tão vilipendiado ultimamente, tão maltratado pelos intelectuais que se asseguram e nos asseguram de que, na sua essência, a psicanálise é um mito. E uma fraude.

Leio Sobre os Sonhos, um extraordinário livro de menos de cem páginas, onde, pela primeira vez, Freud aplica ao sonho o seu método, que tão bons frutos vinha dando quando usado nas psicopatologias. A proximidade entre o sonho e a neurose era notória, a intervenção do inconsciente nos dois casos, transformando um conteúdo latente num conteúdo manifesto enigmático e bizarro, parecia inegável.

E percebemos que o equívoco reside num outro lado: independentemente da personalidade manipuladora de Freud, ou de aspectos menos simpáticos da sua biografia, o ponto em que tudo se confunde é o de saber se a psicanálise pode ser considerada, ou não, uma teoria científica. Se falamos de uma ciência estrita, segundo preceitos invioláveis, à maneira de Karl Popper, então não, o discurso freudiano é pouco científico; se, pelo contrário, falamos de uma reflexão que confere sentido às nossas indagações e observações, ligada a uma prática e a uma terapia [pelo que não se trata de filosofia, rigorosamente], a psicanálise continua sendo, malgrado os erros ou as incongruências, uma profundíssima e interessantíssima abordagem do psiquismo.

Na leitura de Sobre os Sonhos acompanhamos, com o mesmo fascínio de quem se prendeu a um romance intenso, a reflexão de Freud, como se a víssemos construir-se diante de nós, e connosco, passo a passo, em torno de muitos exemplos concretos de sonhos, que ele nos narra, dos problemas que esses exemplos nos põem, e de analogias muito ricas que lhe possibilitam conclusões extremamente criativas.

Possivelmente, Freud tem razão. Cada vez mais estou convencido de que não há verdade que não seja precisamente isto: um discurso que explica, ou seja, oferece um sentido, justificado pela observação minuciosa e por um raciocínio sem quaisquer preconceitos. E tudo isto Freud faz - e até um pouco mais: fá-lo de um modo muitíssimo interessante.    

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CONCURSOS DE LEITORES: UMA NOTA

Acho curiosa a ideia de um concurso - não me levarão a mal a sinceridade - em que, para ganhar como prémio um certo livro, o concorrente tenha de responder a perguntas acerca desse mesmo livro.
Pressupõe-se que já o leu? [E para que o quereria então receber?]
Ou trata-se de adivinhar a resposta?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

JAROSLAV HASEK: O VALENTE SOLDADO CHVEIK


Sempre vi o Império Austro-Húngaro como uma das mais ricas expressões civilizacionais da humanidade. Uma obra-prima de talento e bom-gosto.  É bem verdade que se, e em praticamente todas as artes, olharmos para algumas das personalidades e obras produzidas no seio desta monarquia, não podemos deixar de ficar impressionados. Pela qualidade e pela quantidade.

Paradoxalmente, esses mesmos artistas eram em geral muito críticos, se não hostis, em relação ao império que, visto por dentro, não passaria porventura - afinal - de uma manta de retalhos, unindo pela força e pela burocracia povos que se não reconheciam nessa unidade; com um regime jurídico pormenorizado e caricato; advogados e juízes e polícias que velavam ridiculamente pelo cumprimento extremo de alíneas meramente formais, e espiões absurdos, que vigiavam cada cidadão, controlando todas as palavras e lendo, nas mais inocentes, perigosas armadilhas contra o Estado.

Hasek escreveu, a partir desta matéria-prima, um romance delirante.

A sua personagem central, o Chveik do título, é uma peça indigesta para o sistema.
Não tem outra força que não a da sua ironia.
Aliás, como ele mantém do princípio ao fim uma absoluta opacidade, nunca sabemos muito bem que intenção o move, ou sequer o que pensa: ao contrário daqueles romances em que se procura exprimir o fluxo contínuo da interioridade, a interioridade da personagem permanece-nos oculta. Chveik vai-nos sendo exposto unicamente através das suas palavras ou de reacções bizarras; o equívoco começa, pois, por se gerar: estamos perante um pateta cuja inocência atinge os píncaros, um pobre de espírito, ou perante um revoltado astucioso, na sua indiferença estóica em face dos males, das contrariedades, das punições que sofre? Mas essa ambiguidade contém, em si mesma, um eficaz efeito de surpresa e de comicidade, tanto mais que o narrador a cultiva, exprimindo-se sempre como se acreditasse na ingenuidade e na bravura de Chveik, e como se a possibilidade de este estar simplesmente a troçar de todos os outros nunca sequer lhe ocorresse.

Não que Chveik seja um filósofo. Não tira lições da vida, nunca se examina a si próprio, nem reflecte acerca do mundo. Também não é um político, embora a sua atitude remeta para uma certa forma de resistência, um pouco à maneira de Bartleby. «I would prefer not to.» Ele não participa propriamente do movimento do mundo. Deixa-se arrastar. A sua astúcia permite-lhe quando muito tirar partido das situações, não provocá-las. Muitas vezes, ou sempre, o que lhe suceda de melhor não tinha sido premeditado.
Chveik não combate, limita-se a abrir os braços e a apreciar tudo quanto ganha. A sua heroicidade não foi desejada, nem construída, nem verdadeiramente corresponde a um desígnio. A imagem de bravura que irradia não é mais do que a boa sorte dos boémios e das crianças, a mão que deus põe por baixo dos que não querem saber senão de estar de bem com uma vida que quer estar de mal.

Mas capítulos como o de Chveik sendo escoltado por dois soldados, um «trinca-espinhas» e um «pote», ou o da missa campal, em que ele próprio assiste o oficiante, um extraordinário capelão bêbedo e sem fé, de quem entretanto se tornara impedido, são impagáveis e imperdíveis.

Escrever um texto humorístico é muito difícil. A situação cómica carece de todos os sentidos; um comediante faz rir não apenas pelo conteúdo do seu discurso, mas graças à voz, à expressão, ao gesto, à oportunidade e a um certo modo de o dizer. Ora há, na leitura, um distanciamento que abstrai de tudo o que pudéssemos testemunhar com os nossos sentidos. Naturalmente, existem técnicas de escrita de humor - o inesperado necessariamente, o contraste, a inversão. Ainda assim, as técnicas não produzem de imediato o cómico. Por isso mesmo, porque me parece tão difícil, dou particular importância aos textos que me fazem rir. Deste ponto de vista, O Valente Soldado Chveik é um romance de um humor corrosivo e certeiro, absolutamente extraordinário.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

in O VALENTE SOLDADO CHVEIK [ de JAROSLAV HASEK ]

«De verdade, nunca compreenderei a razão por que os doidos se zangam de estar tão bem instalados. É uma casa onde se pode passear todo nu, uivar como um chacal, ser furioso à vontade e morder até fartar e em tudo o que se quiser. [...] Há lá dentro uma tal liberdade que os socialistas nunca ousariam sonhar nada de mais belo. [...] Toda a gente tinha a liberdade de dizer aquilo que muito bem queria, tudo o que lhe passasse pela cabeça. Parecia que se estava no Parlamento.»

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

TIAGO PATRÍCIO: TRÁS-OS-MONTES [QUESTÕES DE ESTILO]



Vou principiar este post por uma confissão; a seguir, abandono a sobredita, para me referir a Trás-os-Montes, Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, 2011; por fim, retomarei a confissão, de modo a extrair dela algumas dúvidas que gostaria de aplicar ao caso de Trás-os-Montes.

Vamos, pois, realizar o plano.

1. Um dia, aí pela minha juventude, pensei escrever um romance que reuniria todos os clichés que particularmente me enervavam. Fá-lo-ia, bem entendido, com uma intenção crítica e irónica. Desisti da ideia, quando me dirigi esta pergunta muito simples: E como se distinguiria um romance ironicamente carregado de lugares-comuns, de um romance ingenuamente feito de lugares-comuns? Que outros indícios, que outros instrumentos teria de acrescentar, para que se entendesse: Isto é deliberado, tem uma intenção subterrânea, autodestrói-se de propósito e com um propósito?

2. Um leitor deste blogue, leitor meu cujas opiniões acerca de livros vou pesquisando com interesse e consideração, mencionou Trás-os-Montes como, na sua perspectiva, um dos melhores livros publicados em 2012.
     Passara-me despercebido. Comprei-o.
     Na badana, Eduardo Pitta, desconcertado, adverte-nos para que a «narrativa abre de forma desconcertante», acrescentando: «A economia narrativa não prejudica (antes pelo contrário) a idealização do mundo rural.»
     Muito bem. Sinto-me já electrizado. Concentro-me nas primeiras linhas, preparado para me desconcertar, e leio: «Teodoro vivia numa casa cansada.»

3. A metáfora da casa cansada nada tem de desconcertante. É, ao invés, uma metáfora gasta e morna - embora, verdade seja dita, na enumeração das características desse cansaço, a metáfora pareça acordar, ganhar luz e tornar-se interessante: «uma casa com dores de costas que reagia mal aos dias húmidos e tinha dificuldade em dormir à noite.»

4. Mas, num certo sentido, é como se essa «abertura desconcertante» [que principia por não sê-lo, mas ao longo do período desata a sê-lo] esgotasse o fôlego estilístico do autor, que, daí em diante, se limita a contar os seus episódios num registo seco, sem nenhum risco e sem nenhuma surpresa.
Os episódios, que têm por objecto o crescimento de quatro crianças transmontanas, não se desenvolvem segundo qualquer fio condutor que os una na promessa de algo, mas, pelo contrário, como uma série dispersa de minúsculas estórias; deste carácter fragmentário resulta, aliás, que as personagens não consigam profundidade: como pode ser, o mesmo Teodoro cujas primeiras descrições nos conduzam a imaginar um garoto sempre um pouco deslocado, tímido, inibido, obcecado com a sua procura de padrões e de simetrias, o mesmo que se aventura, mata desapiedadamente pássaros, perseguidor e brigão?

5. Fixemo-nos, por um momento, no despojamento estilístico que, notoriamente, tanto impressionou os críticos e o júri. Deve ser a isso que Pitta se refere como «economia narrativa»; ou que leva o presidente do júri, Vasco Graça Moura, a afirmar: «as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes e à maneira como o estilo narrativo encontra uma sugestiva economia na expressão e comportamentos das personagens.»

6. Regressemos à minha confissão inicial: perante um texto que não se aventura nem corre riscos estilísticos de monta, como posso perceber se se trata mesmo de uma «economia narrativa» [e expressiva] deliberada, «uma sugestiva economia na expressão e comportamento das personagens», ou do sinal de uma incipiência, sintoma de pouco talento e nula inventividade?

7. A minha descoberta de "Trás-os-Montes", o livro, porém, não acaba aqui. Porque numa noite de insónia em que uma passagem do romance me não saía do espírito [não por eu saber de cor as palavras, mas por me soar continuamente na memória uma certa melodia desse trecho], desci à procura do livro, abri-o e, num ponto marcado, li:

     «A missa em latim, a que Teodoro não chegou a assistir, como um discurso codificado como um todo, era uma decantação da linguagem de Deus, com marcações que as pessoas decoravam para dar as respostas certas naquela homilia fechada. Era o prazer da repetição infinita.»

     Percebo então, num fiat lux, que esta simplicidade é a de uma economia muito bela e, evidentemente, procurada, eu diria: sábia e pacientemente procurada; percebo sem mais sombras que um período, como o que venho de citar, deve ter sido relido pelo seu autor, evitando a tentação da exuberância, excluindo outras possibilidades, até lhe restar um parágrafo muito próximo da perfeição na sua clareza e na sua simplicidade. Confiro: vou descobrindo outros parágrafos, outras passagens, páginas inteiras. A mesma simplicidade que é, para usar a palavra do autor, «uma decantação», em busca de evidências essenciais, de uma pureza clara.

8. Para já, é simplesmente um livro a que deverei tornar, na convicção de que os preconceitos que fui cultivando não mo deixaram descobrir na sua límpida pureza. Se o premiaria? Não. Se está na minha lista dos melhores que li? Não. Se merece a descoberta, o regresso, o reatar...? Tratemos disso...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

GÉRARD DE NERVAL: SYLVIE



Trata-se de um livro a que, por variadas razões, o acesso está longe de ser simples.
Não se encontra traduzido para português, nem à venda propriamente «numa livraria perto de si».
Poderia, pois, não gastar espaço-tempo com um "post" sobre um romance que a maioria dos leitores não irá ler.

Não me é possível.
"Sylvie", de Gérad de Nerval, era já para mim um livro de culto antes de o haver lido.
A primeira menção que me eriçou foi a de Umberto Eco. Eco, nessa conferência em que se expunha como um apaixonado pela novela em causa [a que dedicou muitos anos de estudo e uma tese essencial no seu percurso académico] refere-se por sua vez à impressão que "Sylvie" já tinha causado em Proust. Cita-lhe artigos e cartas.

Proust descreve "Sylvie" como uma narrativa cujo conteúdo parece encantadoramente difuso, como se envolto em neblina: como se assistíssemos a algo através de olhos semicerrados. Regressando à sua própria leitura, Eco disseca depois minuciosamente os movimentos de regressão e de antecipação de que "Sylvie" é composto, essa complexidade temporal genialmente tecida pela memória. 

Meu primo, a quem ofereci um exemplar, considerou-o um texto revolucionário. E acrescentou: «Sobretudo, se pensarmos na época em que foi escrito.»

Eu próprio ainda o não tinha lido nessa altura, de forma que a minha curiosidade e o meu interesse estavam sob uma pressão incomportável e já insuportável. Quando recebi e pude por fim abrir o sobrescrito com o meu "Sylvie", e começar a lê-lo, no vagar a que me obrigava uma língua não materna, fui percebendo, em primeiro lugar a influência exercida sobre Proust [a digressão da memória, ou o tom onírico de um narrador que nunca parece inteiramente desperto, continuamente mergulhado na substância da sua memória, de modo que tudo quanto evoca surge, realmente, imerso numa neblina]; tudo está ao pé de nós, mas tocado de um halo de lonjura. É uma técnica, bem entendido: este efeito de lonjura e de irrealidade deve-se ao domínio do tempo por um narrador que nunca se fixa no presente, e nunca nos deixa entender inteiramente se se recuou para um primeiro momento anterior, ou para um segundo momento, ou para um terceiro. Eco mostra que os recuos não nos reenviam para um único tempo pretérito, mas para diferentes tempos, para diferentes momentos da história do narrador. E, por estranho que seja, esse facto não torna confusa a narrativa. Não nos perdemos - aliás, talvez nem percebamos que estamos a regressar a diferentes estações do passado [seria preciso a leitura conscienciosa e advertidíssima de Eco], nem isso faz a menor diferença, do ponto de vista da compreensão. Mas provoca o efeito referido, a leveza onírica, a irrealidade subtil, a percepção diáfana.

Em todo o caso, o carácter «revolucionário» que o meu primo atribuía ao conto/novela/romance não se deveria tanto à técnica, à forma brilhante de narrar, e aos seus efeitos, mas ao conteúdo. E no tema reencontro algo que certamente inspirou Freud e que certamente inspirou Nabokov. É absolutamente notável, de facto, esta ideia de um sentimento amoroso em relação a uma mulher, cuja arqueologia revela o amor por uma outra jovem no passado do narrador, experimentada ainda por cima na indecisão do amor por uma terceira jovem, na mesma época.

A actriz de teatro que hoje (no presente da narração) fascina o narrador é, pois, simultaneamente símbolo e nostalgia do amor inconsumado por uma personagem que a sua memória guardou da infância, a qual, por sua vez, foi amada em antítese com Sylvie, em tudo oposta, e em tudo "inferior", até ao reencontro, muitos anos mais tarde, que lhe revela uma outra Sylvie, amadurecida, desejável, fascinante.

Nerval escreveu, portanto, a história de um amor complexo que, sem que disso nos demos conta, é talvez a história de cada um dos nossos amores: se é verdade que em cada pessoa a que nos devotamos residem reflexos, nunca analisados, porventura incompreendidos, do que amámos em outras pessoas, ao longo da nossa vida; se é, então, verdade que, no amor por cada um, amamos uma pluralidade.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

JOSÉ LUÍS PEIXOTO: DENTRO DO SEGREDO


Uma confissão: não sou, nunca fui um devorador de livros de viagens. Lembro-me de me ter sentido particularmente curioso a propósito de um, sobre Veneza, cujo autor é um homem que, entretanto, se transformara em mulher: ou seria o inverso? E há Jack Kerouac. Continuo a confissão, correndo o risco de perder mais três leitores cultos a cada nova linha? Não li Kerouac. Ah, pior: a única razão por que, em dado momento, andei à procura da sua obra, deveu-se à descrição, impagável, feita pelo meu primo, de uma passagem de Kerouac acerca de uma família, que lhe dera abrigo por algum tempo, e cujo homem (marido, pai...), muito predisposto para o riso, gargalhava, incontivelmente, de cada vez que Kerouac abria a boca, mesmo para dizer a menor das banalidades. «Já ouviram isto? Este tipo é de mais! Ah ah ah! Pare, que não aguento rir-me assim, ah Meu Deus...» Quando souber precisamente em que livro reside essa passagem, essa família, esse homem, essas gargalhadas, tornarei à busca de Kerouac.

Entretanto, Dentro do Segredo foi-me emprestado por uma amiga adorável. José Luís Peixoto partira, num fascínio compreensível, para uma viagem à Coreia do Norte, enclausurada, secreta, mítica, odiada, e igualmente odiadora, e da sua experiência coreana resultou este livro que me não deixa fugir, como um romance.

     A primeira coisa a dizer é que, segundo julgo, Peixoto segue, nesta obra, o método mais eficaz, mais interessante e, porventura, também o mais belo, para se aproximar de uma realidade "estrangeira" [em todas as acepções do termo], conhecendo-a [na medida das possibilidades, sendo que todo o conhecer consiste numa interpretação] e dando-a a conhecer [na medida das possibilidades, sendo que "dar a conhecer" significa expor uma interpretação a leitores que a interpretarão por sua vez]. E que método é esse? Chamemos-lhe impressionismo. Nada de chavões, de estudos, ou gráficos. Não há uma sistematização, apenas fulgurações, cintilações. Apenas um recolher de sinais, minúsculas impressões, situações, momentos. Lugares e pessoas, ou melhor, ângulos e instantes de lugares e de pessoas. Instantes, porque o tempo é sempre o rio que traz, no seu leito, os múltiplos, ínfimos aspectos, e imediatamente os leva consigo, antes que os tenha chegado a guardar.

A descoberta do afecto dos adultos pelas crianças, expresso em afagos, abraços, atenção, cuidado, quando se esperava a indiferença da massificação, ou um inesperado bailado de que todos participam, independentemente do género ou da idade, e em que se aproximam e olham, quando se pensava que qualquer contacto físico, sequer de olhar no olhar, seria evitado [sobretudo em relação aos estrangeiros], ou o pormenor horrendo do uso culinário da carne de cão, e a omnipresença das imagens dos líderes, ou a exaltação com que o discurso dos guias os ilumina, em sucessivas narrativas mitológicas, a imponência sempre paredes meias com a degradação [o restaurante rotativo que não roda, no alto de um hotel: e porquê?, pergunta-se Peixoto: uma avaria? economia...] são exemplos de diversas entradas para uma realidade que visitamos pelo olhar do autor.

É uma realidade de que não nos apropriamos absolutamente. Nem pensar. Nunca. Mas até as contradições são relevante - e neste caso, as contradições entre o que sabíamos ou, claro, julgávamos saber, e as percepções que disparam contínuas e ousadas linhas de fuga à carga ideológica com que nos preparávamos para enquadrar e reconhecer o que fossemos vendo.

Saímos porventura confusos, mas não decepcionados. Fechamos o livro com a sensação de que não sabemos o que são os norte-coreanos, porque não são realmente o que eram de antemão no nosso espírito; mas, como dizia a minha adorável amiga, redime-nos uma inesperada ternura por esta gente pequena, tímida, frequentemente seca, culturalmente incompreensível; uma ternura difícil, tingida de certa desconfiança e algum cepticismo, reconheçamos. São um povo que ama as suas crianças: meninos alegres, confiantes, bem tratados. Mas que, civilizacionalmente, revela dois aspectos que me fazem pensar: um colectivo delírio ideológico e o desrespeito pelos animais.