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segunda-feira, 24 de março de 2014

IVAN TURGUÉNEV: FUMO




Este romance de Turguénev é um órgão complexo, de uma inquietante actualidade: os diálogos nunca são obsoleta ou artificialmente literários, antes comportam o cunho credível da fala. [Os autores russos, aliás, são excelentes nessa reconstituição da oralidade, mostrando lapsos, hesitações, marcas várias de espontaneidade.] Há uma técnica amadurecida, que equipara o narrador a um maestro: narrar é, autenticamente, orquestrar. Existem círculos e planos diferentes, personagens pouco lineares, uma ambiguidade emocional e ética, a apresentação realista de discussões sociais e políticas, em salas ou quartos onde jovens fumam e se embriagam, ou a apresentação romântica de amores que intentam esconder-se, ou afirmar-se: e tudo deve ser conjugado sem erros, ou dispersão, ou previsibilidade.

O realismo do século XIX compraz-se mais na caricatura do que no retrato. Como em Flaubert - com o qual, aliás, Turguénev se correspondia - ou como em Eça de Queirós, um aspecto relevante no modo de captar a sociedade do tempo reside na atenção ao ridículo, ao excessivo, ao mau gosto, à estupidez; Bambáev é um Dâmaso, Gubarióv é um Pacheco. Detenhamo-nos por um instante no sabor tão indiscutivelmente queirosiano desta conversa:

« "Mas Gubarióv, Gubarióv, irmãozinho, para ele é que nós temos de correr! Eu decididamente venero esse homem! E não sou o único, todos na verdade o veneram. E que livro ele está agora a escrever... oh! oh! oh!..."

"Sobre quê?", perguntou Litinóv.

"Sobre tudo, irmãozinho, como Buckle, sabes... mas mais profundo... Tudo será solucionado e explicado claramente."»

"Mas já o leste?"

"Não, não li, e por sinal é até um segredo de que não devemos falar, mas de Gubarióv tudo se pode esperar, tudo! Sim!"»

Por outro lado, o romantismo é a outra face desta polifacetada composição. É até mais do que uma mera face, se estamos deveras - uma vez mais como em Flaubert ou como em Eça de Queirós - ante a história de um amor impossível, e tanto mais violento e ardoroso quanto mais imperdoável do ponto de vista das convenções sociais.

Quero assinalar 3 pontos em relação a este amor, ao amor aqui:

o primeiro diz respeito à profundidade psicológica com que as personagens são tratadas na experiência da paixão. Mesmo Irina, a femme fatale, é desenhada na convulsão interior de um dilema que a torna humana e vulnerável, não apenas uma figura de papelão, superior e sem remorsos. Podemos pontualmente irritar-nos com ela, mas quase nunca a odiamos; por outro lado, Tánia pode ser moralmente melhor do que Irina: no entanto, a maneira como a percepcionamos está longe de ser estanque; ora  é mais interessante, ora de uma melancólica sensaboria. Mesmo fisicamente, ora nos parece de uma beleza morna e pesada, que não estimula, ora a redescobrimos com um fulgor surpreendente;

o segundo tem que ver com a curiosa noção do amor como de uma essência: algo totalmente exterior a mim, que me aborda e invade como um galião pirata. Descartes e Husserl ensinaram-me que, pelo contrário, o amor ou a paixão não são um objecto exterior ao sentir, acerca do qual porventura nos enganássemos: não são senão o próprio exercício desse sentir. E, portanto, La Palisse, na medida em que estou sentindo amor, há-de ser seguramente amor aquilo que estou a sentir. Daí a estranheza com que leio a questão que uma mulher amada dirige ao homem que lhe confessa o seu amor: se ele tem a certeza; se não poderia estar equivocado. Como se lhe perguntasse: «é mesmo amor o que "vês" em ti? não seria possível estares a ver erradamente um objecto diferente, que confundisses com amor?» [Na verdade, talvez por vezes nos enganemos. Mas é porque os sentimentos coincidem em algum ponto - e se me sucede confundir amizade com amor, para exemplificar com um quiproquó frequente, é porque a amizade contém, de facto, uma parte de amor. Porém, Turguénev tem de situar as suas personagens em face de um amor hiperbólico, fora do controle da razão ou de um eu. O mar em fúria, prestes a destruir o batel a que se reduz qualquer eu];

o terceiro refere-se a um domínio tal da técnica narrativa, já de resto mencionado, que apreende a mutabilidade e a indefinição destas emoções, numa trama de claros e de escuros, ângulos de luz e ângulos de sombra, entre o que se mostra e o que se oculta, para que, de facto, o leitor não consiga antever qual das possibilidades triunfará - sendo, uma delas, a de o protagonista perder ambas as mulheres que ama, ou julga amar, ou não sabe se ama, ou quanto ama.



sábado, 12 de março de 2011

O DON TRANQUILO ***

«- Liólia, o meu amigo Lisstnítzki!
« - Ah! Lisstnítzki! Muito prazer. O meu marido falou-me de si...
«Estava ofegante. O seu olhar sorridente, baço de felicidade, deslizou rapidamente por Lisstnítzki. Partiram juntos. A mão peluda de Gortchákov, com os dedos sujos, cheios de espigas, e de unhas negras, apertava a cintura virginal da mulher. Enquanto caminhava, Lisstnítzki ia olhando de soslaio aquela mão, aspirando o cheiro a verbena e àquele corpo feminino aquecido pelo sol, e sentia-se profundamente infeliz, como uma criança injustamente ferida. Olhava a ponta rosada da orelha pequena a espreitar por baixo de uma madeixa de cabelos de ouro avermelhado, a pele acetinada da face tão perto dos seus olhos, depois o olhar dele deslizou como um lagarto para o decote do vestido e viu um pequeno seio de uma brancura leitosa, com um mamilo castanho. De tempos a tempos, a mulher voltava para ele os olhos claros de reflexos azulados, e o seu olhar era acariciador, amigável, porém uma dor fina e irritante magoava Lisstnítzki quando esses mesmos olhos, ao fixarem-se no rosto negro de Gortchákov, brilhavam de uma maneira inteiramente diversa...»

[o segundo volume foi, talvez, o interregno necessário para situar historicamente o romance no quadro da revolução bolchevique; este, o terceiro, é, de novo, muito belo e muito sensual, como podem avaliar pela descrição do injusto e descabido ciúme de Lisstnítzki]

quarta-feira, 9 de março de 2011

MIKHAIL CHOLOKHOV: O DON TRANQUILO **



Na (dir-se-ia que descoordenada mas, de facto, dotada de uma lógica própria) minha leitura de diversos livros quase simultaneamente, venho de fechar o segundo volume de o Don Tranquilo.

O Don em causa, para evitar equívocos, não é uma pessoa, mas o rio don, aliás só periódica e ilusoriamente tranquilo. Que acontece do primeiro volume para o segundo? Tudo muda. Sobre as mesmas paisagens, na proximidade visível e audível do omnipresente rio, tendo como personagem colectiva os cossacos e os seus cânticos dolentes e sarcásticos, tudo muda porque os ventos da história transformam a geografia humana. E o que no volume anterior era tão-só pressentido, as rodas de uma revolução iniciando clandestinamente a sua marcha - os propagandistas perseguidos pela polícia do czar, as reuniões secretas com camponeses absorvendo a nova verdade... -, abate-se, neste segundo volume, em toda a sua força. Vivemos, agora, os tempos da revolução bolchevique. O exército conhece fissuras e discussões internas. As personagens, algumas das quais já nossas conhecidas do primeiro livro, vão-se situando, inseguras ou firmes nas suas ideias, perante uma nova realidade, perante novas expectativas e outras promessas.

Ler estes dois volumes tem, precisamente, isso de extraordinário: mostrar-nos o labor da história e a mudança das pessoas, determinada pelo tempo. Sabemos já que, ao longo dos quatro livros que constituem o Don Tranquilo, o rio será precisamente metáfora de um tempo enganador, pacífico e tremendo, carregando em si inimizades e amores, revolução e serenidade, guerra e paz. (E não uso inadvertidamente o título de Tolstoi, consciente, agora, do modo como Cholokhov procura, no seu romance, seguir a visão imensa do mestre).

Este volume é o mais claramente político. Para quem, como eu, tinha lido o anterior há não muito tempo, falta, aqui, o esteio dramático que tanto me interessara naquele: falta, antes de mais, Aksínia. A personagem que tinha tocado o primeiro livro com uma força e uma grandeza atordoadoras, profundamente femininas, tem, agora, uma breve aparição. E falta amor: falta a pulsação de uma história de amor impossível, precisamente a de Aksínia. É só já quase nas últimas páginas, que venho de ler, que um amor capaz de mover montanhas se assume na relação trágica de Buntchuk e Ana. Mas lembrar-nos-emos de Ana como de Aksínia? Sonharemos com ela? Desejá-la-emos com a mesma dolorosa intensidade dos sonhos irrealizáveis? Compreende-la-emos tão completamente, na sua semelhança e na sua diferença em relação a nós mesmos?

O que é fascinante neste volume diz respeito mais à psicologia de massas do que à de indivíduos; mais à História do que à história (ou a estória); mais ao testemunho da revolução bolchevique do que ao testemunho da paixão erótica; muito mais à consciência de personalidades políticas (e aos dilemas éticos que as escolhas políticas implicam) do que à consciência de pessoas existindo, como se a existência fosse um terreno de relações e sentimentos prévio a todo o compromisso ideológico. Este volume é um excelente ensaio de História e das ideias políticas na Rússia, mas é um insuficiente romance. Coisa que o primeiro, seguramente não era.

sábado, 4 de dezembro de 2010

TOLSTOI: RESSURREIÇÃO




Sobre uma sessão de homenagem a Tolstoi aquando dos cem anos de sua morte (e relativamente à qual, em post anterior, me confessei um tanto nervoso), poderão ler tudo aqui: é o sumário dos acontecimentos feito pelo jovem João, de quem fui parceiro na rara aventura de falar, para uma sala cheia, acerca de Lév Tolstoi (ou Leão, como aí se diz).

Mas há outra coisa. E é do que agora venho aqui falar. Nessa Sessão, João d'Eça referia um romance de Tolstoi, Ressurreição, que eu não conhecia. Em poucas palavras, expôs o núcleo da trama: e tão bem o fez que - não no próprio dia, e talvez nem no dia a seguir, mas, assim que pude - me dirigi à Biblioteca minha vizinha e o requisitei.

Ressurreição é inesquecível. Não se admite que um leitor que se apaixona por Ana Karenina (a personagem da obra homónima, que li, aliás, só recentemente) e encontre em Guerra e Paz uma fonte de descobertas poéticas e filosóficas, não veja em Ressurreição um romance maior. Trata-se, como em todo o Tolstoi, da queda e da possibilidade [ou não] de resgate das suas personagens. Trata-se, como em todo o Tolstoi, da reflexão sobre a culpa - sobre as reais implicações de uma culpa antiga, que ressurge do passado - e sobre a verdadeira dimensão da liberdade. É a minha consciência que decide dos meus actos? Ou a consciência sobrevoa, mais ou menos em diferido, esses actos a que chamo «meus» mas são, antes do mais, determinados por medos, cobardias, disposições genéticas, uma imagem a que a sociedade espera que eu corresponda?

Tolstoi constrói uma situação que é o centro dramático de todas estas questões: chamado a participar de um julgamento, como jurado, o príncipe Nekliodov é posto perante Katiucha Maslova, prostituída desde nova, acusada de ter envenenado um cliente. Mas Katiucha é uma mulher que, em jovem, o próprio Nekliodov seduziu e perdeu, num período da sua vida - tão subtilmente captada por Toltoi na complexa diversidade de facetas - em que a consciência moral está como que adormecida, aguardando, diminuída em face da força da busca do prazer e do bem-estar, que se impõe, egocentrista e brutal.

Por outro lado, esta situação e este tema são, nas mãos do génio que é Tolstoi, pretexto e instrumento para o exercício de observar e apontar pequenas e fugazes movimentações do espírito. A consciência nunca é monolítica: uma personagem não é absolutamente boa nem absolutamente má. Erra, mas perante o seu erro, enfrenta-se e começa, verdadeiramente, a conhecer-se a si própria: os sentimentos transformam-se a cada instante, retornam ao ponto de partida, ou dali se escapam precipitadamente; quer reparar e não quer reparar o mal que fez, põe em luta razões para amar e para odiar o mesmo objecto, desilude-se com o que fez e, por outro lado, justifica-o. Tudo é incerto e vago, mesmo quando estabelece um propósito e decide torná-lo o eixo da sua «ressurreição».

E nisto, não só nisto mas «nisto» sobretudo, Tolstoi é o mais actual dos romancistas, o mais subtil. O que menos julga as suas personagens: o que abrange, divina e compreensivamente, todos os lados de todos homens.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MIKAHÏL CHOLOKHOV: O DON TRANQUILO


É, sem dúvida, mais do que uma fórmula de cortesia, dizer que leio os meus leitores e me deixo guiar por eles. Existe, por exemplo, um livro que não viria talvez a reler se mo não tivessem mencionado recentemente: Jane Eyre; um outro que me passaria totalmente despercebido se mo não apresentassem como a não perder: Diário dos Infiéis, de João Morgado...

Na mesma linha, há um autor clássico que já tinha chamado por mim, mas a que, na altura (dependendo unicamente do meu próprio critério), resisti, e que acabei não convidando para casa: Mikhaïl Cholokhov.

Se, por coincidência, não estivesse agora, justamente, a redespertar para a alma russa, retomando Pushkin, Turgueniev, Tchekhov, Tolstoi, Dostoievski, Bulgakhov,

Se, ao mesmo tempo, Milú não falasse, no seu blogue (Rússia Show) acerca do Don Tranquilo,
Se o modo como ela carinhosamente iluminou Aksínia, personagem desse romance, me não tocasse como tocou

teria eu, alguma vez na vida, vindo a ler o Don Tranquilo (ou «sereno», ou «silencioso»), de Cholokhov? Talvez. Quem sabe? Mas a verdade é que as coincidências se reúnem, como conjugações auspiciosas, para acender um interesse.

Don Tranquilo é uma obra gigantesca. Como, aliás, uma grande parte da literatura russa. Pessoalmente, apraz-me a sensação de ter ainda muito para ler, por voraz e veloz que seja como leitor. Este tem diversos volumes. Ainda estou nas primeiras páginas do primeiro deles. E, ah, sigo escrupulosamente a sugestão de Milú: leio-o na Livros do Brasil, que trouxe, numa edição já muito antiga, do depósito de uma biblioteca.

No início, tudo se move lentamente. Demasiado lentamente. Dir-se-ia que se não move, sequer. Tal qual a própria tranquilidade do rio Don, também este romance parece arrastar-se com uma serenidade pouco audaz. Somos introduzidos nas famílias, insinua-se uma atracção ilícita, vai-se descrevendo uma paisagem humana, impõe-se a omnipresença do rio. Limite, paisagem, sustento, amigo pacífico, inimigo implacável. Um breve sobressalto ocorre quando, a propósito de uma pesca, em grupo, no meio da escuridão fria e chuvosa, uma personagem se perde, outra já não responde aos apelos, amedrontam-se, choram, desesperam.

Mas só com o desenvolvimento de Aksínia se rasga a pacatez do mundo. Só quando esta personagem ganha espaço, ganha sentimentos, ganha vida. Como se, num corpo concentrado na sua própria digestão, se introduzisse, bruscamente, o ritmo e a juventude da cafeína: rebeldia, inconformismo, raiva, amor, tudo se concentra no espírito e no corpo desta jovem - violada, ainda adolescente, pelo pai, sistematicamente espancada e ignorada, mais tarde, pelo marido, abusada pela sogra, invejada pelas outras. Aksínia é, como Antígona, o símbolo da mulher que sempre esteve submetida ao poder e a quem o poder maltratou: e que já só pode sair desse passado submisso através da exigência que não recuará diante de poder algum, invertendo, se necessário, todos os valores e todos os códigos, para reclamar o que, agora, sabe que lhe pertence por direito; e, a quem lhe disser «Espera aí, desavergonhada!», responderá, sem medo:

«Não tenho nada que esperar. Tu não és meu pai. Vai para donde vieste! O teu Grishka, se me apetecer, como-o com os ossos todos, e não tenho contas a dar a ninguém!... Ora aí tens. Engole lá! Gosto do Grishka. E depois? Queres-me bater?... Vais escrever ao meu marido?... Podes até escrever ao atamane. Mas o Grichka é meu! Meu! Meu! É meu e há-de-o continuar a ser!..

E admiramo-la de imediato - «de imediato» significando: antes de medir as consequências do seu gesto, do seu acto, do seu grito; antes de decidir se estamos eticamente de acordo; antes até, talvez, de compreender seja o que for: antes de a compreender inteiramente.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

À ESPERA DE CHOLOKHOV

Em Rússia Show, blogue de uma recente leitora do Profissão: Leitor, descobri a referência a Mikhaïl Cholokhov. Os textos de Milú, entusiastas e entusiasmantes, fizeram-me partir imediatamente em busca deste autor, Prémio Nobel, contudo relativamente pouco conhecido em Portugal.

Lembro-me de que a Europa-América (ou seria a Bertrand?) tinha editado, há muitíssimos anos, o romance O Don Tranquilo, em diversos volumes. Está esgotado. Encomendei a tradução no português do Brasil, que se chama O Don Silencioso. Aguardo-a.

Mas esta ligeira discrepância faz-me temer a tradução. A Milú, minha leitora, familiar com a língua russa, traduziria o termo do título por «tranquilo», ou por «silencioso»? E conhece a tradução da Ed. Record? Recomenda-a?

sábado, 9 de outubro de 2010

ISAIAH BERLIN: «O OURIÇO E A RAPOSA»



Já tive oportunidade de garantir que o termo "preparação" seria, neste caso, um termo excessivo. Mas a verdade é esta: com o objectivo de realizar uma palestra, na Biblioteca, para comemorar o centenário do falecimento de Tolstoi, tenho andado a reler, com um cuidado especial, Guerra e Paz. Ao mesmo tempo, procurando uma rede de informações acerca desse romance e desse autor, voltei a desaguar numa obra de Sir Isaiah Berlin, A Apoteose da Vontade Romântica: uma série de ensaios no seu inglês luminoso, espirituoso, muito vivos e subtis, conduzidos por uma inteligência política aguda e por uma cultura vasta e heterodoxa. Um desses ensaios, bastamente citado, aliás, é «O Ouriço e a Raposa», acerca da visão que Tolstoi tem da História.

O título, que sempre me intrigara, remete para um verso do poeta grego Arquíloco: «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.». (Infinitos são os astuciosos recursos da raposa; o ouriço, em contrapartida, não tem senão um único: concentrar-se sobre si, esperando que o inimigo se magoe nos seus espinhos...)
Dando um sentido específico a esta distinção, Isaiah Berlin considera que alguns escritores seriam escritores-raposa e, outros, escritores-ouriço. A ideia é, de facto, curiosa.

Entre os escritores-raposa, ou seja, aqueles que sabem muitas coisas, irrequietos e velozes, os que tendem a dispersar-se em inúmeras personagens e temas, aqueles cujos livros nunca se parecem uns com os outros, aqueles cujos interesses se fracturam irreconciliavelmente, poderíamos referir homens como Montaigne (por causa dos seus maravilhosos ensaios em que, a pretexto de falar unicamente sobre si próprio, se reparte por temas como as mulheres, a educação, a amizade, os livros ou o corpo); ou, por exemplo, Jean-Paul Sartre (que da filosofia ao romance e ao teatro, dedicando-se também à biografia, à auto-biografia e à política, não deixou um só instrumento por tocar). Por outro lado, entre os escritores-ouriço, aqueles que sabemos que, por muito que escrevam, não escrevem senão acerca de uma única verdade, procurando recorrentemente unificar, sob a força de gravidade desta, tudo aquilo em que põem o dedo, estaria Hegel, estaria Ibsen.

É interessante pensarmos nos escritores que prezamos, sob este ponto de vista. Eça de Queirós, diria eu, é um ouriço. Gonçalo M. Tavares, sem dúvida, também. Nuno Ramos é uma raposa. Fernando Pessoa é o rei das raposas.

Alguns, não sei. Sophia? Whitman? Proust? (Berlin considera-o um ouriço, e eu, inseguro, divirjo: embora compreenda a razão...). Julgo que o problema se deve a que podem ser simultaneamente uma ou outra coisa, num ou noutro aspecto ou consoante o critério; ou ser uma coisa, sob a aparência de uma outra.

Seria, segundo o próprio Berlin, o caso de Tolstoi, que, assumindo-se a si próprio como um ouriço, até pela concepção de História que expõe em vários ensaios, no entanto, ao criar, cria como uma raposa. Isso explica, de resto, o carácter fragmentário, intrinsecamente "desunido", de Guerra e Paz. Se se torna praticamente impossível reduzi-lo a uma narrativa linear, é porque é uma visão da guerra enunciada num texto que se funda, de certa forma, numa guerra interna. Gravitamos ao redor de diferentes famílias russas, e cada uma dessa famílias é um universo em expansão e em choque com os demais. Verdades, sentimentos, interesses contraditórios se combatem, a partir de perspectivas múltiplas, que se não fundem nem coincidirão. Fala-se, num mesmo capítulo, se não numa mesma página, em russo, em francês ou em alemão; passa-se do fervor religioso para uma euforia da liberdade; da paixão para a melancolia.

A alma russa apresenta-se, ali, em todas as suas cintilações e possibilidades, mas com um grau de intensidade que, como afirma Rogério Casanova, é sempre extremo: tanto na alegria como na dor, tanto no amor como no ciúme. É o texto de uma raposa, claro.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

TOLSTOI: GUERRA E PAZ


Para uma sessão na Biblioteca da minha escola, preparo, em conjunto com um aluno, Guerra e Paz, de Tolstoi.

Lev Tolstoi morreu há cem anos. Essa é a ocasião que se irá comemorar. Guerra e Paz é, por sua vez, o romance que, intrigado, notei que esse moço, na escola, costumava trazer debaixo do braço. Convidei-o, pois, para uma parceria inédita: um professor e um aluno (que, por acaso, nem é aluno desse professor), conversando, diante de uma plateia de jovens, acerca de Guerra e Paz.

Trata-se de um livro monumental, traduzido para português, nos últimos anos, numa série de quatro pesados volumes. Mais tarde, um jornal principiou a vender a mesma obra, como suplemento, às quintas-feiras, em dez fascículos muito bonitos (vai no segundo), magrinhos, contendo, o primeiro, um prefácio de António Lobo Antunes e, todos eles, ilustrações de Júlio Pomar.

A preparação que venho fazendo consiste, para já, em reler a obra, semana após semana, nesta nova edição. Percebo, pelas palavras de Lobo Antunes, que, à época, o romance de Tolstoi, regularmente publicado como folhetim, causou certa perturbação. Mesmo escritores maiores e perspicazes (como Henry James) se queixavam, em Guerra e Paz, de uma indistinção de momentos, lugares e famílias: como se Tolstoi fosse um deus com vocação para regente de orquestra, e usasse abusivamente a sua omnisciência de forma a harmonizar - e a desarmonizar - centenas de instrumentos, simultaneamente, esquecido de (ou indiferente a que) o ouvinte - ou leitor - não goza da mesma capacidade de tudo ouvir e ver e compreender ao mesmo tempo.

Lamentavam-se também, por outro lado, de uma fusão pouco conhecida, à época, ou pouco usada (mas que Tolstoi ousava) entre o histórico e o fictício. Aquela convivência de indivíduos historicamente reais - Napoleão e o Czar, quanto mais não fosse - e personagens inventadas é mais um instrumento que o deus regente convoca para a sua sinfonia, a qual, para várias pessoas, dificilmente não é senão uma soma arbitrária de ruído. Tome-se, como exemplo clássico dessa criativa confusão entre o real e o imaginário, toda a cena em que o general Kutúzov, figura histórica incontornável da guerra, passa revista aos seus regimentos fatigados, e entra, por causa de um casaco que não respeitaria as normas, em choque com Dolókhov, personagem fictícia, um jovem bêbedo e arruaceiro, que fora despromovido a soldado raso.

Não é fácil. Ressinto-me sempre da leitura de autores russos, de que, não obstante, gosto muito. Os nomes russos, que nos não são familiares, e que, ao longo das páginas, são substituídos, sem advertência prévia, por diminutivos ou títulos (a princesa, o conde, a condessa), tornam a leitura, muitas vezes, lenta, embora nunca penosa. Mas Guerra e Paz é extraordinário, apesar dos escolhos e dos óbices. Só aos melhores, aos deuses melómanos, é dado o poder de construir uma tal catedral que possui, em si, a brusca e vertiginosa mudança: já viram como ele transita de situações recatadas, íntimas - uma rapariga que chora, oculta, roída de ciúmes; uma mulher que disseca a carta da sua melhor amiga, interrogando-se sobre as verdadeiras intenções e tentando ler nas entrelinhas dos episódios que esta narra; um jovem que se declara à sua amada -, para a descrição dos movimentos complicados de exércitos, que mobilizam milhares de homens? Ou para recepções, chás ou bailes que, nos salões aristocráticos, continuavam a fazer-se, como se os rumores da guerra iminente ainda não fossem senão matéria de conversa intelectual e fútil?

Em Tolstoi, é claro, a penetração psicológica é sempre avassaladora. Por detrás de uma aparente simplicidade de certas personagens surgem imprevisíveis e cruciais tensões de personalidade. Penso em Pierre, por exemplo, cuja inibição leva a que o tomem por um idiota, bondoso e um tanto inconveniente, mas em que se revelam, passo a passo, camadas de forças, dúvidas, contradições, convicções, aspirações, pensamentos, cobardias e coragens, que o tornam nosso irmão.

Colocaria Guerra e Paz naquela categoria de livros que têm muitas exigências: exigem tempo, disponibilidade, paciência, concentração, ou seja, um estado de espírito próprio e o desejo de se acertar com as mudanças de ambiente ou situação. Mas que, como certas - raras - pessoas, se pode dar ao luxo de exigir tanto. Porque o que, em contrapartida, tem para oferecer, é imenso. É memorável.