
Lendo Brideshead Revivida (porquê chamar-lhe, em português, «reviver o passado em Brideshead»? poder-se-ia reviver o presente ou o futuro?), tropeço numa personagem, o diletante Anthony Blanche, que me reenvia para uma outra: Bloch, de Em Busca do Tempo Perdido, lembram-se?
Em Busca do Tempo Perdido é o auge da literatura humana. [Literatura humana parece uma estúpida redundância, mas admitamos que haja uma literatura angélica ou divina, sobre que me não pronuncio]. Não conheço, de nenhum ponto de vista, qualquer obra que se lhe assemelhe, e já várias vezes proferi um tal juízo, dogmático e arrogante. As inúmeras personagens do romance, em sete volumes, de Marcel Proust, vão-nos sendo apresentadas, ao longo do tempo e das páginas, segundo diferentes ângulos. É inquietante apercebermo-nos, aos poucos, de que o Barão de Charlus, que pela primeira vez descobrimos nos volumes iniciais (pelo olhar do narrador que recorda e se repõe, então, no olhar da criança que era), vai sendo completado e transformado à medida que o narrador cresce, e conhece melhor Charlus, com ele convivendo em novas situações. O próprio Charlus, claro, muda enquanto envelhece. Mas não é isso, não é só isso: o pequeno Marcel engana-se na sua observação; começara por conferir ao Barão qualidades que este nunca teve, porque se equivocou na interpretação de certo contexto em que o surpreendera. E o leitor equivoca-se com o narrador. Assume, sem saber, o seu olhar iludido, de

Bloch é, também, uma personagem extraordinária. Retomo-a, pois, muitos anos depois, a propósito de Anthony Blanche, de Brideshead Revivida, que o evoca claramente.
O jovem Bloch finge não notar que os demais, quando olham para ele, apreendem sempre um «judeu». Mas, na verdade, está obsessivamente consciente do seu «ser judeu» e está paranoicamente desconfiado de que os outros o estigmatizam pelo mero olhar. É esta permanente má-fé, esta luta de consciências, este querer fingir que não percebe ao mesmo tempo que não consegue não reagir agressivamente ao que julga perceber, que estão na origem das suas atitudes recatadas e ostensivas, entre um snobismo refinado e a mais inesperada grosseria, a sua

Tudo me reconduz, pois, às personagens de Proust. Os melhores livros beberam de Em Busca do Tempo Perdido. Reviver o Passado em Brideshead é um livro que tem na sua genealogia a obra de Marcel Proust.
4 comentários:
Este texto sobre Proust é para mim muito precioso, pois nunca li nada desse autor tão importante, e tomando contacto com o que o José descreve vou-me apercebendo com que linhas se coze o génio que marca a escrita de Proust.
Obrigado por este post!
abraço!
Oi José. Obrigado pela visita ao meu blog. Gostei muito do seu espaço e estou seguindo. Voltarei outras vezes. Fiquei encantado com o nome do blog, creio que uma referência ao filme de Antonioni, não?
Vagamente, sim. Mas estaria no meu inconsciente, porque devo confessar que, na altura em que decidi o nome, não tive consciência de aonde o tinha ido buscar. Obrigado, Luigi, e devolvo com toda a sinceridade o elogio.
Bem, essa dinâmica Brasil-Portugal, para além de (des)acordos ortográficos, anda boa.
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