terça-feira, 29 de junho de 2010

GEORGE ORWELL E A SOCIOLOGIA



Sei, de há muito, que George Orwell é um autor proscrito. E tenho observado que sobretudo da margem esquerda da política é que surgem os seus detractores mais ferozes e implacáveis. Um colega meu, comunista, tratou-o uma vez, furiosamente, de: «esse escritor fascista».

Ora se atentarmos no percurso de Orwell, no modo como, mais do que dissertar acerca de - ele viveu efectivamente em meios proletários e entre as classes trabalhadoras; acompanhou os mais pobres; sofreu, com eles, a miséria que descreveria em textos magníficos - um dos quais Maria Filomena Mónica não hesita em considerar a obra capital da sociologia -; e se atentarmos, principalmente, na sua participação na Guerra Civil de Espanha, do lado das forças anti-franquistas - experiência de que resultaria uma outra obra maior: Homenagem à Catalunha -, percebemos que não resta qualquer lugar para equívocos. Orwell foi um homem e um escritor politizado e revolucionário, desassombrado e crítico. Um homem e um escritor de esquerda, obviamente.

...Mas, repito, crítico! Aí é que está o busílis. Porque os seus livros políticos - 1984 e Animal Farm - são obras que não poupam a União Soviética de Estaline: vivia-se um tempo histórico em que, para toda a esquerda, a Rússia se tornara incriticável. Vivia-se um período aparentemente decisivo, em que os não-alinhados tinham de "alinhar", ou seja, mesmo permanecendo subjectivamente críticos do estalinismo, se o eram, deviam calar a boca e aliar-se-lhe objectivamente, assumir-se como compagnons de route, quer dizer, «idiotas úteis», sob pena de estar a fortalecer o campo inimigo: mas George Orwell optou por não calar coisa alguma.

É verdade: as críticas que dirige ao comunismo na sua versão estalinista e, precisamente, por outro lado, aos idiotas úteis, os intelectuais socialistas, de hábitos e tiques burgueses e ideias radicais, são verdadeiramente polémicas e devastadoras. Terá, por vezes, exagerado? Pessoalmente, penso que não. Identifico-me até ao fundo com os textos em que ridiculariza realisticamente esse típico esquerdista de salão, desgrenhado, mal vestido e vegetariano (a que hoje acrescentaríamos o inevitável lenço à Arafat, mas é, no esqueleto, uma personagem de sempre), muitas vezes pouco higiénico por, digamos, opção ecológica. É uma crítica pequeno-burguesa? É uma crítica estreita? Uma raivinha de quem está ainda demasiado preso aos modelos convencionais? Quem sabe?

Estou com Maria Filomena Mónica. Animal Farm é uma fábula interessante, mas datada. 1984 é um livro a que devemos regressar sempre, porque nos descreve brilhantemente os mecanismos da construção totalitária que, mais do que proibir ou castigar, molda e manipula a linguagem, vai criando uma nova língua e, através dela, sub-repticiamente, uma certa forma de pensar. Não é, contudo, nos seus romances que encontramos o que George Orwell nos dá de melhor: é nos testemunhos, é nos textos sobre a guerra, sobre a vida num colégio inglês, o trabalho nas minas, as famílias de classe baixa ou a passagem por um sinistro hospital francês para desvalidos. É na descrição dos homens imperfeitos e esperançados, ou imperfeitos e desesperados. É na exposição da sociedade - e de qualquer sociedade, seja um colégio, um hospital ou uma comunidade - como um conjunto de séries, hierarquicamente dispostas, de opressões sobre opressões. Já sabíamos? Marx já tinha posto o dedo na ferida? Estava tudo dito? Ah, não com tanta vivacidade, não deste modo que nos faz ver de tão perto; talvez com mais profundidade e rigor intelectuais, mas não com tamanho talento, sensibilidade e espírito de observação.

domingo, 27 de junho de 2010

O MISTÉRIO EM A. M. PIRES CABRAL


Aprecio o estilo e as histórias de A. M. Pires Cabral.
Descobri-o com um romance muito belo, na sua escrita elegante, discreta e fluente, O Cónego, que se vai armadilhando em torno de um mistério que as personagens pressentem na leitura de certos papéis sobre o passado de (é claro) um cónego.

Se todo e qualquer romance tem, no seu melhor, que ver com um "mistério" (a dialéctica, afinal, entre o que se conta e o que se oculta), é talvez nesse jogo de escondidas com o leitor que encontramos um dos mecanismos para a separação das águas: o demarcar, dos grandes romances, os romances menores.

Depois li São Cirilo, cronologicamente anterior, completamente diferente, ao jeito de uma alegoria: mas, o que é curioso, encontro nessa novela antiga de Pires Cabral a mesma forma interessantíssima de lidar com o mistério. Não vale a pena desvendá-la, seria uma perda para o leitor que o queira ler e descobrir por si. Digamos, de uma forma também misteriosa q.b., que, nos textos do autor, o que o leitor ignora e o espicaça é sempre tratado ao contrário de como o deveria ser num romance policial.

Que dizer? Deixei-me seduzir completamente pela escrita de A. M. Pires Cabral. Tendo iniciado ontem um seu livro de contos, editado pela Cotovia, e que é, com outro título (O Porco de Erimanto), a recuperação de uma obra de juventude, agora rescrita e com alguns contos mais, reencontro, num estilo menos discreto, extremamente irónico, assumidamente queirosiano, a limpidez da narrativa, a obscuridade de um mistério.

É encantador.

domingo, 20 de junho de 2010

DEUS E JOSÉ SARAMAGO


Saramago foi, malgré-lui, o mais cristão dos escritores portugueses. Não tanto por causa do seu tão difundido "humanismo", mas pelo facto de ter erigido o Deus cristão, a Bíblia e o próprio Cristo a adversários arquetípicos e tema obsessivamente único. Os seus últimos anos foram vividos nesse desvario de boneco com o mecanismo sonoro quebrado: Não há Deus, não há Deus, não há Deus!; essa fúria mostrava-nos uma revolta similar à de Lúcifer ou de Caim, que é sempre, em última instância, a de um filho contra o pai.

Saramago foi um escritor de extraordinário talento: fez mais pela língua portuguesa do que todos os acordos ortográficos, todos os Institutos Camões no movimento de se implantarem pelo mundo fora, ou as tentativas de intercâmbio promovidas pelo governo. Fez mais pela literatura portuguesa contemporânea (num país em que a grande referência literária se resume a uns quantos jornalistas que resolveram escrever romances) do que a sede devoradora da Editora Leya mais os seus prémios literários.

A personagem embirrante e maledicente em que se instalou, na qual se tornava difícil separar o génio do mau génio, ou os cursos de banalidade que prodigalizava nas entrevistas que ia concedendo, deixavam-me sempre algo perplexo: É isto Saramago? É isto o nosso Nobel? Este conjunto de chavões e de frases feitas, esta raiva irreflectida?!

Nunca fiz inteiramente as pazes com Saramago; mas, lendo alguns dos seus melhores livros, o memorial, o evangelho, Ricardo Reis, as intermitências, a viagem, talvez Caim, estou seguro da sua absolvição. Se Deus, a existir, for um leitor de bom gosto (e teria de ser, é claro), Saramago está no céu, Sousa Lara nunca para lá irá.

Reconciliei-me? Até ao ponto, somente, em que a morte tudo e todos reconcilia. Mas apetecia-me principiar a relar o Memorial do Convento.

terça-feira, 15 de junho de 2010

NABOKOV: O LIVRO PROIBIDO


«Florinha Afável» escreveu no seu blogue, há longos meses, acerca de um «clássico» que acabara de ler. Lolita, de Nabokov. Pensei comentar - não sei, aliás, se cheguei a fazê-lo; pensei aproveitar para escrever o meu próprio post sobre Lolita. Não era o momento. Não o fiz.

Nabokov escreve muito bem - e tanto nos seus contos mais curtos como nas suas novelas e nos romances demorados, o texto nabokoviano constitui sempre uma fruição para o espírito, ora na contenção com que, em frases breves, acerta no núcleo de uma determinada emoção; ora no espraiar-se paciente, rebuscado, gongórico, de uma expressão que vive das mais conseguidas figuras de estilo. Mas, claro, seria pouco corajoso da minha parte que, para comentar um dos livros da minha vida, me refugiasse - e precisamente por se tratar de Lolita - na perfeição estética da escrita.

A questão, se quiser enfrentá-la crua e friamente, é que Lolita (não há quem o não saiba) tem que ver com um pedófilo e a sua fixação por uma ninfeta: precisamente Lolita.

Há outras histórias acerca de monstros, é certo: tome-se, por exemplo, Hannibal Lector, em O Silêncio dos Inocentes. Não podemos deixar de sentir algum miserável fascínio pela personagem hedionda, pelo seu requinte, pela elevação a arte dos seus actos horrorosos. Mas, ainda assim: sabemos que, na tensão que o romance desenha, temos sempre uma pessoa certa com cujo ponto de vista nos possamos identificar, a personificação do Bem e, simultaneamente, da inocência. Em Lolita, não encontramos essa possibilidade. Estamos face a face com Humbert Humbert. Estamos face a face com o mal.

E, curiosamente, se não é tanto o fascínio que aqui nos move, é a piedade e a compreensão em relação à tortura obsessiva de um homem de meia idade perante uma paixão descontrolada e doentia por uma garota de doze anos. E, de facto, não poderíamos não falar, aqui, de «paixão»: uma paixão imoral e proibida, intolerável e repugnante, psicótica, mas também triste, amargurada, sofrida, dilacerante.

Será o momento de nos perguntarmos se, ideologicamente, Lolita pode ser visto como um branqueamento da pedofilia. Não pode. De forma nenhuma. Primeiramente, porque seria um erro crasso reduzir a mera "ideologia" o conteúdo de uma das mais complexas, intensas e contraditórias obras de arte, que se assume, toda ela, no risco e na coragem de tomar como protagonista e narrador (alguém, portanto, que nós, leitores, seguimos, perscrutamos e a cujo pensar temos acesso) uma figura limite, execrada pela moral da nossa civilização. Precisamente: é no limite, ou mesmo para além de todos os limites, que as obras de arte valem a pena. Não simpatizaremos com Humbert Humbert, não o toleramos, nem à sua astúcia, nem ao seu desejo lúbrico. Odiamo-lo; e odiamo-nos a nós mesmos por não o odiarmos sempre e por não o odiarmos linear e liquidamente. Mas é uma história trágica e tremenda, uma história de infelicidade, inesperadamente maravilhosa e febrilmente cruel.

No pior da humanidade - e é terrível, talvez, intuirmo-lo assim - nunca estamos perante o outro de nós, o inverso da nossa tranquilidade racional. Estamos, quando muito, numa insondável e obscura dimensão humana. Algures, próxima. Porque é inegável que o sofrimento, as ideias, os medos de Humbert Humbert nos são acessíveis: há, entre nós, algum tipo de comunicação - não se trata de o explicar, nunca se cuida de aqui "psicologizar" ou "psicanalizar" o malfeitor, nunca de o compreender. É, num certo sentido, ainda pior: mais do que revelar como, sob o mal, encontramos razões humanas, o que se revela é como toda a razão humana está contagiada pelo mal e com ele se mistura e confunde perversamente. O mal rararamente é inumano. Ou, sequer, inteiramente irracional.

terça-feira, 8 de junho de 2010

APÓS LER RAY LORIGA: HERÓIS


Descobrir algo à luz de expectativas elevadas pode ser esmagador. Se me disserem, por exemplo, «Este é o melhor livro de sempre» (e, atenção, ninguém mo disse), põem-me perante uma ideia reguladora, aprisionam-me numa forma. Loriga muda, efectivamente, a nossa maneira de ler, de lidar com a linguagem e de ver o mundo, mas não devem prometer a mudança antes de começarmos a lê-lo, não devem garantir-nos antecipadamente a transformação, através dele, antes de termos principiado a transformar-nos por ele: do mesmo modo que se não aprende a nadar primeiro, para se entrar na água depois - aprende-se a nadar nadando.

Há almas criadoras que forjam unidades mais ou menos totalitárias, e outras que fazem do fragmento e da dispersão uma forma de arte. Ray Loriga, semelhantemente a Montaigne, com quem lhe encontro subtis afinidades, é uma destas últimas.

Em Loriga , a fragmentação tem que ver, primeiramente, com a observação de uma realidade que se apresenta, ela mesma, fragmentária, múltipla, volúvel, mutável, sem coluna vertebral nem razão de ser: a linguagem do autor exprime esse permanente espanto perante a inquietante multiplicidade. Mas, ao invés de conduzir toda a variedade a um Uno, a Deus, a uma narrativa, uma certeza, ensaia, em cada momento, as mais insensatas e imprevisíveis ligações. É uma forma de humor, sem dúvida. A estranheza das suas enumerações, por exemplo, em que vai coleccionando o que nada parece ter em comum, mostra como opera essa linguagem que tudo atrai sem verdadeiramente desenhar um fio.

Mas é certo que essa "perplexidade magnética", chamemos-lhe assim, cria uma forma absolutamente nova e originalíssima de interrogar a realidade. Porque o mal radical da "interrogação", é que se torne demasiado sábia - ou previsível, o que vai dar no mesmo. Sinto uma espécie de aversão imediata por aqueles alunos que me fazem perguntas preparadas, ensaiadas, estudadas, perguntas que não têm que ver com curiosidade (a curiosidade é sempre inocente), mas com exibição, "vejam como eu pergunto tão bem, reparem como a minha pergunta é inteligente»: em Ray Loriga, as perguntas são impossíveis, ilógicas; nunca vêm da superfície mas do recôndito, do secreto, dos intertícios, do outro lado do espelho.

E, portanto, sim: sem forçar, sem ter de chegar a uma conclusão que fora previamente imposta sob a forma de expectativas, mas porque eu, leitor, percebi, por fim, que me entregara a um texto que nunca se me entregou (porque se manteve seguro na sua personalidade e diferença, porque me desafiou e exigiu de mim, do princípio ao fim...), não posso senão concordar com Tiago Torres da Silva, que mo tinha recomendado. Heróis muda a maneira de um gajo olhar para as coisas. Irónico e pessimista, ingrato, estranho e inocente. Muda tudo.

sábado, 5 de junho de 2010

RAY LORIGA: PRIMEIRAS IMPRESSÕES


Leio este livro na iminência de uma revelação que não se dá: ou não se deu, ainda.

Explico melhor:
Tiago Torres da Silva (sorridente, na primeira foto), o extraordinário letrista de algumas das mais belas canções que conheço em língua portuguesa - mas também em crioulo e, ultimamente, em castelhano -, convidado a vir falar à Biblioteca da minha escola, dizia-me depois, numa animada conversa que oscilava perigosamente, como no passeio de um bêbedo, entre diversos temas:

«Já leste Ray Loriga? É um autor espanhol. É fantástico, é fundamental. Tens de conhecer: a tua visão da realidade e da escrita muda radicalmente. Foi a minha mais decisiva influência, nos últimos tempos...»

Não conhecia Ray Loriga. Mas fiquei impressionado e ansioso por mergulhar na sua obra.
Na livraria, que sim, sabiam de que se tratava, estava até traduzido; mas que, de momento,
se encontrava esgotado. (Tiragens pequenas; nenhuma reedição...). Se, todavia, eu quisesse esperar que mandassem vir...

Esperaria, é claro. Encomendei. Foi até essa a razão pela qual deixei o blogue em suspenso: o meu próximo texto teria de ser sobre Loriga.
Ontem, dirigi-me de novo à livraria. E Ray Loriga esperava-me, num livro publicado pela Difel em 1998, Heróis. Comecei a lê-lo imediatamente, sentado num banco à porta da livraria, aguardando ser arrebatado, levado por entre anjos, ao som de Bowie.

Infelizmente, porventura porque as expectativas eram insuportáveis e deslocadas, pressinto em cada linha promessas, mas não as vejo cumpridas (é sina!), como se entre o leitor que sou e a verdade radicalmente transformadora do texto não houvesse senão uma leve película que, no entanto, maldita película!, não me deixa passar, não me deixou ainda passar.

Claro que serei paciente e claro que serei justo. Percebo que o facto de estar a chapinhar à beira de água não prova que, uns passos mais adiante, esta água não devenha oceano. E, portanto, para o bem ou para o mal, o meu post sobre Ray Loriga está ainda por ser escrito. Só não quis deixar de partilhar também estas primeiras impressões de leitor à descoberta, de ansioso compulsivo, de homem com vontade de ter Fé, que ergue os braços ao céu e grita: «Mas então, Deus? Mostras-te ou não te mostras!?»

domingo, 30 de maio de 2010

MÁRIO DE CARVALHO: UMA CITAÇÃO


Mário de Carvalho, autor português cuja ironia aprendi a apreciar num conto para crianças, que lia ao meu filho, O Homem que Engoliu a Lua, afirma, numa entrevista a Carlos Vaz Marques, o que passo a citar:

«Já pensou - e este é mais um tema - que o fascismo e o totalitarismo são capazes de ser naturais? E que a evolução humana se tem feito precisamente contra aquilo que é natural? Que o natural de dois homens que se encontram, como dois índios nas planícies americanas, é matarem-se um ao outro? Que o natural, se calhar, é o canibalismo? Que o natural se calhar é a escravização do outro?»

«O natural», acrescenta C. V. Marques, «é as tartarugas serem atacadas e mortas, como acontece tanto no princípio como fim do seu livro, pelos falcões ou pelas corujas-das-torres.»

Em confronto com o mito do Bom Selvagem, de Rousseau, para quem é a cultura que degrada a bondade intrínseca da natureza, que excelente proposta de análise e discussão para os meus alunos.

sábado, 29 de maio de 2010

ORLANDO VITORINO: MANUAL DE TEORIA POLÍTICA APLICADA


Diz-se, dos cães que comem ervas no jardim onde os leváramos a passear, que o seu organismo instintivamente "procura" aquilo de que tem carência; ou, dos desejos das mulheres grávidas, que obedecem a alguma necessidade orgânica própria do seu estado; lembro-me de um médico que justificava similarmente o facto de uma criança arrancar e comer pedaços de cal de parede.

Talvez alguma carência orgânica, no sentido lato, ligada a uma fase minha de redefinição, esclareça também a forma como o corpo me tem pedido, ultimamente, uma substituição, da habitual dieta de literatura de ficção, por um regime de textos de teoria. Regresso à filosofia, por exemplo, e alguns dos meus últimos posts são disso o sinal: veja-se Kierkegaard e Montaigne. Mas a verdade é que, ainda quando acabam não se tornando leituras tão importantes que mereçam qualquer comentário meu neste blogue, são livros de teoria os que me têm chamado: O Mestre Ignorante, de Jacques Rancière - ou, nos últimos dias, por recomendação de um colega que lhe elogiava a extraordinária clareza das ideias, Manual da Teoria Política Aplicada, de Orlando Vitorino. E, em resumo, não creio que suceda por coincidência.

Para mim, que me considero inequivocamente um homem de esquerda, ainda que distante de cada um dos partidos de esquerda que encontro, o livro de Vitorino é um puxar do tapete sob os pés. Ao longo das primeiras páginas hesitei em prosseguir uma leitura que me irrita e da qual discordo. Mas, depois, principiei a acalmar. Discordo, muito bem: mas irrita-me, porquê? E não sei se a continue ou se a abandone, porquê? Porque tenho medo de que me ponha em causa? De que abale as categorias e as estruturas que me constituem a tradição cultural, sobre a qual construí toda a minha reflexão e consolido as minhas posições?

É verdade que me parece que a perspectiva de Vitorino radica num erro imperdoável, que é o de criticar a visão "socialista" como um todo, com pressupostos idênticos (um dos quais seria a omnipresença do Estado), trate-se de comunismo, nazismo ou fascismo. É um acto de má-fé intelectual não pensar as diferentes finalidades filosóficas e políticas de diferentes sociedades estatistas, como se não houvesse entre elas distinções de natureza que não podemos ignorar - a não ser pagando o preço de considerar como prescindíveis e irrelevantes o sentido filosófico e político das sociedades. Como é certo, por outro lado, que uma doutrina e um sistema políticos se fundem numa antropologia: mas tenho dificuldade em aceitar que não haja senão os dois rascunhos de antropologia que Vitorino sugere: a do homem como espécie, ou ser colectivo, que se esgotaria na sociedade, destituído de qualquer elemento individual (antropologia essa que levaria aos comunismos); e a do homem como indivíduo, livre, criativo e pensador, mas sem qualquer dimensão social, que não a da mera soma, a posteriori, dos indivíduos. Não seria concebível a mediação? Uma antropologia do indivíduo que não desaparece, enquanto tal, no seio do todo e do todo que seja como que a gramática pujante da realização e da liberdade de cada um?

Isto dito, é evidente que a leitura deste livro é uma discussão profícua: uma discussão do leitor com Vitorino e do leitor consigo mesmo. Se é verdade que ser de esquerda passa também pelo enquistamento em quadros mentais que não nos atrevemos a repensar, nem ao menos a questionar (como, aliás, ser de direita), então trata-se de uma leitura inquietante, exigente, no melhor sentido da palavra, que não nos deixa repousar sobre as certezas adquiridas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MONTAIGNE: ENSAIOS


Considero encantador este modo de falar de livros: é verdade que se fica com pouco acerca do livro e muito sobre mim, sobre a minha experiência como leitor, sobre as circunstâncias em que descobri o texto e as consequências de o haver descoberto; que diabo há, nisso, de «encantador»? «Encantador", convenhamos, não pelo meu poder de encantar, mas pela transparência com que alguém se expõe; não porque os leitores não preferissem saber dos livros, mas porque se trata antes de lhes oferecer a experiência do ler de um sujeito concreto. Pensando melhor, talvez não achem "encantador": mas é propositado. E a quem o devo? Bem. A Michel de Montaigne.

Montaigne é excepcional.
Há, é claro, dificuldades na sua leitura: por alguma razão que sou incapaz de descortinar, as suas obras completas não estão traduzidas em Portugal. (No Brasil, em contrapartida, penso que existem traduções recomendáveis). Parcialmente, um ou outro dos seus ensaios, porventura os mais conhecidos, foram sendo vertidos para o português de Portugal. Mas sabem sempre a pouco.
Por outro lado, até os leitores que dominam a língua francesa se debatem com um Montaigne que vai sendo publicado, hoje, num francês do século XVI - muito diferente do actual, pouco transparente, exigindo um trabalho em que se gasta a concentração que deveria empregar-se no essencial. Vá-se lá saber porquê. Como se uma campanha idiota quisesse manter entre os velhos, num patamar do passado, um autor todavia tão jovem, tão nosso contemporâneo e tão intemporal.

Montaigne pede constantemente emprestado. Sou franco: as citações que faz de Antigos pensadores Gregos ou dos filósofos Romanos devêm fastidiosas, interrompem o raciocínio que deveriam sustentar, são desagradáveis soluções de continuidade. Mas, de algum modo, o seu estilo, a sua originalidade, a elegância e a profundidade com que coloqueia com o leitor, falando-lhe como se estivessem ambos sentados frente a frente, acerca de si mesmo (Montaigne), ou da sua vida, preferências, saudades, frustrações, traz aos seus ensaios - e é ele, precisamente, o inventor do "ensaio" neste sentido - uma frescura e uma proximidade maravilhosas.

As fórmulas de Montaigne são inspiradas. Algumas vezes, com alguns autores - Proust, sem dúvida -, mas raramente e com muito poucos, sucede percebermos como uma frase exprime uma intuição notável, aparentemente fácil, como se escondesse no ventre o trabalho que deu, como se ocultasse todas as voltas da sua construção, ocultasse as vezes que terá sido sucessivamente apagada, e rescrita, até se realizar como pensamento perfeito, coincidente com as palavras mais adequadas: como uma formulação que acerta exactamente no coração da vida.

Retomo-me: lendo Montaigne, que é, de facto, a única matéria dos seus próprios ensaios, vejo que tudo fala de si, com uma sageza que não é destituída de afecto: uma sabedoria de homem que usou o pensamento, não para se libertar, graças a ele, do mundo real e concreto, mas para melhor entrar nos pormenores da realidade, que viveu, pensou, sofreu e gozou.

MAUGHAM: UMA CERTA PERSONAGEM

Em O Fio da Navalha (mas será mesmo em O Fio da Navalha?) há uma personagem comovente, que atesta bem a penetração psicológica de Somerset Maugham, a que me referi já.
Trata-se de um idoso, que veio envelhecendo na ilusão do "social". Um pouco delirantemente porque, no seu caso, tudo teria mais que ver com o sonho e com a aparência que se esforçava por manter, do que com a realidade, esse simples funcionário empenhou toda a vida na ideia de que lhe reconheciam a nobreza de sangue e o "chic" de maneiras. Os últimos meses de vida jogaram-se e esgotaram-se na ansiosa espera de um convite para um "evento social" (como se diz hoje) a que, porém, não assistirá porque, precisamente, morre sem saber se seria convidado. Não me devo enganar muito, ao contar que os amigos o enterram com o convite, finalmente chegado, entre as mãos.
Não há qualquer azedume da parte de Maugham em relação a esta deliciosa personagem. O ridículo corre-nos a todos nas veias. As fraquezas são parte da nossa graça. Este homem dever ter existido. Conheço gente tão assim, que não é possível que Maugham não estivesse a pensar em alguém...

domingo, 23 de maio de 2010

SOMERSET MAUGHAM: SERVIDÃO HUMANA

O conhecimento que tenho de uma grande parte da obra de Somerset Maugham e o prazer com que a ela continuamente retorno são dos principais legados da minha mãe. É-me sempre grato, ainda hoje, ouvi-la contar (e voltar a contar) os enredos. Lembro-me, nos mínimos pormenores, das histórias que me narrava em criança: ao Capuchinho Vermelho ou à Branca de Neve, preferia o evoluir mais complexo dos livros que ia lendo, e Somerset Maugham foi sempre o seu autor predilecto, pelo que, oralmente, a minha familiaridade com os romances deste autor terá principiado relativamente cedo.

Minha mãe, de resto, tem toda a razão. Pegamos numa novela menor de Maugham, Um Casamento em Florença, por exemplo, e percebemos como, até quando alguém escreve sem outro intuito que não o de divertir-se e divertir o leitor, a qualidade, se existe, é indisfarçável - apesar dos erros, das coincidências, da ausência de rigor, da displicência...

E quando um autor que se dá ao luxo de ser muitas vezes displicente é, mesmo assim, extraordinário, imaginem o que sucede quando se decide entregar convictamente ao trabalho, com uma ideia forte, personagens interessantes, espírito de observação, originalidade.
Nem precisaria de se tratar de um romance: Somerset Maugham é, aliás, dos mais apurados escritores de "contos" que conheço, e um conto não é um romance imperfeito nem mais magrinho, não é um texto incompleto ou resumido, mas uma forma própria, porventura mais difícil, com um ritmo especial e uma orquestração do tempo e da tensão muito particulares, que ele domina magistralmente. A Chuva é incomparável, e de uma intuição psicológica agudíssima.

A minha mãe, todavia, escolheria Servidão Humana e O Fio da Navalha. Compreendo-a. Servidão Humana é a história de Philip Carey, um jovem extremamente inteligente mas com uma deficiência que o marca e complexa nas suas relações com o mundo em geral e com as mulheres em particular. E Mildred, uma mulher de "baixa extracção social" (ah, parece-me estar ouvindo esta expressão à minha mãe...), entrar-lhe-á na vida, capaz de o usar, abandonando-o e regressando sucessivamente, estragando-lhe todas as relações entretanto iniciadas, segura de que ele lhe perdoará e aceitará tudo, a prepotência, o desamor, o desprezo, numa dependência sem limites. É um romance amargo, que penetra o âmago da psicologia do homem, das relações, da frieza e da servidão. É de uma intensidade e de uma profundidade inesquecíveis.

De facto, as personagens de Somerset Maugham são inquietantemente próximas de nós. Reconhecemo-las. Conhecemo-las bem, no fundo. Exasperam-nos, embora raramente sejam más ou de uma temível perversidade: apenas demasiado fracas ou excessivamente fortes, criando, nessa desigualdade, a relação errada e doentia; apenas obsessivas e tristes, perseguindo sonhos ridículos. Apenas como nós, vistas a uma luz que nos permite compreendermo-nos melhor, mas nem sempre nos redime. Mas que, ainda assim, ainda que nem por isso nos salvemos, temos de ler.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

EXAMINAR A PRÓPRIA VIDA NOS LIVROS

Vi escrito, a propósito dos livros de Alain de Botton - mais uma afinidade que descobri na minha amiga brilhante -, que ele devolve à filosofia um lado que sempre lhe fora inerente e se tem perdido: o de nos ensinar a examinar e a viver a vida.

Pois eis como, em Kierkegaard, que continuo lendo, reencontro essa dimensão de pensar que ajuda a pensar-me - e a pensar os meus actos. Quase como se, à semelhança de certos descodificadores das linhas do futuro nas folhas de chá ou em máximas chinesas, também deparasse, a cada momento, em cada linha, com a resposta que me faltava, a lição por que aguardava.

E, por exemplo, para mim, isto faz todo o sentido:

«[...] é grande renunciar ao desejo, mas é maior apegar-se a esse desejo depois de haver dele abdicado; grande é agarrar o eterno, mas maior é segurar o temporal depois de haver dele abdicado.»

Ou:

«Só as naturezas inferiores se esquecem de si próprias e se transformam em algo de novo. Assim a borboleta esqueceu completamente que fora larva, porventura poderá voltar a esquecer completamente que era borboleta a ponto de se transformar em peixe. As naturezas mais profundas nunca se esquecem de si próprias, nunca se transformam numa coisa diferente do que foram.»

Por alguma razão, neste momento, precisava de o ouvir.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

KIERKEGAARD: TEMOR E TREMOR


Quando se liberta da rigidez do significado, ou seja, de ter de «significar coisas», a linguagem ganha um insuspeitado poder, descobre virtualidades imprevistas e transforma-se no seu próprio sentido: comporta em si a sua verdade, em vez de se limitar a dizer o que sucede no mundo fora de si, como se fosse o mero veículo de uma mensagem sobre a realidade exterior, um dedo a apontar para o estado das coisas. Tal linguagem, que se revela mais a si própria e ao seu segredo íntimo do que revela o "extrínseco", é a poesia.

De algum modo, julgo, o filosofar não reside longe do labor poético. Que procuro eu num texto filosófico? A verdade? Deus me livre. Busco, por um lado, um ângulo, nada mais do que isso; e a quantos mais ângulos tiver acesso (isto é, quantos mais filósofos for lendo), mais a minha visão da realidade se vai multifacetando. Mas, nesse ângulo, em cada ângulo, em cada filosofia, interessa-me a forma como é desenhada. O risco de propor uma interpretação a que não se haviam atrevido antes, mas, de facto, nos interpela e faz pensar.

Há, também, algo de estético, nesta minha apreciação do texto filosófico: como se se tratasse de operar com conceitos e, no domínio dos conceitos, também o filósofo fosse um artista da linguagem, um poeta que, a seu modo, persegue as palavras e os argumentos mais ricos e interessantes para exprimir e justificar uma certa tese. Não peço aos filósofos experimentações nem provas da sua visão: apenas que ela se exponha através de frases que me façam compreender o seu ângulo.

Há, por isso, filósofos que prefiro a outros. Os que se confundem com cientistas, e julgam que a sua actividade deve ser entendido como uma forma de ciência, parecem-me os menos interessantes de todos. E os mais equivocados. Mas em Platão, Kant, Schopenhauer, Kierkegaard ou Nietzche, o que encontramos - tenha ou não que ver com "a" verdade - é poesia e drama: cada texto de cada um deles é sempre libertador, porque, apresentando-nos uma certa tese, numa formulação que não pode deixar de nos tocar, faz-nos seguir, por dentro (e por dentro de nós) a construção da mesma, o seu erguer. Não podemos simplesmente contemplá-la e aceitá-la: temos de a compreender, isto é, de alguma forma, seguir-lhe os passos através do nosso próprio pensar.

E tudo isto me surge a propósito de uma tradução recentíssima de Kierkegaard, que venho de comprar. Não tinha praticamente dinheiro mas, mesmo assim, não resisti. (Acontece-me, com os livros, mais frequentemente do que a minha família consegue perdoar-me...). É Temor e Tremor.

Aconselharia os leitores menos familiarizados com a terminologia técnica da filosofia a prescindir da «introdução». Mergulhem imediatamente no texto: este não carece de enquadramento (a não ser, claro, o de algumas notas), não precisa de uma explicação prévia. Fala por si, e à inteligência de cada um e à de todos nós.

A forma como Kierkegaard se sente fascinado por Abraão e pelo sacrifício que este se propõe fazer, a Deus, do seu próprio filho, Isaac, oferece-nos algumas das páginas mais maravilhosas acerca do que só pode ser visto como um enigma. E um paradoxo. Se me permitem, ao contrário da visão mais estreita de Saramago, que olha a Bíblia de fora, isto é, sem nada querer realmente compreender, reduzindo tudo a uma colecção opaca de actos maus e vergonhosos, o que Kierkegard intui é o drama de um pai que não poderia senão sacrificar o que lhe é mais valioso: o seu filho; mas o contrário não seria igualmente compreensível? Que o amor pelo filho fosse a recusa do sacrifício deste? E pode amar-se um Deus que exige um tal acto? Que múltiplos e intrincados fios os de que se tece a fé, o amor, a paternidade. E que sentidos diferentes as nossas escolhas engendram.

Mais do que uma dívida ao eternamente certo ou errado, Kierkegaard mostra-nos que os nossos actos são escolhidos em face daquilo que valorizamos, e esta liberdade irrecusável, incontornável, tem que ver (para não nos afastarmos dos lugares-comuns que acabamos sempre por dizer acerca do filósofo) com este núcleo terrível, que é a angústia.

E ao ler, não me interessa saber se Kierkegaard tem razão, tal como não pergunto se o poeta a tem. Sigo as linhas e percebo que penetrei num mundo de pensamentos, que se vão estruturando como obras de arte. Que me chamam na medida em que as compreendo, ou vou compreendendo, como se me fosse dado o privilégio de pensar conjuntamente com o autor.
Talvez esteja enganado. Mas nunca pedi mais do que isto à filosofia.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

JORGE LUIS BORGES: O LIVRO DE AREIA

Talvez não seja rigorosamente verdade que esse fosse o primeiro texto que li de Borges. Mas admitamos que sim. O ponto é que, por mais que tente regressar na minha memória, não me lembro de haver outro. Portanto, para todos os efeitos - e para efeitos do mito que, para mim, para a minha consciência e para a história pessoal, me agrada estabelecer -, as circunstâncias desta descoberta e a descoberta propriamente dita foram tão fortes, que nunca poderia ser inteiramente falso afirmar que «esse foi o primeiro texto que li de Borges»...

Vão já compreender. Estava em Paris. Começa bem, não começa? Tinha certamente mais de dezoito anos, talvez quase vinte. Suponho que se trata de uma viagem que fiz com o meu irmão, a expensas suas. Mas, uma vez desaguados na Cidade-Luz, separámo-nos, ele envolvido no trabalho a que fora chamado, eu - livre como um passarinho, sedento, curioso, sorvendo ruidosamente todos os pormenores. Mais: o meu irmão dormia em casa de uns amigos, eu ficava completamente só num quarto de Pensão. Estava maravilhado.

Fui um flâneur. Não tinha horas, nem responsabilidades, nem compromissos. Almoçava onde queria, insistia em regressar ao Quartier Latin, entrava e saía de lojas, descobria a escada rolante - então uma relativa novidade -, perdia-me entre "bouquins" em saldo.

Foi na Gibert Jeune, essa deliciosa livraria de vários andares, de onde se sai levando sacos amarelos, de plástico, com um rosto estampado, suponho que o de Gibert Jeune. E, numa banca, lá estava Jorge Luis Borges - ou seja, não o próprio, mas um livro de contos chamado O Livro de Areia.

O título é fabuloso. Mas, nesse livro, enterrou-se em mim um conto em particular, que não sei - e não vou agora pesquisar - se seria o do mesmo título. Sei que se vai desenvolvendo a propósito de um bardo a quem o rei encomendara um poema onde se cantasse a grandeza do rei e do seu reino. E de três sucessivas tentativas do bardo: as duas primeiras recusadas pelo monarca, a última, a síntese absoluta, expressa numa palavra única. Uma palavra indizível, de novo esquecida a seguir, ou evitada, mas onde os ouvidos que a ouvem conseguem encontrar a vida e a morte, o tempo e a intemporalidade, os grãos de areia e os sons da música, e de todas as músicas, os homens, as mulheres e as crianças, os que faleceram e os que estão vivos ou os que virão a nascer, os olhares, os amores, o mar, o céu, os latidos, os uivos, a tristeza, a alegria, a saudade, os animais, as escritas que se inventaram e não subsistiram, as letras que compõem todos os textos já escritos ou por escrever e, portanto, num ponto do futuro antevisto, também as letras com que redijo este post, e o post, e o computador em que o escrevo, e os dedos com que o escrevo, a partir de um corpo e de uma consciência que são o que me forma a mim mesmo escrevendo-o, bem como os olhos dos leitores que o virão a ler - e repare-se no maravilhoso desfasamento que há entre o tempo em que bato nas teclas, sem quaisquer leitores, e o tempo em que tu, leitor, estarás lendo o que escrevi: estás aí agora, leitor? É o teu presente!? Estás lendo estas linhas que, no momento em que as lês, eu já não estou escrevendo, sendo que talvez já me tenha ido embora, e podendo até ser que neste momento em que me lês eu já não seja eu, já nem sequer exista?

Podem imaginar a sensação de pertubador fascínio com que, à noite, a sós no meu quarto de uma Pensão, com a janela entreaberta para uma rua movimentada, talvez com a televisão ruidosamente ligada em fundo (mas não garanto...), devorei esse conto - e, depois, todos os outros? A vertigem de infinito e totalidade que me fez quase desmaiar? A intuição da loucura próxima, se me quisesse deixar enlouquecer por aí fora?

Não devo errar por muito. A exactidão dos factos é um mero pormenor. Se esse não foi o meu primeiro Borges, será, daqui para diante, o meu primeiro Borges.

terça-feira, 11 de maio de 2010

FREDERICO LOURENÇO: A TRILOGIA DE NUNO GALVÃO


Frederico Lourenço, que escreve o trecho que citei em post anterior, é um dos mais completos e rigorosos tradutores da Ilíada e da Odisseia. Para além disso, os seus ensaios sobre a cultura, o teatro, a poesia e os autores helénicos são dos textos mais límpidos, e límpidos é, de facto, a palavra que imediatamente me ocorre a seu respeito, que tenho lido no que toca a literatura de investigação.

As mesmas clareza e elegância de estilo se mantêm quando se trata da sua obra ficcional.
Frederico Lourenço é o autor de uma trilogia - Pode Um Desejo Imenso, O Curso das Estrelas e À Beira do Mundo: todos publicados nos Livros Cotovia, o primeiro, Prémio Pen Club 2002 - cujo protagonista é Nuno Galvão, um professor universitário, de cerca de quarenta anos, homossexual, bem parecido, vagamente ambicioso, porventura seu alter-ego.

Mas, sobre a atmosfera profundamente hierarquizada e secretamente conflituosa do meio académico, escalpelizada de um modo quase cruel, principalmente para quem conheça o meio e não tenha dificuldade em reconhecer-lhe os mecanismos, as angústias, as brigas, a falta de escrúpulos, talvez até algumas das personagens, o humor de Frederico Lourenço corta como uma lâmina afiada.

Os equívocos que se complicam em torno de Nuno Galvão, até como objecto do desejo de mulheres incapazes de lhe detectar a homossexualidade, mais do que um elemento cómico nos romances, revelam as modalidades de um subtil mas permanente desnivelamento na existência - familiar, profissional, erótica, amorosa - de um homem em luta consigo mesmo. E é interessante este pormenor: o facto de não haver - praticamente - uma literatura gay em Portugal leva a que, ao contrário do que ocorre nos EUA, em que uma tradição está já configurada nos seus problemas, nos seus dilemas, nos seus clichés, entre nós tudo seja muito novo, de uma singular frescura, e tudo seja pessoal, e tudo seja arrojado: portanto, essa "luta consigo mesmo" é trabalhada, por Frederico Lourenço, de uma forma lúcida, sofrida, melancólica, inovadora: como a fenomenologia de uma auto-consciência homossexual, em que a dialéctica entre o que se quer tornar visível e o que se quer esconder, ou a complicada fronteira entre o "assumir" e o "ocultar" não poderiam deixar de ser um elemento integrante, essencial, qualquer que seja a escolha que finalmente se faça.

Ao contrário dos escritores gay norte-americanos, para quem a literatura se torna um instrumento ideológico, impregnado de contemporaneidade, em Frederico Lourenço reconheço um delicioso anacronismo. A visão, transposta para o presente, de um Antigo Grego. Erótica e esteticamente. O que é de uma inesperada beleza.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A PROPÓSITO DA ILÍADA, DE HOMERO: FREDERICO LOURENÇO


«O escudo segurado por Aquiles é uma maravilha da metalurgia e da poética. Na descrição pormenorizada que dele faz o poeta no Canto XVIII, apercebemo-nos de que é todo um universo de experiência humana que está gravado no escudo. Vemos a terra, o céu e o mar; o sol, a lua e todos os astros do firmamento. Duas cidades se destacam pelas situações contrastantes em que se encontram. Numa, celebra-se uma boda com música e dança. A outra está em guerra, cercada: até as mulheres, as crianças e os velhos têm de defender as suas muralhas. Os homens saem para uma emboscada e chegam a um local idílico, aonde vão ter dois pastores com os seus rebanhos, tocando flauta. Apesar de indefesos, os pastores são mortos pelos soldados. Na expressão "deleitando-se ao som da flauta", que o poeta aplica aos pastores, e na descrição dos soldados escondidos "revestidos de bronze" encerra-se todo um mundo de contraste, toda a desumanidade da guerra, toda a precariedade da paz.»

Frederico Lourenço, «Ilíada: O Primeiro Livro», Grécia Revisitada, Livros Cotovia, Lisboa 2004

Duas notas tão-só:

Em primeiro lugar, para agradecer a uma das jovens brilhantes a que já anteriormente me referi, 0 ter-me lembrado a pura maravilha que é, na Ilíada, a descrição do escudo de Aquiles.

Em segundo lugar, para manifestar o meu assombro perante a enganadora simplicidade da escrita de Frederico Lourenço. Esta limpidez é, ao mesmo tempo, de uma tal intensidade, que nos apetece procurar, de imediato, o texto de Homero. Não é?

sábado, 8 de maio de 2010

DOSTOIEVSKI: CRIME E CASTIGO


Gostaria de poder dizer que me surgiu esta pergunta na adolescência, implicando isso que eu teria lido, muito novo, Dostoievski (o que, por coincidência, é verdade), mas, sobretudo, que era então já capaz de intuições precoces. Sucede que a tive adulto. E, nesse caso, está longe de ser precoce. Todavia, assumo a infantilidade do meu espanto...

Quando me compenetrava de que, bem vistas as coisas, Dostoievski é um autor do século XIX, ou seja, a bem dizer, de ontem, sentia, com um arrepio de estranheza, que a literatura, até ao século XIX, ainda não começara verdadeiramente. Apesar de Homero, apesar de Virgílio, apesar de Dante ou Shakespeare. Pode parecer estúpido. Mas tenho o mesmo tipo de arrepio quando penso em como Proust é recente. Caramba. Vieram tão tarde, de certa forma, alguns daqueles que deram à História da Literatura uma dimensão maior, um sentido absoluto, um fundamento iluminador. A sua verdade! (Sim, eu sei: não existirá "a" verdade da literatura, mas qualquer coisa como uma totalidade de sentido, com um contorno que se não completaria sem Proust,Dostoievski - e só não falo de contemporâneos, porque o tempo decidirá...)

Outra revelação: não possuo, entre os meus livros, Crime e Castigo. Não me perguntem porquê, sou peculiar.

No entanto, li três vezes este romance. Lembro-me tão bem da primeira delas. A da descoberta. A de me estar embrenhando num continente selvagem, onde nada me era familiar e tudo me exigia novos instrumentos.
Como diria E. Prado Coelho (naquelas suas frases que, aliás, tanto me irritavam), por uma vez li as primeiras páginas desse livro e compreendi que entrara num outro mundo, que me marcaria definitivamente e do qual nunca mais conseguiria sair. Ou não sairia sem feridas e sem me ter tornado outro.

O que me fascinou foi, desde as linhas iniciais, o movimento de ambiguidades e subentendidos com que o autor joga. Sob a superfície clara, virtuosa, não especialmente equívoca, oculta-se uma série de sentidos inconscientes, de segundos sentidos e, nessa medida, a análise que se vai fazendo, ao longo da obra, de tudo o que é dito, ou escrito, é de uma agudeza nunca vista; a desmontagem, por outras, daquilo que certas personagens "querem" dizer ou "querem" escrever sob o que efectivamente dizem ou escrevem, prefigura brilhantemente o trabalho e as descobertas da psicanálise.

Em Dostoievski, de facto, encontra-se tudo, porventura com uma profundidade de que os seus discípulos e os seus epígonos nunca conseguiram aproximar-se. As grandes questões da filosofia, da religião e da ética; Deus, a liberdade, a culpa, a angústia, a paixão que nos corrói e não sabemos se é verdadeiramente amor, no sentido romântico da palavra, ou doença e, sobretudo, repito, a duplicidade, a ambiguidade das nossas intenções ocultas, do que nos move sem que nós próprios disso nos apercebamos, ou do que, determinando-nos, escapa à nossa consciência.

As personagens de Crime e Castigo, nas suas camadas, são de uma tremenda densidade. O modo como, nelas, o bem é uma face do mal e vive-versa. Nas suas dúvidas e naquela espécie de tribunal da inquisição que transportam interiormente, que as interpela e as castiga - a consciência, o confronto de si consigo. Raskolnikov é absolutamente magnífico e humano nas suas crises, no seu niilismo, na sua reflexão sobre os seus actos, na sua intuição de que todos os seus actos são unicamente seus.

O que me faz pensar é, talvez, a ideia de que alguns dos pensadores que mais admiro, algumas das ideias e filosofias mais interessantes, algumas das obras mais ricas da humanidade, nunca poderiam ter nascido se Dostoievski não tivesse existido. (Heidegger, Sartre, Camus ou Hitchcock, por exemplo, não teriam sido o que foram): Raios! Este rumo, esta beleza, esta força que nos parecem adquiridas e, de algum modo, eternamente estabelecidas na Arte e na Filosofia, afinal nasceram tão tarde. E estão tão próximos...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

V. S. NAIPAUL: UMA CASA PARA MR. BISWAS



Já sabíamos que todos os livros - ou autores - têm um tempo certo para que com eles nos cruzemos. Ando há muitos anos em busca do momento ideal para me atirar a Ulysses, por exemplo. O do James Joyce. Todas as minhas tentativas foram inúteis, mas acredito que um dia ele consiga ensinar-me a lê-lo, levando-me pelas suas páginas adentro.

Quem diria, contudo, que há também um "tempo certo" para falarmos acerca deste ou daquele livro que lemos?
Em alguns casos, deverá ser imediatamente após a leitura, enquanto ainda nos sentimos contagiados, numa urgência desatinada, uma espécie de excitação febril, uma incapacidade de espera.
Em outros, pelo contrário, carecemos de uma digestão prolongada, como a jibóia, deixando que a transformação interior se vá fazendo, as raízes se fortaleçam, a reflexão se apure.

Comigo, sucedeu algo estranho a propósito do tempo necessário para me referir a V.S. Naipaul.
Desde a inauguração deste blogue que o pressinto no horizonte, como uma promessa feita a mim próprio. Mas a verdade é que adiei sempre o post que gostaria de dedicar ao primeiro livro que li da sua autoria (e, de todos os que fui descobrindo, aquele que me falou mais alto): Uma Casa para Mr. Biswas.

Os escritores indianos de expressão anglo-saxónica (embora Naipaul seja um indiano nascido na Trinidad) estão, se isso pode constituir um critério, entre os meus predilectos. Encontro, na forma como escrevem - nos temas, nas descrições, na linguagem, no humor -, uma duplicidade a que não sou indiferente e que atribuo ao confronto entre as culturas que os influenciaram, que os fizeram. A respiração de uma religiosidade profunda, um paganismo exuberante e riquíssimo, por um lado, e a disciplina e o rigor britânicos, por outro lado, ou aquele leve distanciamento irónico que passa tão depressa por arrogância, chocam-se num casamento improvável, quase paradoxal, mas com excelentes frutos.

E, deste ponto de vista, Uma Casa para Mr. Biswas é um romance imperdível. Adiei o meu possível texto, talvez porque o livro em causa se encontrava já longe, porque marcou, sem dúvida, uma etapa no meu crescimento como leitor, mas nunca mais o reli: porque o fascínio se transformara mais na memória de um fascínio do que outra coisa; em suma, porque ainda não chegara o tempo certo para o partilhar. (Ou porque esse tempo já tinha passado...).

Mas à volta de uma casa, e da importância que a ideia da casa onde viver e morrer adquire para a sua personagem, Naipaul constrói uma história que desce ao nascimento e à infância daquela, na sua luta solitária e permanente contra tudo e todos: o destino, a família, os vizinhos, o professor, os colegas...

E perante o leitor move-se o absurdo de um mundo e de uma vida em que todos são um pouco ridículos. Em todos os casos, o ridículo nasce de uma desadequação entre a grandiosidade do discurso (de alguém que assume o papel de pai, ou o de um professor, ou o de um santo hindu...) e o impulso egoísta e mesquinho que, efectivamente, mobiliza aquelas pessoas, e o papel e o discurso de cada uma não faz senão mascarar.

É um livro sem concessões e politicamente incorrecto. Um olhar desapiedado se projecta sobre os homens. O povo é sempre, entre a miséria e o sacrifício, pouco digno, pouco respeitável. Espantou-me que o Nobel, habitualmente tão preocupado com a "adequação" dos premiados, tivesse, num certo ano, perdido a cabeça. Não encontramos, em Naipaul, nenhuma "correcção", nenhuma cartilha de virtudes subjacente ao modo como toca nas personagens: nenhuma se limita a ser um boneco para veicular teses; nada de proselitismo. Apenas o mergulho nas contradições humanas, na insuficiência moral, na mesquinhez religiosa ou política. Não há bons, não há maus. Unicamente a massa de que somos feitos, tratada com algum cinismo e um humor eficaz, numa escrita que, não deixando, aparentemente, pedra sobre pedra, deixa precisamente o brilho de uma casa: ou seja, da força de um sonho (o de ter uma casa) contra o destino.

domingo, 25 de abril de 2010

JUAN JOSÉ MILLÁS: O MUNDO o mundo é a rua da tua infância



Considero-me, vaidosamente, um leitor talentoso.
Na verdade, o mérito não me cabe, sequer, por inteiro. O segredo consiste em proceder ao contrário do que sugere o aforismo mortífero de um crítico [pensei que fosse de Oscar Wilde, mas descobri, há algum tempo, que não]: «Nunca leio um livro», afirmou, «sobre o qual tenha de escrever: influenciam-nos tanto...»; ou seja: o meu segredo está na capacidade de me deixar influenciar.

Não só pelo livro em concreto, mas por tudo e por todos quantos me possam ter posto na sua peugada. Sim, presto atenção aos blogues acerca de literatura, às críticas dos jornais, adquiro revistas literárias - mas nem precisava: mais perto de cada um de nós (e, seguramente, por menos dinheiro), há um avô ou um primo, um colega, um amigo, um leitor compulsivo que descobriu ou redescobriu alguma coisa, e não quer senão partilhá-la. Aproveito sempre. Oiço, bebo-lhe o interesse, aspiro-lhe o entusiasmo como quem fuma uma droga particularmente forte e, geralmente, parto em busca da obra. Não me tenho arrependido; não me tenho dado mal.

Uma amiga tem sido responsável por diversas surpresas agradáveis, nos meus mais recentes tempos de leitor. Passando-as em revista, observo que todos os seus conselhos literários me enviavam para romances de autores espanhóis. Poderá ser uma coincidência, ou será que a literatura espanhola, tão pouco cara aos portugueses, lhe toca particularmente?

O último livro de que me falou chama-se O Mundo (o mundo é a rua da tua infância), escrito por Juan José Millás, Prémio Planeta 2007, Prémio Nacional de Narrativa de 2008.

Imagino que os leitores deste blogue possam achar alguma graça aos meus comentários. Muitas vezes, agradar-lhes-á o reconhecimento de afinidades, a confirmação de gostos comuns por autores ou escritos que eu e eles amávamos já. Outras vezes, poderá dar-se que eu diga algo interessante sobre este romance, aquela novela, o outro poema. Mais raramente, acredito (mas posso estar enganado) que alguém se dê ao trabalho de ir ler determinada obra por eu ter sido persuasivo. Não que aspire a que este blogue seja, como Soares dizia da sua presidência, uma «Magistratura de influência». Bem. Mas se tiver momentaneamente esse poder, que se verifique neste caso. Absolutamente. Não adiem o encontro com um texto maravilhoso, todo feito de uma memória à procura da infância. E, nos episódios que perpassam ante os nossos olhos não estão somente imagens da criança que o narrador foi: brilha o próprio espírito da infância.

Porque a criança, nos seus desconhecimentos e nas suas pesquisas, e nas transgressões que essas pesquisas dela exigem, é um misto de poeta e de criminoso. De facto, ela é criminosa sobretudo perante a sua própria consciência: o que esconde aos adultos, mesmo os cêntimos que rouba aos pais, ou as diversas pequenas fugas - não são senão os instrumentos para a sua descoberta de um mundo cheio de alçapões, janelas ou bairros misteriosos. E nunca, como nessa fase de descoberta, é possível a reveladora mudança de ângulo, a perspectiva nova e inebriante, resultantes de algo tão simples como uma janela de cave, com uma insuspeitada visão para a rua, de baixo para cima, que tudo muda, que metamorfoseia completamente o olhar.

Para «Juanjo», o narrador, toda a vida se encontra repleta dessas «passagens» para outros mundos. Mas é certo que ele está rodeado das suas drogas: já para não falar do éter, que surripia, há páginas maravilhosas sobre o sono, o vulgaríssimo dormir, que ele "consome" constantemente, em qualquer lado, e lhe transfigura o mundo, dotando-o de uma estranha natureza, entre o onírico e o real; e páginas encantadoras sobre a febre - e os tão apreciados estados febris, a partir dos quais tudo ganha uma espécie de euforia maravilhosa e um pouco alucinada...

O livro é escrito num registo humorístico extremamente feliz: mesmo as situações ou as personagens macabras, à luz do olhar infantil de «Juanjo», vêm tocados de um halo que os regenera. Nada é autenticamente trágico nas ironias e nos paradoxos da vida. Tudo é só, de uma forma comovente, muito engraçado e muito profundo. Não me lembro de muitos outros livros que me tenham feito rir assim, não só para dentro, em gargalhadas intelectuais, mas para fora, em pequenas sacudidelas de ar e de voz.

É interessante apercebermo-nos de como, em adulto, o narrador mantém, como Proust, a propósito de uma mera sensação actual, o dom de um total regresso à infância: um intenso e pleno reviver do tempo perdido; e de como essa ponte permanece intacta, em grande parte porque o olhar infantil está ainda conservado no olhar deste adulto. De algum modo, a escrita, por um lado, mas também as suas neuroses, por exemplo a compulsiva necessidade de não negligenciar um plano de fuga em qualquer ocasião, são os elementos indestruídos, indestrutíveis, da criança que nunca saiu da rua da sua infância.

«Teria gostado de sonhar este capítulo», escreve Juan Millás, «escrevê-lo sob hipnose. Levei-o comigo para a cama durante dias e dias, dentro da cabeça, para ver se conseguia que atravessássemos juntos a fronteira da vigília.»

Eu sonhei este livro: li-o sob hipnose. Sob um encantamento que ainda se não esvaiu. E, parafraseando Millás: tive febre enquanto li o livro; e o livro tinha febre enquanto o li...

domingo, 18 de abril de 2010

SÁNDOR MÁRAI: A HERANÇA DE ESZTER


É com um estranho sentimento e sentido de veneração que me debruço sobre quase toda a arte que provém do Império Austro-Húngaro: e, no entanto, nada pareceria promissor neste império artificial, gigantesco, reunindo caoticamente diversas etnias, costumes, línguas, interesses, com a argamassa de uma poderosa família (os Habsburgos) e um imenso aparelho burocrático, como Musil refere (e descreve) em O Homem sem Qualidades quando, com algum humor, retrata o funcionamento da "Cacânia".

Porém, contra todas as expectativas, tanto na literatura, como na pintura ou na música, por exemplo, o Império Austro-Húngaro foi um harmonioso viveiro de génio e talento. Do meu ponto de vista, mesmo as contradições daquela cultura com algo de manta de retalhos, e os choques que levariam à I Grande Guerra - são ingredientes que trabalham, no espírito dos artistas austro-húngaros, com um veio de desencanto e cepticismo, uma tristeza que levou muitos ao suicídio, um quase desespero que é notório na obra de quase todos. Veja-se a ficção de Zweig, veja-se o próprio Musil, veja-se Brosch. Veja-se Sándar Márai.

Acabo de ler, deste último autor, A Herança de Eszter.
Na nota de contracapa é identificada uma personagem, Lajos, como «um canalha encantador e sem escrúpulos, dotado de um poder de sedução irresistível». Há, nesta personagem, uma falta de carácter, uma facilidade em seguir a mentira, em nela se comprazer e por ela viver, que lembra José Fouché (e vem-me à memória "Fouché" precisamente por causa da excelente biografia que lhe dedica Stephan Zweig, outro austro-húngaro famoso); neste caso, contudo, a capacidade de burlar, fazendo-se irresistível, como se hipnotizasse as pessoas, é elevado por Lajos quase a uma prática estética, ou mesmo artística e, perversamente, talvez a lei moral.

Odiamos a personagem, o seu modo de usar as pessoas que o querem, que o amam, de não ver a vida senão como risco, perigo e terreno fértil, sem compromissos nem constrangimentos, tudo lhe sendo permitido. Mais: trata-se (e neste aspecto Marái parece-me particularmente interessante e profundo) de um homem que, pela sua maneira de ser, tudo transforma em falsidade, mesmo quando o que diz corresponde aos factos, mesmo quando as suas palavras são "verdadeiras". E, portanto, atingimos um outro tipo de inverdade, que é ontológica, e nem sequer depende já propriamente da correspondência entre o discurso e a realidade. Ao mesmo tempo que o odiamos, porém, não podemos deixar de reconhecer que uma admiração secreta nos aproxima dele, como se a sua hediondez nos hipnotizasse, como se o seu poder magnetizasse o leitor da mesma maneira que a todos os que o envolvem e não lhe resistem.

Alguns romances - e, por exemplo, os de Hermann Brosch ou de Musil, para nos mantermos no interior do campo literário e cultural austro-húngaro, ainda que Marái seja de um azulejo específico, diferente, no interior deste mosaico - vivem da linguagem, ou da descrição, ou da filosofia que os impregna, mais do que da "história": aqui, é quase unicamente da história que se trata; tudo vai sendo sacrificado a uma progressão eficaz, muito rápida, levantando dúvidas, mantendo um suspense em relação à trágica conclusão. Esperarmo-la ou não, prevermo-la ou não, depende, curiosamente, de até que ponto nos parece que Lajos poderá chegar. Um homem que enganou, traiu e roubou, e regressa muitos anos depois, vem para reparar o mal? Ou vem para o terminar?

Trata-se de um romance curto - talvez lhe chamasse uma novela. De uma intensidade que nunca abranda. Se às vezes, nas afirmações, nas ideias, aqui, ali, algo nos soa como déjà-vu, déjà-lu, é, sem dúvida, porque estamos no âmago de uma série de circulações e de influências que constituíram uma parte do que o Ocidente verdadeiramente é. Todos os ecos são significativos, todos os reconhecimentos são produtivos. Trata-se de um grande romance.