
Existem, por um lado, livros do género policial. Claro. Mesmo que sejam irónicos, como os de Ross MacDonald, são, primeiramente, romances policiais: valem pelo entrecho, pelo mecanismo que sustenta a dialéctica entre o explícito e o sugerido, de forma a surpreender o leitor. A ironia é, nesse caso, um estilo, um condimento, não a essência.
Por outro lado, há livros, como Morte aos Feios, do surpreendente Boris Vian, em que a primeira escolha é a do tom irónico. O seu carácter policial viria em segundo lugar. Em última análise, faz parte da estratégia da ironia. E cuida-se, nesses casos, de brincar com o género, assumindo, distanciadamente, os lugares comuns e os tiques que definem a tradição.
Do meu ponto de vista, O Seminarista, de Rubem Fonseca, pertence a esta segunda categoria. O narrador é um ex-seminarista que se dedica à carreira de assassino profissional. Mas, numa escrita despojada, que foge a qualquer filigrana retórica, recorrendo, frequentemente, ao diálogo, RF mantém essa tensão que é, por si mesma e, ao mesmo tempo, um corrosivo elemento irónico e um manancial de interesse, aliciamento e cultura. Refiro-me ao facto de um «seminarista» ter, como profissão, matar pessoas. A cultura que subjaz, pois, a todo o texto, carregando-o com as referências literárias do assassino (a sagrada escritura - em latim -, os teólogos ou os poetas que o narrador gosta de citar) assumem uma ambiguidade maravilhosa. Trata-se, num certo nível, de brincar com estas referências. De as desconstruir, é certo: o que não impede que, no seu conjunto, em um outro nível, elas entreteçam uma espécie de tecido que, em si mesmo, é estética e literariamente gostoso e apetecível.
Falta, ao género, uma caução intelectual. Por voltas que o mundo dê, e a não ser com raras excep

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