quarta-feira, 31 de julho de 2013

A.J. CRONIN: AS CHAVES DO REINO



O Concílio Vaticano II começou no início dos anos sessenta, mas só em meados da década, com Paulo VI, atingiria a sua mais elevada expressão ecuménica, abrindo janelas, revolucionando costumes, submetendo as regras, até certo ponto, ao primado da fé e do sentimento. Só muito mais tarde ainda, porventura nos anos 80, se falará da Teologia da Libertação, tanto no correctíssimo ideal de se pôr sempre do lado dos pobres, como na sucessão de erros e equívocos bem-intencionados em que se terá deixado capturar.

Ora, este romance é dos anos 40. Mais precisamente, de 1941: que o protagonista de As Chaves do Reino seja o comovente Padre Francis Chisholm, cuja vida ilustra a fórmula «Ama e faz o que quiseres» [Santo Agostinho] torna-o, tantos anos antes dessas experiências da história da igreja católica, o precursor contemporâneo de uma ânsia de retorno à autenticidade cristã, a um espírito de fraternidade e a um despojamento, preparado para aceitar e compreender mesmo o mais longínquo, se é que faz sentido crer que «na casa do Pai há muitas moradas...»

Minha mãe, que há muitos anos lera, e amou, este livro, confidencia-me agora que, justamente entre as senhoras da Acção Católica Portuguesa, a que pertencia, a obra causou furor, e as atitudes intempestivas do Padre Chisholm eram debatidas e, em última análise, duramente criticadas. Por exemplo: que ele tivesse aceitado deixar morrer o seu grande amigo sem lhe conceder a extrema-unção, por respeito pela dignidade do ateu convicto que este fora em vida. Acredito que, em certos meios, ainda hoje tal gesto pudesse consternar.


A predisposição de Francis para o amor, que o leva a ser um amigo genuíno do mandarim Chia [a quem também recusa uma "conversão insincera", motivada pela gratidão], ou de um casal de Pastores protestantes norte-americanos, que se esperaria que viessem a ser seus rivais, senão inimigos, na obra de evangelização entre os chineses, revela a grandeza e a rectidão dos sentimentos e da intuição cristãos que o impelem: ao contrário dos homens da hierarquia, finos e delicados, eficazes e diplomáticos, em busca de uma competência profissional da igreja, traduzida em números de convertidos ou na extensão física da missão, como se tudo se resumisse ao cumprimento de objectivos empresariais; retóricos de discurso elegantemente burilado, reféns da preocupação de agradar.

Trata-se, no mais amplo sentido da palavra, de um romance de caracteres. Múltiplos, humaníssimos, seres intimamente bondosos mas com pecados, ou viciosos que, no fundo, se defendem a seu modo da vida, gente que percebemos que se vai transformando, ou poderia transformar-se. [Nem sempre, aliás, a transformação coincide, em todos eles, com uma evolução; mas só raramente não vemos nestas personagens alguma possibilidade de bem e de salvação]. À medida que no-los apresenta, define, através deles, uma visão completa de todo um mundo, toda uma época e toda uma cultura. A estreita aldeia escocesa, primeiramente, num ambiente piscatório, de onde será transplantado, aquando da trágica morte de seus pais, para uma família mesquinha e arrivista, da qual o salvará mais tarde a tia Polly. Por fim, a aprendizagem e a formação da sua vocação, nos primeiros contactos com o preconceito e o maquiavelismo, que lhe repugnam, de professores e estudantes.

Estes ambientes são tão bem caracterizados que, por um momento, o leitor sente que vai perder algo disto, destas pessoas, deste mundo, quando Francis Chisholm é enviado para a China. Grave engano! Os capítulos sobre a sua vida na China são de uma intensidade dramática que nos exalta. A dureza da sua fixação em território inóspito, a constante aventura em que se converte uma vida que tão pouco e tão poucos tem para se expandir, a relação impossível com a aristocrática e arrogante madre que o virá ajudar na missão, a força de amizades improváveis, contra tudo - a fome, as doenças, os ataques movidos por cruéis senhores da guerra - devolve-nos o melhor do cristianismo: num homem rude e impaciente, tão avesso à pieguice como à ostentação, completamente falho de outra diplomacia que não a de uma alma que se entrega totalmente e sem subterfúgios, encontro - eu, eterno insider-outsider do cristianismo - a empolgante vibração da Boa Nova.

5 comentários:

Teresa disse...

Ai José, José, que nem sei que mais lhe escreva. É um dos livros da minha vida.

Há coisa de uma semana recomendei o seu blogue a uma amiga, que ficou leitora devota. Discutimo-lo em privado, um dia destes (perdoar-me-á) tenho mesmo de falar de si na Gota.

«Estes ambientes são tão bem caracterizados que, por um momento, o leitor sente que vai perder algo disto, destas pessoas, deste mundo, (...)». Céus, quantas vezes eu senti isto em muitos livros e nunca soube expressá-lo! Obrigada. É que é isso mesmo, esse sentimento de perda ao começar um novo capítulo de um grande livro que lemos pela primeira vez e nos transporta para outra acção. É por isso que a primeira leitura é irrepetível, seja Proust, Eça ou Jean d'Ormesson (POR FAVOR, leia Au Plaisir de Dieu, salivo antecipadamente a pensar na sua crítica).

Eu e a minha amiga concordámos que o José devia estar a fazer crítica literária, pelo menos, para o Expresso.

Sobre A. J. Cronin: já leu A Cidadela? Não referiu outras obras do autor, deduzo que não. Vai apaixonar-se, confie em mim.

josépacheco disse...

Minha querida amazing Teresa:

Em primeiro lugar, muito obrigado pelas suas palavras, amáveis e estimulantes. Sei que são sinceras, embora imerecidas.

Espanto-me pelas nossas afinidades electivas; mas, ultimamente, tem-se tratado de mais do que de simples coincidência. Pensei que lhe estivesse claro que ando a seguir-lhe o roteiro de gostos literários, a que me rendi completamente. Redescobri Brasillach graças a si; antes, já me levara até Pascal Bruckner. Mesmo a Romain Gary. [Estou certo de que a Teresa o refere algures]. O mesmo com "As Chaves do Reino". E sabe o que ando agora a ler? "A Sombra Habitada", de Ongaro, e "Os Eygletière", do Troyat. Claro que Jean d'Ormesson será um brevíssimo próximo. Portanto, querida amiga, se alguém deve agradecer a alguém, sou eu a si. E estou-lhe grato, creia que estou.

Não concordo é que devesse encontrar-me a fazer crítica literária fosse onde fosse. Não se trata de falsa modéstia. Já viu que gosto de dar conta das minhas leituras de um modo muito particular, entrelaçando-as com as minhas memórias e uma dimensão excessivamente pessoal. E que, mais do que andar em cima dos últimos livros publicados pela Leya, o que me apetece mesmo é a minha caça aos livros perdidos e desaparecidos, os invisíveis. Este género "ensaístico", no sentido mais simples que Montaigne dava à palavra, só funcionaria mesmo num blogue, que gosto de ver como a minha casa, onde não cumpro ordens nem respeito senão os meus próprios prazos: uma casa onde gosto muito de receber...

Por tudo o que diz e me tem dado, Teresa, muito obrigado.

Teresa disse...

Fico desvanecida com as suas palavras, sério.

Provavelmente está com a mesma edição de Os Eygletière que eu tenho. Vai ficar chocado, principalmente com o terceiro volume. Nunca, em toda a minha vida, encontrei tanta asneira num livro. Nessa altura o nome do revisor ainda não aparecia nos créditos, e ainda bem para o culpado, seguramente o pior revisor da história: éramos capazes de lhe fazer uma espera e de o lapidar. Os erros são tantos e tão revoltantes que chegam a dificultar a leitura.

Além de, aí a três quartos do terceiro volume, haver um caderno defeituoso que repete páginas e a que faltam outras quantas. Uma vergonha, e vergonha bem rara nessa época.

Mas temos um glorioso oposto: a maravilhosa tradução de Ana Karenine por Saramago (suponho que terá sido feita a partir do francês). Ele detestava que alguém se lembrasse do seu passado como tradutor, mas não me lembro de ter encontrado um erro ou uma gralha sequer naquele enorme livro. E olhe que não gosto de Saramago, uma amiga que também não gosta dele anda a dizer-me há imenso tempo que tenho de ler A Viagem do Elefante, que esse vou adorar. Ela conhece os meus gostos, eu é que continuo a resistir.

josépacheco disse...

Obrigado pela advertência.
Já agora, "um" Saramago de que a Teresa gostaria (punha as mãos no fogo) é O Ano da Morte de Ricardo Reis.

SEVE disse...

"O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS"-uma pérola da literatura mundial (ponto final)