Mais tarde, já como professor, descobria O Principezinho em toda a parte. Era um pouco de mais. Invadia os manuais das mais diversas disciplinas, contaminava o ensino em todos os ângulos, surgia nos menores exemplos, a propósito de tudo. As frases brilhantes tornaram-se lugares comuns aos meus ouvidos. As imagens perderam brilho. Os diálogos já só penosamente me visitavam. Aprendi, então, a ver O Principezinho como uma monumental pieguice, o mais datado dos livros e, evidentemente, um dos mais pretensiosos. Odiei o diálogo da Raposa. Pu-lo de parte. Na minha opinião de então, para sempre.
Só regressei a ele porque o meu filho - uma vez mais, o meu filho - precisou de o ler para Português; falara-me nisso, mas tinha-me esquecido; não lho

E o texto que eu julgara esquecido, ou vencido pelo tempo e pela maturidade adquirida, reapareceu inteiramente, em toda a sua inocência e pureza. Era maravilhoso: uma história muito bela sobre um menino autista - ou um garoto no limiar de qualquer síndrome de auto-centramento, eis como, já "adulto", explicaria a sua atitude -, que só responde ao que quer e faz, insistentemente, a mesma pergunta, uma e outra vezes, até que lhe dêem a resposta que o satisfaça.
Mas, sobretudo, o diálogo da Raposa veio ao de cima em todo o seu esplendor. Ouvi-o na voz do meu filho, ouvi-lhe, a seguir, a despedida, e chorei. Estava tudo ali, incólume, intocado pelo cinismo, pronto a ser mordido e provado outra vez. Porque, de facto, o essencial é invisível para os olhos.
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