domingo, 28 de fevereiro de 2010

FREUD: PSICOPATOLOGIA DA VIDA QUOTIDIANA



Florinha Afável, no seu blogue, Literatura e Confissões, que venho lendo com grande prazer, postou recentemente um texto sobre Freud, a transferência e a contra-transferência. Florinha reflecte, interroga-se, entre o registo teórico, o registo da sua própria experiência (por exemplo, a propósito da relação professor-aluno) e o do sonho. Seguimo-la nessa reflexão e nessa descrição, deliciados.

O post de Florinha leva-me de volta a Freud, que, em determinado período da minha vida, li obcecadamente. Li tanto, que me cansei. Já na ressaca, como é natural, comecei a pôr todo o seu edifício em causa. Não teria ele uma concepção demasiado saturada de sexo? (Jung acusava-o disso). Não seria o complexo de Édipo uma ficção? (Deleuze e Guatarri nunca o levaram a sério). E a relação entre o ego e o id, sob a fronteira do superego, não poderia ser vista como um drama entre personagens conflituosas, mais do que um processo psicossomático? (A Dona Glória sempre teve tal desconfiança...).

Volvidos muitos anos, e neste momento, em que o Zeitgeist tão céptico se tem mostrado em relação ao pensamento de Sigmund Freud, atacando-o por todos os lados simultaneamente, redescubro-o, confesso, com um novo gosto: é um dos romancistas mais aliciantes que já li.

Repare-se, por exemplo, em Gradiva, magnífico ensaio onde, a propósito de um romance de Jensen, faz uma análise penetrante do
sentido oculto de uma figura feminina, num baixo-relevo romano; ou, então, leia-se Uma Memória de Infância de Leonardo da Vinci, esse outro texto em que, sobre uma base de sustentação tão frágil, Freud compõe uma explicação incrível, porventura incredível, mas, ainda assim, fascinante, a partir da qual todos os meandros da personalidade de Leonardo da Vinci parecem revelar-se.

É nesses livros, tidos por menores, em que trabalha "no concreto", escavando metódica e pacientemente episódios, recordações, fantasias, como, insisto, se tratasse de escrever contos, ou novelas, ou romances, que considero Freud de uma agilidade e de uma agudeza incomparáveis. Mais, certamente, do que nas obras puramente teóricas, onde organiza um sistema que, em inúmeros aspectos, me parece - não improvável, mas insuficientemente provado.

Deste ponto de vista do que mais me interessa em Freud, há, precisamente, um livro imperdível. Refiro-me a Psicopatologia da Vida Quotidiana. Porque, aí, tudo se torna relevante: os detalhes, as descrições, as palavras, a atenção aos erros, aos deslizes, aos menores enganos. E a nossa inocência sofre um abalo quando pela primeira vez nos é mostrado que nenhum engano é simplesmente um engano, mas uma mensagem, uma advertência, um sentido secreto, um sintoma pronto a ser descodificado. Nenhuma compulsão, ou mania, ou desajustamento, são simples erros de funcionamento, mas formas de comunicação, incompreendidas, desrespeitadas e temidas.

Os «actos falhados», os desvios à norma, os comportamentos ridículos e obsessivos perseguem-nos, ilustram-nos, explicam-nos. Nesse livro, os exemplos abundam, e são narrados numa escrita clara, riquíssima, plena de humor e de sentido da eficácia narrativa.

Não é no todo que Freud funciona. Porém, na inteligência dos pormenores, continuará insuperável.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

LARKIN: OS VELHOS IDIOTAS

Penosa e deficiente tradução minha de um poema terrível:

Que pensam eles que aconteceu, os velhos idiotas,
Para os tornar nisto? Será que de algum modo supõem
Que se é mais crescido quando a boca se abre e se baba
E se mijam todos insistentemente, e não se lembram
Quem telefonou esta manhã? Ou então, que, se lhes apetecesse,
Podiam trazer as coisas de volta ao quando dançaram toda a noite,
Ou foram ao próprio casamento, ou marcharam, armados, num certo Setembro?
Ou imaginam que nenhuma mudança houve,
E que sempre se comportaram como aleijados ou bêbedos,
Ou se sentaram dias num leve contínuo sonho
Vendo a luz mover-se? Se não o supõem (e não podem), é estranho:
Por que não estão a gritar?

À morte, quebramo-nos: os pedaços que éramos
começam a fugir uns dos outros para sempre
Com ninguém para ver. É só um olvido, é certo:
Já o tivémos antes, mas então ia acabar tudo,
E estava sempre a combinar-se com um esforço extremo
Para fazer desabrochar a flor de um milhão de pétalas
Que é estar aqui. Da próxima não se poderá fingir
Que haverá algo mais. E são estes os primeiros sinais:
Não saber como, não ouvir quem, o poder
Da escolha desaparecido. O seu olhar revela que estão prontos:
Cabelo de palha, mãos de sapo, rosto de passa em rugas -
Como podem ignorá-lo?

Talvez ser velho seja ter quartos iluminados
Dentro da sua cabeça, e gente dentro, representando.
Gente que se conhece, mas que não se consegue nomear; cada vulto
Como uma perda profunda, assomando a portas conhecidas,
Pousando uma vela, sorrindo das escadas, tirando
Um livro conhecido das estantes; ou às vezes simplesmente
As salas em si mesmas, cadeiras e uma lareira crepitando,
O vento no arbusto, à janela, ou a débil
Amizade do sol na parede, num solitário
Fim de tarde de Verão, depois da chuva. Isso é onde eles vivem:
Não aqui e agora, mas onde uma vez tudo aconteceu.
Por isso é que dão

A impressão de uma ausência surpreendida, tentando estar lá
Mas estando aqui. Porque os quartos se vão afastando, abandonando
O frio incompetente, o constante usa-e-estraga
Do ar respirado, e eles acocorando-se diante
Do morro da Extinção, os velhos idiotas, não se apercebendo
Quão perto está. Deve ser isto que os mantém sossegados:
O pico que se mantém sob visão de onde quer que se vá
Para eles é um campo que se eleva. Será que nunca adivinham
O que os puxa para trás, e como tudo acabará? Nem à noite?
Nem quando os desconhecidos chegam? Nunca, ao longo
Desta horrorosa infância invertida? Bem,
Havemos de o descobrir.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

PHILIP LARKIN: JANELAS ALTAS

Não se trata de uma redução. Mas, para se compreender melhor, em português, qual a atmosfera que impregna a sua obra, poderíamos pensar numa síntese de Bocage e de Fernando Pessoa.

De Bocage, temos a linguagem grosseira e popular, que não recua diante dos termos obscenos, sobretudo quando se trata de escrever sobre os órgãos ou o acto sexuais.
De Pessoa, temos, antes de mais, a vida do próprio: um burocrata com emprego fixo e horários estritos; um manga-de-alpaca que esgota a sua vida no escritório de uma dessas ruas típicas da cidade em que vive, mas que, na poesia, secreta, inspirada e inesperadamente, adquire toda a sua força e sentido. De Pessoa temos, pois, essa semelhança biográfica, mas não só: uma contenção avessa a delírios românticos, a arroubos líricos, que achou a forma mais apurada num dos heterónimos pessoanos, Alberto Caeiro.

E que obtemos? Philip Larkin.

Vou folheando os poemas de High Windows, e onde outros leram a pose reaccionária e uma espécie de desprezo pelo feminino, eu leio uma candura de adolescente para quem tudo é perigoso e, ao mesmo tempo, invejável. Vejo Holden Caulfield, a personagem (e narrador) de The Catcher in the Rye, com o seu azedume e a sua brutalidade, sob os quais tange uma sensibilidade em ferida e uma intensa carência.

É uma poesia completamente diferente da que conhecemos. (Mau grado tantos imitadores). Mostra-nos o absurdo do quotidiano sob o modo de uma lista de pequenos nadas monótonos e sem brilho. Os gestos mais simples tornam-se objecto de enunciação: espreito namorados, ou olho para uma janela, ou ponho pedras de gelo num copo com "três doses de gin, limão em rodela,/Mais um quarto de tónica [...]".

Mas se, de facto, esta poesia se debruça sobre o dia-a-dia, denunciando-o na sua dimensão mais superficial e vazia, reconstituindo, em exaustivas descrições, o tom de rotinas ou de rituais - como em "Livings", que principia assim: «Lido com lavradores, coisas como desinfectantes e rações» -, a verdade é que a sua linguagem, aparentemente coloquial, procura e encontra algumas das formas mais límpidas e correctas da perfeição.
Por exemplo, em "Friday Night in the Royal Station Hotel":

«Pelas portas abertas, a sala de jantar afirma/Uma solidão mais vasta, de facas e copos/ E silêncio assente como uma alcatifa.»

Ou este conjunto, ao qual nada se acrescentaria ou retiraria, de tal modo nos parece estarmos diante de uma formulação que suspende, durante o tempo da sua leitura, o movimento do mundo:

«Em vez de palavras, vêem-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo,
Que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.»

A poesia de Larkin tem sido vista como uma reacção ao lirismo exacerbado do neo-romantismo, por um lado (de Dylan Thomas) e, por outro lado, contra o modernismo (de T. S. Eliot e Ezra Pound): há, nela, uma espécie de revolta contra tudo quanto seja excesso, exuberância, revolução; ora penso que a escolha de uma forma «clássica», para a qual métrica e rima são essenciais, constrói, muito mais do que a expressão mais justa dessa revolta, uma expressão de uma musicalidade irresistível. Mais do que no programa, portanto, na sonoridade...

O que descubro em Philip Larkin?

Um cinismo desesperado, sob a vulgaridade do quotidiano trivial, uma sensibilidade fina que, ao invés de se assumir nas lágrimas, prefere a ironia ou o sarcasmo doridos e dolorosos (veja-se o pungente "The Old Fools"), um desequilíbrio emocional triste e neurótico, vazado na perfeição de uma linguagem em que as imagens brilham, limpas, nítidas, tão bonitas, e os versos revelam uma invulgar inteligência poética.

É uma poesia dura, como dizia há tão pouco, citando uma ex-aluna, sobre A Metamorfose, de Kafka. E, sim, tal como também dizia ao mesmo propósito: é algo que nunca esqueceremos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

KAFKA: A METAMORFOSE

Não me lembro de quando li Kafka pela primeira vez.
Sei, vagamente, que era um tempo estranho da minha vida. Estava em Portugal, recentemente vindo de Moçambique, de onde o curso dos acontecimentos me expulsara de vez: era um jovem de óculos muito grandes e muito graduados e uma cabeleira comprida e avessa a pentes. Usava camisolas de gola alta. Não tinha amigos - e os colegas que descobria, antes os não descobrisse.

Lia muito, muito, muito. Aproveitava, por exemplo, para me abastecer de livros que, na terra de onde vinha, não eram comuns. Li Sartre. (As Palavras). Li Nietzsche. (Humano, Demasiado Humano). Li Kafka. Não recordo por que ordem, mas devorei
O Processo, O Castelo, América e, obviamente, A Metamorfose.

Pelas leituras que fazia, descobrirão alguma coisa sobre o género de jovem que eu era e o adulto em que me viria a metamorfosear. Depressivo, inquieto e inquietante, ligeiramente perturbado, triste, desenvolvendo um cinismo e uma descrença teimosas relativamente à humanidade.

Alguma coisa boa me veio destas descobertas. Uma, foi ter confirmado a inclinação para a filosofia, que me levou ao curso de que nunca me arrependi.
Outra, foi precisamente essa descrença - e essa atenção à estranheza do mundo dos homens.

Kafka, para me fixar num dos autores referidos, é dolorosamente fabuloso. A Metamorfose, mais do que uma novela de horror, toca-nos como um livro de uma delicadeza surpreendente. O que incomoda é que, por uma vez, o monstro não é o outro, vindo de longe para nos assustar: o monstro é o sujeito mais vulnerável e carente que imaginar se possa. Bem sei: em Frankenstein, por exemplo, é também da vulnerabilidade do monstro que se fala; mas não como em A Metamorfose, em que só nos resta a possibilidade de nos identificarmos com a criatura em que Gregor Samsa se transforma.

O protagonista, que acorda, certa manhã, como um insecto de inúmeras patas, não é senão, no interior da sua carapaça, da sua «insectez», do seu aspecto hediondo e repelente, o mesmo homem de sempre - o caixeiro viajante que se preocupou obsessivamente com a família, sustentou a casa, pagou, dedicada e generosamente, os estudos da irmã.

E, por uma vez, os «normais» - o pai, a mãe, a irmã até certo ponto - deixam que neles se revele a única e inesperada monstruosidade: a que pode ser criada por um misto de medo e preconceito. Chamemos-lhe insensibilidade. Essa sim, a mais tenebrosa de todas as disformidades, a esvaziadora dos afectos e dos sentimentos, a que faz esquecer os laços e as relações, a que nos torna malévolos perante o que nos aparece como diferente.

E lembro-me de que, muito mais tarde - já, então, eu professor de liceu- houve uma aluna que, numa reunião em que falávamos acerca de A Metamorfose, disse tratar-se de um livro duro - e que nunca esqueceríamos. Retomo-a: é um livro duro. Ensina que todas as pessoas boas, que nos habituámos a amar, os próximos, a família, virão, em certas terríveis circunstâncias, a tornar-se inimigos nossos e seres maus. Mas, ao mesmo tempo, delicado: porque há uma delicadeza no modo como Kafka trata o desamparo, a desastrosa quebra da rotina, o temor do mundo, a infelicidade.
E, por tudo isto, é, de facto, um livro que não esqueceremos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

KARL PROTZKA (II): SOB O SIGNO DA INVISIBILIDADE

Protzka viveu, realmente, sob o signo da invisibilidade.
Um pouco mais, e chegaríamos a pensar que nunca existiu!

Sabem por que razão o meu post anterior não tem uma única imagem? Porque não encontrei uma única imagem. Uma internet tão grande, tão tentacular, ligada ao passado, ao presente, ao futuro, e não me foi eficaz para aceder a uma fotografia que me mostrasse se Protzka era alto e magro, como sempre o imaginei, ou gordo e baixo. Ou assim assim.

Por outro lado, a wikipédia não o refere. A mesma wikipédia que sabe tudo sobre José Cid ou Fábio Coentrão ignora um dos mais prodigiosos escritores que não escreveram livro algum.

Falava em invisibilidade? Coincidência: o seu próprio livro se chama - mas penso que o título não foi da sua responsabilidade... - O Órgão Invisível. E esta?!

Bem, como diriam as minhas leitoras brasileiras: bota «invisível» nisso.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

QUEM FOI KARL PROTZKA? (I)



Karl Protzka é, com certeza absoluta, o escritor mais obscuro do mundo inteiro. Cidadão do Império Austro-Húngaro e de Viena, de onde nunca saiu senão por poucos meses, viveu o auge e a decadência imperiais: é aquele mesmo a quem Musil se refere, nos «Diários», como o seu «amigo bizarro».
Eu próprio, que aqui dele falo, conheço-o pelo mero acaso de o meu avô ter sido o tradutor para português, penso que nos anos cinquenta, do único livro a que se resume a sua obra.

Chama-se O Órgão Invisível. Tentei ler várias vezes o exemplar já velho e meio-carcomido que me veio parar às mãos, depois de ter passado orgulhosamente por várias estantes de familiares. Devo ter querido lê-lo com quinze ou dezasseis anos - que loucura! - e desistido ao fim da terceira ou quarta páginas; retomei-o aos vinte, e não avancei muito mais; a seguir talvez aos vinte e tal, por fim aos trinta. Não sei com que idade mergulhei efectivamente naquele estranhíssimo romance que é o contrário de um romance (o meu avô fascinava-me repetindo amiúde estes pormenores, razão principal de todas as minhas tentativas de leitura), ou que é um não-romance, se não um anti-romance: Protzka sonhava escrevê-lo mas, aparentemente, buscava, para o iniciar, uma série de condições ideais, desde a cadeira e a secretária ao papel, passando pela luz, pela caneta ou pelo estado de espírito perfeitos; em vez disso, nunca os reunindo, protelava, protelava sempre, mas ia enchendo caixas com apontamentos acerca do mundo que borbulhava em torno de si e do adiado romance: acerca do que os outros pensavam dele próprio e ele dos outros, acerca do que lhe perguntavam sobre o seu romance e de tudo quanto inventava: que estava a escrevê-lo (o que era falso), que o ia publicar, que concluíra o décimo quarto capítulo...!

Já depois de morto, os seus filhos reuniram esta gigantesca massa de apontamentos, organizando-a numa espécie de pararomance sobre o que seria o seu romance e, sobretudo, sobre a estranheza das relações humanas que se moviam à volta de um romance prometido, desejado, idealizado mas incapaz de vir à tona.

Das duas primeiras páginas, cito estas palavras:

«Uma relação - falo de toda e qualquer relação entre duas pessoas, filial ou fraterna, de amizade ou inimizade, erótica ou irónica - é um corpo que mergulha as suas pernas, por vezes até à cintura, por vezes até ao pescoço, no silêncio e no invisível: pois que o corpo de uma relação entre dois sujeitos é composto não principalmente pelo que os dois dizem um ao outro, e sim pelo que, sobretudo, não dizem um ao outro.[...] desse não-dizer transparecem sempre sintomas: mas transparecem mal, incompreendidos, falseados, deturpados. [...] Como essas indicações, que talvez nem o sejam, nunca se dizem, como nunca se esclarecem por palavras, como, na maioria dos casos, são meras ausências, adensam-se, a pouco e pouco, numa atmosfera de equívocos em que respiram todas as relações. Já imaginaram alguém que compreenda os desejos, ou as intenções de outrem, a partir, quase só, desse espelho invisível e deformante? O ter-lhe certa pessoa falado em último lugar numa reunião de amigos, ou o ter passado na rua como se o não visse, ou, pelo contrário, ter-lhe vindo imediatamente ao encontro, ou, durante a conversa, nunca o ter olhado nos olhos? [...] Ou um certo tom de voz (conhecem algo mais indefinível do que um «tom»?)! [...] O meu romance versará, no fundo (e a expressão «no fundo» é bem escolhida) essa trágica impotência: o paradoxo de um incomunicável resíduo de toda a comunicação ser, talvez, a parte mais importante de toda a comunicação.»

Nunca encontrei qualquer exemplar à venda. Em lado nenhum. Que eu saiba, não voltou a ser traduzido. O que releio frequentemente está muito gasto, muito velho. Gostaria de o mandar encadernar. Não tenho ideia de um outro autor tão profundo e tão extraordinário que seja tão profunda e tão extraordinariamente invisível.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MEMÓRIAS COLONIAIS





Nem de propósito.

Tendo escrito, no post anterior, a propósito de O Leopardo, acerca da ambivalência própria de toda a revolução - em que é demasiado fácil ver-se unicamente o que se perdeu, ou, pelo contrário, o que se ganhará, em recortes ideológicos estreitos, que impedem a compreensão simultânea do que se perde e do que se ganha -, venho agora falar sobre um outro livro, que me remete para o mesmo problema. É o exemplo de uma abordagem contrária àquela que O Leopardo consegue. Diria, o exemplo da forma "errada" (porque parcial) de entender o que se passou. Chama-se Cadernos de Memórias Coloniais. Escreveu-o Isabela Figueiredo.

Hesitei muito. Por um lado, porque este é um blogue onde, sobre os livros, se tem uma preocupação eminentemente literária; ora pergunto-me se a crítica que me apeteceria fazer não será mais política e ideológica do que outra coisa; por outro lado, porque sendo eu mesmo moçambicano de nascimento, tendo vivido em Lourenço Marques, nos mesmos sítios, durante o mesmo tempo que o texto vai fragmentariamente rememorando - ter-nos-emos cruzado alguma vez, Isabela e eu? -, mas não coincidindo com ela no teor da memória nem na interpretação dos factos, não correrei o risco de ser injusto? De me faltar distanciamento crítico? De responder às memórias da autora, com tudo o que nelas é pessoal e legítimo, com a divergência das minhas memórias, igualmente legítimas, igualmente pessoais?

Corro o risco.

Numa crítica do Expresso, alguém escrevia, há umas semanas, que estes «cadernos» seriam decisivos. Porque poriam os pontos nos ii: revelariam o colonialismo moçambicano na sua dureza, na sua crueldade - contra uma visão nostálgica, muito propagada, segundo a qual a opressão teria sido, aí, mais meiga e gentil, mais evoluída e bondosa. Um colonialismo completamente diferente do inglês? Pelos vistos, não foi. Ou, como a própria afirma, talvez diferente, dificilmente melhor.

Claro que opressão é opressão. Não existem opressões mais ou menos meigas, mais ou menos gentis. Não existe opressão boa. A contradição nos termos soa ridícula. Mas a minha primeira objecção é a de que, redutoramente, Isabela faz, de um ajuste de contas com o seu pai, um ajuste de contas com todo o passado moçambicano. Traiu o pai, como continuamente repete? Assunto seu. Não me cabe julgá-la. Mas que o seu olhar crítico sobre o pai e sobre a relação entre ambos (que terá ficado totalmente por resolver), seja a única medida do que foi o Moçambique dos anos sessenta e setenta, parece-me, naturalmente, a assunção de uma lente redutora.

Há erros factuais. Pormenores desacertados que servem para nos mostrar como a memória é elástica, deturpadora, subjectiva.

Mas, em primeiro lugar, por que descontextualizar? Vivia-se, então, em Portugal, o tempo do singular fascismo português. E, mesmo já sob o marcelismo, a «metrópole» permanecia um espaço canhestro e fechado, generalizadamente inculto e pobre. O colonialismo não podia deixar de ser, com todas as suas desigualdades e injustiças, senão uma expressão de um regime feito de censura e medo da evolução.

Contudo, em mais do que um aspecto, Moçambique tornar-se-ia a ponta mais evoluída do icebergue que era Portugal; o meio da formação de uma autêntica vanguarda - política, artística, cultural no sentido mais lato. De algum modo, por exemplo - e à semelhança do que ocorrera, ou ocorria, nos EUA, por causa do Vietname -, também ali se criava, entre os jovens estudantes em idade de ser chamados para a o serviço militar, um espírito de rebeldia e contestação.

E surgiam, é claro, jornais e revistas modernos, de reflexão e crítica. (Chegou a haver projectos, desenvolvidos por colonos, em que se propunha o fim da censura, o que, na «metrópole», estava longe de se idealizar); e jornalistas, escritores, poetas, pintores, fotógrafos, de várias raças - José Craveirinha, Albino Magaia, Kok Nam, o próprio Mia Couto, que tão popular viria a ser mais tarde, Rui Knopfli, Malangatana Valente, os extraordinários irmãos Honwana -, que expressavam uma nova visão, um novo ideal, em linguagens que eram já outras, por onde perpassavam a voz do povo e a luta contra a opressão.

Isabela não via, não ouvia, não sentia, não pressentia? Por criança que fosse, deste mundo complexo e em ebulição, contraditório e estranho, evoluindo e abrindo-se (embora contendo ainda, em si, a infecção, a injustiça, a desigualdade e a exploração), Isabela nada captou? Não tinha olhos senão para os «brancos que iam às pretas», como se a isso pudesse, hoje, reduzir o painel do pior e do melhor que eram aquela vida e aquela realidade culturais? Não estava senão com o pai diante dos seus olhos, esse pai enorme, que agredia os seus empregados, na hora do pagamento? Ou que os ia buscar às casas pobres, em caniço, para que não faltassem ao trabalho, aos murros e aos gritos?

Como esquecer, por exemplo, que os mais consistentes militantes da Frelimo, Samora Machel, Graça Simbine, Aquino de Bragança, Joaquim Chissano - tinham sido formados por professores portugueses, ou nas escolas dos missionários católicos e protestantes? Não o refiro como justificação do colonialismo, evidentemente, mas como observação de que, no seu melhor, este ensinou, formou, construiu, pensou, criticou, criou.

«Ainda hoje os vejo envolvidos na mesma nostalgia. "A independência foi mal feita, e os culpados foram o Mário Soares e o Almeida Santos, que nos venderam e entregaram aos pretos". Eu traduzo, "aquilo que entregaram aos pretos deviam tê-lo entregue a nós, que logo tratávamos da negralhada". Quando revelam, com lágrimas sinceras, "deixei o meu coração em África", eu traduzo, "deixei lá tudo, e tinha uma vida tão boa".».

Percebemos o problema de má tradução: Isabel Figueiredo faz, de um sector, a voz de um todo - um todo mais difícil e variegado do que alguma vez a sua memória poderá entender.

Dirá, numa entrevista incluída no livro: «O colonialismo era o meu pai».
Aí radica, porventura, o seu erro crasso de perspectiva. Lamento contrariá-la, Isabela. Não era.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

GIUSEPPE DI LAMPEDUSA: O LEOPARDO

Salinger é o autor de um único livro. Não porque não tenha escrito e publicado outros, mas porque, na minha perspectiva, depois de se ter feito a obra perfeita - que é aquilo que Catcher in the Rye precisamente é -, se torna difícil escrever alguma coisa que lhe não seja inferior.

Admiro os escritores de obras únicas que são obras-primas. Emily Brönte, de que já aqui falei, é outro caso. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de Il Gattopardo, é claro, também.

O Leopardo, que permaneceu impublicado durante muito tempo, recusado por inúmeras editoras (o que não deixa de ser um extraordinário exemplo de ignorância e cegueira), só viria a público após a morte do autor. Nada menos do que um ano e meio após a sua morte. Mas, então, para ganhar o merecido reconhecimento a que, mais tarde, o filme de Luchino Visconti (com Burt Lancaster e Alain Delon) emprestaria a imagem definitiva.

Romance construído numa escrita delicada, complexa, belíssima, O Leopardo descreve as perturbações sofridas, numa Sicília há muito imutável, por uma família aristocrata, abastada, submetida à revolução: as personagens não são lineares, as ideologias não são lineares. Perante a implantação de uma nova ordem, percebemos tanto as insuficiências humanas da anterior, como o oportunismo corroendo, desde o início, os ideais da que chega: o arrivismo, a inveja, a incompetência ou o ressentimento, os quais seriam, por dentro da justiça e da justeza da Causa do progresso, parte do seu motor prático; percebemos como o velho regime, decadente e injusto (ou não haveria revolução), desaparecerá levando consigo, porém, um refinamento de maneiras e cultura que não poderão regressar tão cedo. Porque de tudo, do bom e do mau, se faz uma revolução.

Não podemos amar Don Fabrízio, Príncipe de Salina, que não é amável, isto é, não se deixa amar, nem tão-pouco odiá-lo na sua grandeza um pouco assustadora, aparentemente inflexível, embora, de algum modo, tentando ceder e negociar - segundo o maquiavélico princípio que hoje tão bem conhecemos, e constantemente confirmamos: «É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.»;

É com uma profundidade sem preconceitos que travamos conhecimento com uma figura psicológica plena de contrastes e de contradições, sua esposa, a Princesa, que, sob a fragilidade esperada, esperável, ou sob o medo e o desprezo pelo sexo brutal do Príncipe, oculta uma força própria e uma sabedoria fulgurantes; ou com Tancredi, o sobrinho gastador, corajoso e insensato; ou o Padre Pirrone, filósofo e conselheiro mas, paradoxalmente, amante da boa vida que aquela família lhe proporciona; bem!, e que dizer de uma personagem secundária mas, todavia, essencial enquanto símbolo do novo Poder - o Presidente da Câmara, pai, se bem me lembro de uma rapariga lindíssima, que irá ser o centro de uma paixão devastadora?

É o ajustamento, ao novo tempo histórico, da austera família de Don Fabrízio e da rede que ela teceu e manteve ao longo de séculos, o que acompanhamos por estas páginas dolorosas, irónicas e melancólicas.

Teria de ser o único livro do autor. Aliás, é um livro historicamente único, também: e na sua visão imparcial e completa de uma revolução, entre a consciência de como o progresso é um ganho inevitável, e a intuição trágica de que algo fundamental terá de se perder, continuará sendo um livro único.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

valter hugo mãe: a máquina de fazer espanhóis


Estou a ler um livro de que se tem falado muito, ultimamente. E há tanto a dizer acerca dele, e dos aspectos em que me parece conseguido, ou dos menos conseguidos, ou dos totalmente desconseguidos, que terei de desdobrar esta crítica em diferentes tópicos.

Principiemos por um ponto que, intransigentemente, tardo em compreender na obra do autor, valter hugo mãe. E que é, precisamente - como se vê, desde logo, pela forma como redige o nome - a recusa das letras maiúsculas.

Ao que me parece, e antes de mais, acede-se à língua - a qualquer língua - como se entrássemos numa casa cujos fundamentos existem já. Há uma gramática que, mais do que um uniforme apertado, é um modo de nos familiarizarmos e acordarmos no uso das palavras, e de as articular entre si, modo esse que veio evoluindo até fazer da fala e da escrita instrumentos eficazes, partilhados, claros. Comuns - de «comunicar».

Será que penso, portanto, que a adulteração dessas regras, ou o recurso a excepções, quando tornem o texto mais expressivo ou mais belo, são inaceitáveis? Obviamente que não. Todos os poetas se revelam, de algum modo, autênticos experimentalistas da língua. Fernando Pessoa foi-o, entre nós, de um modo extremo. E que dizer do português-moçambicano de Mia Couto, que bebe no modo de o seu povo se apropriar quotidianamente do português? Já para não falar de Saramago, que revolucionou a escrita, procurando que cada período fosse a expressão de uma multiplicidade de vozes em diálogo?

E no entanto, a eliminação das maiúsculas em nome de uma pretensa «dignidade democrática» de todas as palavras, que as igualasse entre si, soa como uma espécie de cedência à pura sede da originalidade pela originalidade. O que irrita. (Tanto mais, aliás, que nem se trata verdadeiramente de uma prática original). A prosa torna-se gratuitamente menos clara por causa dessa opção. E se a esta modernidade não falta coerência - porque, convenhamos, há coerência de sobra em que um autor submeta toda a sua obra a um tal espartilho - , falta-lhe um sentido relevante, pelo qual valesse a pena pôr em causa a tradição, e lutar!

Contudo, quando se trata do seu último livro, a máquina de fazer espanhóis, é fundamental não deixarmos que essa opção do autor (afinal, bem vistas as coisa, um mero pormenor), se transforme num bloqueio a priori. Porque perderíamos a oportunidade de aceder a uma sensibilidade fascinante: o narrador é um homem de oitenta e quatro anos, que enviuva de Laura, a mulher que amava ainda e sempre e, vítima de um ataque, na sequência desse falecimento, acaba num Lar de Terceira Idade. Ora é nesta apreensão do mundo a partir de uma situação particular (porventura comum na vida mas, na verdade, invulgaríssima na literatura), que radica o carácter revolucionário do romance de valter hugo mãe: muito mais do que a questão das minúsculas.

«um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua de razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico.». Se imaginarmos a voz e a reflexão próprias de um homem idoso, que não se limite à pieguice politicamente correcta que nos dá jeito atribuir-lhe, mas , pelo contrário, conserve o cinismo e a crueldade capazes de pôr em causa o mundo que vai perdendo - e a injustiça da maneira como esse mundo se volta contra ele -, percebemos a grandeza deste texto. A reflexão é genuína, autêntica, credível: sendo escrito por um autor que nasceu em 1971, não pode deixar de ser a de um jovem capaz de se colocar no lugar do outro, e de o compreender por dentro, emprestando-lhe os seus meios.

É um livro que se lê tensamente, mas, todavia, na proximidade de uma alegria, como reza a contracapa, «complexa, até difícil de aceitar».
valter hugo mãe não me convenceu com o seu livro premiado, o remorso de baltazar serapião (Prémio José Saramago, 2006) - que me cansou e de que desisti a meio. Convence-me, porém, com esta sua máquina. Lindíssimo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

ÀS MINHAS SEGUIDORAS

Às minhas 3 seguidoras, curiosamente brasileiras todas elas, e que não conheço - mas cujos blogues tenho espreitado -, Florzinha Afável, Stella e Fernanda Lym, um obrigado muito sentido.

Se um dia quiserem comentar, por favor, não hesitem.

Mas, ainda que o não façam, todo tremo de euforia contida só de pensar que, no longínquo Brasil, três florzinhas afáveis se interessam pelo que quer que eu escreva acerca dos livros que amo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

HOMENAGEM PÓSTUMA A PROPÓSITO DE UMA HOMENAGEM ANTE-PÓSTUMA

J. D. Salinger faleceu, julgo que na passada 4ª-feira.
No domingo anterior dedicara-me a invadir o meu irmão, lendo-lhe precisamente passagens de The Catcher in the Rye, que tinha acabado de comprar, ou re-comprar, muito pouco tempo antes.

Pela mesma altura, sensivelmente, escrevera um post sobre esse autor e esse livro que considero de uma sensibilidade ímpar.

Fico feliz por ter comprado o livro e escrito o "post" antes da morte de Salinger. Sem a prever. Não fiz parte daqueles que se lembram de um autor quando e porque este morreu.

Há coincidências espantosas. Que, pois, esse meu interesse espontâneo, gratuito, que essa memória que não foi senão a saudade da personagem (e narrador), que esse meu regresso à obra, que me surgiram do nada, a propósito de coisa nenhuma, sejam a minha homenagem
a J. D. Salinger.
Até sempre.

sábado, 23 de janeiro de 2010

J. D. SALINGER: THE CATCHER IN THE RYE


Escrevo o texto, propositadamente, numa espécie de deserto cortado por uma ilustração única e diminuta. O homem que nos sorri dessa fotografia antiga é J. D. Salinger, o qual, desde a publicação e quase imediato sucesso da sua obra-prima, preferiu manter-se num estado prático de reclusão. Para quê, pois, expor, mais do que o estritamente necessário, um autor que recusa a exposição?

Terei de falar novamente do meu primo? Claro que sim. Como este estudava, então, algures em Inglaterra, conhecia bem um livro de leitura obrigatória para a aprendizagem da língua inglesa: The Catcher in the Rye. Apresentou-mo, portanto.

Comecei por lê-lo em inglês. Percebi, desde as primeiras páginas, que aquele romance escrito nos anos cinquenta permanecia actual; mais: de uma novidade e uma originalidade absolutas. Mais tarde, comprei-o em português; hélàs!, emprestei-o; perdi-o de vista. Ontem, comprei-o de novo, numa tradução que lhe oferece o nome suspeito e pouco feliz de À Espera no Centeio.

A forma revela-se um achado: o narrador é Holden Caulfield, um adolescente de dezasseis anos. E que, de facto, escreve como um adolescente de dezasseis anos. A linguagem rebelde e aparentemente pouco sofisticada de Caulfield, sustentada nos pilares que são as palavras obscenas e violentas do léxico adolescente em qualquer tempo e em toda a parte, vai-se mostrando o meio perfeito para a apresentação da sua perspectiva - que é, naturalmente, a perspectiva de, que esperavam?, um adolescente de dezasseis anos. Do seu ponto de vista, os velhos são deprimentes, os adultos são em geral pessoas entediantes, as exigências e expectativas, de que o cercam, completamente falhas de sentido.

Este distanciamento em relação ao mundo que descreve, no entanto, minuciosamente, assume-se como um veio poderoso de humor. Reconheço, aliás, aquele humor ácido. Tenho um filho de catorze anos e, acreditem, os adolescentes olham hoje para as coisas com a mesma incompreensão irónica que há cinquenta anos.

É, num certo sentido, um livro que nos resgata: embora Caulfield seja, para nós, o «estrangeiro», isto é, o objecto estranho que vai lidando com os seus dias através de decisões erradas e perigosas, a sua tentativa de comunicar connosco, leitores, aproxima-o, faz-nos entrar em si, fá-lo entrar em nós. Nasce uma telepatia. Como se, dentro de cada um de nós, um adolescente que nunca morreu despertasse e estabelecesse o contacto: sim, Caulfield, compreendo-te bem, o sistema é tramado, as opções que se te abrem são todas igualmente más, mais vale seguir essa espécie de instinto louco, duro, aventureiro e generoso.

Mas mais do que isto, como é evidente, Caulfield, sob o azedume do seu riso, sob a ironia tensa, a pura propensão para o disparate (mais, até, do que para a revolta), torna-se uma figura comovente. Veja-se o diálogo com a irmã, um momento que se crava com toda a força numa zona vulnerável do peito do leitor.

Não me importo de emprestar este livro a outra pessoa, porque Salinger merece que o conheçam.
De resto, é claro, eu iria comprar imediatamente um novo exemplar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

INJUSTIÇAS

Temo ter sido injusto, no post em que procurava lembrar e referir os marcos do meu passado como aprendiz de leitor.
Então, e sobre Júlio Verne, nem uma palavra? Pois havia uma colecção bem bonita, com livros de capas apetitosas, coloridas: sei que me ofereceram, em certo aniversário, Atribulações de um Chinês na China, que li com algum entusiasmo. Sei que havia, na minha cabeceira, A Volta ao Mundo em 80 Dias.

Então, e sobre Mark Twain, nada a dizer?
Como é possível?

Talvez ainda antes de Os cinco e de Os Sete, Tom Sawyer foi o livro que me conquistou: tratava-se de um rapaz hiperactivo. (Sabia eu lá na altura o que era isso! Aliás: o próprio Mark Twain não fazia ideia, na época em que escreveu simplesmente sobre um puto irrequieto e aventureiro, que possibilidades diagnósticas reservaria o futuro). Esse garoto dotado de uma imaginação inesgotável, que o mundo dos adultos não era capaz de digerir, agarrou-me, prendeu-me, levou-me consigo.

Depois li Huckleberry Finn; apreciei-o também devidamente, mas não como a Tom Sawyer, ah, não, nada como Tom Sawyer - e a sua temível tia Polly; o irmão perfeito, invejoso e delator (até porque eu tinha um irmão perfeito, invejoso e delator); a Becky, por quem nos apaixonámos os dois ao mesmo tempo, Tom e eu; o Huck; o preto Jim. E, claro, o malvado Injun Joe!

Recordo as cenas como se as relesse, Deus do céu!, desde aquela encenação que Tom faz, logo num dos capítulos iniciais, para persuadir os seus amigos de que tarefa que a tia o obrigara a desempenhar era, na verdade, um prazer - o que teve como resultado que lhe pagassem (em berlindes ou ratos mortos atados por um fio) para a realizar em vez dele -, passando pela sua inesquecível e malograda tentativa de suicídio por amor, até aquela outra, já no fim, que nos oferece o dramático confronto com Injun Joe, que tantos pesadelos me provocou...

Tom Sawyer e Huckleberry Finn são livros, perdoem-me a expressão detestável, infanto-juvenis como se não fazem já. Maduros, interessantes, profundos - sem cedências. Uma porta aberta para o gosto de ler.
Esqueci-os?
Imperdoável.

sábado, 16 de janeiro de 2010

ROBERTO BOLAÑO: 2666



Já há muito não subo a este blogue. Hesito na palavra passe, sinal mais do que evidente de que não tenho recorrido frequentemente a ela.

Não sei bem sobre que falar. Mas, afinal, sei. Isto é, de miríades de possibilidades que respiro (e se me referisse a Camus, de que se comemoram cinquenta anos da morte?, e se me referisse a John Fante, escritor semi-maldito que acabei de descobrir?, por que não a um português, digamos Nuno Morais, poeta malogrado por cuja poesia me apaixonei?), há já uma possibilidade mais forte do que as outras, que se define e torna nítida. No momento em que teclo estas palavras, já ela se esclareceu e tornou real. Bolaño. 2666. É isto.

De Roberto Bolaño, autor chileno, conhecia, quase por acaso, um livro chamado Os Detectives Selvagens. Se quisesse reduzir 506 páginas a dois adjectivos, escolheria estes: originalíssimo e desigual.

A linguagem é extraordinária; a narração principia e, durante muito tempo, mantém-se numa crueza hilariante; as personagens multiplicam-se na sua riqueza e autenticidade. Mas o problema é, em parte, precisamente esse: demasiadas personagens, implicando universos diversificados, num labirinto em que nos perdemos, sem dúvida interessante mas, é verdade, nem sempre igualmente
interessante. O entusiasmo do leitor vai-se esbatendo: cede a vez ao cansaço e à confusão.

O livro de que vos quero falar, todavia, é outro. 2666 tem uma história subjacente: avisado da proximidade da morte, Roberto Bolaño decidiu escrever um longo romance, de forma a que a sua família pudesse ficar amparada. Dividiu o gigantesco texto em cinco partes; transformou-o, portanto, em cinco romances, que pediu ao seu editor que publicasse em separado. Assim, durante pelo menos cinco anos, a mulher e os filhos poderiam sobreviver à custa dos direitos autorais...
Foi, porém, o próprio editor, homem inteligente, sensível, desrespeitador e de bom gosto, que percebeu que esta obra enorme não podia, sem prejuízo, ser espartilhada. Talvez mais tarde - mas numa primeira fase, tornava-se absolutamente imprescindível que o leitor tivesse aceso à sua unidade intrínseca.

2666, de 1025 páginas, é, portanto, o género de obra que costumamos referir como um «romance falhado», não querendo com isso propriamente menosprezá-la, mas tão-só caracterizá-la enquanto tentativa impossível de abarcar a totalidade. Musil, com O Homem sem Qualidades, e talvez também Proust, escrevendo Em Busca do Tempo Perdido (sem que em qualquer caso se trate de diminuir a grandeza ou o génio criativo que revelam), seriam autores de similares esforços para dar conta de todos os pormenores, todos os sujeitos, todo o passado, todo o presente e todo o futuro, num sistema universal e particular, aberto e fechado, um texto inconclusivo mas concluído.

Deparamos, em 2666, com a mesma diferença de universos («registos», como agora se diz) que em Os Detectives Selvagens: mas existe aqui, de algum modo, uma tensão equilibrada. Cinco partes que se lêem como romances diferentes, mesmo que a princípio a unidade ou o fio condutor que os liga pareçam ténues, conseguem encaixar-se, a prazo, como as peças de um gigantesco puzzle onde não temos, nem esperamos ter, senão no fim, uma visão de conjunto. A dispersão perturba menos, é quase uma condição organizadora de um todo que tende fatalmente a dispersar-se nas suas partes.

A narração de Bolaño é brilhante. O sarcasmo está sempre presente, como uma faca de ponta-e-mola; a noção do ridículo é uma constante que, todavia, nem por um momento faz com que nos distanciemos das personagens, ou deixemos de sentir fundamente a sua tristeza. O enigma que, de certo modo, se transforma em diferentes enigmas - onde está Archimboldi, quem comete a série de violações, quem comete a série de sacrilégios, e que terão estas interrogações que ver umas com as outras - permanece sempre audível e interessante, motor surdo de um suspense que subsiste às variações de ritmo.

Meu primo - de quem tanto aqui tenho falado, e de quem falarei porventura ainda mais, agora que sei que, lá da longínqua América, se foi tornando um leitor atento deste blogue - recebeu, no Natal, um exemplar deste livro. Iniciou-o: «Tem graça», afirma. Mas torce ainda demasiado o nariz. Há aspectos que lhe parecem forçados, como um experimentalismo bacoco em prol da originalidade pela originalidade.

Não digo que não leia, aqui ou ali, algo que pode ser atribuído a uma certa pose intelectual, a um certo brilho desnecessário, a uma originalidade vã. O que digo é que nada disto, nada, retira à progressão e à grandeza da obra, à sua ambição totalitária e ao pormenor da sua multiplicação por ângulos diferentes, às personagens, às situações, à comédia, à tragédia e ao mistério, uma grama que seja de sentido e força.

Não se pode fechar o sistema. Qualquer tentação e tentativa de o fazer não pode senão concluir-se num falso fim e num falhanço. Nevertheless, há falhanços magníficos. É o caso.

sábado, 2 de janeiro de 2010

COMO SE FORMOU UM PROFISSIONAL DA LEITURA



Não me lembro, numa primeira infância, senão dos livros muito coloridos de Noddy e de uma excitante edição de O Sítio do Pica-pau amarelo. Estava em Moçambique, na casa do meu tio e, lá em baixo, para onde eu gostava de me escapar sozinho, penetrava na gruta mágica de Ali-Baba, que era a salinha de brinquedos que o tio António mandara fazer às netas, a partir de um antigo galinheiro: perdia-me entre brinquedos e livros.

Mais tarde, com oito ou nove anos, já em Lisboa, recordo um volume magnífico - talvez no português do Brasil -, que reunia Robin Hood, Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, do qual retenho perfeitamente o poema da Morsa e do Carpinteiro, que devo ter relido vezes sem conta, surpreendido, divertido, fascinado.

A seguir, de volta a Moçambique, para além das leituras proibidas que pescava secretamente entre as estantes do meu irmão - O Homem, sobre um primeiro presidente negro dos Estados Unidos, que agora faria sentido reler, e A 25ª Hora -, o que marcou decisivamente o meu gosto pela leitura foi a descoberta da senhora dona Enid Blyton: Os Cinco, é claro, mas, mais do que esses, Os Sete: o clube que formavam, as excursões em bicicleta e os deliciosos «lanches ajantarados» que as mães lhes preparavam, ou as merendas, descritas com todo o detalhe, que levavam nas viagens. Devorei Os Sete. (Hoje, nem me lembro senão de um ou dois deles, um tal Pedro e uma tal Bárbara. E um cão, que era o Toy!)

Com alguma curiosidade, pergunto-me qual foi o primeiro livro literariamente excelente que li, aquele que terá marcado o despertar do meu gosto, o meu prazer, o meu vício, a minha paixão pela leitura. Estou em crer que pudesse ser O Idiota. (Sempre era Dostoievski!). Estava na mítica estante do meu irmão, e este detestava-o, com aquela sua arrogante necessidade de pôr em causa tudo quanto fosse consagrado e respeitado. «Génios tão indiscutíveis», reclamava ele, sarcástico, «e repara como logo da primeira para a segunda página entram em contradição». Era verdade. Não me lembro de que contradição se tratava, algum pormenor na descrição do vestuário, mas lá estava, aliás assinalado pelo tradutor.

Mas talvez não tivesse sido esse o meu clique. Talvez uma peça de teatro do Arthur Miller, talvez um livro de contos de O. Henry, talvez o Gorki. Talvez mesmo Nietzsche, de que não percebia uma palavra e que no entanto me mantinha cativo, absorvendo parágrafos completos. (Assim Falava Zaratustra, já perceberam...).

Em todo o caso, foi assim que a minha formação se foi tecendo. Darwinisticamente. Entre tropeções bem-sucedidos, acidentes e erros que pegaram, descobertas imprevisíveis, lixo que ficou pelo caminho, deslumbramentos precoces e revelações tardias.

Atrevo-me a achar que o resultado é interessante.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ANTONIO TABUCCHI: O JOGO DO REVERSO




Ponhamos de parte a infindável quantidade de livros que recebi pelo Natal, a que me dedicarei mais vagarosamente e de que aqui irei dando conta, para nos fixarmos num discreto O Jogo do Reverso, emprestado pela Biblioteca vizinha.

Antonio Tabucchi importa-me por variadíssimas razões: em primeiro lugar porque este escritor italiano, porventura através da sua paixão por Fernando pessoa & heterónimos, se tornou um estudioso atento e subtil da poesia portuguesa, um cultor fascinado e fascinante da própria língua portuguesa e, já agora, alguém que penetrou delicada e deliciadamente no espírito português, feito da saudade, é claro, (que «não é uma palavra, é uma categoria do espírito, só os portugueses conseguem senti-la, porque têm esta palavra para dizer que a têm»), mas também de atmosferas, como a proporcionada por um dédalo lisboeta de ruas antigas, com nomes maravilhosos, por exemplo a dos "douradores" ou a dos "correeiros"; pensões, tasquinhas e uma culinária de comidas muitas vezes «delicadas» mas «de aspecto repelente», culinária essa cuja história os próprios portugueses em geral desconhecem (sabia lá eu, por exemplo, que o arroz de cabidela fosse um prato herdado dos judeus sefarditas, que não torciam o pescoço à galinha, antes o cortavam, aproveitando-lhe o sangue...); e, em suma, de grandezas e mesquinhices confusa e surpreendentemente entrelaçadas...

O Jogo do Reverso, um pequeno livro de contos, é invulgar por tudo isto: ser da autoria de um italiano com
uma compreensão de quem somos e do que somos que nos redime e nos faz sentir tristes e orgulhosos por sermos quem somos e o que somos; uma escrita de extrema elegância, subtil no molho, com prazeres quase secretos, que só numa segunda ou terceira provas se deixam gozar; e, mais do que isto, uma boa ideia, tecnicamente muito bem realizada: a de histórias em que o que interessa é o reverso, o que mal se expõe, mas a partir de onde se encontra o verdadeiro centro de leitura - como na pintura Las Meninas, de Velásquez, em que o que interessa não é o que nós vemos, mas sim a perspectiva do pintor, perspectiva de que não temos senão indícios, literalmente: reflexos.


No caso concreto deste livro, ou desta edição da Quetzal, não é um pormenor despiciendo o prefácio, da autoria de José Cardoso Pires, um Cardoso Pires completamente entregue à sua qualidade de leitor de Tabucchi, a sua escrita, a sua busca de um reverso, como no jogo que, de certa forma, afiança-nos, todo o romance é.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CORTÁZAR DE NOVO: O REENCONTRO


O mundo está repleto de misteriosas coincidências. Misteriosas e maravilhosas.
Não tinha acabado há muito de postar   o texto anterior, sobre Julio Cortázar, quando uma colega me disse, já não sei em que situação, que revira um filme de Antonioni, "Blow-up", baseado, vejam bem, num conto de Cortázar - coisa que eu ignorava.

Ainda essa informação não fora completamente processada quando, numa livraria, deparo com uma lindíssima edição, em português, de A Volta ao Dia em 80 Mundos. Uma capa suculenta, amarela.
Folheei, Compro, não compro, compro, não compro?, completamente rendido aos títulos dos capítulos, aos desenhos que ia descobrindo nas páginas, às fotografias que o ilustram. Em resumo: comprei.

E nessa noite, em casa, comecei a ler, já então meio doido e obsessivo, mas entremeando-o com o conto Blow-up (de As Armas Secretas) e os contos de Todos os Fogos o Fogo, que trouxera, entretanto, da biblioteca vizinha. Estou, portanto, literalmente inundado de Cortázares e, de certa forma, já não sou eu, sou já o próprio Cortázar, aspirando e expirando a sua escrita, cardíaco ao ritmo do seu suspense, dos seus meios sofisticados de construção, ocultos mas eficazes, do seu imaginário ilimitado, dos ardis com que me arrasta para, inesperadamente, me quebrar os rins, me deixar cair desamparado de alturas imensas.

A Volta ao Dia em 80 Mundos está para além de qualquer qualificação. Não nos detenhamos numa. Diria que, datando de 1967, este livro prenuncia genialmente o espírito do blogue - é, no conceito, aquilo de que só os melhores blogues se aproximariam, tantos anos depois: delirando entre a poesia, a reflexão mais ou menos sucinta sobre os objectos literários ou musicais da preferência do autor, procurando uma escrita que seja, para o leitor, o mesmo que o jazz para um ouvinte, sem qualquer regra pré-definida, improvisando-se a si mesma numa espécie de contínua luta consigo mesma; deslizando, quando menos se espera, para a memória, o conto, a homenagem, profusamente ilustrada, esta obra torna-se um impressionante exercício de abertura e experimentação, erudição e loucura.

Compreendo perfeitamente a metáfora do jazz a propósito destes textos: «Tudo o que segue», explica-nos Cortázar, «participa o mais possível (nem sempre se pode abandonar uma carapaça quotidiana de cinquenta anos) dessa respiração da esponja em que continuamente entram e saem peixes da memória, alianças fulminantes de tempos e estado e matérias que a seriedade, essa senhora demasiadamente tida em conta, consideraria inconciliáveis». E é um pouco nessa euforia jazzística da esponja que a linguagem de Cortázar se vai tecendo, e experimentando, sempre à beira de um qualquer precipício, em curvas impossíveis, mas que ansiamos por fruir maximamente, toda feita de «alianças fulminantes» e «tempos e estados e matérias» aparentemente «inconciliáveis».

Há linguagens que nos abrem o espírito, que nos atacam e não nos deixam repousar. A de Cortázar amplia-nos como poucas. Não, "amplia" não, porque não se trata de nos aumentar a informação, mas de nos forçar a ler e a pensar diferentemente, a abrir túneis novos, provocando-nos surpreendentes sinapses. Como poucas, dizia. A este nível e desta forma, pouquíssimas: a de Proust, sem dúvida e, entre nós, a de Fernando Pessoa, a de Herberto Hélder, a de Gonçalo M. Tavares muitas vezes, a de José Luís Peixoto, quando no seu melhor. Percebemos até que ponto, nesse movimento livre e libertador, pensar longe de todos os hábitos e mecânicas simplificadoras, pensar entrando em continentes até então inexplorados, não pode ser feito senão através de uma fala que, em todos os pormenores, se vai renovando, também, e desintegrando, e permanentemente refazendo em fantásticas figuras...

Não estou seguramente no mesmo ponto de mim em que me encontrava antes de haver iniciado a leitura de A Volta ao Dia em 80 Mundos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

JULIO CORTÁZAR: RAYUELA




Se acaso há uma lógica, uma forma normal de agirmos quando se trata do gosto pela leitura - e eu penso que não há -, essa seria, aparentemente, a de procurarmos tudo quanto exista de um autor que nos agradou.

Assim aconteceu comigo em relação a Eça de Queirós. Julgo não exagerar ao dizer que um dia infeliz na minha vida foi, certamente, aquele em que percebi que o tinha lido de fio a pavio: dali em diante, como estava morto e não consta que tivesse alguma arca capaz de ainda nos vir a surpreender, poderia sempre relê-lo, sem dúvida, mas nunca mais teria nas mãos um livro seu, para mim virgem, todo a descobrir...

Com Júlio Cortázar, porém, o que sucedeu foi diferente. E estranho.

Conheço deste escritor um romance, e pronto! O genial Rayuela, traduzido em português por O Jogo do Mundo.
É gigantesco - uma daquelas obras que pretendem abocanhar o mundo inteiro, em todos os seus estados e qualidades. Mas trata-se, sobretudo, de um "jogo" e, enquanto tal, um prodígio de inventividade, logo a partir do pormenor conhecido de que o leitor não tem de iniciar a leitura pelo primeiro capítulo: na verdade, pode começar por onde quiser, constituindo um percurso quase pessoal, ao qual poderá opor, noutra altura, um percurso alternativo.

E este constituir de uma lógica própria no interior de um livro que possibilita, portanto, infinidades de lógicas e de caminhos, faz com que, em rigor, haja, sob a enganadora estabilidade deste romance, uma multiplicidade de romances, de que somos co-autores.

Mas, repito, isto é um pormenor. Em última análise, um capricho de autor. Mas lendo-o, sentimo-nos mergulhar num mundo de personagens inesquecíveis na sua estranheza, na sua energia descontrolada, nos seus comportamentos despudorados. Ergue-se à nossa volta um mundo - vários universos paralelos, portanto - onde a pobreza boémia tem um papel importante, e o amor desesperado, e a observação contundente do ser humano. Há uma vida quase marginal numa mansarda infecta, com vizinhos difíceis; há um concerto inesquecível; há gravidezes desamparadas...

É um livro vagaroso. Vamos desbravando terreno, relendo o que já lêramos, para rir melhor, encantados, e experimentando possibilidades: «E se, de facto, eu saltar agora quatro capítulos, que virei a recuperar a seguir? Que sentido encontrarei?»

É, ao mesmo tempo, uma experiência esgotante, como o são as paixões. Todas elas.
Largamos esta obra tão preenchidos, tão profundamente tocados pela arte de Cortázar, que, depois, tendemos a evitar o reencontro.
Comigo, assim foi. Não tenho procurado Cortázar - e não conheço dele nenhuma outra coisa, nem os seus ensaios, nem as crónicas, nem os contos. Nem tornei a pegar em Rayuela.

Porquê? Porque tenho medo de uma decepção? Porque temo não reencontrar o prazer e o gozo intensos? Porque me senti devorado, esventrado, sem forças, com a leitura impossível e infinita? Porque, simplesmente, este medo não é senão um mito de leitor, que criei? Por tudo isto? Por um pouco de tudo isto? Sabê-lo!

Qualquer dia, atrever-me-ei a procurar um conto de Julio Cortázar...

sábado, 5 de dezembro de 2009

MÉTODO PARA ENCONTRAR, EM CADA CASO, A CHAVE DO POEMA

Muitas vezes, poemas que chegam aos meus olhos já com uma História e uma tradição que os consagraram como sendo obras maiores parecem-me, contudo, opacos: leio-os, e não entro em êxtase; não só não se dá uma revelação, como nem sequer aquilo que, segundo Borges, é a condição de toda a grandeza artística, «uma iminência de revelação que não acontece». A vizinhança de uma epifania. Mas nem isso. Permanecem conjuntos de versos que me soam como insignificantes, que me não despertam, que não encontram caminho directo algum para a alma.

Descontemos a possibilidade de que eu possa não considerar nada de extraordinário o que encantou os outros homens, em alguns casos desde há séculos. Porque isso poderia ser uma explicação num caso ou noutro, mas, comungando todos nós da mesma humanidade, de uma cultura que nos aproxima, de referências comuns, não creio que seja a norma.

E, portanto, o que faço é procurar continuamente as chaves para essa descoberta da revelação ou da «iminência de uma revelação que não chega a acontecer».

Aceito, portanto, que, pelo menos para mim, a revelação poética não seja directa nem imediata. Falta-me, quem sabe, esse tipo de «ouvido musical» para a poesia. O poema principia por se me apresentar como uma porta fechada. Por alguma razão, o sentido sob o sentido, a luz brilhante sob as palavras, a música e a «visão» precisam de ser escavadas - inicialmente, estão-me ocultas.

O meu método consiste no cumprimento de alguns pontos simples.

1. Leio o poema em voz alta. Borges - uma vez mais - já tinha afirmado que um poema que não exige ser pronunciado, que não pede para ser "dito", não é, talvez, um poema que valha a pena. A génese de toda a poesia é a música. Não posso limitar-me a ouvi-lo na minha cabeça, ou num percurso quase imediato dos olhos para o espírito, preciso da mediação da voz. Tenho de estar só e sentir-me à vontade para me ouvir a lê-lo.

2. Não o posso ler uma única vez. Tenho de repetir, detendo-me em particular nas passagens que me chamaram a atenção, que me obrigam a voltar atrás. É uma busca de chave. Essa chave é, por vezes, um verso, um brilho mais intenso que me escapara antes; um fulgor em que tropeço inadvertidamente até que, de súbito, se encha de sentido. Mas, captada essa minúscula luz, captei um ponto de apoio, um ponto de sentido a partir do qual todo o poema se ilumina. E quantos mais pontos de sentido se me descascam, mais claro o todo se me vai tornando.

3. Não sempre, mas, em muitos casos, o conhecimento (a estrita informação) ajuda - não porque a poesia seja prioritariamente da ordem do intelecto (o que implicaria, sem dúvida, aquela dissecação que arruina a apreensão da essência); mas porque, por exemplo no caso de A Terra Devastada (T. S. Eliot), não me foi indiferente compreender que raízes, que referências contém, a que remissões convida, a que ligações obriga, que mundos associa a si, na procura de uma unidade maravilhosa do fragmentário.

4. Quando nada disto me permite entrar, prefiro não insistir. Regressarei ao poema pouco mais tarde, ou muito mais tarde, quando o interesse me tornar a chamar. E sucedeu-me observar que o que não me falou numa certa fase da minha vida, se tornaria, anos depois, um dos poemas da minha vida. Assim, por exemplo, com a Divina Comédia. Assim, mais recentemente, com a redescoberta de Terra Devastada.

JEROME K. JEROME: 3 HOMENS NUM BOTE (SEM MENCIONAR O CÃO)



E quanto a livros de humor que me tenham marcado?

Para além de Eça de Queirós, cuja obra contém humor a jorros - mas possui tão mais para além disso que seria um crime reduzi-la a uma colecção de romances humorísticos - poderia referir Alice, tanto no País das Maravilhas como no Outro Lado do Espelho; poderia referir um clássico português que circula na minha família há várias gerações, o impagável Lisboa em Camisa (tão velhinho, que o emprestei a uma amiga e ela foi imediatamente para o hospital, vítima de um ataque de asma) e, last but not the least, um certo romance, comparativamente muito mais recente: Três Homens num Bote (Sem Falar no Cão), de Jerome K. Jerome.

Três Homens foi-me apresentado pelo meu tio; segundo ele mesmo me disse, lia-o na cama quando adoecia e tinha de faltar à escola; absorvia-o com enormes gargalhadas: em face disso, a tia Joaquina vinha saber por que piorara a tosse.

Aprecio particularmente, no livro, aquela astuciosa ingenuidade que também encontramos no Conde de Abranhos: conta-se com a maior das seriedades, como se se tratasse de elogiar um comportamento corajoso ou definido por algum tipo de virtude, o que o leitor percebe que se trata de idiotice, ou cobardia, ou mesquinhês.

As situações, quase surrealistas, descambando facilmente no nonsense, nunca são senão a radicalização daquilo que é perfeitamente possível e com que nos identificamos: todos nós já tivemos a experiência de montar uma tenda, por exemplo, e sabemos que se trata fatalmente do esforço estóico de nos enrolarmos em cordames, tropeçar em espias e ver cair o que parecia seguro, antes de se recomeçar do zero.

É verdade que Jerome K. Jerome tem a pulsão da filosofia: nem sempre se embrenha em meditações sem se tornar fastidioso. Quando quer parecer sério, cansa. Mas os seus hipocondríacos, os seus tios irascíveis ou patetas, o seu pianista trágico, alemão (que uns jovens estudantes convenceram o público que era um músico de cançonetas cómicas), ou, sobretudo, a forma como, narrando a viagem de férias feitas por três amigos (sem falar no cão), rio acima, aproveita, a propósito, para introduzir os mais diversos episódios familiares - ou pretensamente da História de Inglaterra - fazem de Três Homens um livro hilariante. Um livro que não descansei enquanto não redescobri, na feira do livro, há uns anos, para poder passar o testemunho ao meu filho...