Mostrar mensagens com a etiqueta que andei eu a fazer antes de ler este livro?. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta que andei eu a fazer antes de ler este livro?. Mostrar todas as mensagens

sábado, 21 de setembro de 2013

JEAN d'ORMESSON: AU PLAISIR DE DIEU



«É, POR VEZES, PELOS PROGRESSOS, QUE SE MEDE 
UMA DECADÊNCIA»


Há uma originalidade "experimentalista", que se alcança com certo esforço, através de um trabalho quasi-laboratorial alimentando-se de si próprio, sob o desejo único de fazer diferentemente; e uma outra, que provém tão-só da força da personalidade: esta é a dos autores cujo pensar nos soa sempre fulgurante e inabitual, porque eles pensam com uma profundidade rara, e penetram, dir-se-ia até que sem esforço algum, num círculo que não é aquele onde se movem a massa, o comum (o lugar comum e o senso comum), o já adquirido.

Jean d'Ormesson é um escritor que, em cada frase, nos espanta e desequilibra, por causa de uma originalidade deste último tipo. A filosofia e a literatura francesas, se pensarmos bem, foram sempre um terreno propício ao surgimento de olhares assim, cuja singularidade, a não ser que se remetesse para um silêncio místico, teve de forjar uma linguagem própria, inconfundível, uma expressão superior, ao mesmo tempo de uma grande simplicidade e delicadeza [quase frágil, diria] indispensáveis para o apreender das ideias mais subtis. Recordemos Montaigne. Pascal. Proust. Ou d'Ormesson.

Os adjectivos com que o narrador capta a imagem da vida da sua família, a antiguidade de que se orgulha, a unidade em que julgava poder preservar-se, à margem do tempo, são, mutatis mutandis, os que se aplicariam à sua própria escrita: «sólida e leve».

Lê-se este romance com a perplexidade de um estrangeiro absoluto: o que nele se reconstitui é, primeiramente, um mundo com o qual todas as pontes foram quebradas, e já não temos instrumentos para compreender: não só porque está temporalmente distante, e nem está muito! mas porque nos parece eticamente inacessível. O espírito cultivado pela aristocracia francesa, na transição do século XIX para o XX, assumia ainda, como marca do seu refinamento e da sua superioridade, o desprezo pelo indivíduo [só Deus, a família e o rei "legítimo" importam], pelo trabalho [uma ocupação necessariamente servil], pelo dinheiro [que nunca falta, obviamente, mas de que seria uma grosseria falar], pelas viagens ou pelo conhecimento. É, a título de exemplo, um mundo onde Dreyfus nunca perderá o carácter de traidor: até porque a traição estaria, paradoxalmente, na sua inocência, ou em querer apregoá-la, minando o espírito do exército.

Nós somos, em contrapartida, os filhos de um outro mundo; a realidade que nos forma, nos envolve e respiramos, inconscientemente, desde o nascimento, é a de uma cultura republicana e materialista, laica, mesmo se não ateia, e sobretudo igualitária. A escola pública, buscando, pelo menos em tese, um conhecimento democrático, para todos, seria a expressão máxima e mágica dos valores que respeitamos. Como poderíamos entender esta inocência da elite que se entrega ao serviço de Deus porque, no fundo, crê em um Deus que está ao seu serviço e ao serviço da sua grandeza?

A posição do narrador é de uma ambiguidade comovente. Na sua voz ressoam ainda os ecos da admiração pelo esplendor essencial de antanho. Mas não é a voz do passado, não é já a voz do avô. Não coincide inteiramente. Não que ele a ridicularize. «Sentiria horror por dar a impressão de troçar da família.» Não se trata portanto de troça, mas da perda da inocência. Não há qualquer ironia, mas uma consciência a que se não escapará, agora, jamais: a de que a história o expulsou definitivamente do paraíso; porque estavam, então, «colados a si próprios. A dúvida, as perturbações do pensamento, a má consciência, não sabíamos o que eram.». O que se introduziu foi, subterraneamente, a noção do porvir e da mudança: o mundo de que nos fala tornou-se, em certa medida, longínquo - não estranho, mas longínquo - também para ele.    

O narrador mantém-se, pela memória, por um lado, pelo movimento do mundo, por outro, um ser anfíbio: participa simultaneamente das duas realidades. Eis as palavras com que a obra inicia: «Nasci num mundo que olhava para trás. O passado contava, aí, mais do que o porvir.» O passado do avô, que vivia enclausurado na recordação, insensível ao futuro ou ao progresso, como numa reprodução da ideia de eternidade. E portanto, a conversão ao porvir, o deslocar dos olhos para se olhar, pela primeira vez, para diante, há-de ser uma revolução composta de bruscas rupturas, fascinantes e destrutivas, irresistíveis e corruptoras. Oferece algo, mas tem um preço.

Os elementos fracturantes, como hoje se diz, exercem a sua sedução. Vêm do exterior, como gérmenes contaminando a família. O casamento, de um irmão do avô, com uma judia, ainda no século XIX; mas sobretudo, na geração seguinte, a união de um dos filhos do avô, o tio Paul, com Gabrielle, uma jovem muito bela, e aliás muito rica, mas, precisamente, de uma fortuna «impura», fruto do trabalho da sua família (Grande Burguesia ligada à Indústria), ostentada sem o bom gosto que só a antiguidade do sangue teria refinado; por fim, Jean-Christophe Comte, o preceptor, que arrastará os jovens para o maior dos perigos, o mal tremendo a que nunca mais se escapulirá, a derradeira perversão: o amor aos livros.

É um quadro admirável e complexo, de um tempo de transição, ferido por guerras, espartilhado entre dois universos paralelos: o «berço da tribo» [o castelo de Plessis-lez-Vaudreuil], e a casa mantida pela tia Gabrielle [rue de Varenne], brecha na tradição, albergue de movimentos, ideias, mudanças, talentos, criações, frequentado por poetas, compositores, bailarinos, homossexuais, «Salvador Dali e Maurice Sachs, Aragon e Claudel, Georges Auric e Diaghilev, cinco ou seis condes d'Orgel e todos os Swann e todos os Charlus que pudéssemos descobrir em Paris.» Aí se situa, ou simboliza, o advento vertiginoso das explorações e descobertas da geração do narrador: o prazer das viagens, e até do sol, de que a aristocracia se resguardava em chapéus, sombrinhas, ou na frescura sombria e deliciosa de jardins; da ciência, das máquinas; do amor e da felicidade.

A presença de Proust assombra perturbadoramente esta ficção, como uma grata homenagem: tanto na elevação da memória a instrumento privilegiado de revisitação e sentido, como tornando-o, a ele próprio, uma personagem, que imaginamos recebida no salão da tia Gabrielle, com as suas manias, a sua fragilidade doentia, longe ainda de haver completado a Recherche, portanto um jovem judeu desconhecido, aliás também inquilino de um apartamento desta família.

Folheio uma última vez Au Plaisir de Dieu, antes de o pousar sobre a mesa de cabeceira e de me deitar. Reencontro o cheiro bom, a papel, de um livro trespassado por folhinhas, bilhetes, marcadores, que indicam as páginas a que regressarei, sublinhadas, e com anotações a lápis. Assim trato [ou destrato] algumas obras - só mesmo algumas.

Suspiro de prazer.

Boa noite. [E muito obrigado a quem mo deu a descobrir.]

terça-feira, 23 de julho de 2013

ROMAIN GARY: A PROMESSA




«Acabou-se. A praia de Big Sur está deserta e deixo-me ficar deitado na areia, no mesmo sítio onde caí. A bruma esbate as coisas; nem um mastro no horizonte; num rochedo em frente de mim, milhares de aves; noutro uma família de focas: luzidio e devotado, o pai emerge incansavelmente das vagas com um peixe na boca. As andorinhas-do-mar aterram às vezes tão próximo que contenho a respiração e os meus velhos gostos despertam: pouco falta para que elas venham poisar na minha face, aninhar-se-me no pescoço, nos braços, e recobrir-me completamente... Aos quarenta e quatro anos continuo a sonhar com uma espécie de ternura essencial

Sei que este início sobreviverá, como um pai-foca, incansável e devotado, a milhares de páginas dos romances que desejo poder vir ainda a ler. Cria um espaço próprio em nós, não é verdade? Torna insípido quase tudo o que lemos antes, e, posso adivinhar, muito do que esteja para vir. Por que interrompo a citação? Por que não continuo simplesmente citando esta reunião sagrada entre as visões do seu passado, e as frases, de uma beleza dolorosa, com que Romain Gary no-lo oferece nesta obra?

[Uso uma tradução, já com alguns anos, de Augusto Abelaira, que se chama "A Promessa", e não "Promessa ao Amanhecer"; o título original é "La Promesse de l'Aube": promessa "do" amanhecer...].

Existe uma injustiça no cerne da relação entre a mãe e seu filho; não sei se lhe chame injustiça, mas como designá-la então? De um lado, porque uma mãe, criando vida a partir do seu próprio corpo, abdica sempre de si mesma, e será capaz dos mais drásticos sacrifícios para que o filho se realize; do outro lado, porque um filho é necessariamente, e antes de mais, um projecto da mãe por interposta pessoa. Uma promessa: um filho deverá encarnar, como escreve Gary, o «happy end» da mãe.

Lendo este livro, apercebemo-nos a cada passo desta injustiça. Mas também de como ela é inseparável de uma espécie de essencial vulnerabilidade humana. Desse reconhecimento, aliás [que nunca se confunde com a aceitação da estupidez ou da indignidade, com os seus próprios e bem diferentes deuses, inscritos na mitologia infantil que Gary reconstitui], desse reconhecimento de uma fragilidade inerente à condição humana, nasce o génio para a escutar, compreender e amar; amá-la como, talvez, ao que há de mais autêntico. «Tive sempre uma grande tendência para procurar, por trás das grandes razões, um impulso íntimo e procurar no coração das imponentes sinfonias o débil e terno som de uma flauta que subitamente afaga os ouvidos


Não há, na vida de Gary, senão a mãe que se lhe devotou e a que se dedica inteiro, entre improváveis insuficiências e certezas absurdas. Falar tão-só (e repetidamente, como o faço) de "injustiça" a propósito deste laço seria, isso sim, uma injustiça extrema e uma burrice de leitura; nenhum dos dois tem contas a pedir: sabem ambos que a essência da sua relação é um amor infinito, uma fusão inquebrável. A fragilidade como um dos paradoxais modos de uma força sobre-humana. Ou o inverso.

Um exemplo deste sentido da debilidade, o terno e sofrido som da flauta, encontra-se, aqui, não tanto na ausência de um pai, mas na descoberta tardia do destino deste. [O pai, com a sua expressão melancólica, tê-lo-á visto uma ou duas vezes na vida, porque era casado com outra mulher de quem tinha outros filhos.] Saber-se-á que ele fora liquidado num campo de concentração; mas só mais tarde Gary descobre que não terá entrado sequer no local onde o gazeariam. Sucumbiu, de pavor, na fila que era dirigida para a câmara de gaz. Porém, essa fraqueza - não ousaria chamar-lhe cobardia -, essa falta de heroicidade, é o que reconcilia Gary com a ideia de haver sido seu filho. O que o faz aceitar aquele desconhecido como sendo, por direito, um pai humano, que o mereça.

É difícil resistir à tentação de ler este texto profundo sem, precisamente, o encerrar numa «imponente sinfonia», deixando escapar a autenticidade que o constitui. É com um sentido de humor subtilíssimo que Romain Gary desafia os leitores que lhe abordam a memória munidos de um discurso correcto, seja o da psicanálise, ou outra tábua de ideias feitas. Arriscamo-nos a não escutar o débil, o frágil, o belo, o comovente amor, a total entrega de um filho a essa mãe «desmedida», excessiva, ressentida, escandalosa, uma figura inesquecível de russa, fumadora inveterada, negociante atrevida e talentosa, que não admite que o menino venha a ser menos do que «um grande homem», um génio, um ser de eleição; o quê, tornou-se indiferente: um violinista, um tenista, um escritor, um diplomata. Um destino que se cumprisse, desforrando-a das perseguições dos deuses da idiotice, da maldade, da infâmia e da vileza; de todos os que troçaram e a ridicularizaram, e os amesquinharam e incompreenderam.

É uma obra imensa sobre o sentido da imperfeição e do perdão. Sobre a fé numa França que a mãe idealizara, e os acolherá, nem sempre com justiça ou isenta de estupidez e preconceito. Sobre o cepticismo, que é uma inevitável dimensão de qualquer fé: ou seja, a descoberta, pelo malabarista, de que nunca há-de conseguir jogar com sete bolas. Faltará sempre a realização do espectáculo com essa sétima bola, posto que, se fosse capaz, passaria imediatamente a desejar incluir uma oitava - a qual seria, nesse outro nível, a sempre ambicionada e impossível sétima bola.