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domingo, 21 de fevereiro de 2021

HOMERO E AS TRADUÇÕES "EXECUTADAS" POR FREDERICO LOURENÇO

 

Se tiver em mente Um Estranho numa Terra Estranha [título fabuloso, não é?], livro que continuo pacientemente a "grocar", ou a tentar "grocar",  situo-me logo numa questão sobre que duas personagens conversam, que é a da quase impossibilidade de tradução de "marciano" para as línguas terráqueas, em particular o Inglês, e vice-versa. O especialista em marciano refere que o problema é que, em grande medida, a própria língua decide o que posso verter em outra língua, uma vez que há um mapeamento definido por aquela que me proponho traduzir: definido por palavras que só fazem completamente sentido no interior dos modos de vivência ou das categorias existenciais inerentes ao mapa mental em que essa língua foi inventada. Mudar de língua, traduzir, não é apenas mudar de língua. É trair, de facto, porque exige, subrepticiamente, que mudemos de mapa mental.



As experiências e a realidade de um inglês ou de um italiano ou de um francês contemporâneos são, até um certo ponto, similares. As analogias parecem-me possíveis. Não haverá uma intraduzível mudança de mapa. Do japonês ou do chinês para qualquer língua ocidental, já seria menos fácil.  Que fazer, então, sem cair em anacronismos ou sem depreender semelhanças aparentes, que ocultam profundas diferenças, quando se trata de traduzir os textos da Grécia Antiga ou da Antiga Roma? As similaridades existem. Sem dúvida. Somos todos humanos, enfrentando problemas de sempre. E herdámos o seu legado de um modo tão evidente, que a possibilidade de reconhecimento tem de existir. Mas quanto às linhas que perdemos, soterradas sob tantas transformações, culturais, religiosas, de visão do mundo? Como reencontrá-las de forma a mapear o que um Grego ou um Romano queriam dizer - ou melhor: podiam querer dizer - no interior do mapa em que se exprimiam?


E é aí que um tradutor - falo aqui apenas na qualidade de tradutor de um autor que é muito mais do que isso: o professor, o romancista, o helenista - como Frederico Lourenço faz uma diferença evidente. As suas interpretações de Odisseia e de Ilíada são trabalhos exaustivos e profundíssimos de compreensão de uma mentalidade e de um modo de vida. Atestam-no as introduções, as notas-de-rodapé, as explicações que enquadram e nos afastam do nosso próprio mapa cultural. O mesmo relativamente à sua tradução do Antigo Testamento (e, depois, do Novo), mas também não é do que aqui venho falar. Nós não somos um Grego. Nós não sentimos nem pensamos como Homero, nem como Homero pensa que pensariam Ulisses ou Heitor. Estamos em outro mundo. E se nos encontrássemos, viajando no tempo e sabendo falar grego, ainda assim, porventura, comunicaríamos pouco ou mal. Porque falar grego antigo, e até dominando variações de comunidade para comunidade, não é apenas falar grego antigo. É falar um mundo que já não nos pertence. E acredito que FL nos devolva, incólume. Enfim, quase incólume.

sábado, 27 de novembro de 2010

EMILY DICKINSON: POEMA 249 [1861]


Wild Nights - Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!

Futile - the Winds -
To a Heart in port -
Done with the Compass -
Done with the Chart!

Rowing in Eden -
Ah, the Sea!
Might I but moor - Tonight -
In Thee!
***
Ou, na tradução discutível (como qualquer uma seria) de Nuno Júdice:
-
Noites Selvagens - Noites Selvagens!
Estivesse eu contigo
As Noites Selvagens seriam
A nossa luxúria!
-
Fúteis - os Ventos -
Para um Coração no porto -
Inúteis as Bússolas -
Inútil o Mapa!
-
Remando no Paraíso -
Ah, o Mar!
Pudesse eu atracar - Esta noite -
Em Ti!

domingo, 21 de novembro de 2010

BORGES, LEITOR DE DANTE

Reproduzo esta pintura belíssima, que pedi emprestada ao blogue de Bea7rix Kiddo (o magnífico Tenho Estado a Ler Whitman), porque me parece a ilustração adequada ao contexto de uma conversa que ela e Morcegos no Sótão travaram, então, e no mesmo blogue, a propósito de Dante. Pensei meter-me nessa conversa, comentando, por minha vez. Mas preferi não me tornar intruso.

A questão aparecia por causa de A Divina Comédia. Nenhum dos dois a tinha lido, ambos desejavam fazê-lo. Morcegos no Sótão preocupava-se, entretanto, com o italiano que deveria dominar para se abalançar a uma tal leitura. Bea7rix recordava a premiadíssima tradução de Vasco Graça Moura - que, porém, se encontra esgotada. Mas, com certa ironia, propunha-se aprender italiano depois de ter lido A Divina Comédia.

Ocorreu-me uma pequena conferência em que Borges nos apresenta a sua própria leitura, fascinante, do poema de Dante. [Se não se trata de uma conferência, seria uma entrevista entre várias que lhe haviam sido feitas não me lembro já por quem. Ainda procurei por aí, na minha estante, entre livros que julgo ter adquirido na mesma altura. Não o encontrei, pelo que terei de a reconstituir de memória].
*
O que Jorge Luís Borges conta é como, na sua juventude, aprendeu o italiano precisamente com A Divina Comédia. Possuía, obviamente, uma edição bilingue: mas, tanto quanto me parece, as traduções do poema são, na sua maioria, bilingues. Borges ia de eléctrico, a cegueira ainda o não invadira, e aproveitava um percurso demorado para mergulhar no texto. Começava sempre pela versão original. Lia um primeiro conjunto de versos, tentando apreender-lhes o sentido, o que, curiosamente, conseguia fazer com mais facilidade do que temera. Afinal, o italiano - e mesmo o italiano de Dante; não sei, aliás, se Borges não diz: principalmente o italiano de Dante - não é tão irredutivelmente diferente do castelhano (ou do português), que não seja possível retermos uma ideia, uma significação. Então, lia a tradução; depois, porventura, voltaria aos mesmos versos anteriores, em italiano, para confirmar, para consolidar.
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A seguir, lia os seguintes, e assim progredia. Este era o seu método. E percebeu que, ao fim de algum tempo - ou seja, ao cabo de umas quantas viagens -, o seu italiano se aperfeiçoara o suficiente para prescindir da tradução, a não ser pontualmente.
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Pessoalmente, gosto muito da tradução feita por Sophia. É muito cuidada, muito bonita. Mas não me lembro de que seja bilingue.
A de Vasco Graça Moura, que li mais tarde - e emprestei, e nunca mais recuperei... - é bilingue. Está esgotada? Raios!