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quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O CONTEMPORÂNEO «INCONTORNÁVEL»
Dava, há dias, comigo a pensar isto: Saramago é, para todos os portugueses, o único autor português contemporâneo verdadeiramente «incontornável». [Usei aspas para que se intuísse alguma ironia que a palavra me merece].
Até no seu modo polémico, José Saramago conseguiu que todos os portugueses se definissem, literária e esteticamente, em relação a ele. Da mesma forma que, a propósito de Nietzsche, Eric Weil afirma que, se podemos falar de um autor cristão, é precisamente dele - na medida em que todo o seu pensar se configura em relação a Cristo, ainda que para o contestar -, também faz sentido dizer-se que os portugueses são todos saramaguianos. Mesmo os que o odeiam, mas fazem desse ódio uma referência como não existe outra com o mesmo peso, com idêntica intensidade.
O século XX português é absolutamente saramaguiano. Torga, Jorge de Sena, Nemésio, Sophia ou David Mourão Ferreira - cinco exemplos imediatos de autores portugueses que considero melhores do que Saramago, isto é, mais profundos e mais cultos - não tiveram o seu impacto. Não fizeram a mesma revolução na escrita: foram herdeiros e continuadores de uma tradição, enquanto que José Saramago a transformou radicalmente. Aqueles foram sínteses brilhantes e inovadoras, este foi o advento de um outro mundo.
Nem sempre gostei de Saramago. Como homem, critiquei-lhe a presunção e a arrogância. Como escritor , considerei-o bastas vezes superficial. Comparem uma página de Clarabóia (mas, para não sermos injustos, uma página de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é do seu melhor, se não o seu melhor) com uma página de Mau Tempo no Canal. Há, em Saramago, uma ausência de densidade ou de riqueza na reflexão, que, pelo contrário, encontramos em cada linha de Nemésio. E, no entanto, ninguém se define em relação a Nemésio. Gosta-se ou não, mas não se está num território virgem, inexplorado, em que se semeiam religiões, fés radicais, terríveis incompreensões, radicais antipatias. Saramago suscita-as. E influencia-nos. A todos. De um ou de outro modo, para o mal ou para o bem, mas a todos.
domingo, 20 de junho de 2010
DEUS E JOSÉ SARAMAGO

Saramago foi, malgré-lui, o mais cristão dos escritores portugueses. Não tanto por causa do seu tão difundido "humanismo", mas pelo facto de ter erigido o Deus cristão, a Bíblia e o próprio Cristo a adversários arquetípicos e tema obsessivamente único. Os seus últimos anos foram vividos nesse desvario de boneco com o mecanismo sonoro quebrado: Não há Deus, não há Deus, não há Deus!; essa fúria mostrava-nos uma revolta similar à de Lúcifer ou de Caim, que é sempre, em última instância, a de um filho contra o pai.
Saramago foi um escritor de extraordinário talento: fez mais pela língua portuguesa do que todos os acordos ortográficos, todos os Institutos Camões no movimento de se implantarem pelo mundo fora, ou as tentativas de intercâmbio promovidas pelo governo. Fez mais pela literatura portuguesa contemporânea (num país em que a grande referência literária se resume a uns quantos jornalistas que resolveram escrever romances) do que a sede devoradora da Editora Leya mais os seus prémios literários.
A personagem embirrante e maledicente em que se instalou, na qual se tornava difícil separar o génio do mau génio, ou os cursos de banalidade que prodigalizava nas entrevistas que ia concedendo, deixavam-me sempre algo perplexo: É isto Saramago? É isto o nosso Nobel? Este conjunto de chavões e de frases feitas, esta raiva irreflectida?!

Nunca fiz inteiramente as pazes com Saramago; mas, lendo alguns dos seus melhores livros, o memorial, o evangelho, Ricardo Reis, as intermitências, a viagem, talvez Caim, estou seguro da sua absolvição. Se Deus, a existir, for um leitor de bom gosto (e teria de ser, é claro), Saramago está no céu, Sousa Lara nunca para lá irá.
Reconciliei-me? Até ao ponto, somente, em que a morte tudo e todos reconcilia. Mas apetecia-me principiar a relar o Memorial do Convento.
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