domingo, 20 de janeiro de 2013
ESCREVER DE OUVIDO E MAIS DO QUE ISSO
Gosto de Zink como artista que não recua diante de quaisquer riscos. Gosto da sua faceta de provocador. Apresentar uma dissertação [mestrado? doutoramento?] tomando como tema a obra de José Vilhena, requer, inegavelmente, uma coragem, uma ironia e uma liberdade de espírito que são invulgares no nosso país de gente respeitosa e de coluna vertebral em arco.
Isto avançado, tenho de acrescentar que nunca considerei Rui Zink um escritor maior.
O que dele tenho lido enferma, em geral, daquilo que Pedro Mexia designava (a propósito de um outro autor) de um défice de "investimento na linguagem e no estilo"; bem como de uma notória dificuldade na economia do conjunto, com passagens que se arrastam pelo tédio abaixo, e outras que não chegam a desenvolver-se.
Nas entrevistas, contudo, a despeito de alguma arrogância, Zink é quase sempre interessante. E as comparações e metáforas que parecem abundar-lhe, como suor, tendem a ser engraçadas e eficazes.
Uma delas é a de que o autêntico escritor «escreve com o ouvido»; e, depois, reformulava: «escreve de ouvido, no mesmo sentido em que dizemos que um músico toca de ouvido.» É um bom achado: escrever de ouvido significa que se está atento ao mundo, às vozes em nosso redor, ao que se diz, e à forma como se diz por aí. Não podia estar mais de acordo.
Acrescentaria que saber ouvir é um talento. Nem todos os escritores são bons escritores, porque nem todos são dotados deste talento para escutar o que interessa, o que merece ser ouvido, o que é bonito, o que é bom, ou precisamente o que é mau.
Por outro lado, concluía Zink: «Há quem pense que o escritor é capaz de criar uma linguagem própria. Isso é treta!»
Era a leve tinta de arrogância a que me referia. «Saber escutar», ou ter desenvolvido em si esta arte da escuta, não significa que os melhores e maiores não saibam depois, a partir do que ouviram, «criar a sua própria linguagem». Shakespeare ouvia, e como, e com que precisão, mas o poder de usar tudo quanto ouviu numa obra que ninguém mais escreveu, implicou a criação de uma linguagem única, e absolutamente sua. Proust ouvia, e ouvia perfeitamente. Ouvia os porteiros, a sua empregada, a sua mãe, os vizinhos - ouvia-se a si mesmo, e à criança neurasténica e carente que sempre foi, mas o rio em que todas estas vozes se acertam numa espécie de esmagadora polifonia é a invenção de uma linguagem própria.
Escutar é o ponto de partida. Mas a escuta, só, sozinha, não faz a grande obra. Fá-la aquilo que Zink desmerece como «treta»: a construção de uma linguagem.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
ANITA BROOKNER: UMA AMIGA DE INGLATERRA
«Ele irradiava uma espécie de hilaridade que condizia com o seu cabelo loiro e a sua figura elegante: era da mesma altura de Heather, que se conservava calada e recatada na sua companhia, como para lhe permitir ocupar o centro da cena que ela sentia dever inevitavelmente pertencer-lhe. Quando entrei na sala de visitas de Wimbledon, na semana seguinte, encontrei-o no meio de um grupo de mulheres embevecidas, porque as tias sucumbiram imediatamente e Dorrie [a mãe de Heather] tinha uma expressão de adoração no rosto. Tendo tido oportunidade de examiná-lo por um momento antes de ser apresentada, pensei que ele estava a desempenhar bem o seu papel, mas com um ligeiro exagero. Estava a explicar-se a si próprio como suponho que se sentia obrigado a fazer, e conseguia adiantar-se a todas as questões respondendo-lhes antes que fossem perguntadas. [...] O que senti, penso, naquele breve momento antes de ser atraída para dentro do círculo, foi que talvez estivesse a ser exibido demasiado encanto e que as expressões de arrebatamento que perpassavam pelas suas feições extremamente animadas eram talvez um pouco prematuras, um pouco deslocadas, e um pouco excessivas, comparadas com a calma sobriedade emitida pela própria Heather.»
Lendo este livro, e já a rascunhar mentalmente o post que não poderia deixar de lhe dedicar, antevi de imediato esta citação, que vêm de descobrir, como sendo a abertura do pano. Adoro a passagem: a apresentação, por Heather, de um noivo, como um rito de passagem; a descrição sumária do acontecimento como se de uma peça de teatro se tratasse; o à-vontade da personagem principal; o arrebatamento de um público ansioso, mas, simultaneamente, para um bom entendedor, digamos para um crítico céptico e cínico, a noção de um certo excesso, de um [quase imperceptível, ou mesmo imperceptível para o público vulgar] "overacting".
Quem é que, salvaguardadas as distâncias intransponíveis, nos lembra este modo de escrever? Ou descrever? Esta consciência de uma realidade que quase nos não é mostrada através de características físicas ou espaciais, mas de subtis movimentos, gestos, inclinações em que só certos observadores atentam, e que só os intérpretes de uma qualidade especial conseguem interpretar? Proust, é claro.
Com a diferença de que Proust é um clássico, e todos podemos referi-lo mesmo que nunca o tenhamos lido. Em contrapartida, uma mulher com semelhante tipo de inteligência e intuição neurasténicas, escrevendo este livro em 1987, dificilmente teria oportunidade de ser aceite pelo «grande público». Daí que o romance tenha praticamente desaparecido, e só por um inexplicável acaso eu tenha encontrado a tradução portuguesa, suponho que de 93, numa prateleira de uma Biblioteca.
Em si mesma, a história parece de uma grande simplicidade. É antes o aprofundamento dos caracteres, e a sua elevação a tipos inolvidáveis, o que possibilita um texto que se lê com invulgar prazer: isso e, naturalmente, o facto de nos equivocarmos: confiarmos tanto na versão que a narradora nos vai apresentando, que nos esquecemos de que ela interpretou o que agora rememora, e o fez à luz dos seus próprios sentimentos, nem sempre claros para ela mesma: a inevitável arrogância e superioridade em relação a Heather, de quem é amiga, mas sente, ao mesmo tempo, dever orientar e proteger, terão de esbarrar, em dado momento, na descoberta de uma Heather oculta sob a habitual e sóbria Heather. Que mistérios de autonomia e força se desvendam por baixo das figuras que fechámos, definitivamente, no que já decidíramos que são os seus limites e insuficiências?
Se posso aproveitar para explicar por que razão me vi tão aflito para escolher dez romances portugueses de 2012, eis, neste livro de que ora vos falo, um símbolo dos motivos do meu desajustamento.
Quando leio e escrevo sobre os que andam actualmente escrevendo [Dulce Cardoso, João Ricardo Pedro] vejo-me seguido por centenas de leitores. A sério. Alguns dos posts que faço acerca dos "actuais" chegam rapidamente às trezentas ou quatrocentas visitas. E, no entanto, que fazer? O que me move aqui continua a ser comentar livros invisíveis, textos a que chego por coincidências improváveis, ou por faro, ou por recomendação de amigos que muito prezo.
E, bem sei, este post, por exemplo, vai ter três leitores. Literalmente. Os fiéis. Não deve andar ninguém a pesquisar blogues em busca de Anita Brookner.
Mas era precisamente com ele que me apetecia principiar o ano de 2013.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
QUE TAL QUATRO LIVROS PORTUGUESES IMPERDÍVEIS DE 2012 - EM VEZ DE DEZ, OU MESMO CINCO?
A ideia, excelente, foi-me sugerida pelo meu amigo António.
O problema é que, ao longo de 2012, devo ter lido poucos livros publicados em 2012.
Mas «O Retorno», de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles que tenho de recomendar muito vivamente; o tema do retorno, que é interessante - e carece já vivamente de historiadores e romancistas que se lhe entreguem, para além do inenarrável Magalhães - é aqui tratado com toda a sensibilidade. E se a visão é parcial, ainda bem: sinal de que se encarnou a perspectiva do jovem narrador, que não poderia ser mais ampla nem mais justa do que aquela.
Outro, naturalmente, é «O Teu Rosto Será o Último», do inesperado e magnífico João Ricardo Pedro. Não vale a pena dizer mais - o post que lhe dediquei é ainda recente.
«A Boneca de Kokoschka», de Afonso Cruz, é também um romance muito recomendável em que, ao contrário de outros da sua autoria [disseram-me, que não lhe li os anteriores...] não se perdem personagens pelo caminho da narração.
Clara Ferreira Alves compilou as suas últimas crónicas em «Estado de Guerra»: para quem, como eu, é leitor assíduo de A Pluma Caprichosa, a reunião destes textos desiguais tem um efeito perturbador. CFA escreve sempre muito bem e interpreta o mundo com uma cultura e uma inteligência ímpares, mas se é brilhante na descrição de personagens ou de situações caricaturais do nosso país, torna-se facilmente insuportável nas exaustivas narrações das suas viagens.
Não consigo chegar a 10 - queria pelo menos alcançar os 5. Falta-me um?
Bem. Não chego lá. Lamento.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
ERSKINE CALDWELL: TOBACCO ROAD
Todas as falas das personagens falantes [porque a mudez, ou a quase-mudez, é uma característica de várias outras] estão impregnadas de Deus. É o Deus todo-poderoso do Antigo Testamento: curiosamente, o Deus omnipotente não parece mais do que um homem muito idoso e muito sábio, com lacunas que as criaturas não deixam de lhe apontar. A pregadora, por exemplo, Sister Bessie, considera que talvez seja preferível deslocar-se, ela própria, a casa de Lov, a fim de explicar à jovem esposa deste - na verdade uma criança - como deveria comportar-se com o seu marido, ao invés de esperar que Deus lhe fale. Afinal, uma mulher percebe mais de assuntos de mulheres do que um homem. E Deus, por muito omnisciente que seja, não deixa de ser um homem!
Somos postos cruamente em face dos habitantes de casebres dispersos nas imediações de uma antiga estrada de tabaco. Pertenciam a um plantador que partiu, permitindo aos seus ex-trabalhadores que nelas continuassem até ao desabamento. O tempo é o de uma crise inclemente, e estas famílias do sul dos Estados Unidos da América, sem recursos de nenhum tipo, afundam-se numa espécie de vida primitiva, onde os instintos são os únicos instrumentos de adaptação e sobrevivência. Parece uma condenação. O solo desertificado não produz, o trabalho escasseia, as famílias aglutinam-se em barracões imundos, com idosos que se agarram desesperadamente à vida, recusando-se a morrer, e filhos que se multiplicam, para no entanto desaparecer cedo: uns, de morte prematura, outros casando também prematuramente, isto é, aos doze ou aos treze anos, mas a maioria fugindo para Augusta, a cidade próxima.
Compreendo por que sempre ouvi referir este romance como o contraponto de As Vinhas da Ira: aqui, o trágico nada tem de heróico; não há uma luta prometeica contra as agruras ou por uma vida melhor, mas, pelo contrário, o abandono a uma preguiça fundamental e a uma impotência para mudanças radicais: quando muito, um excesso de sonhos impersistentes ou de projectos continuamente adiados.
Neste mundo em que a fome é uma condição perpétua, que debilita e se manifesta na companhia constante de ruídos no estômago; onde a religião é um espeto de culpa e remorso nas consciências, mas não impede que o furto seja um expediente corriqueiro; em que os pais mal conseguem recordar os nomes de todos os filhos que os deixaram, embora alimentem a esperança de que algum possa ter enriquecido, e regresse para os auxiliar; em que se tornam de uma importância crucial o tabaco de mascar [em rigor, dizem-me que se trataria de uma espécie de rapé: o termo inglês é "snuff"] ou uma roupa decente, «de estilo», com a qual possam ser enterrados (apesar de ser a mesma gente que em vida usa andrajos, calças de ganga sobre o corpo, e anda descalça, ou improvisa sapatos: a avó traz, amarrados aos pés, cascos de mula), «neste mundo», escrevia eu no início do extensíssimo parágrafo, pouco mais há a esperar.
Não vejo propriamente malfeitores; vejo este velho Jeeter, preguiçoso e cobarde, que ninguém respeita, ou vejo estas mulheres [a mãe, a avó] cujo desespero faz pegar em paus para afastar, violentamente, de um saco de nabos, o seu legítimo proprietário - um homem que palmilhara muito caminho para os ir comprar por bom preço; entretanto, a rapariga de lábio leporino já se arrastara sedutoramente até ele, para levá-lo a esquecer-se do dito saco e a deixá-lo por um momento desprotegido. No caso da rapariga, também porque à sua fome se acrescenta uma fome de sexo, própria de uma adolescente feia e indesejada. Mas que culpa têm os Lester do seu comportamento? Todos deviam saber que é errado aproximarem-se da sua cabana quando se traz alimento: os Lester, essa matilha famélica que se une, numa complexa manobra de cooperação, para furtar o que quer que acalme os roncos do estômago.
Este é o livro por mim desejado há muitos anos. O livro de que a minha mãe me falava e que eu, muitas vezes, tentei comprar - sempre em vão; não creio que esteja traduzido em português. Encomendei-o, recebi-o, por fim, e leio-o para preencher também uma fome antiga, semelhante às dos Lester. Erskine Caldwell é, aqui, absolutamente brilhante. Esta novela tem qualquer coisa de peça de teatro: a quase unidade da acção, a quase unidade de espaço (com excepção das breves e impagáveis deslocações que se fazem até à cidade de Augusta) e quase a de tempo. Ao longo de vários capítulos, narra-se o regresso de Lov, que fora comprar um saco de nabos [os "turnips"; «nabos», não é?]; a passagem por próximo da casa dos Lester, que o observavam, atentamente, há muito; e a tentativa de estes se apoderarem dos nabos. É esta primeira parte [seguida pela chegada da extraordinária pregadora, Sister Bessie, tanto para dar um sentido religioso ao arrependimento do velho pai ladrão, como para comer alguns dos nabos restantes e conseguir um marido] que serve de fio condutor, agregador de muitos pormenores, a partir dos quais nos vai sendo apresentada a história e as causas cruéis do estado presente daquelas vidas.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
JACQUES BARZUN: DA ALVORADA À DECADÊNCIA
Jacques Barzun faleceu este ano.
João Pereira Coutinho, um jovem conservador inteligente, culto e com sentido de humor, numa crónica referiu-o conjuntamente com Gore Vidal, sublinhando a morte próxima de ambos como uma drástica perda para a cultura.
Sobre Vidal, tenho pouco a dizer: infelizmente, nunca fui capaz de ler até ao fim nenhum dos seus livros. Se há autor maçudo e desinteressante, à luz das minhas tentativas sucessivamente defraudadas de me entusiasmar com o que escreveu, é este romancista norte-americano.
De Barzun, pelo contrário, lera um livro esplêndido, The House of Intellect. Meu primo recomendara-mo e ofereceu-mo, chamando a atenção para a agudeza da crítica às tendências erróneas do sistema de ensino - e isto muitos anos antes de essas tendências se terem tornado moda, e uma moda absolutamente devastadora. O pânico em relação à exigência e ao rigor, a rejeição da frustração como factor de aprendizagem e de crescimento, os ensinos "facilitadores", em suma, o «eduquês», eram já sagazmente detectados e analisados, e as suas consequências (à época, ainda não totalmente previsíveis) antecipadas com uma fundamentação persuasiva.
Mas meu primo dissera-me que, se The House of Intellect era uma livro a não perder, já o "resto" da obra da Barzun parecia dispensável, como se este se tivesse esgotado na sua obra-prima.
Li, porém, recentemente, do mesmo autor, uma história do pensamento, de 1500 até aos nossos dias, chamada Da Alvorada à Decadência; lamento discordar do meu primo: é uma obra que merece a leitura por várias ordens de razões: pela clareza do texto, antes de mais, sem pedantismos nem, por outro lado, excesso de simplicidade ou pouca substância. Pela originalidade e pelo brilho da tese que subjaz à obra - como se depreende do título, a ideia de que não assistimos a um "progresso" do pensamento, mas, pelo contrário, a uma "queda": uma decadência da qualidade, da profundidade, da riqueza intelectual, substituídas por mecanizações do raciocínio e por uma visão científica estreita, herdeira e radicalizadora do divórcio entre dois mundos culturais (as ciências e as humanidades). Finalmente, pela apresentação de pensadores pouco conhecidos, mas inovadores e criativos [Veja-se o caso de Fénelon ou de Beddoes, ou do estimulante Hazlitt], os quais, em diversas àreas [na religião, na filosofia, nas artes, nas ciências, na política], sob o olhar, muito pessoal, que Barzun nos oferece da história da cultura, teriam constituído figuras e momentos essenciais na marcha do Espírito.
Há citações, a negrito, à margem, tanto dos próprios pensadores tratados, como de comentadores, que não sublinham nem repetem a explicação, mas acrescentam algo; há uma identificação dos temas ou dos conceitos que vão surgindo no tempo, e guiando a razão; há uma desmontagem contínua e provocadora das leituras, sobre a história, que se tornaram dominantes e a história consagrou como leituras oficiais da história. Há níveis variados de reflexão, que nos interpelam, e são motivo de discordância do leitor, ou da ampliação e da reformulação dos conhecimentos que tínhamos por assentes.
E, portanto, sinto-me em condições de, relativamente a Barzun, gratamente contrapor, à descoberta que o meu primo me proporcionou, uma descoberta que este não pode ignorar. Da Alvorada à Decadência é um livro a não perder.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
AFONSO CRUZ: A BONECA DE KOKOSCHKA
Quando se fala de uma nova geração de romancistas contemporâneos portugueses, que domina a «cena» literária, ocorrem-nos invariavelmente os nomes de Gonçalo M. Tavares, de José Luís Peixoto, de João Tordo, de valter hugo mãe. Agora, bruscamente, talvez também de João Ricardo Pedro, mais jovem. Ou Dulce Cardoso. Por que há tão poucas mulheres nesta vaga?
Percebe-se, por outro lado, que os meus horrendos preconceitos não me têm permitido incluir autores que considero muito menores - e ia referir dois que, pensando bem, prefiro calar. O Ondjaki e o Jacinto Lucas Pires.
Porém, alguns nomes, ainda pouco escutados, principiam a notar-se - geralmente através de prémios. Está provado que o começo do reconhecimento depende de que se ganhe um prémio literário.
Um desses nomes é o de Afonso Cruz.
Apesar de alguma curiosidade, porque já dera com certa menção aqui, outra além, umas críticas interessantes a obras suas, não me decidira ainda a lê-lo. Li-o agora, num par de dias, porque descobri que uma das últimas aquisições da Biblioteca da minha escola fora, precisamente, A Boneca de Kokoschka.
A Boneca de Kokoschka é um livro brilhante de inventividade: uma escrita muito bela, poética, que faz lembrar o tom aforístico de um Gonçalo M. Tavares, uma incursão descontrolada e, portanto imprevisível por um mundo de referências da história contemporânea, empregando nomes de personalidades reais para as suas personagens (também à maneira de GMT), deixando-nos sempre no limiar de uma indecisão entre o que sejam os aspectos reais e os aspectos ficcionais das biografias delas, e um grafismo absolutamente delirante, que recorre ao desenho e a letras manuscritas (não posso deixar de referir: também como em GMT: veja-se a série Os Senhores...) compõem uma história maravilhosa, de articulações intrincadas e subtilíssimas, que lemos sem conseguir respirar.
Não refiro a proximidade a Gonçalo Tavares com o intuito de desmerecer Afonso Cruz - mas de sugerir que GMT criou uma voz riquíssima, de uma originalidade ímpar, que, não tendo propriamente imitadores, já influencia, já sopra subterraneamente, já insipira jovens autores capazes de levar muito longe a herança recente. É o caso.
É interessante a ideia, sobretudo [e espero que este não seja um elemento cuja antecipação perverta o prazer da leitura] de se nos narrar a forma como diversas personagens acabam indo em busca de alguém, um tal Mathias Poppa, que teria escrito um livro, publicado, na época, por uma editora obscura e marginal, Eurídice! Eurídice! E, por fim, um derradeiro exemplar do livro é encontrado -ora, a meio das páginas que estamos lendo, insere-se o livro: apresentado até graficamente como um livro dentro do livro, com capa, título, editora (a dita Eurídice! Eurídice!) e até, imediatamente a seguir, numa espécie de badana interior, uma breve referência bibliográfica ao autor: Mathias Poppa, claro, e não Afonso Cruz.
É uma obra híbrida, em diversos sentidos da palavra. A linguagem do cinema está-lhe subjacente - só perante um guião, uma sequência cinematográfica, seria possível este olhar que se vai aproximando das situações, para adiante as retomar de um outro ângulo [como em "Elephant", como em "Memento], recuando ou progredindo ao longo de uma linha temporal, sobre cujos momentos se incidem diferentes planos. O que é, de resto, uma estratégia que tende a multiplicar os fios; diria, aliás, que o pecado deste romance está precisamente na necessidade que Afonso Cruz encontra, à medida que se aproxima do fim, de explicar exaustivamente articulações, recolocar pontas soltas, retomar fios que seriam ou não coincidências - e a obra acredita que não sejam, porque todas as coincidências são simplesmente aquilo a que o observador não consegue dar um sentido que, no entanto, o teria como parte de um plano mais elevado e desconhecido.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
IRVIN D. YALOM: O PROBLEMA ESPINOSA
Yalom, psicanalista norte-americano de ascendência russa e judaica, tornou-se conhecido como autor de vários romances, vagamente históricos, acerca de figuras importantes da filosofia. O seu livro sobre Nietzsche, por exemplo, lê-se com algum interesse, bem como o seu livro sobre Schopenhauer. Em ambos, está presente o que poderíamos definir como uma «psicanálise arcaica»: antes de Freud ter estabelecido a sua teoria, filósofos como Nietzsche ou Schopenhauer, convertidos em personagens literárias, são apresentados nos seus mais íntimos debates emocionais, procurando que aflorem, à consciência, sofrimentos enquistados e inconscientes.
Em geral, os romances de Yalom seguem dois tempos - nos nossos dias, certa personagem identifica-se com o problema do filósofo em causa, é levado a ler a obra deste, e a perceber, nos textos, o processo filosófico que funciona como uma terapia, que o auxilia também.
Com "O Problema Espinosa" estamos perante o mesmo método.
Por um lado, Baruch [ou Bento] de Espinosa é o extraordinário pensador judeu que, por amor à razão e por desprezo por todos os "idola" e superstições, acaba sendo excomungado pela comunidade judaica de Amsterdão, onde se radicara.
Por outro lado, séculos após Espinosa, Rosenberg, uma figura importante do regime nacional-socialista (embora suscite sentimentos ambivalentes entre os próprios líderes nazis), descobre a importância filosófica «deste judeu». Descobre-a através de Goethe! Descobre-a através do testemunho de admiração pela filosofia de Espinosa, expressa por alguns dos expoentes da Literatura alemã, ariana. Em diários, na correspondência, referem o pensamento de Espinosa como tendo-lhes devolvido a paz de espírito e uma inesperada intimidade com o segredo da Natureza.
É porventura verdade que, para quem não conheça Espinosa nem se interesse por filosofia, este romance possa ser inutilmente complexo: perde-se em longas discussões entre as personagens, a propósito de Deus, do judaísmo, de um radicalíssimo determinismo; mas para aqueles a quem a filosofia ilumine [sobretudo para aqueles a quem a filosofia de Espinosa interpele], a obra faz todo o sentido - reconstitui um Espinosa historicamente possível e muito interessante, até nas suas contradições. Há uma dedicação e uma penetrante compreensão deste homem, que se entregou inteiramente ao pensamento, lutando contra as paixões, em busca do conhecimento perfeito do ser perfeito, de uma visão, de uma "theoria" libertada de todos os preconceitos, mas que, na prática, não teria superado os seus próprios preconceitos. Como é natural; e um exemplo é o da sua posição retrógada acerca das mulheres.
Yalom é, pois, uma vez mais, o psicólogo subtil e profundo, o psicanalista experiente, o estudioso próximo dos homens concretos e das questões abstractas da filosofia.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
ROBOT IGNORANTE
Já vos sucedeu tentarem fazer um comentário a certo "post", num blogue, e, para que haja a certeza de que «você não é um robot» [isto faz sentido?], mostrarem-vos um conjunto de letras - umas letras ilegíveis, que terão de copiar para que o vosso comentário seja aceite?
Já, bem sei que sim.
Mas já vos aconteceu não perceberem as letras? Eu sei, elas mudam. Mas já aconteceu não perceberem o segundo conjunto? Nem o terceiro, nem o quarto? Com o «sistema» repetindo: «Não corresponde, tente de novo»?
Ter-vos-á sucedido, como a mim, desistirem à vigésima tentativa, com um palavrão e um gesto de raiva?
Das duas uma: ou o sistema é mau. Ou fica provado que sou mesmo um robot e não o sabia.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
WALTER BENJAMIN
Graças às leituras que uma amiga tem vindo a fazer para o seu doutoramento, e de que me dá regularmente conta, redescubro o meu amado Walter Benjamin.
Acredito que o meu primeiro contacto com a obra tenha sido feita através de uma tradução francesa, que comprei numa fnac, em Paris - ainda em Portugal se não sabia o que era isso de "fnac": podem, portanto, calcular os anos.
Desde o primeiro momento, para mim, Benjamin foi uma conjugação em que nenhum elemento se poderia desprezar: a figura, como um ícone, remetendo para um misto de Trotski e Chaplin, com os caracóis despenteados, os óculos redondos, de aros filiformes, o bigode: a expressiva timidez, o olhar típico e paradoxal de um observador atento e distraído; depois, o seu marxismo heterodoxo, numa altura em que o meu próprio marxismo ousava ensaiar alguns desvios na ortodoxia; finalmente, a inteligência brilhante e vasta, que acertava nas questões interessantes muitos anos antes de eles começarem a estar na ordem do dia, a sua circulação pelos assuntos da poesia e do romance, da política, da cultura, da teoria da arte ou da filosofia.
Como relativamente a Zweig, culturalmente semelhante a Benjamin em tantos aspectos - e tão dissemelhante em outros -, intimida-me e angustia-me imaginar o que poderá ter conduzido estes espíritos brilhantes a decidirem pôr termo à vida. Que a sua condição de judeus perseguidos por um regime patológico os tenha feito sofrer experiências físicas - e psicológicas, e intelectuais -, que os marcaram para sempre possa ser a resposta, nada me explica.
Mas todas as suas teses são de uma originalidade absoluta. Lê-se Benjamin com uma alegria da descoberta e da aprendizagem que, na filosofia, me parece vizinha da que Nietzsche proporciona, ou Montaigne, mas poucos mais. A mesma euforia das intuições, a iluminação breve e contagiante, o prazer do modo de expressão certo, frequentemente aforístico, a que não se pode acrescentar ou retirar o que quer que seja.
Benjamin estava esquecido. Esquece-se facilmente, como tudo o que exige trabalho e não está nas bocas do mundo. Mas permanece sempre a um passo da redescoberta, e a redescoberta dá-se com a curiosa sensação de que, de facto, só aparentemente o esqueceramos. Obrigado, Ana, por mo teres devolvido.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
PEDRO MEXIA
Quando falo do saber enciclopédico de Mexia, não me limito à fórmula comum. Ele é o intelectual que oscila tranquilamente entre Tintim ou o Surfista Prateado, e Eça de Queirós ou Virginia Woolf. E já sabemos que, para nos limitarmos aos três temas eleitos, abdicámos cruelmente de outras possibilidades da conversa - o cinema, o teatro, a rádio, a psicologia, até a filosofia, ou a economia. Isto é, Pedro Mexia representa, em Portugal, o que mais se aproximaria de um homem do Renascimento.
Que os livros deste homem inteligente e culto sejam tão pouco procurados, pode até não espantar. Mas é procupante. Que as editoras optem por destruí-los - guilhotiná-los - em vez de os enviarem para bibliotecas ou escolas, é imperdoável. Mas é o que sucede: procurando pela poesia de Pedro Mexia, discreta e perfeita, fui saindo, de sucessivas livrarias, com as mãos a abanar.
Mexia não tem romance. Tem teatro, mas duvido que o achem. Tem sobretudo livros que reúnem algumas das suas crónicas mais sagazes (que o são todas elas, de resto) ou compilações dos posts dos seus blogues. Oferecem-nos momentos impagáveis de observação, teoria, sensibilidade e humor. Poesia, já só talvez pesquisando na internet - descobrindo-a pelo menos aí, ou pedindo-a emprestada às bibliotecas, que para isso servem...
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
NIETZSCHE: ESTA PERGUNTA SERIA DE UM DEUS OU DE UM DEMÓNIO?
«O maior peso. Como seria, se um dia ou uma noite um demónio imperceptivelmente se arrastasse até à tua mais isolada solidão e te dissesse: «Esta vida, tal como a vives agora e tens vivido, terás de vivê-la uma vez mais e mais vezes sem conto; e não haverá nela nada de novo, mas sim te hão-de voltar cada dor e cada prazer, e cada pensamento e suspiro, e tudo o que é indizivelmente pequeno e grande na tua vida, e tudo na mesma ordem e sequência, e de igual modo esta aranha e este luar entre as árvores, e também este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência está sempre de novo a ser virada, e tu com ela, ínfimo grão de pó da poeira»; a questão em relação a tudo e todos, sobre se "queres tu isto uma vez mais e mais vezes sem conto?" permaneceria com o maior peso sobre as tuas acções! Ou então como terias de te sentir bem em relação a ti próprio. Não te lançarias ao chão, rangendo os dentes e amaldiçoando o demónio que assim falava? Ou experimentaste alguma vez um portentoso instante, em que lhe responderias: «Tu és um deus e eu nunca ouvi nada de mais divino!» [...]»
Nietzsche, A Gaia Ciência
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
LIVROS QUE TEREI DE LER [mas não estão traduzidos e não tenho conseguido encomendar no original]
2. Tobacco Road, de Erskine Caldwell (de que a minha mãe me falava tanto: espécie de contraponto sarcástico a Vinhas da Ira...)
3. John Ruskin (apesar de gentis contributos, dos meus leitores, sobre como chegar à sua obra, o certo é que ainda não consegui lê-lo. Outra influência de Proust)
4. Henrique IV, de Luigi Pirandello (considerada, por Bloom - o Harold, não o Allan - uma obra nos píncaros do génio.)
domingo, 19 de agosto de 2012
AINDA SOBRE MIDDLEMARCH
A minha amiga Andy, sob efeito do entusiasmo que, ao longo de uma tarde inteira, me fez falar obcecadamente acerca de Middlemarch, decidiu dar início à leitura da obra.
À noite - nessa noite ou noutra, sinto-me incapaz de precisar - vinha frustrada.
O estilo parecia-lhe "old-fashioned" [Andy, esposa de meu incontornável primo, é norte-americana]; na comparação com Jane Austen, George Eliot soava-lhe pouco convincente.
Ralhei-lhe pela comparação. Eliot é Eliot. Pedi-lhe que não desistisse.
Hoje, tinha um mail, que me enviou do Algarve: está - como eu esperava - a gostar imenso de Middlemarch.
Explicava-me a razão das comparações: embrenhando-se em território novo, precisa de uma referência - provavelmente com características semelhantes, de época, cultura, género ou outras - para saber o que está a perder e o que está a ganhar, para saber o que pedir e como progredir.
Afirma que as personagens de Eliot são muito mais profundas, extremamente bem trabalhadas, carregadas de ângulos e subtilezas - «quase», escreve, «como em Proust»; rematando, porém: «But Proust is still the best».
A tudo o que tenha já referido sobre Eliot, gostaria de acrescentar este pormenor. Observem a qualidade com que a autora pega naquilo a que chama, em dado ponto, «o recanto perturbador da consciência»; atentem na maneira como, em redor da previsível proximidade da morte do chantagista, o chantageado, que está a sós com ele, e a quem a sua morte conviria, e que pode ou não cumprir a prescrição do médico, ou dar-lhe a beber o álcool que lhe será fatal, não sabe realmente o que o move; até que ponto os seus actos são deliberados, e culpados, ou devidos a uma suspeita série de inadvertências e esquecimentos: há fronteiras tão ténues, a auto-consciência tem tantos alçapões e espelhos...; e observem, nos diálogos, a laboração do "equívoco": o leitor sabe [é um exemplo] o que Doroteia pensa e quer, o leitor sabe o que Will pensa e quer, o leitor sabe que eles se amam [embora Doroteia não entenda que o que sente é amor, senão muito tarde] e, portanto, é com alguma inquietação que seguimos a conversa em que se enganam completamente, só porque nenhum dos dois pode ler o outro à transparência; nenhum deles pode senão "interpretar" palavras que, mesmo que sinceras, nunca dizem tudo e acabam sempre sugerindo possibilidades diferentes, e até opostas às que o emissor pretenderia que se compreendesse.
E aqui, sobretudo aqui, Eliot é do melhor que tenho lido.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
GEORGE ELIOT: MIDDLEMARCH
Middlemarch foi recentemente reeditado em português - porventura pela Relógio d'Àgua, mas não estou certo.
Pensava há muito ler este romance; vê-lo exposto nas livrarias, volumoso, apetecível, convidativo, pôs-me em estado de caça, como um vampiro captando o odor de uma jovem de bom sangue.
Um pormenor: a novel edição custa 30 Euros.
Não discuto se é caro, se as editoras são empresas geridas por glutões, se é justo para o leitor, se, pelo contrário, não há preço que pague um livro. Ou se ou se. A minha questão é de natureza diversa: pessoalmente, não posso dar-me ao luxo de desembolsar 30 Euros por nenhum livro, mesmo sabendo que para mim não se trata realmente de um luxo mas de um bem de primeiríssima necessidade. Assim, se este blogue de um leitor voraz mas esmagado pela crise, pode contribuir para que os seus seguidores sejam postos perante algumas pistas que os conduzam aonde e a como ler o que queiram gastando menos, então eis o que fiz. Nada de transcendente, aliás: dirigi-me à Biblioteca Municipal de Oeiras. Middlemarch não está à vista, mas no depósito encontra-se a tradução extraordinária, dos anos 50 ou 60, que me introduz na força deste romance escrito por uma mulher que assinava com um pseudónimo masculino.
Nos grandes escritores britânicos do século XIX, como James [porque, para os efeitos que importam, considero Henry James um escritor culturalmente britânico; e por alguma razão acabou por se naturalizar inglês] ou Hardy, notamos um vínculo vivíssimo, um ar de família, que dificilmente se analisaria, mas tem que ver com a inteligência irónica dos diálogos, um certo gosto pela boutade, a perfeição no descrever de lugares ou caracteres, a exposição do ridículo em que se revelam as inflexíveis hierarquias sociais britânicas ou o trágico de sentimentos que explodem, contrariando e desafiando, romanticamente, essas hierarquias. Lendo Middlemarch, descobrimos, encantados, onde reside um dos fundadores, uma das raízes próximas desse "tom" subtil, que vai descrevendo, vai narrando e, simultaneamente, reflectindo acerca das pessoas e dos actos.
"Middlemarch" é o nome de uma pequena cidade de província. Em torno das personagens centrais de Middlemarch Town, as famílias de prestígio, com os seus renhidos e em geral inconsequentes conflitos por influência política ou social, as suas filhas ou filhos casadoiros, os eclesiastas de religiões rivais, o grupo de médicos antigos, agastados pela presença de um doutor jovem, recém-vindo, as reuniões de salão nas casas importantes, George Eliot cria uma história em que se conjugam, necessariamente, diversas histórias e sub-histórias, nenhuma das quais é menor em interesse. Fá-lo com aquela noção do "todo" complexo, tão cara à literatura do século XIX: como se erguesse uma monadologia em que cada mónada é uma obra completa e fechada em si mesma, mas de um ajustamento rigoroso à estrutura em que se completa.
É um romance sobre o eterno equívoco entre gerações, e sobre o eterno equívoco a que se chamou amor. É, como em Karenina ou Bovary, ou na Luisinha do Primo Basílio, um romance acerca das virtudes nefastas dos casamentos: e, naturalmente, sobre esses fogos fátuos que são as paixões interditas, aparecendo inopinadamente para atiçar o lado inconformado de todos [quase sempre: todas] os que se confrontam com a realidade quotidiana, medíocre e sem chama, do que, um dia, parecera o casamento ideal.
Há uma preocupação com o estilo que nunca é fatigante (como ocorre, por vezes, em Henry James); uma impressionante sageza de como suspender uma personagem, ou uma situação ou uma trama, para retomar outras, e como, mais adiante, regressar às que nos tinham deixado saudades ou em cuidado; e há, sobretudo, a voz do narrador, que nos encanta e de quem nos tornamos imediatamente cúmplices: esse narrador assexuado, mas que tão bem conhece os homens e as mulheres, omnisciente, de certa forma, mas não divino, porque se engana e retrocede - como quando, num delicioso capítulo, principia a falar de Doroteia e, de súbito, se interrompe para se interrogar: Mas por que estamos constantemente a falar sobre Doroteia, como se não houvesse nada a dizer sobre o senhor seu marido? E toma-o, então, como centro da sua narração ao longo do capítulo.
Middlemarch é um romance imprescindível. Faz parte de um clube restrito. Poderíamos nunca descobri-lo, e talvez nem todos o amem como eu o amo já. Mas faz parte de um clube restrito e altamente selectivo: é uma dessas obras que, mais tarde ou mais cedo, terão de ser lidas.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
NOEL ROSA: CONVERSA DE BOTEQUIM
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
Telefone ao menos uma vez
Para três quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
ANDRÉ GIDE: JOURNAL
Meu avô lia livros em francês.
Eram uns volumes da Gallimard, que ora lhe via entre as mãos, ora pousados em mesinhas de cabeceira, do formato e da espessura certos, com as capas que, quando não forradas, deixavam ver os títulos e os nomes de autores que, naturalmente, me fisgavam o interesse desde então: Pascal, Proust, Alain.
Sobre Proust, estamos conversados: quando, muito mais tarde, principiei a lê-lo com intenção e possibilidade de chegar ao fim, percebi que nunca mais lhe preferiria nenhuma outra obra na vida; acerca de Alain, não estamos minimamente conversados: continuo à procura dos volumes dos seus Propos; tento, periodicamente, encomendar o primeiro, ou o segundo ou qualquer um, ansioso por compreender o fascínio que a filosofia leve, mas não superficial, fragmentária e perspicaz, de um professor de província [ou estarei totalmente equivocado?] poderia ter exercido sobre o meu cosmopolita avô.
Comprei e venho lendo, por estes tempos, o Journal, de André Gide: não o diário na íntegra, que terá milhares de páginas, mas páginas sabiamente escolhidas, e convenientemente apresentadas, de forma a penetrarmos no espírito de Gide, como se entrássemos em sua casa. Porque Gide é particularmente acolhedor: e, falando do seu árduo treino de piano, da sua escrita, da sua inquietação perante a dificuldade, em certas fases, que essa escrita lhe custa, ou da sua fé e das suas crises ou das suas leituras [interessantíssima a referência a uma "constelação" de afinidades, de que fariam parte Nietzsche, Dostoievski e Blake] e, sobretudo, das suas conversas, senta-nos à sua mesa, viaja connosco na carruagem que nos faz ver, aproxima-se no seu génio e na sua fragilidade. Às vezes, com o pequeno livro nas mãos, sinto-me regressado à infância: tornei-me, de certa forma, o meu avô: este livro, que sublinho, que cheiro e temo estar lendo demasiado depressa, arriscando-me a concluí-lo de um momento para o outro, faz parte daquela "constelação" de livros a que a imagem do avô me estará para sempre associada.
Relativamente a Gide, mantinha, até agora, uma reserva tensa. Custava-me que fosse um dos responsáveis - aliás, parece que o principal - por que a obra de Proust não tivesse sido inicialmente publicada; custava-me a leitura que fez de "À la Recherche", tratando-a como a série interminável de descrições de bailes, nos salões aristocráticos de Paris. Lendo o seu diário, entendo-o um pouco melhor. Percebe-se que Gide é penetrante, e que tem sempre razão nas suas reflexões - isto é, pelo menos uma certa razão, mesmo nos casos em que o tempo viria mostrar que, no essencial, a sua visão estava errada. Há sempre qualquer coisa de subtil e profundo que ele "capta"; saber se essa "captação subtil e profunda" é o importante, o que há-de contar, isso depende mais do porvir, do sentido do porvir, ou do que a História, na sua parte de acaso, acabar por distinguir...
Tudo o que Gide diz a respeito de Proust, nomeadamente da sua relação enganadora com a homossexualidade, é absolutamente correcto. Que o acuse de, na sua obra, tratar falsamente a homossexualidade, expondo-a num retrato que guarda dela unicamente o cómico e o sórdido, transferindo toda a beleza e inocência para as relações heterossexuais, é indiscutível. Que Proust tem de ser lido para além disso, porém, no sentido em que a sua obra é inesgotável e infinitamente superior a esse aspecto, é uma evidência que André Gide recusou. Eu diria que a sua homossexualidade, assim confrontada, não lhe possibilitou ser um leitor total...
domingo, 29 de julho de 2012
GLENWAY WESCOTT: O FALCÃO PEREGRINO
Li-o, sob o estado de graça proporcionado pelo facto de haver sido um livro recomendado por um leitor de primeira qualidade: Pedro Mexia.
Gosto muito de Pedro Mexia, poeta e ensaísta, cinéfilo e radialista; procuro-lhe os livros, as crónicas, oiço religiosamente o programa em que, na TSF, colabora com Carlos Vaz Marques e o mais que brilhante Ricardo Araújo Pereira.
O livro em que PM me aconselhava um outro livro é a compilação dos textos do seu blogue, "Estado Civil". Chama-se precisamente "Estado Civil" e merece, também, uma palavra a que um dia me não furtarei. Furto-me hoje, para falar do tal romance que ele refere, aí, com uma paixão contagiante.
Não conhecia "O Falcão Peregrino", nem conhecia o seu autor, Wescott, da geração de Fitzgerald.
"O Falcão Paregrino" é um romance breve: ou uma novela longa?
Não importa. Importa reconhecer a mestria com que, na extensão justa, como num poema em que nada pode ser acrescentado ou suprimido, o autor vai desenvolvendo uma trama de relações que se cruzam e, no arco de uma tarde, acabam por revelar segredos, tensões que se ocultavam, intimidades que se mantinham sob papéis estabelecidos. Algo no género de "Quem tem Medo de Virgínia Woolf'?", que é um dos meus filmes predilectos: um casal visita um outro casal. [No "Falcão", o casal que recebe é um casal de circunstância, uma vez que se trata do narrador e de uma amiga, que ele próprio visitava, tal como o casal que entra depois em cena está, também, de visita].
Os visitantes são intensos e dramáticos. Ele, de uma comicidade e à-vontade que mascaram raivas e ciúmes longamente recalcados, ela, a proprietária do falcão, aristocrática e histriónica, absorvida pelo falcão que seria, ali, o protagonista dominante, simbólico, prisioneiro altivo, a própria figura de um instinto perverso, indomado - mas, por isso mesmo, frequentemente desadequado e ridículo no seu encarceramento.
Enquanto, na sala, um drama se desenrola na sua linha febril, «lá para dentro» [na cozinha] outras personagens vivem uma linha dramática paralela e quase subterrânea, de que por fugazes momentos nos chegam sinais. [O cozinheiro e a criada residentes, espanhóis, e o "chauffeur" dos visitantes.]
Mas nos desenlaces das duas linhas, que nunca compreenderemos muito bem, ou compreenderemos de forma diferente porque cada leitor construirá, daquela história, uma história pessoal, uma interpretação possível, culmina uma narração contida mas não linear, uma intensificação de segredos que perpassam e de histórias sob a história, que não são contadas e, no entanto, marcam aquelas personagens, e as suas relações, e os seus actos.
O génio está na contenção. Na forma de "simbolizar" sem reduzir nem fugir à descrição de uma realidade plausível. De certa forma, na beleza da linguagem. Na capacidade de reunir tanto em tão pouco, de modo a sugerir e a quase revelar, deixando, no entanto, tanto por revelar. O génio está, até, na simplicidade do que tem inúmeras leituras, e camadas, e cavernas. Como pode este homem ser praticamente um desconhecido no meio de uma geração tão marcante de escritores norte-americanos? Porque era pior que os demais? Porque os seus romances não acertaram no gosto do público da época?
segunda-feira, 25 de junho de 2012
COLLEEN MCCULLOUGH: PÁSSAROS FERIDOS
Lembram-se de Richard Chamberlain? Foi o "Dr. Kildare". Mais tarde, provavelmente nos anos oitenta, representava o papel de Padre Ralph de Bricassart na sua veloz subida pelos patamares da hierarquia da igreja católica, apostólica, romana. A série televisiva em causa chamava-se Pássaros Feridos.
Talvez por causa de Chamberlain, que era um canastrão, ou por força da inevitável analogia com outras séries norte-americanas exibidas pela mesma altura, todas elas demoradas sagas que se moviam sob a ideia fixa de alguma família poderosa e conflituosa, nunca o romance Pássaros Feridos me suscitou a menor curiosidade. Apesar de o ter comprado, há anos. Principiei a lê-lo no outro dia tão-só porque ali estava ele, em alguma estante remota; e porque (é verdade), em tempos de crise, tomei a sábia decisão de comprar menos e "reler" mais ou, alternativamente - foi o que aconteceu - descobrir obras que, por isto ou por aquilo, fora deixando para trás.
Pássaros Feridos narra uma história que desperta ecos de muitos romances de que gostei. Não o digo para o diminuir, como se se tratasse da maçada de andar a tropeçar, página a página, no "déjà-vu"; digo-o para o enaltecer: o facto de beber em outras fontes (e que fontes!) não significa aqui senão que Colleen McCullough teve o anseio de escrever um clássico. O seu modelo é certamente reconhecível: mas é notável como, buscando, para as suas ideias ou para as suas personagens, algumas das referências mais belas e mais intensas da literatura contemporânea, constrói um romance de uma pujança e de uma autenticidade que não deixam partir o leitor sem se cravarem fundamente.
A primeira das grandes obras para que esta remete é Lolita. Aí encontra a substância do amor obsessivo de um homem maduro por uma criança. É o rasgão com o "politicamente correcto", a ousadia de tocar no inaceitável, não o tornando aceitável mas compreendendo-o, sempre no limiar do pavor do pecado; ainda mais porque se fala de um padre, isto é, de uma pessoa para quem a ideia de pecado não é desprezível.
Outra das grandes obras seria O Monte dos Vendavais: pela personagem atormentada, o filho rebelde e renegado, com o seu fervor de vingança, o seu desamor envolvendo um amor incompreendido e impossível; ou pelo magnífico tema - dificílimo de tratar - de um "falso casamento": um casamento de conveniência, que corroerá os que o escolheram como hipótese de esquecer o amor impossível. Mas vejo ali, também, evidentemente, E Tudo o Vento Levou: a mesma grandeza de espaços de que se erguerá uma Nação (no caso de Pássaros Feridos, a Austrália, no outro, os EUA), e o mesmo tipo de relações tumultuosas e equívocas, no âmbito de uma família que procura apoiar a filha de certo modo rebelde, mas também dirigi-la, manipulá-la.
É um romance vagaroso e vigoroso. Sem tempos mortos nem, o que me parece ainda mais difícil, momentos precipitadamente resolvidos. Cada nova perturbação, ou escolha, desenvolve-se num rumo suplementar, um fio mais, que a autora segue, sem o apressar, mas não perdendo de vista uma totalidade magistralmente edificada.
terça-feira, 12 de junho de 2012
GIL DUARTE & ANA CRISTINA MARQUES. ZEN: HISTÓRIA DAS MINHAS VIDAS
É a última criança produzida, em co-autoria (como todas as crianças, aliás), por mim e pela Ana Cristina. Sou o escritor da história de Zen, o gato, e Cristina, mais do que a excelente ilustradora, é a impressionante autora da capa, da paginação, de todos os contactos que permitiram que o livro exista como objecto físico.
Quanto dinheiro se venha a obter em vendas, integralmente reverterá para a Causa dos Gatos [e para a Casa dos Gatos que é a GV].
Tem graça, neste projecto, que certa vez eu tenha dito à Cristina: «Odeio livros sobre animais». Estávamos numa livraria e folheávamos uma coisa chamada "Marley"; ou seria "O Filósofo e o Lobo"? Ou aquele outro que já não me lembro como se chama? É que uma coisa não tem que ver com outra: gostar muito de animais não há-de significar, por força, gostar muito de livros sobre os ditos. Mas, bom, contraditoriamente, "Zen" é já o segundo. [Lembram-se de "Mira-Lata"?]
Para o comprarem? Para o encomendarem? Não sei. O livro escapou-me, nunca me pertenceu - mas, também, nenhum livro pertence ao seu autor, a não ser vagamente durante o tempo em que está sendo escrito. Mas hei-de pedir um "link" que aí vos conduza...
segunda-feira, 11 de junho de 2012
DON DELILLO: COSMÓPOLIS
Por alguma razão, DeLillo nunca terá sido um autor em que eu reparasse. Duas ou três incursões por livros seus, comprados em saldo, resultaram em frustrantes e inaceitáveis desistências. E já que enveredei pelo desusado caminho da sinceridade, acrescento esta pérola: não tinha sequer ouvido falar do filme, nem estava sob a influência dos conselhos de Adolfo Luxúria Canibal (por exemplo) quando trouxe Cosmópolis da Feira do Livro, simplesmente porque se encontrava a um preço muito recomendável.
O tema é de uma simplicidade atraente. Eric Parker, um jovem implacável, extremamente rico e poderoso, percorre as ruas de Nova Iorque porque decidiu ir cortar o cabelo. Mas na imensidão caótica das ruas nova-iorquinas, assiste, teme ou é levado a interagir com diversas peripécias. Don DeLillo elabora uma narrativa filosófica, perturbadora, por vezes desgastante mas, de novo, subitamente empolgante, saltando entre o interior da Limusina, onde se respira um ambiente controlado - e em busca de um controle total, sinalizado por ecrãs, pelo médico que observa o jovem Parker, por teóricos, de vária ordem, que com ele dialogam - e o exterior, onde tudo é choque e imprevisibilidade [a ameaça de morte a Parker, o cortejo do Presidente da República, o funeral de um cantor rap, a disseminação, por várias ruas e artérias, de manifestações anti-globalização].
A escrita é intensa e muito bela. Confesso: não o esperava. Cada período tem de ler-se com o vagar de quem lê poesia, de quem se deleita no prazer da forma, tanto ou mais do que na descoberta da história. Como num cruzamento feliz entre Em Busca do Tempo Perdido (percebe-se que Proust é um autor caro a Don DeLillo) e Nova-Iorque Fora de Horas, Cosmópolis é, no entanto, um texto muito desigual. Por vezes, parece esperar-nos pacientemente: somos porventura nós, leitores, que nos atrasamos, ou não comparecemos ao encontro; nesses momentos, teremos de suspender e recomeçar mais tarde. Outras vezes, o encantamento das palavras leva-nos com elas, sucedem-se as surpresas, há "teorizações" que nos furam o espírito, sínteses brilhantes de ironia e cepticismo.
Nos contemporâneos norte-americanos procura-se necessariamente uma alegoria social. Cosmópolis é uma alegoria: a cidade como crise; a reflexão sobre o fundamento reduzido à busca de um padrão económico; a ida ao barbeiro como odisseia.