terça-feira, 5 de abril de 2011

PROUST CONTRA O MAL-ESTAR

1.
Ando deprimido. Isso não faz, obviamente, que me não apeteça ler. Mas faz que me apeteça pouco falar - e ainda menos, provavelmente, escrever... - acerca de leituras. Realizo um pequeno exercício mental: no estado em que estou, cansado e triste, de ombros descaídos e padecendo de uma melancolia persistente, seria capaz de falar, no entanto, de algum livro em particular...? Haveria algum cuja mera referência tivesse o poder de me animar, me reerguer os ombros, me pôr a aspirar a primavera?



2.
Curiosamente, a resposta é sempre a mesma. Proust. Em Busca do Tempo Perdido.



3.
Não sou um especialista em Proust. Só um apaixonado. Não me espanta que seja um autor tão pouco apreciado. A razão é que certos textos, como certas músicas, precisam de nos dissolver no seu corpo para que as amemos; precisam, diria - e não sei se isto vai soar bem, ou por outra, irá certamente soar mal -, que atinjam uma zona do corpo do leitor e do espírito do leitor onde o seu próprio olho crítico não tenha já poder algum. Eu não sou capaz de olhar criticamente a obra de Marcel Proust. Falta-me distância. Casei-me com ela, fundi-me nela, perdi qualquer vestígio de autonomia. As suas palavras influenciam-me irreversivelmente. Sinto-as com uma espécie de arrepio, num encantamento absoluto. É por causa da história, ou da descrição dos pormenores, tornando visíveis, audíveis, tacteáveis ou cheiráveis as sensações que a sua memória reencontra - e é por causa da linguagem, do paradoxo, do sentido do subtil.



4.
Encontro este veio em alguns autores franceses. Montaigne, algum Pascal. Uma certa Colette. Yourcenar, sem dúvida nenhuma. Há outros tipos de prazer de leitura, e em todas as línguas os recupero; em português, santo deus: Pessoa, Soares, Campos, o drama em gente todo, Fialho ou Hélia Correia. Os brasileiros, os ingleses, os russos, os norte-americanos, Flannery, Salinger ou Carver (para reaver a trindade referida por Catarina). Mas ninguém tem o poder dos franceses. Nenhum me arranca assim, às primeiras linhas, a uma depressão. E, mesmo entre os franceses, nenhum - ninguém como Proust.

5.
A que deus dos livros devo agradecer a existência de uma tal obra?

5 comentários:

Jamil S.P. disse...

Além de Proust, tome umas doses de vinho do Porto, alegra o coração. Mas não ouça blues em hipótese alguma!
Boas companhias também podem ajudar.
Cuide-se bem,
um abraço amigo, José.

Beatrix Kiddo disse...

"Ando deprimido. Isso não faz, obviamente, que me não apeteça ler. Mas faz que me apeteça pouco falar" tb fico assim. Leio mais e falo menos, ao ponto de me esquecer de como se fala para alguém. Agora que chegou o sol e quero férias, ando apática.

Cuide-se bem,
um abraço amigo, José

Zé alberto disse...

belo exercício de escrita o seu,... banquete em que a memória do amor parte e reparte, para ficar, inevitávelmente, com a melhor parte :)

abraço!

sonia disse...

Proust proporcionou-me uma das mais belas experiências. Passei horas e horas lendo Em Busca do Tempo Perdido na rede de uma casa na praia, que hoje já não me pertence, em estado de quase transe! Nada interrompeu essa leitura mágica e o gosto da magia ficou intacto até hoje. Lembro-me da sensação que tive ao ler sobre as sensações de Proust percorrendo os caminhos onde via os pilriteiros e tudo o mais!

Teresa disse...

Não consegui comentar este post. Preferi escrever sobre ele no meu blogue.
Acabou por ser uma boa catarse.