Tenho um amigo de há muitos anos, rapaz culto e inteligentíssimo, o qual, porém, não é e nunca foi dado a extensas leituras.
Acho, por isso mesmo, particularmente curiosa a convicção com que ele fala sempre, em grupo, acerca de livros; insisto: de livros que nunca leu!
Não necessariamente entre nós, claro, velhos amigos que o conhecem bem e, a meio de um argumento seu sobre certa obra em discussão, acabamos sempre por lhe perguntar: «Ouve, mas por acaso já leste isto?»; interessam-me e divertem-me, sobretudo, os relatos que o próprio faz acerca do respeito com que a sua crítica é acolhida; a facilidade com que, entre colegas, parece mudar a opinião que se generalizara a propósito de um qualquer romance; a forma como até já o procuram para se aconselharem sobre leituras...
Este meu amigo poderia tirar partido (se, precisamente, lesse alguma coisa) de um livro mais interessante do que o título levaria a crer: Como Falar dos Livros que Não Lemos.

Ora trata-se, pelo contrário, de um dos mais inteligentes livros sobre livros, que pude ler nos


Por fim, a teoria de Bayard pode ser entendida, se lhe quisermos detectar um alcance maior do que o da mera ironia, como uma crítica pertinente a uma certa imagem do «leitor por obrigação» em que muitos intelectuais se revêm; uma crítica aos sistemas de ensino que, do secundário ao universitário, fazem da «leitura» o contrário de um prazer - um metódico e obstinado coleccionar de dados, nomes, histórias, o burocrático montar de uma máquina de obras a «consumir»: contra essa ideologia inerente ao leitor académico, Bayard lembra - e com razão - que, do conjunto do que consideramos as «nossas leituras», fazem parte os LP (livros somente percorridos),

Pessoalmente, para que essa ideia faça todo o sentido, basta-me pensar que é um pouco num cruzamento de todas estas possibilidades, precisamente, que considero, digamos a Bíblia como sendo um dos livros que li, ou que desfrutei: mas a Bíblia que conheço, porventura com profundidade, é a das parábolas que escutei na catequese ao Padre Baptista; é a das infinitas histórias e lições que a minha mãe constantemente reproduzia; é a Bíblia épica que reencontro em filmes; a Bíblia que, por vezes, percorro, detendo-me numa passagem ou outra, mas nunca terei lido nem creio que venha a ler, num acto contínuo e devoto, da primeira à última linha...
Nada melhor do que deixar-vos com os títulos desconcertantes dos dois primeiros capítulos do livro de Bayard:
I: Os Livros que Não se Conhecem: Onde o Leitor Verá que É Menos Importante Ler Este ou Aquele Livro (O que É Uma Perda de Tempo), do que Ter Sobre a Totalidade dos Livros o que Uma Personagem de Musil Chama Uma «Visão de Conjunto».
II: Os Livros que Percorremos: Onde Vemos, com Valéry, que Basta Dar Uma Vista de Olhos a Um Livro para lhe Consagrar um Artigo Inteiro e que Até É Inconveniente Proceder de Outro Modo no que Respeita a Certos Livros.
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