
O primeiro capítulo tem um tom quase surrealista que não captamos, imediatamente, em toda a sua extensão de estranheza. O protagonista é um piloto de bombardeiro, que, no tempo da intervenção norte-americana na 2ª Guerra Mundial, se encontra hospitalizado; dedica-se a um acto de censura: cabe-lhe a tarefa de reler cartas que os soldados pretendem enviar a familiares, suprimindo informações secretas, delicadas ou - presumo - reveladoras de qualquer desânimo; mas Yossarian faz da sua tarefa um passatempo irónico e divertido: elimina aleatoriamente, e por fases, ora, primeiramente [imaginemos] todas as referências afectivas, ora, mais tarde, digamos,todos os verbos, terminando por, numa derradeira fase, só deixar visíveis as conectivas, riscando tudo o mais.
Embora este modo de agir pareça pouco normal, somos tentados a encará-lo como uma brincadeira num tempo e num espaço alterados, sufocantes, dolorosos: na continuação da leitura, apercebemo-nos de que o comportamento de Yossarian não é um desvio "humorístico" para suportar (ou, de algum modo, aligeirar) uma situação e um dia-a-dia deprimentes. É mais do que isso: é uma maneira de estar comum a todas aquelas personagens, uma visão partilhada por todo o exército, numa espécie de delírio colectivo. Os diálogos são alucinados, cheios de equívocos, como se ninguém se ouvisse senão a si mesmo. As obsessões, as manias, as manhas. Não há revolta nem terror, porque o ambiente de guerra se esgota nesta rede de relações burocraticamente hierarquizadas, que obedecem a normas que são, elas próprias, em certa medida absurdas.
Catch 22 (em português: o «artigo 22») remete, precisamente, para essa perspectiva. Kafka ou Buzzati n

2 comentários:
Gostei muito desta análise.
abraço.
Ao contrário do Major Major a malta dos blogues, recebe, mesmo quando não está.
Enviar um comentário