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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

GEORG LUCÁKS: HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE




                                          «Willi - Pois sim, talvez sejam crimes, não sabemos nada disso. O nosso dever é o de confiar, com os olhos fechados, porque não nos cabe fazer outra coisa, nem a si nem a mim. Acusar, protestar, nunca é mais do que servir o inimigo. Prefiro ser fuzilado por engano. Nem os crimes nem os enganos alteram o nosso dever.»
                                                   
                                                                                Victor Serge, O Caso Tulaev


A última frase do meu mais recente post, neste blogue, recordou-me a influência que Lukács tivera na direcção do meu pensar.

Resumamos o processo. No início dos tempos, reconheci-me anti-marxista. Identificando o marxismo com o fundamento teórico do país nascente em que eu então vivia, vi naquele o responsável por um regime que cortava a direito e, em nome da classe, ou do povo, se tornava frequentemente insensível e obtuso.

Foi, paradoxalmente, retornando, ou seja, regressando a Portugal, que principiei a ler verdadeiramente textos de Marx e de Lenine; a minha juventude portuguesa tornou-me, pois, marxista: o Manifesto Comunista soou-me bem, os Escritos Económico-filosóficos ainda melhor. Na senda desta paradoxal recém-conversão ("paradoxal" se recordarmos que eu começara por experimentar o marxismo na pele, na prática, e dele me escapulira) li Trotski, Rosa Luxemburgo e Lucáks.

História e Consciência de Classe foi uma revelação. Sob o jargão típico, as formulações clássicas do marxismo, que me arrepiavam ainda, apesar de tudo, e a que Lucáks não fugia, intuí todavia uma força maior, um movimento intelectual poderoso, uma reflexão que rompia as cordas de um pensamento unidimensional. Então, ainda me não familiarizara com a filosofia de Hegel, e portanto não possuía instrumentos para apreender o idealismo hegeliano como a corrente que subterraneamente informava o pensar de Lucáks.

Esta obra seria a minha porta para a descoberta, mais tarde, de Lucien Goldmann e da sua óptica marxista e estruturalista sobre os romances: aí dava-se-me a ver como a "mentalidade" das personagens (sem que, por isso, estas perdessem uma individualidade complexa e contraditória) representa, apesar da esperável refracção, uma posição de classe: pelo que um romance permite sempre a leitura das diferentes forças sociais na sua relação, na sua ascensão, na sua hegemonia, na sua decadência; seria, pois, o recorte de uma história das mentalidades, e esta, por sua vez, a tentativa de compreender como a visão de cada indivíduo é a expressão, na sociedade, da classe em que ele se forma; em suma: os interesses individuais como a cristalização no particular de interesses de classe. Este estruturalismo, antes de se transformar numa chave redutora - e transforma-se sempre numa chave redutora: já era a tese que apresentava no anterior post -  começa por ser um instrumento de leitura com a sua riqueza e as suas virtualidades.

Entretanto, tive conhecimento das dificuldades de Lucáks perante a consolidação do estalinismo. A crítica que o próprio fez do seu História e Consciência de Classe como obra idealista. (O que é objectivamente correcto, mas não tem de se tratar como um erro). A aceitação de lugares que implicavam a crítica de desvios de escritores e intelectuais, muitos dos quais acabaram presos e liquidados.

A pergunta, que tanto se dirigiria a Lucáks como a toda uma elite de pensadores marxistas de um quilate superior, é sempre a mesma. Porque calaram as suas vozes maduras e informadas? Porque recuaram relativamente ao próprio pensamento, que era mais profundo e promissor do que o dos líderes que eles serviam? A resposta nunca poderia ser: falta de coragem. Basta ler-se O Caso Tulaev, de Victor Serge, ou O Zero e o Infinito, de Koestler, para se compreender o dilema dessas almas torturadas, esses intelectuais para quem Estaline e a URSS, por injustos que se mostrassem em certos aspectos ou em dado momento histórico, continuavam, no essencial, sendo vistos como a força e o movimento correctos da História, do progresso e da libertação dos oprimidos; não poderiam ser criticados sem se estar a trair o proletariado e a dar cartas aos inimigos da revolução. Esta é a tragédia. A tragédia sofrida no cerne das suas consciências. A causa da ambiguidade. De silêncios cúmplices. De auto-críticas incompreensíveis. Aterrador.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ARTHUR KOESTLER: O ZERO E O INFINITO



1.

As etiquetas foram-me importantes, durante a minha juventude. Falo de etiquetas filosóficas ou ideológicas: tornei-me sucessivamente cristão, existencialista e marxista. Por esta ordem.
A verdade é que fui um marxista tardio, ou seja, casei com a teoria de Marx, de Engels e de Lenine numa altura em que já se conhecia muito bem a natureza da URSS, e alguns dos intelectuais mais honestos haviam posto (e há muitos anos) estrondosamente fim a namoros antigos com o comunismo soviético, apontando sintomas da opressão e da asfixia totalitárias. Já lera Orwell, já lera até As Mãos Sujas, de Sartre, e Les Aventures de la Dialectique, de Merleau-Ponty, mas nenhuma argumentação conseguira romper o meu fascínio intelectual.


2.

Um dia, li O Zero e o Infinito. Não sei sequer o que me levara a comprá-lo: não creio que já tivesse ouvido mencionar o autor. Era uma tradução portuguesa, se a memória não me atraiçoa, numa edição que tinha uma capa vermelho viva.
É um romance da autoria de Arthur Koestler: os seus camaradas de um passado comum de militância comunista apodavam-no entretanto de traidor e renegado. Koestler rompera com o partido antes ainda do Pacto Germânico-Soviético, e os seus ex-companheiros nunca lhe perdoaram que escrevesse acerca do despertar do seu sono dogmático.
«Escrever» aquele livro: em O Zero e o Infinito fala-se de um velho comunista inspirado em Trotski (e quem diz «Trotski» diz todos aqueles que, de um modo ou de outro, sofreram e sucumbiram por causa das suas discordâncias em relação ao programa de Estaline.)

3.

Resumida (e reduzida) a estes termos, parece uma obra política. É-o, sem dúvida: mas é principalmente uma obra filosófica, no sentido em que se trata - como em 1984, de algum modo - da discussão entre diferentes concepções: o poder não eliminará a fonte perturbadora sem primeiro tentar convencê-la; por outras palavras: mais do que uma luta entre forças físicas, é a uma luta intelectual que assistimos; antes do mero exercício do poder, é uma luta de ideias que testemunhamos, uma luta de olhares, uma luta pela razão. (Falsa e injusta porque, naturalmente, desigual).
É, porventura, um livro datado. Estou certo que sim.
E, no entanto, não estarei a falsear grandemente os dados se vos disser que a minha terapia ideológica (que me não tornou necessariamente um anti-marxista) principiava nesta leitura.

sábado, 29 de maio de 2010

ORLANDO VITORINO: MANUAL DE TEORIA POLÍTICA APLICADA


Diz-se, dos cães que comem ervas no jardim onde os leváramos a passear, que o seu organismo instintivamente "procura" aquilo de que tem carência; ou, dos desejos das mulheres grávidas, que obedecem a alguma necessidade orgânica própria do seu estado; lembro-me de um médico que justificava similarmente o facto de uma criança arrancar e comer pedaços de cal de parede.

Talvez alguma carência orgânica, no sentido lato, ligada a uma fase minha de redefinição, esclareça também a forma como o corpo me tem pedido, ultimamente, uma substituição, da habitual dieta de literatura de ficção, por um regime de textos de teoria. Regresso à filosofia, por exemplo, e alguns dos meus últimos posts são disso o sinal: veja-se Kierkegaard e Montaigne. Mas a verdade é que, ainda quando acabam não se tornando leituras tão importantes que mereçam qualquer comentário meu neste blogue, são livros de teoria os que me têm chamado: O Mestre Ignorante, de Jacques Rancière - ou, nos últimos dias, por recomendação de um colega que lhe elogiava a extraordinária clareza das ideias, Manual da Teoria Política Aplicada, de Orlando Vitorino. E, em resumo, não creio que suceda por coincidência.

Para mim, que me considero inequivocamente um homem de esquerda, ainda que distante de cada um dos partidos de esquerda que encontro, o livro de Vitorino é um puxar do tapete sob os pés. Ao longo das primeiras páginas hesitei em prosseguir uma leitura que me irrita e da qual discordo. Mas, depois, principiei a acalmar. Discordo, muito bem: mas irrita-me, porquê? E não sei se a continue ou se a abandone, porquê? Porque tenho medo de que me ponha em causa? De que abale as categorias e as estruturas que me constituem a tradição cultural, sobre a qual construí toda a minha reflexão e consolido as minhas posições?

É verdade que me parece que a perspectiva de Vitorino radica num erro imperdoável, que é o de criticar a visão "socialista" como um todo, com pressupostos idênticos (um dos quais seria a omnipresença do Estado), trate-se de comunismo, nazismo ou fascismo. É um acto de má-fé intelectual não pensar as diferentes finalidades filosóficas e políticas de diferentes sociedades estatistas, como se não houvesse entre elas distinções de natureza que não podemos ignorar - a não ser pagando o preço de considerar como prescindíveis e irrelevantes o sentido filosófico e político das sociedades. Como é certo, por outro lado, que uma doutrina e um sistema políticos se fundem numa antropologia: mas tenho dificuldade em aceitar que não haja senão os dois rascunhos de antropologia que Vitorino sugere: a do homem como espécie, ou ser colectivo, que se esgotaria na sociedade, destituído de qualquer elemento individual (antropologia essa que levaria aos comunismos); e a do homem como indivíduo, livre, criativo e pensador, mas sem qualquer dimensão social, que não a da mera soma, a posteriori, dos indivíduos. Não seria concebível a mediação? Uma antropologia do indivíduo que não desaparece, enquanto tal, no seio do todo e do todo que seja como que a gramática pujante da realização e da liberdade de cada um?

Isto dito, é evidente que a leitura deste livro é uma discussão profícua: uma discussão do leitor com Vitorino e do leitor consigo mesmo. Se é verdade que ser de esquerda passa também pelo enquistamento em quadros mentais que não nos atrevemos a repensar, nem ao menos a questionar (como, aliás, ser de direita), então trata-se de uma leitura inquietante, exigente, no melhor sentido da palavra, que não nos deixa repousar sobre as certezas adquiridas.