Roland Barthes, citado por Adília Lopes
sábado, 4 de dezembro de 2010
UMA CITAÇÃO EM SEGUNDA MÃO: MAS A CITADORA É TAMBÉM INTERESSANTE
Roland Barthes, citado por Adília Lopes
TOLSTOI: RESSURREIÇÃO

Sobre uma sessão de homenagem a Tolstoi aquando dos cem anos de sua morte (e relativamente à qual, em post anterior, me confessei um tanto nervoso), poderão ler tudo aqui: é o sumário dos acontecimentos feito pelo jovem João, de quem fui parceiro na rara aventura de falar, para uma sala cheia, acerca de Lév Tolstoi (ou Leão, como aí se diz).
Mas há outra coisa. E é do que agora venho aqui falar. Nessa Sessão, João d'Eça referia um romance de Tolstoi, Ressurreição, que eu não conhecia. Em poucas palavras, expôs o núcleo da trama: e tão bem o fez que - não no próprio dia, e talvez nem no dia a seguir, mas, assim que pude - me dirigi à Biblioteca minha vizinha e o requisitei.
Ressurreição é inesquecível. Não se admite que um leitor que se apaixona por Ana Karenina (a personagem da obra homónima, que li, aliás, só recentemente) e encontre em Guerra e Paz uma fonte de descobertas poéticas e filosóficas, não veja em Ressurreição um romance maior. Trata-se, como em todo o Tolstoi, da queda e da possibilidade [ou não] de resgate das suas personagens. Trata-se, como em todo o Tolstoi, da reflexão sobre a culpa - sobre as reais implicações de uma culpa antiga, que ressurge do passado - e sobre a verdadeira dimensão da liberdade. É a minha consciência que decide dos meus actos? Ou a consciência sobrevoa, mais ou menos em diferido, esses actos a que chamo «meus» mas são, antes do mais, determinados por medos, cobardias, disposições genéticas, uma imagem a que a sociedade espera que eu corresponda?
Tolstoi constrói uma situação que é o centro dramático de todas estas
questões: chamado a participar de um julgamento, como jurado, o príncipe Nekliodov é posto perante Katiucha Maslova, prostituída desde nova, acusada de ter envenenado um cliente. Mas Katiucha é uma mulher que, em jovem, o próprio Nekliodov seduziu e perdeu, num período da sua vida - tão subtilmente captada por Toltoi na complexa diversidade de facetas - em que a consciência moral está como que adormecida, aguardando, diminuída em face da força da busca do prazer e do bem-estar, que se impõe, egocentrista e brutal.Por outro lado, esta situação e este tema são, nas mãos do génio que é Tolstoi, pretexto e instrumento para o exercício de observar e apontar pequenas e fugazes movimentações do espírito. A consciência nunca é monolítica: uma personagem não é absolutamente boa nem absolutamente má. Erra, mas perante o seu erro, enfrenta-se e começa, verdadeiramente, a conhecer-se a si própria: os sentimentos transformam-se a cada instante, retornam ao ponto de partida, ou dali se escapam precipitadamente; quer reparar e não quer reparar o mal que fez, põe em luta razões para amar e para odiar o mesmo objecto, desilude-se com o que fez e, por outro lado, justifica-o. Tudo é incerto e vago, mesmo quando estabelece um propósito e decide torná-lo o eixo da sua «ressurreição».
E nisto, não só nisto mas «nisto» sobretudo, Tolstoi é o mais actual dos romancistas, o mais subtil. O que menos julga as suas personagens: o que abrange, divina e compreensivamente, todos os lados de todos homens.segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O QUE AMO EM E. DICKINSON
Toca-me a necessidade que tem de quebrar as frases com os seus travessões, aqueles traços que interrompem blocos de sentido, para que não atravessemos demasiado precipitadamente para o bloco seguinte.
Toca-me que se pressinta uma visão de perfeita intensidade sob cada um dos poemas que escreveu: a compreensão funda de uma ideia que habita outro mundo, não o mundo das palavras mas o de certos imensos e esplendorosos silêncios, embora nas palavras tenha Emily de se exprimir e comunicar.
Toca-me a ausência de um sistema: cada poema é único e só. Nasce, clareia e dissolve-se. E assim deve ser, para que haja espaço para um outro poema - novo e solitário momento único, que não subsiste para além de si nem se relaciona com nada para lá de si.
Toca-me que um poema seu seja tão difícil quando a ele chegamos e iniciamos a leitura - e tão simples e intuitivo quando o lemos e dele partimos, plenos daquilo em que ele nos transformou.
E gosto da confusão: da ideia de que tudo sobrou em cadernos que ela foi preenchendo com muitas centenas de poemas, os quais não podemos catalogar nem organizar segundo critério nenhum, uma vez que o caos reina nesses cadernos e nem uma elementar sucessão temporal se deixa aí determinar.
sábado, 27 de novembro de 2010
EMILY DICKINSON: POEMA 249 [1861]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010
CLARICE LISPECTOR: A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

Sucede-me frequentemente. Às vezes, todavia, por uma certa conjugação de factores, adiamos o encontro. Não encontramos a obra, ou - sim, pode até ser isso - temos algum medo do desapontamento. E sentimo-nos culpados, como se fugíssemos ao destino, a um sentido maior. A um encontro que nos permitiria, quem sabe, encontrarmo-nos também connosco.
s se acumulavam e me surpreendiam. Não é verdade que, quando começamos a reparar em algo, tudo parece, repentinamente, falar-nos disso? Pois bem, em redor de mim, cada vez mais, tudo eram sinais de Clarice, apontamentos de e sobre Clarice, a voz de Clarice, a sombra de Clarice.domingo, 21 de novembro de 2010
BORGES, LEITOR DE DANTE
Reproduzo esta pintura belíssima, que pedi emprestada ao blogue de Bea7rix Kiddo (o magnífico Tenho Estado a Ler Whitman), porque me parece a ilustração adequada ao contexto de uma conversa que ela e Morcegos no Sótão travaram, então, e no mesmo blogue, a propósito de Dante. Pensei meter-me nessa conversa, comentando, por minha vez. Mas preferi não me tornar intruso.A questão aparecia por causa de A Divina Comédia. Nenhum dos dois a tinha lido, ambos desejavam fazê-lo. Morcegos no Sótão preocupava-se, entretanto, com o italiano que deveria dominar para se abalançar a uma tal leitura. Bea7rix recordava a premiadíssima tradução de Vasco Graça Moura - que, porém, se encontra esgotada. Mas, com certa ironia, propunha-se aprender italiano depois de ter lido A Divina Comédia.
sábado, 20 de novembro de 2010
É A MINHA VEZ DE JOGAR

MARGARIDA VALE DE GATO: MULHER AO MAR

eceu. Haviam-me falado acerca dele (e sou um ouvinte muito atento a esses rumores), não o encontrei, tive de o pedir, esperar, tornar a pedir, esperar ainda mais. Tenho-o por fim nas mãos - é um dos 300 exemplares da 2ª edição de Mulher Ao Mar, de Margarida Vale de Gato, a preciosa tradutora de vários autores ingleses. E não sei se de outros.
tos cantos alentejanos, a forma irmã, expressão de uma outra respiração. sexta-feira, 19 de novembro de 2010
O TRIO
Mau Tempo no Canal
VITORINO NEMÉSIO: MAU TEMPO NO CANAL

radisíaco e inclemente, cheio de momentos inesquecíveis, de uma beleza que me tocou, e de paisagens (ou deveria escrevever "passagens"?) demoradas e cansativas. Aos quarenta anos, contudo, reli-a e fiquei sem palavras. Casualmente, comprei recentemente uma edição de bolso. Olhava para ela todas as noites, sempre com vontade de a (re)iniciar. Abri-a hoje. Sentei-me, de sofá em sofá, em busca de melhor luz. E, logo na primeira página:quarta-feira, 17 de novembro de 2010
HOMENAGEM A TOLSTOI, FALECIDO EM NOVEMBRO DE 1910
A sessão terá demasiadas variáveis que não controlo, ou seja, perspectivas sérias de desastre: um auditório demasiado vasto, dois oradores que se prepararam separadamente e não se encontraram, para um vago acertar de agulhas, senão duas vezes, um nervosismo paralisante da minha parte.
Sei que os meus leitores não poderão ir. (Podendo, é claro, serão muito bem-vindos).
Mas, se entre eles houver crentes, por favor: às dez e meia enderecem uma oração por mim.
Que às dez e meia se lembrem de que, perto ou longe, alguém - eu próprio - estará sofrendo; com papéis a cair sucessivamente ao chão; a beber goladas de água para humedecer os lábios secos e a suar em pleno Inverno, que às dez e meia, repito, se lembrem disso, será já um gesto bonito e suficiente por parte dos não-crentes.
Bebo a vossa energia. A todos agradeço.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
SARTRE: A MÁ-FÉ
o livro na estante, fui buscá-lo. Está velho, uma capa de cantos dobrados, as suas páginas, com manchas de humidade, muito sublinhadas, com anotações que preenchem, a lápis, as margens largas, bilhetes de cinema entre as folhas, marcando uma certa passagem, chamando a atenção para um determinado capítulo. Trata-se de L'Être et le Néant, de Jean-Paul Sartre, o pensador que desdenhosamente entretanto esqueci, como se não tivesse sido o responsável por me ter arrastado para a filosofia.Deste livro, retenho e traduzo um trecho extraordinário. Querem ouvir?
«Eis, por exemplo, uma mulher que se rendeu a um primeiro encontro. Ela sabe muito bem as intenções que o homem que lhe fala alimenta a seu respeito. Sabe também que terá, mais cedo ou mais tarde, de tomar uma decisão. Mas não quer sentir-lhe a urgência: agarra-se unicamente ao que oferece, de respeitável e discreta, a atitude do seu amigo. Não capta essa conduta como uma tentativa para realizar o que se designa por "primeiras abordagens", quer dizer, não quer ver as possibilidades de desenvolvimento temporal que essa conduta apresenta: limita esse comportamento ao que ele é no presente, não quer ler nas frases que lhe dirigem nada senão o seu sentido explícito; se lhe dizem: "Admiro-a tanto", desarma esta frase do seu subentendido sexual; liga, aos discursos e à conduta do seu interlocutor, significações imediatas, que encara como qualidades objectivas. O homem que lhe fala parece-lhe sincero e respeitoso tal como a mesa é redonda ou
quadrada, como a tinta da parede é azul ou cinzenta. E estas qualidades, assim atadas à pessoa que ela escuta, fixaram-se [...] É porque não tem consciência do que pretende: é profundamente sensível ao desejo que inspira, mas o desejo cru e nu humilhá-la-ia e far-lhe-ia horror. No entanto, também não encontraria qualquer charme num respeito que fosse unicamente respeito. É preciso, para a satisfazer, um sentimento que se dirige inteiramente à sua pessoa, quer dizer, à sua liberdade plena, e que seja reconhecimento da sua liberdade. Mas é preciso, ao mesmo tempo, que esse sentimento seja, inteiramente, desejo, quer dizer, que se dirija ao seu corpo enquanto objecto. [...] recusa ver o desejo como ele é, não lhe dá sequer nome, não o reconhece senão na medida em que este se transcende em direcção à admiração, à estima, ao respeito e onde se absorve inteiramente nas formas mais elevadas que produz, ao ponto de não perceber nele mais do que uma espécie de calor e densidade. Mas eis que lhe seguram a mão. Este acto do interlocutor arrisca-se a mudar a situação, apelando para uma decisão imediata: deixar estar a mão, é consentir no flirt, é comprometer-se. Retirá-la, é romper esta harmonia instável que provoca o charme do momento. Há que fazer recuar, para o mais longe possível, o instante da decisão. Sabe-se o que se produz então: a jovem deixa ficar a sua mão, mas não se apercebe disso. Não se apercebe porque acontece, por acaso, que é, nesse momento, toda ela espírito. Conduz o seu interlocutor às regiões mais elevadas da especulação sentimental, fala da vida, fala da sua vida, mostra-se sob o seu aspecto essencial: uma pessoa, uma consciência. E durante esse tempo, o divórcio do corpo e do espírito cumpriu-se: a mão repousa inerte entre as mãos quentes do seu amigo: nem consentindo, nem resistindo - uma coisa. Diremos que esta mulher está de má-fé.»
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
DOSTOIEVSKI, ZWEIG: SOBRE O VÍCIO DO JOGO

Lembro-me de dois livros incontornáveis. Um é, precisamente, O Jogador, de Dostoievski. Nesta novela com qualquer coisa de autobiográfico - aquilo a que chamaríamos semi-autobiográfica - o que se nos expõe é, em toda a sua crueza, o processo de destruição de uma pessoa: em torno de uma certa fortuna que se dissipa, todas as personagens se transformam, todas as vidas mudam e nada será como dantes. Ivanóvitch, um preceptor de espírito são e forte, envolvido sem querer no jogo, acabará por se deixar absorver num presente fátuo, ganhando e perdendo, quem sabe se incapaz de futuro.
O Jogador remete-me para 24 Horas na Vida de uma Mulher: Stefan Zweig, que foi, sobretudo, um extraordinário biógrafo - nunca esquecerei a sua Maria Antonieta, ou o seu José Fouché, sobretudo este último, que li na adolescência mas gostaria de reencontrar - , tentou, com aquela novela, descer ao mais insondável e perturbador da alma humana. Sentimos a presença subliminar da teoria de Freud, ensaiando compreender (como, aliás, em Dostoievski, que constantemente prenuncia e antecipa a psicanálise).
Curiosamente, do livro de Zweig salta uma cena que me assombra, e que não sei se está no texto e a «li», ou se a «vi» no filme que adaptou a história. Mais perturbador: nem sei se vi tal filme, ou se a minha mãe
me terá descrito essa cena. Ou se, simplesmente, a imaginei.Mas tudo se concentraria numa mesa de jogo onde, sobre o pano verde, não vemos senão as mãos, pares de mãos presas de uma vitalidade doentia, expressando nos seus movimentos bruscos, um carácter, um medo, a avareza, a vitória. Dedos aduncos recolhendo moedas, ou dedos tremendo no baixar desalentado das suas cartas.
E, se a cena existe, impressiona-me a perspicácia de Zweig: como no cruzar tenso de mãos sobre um circo de vida e de morte, dispõe um jogo de sentimentos anónimos, inesquecíveis fantasmas do desespero.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
PROUST & SAINTE-BEUVE
Esta visão, tão cara a Saramago, que julgava ter descoberto a pólvora, é antiga. Numa diferente formulação, Sainte-Beuve não pressupunha outra coisa, quando reduzia a obra ao seu autor. O seu método crítico consistia nisto: em descobrir o homem por detrás do romance; em pesquisar minuciosamente o senhor escritor, nos diversos ângulos da sua biografia:
«Enquanto não dirigimos a um autor um certo número de questões e não lhes respondem
os, ainda que para nós mesmos e em voz baixa, não estamos seguros de o captar inteiramente, ainda que essas questões pareçam estrangeiras à natureza dos seus escritos: Que pensava ele da religião? Como era afectado pelo espectáculo da natureza? Como se comportava em relação às mulheres, em relação ao dinheiro? Era rico, pobre; qual era o seu regime, a sua maneira quotidiana de viver? Qual era o seu vício ou a sua fraqueza? Nenhuma das respostas a estas questões é indiferente para julgar o autor de um livro ou o próprio livro, se esse livro não é um tratado de geometria pura, principalmente se é uma obra literária, quer dizer, onde ele entra totalmente.»Numa das suas obras mais curiosas e menos conhecidas (não está, por exemplo, traduzida para português), e que é um misto de ensaio, rascunho, leitura, memória, discussão, Marcel Proust contesta metodicamente tal posição. O livro chama-se, de resto, Contre Sainte-Beuve. A sua intenção não poderia ser mais clara.
Em primeiro lugar, segundo Proust, o escritor concreto, o autor, esse é que nada é. Posso somar notas biográficas, investigar-lhe o passado, inquirir os vizinhos, as contas, interrogar a sua mulher ou o seu confessor, passar em revista a ficha clínica, que não obterei senão um indivíduo social, semelhante aos da sua cultura ou aos do seu grupo. Saber que Proust era homossexual ou sofria de asma retira ou acrescenta alguma qualidade fundamental à crítica ou à interpretação da sua obra?
O espírito que interessa, o eu que conta, não se concentra na pessoa que se passeia pelo mundo, no indivíduo concreto - com dores de dentes, melancolias várias, num quarto forrado contra o ruído da rua... -, que escreveu um certo romance. Revela-se unicamente na obra. O único Marcel
que nos interessa, ao longo de Em Busca do Tempo Perdido, é precisamente Marcel-narrador, esse que vai relembrando os diferentes momentos vividos na sua infância, na sua adolescência, na juventude, na maturidade e na velhice. E quem será, de facto, esse «Marcel»? O próprio Proust? Até certo ponto, sem dúvida, na medida em que é na sua experiência pessoal que o escritor se baseia, mas só até certo ponto: nas semelhanças e diferenças entre «Marcel» e Marcel Proust, no que neles coincida ou em tudo o que radicalmente os distingue, não é a luz de Proust que deve sobressair e iluminar o que lemos; não é a voz de Proust que devemos constantemente subentender: mas esta outra voz inventada, esta personagem que fala connosco, que nos guia e, apesar de fictícia, ganhou uma realidade com dimensões e peso próprios.Sob «Marcel» está Marcel Proust? Sim. E que me interessa isso, a mim, leitor?
domingo, 7 de novembro de 2010
GABRIEL GARCIA MARQUEZ: CEM ANOS DE SOLIDÃO
«A Academia mudou completamente os seus critérios. O Garcia Márquez deve estar a roer-se de inveja!»
«Porquê?», retorqui-lhe. «O Garcia Márquez já tem o Nobel».
«Não tem».
«Tem».
«Não tem».
«Tem».
Fomos verificar. Tinha. Recebido em 1982.
Não reproduzo este diálogo, naturalmente, para dar conta de uma pequena vitória minha sobre o meu irmão, mas para captar uma certa imagem com que se ficou, talvez injustamente, de Gabriel Garcia Márquez: o escritor menor, que viveria à custa de uma ún
ica obra, ressentido e invejoso dos melhores, sempre à esquina, espreitando por um prémio que pudesse honrar-lhe a visão «politicamente correcta».É evidente que, durante esta conversa, nunca saiu do meu horizonte um livro extraordinário: Cem Anos de Solidão. Pablo Neruda considerava-o a melhor obra de toda a Literatura Hispânica, depois do Quixote. Não sei. Sei que, no tempo em que o li, então recém-chegado de Moçambique, me prendeu como, até ao momento, nenhum outro o conseguira. (Ainda não tinha descoberto Em Busca do Tempo Perdido). O chamado realismo mágico, com o qual eu não estava nada familiarizado, surpreendeu-me como se de facto, durante um sonho, me perdesse e não conseguisse dar com o caminho de saída para o acordar, ou se, numa reunião sindical, uma mulher, subitamente, ascendesse aos céus.
Teria pouco mais de dezoito anos. Não fiquei aterrado pela extensão do romance e, para dizer a verdade, não tive especiais problemas com a árvore genealógica da família iniciada por José Arcadia Buendi e Úrsula Iguarán, que é um dos problemas vulgarmente apontados à história. Demasiadas personagens, algumas com nomes similares, excesso de laços. Não é verdade. Ou não tem a menor importância, porque, em cada momento, cada personagem e cada acção valem pela sua contribuição para o todo - quase como veios autónomos, interessantes por si mesmos.

De alguma forma, toda a vida se concentra naquele universo palpitante, em que as acções decisivas das pessoas pedem para ser julgadas em função de critérios muito humanos e flexíveis, e não de uma moral rígida, por onde escapulisse o que de mais autêntico, contraditório e profundo existe na história.
Possivelmente, quem leu Cem Anos de Solidão não tornará a lê-lo. Mas, entretanto, tal única leitura pode ser vivida como um momento que desequilibra a vida do leitor.
Não há muitos outros livros - Em Busca do Tempo Perdido é o primeiro dessa categoria restrita - em que o lugar descrito exista assim tão plenamente. Macondo é magicamente real. Tudo o que ali se faz ou diz é vívido, palpável, cheirável. Tornamo-nos vizinhos, amantes, amigos daqueles dramáticos sujeitos. Interessamo-nos pelos rumores que circulam, como aconteceria relativamente a um familiar ou a um vizinho com quem nos cruzávamos diariamente. E quando chegamos ao fim, não sentimos ter chegado ao fim: ficamos com a vaga sensação de que, no dia seguinte, aquelas pessoas estarão ali, na vila em que, de algum modo, habitamos com elas.
sábado, 6 de novembro de 2010
IRRITANTE HIPÉRBOLE
Aprecio João Tordo. Alguns dos posts que publiquei são, a esse respeito, perfeitamente inequívocos.
Não seria justo para o autor que estas palavras negras sobre uma cintazinha branca me levassem a criar algum tipo de preconceito contra ele.
É muito irritante. Demasiado arrogante. Mas saibamos apagá-las da memória. E acreditemos que João Tordo nada tem que ver com uma publicidade tão absurda. (Se calhar, é a citação de algum tonto! Post-scriptum: é-o, de facto. Dei-me, já posteriormente, ao trabalho de ir verificar melhor...)
Desculpem o desabafo. Por favor, senhoras e senhores, voltem às vossas leituras.
Obrigado
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
KNUT HAMSUN: PAN
pe
rcebi que se tratava de outra coisa, uma das obras mais queridas do escritor norueguês Knut Hamsun, prémio Nobel da literatura em 1920, senti despertar aquele particular entusiasmo que sobre nós exercem certos objectos de culto. Procurei Pan pelas livrarias, mesmo numa tradução inglesa. E, evidentemente, não o achei.Por uma mera coincidência, poucos meses mais tarde deparei-me, bruscamente, com o mesmo Pan. Em português, lançado pela Cavalo de Ferro, já em 2010: uma capa muito bela - a reprodução de uma pintura, de 1865, de Berthe Morisot. O verde impressionista de uma floresta norueguesa, indefinidamente salpicada pelo amarelo de certas flores ou o acinzentado de troncos de árvores.
Pan é a história de um sentimento. Simplifico, talvez: mas a personagem principal, mais do que o Tenente Thomas Glahn, é o peculiar sentimento que o atrai para Edwarda. Tudo o que vemos acontecer não é senão a forma como tal sentimento ganha consciência de si, se afirma, se frustra, se nega, reinicia, se nega de novo. Não há outra trama: toda a narração se confunde com a da série de metamorfoses desta atracção do Tenente por uma rapariga (uma mulher, afinal) que ele não consegue compreender nem dominar; que às vezes parece corresponder-lhe e amá-lo também, mas subitamente lhe escapa e o despreza. Que regressa quando a dava por perdida, que o chama de novo, para, uma vez mais, o agredir e rebaixar. Pan é, pois, a história desta indecisão e desta incompreensão, desta contínua tensão que, no limite, funciona como um jogo - entre querer e não querer, como se todo o amor precisasse de ser posto à prova: ou como se desejássemos somente enquanto o objecto do nosso desejo nos é inacessível e, no momento em que sentimos que também ele nos deseja, principiássemos a querê-lo menos, a desinteressar-nos, a afastar-nos...
Mas há um outro aspecto que o romance de Hamsun capta perfeitamente. O objecto do amor é, até certo ponto, transferível. Em face do seu sentimento ingrato e difícil por Edwarda, que o ignora ou repudia, o Tenente pode amar outras mulheres. Até certo ponto. Para provocar ciúmes, ou para preencher o seu mal-estar. Ou enganando-se a si mesmo. Possivelmente, só mesmo para se enganar a si mesmo.
O que surpreende nesta narrativa, relativamente curta mas muito densa, é o modo como conjuga artisticamente os opostos: se há uma exposição muito «realista» dos sentimentos, de algum modo psicanalítica, esta dá-se no interior de um elemento quase «onírico», irrealista e misterioso; as relações são sempre enigmáticas, as acções e as reacções das personagens constituem-se numa imprevisibilidade incómoda, sinistra, mantendo aquele tom de estranheza em que um Kafka encontrará a sua voz. Não falo de Kafka por acidente. Mas porque se escreve, na badana em que nos é sumariamente apresentado Hamsun: «Mann, Gide, Gorky, Kafka e Hemingway contaram-se entre os seus incondicionais admiradores». Lendo-se este livro, percebe-se porquê.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
GONÇALO M. TAVARES: UMA VIAGEM À ÍNDIA

A linguagem é, para já, um mero instrumento. Aprendemos a utilizá-la para nomear os objectos ausentes, para os descrever, para narrar o que aconteceu outrora, ou o que poderá acontecer. (Ou, redundantemente, o que está a acontecer...)
Mas é possível cairmos no interior da linguagem. Absorvidos por ela, como por um profundo buraco negro, descobrimos, no seu interior, a possibilidade de se criar um mundo que só a ela própria pertence, e que pouco tem que ver com o mundo que ficou lá fora. (Claro, também eu duvido que no interior de um buraco negro se possa criar seja o que for. É, sem dúvida, uma analogia claudicante...). Não só a linguagem, nesse momento, deixa de «representar» o exterior, como nem sequer o tem como vaga referência. Tal como a música, a que podemos acrescentar uma «letra», mas tem, no entanto, um sentido próprio, independente dessa letra e do que as palavras lhe sobreponham, também a linguagem é capaz de criar música, pôr-se face a face consigo, testar os seus limites, subvertê-los. Descobrir um sentido, uma plenitude, em si e a partir de si. E, na minha experiência quase autodidáctica da questão, isto é a poesia.
Uma Viagem à Índia apresenta-se como sendo um poema. Não tenho dúvida de que é, antes de mais, um romance. A história de uma personagem - Bloom - que demanda a Índia, em busca de uma mulher e de sabedoria. Poderia ser um romance que se quisesse assumir, num gesto irónico e paródico, nas formas da poesia. Mas tratar-se-á disso? Ou de outra coisa, um poema, efectivamente, uma experiência de criação a partir do Verbo, à imagem do Génesis, Canto, Revelação?
A resposta a essa pergunta principia no momento em que nos apercebemos de que o texto em causa não poderia ter sido escrito de outro modo. Com palavras diferentes das que são usadas. Que história ali fica, se a despojamos da linguagem em que ela se oferece? Poderíamos transpô-la para outro registo, para outro tipo de discurso, resumi-la, abreviá-la? «Tendo a Índia como derradeiro objectivo, Bloom encontra-se com três homens, um pai e seus dois filhos, que o querem assaltar...». Não é possível, perde-se o essencial: não há nada para contar fora das palavras com que Gonçalo M. Tavares reinventa Bloom, e vai inventando as peripécias de que se faz a sua viagem impossível. Tudo, ali, é literário: Lisboa, Londres ou Paris, sobretudo a Paris que vemos aparecer diante de nós, não são as cidades geograficamente reais, mas um concentrado de sonho e mito: «Ah! Paris! Em nenhuma cidade se está mais perto de Paris que em Paris. Daí a sua grandeza.»
Em um sentido muito similar àquele em que Walter Pater proclamava que toda a Arte aspira à condição de música, poderíamos dizer que, desde o início, toda a obra de Gonçalo M. Tavares aspira à condição de poesia. São já poemas os seus romances, em que tudo se transformaria se mudasse de habitat, quer dizer, se fosse arrancado à sua forma de exprimir, ao modo como a história é contada. Se o desligássemos do acto linguístico de contar. A linguagem nunca é pretexto: porventura, a matéria sim, essa será pretexto para o exercício da linguagem.
Obviamente, Uma Viagem à Índia é um texto que não deixa pedra sobre pedra. T
rata-se de sabotar todos os lugares e livros e categorias que nos habituámos a frequentar tranquila e rotineiramente, instaurando-se um maravilhoso universo paralelo, atemporal, meta-literário, onde improváveis sequências de sentido nos surpreendem continuamente. É uma odisseia. Mas uma odisseia totalmente humana: porque, e isso nos é lembrado e repetido, a aventura narrada não diz respeito aos deuses; o mundo dos deuses fica longe e longe deve permanecer. Aqui, fala-se do que ocorre ao nível do olhar humano. O próprio Destino não é senão uma paródia. Falar-se-á em profecia ou em adivinhação, mas, em última análise, nada há para se revelar; o misticismo é um logro; o sonho da Índia acabou sendo esvaziado pelo Ocidente.Numa entrevista concedida ao JL, Gonçalo M. Tavares explicava que, quando se é dextro, é preciso tentar escrever com a mão esquerda, ou seja, recusar o que se aprendeu a fazer demasiado habilmente. É preciso experimentar o que se não experimentou. Bem ou mal, só isso vale a pena. Por isso, Uma Viagem à Índia é tudo o que não esperávamos e, onde quer que o esperássemos, se recusa a comparecer. Romance e poesia, mito e filosofia, revisitação e despedida, reconhecimento e exploração de desconhecidos percursos no meio dos que julgávamos conhecer, habilidade e desconstrução de toda a habilidade em que assentáramos, aventura e desventura, é uma obra daquelas que se percebe que algo marcam, algo apontam, algo trazem. Se não a Índia, a impossibilidade da Índia. Se não o que a Índia é, talvez a ideia do que já não pode ser.

