sábado, 3 de abril de 2010

MIKHAIL BULGAKOV: MARGARITA E O MESTRE

É o momento de vos falar de um livro e de um autor que estão, entre os meus cinco preferidos, num lugar muito destacado (embora, de facto, indefinível).
Também neste caso, e uma vez mais, devo ao meu primo o conhecimento deste romance, de uma riqueza que nunca esgoto nem esgotarei. E lembro-me de que a passagem a que ele constantemente gostava de aludir - aquela com a qual, digamos assim, me espicaçou, me levou a procurar e a ler o livro - remete para um episódio que se encontra nas primeiras páginas: de facto, impagável.

Dois intelectuais de Moscovo - Berlioz e Ponirov (que, acrescenta o autor, usava o pseudónimo de «Bezdomni») - discutiam, preguiçosamente, numa tarde acalorada, quando depararam com um intrigante estrangeiro, que se lhes dirigiu fazendo perguntas.
Viremos a saber, um pouco mais tarde (Berlioz e Bezdomni também o não sabem, naturalmente, mas não estou a desvendar nenhum segredo capital), que o estrangeiro é o próprio demónio; na altura, está simplesmente atónito por descobrir que os dois escritores são ateus:

«- Admirável! - exclamou o interlocutor e, lançando olhadelas furtivas e baixando ainda mais a voz, disse: - Desculpem-me a impertinência, mas, ao que percebi, os senhores, para além do mais, também não acreditam em Deus? - Teve um olhar de espanto e acrescentou: - Juro que não digo a ninguém».

A conversa prosseguiu, nesse tom de segurança de uns, perplexidade de outro, até ao momento em que este os interroga sobre como responderiam às provas da existência de Deus:

«- Mas permita que lhe pergunte - tornou o visitante estrangeiro depois de reflectir ansiosamente. - E as provas da existência de Deus, as quais, como se sabe, são exactamente cinco?
«- Infelizmente! - respondeu Berlioz com pesar -, nenhuma dessas provas vale nada, e a humanidade já as mandou há muito para o arquivo. Pois há-de concordar que no domínio da razão não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.
«- Bravo! - exclamou o estrangeiro. - Bravo! O senhor repete interiormente o pensamento do velho irrequieto Immanuel sobre esse assunto. E coisa curiosa: ele demoliu completamente as cinco provas, e depois, como que troçando de si mesmo, construiu a sua própria sexta prova!
«- A prova de Kant - ripostou o culto editor com um leve sorriso - também não é convincente. [...]
«- Exactamente, exactamente! - exclamou ele, e o seu olho esquerdo, verde, voltado para Berlioz, cintilou. - [...] eu disse-lhe, ao pequeno-almoço: "Desculpe, professor, mas o senhor inventou uma coisa que não faz sentido! É talvez inteligente, mas demasiado incompreensível. Vão fazer troça de si".
«Berlioz arregalou os olhos. "Ao pequeno-almoço?... A Kant?... Que está ele para ali a inventar?", pensou», não imaginando todo o alcance desta enigmática frase, que significava, precisamente, que Immanuel Kant, por se ter dedicado a demolir as cinco provas da existência de Deus, se encontrava no inferno.

O livro de que estou falando chama-se Margarita e o Mestre: narra a forma como o Diabo - Woland -, rodeado de figuras malévolas (mas engraçadíssimas, diga-se já), visita a Moscovo dos anos Vinte, com o intuito de reerguer a fervorosa e eterna luta entre o Mal e o Bem, em face da ambiguidade ética, do vazio de valores, da total ausência de consciência que grassam na sociedade soviética.

O seu autor, Mikhail Bulgakov, foi perseguido sob o regime de Estaline. Os textos satíricos que desde jovem escreveu tornavam-no suspeito. O seu humor negro e irreverente, iconoclasta, porém contagiante, punha metodicamente em causa a «sociedade perfeita»: Bulgakov não queria senão, por fim, que lhe fosse concedida autorização para deixar o país, o que nunca conseguiu, sofrendo até à morte por não poder trabalhar livremente, nem publicar. (Que o próprio Estaline tenha apoiado a admissão de Bulgakov ao Teatro de Arte de Moscovo, como encenador assistente, em 1930, não é senão uma equívoca tentativa de aproveitamento, pelo Poder, da sua fama literária, equívoco a que, seis anos depois, a demissão do escritor porá cobro).

Margarita e o Mestre é o puro delírio da magia: tudo pode acontecer - e acontece, com efeito - ao longo das muitas páginas, sob a batuta de um demónio à solta e da sua corte. A imaginação de Bulgakov tem algo de um criador de desenhos animados, que torna possível, aos pacatos cidadãos moscovitas, esticar ou encolher, ou que percam literalmente a cabeça (veja-se, por exemplo, uma memorável sessão de magia realizada pelo Diabo numa casa de espectáculos); e mais do que Woland, há uma personagem que me fascina: um gato dos infernos, grande e gordo, jogador de xadrez, amante de armas.

Contudo, sob a ligeireza deste mundo em ebulição, deste universo cujos limites se rasgam e deformam, transformado numa desarrumação sistemática, perversa e horrorosa, descobrimos a cultura profunda própria da convivência com os clássicos, nomeadamente Goethe, cujo Fausto é um permanente inspirador desta obra. Atente-se no nome de "Margarita", por exemplo, a mulher que se sacrificará, na energia e generosidade eminentemente femininas, tornando-se feiticeira, de modo a resgatar ao inferno o seu amado (o Mestre): é um nome deliberado, na maneira como evoca - e invoca, diríamos, a propósito - essa outra "Margarita", a de Fausto precisamente.

Em Margarita e o Mestre encontramos a exuberante reunião de uma escrita elegante, um sarcasmo contínuo, numa oscilação entre o cómico e o sério, numa mudança vertiginosa de forma e de estilo: nada é, por exemplo, tão filosófico, no sentido mais nobre e sério da palavra, do que o encontro entre Jesus Cristo e Pôncio Pilatos, a que acedemos num inspirado texto escrito pelo Mestre (o protagonista): esse texto vai sendo intercalado como contraponto da narrativa da revolução que a passagem do Diabo por Moscovo a todo o momento provoca. À contraluz, entretanto, vemos a realidade: as sombras do regime soviético a definir-se; descrevem-se-nos tratamentos psiquiátricos a que eram submetidos os que não se integravam; os movimentos da burocracia, intervindo e tornando submissa toda a criatividade; os comités da Arte, os vizinhos que se espiam - e uma gigantesca operação para eliminar toda a crença.

Gosto de diversos escritores russos. É verdade. De outros falarei ainda. Bulgakov, porém, é um dos maiores - e, Margarita e o Mestre, a sua obra-prima

2 comentários:

Nanny disse...

Fantástica esta sua análise. Cheguei aqui por acaso, porque algo me fez hoje lembrar do livro e por isso o pesquisei, a memória já me falha os detalhes (li Margarita e o Mestre há já bem perto de uns 30 anos) mas o sentimento de encantamento ainda hoje perdura, e devo dizer que marcantes assim só conto 3 livros ao todo, apesar de contar centenas deles lidos.

Obrigada por esta sua análise que me ajudou a revivê-lo.

Alessandra Merlone disse...

Parabéns!!! Este livro é um dos meus preferidos. Tive que analizar ele na Cadeira de Literatura Russa e foi o que me iniciou nas grande obras russas.

Um livro mágico!!!