terça-feira, 29 de maio de 2012

GOGOL: ALMAS MORTAS



Não sei muito bem por que razão o tradutor e prefaciador de Almas Mortas, na belíssima edição da Estampa, sentiria necessidade de tratar Gogol como um escritor menor na literatura russa. Nem sei por que lhe há-de parecer que Almas Mortas é, unicamente, o nascer do sol, sem o qual, concede-se, o sol não poderia atingir o zénite [Tolstoi, Dostoievski].

Mais do que um dos iniciadores do realismo [com as suas descrições de personagens cujas interacções, entre si e com o mundo histórico e cultural a que pertencem, reconstitui, com tanta força, aquela Rússia do século XIX, feudal, burocrática, militar e religiosa], o que me interessa em Gogol é a sua veia satírica, um humor ferino, um talento para a caricatura. Se faz sentido defini-la assim, trata-se de uma "caricatura realista": porque imagino uma Rússia em que aquelas personagens grotescas fossem perfeitamente possíveis, com as suas "grandes pencas", a sua velhice assexuada, uma avareza extrema ou uma generosidade tonta, as suas cerimónias, os seus intróitos, os seus salamaleques, os infindáveis percursos da burocracia e a sempiterna marca militar, em pinturas de guerra, ou de grandes generais russos, decorando as paredes.

É um poema (como o denomina o próprio Gogol) acerca de um homem que compra, a proprietários vizinhos, "Almas Mortas": "Almas" sendo o nome por que eram designados os servos pertencentes a cada propriedade; e os servos falecidos, isto é, as "Almas Mortas" [ainda sujeitas porém a um determinado imposto] sendo aquelas que, por alguma secreto móbil, interessam ao comprador em causa. É estranho não se perceber como este texto prefigura, brilhantemente, algumas das incursões contemporâneas por uma certa realidade cómica e sinistra, desde O Processo ou Berlin Alexanderplätz até ao surpreendente Viagem à Índia.     

sábado, 19 de maio de 2012

P.D. JAMES: MORTE NO TRIBUNAL

Vou decepcionar alguns dos meus leitores.
Penso que Agatha Christie é uma das mais produtivas escritoras de romance policial; numa certa perspectiva, é, sem dúvida, a mais interessante: as suas personagens são extraordinárias, as intrigas muito bem construídas. Miss Marple é deliciosa, Poirot, insuperável. Então?! O que falha em Christie será, se quiserem, a dimensão literária.

Não lhe pedimos isso. Tendemos a considerar que não faz falta. E não faz. Exigimos-lhes um assassinato, e lá está ele, exigimos-lhe que o criminoso permaneça invisível enquanto possível, e não o descobrimos, exigimos-lhe que o detective vá sondando e revelando os mecanismos da verdade, no seu raciocínio surpreendentemente ágil, e é o que se nos oferece. Em comboios ou em iates, muitas vezes numa Inglaterra pacata e rural, ou na turbulenta Londres, ou em longínquas paragens. Por que haveríamos de querer algo que não fosse exactamente isto?

Apercebemo-nos unicamente do que falta, quando lemos um romance de P. D. James. Porque somos colocados perante uma história que não poderia não ser policial, mas em que, simultaneamente, esse carácter policial se torna uma dimensão, apenas, entre outras diversas. É elaborada como uma riquíssima trama de personagens com densidade psicológica, histórias de vida difíceis e interessantes, no contexto de problemas sociais e éticos que captam a atenção inteligente do leitor. Como fazer essa ligação sem que a densidade psicológica - e literária - seja uma quebra do ritmo policial: esta é a verdadeira questão. Como não abrandar o interesse na solução do crime, ao mesmo tempo que se aprofunda cada personalidade, cada relação e o todo da situação: esta é, numa outra fórmula, afinal a mesma pergunta.

E, num romance desta natureza, pouco mais há a dizer. Assistimos ao encontro do cadáver: uma advogada competente mas extremamente crítica e pouco amada; conhecemos a filha, com quem viveu desde sempre uma relação sem amor nem compreensão, tempestuosa, o choque de figuras firmes, que escondem tantos complexos e fragilidades; conhecemos o namorado da rapariga, que a advogada defendera mas desprezara, e provavelmente considerava culpado da morte da tia; o ex-amante e o ex-marido, ou o grupo de advogados, imerso numa conturbada crise de sucessão: pretextos para a reflexão sobre o envelhecimento e o receio de envelhecer, as invejas e os ressentimentos. Tudo material para o trabalho de um paradoxal inspector-poeta [poeta publicado, aliás], de estranho nome (Dalgliesh, não é?), que vai lendo os caracteres, naquela sua leitura imbuída de sensibilidade e mordacidade.  O resto é o romance a que nos entregamos, recomendado a quem não procure, num policial, somente a simplicidade das geniais deduções.

domingo, 6 de maio de 2012

ANTÓNIO BRITO: SAGAL

Infinitas razões podem justificar o interesse que temos na leitura de um certo livro.
Às vezes, nem escolhemos as razões. O livro escolhe-nos e, à medida que o vamos lendo, as razões vão-se-nos apresentando.

Não seria capaz, pois, de estabelecer, antecipadamente, dois ou três motivos únicos que tivessem de presidir à minha selecção; os romances policiais procuram-me por isto, os de ficção científica por aquilo, os fantásticos, os de terror, as tragédias, as comédias, as tragicomédias - por não sei quê. As biografias, as auto-biografias, os diários, por outras coisas. E, no meio das minhas tentativas, só tenho memória de nunca ter conseguido ler um romance até ao fim - Ullisses, de James Joyce.

Aprecio literatura de guerra? A resposta certa tem de ser: à primeira vista, não; não existe uma tentação, nem sequer uma motivação. Não me "procuram"...

E, no entanto, fui levado a ler, recentemente, dois interessantes romances sobre a guerra colonial. Até ao Fim,  do meu amigo António Vasconcelos [e de que eu próprio fui, na Biblioteca da minha escola, o apresentador]; não vale a pena por enquanto adiantar muito mais a propósito dessa história sobre um grupo de fuzileiros, lançado no mato com a missão de resgatar prisioneiros a uma coluna de "inimigos"; em plena selva, sem contactos com o exterior, apercebem-se, por vagas e raras comunicações via rádio, que alguma coisa aconteceu em Portugal. Uma revolução, provavelmente, mas com que contornos? De esquerda? De direita? Serão os "inimigos" ainda inimigos?

Leio, agora, Sagal.
Por que me interessou inicialmente Sagal? Porque topei uma referência convincente: a criança abandonada numa caixa de Margarina Vaqueiro, diante de um bordel, e que fora educada pelo grupo de prostitutas; a infância, a adolescência difícil, na Casa Pia, e sempre com ligações a um certo bas-fond, a perseguição e a fuga em frente, para o exército. É uma história de acção: "Sagal" é, ele próprio,  uma espécie de herói e simultaneamente de anti-herói, um homem de acção que aluga a sua perícia e o seu potencial mortífero a quem pague mais. Segue-se, num certo sentido, como se veria um filme de Sylvester Stallone. Somos espicaçados pela força da história, mesmo que depois nos pareça que a devemos criticar, intelectual, cultural ou politicamente. Não estou hoje a fazer uma declaração de amor pelo cinema-Stallone; estou simplesmente a dizer que, nos filmes que em geral vejo, e na razão porque às vezes me apetece ver certos filmes, há estranhas razões que a razão desconhece, há uma superficialidade imatura que precisa de se consolar com tiros e explosões...

Sagal dá-me isso, de certa forma. Mas também um pouco mais: o quê? É duvidoso; possivelmente, uma certa dimensão histórica, que remete para o passado colonial, a memória do exército português em África, o testemunho de um certo tempo e de uma ideia de civilização. Leio uma história bem construída, que recupera um passado ainda por resolver, tal como muitas das histórias de acção norte-americanas procuram recuperar o tempo e o espaço da guerra do Vietname. Na sua ambição, é um romance que nos questiona a nós próprios. Aquele racismo e aquele reaccionarismo [aliás, absolutamente primário: veja-se a descrição implacável das personagens de uma esquerda "folclórica", oportunistas, sem higiene e preguiçosas; veja-se a da Lisboa de 77, entre panfletos e sujidade, comissões de trabalhadores, conspirações e greves...], aquele racismo e aquele reaccionarismo serão os que informam a visão do autor, ou são as referências "naturais" simplesmente do narrador, isto é, de uma personagem que representa a visão que seria, necessariamente, a de um homem daquele tempo, naquele meio?

Mas o romance é, porventura, ainda um pouco mais ambicioso do que isto, e oiço, até, falar dele como de um exemplo de literatura exigente e profunda. Apontam Sagal como texto um literário em sentido forte. «Muito bem escrito», dizia-se. Discordo. Pode haver certa graça nessa voz que cruza o português literário e a expressão coloquial, quase oral, de um narrador soldado: os palavrões, as frases de macho, as interjeições básicas. Mas não me basta: algo, nesse cruzamento, está manchado por uma insuficiência estilística, uma hesitação entre o que é literatura e o que é um modo de falar de que o autor não se libertou ao entrar no domínio na escrita. Demasiadas frases feitas e lugares-comuns, que nem sempre parecem deliberados; estranho que a propósito de um outro livro do autor, Lídia Jorge usasse palavras como «um testemunho cheio de força e muitíssimo bem escrito»; em todo o caso, procurados ou não, deixam-nos com o desconforto de estarmos ao que nos soa como uma habilidade menor, uma escrita-quase...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

BRANQUINHO DA FONSECA: O BARÃO


O pretexto é simples: entrando na Biblioteca de São Domingos de Rana, deparo com os cartazes que anunciam uma exposição sobre o escritor Branquinho da Fonseca.

Branquinho da Fonseca escreveu um romance, ou uma novela, se levarmos em conta a extensão (a qual não é a de um conto nem, propriamente ainda, a de um romance), que me pertubou o sono. Não tendo voltado a lê-la desde há mais de vinte anos, recordo-a, todavia, com uma estranha precisão, o que não é dizer pouco.

A escrita é contida, quer dizer, evita uma espécie de vertigem poética; contudo, não evita a beleza nem a originalidade. O que é curioso, porque mostra o meio-termo interessante, entre os autores que se embrenham no saborear da linguagem, esquecidos quase de que havia qualquer coisa a narrar, ou seja, uma história [ocorre-me o exemplo de José Luís Peixoto, embora eu goste de JLP], e aqueles que fazem da secura um modo de escrita, como se a história dispensasse qualquer retórica [e ocorre-me, entre os de hoje, um outro exemplo, que também não desprezo: João Tordo]: e esse meio-termo está em Branquinho da Fonseca, como em Cardoso Pires ou em algum Carlos de Oliveira; o da beleza que reside num acto de contenção mas não de despojamento, numa busca da "palavra certa" que seria, na sua exactidão, a mais bonita e, de algum modo e paradoxalmente, também a mais inesperada.

O Barão é uma novela que me apetece denominar neo-gótica, pela criação de um ambiente sinistro, todo envolto em enigmáticas sombras, e onde, ao invés de Drácula, somos postos em face do proprietário fascinante e misterioso de um título, terras, um castelo. É a reconstituição do tema do hóspede, que, sendo recebido por quem lhe dá conforto, calor, que comer e beber, e que dormir, o trava na antecâmara de alguma história antiga, um mistério adivinhado, um fascínio terrífico, e sublime, e pavoroso.

Branquinho da Fonseca anda arredado - mas José Cardoso Pires e Carlos de Oliveira também, e são certamente do melhor em que a literatura portuguesa contemporânea se realizou.