
No texto em que descrevia o que fora a nossa sessão de homenagem a Tolstoi, o jovem João d'Eça aboliu as letras maiúsculas. Num comentário ao post, dizia-se que tal se deveria à pressa, ou à influência de valter hugo mãe.
Posso escrever unicamente com minúsculas. Na poesia, então, a tendência generaliza-se; é muito difícil resistir. Mas parece-me que o facto significa, antes de mais, que seguimos uma moda. Podemos fazê-lo se ela nos for útil, enquanto o é, na medida em que o seja. Mas, dois pormenores: 1: não vale a pena reivindicar o acto como um gesto de originalidade e rebelião, porque se há coisa que deixou de ser é um gesto de originalidade e rebelião. 2: não vale a pena encontrar-lhe uma fundamentação teórica, como seja a pretensa «democratização» das palavras, porque as palavras não têm necessidade de ser cidadãs de uma qualquer democracia, tanto mais que as empregamos para exprimir diferenças, mais do que uma sonhada igualdade entre elas. [Escrito pós-comentário de Mariana: Ou, pelo menos, não vale a pena confiar excessivamente na tentativa de teorização fácil que tende também a impor-se...]
Dito isto, falemos daquele poeta em quem essa opção foi verdadeiramente original, um gesto de rebeldia e subversão, de modo a desconstruir a forma gramatical a priori, o modelo convencional da fabricação da frase, ou do verso, ou da poesia: e.e.cummings.
Nos poemas de e.e.cummings tudo é possível: um pontuação que interrompe abrupta e erradamente, uma exaltante liberdade no uso dos meios da escrita, ligações e intervalos estranhos e inovadores. Mas basta prestarmos atenção ao seu lindíssimo poema, na lindíssima tradução de Augusto de Campos, que se transformou numa lindíssima balada, cantada na inesperada voz de Zeca Baleiro - apresentada no meu post anterior - para percebermos que, na poesia de cummings, se trata de uma busca muito séria e expressiva de sentido e de beleza. E essa busca, esse sentido, essa beleza justificam e compreendem que tenha de se escavar a norma, subvertendo-a, para dela extrair a pura maravilha.
Os que vieram depois, se quiserem, continuem por aí. Mas não se esqueçam de que, agora, é fácil. Não se esqueçam de que, para serem «originais» por esse caminho, chegaram talvez demasiado tarde. E de que não há muitos e.e. cummings.
