sexta-feira, 23 de setembro de 2016

GRAHAM GREENE: O FIM DA AVENTURA


Numa das suas crónicas, sempre inteligentes e desencantadas, João Pereira Coutinho dava exemplos de figuras e situações romanescas de que a nossa prosaica realidade nunca poderá aproximar-se: o uísque (ou seria o gim?) na minha mão não tem o sabor que adivinhamos num certo romance, o pôr-de-sol diante dos meus olhos não é igual ao que li, um amor real não terá a espessura do amor de Bendrix por Sarah. Aliás, porque perco tempo explicando, quando posso remeter directamente para uma citação que, em tempos, aqui fiz dessa crónica?

Estes nomes, que eu não conhecia ainda, penetraram-me no cérebro e nos sonhos. Bendrix e Sarah. Pesquisei metodicamente, até descobrir que são as duas personagens principais de um romance de Greene, The End of the Affair, que na elegante tradução de Jorge de Sena se verteu para O Fim da Aventura.

Este romance, muito mais do que uma história sobre um amor infeliz, é um
comovente tratado do ciúme. As considerações de Maurice Bendrix, o narrador, sobretudo quando rememora o início, o apogeu e o fim do seu caso amoroso, aproximam-no do Swann, de Proust: Bendrix é, também, o apaixonado inquieto e obcecado, que não consegue conter as perguntas que o assolam, e na franqueza de Sarah detecta sempre o desinteresse e a distância. O homem que adivinha as inúmeras possibilidades a partir de um trejeito, uma mudança de entoação, que sofre porque nada do que vê e ouve em Sarah pode ser inocente. A interpretação do seu menor gesto contém torturas que só outro ciumento poderia imaginar.

O detective contratado por Bendrix para vigiar Sarah - anos volvidos sobre o fim da aventura - é um exemplo muito conseguido de um carácter de tragicomédia, como os que os melhores autores ingleses tão bem compreenderam  e cunharam - vejam Dickens, Somerset Maugham e o próprio Graham Greene. Parkis e seu filho, o adolescente a quem ele ensina a profissão, é um homem meticuloso e humano, que se apega às pessoas cujos passos segue, ridículo, cândido mas inesperadamente profundo. E todos, Bendrix e Sarah, Henry, o marido traído, Parkis e seu filho, o pregador ateu, o padre católico, se movem num mundo sem luz, onde Deus envia sinais que podem não ser sinais: nada mais do que coincidências em que desejamos crer.

Em que desejamos crer ou em que desejamos não crer. Para Bendrix não se trata tanto de duvidar da Sua existência, como de não poder perdoar-Lhe. Deus como Inimigo. Deus como o Pai Injusto e Tremendíssimo, que exige sacrifícios e oferendas preciosas a troco de um pouco de Paz. Que exige o sacrifício do amor - porventura o amor pecaminoso e errado, mas o único que importa e nos resgataria, e dá sentido à vida. Bendrix é o oposto de Job. É a criatura que não aceita e combate, é quase Lúcifer e, como Lúcifer, o que o faz correr é mais da ordem da amargura e do desespero do que verdadeiramente da ordem do Mal.  

3 comentários:

sonia disse...

Ao ler o texto pensei na hipótese de Bendrix usar Deus como a melhor forma de não parecer dependente da aprovação de outrem para seu ciume excessivo. Preferiu se enfurecer contra Deus, que obviamente não dialogou com o sofredor.Como não li o livro, é melhor não me alongar no assunto. Gosto demais de Grahan Greene. Mas me identifiquei muito com Somerset Maugham. Li todos dele, há muitos anos.

josépacheco disse...


Tem toda a razão, Sonia, Somerset Maugham é absolutamente extraordinário. Tenho de o reler.

Carla C. disse...

Gostei imenso desse livro. Aliás, gosto de tudo o que li de Graham Greene. Por exemplo, Os comediantes ou o Cônsul Honorário. A sua leitura cria-me quase sempre um certo ambiente de tensão nervosa. Um dos livros que tenho em lista para ler ainda é O Nó do Problema. Porém, faltou-me até agora a coragem. Somerset Maugham também é outro autor de referência para mim. Conheci-o nas aulas de técnicas de tradução quando frequentava o secundário, mas voltei a ele já mais velha. Obras como A servidão humana e O fio da navalha podem ser lidas uma e outra vez e retiramos sempre aprendizagens novas. Creio que Greene e Maugham partilham esse aspecto em comum, fruto não só do talento de escrita, mas do reconhecimento de que o ser humano é complexo, capaz do melhor e do pior e que a maior parte das vezes fica algures pelo meio.