
E, no entanto, não tinha a intenção de ser cómico: consistia simplesmente na descrição da vida, em família, de um grupo constituído pela mãe (a narradora), um marido vagamente presente, pintor, um filho de onze anos, se me lembro com acerto, e uma menina mais nova. A reconstituição dos diálogos com os miúdos, ou das guerras entre estes, o teor filosófico das teses das crianças mas, sobretudo, uma incerteza pedagógica que acompanha as relações das gerações: a necessidade de impor e aceitar um certo número de regras (hoje diríamos: "politicamente correctas"), por um lado, e um inevitável e delicioso desregramento, por outro, fazem do texto a dádiva de uma experiência sensível, extremamente flexível, com falhas óbvias e recorrentes que, em última análise, acabam sendo resgatadas pelo amor e pelo humor. Uma casa de papel é um pouco de tudo isto. Parece estranha, vista de fora: mas é um lugar que, habitado, não se trocaria, porventura, por nenhum outro.
Ocorre-me, de repente, um episódio que fazia o meu irmão rir perdidamente. Cito de memória: a menina fa

A ideia de construir-se - e viver-se - numa casa de papel, e de a expor aos leitores, acaba apresentando, subjacente e despretensiosamente, toda uma teoria pedagógica. Muito anos sessenta e setenta. Pejada de erros (e, daí, talvez não: quem tem realmente as respostas definitivas em matéria de educação? Reformulo: «pejada de erros» do ponto de vista do que entende uma pedagogia conservadora) que, insisto, o amor, uma alegria perpétua e a capacidade de rir de si mesmos nunca deixa que se tornem dramáticos.
Sem comentários:
Enviar um comentário