Camille Laurens, que eu não conhecia, mas, numa badana do livro, é apresentada como uma mulher nascida em 1957 (ano que me diz muito), membro da Academia Goncourt e autora premiada, escreve bem. Por que não dizê-lo desde já? Percebe-se desde as primeiras linhas: a narração viva, os pormenores que nos fazem experimentar lugares e personagens, o principiar pelo fim, de forma que nos torna, a nós, leitores, expectantes da regressão ao começo e ao desenvolvimento dos acontecimentos, num completo domínio do tempo do romance, da nossa expectativa e do nosso interesse.
O modo como a narradora nos faz ver "o" seu encontro com Gilles (não o primeiro encontro, uma vez que já se haviam cruzado antes, e prestado atenção um ao outro, mas, digamos, 'o encontro decisivo'), numa festa a que ela nem desejava ir, é, simultaneamente, muito simples e muito impressionante. Logo a seguir, a narradora (Claire) lança, numa mancha gráfica diferente, quase como se se tratasse de poesia, a leitura subjectiva sobre aquela situação e aquele homem - e isto é um achado literário cuja razão compreendemos imediatamente. Não se trata de um poema, mas, provavelmente, de pensar, de actos de pensamento, visões em busca de palavras, o dizer interior dos medos, das perguntas, das esperanças.
Esse achado parece-me tão bom, que devia ter-se mantido raro. Devia ter sido usado com parcimónia, não se repetindo a forma ao longo do romance; evitando, em suma, que a forma se transformasse em fórmula. Ou seja: que nos atingisse uma única vez, surpreendendo-nos por tão magistralmente capturar a surpresa dela, abrindo-nos para a sua atracção e para o seu pânico. A replicação dessa expressão quasi-poética, desses relâmpagos do pensar, banaliza-os, retira-lhes a capacidade de nos espantar e envolver na esfera das emoções de Claire.
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