
A situação daquele jovem - que a vive e a narra - é extrema: escritor, culto e criativo (pensa frequentemente em iniciar um ensaio que desmonte aspectos da filosofia de Kant), sem laços familiares que o protejam ou o façam pertencer a um mundo humano, numa solidão sem história, isto é, de cujo passado e razão nada sabemos, sem amigos (apenas vagos conhecidos), descreve com uma minúcia incisiva e insensata o passar do tempo [exterior e interior, numa espécie de contínuo diálogo consigo mesmo] nas ruas de Oslo, então Kristiania.
É um tempo de indigência. A roupa está num fio, não pode pagar à senhora que lhe arrendara um quarto (que, portanto, abandonará); os valores invertem-se; a desocupação e a fome [uma fome trágica, que ora se satisfaz graças a qualquer expediente, mas dali a três horas haverá de regressar com novo impulso e uma força mais voraz], a desocupação e a fome tornam-no delirante. E, portanto, o seu narrar está perturbado por essa espécie de indistinção entre a fantasia e a realidade, por uma euforia optimista e sem razão que se metamorfoseia, inesperadamente, num pessimismo aflitivo.
Sobretudo, a mentira ganha contornos que só podem explicar-se à luz desta situação-limite. Gostaria de, precisamente, me centrar na questão da mentira, que me parece muito mais interessante do que, por exemplo, a da "fome" (a fome como símbolo e a fome, até, como atitude ética) que tanto impressionou Paul Auster. [Auster é o prefaciador. Deixei de amá-lo há anos. Adiante]. Porque a mentira é, sem dúvida, muitas vezes tão-só um truque empregue pelo protagonista para conseguir algum
dinh

É um romance que inventa e lança meios que alguns dos maiores escritores do século XX irão aproveitar, temática e formalmente - o pensar como fala interior, com fendas, hiatos e inconsequências lógicas; a angústia existencial perante o absurdo. Muito melhor e mais puro do que em alguns dos seus discípulos.
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