quinta-feira, 4 de novembro de 2010

KNUT HAMSUN: PAN

Encontrei uma primeira referência a Pan num apetitoso livro sobre livros chamado Bibliotecas Cheias de Fantasmas. Terei porventura pensado que se tratava de «Peter Pan», de J. M. Barrie. Quando
percebi que se tratava de outra coisa, uma das obras mais queridas do escritor norueguês Knut Hamsun, prémio Nobel da literatura em 1920, senti despertar aquele particular entusiasmo que sobre nós exercem certos objectos de culto. Procurei Pan pelas livrarias, mesmo numa tradução inglesa. E, evidentemente, não o achei.

Por uma mera coincidência, poucos meses mais tarde deparei-me, bruscamente, com o mesmo Pan. Em português, lançado pela Cavalo de Ferro, já em 2010: uma capa muito bela - a reprodução de uma pintura, de 1865, de Berthe Morisot. O verde impressionista de uma floresta norueguesa, indefinidamente salpicada pelo amarelo de certas flores ou o acinzentado de troncos de árvores.

Pan é a história de um sentimento. Simplifico, talvez: mas a personagem principal, mais do que o Tenente Thomas Glahn, é o peculiar sentimento que o atrai para Edwarda. Tudo o que vemos acontecer não é senão a forma como tal sentimento ganha consciência de si, se afirma, se frustra, se nega, reinicia, se nega de novo. Não há outra trama: toda a narração se confunde com a da série de metamorfoses desta atracção do Tenente por uma rapariga (uma mulher, afinal) que ele não consegue compreender nem dominar; que às vezes parece corresponder-lhe e amá-lo também, mas subitamente lhe escapa e o despreza. Que regressa quando a dava por perdida, que o chama de novo, para, uma vez mais, o agredir e rebaixar. Pan é, pois, a história desta indecisão e desta incompreensão, desta contínua tensão que, no limite, funciona como um jogo - entre querer e não querer, como se todo o amor precisasse de ser posto à prova: ou como se desejássemos somente enquanto o objecto do nosso desejo nos é inacessível e, no momento em que sentimos que também ele nos deseja, principiássemos a querê-lo menos, a desinteressar-nos, a afastar-nos...

Mas há um outro aspecto que o romance de Hamsun capta perfeitamente. O objecto do amor é, até certo ponto, transferível. Em face do seu sentimento ingrato e difícil por Edwarda, que o ignora ou repudia, o Tenente pode amar outras mulheres. Até certo ponto. Para provocar ciúmes, ou para preencher o seu mal-estar. Ou enganando-se a si mesmo. Possivelmente, só mesmo para se enganar a si mesmo.

O que surpreende nesta narrativa, relativamente curta mas muito densa, é o modo como conjuga artisticamente os opostos: se há uma exposição muito «realista» dos sentimentos, de algum modo psicanalítica, esta dá-se no interior de um elemento quase «onírico», irrealista e misterioso; as relações são sempre enigmáticas, as acções e as reacções das personagens constituem-se numa imprevisibilidade incómoda, sinistra, mantendo aquele tom de estranheza em que um Kafka encontrará a sua voz. Não falo de Kafka por acidente. Mas porque se escreve, na badana em que nos é sumariamente apresentado Hamsun: «Mann, Gide, Gorky, Kafka e Hemingway contaram-se entre os seus incondicionais admiradores». Lendo-se este livro, percebe-se porquê.

4 comentários:

Jamil S.P. disse...

Interessantíssimo, ótima resenha, meus parabéns! Tive que a ler com cuidado, evitando alguns trechos, pois não quero perder o prazer de descobrir o que você antecipa aqui primeiramente com meus próprios olhos e coração. Já está também em minha lista de futuras leituras, espero encontrá-la à venda além-mar.

Anónimo disse...

Como eu gosto da escrita do norueguês Knut Hamsun! Já li os três livros do escritor editados em português: "Fome", "Pan" e "Victoria" e desde a publicação de "Fome" que Knut Hamsun se tornou num dos meus escritores preferidos.
A leveza e a doçura das palavras do escritor mesmo perante circunstâncias adversas ao sentimento do amor e da paixão consegue despertar sensações tão belas quanto únicas a quem as lê. Quando pensamos que qualquer uma destas obras foi publicada na última década do século XIX, temos forçosamente de concluir que Knut Hamsun utiliza com mestria e desembaraço uma linguagem à frente do seu tempo, estando assim na vanguarda da literatura moderna/contemporânea.
A frescura do clima do norte da Europa correu na tinta das palavras de Knut Hamsun tornando a sua escrita um prolongamento da própria natureza.
Ao escrever este breve apontamento vêm-me à cabeça os vários personagens e algumas das passagens destas três obras singulares que me provocam o desejo de as reler.

Jorge Navarro

Maria leao disse...

Precisamente, tambem descobri varias alusoes a esta obra, no fantastico livro de jacques bonnet , des biliotheques pleines de fanromes, obra a ler e reler, e ai o autor refere Pan varias vezes . Fiquei curiosa, pois nunca tinha ouvido falar nem do autor nem da obra e, como sou livromaniaca vim procurar mais informacoes.

Anónimo disse...

Sou apenas uma jovem em idade de ainda ter muitas coisas para entender. Tive que ler a obra "Pan" para o plano nacional de leitura na minha escola e confesso que não tinha dado tanta importância ao livro. No entanto, tambem foi-nos proposto fazer um ensaio sobre a obra no qual eu aceitei com todo o prazer. Claro que tive de pesquisar sobre alguns dos aspetos da obra e à medida que ia retendo informação também ia relembrando e dando-me conta da belíssima obra que "Pan" é. Confesso que não foi amor à primeira vista, mas é inevitável a relação que se establece com a obra. A natureza humana, amores e desamores e os atos de loucura que o ser humano pode ter são sentimentos relativamente presentes no livro. O ato cruel de Glahn com Esopo fez-me refletir como a mente humana pode ser. Um livro para reter na memória.