
Leio Muriel Spark. Já fora anteriormente laçado por O Apogeu de Miss Jean Brodie, não resisti a trazer da livraria Memento Mori.
Bastam poucos capítulos para sentirmos que um veículo se pôs silenciosamente em marcha e nós estamos no seu interior. Talvez quiséssemos ter mais tempo para inspeccionar os aposentos em que viajaremos: fazer uma visita à carruagem, antes de decidir se nos apetecia mesmo seguir viagem. Demasiado tarde. Não podemos saltar em andamento.
O primeiro laço que nos retém é a linguagem, de uma simplicidade sem ruído: mas esse não-ruído visa ocultar um segredo. Assim principia a história: algo fora dito a Dame Lettie, num telefonema anónimo - que não era, aliás, o primeiro, pois vinha sendo regularmente repetido -, mas não sabemos o quê. Surpreendemos as emoções que o telefonema provoca (a curiosidade, o medo, o leve espanto das personagens); assistimos a reacções, mas não sabemos qual foi a mensagem que as suscitou. Quando a polícia ou o irmão de Dame Lettie Colston lhe perguntam o que lhe havia sido dito, esta responde: «O costume!»
Pouco depois - muito pouco depois, três ou quatro páginas a seguir -, saberemos que frase é essa que, num ritual sinistro, tem sido telefonicamente formulada; mas, mesmo aí, continuaremos sem perceber com que intenção. Já para não lembrar que não sabemos quem o faz. O segredo enquista-se-nos no espírito, atormenta-nos. Precisamente em torno desse segredo, directa ou indirectamente, várias personagens vão emergindo. Emergindo parece-me aqui um termo adequado. Em cada capítulo «emerge» uma nova peronagem, que o capítulo anterior vinha antecipando: elas olham-se, chocam entre si, pensam, conversam. (Os diálogos são brilhantes). É quanto basta para que os caracteres se tornem de uma inegável consistência. A narradora não se perde em dissertações psicológicas acerca de cada uma, nem disso carecemos para ver como são. O que são. Talvez as não compreendamos inteiramente, mas percebemos nas entrelinhas, isto é, nas suas reacções ou nas suas manias, os tipos neuróticos diante de que estamos, presos a si mesmos e aos padrões em que se encerraram.
É curioso: aprendemos, pois, a vê-las e a prevê-las a partir, paradoxalmente, do que deveria ser uma certa imprevisibilidade do seu comportamento. Porque também nessa imprevisibilidade se captará, por fim, uma rotina, um padrão. Por exemplo: que a propósito da situação que aflige Dame Lettie (o insistente telefonema anónimo), Godfrey Colston, seu irmão, mais do que preocupar-se com o problema propriamente dito procure o pretexto para se comparar com ela e para confirmar se a irmã estará «menos bem conservada», revela-nos o eixo e os limites daquela personalidade. Do mesmo modo, ao fazer da questão da«perda das faculdades», a respeito de todos, a sua questão permanente, recorrente, Godfrey faz-nos ter noção do que poderá ter sido a experiência traumatizante da vida com a sua mulher (uma talentosa escritora que, com a idade, efectivamente, veio «perdendo faculdades»), mas também nos deixa adivinhar o medo, que o assombra, de que as suas faculdades possam vir a degradar-se.

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