quinta-feira, 19 de maio de 2016

ELLA BERTHOUD & SUSAN ELDERKIN: REMÉDIOS LITERÁRIOS



Ideias muito boas para livros acerca de livros: como falar dos livros que não lemos (título de uma obra de Pierre Bayard), ou os romances como medicação eficaz. Tais ideias teriam, naturalmente, de ser usadas apenas como pretexto e para permitir um olhar irónico. Se existe um perigo, o de leitores ingénuos tomarem literalmente o que é um exercício de desconstrução - o que, no caso de Bayard, levou a que o zurzissem pela superficialidade da sua intenção [ensinar pessoas que não leram a fingir que sim!?] - também há uma vantagem pedagógica, que é o de nos provocar e obrigar a ver para além do imediato.

Posto isto, se no primeiro exemplo estamos perante um livro inteligentíssimo, no segundo caso estamos diante de uma boa ideia falhada. A razão desta falha é evidente: as autoras levam-se demasiado a sério; crêem religiosamente no que afirmam, quando pretendem usar os livros como remédios. Sem subtileza nem profundidade. Entendamo-nos: os livros são de facto remédios. Ajudam, aliviam, ensinam - mas não no sentido utilitário estrito e estreito, como se pudessem prescrever-me o romance A para eu tratar a minha exaustão, ou a febre dos fenos, a anorexia nervosa ou uma determinada fobia. Um grave pecado que de tudo isto decorre é que, ao organizar-se um dicionário dos livros em função dos problemas que aflijam o potencial leitor, se reduz imediatamente cada obra a uma chave única e redutora. Eu não leria Madame Bovary por causa das minhas hipotéticas dificuldades em ser fiel, valha-me Deus! nem me lembraria de O Jogador por causa de um hipotético vício do jogo. E se uma por outra vez as autoras entreabrem as portas a alguns comentários cómicos, fazem-no sem abandonar a seriedade literal do seu projecto.


Que Ella e Susan são devoradoras de livros, são. Que é verdade que, entre tantos títulos, o que dizem acerca de uma ou outra obra que nos eram desconhecidas - ou de que nos distanciáramos - pode pôr-nos na pista, ou levar-nos a redescobertas benéficas, é, sim. [Já encomendei o Grande Conflito, de Shirley Hazzard; já estou a reler Reviver o Passado em Brideshead: tudo por causa deste livro!] Que ficamos intrigados com alguns acenos sobre determinado romance, também é verdade. A folhear, quanto mais não seja.

2 comentários:

ironbrun disse...

Gostaria de saber onde encontro pra comprar??????????

josépacheco disse...

Se está em Portugal, encontra o livro em qualquer livraria, é uma edição muito recente. Sem publicidade, comprei-o na FNAC - portanto, aí encontra-o certamente. Se está no Brasil, não sei. Talvez encomendando...