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domingo, 6 de fevereiro de 2011

WILLIAM CARLOS WILLIAMS: «SO MUCH DEPENDS UPON» (1923)

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens.

*

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água
da chuva

ao lado das galinhas
brancas

terça-feira, 10 de agosto de 2010

JOHN MILTON: PARAÍSO PERDIDO




Toda a teologia que tem a sua génese no judaísmo e no cristianismo está minada por uma pergunta irrespondível. Se Deus é sumamente bom, omnisciente e todo-poderoso, de onde surge o mal? Só se admite que Deus consinta no mal, ou porque Ele não é bom, ou porque o não previu, ou porque nada pode contra ele.
A ideia de um ser caído, Satanás, não vem ajudar.
Deus não poderia havê-lo antes suprimido? Ou forçado a render-se? Ou gostamos de pensar que essa relação obsessiva faz parte do grandioso plano divino, de facto como se, na ausência de um verdadeiro inimigo, os actos do Senhor não brilhassem tanto?

Em todo o caso, gosto de reler o extraordinário poema de Milton, Paraíso Perdido. Sou franco: «reler» é força de expressão; na verdade, é principalmente aos dois primeiros livros desta obra, cuja segunda edição (de 1674) contém doze, que retorno frequentemente. Mas acho inexplicável que um autor do século XVII tenha sido capaz de, tão corajosamente, sondar o mistério da personalidade diabólica.

Não se pode propriamente afirmar que Milton seja o advogado de Satanás. Escreve como se ele mesmo, o autor, não tivesse de tomar partido. É um repórter que assiste, imperturbável, aos difíceis momentos da Queda, da preparação para a longa guerra entre o Bem e o Mal e, como parte desta, a tentação de Adão e Eva e sua expulsão do paraíso. E deixa que, à vez, cada um dos eternos adversários, Deus e o Diabo, tome a voz, exponha as suas razões, entusiasme os seus com os argumentos que lhe justificam a posição. Ou seja: o extraordinário é, aqui, o facto de que Satanás possa apresentar ao leitor a sua perspectiva: amarga, rebelde, inconformada, triste, raivosa, de uma vertiginosa liberdade, que surge resplandecendo em todo o seu valor.

Porque, nas suas palavras, a vitória não é possível: mas quando um acto não aspira à vitória, então é simplesmente vingança. E a origem do mal residiria, pois, nesse desmedido orgulho de Satanás, que mesmo não podendo ganhar, se recusa a desistir, porque pensa que é melhor reinar no inferno do que servir no céu.

Detenhamo-nos nesta concepção do demoníaco, que não justifica o mal procurando racionalizá-lo, ou seja, procurando compreender-lhe as razões (como o faz a psicologia contemporânea), mas, em vez disso, o toma como uma escolha livre e, mais do que isso, como a única escolha em que a liberdade se pode cumprir. Os anjos caídos sabem que, exceptuando a sua ingrata saída, só lhes restaria a escravidão, ou seja, servir a Deus.

E agrada-me isto num poeta inglês de há quatro séculos A capacidade de olhar o outro, seu contrário, sem o humilhar nem diminuir. Não lhe dando razão (pois dar-lhe razão seria uma derradeira afronta, uma nova forma de paternalismo); antes, dizendo: Tu és isto. Vejo o que tu és. Não posso sequer dizer que te respeite. (Raramente a enunciação do respeito que se tem por quem nos contradiz não é um exercício de hipocrisia). Mas percebo que, se não fosses o que és, já não serias tu. Serias um servo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A PROPÓSITO DA ILÍADA, DE HOMERO: FREDERICO LOURENÇO


«O escudo segurado por Aquiles é uma maravilha da metalurgia e da poética. Na descrição pormenorizada que dele faz o poeta no Canto XVIII, apercebemo-nos de que é todo um universo de experiência humana que está gravado no escudo. Vemos a terra, o céu e o mar; o sol, a lua e todos os astros do firmamento. Duas cidades se destacam pelas situações contrastantes em que se encontram. Numa, celebra-se uma boda com música e dança. A outra está em guerra, cercada: até as mulheres, as crianças e os velhos têm de defender as suas muralhas. Os homens saem para uma emboscada e chegam a um local idílico, aonde vão ter dois pastores com os seus rebanhos, tocando flauta. Apesar de indefesos, os pastores são mortos pelos soldados. Na expressão "deleitando-se ao som da flauta", que o poeta aplica aos pastores, e na descrição dos soldados escondidos "revestidos de bronze" encerra-se todo um mundo de contraste, toda a desumanidade da guerra, toda a precariedade da paz.»

Frederico Lourenço, «Ilíada: O Primeiro Livro», Grécia Revisitada, Livros Cotovia, Lisboa 2004

Duas notas tão-só:

Em primeiro lugar, para agradecer a uma das jovens brilhantes a que já anteriormente me referi, 0 ter-me lembrado a pura maravilha que é, na Ilíada, a descrição do escudo de Aquiles.

Em segundo lugar, para manifestar o meu assombro perante a enganadora simplicidade da escrita de Frederico Lourenço. Esta limpidez é, ao mesmo tempo, de uma tal intensidade, que nos apetece procurar, de imediato, o texto de Homero. Não é?

sábado, 8 de maio de 2010

DOSTOIEVSKI: CRIME E CASTIGO


Gostaria de poder dizer que me surgiu esta pergunta na adolescência, implicando isso que eu teria lido, muito novo, Dostoievski (o que, por coincidência, é verdade), mas, sobretudo, que era então já capaz de intuições precoces. Sucede que a tive adulto. E, nesse caso, está longe de ser precoce. Todavia, assumo a infantilidade do meu espanto...

Quando me compenetrava de que, bem vistas as coisas, Dostoievski é um autor do século XIX, ou seja, a bem dizer, de ontem, sentia, com um arrepio de estranheza, que a literatura, até ao século XIX, ainda não começara verdadeiramente. Apesar de Homero, apesar de Virgílio, apesar de Dante ou Shakespeare. Pode parecer estúpido. Mas tenho o mesmo tipo de arrepio quando penso em como Proust é recente. Caramba. Vieram tão tarde, de certa forma, alguns daqueles que deram à História da Literatura uma dimensão maior, um sentido absoluto, um fundamento iluminador. A sua verdade! (Sim, eu sei: não existirá "a" verdade da literatura, mas qualquer coisa como uma totalidade de sentido, com um contorno que se não completaria sem Proust,Dostoievski - e só não falo de contemporâneos, porque o tempo decidirá...)

Outra revelação: não possuo, entre os meus livros, Crime e Castigo. Não me perguntem porquê, sou peculiar.

No entanto, li três vezes este romance. Lembro-me tão bem da primeira delas. A da descoberta. A de me estar embrenhando num continente selvagem, onde nada me era familiar e tudo me exigia novos instrumentos.
Como diria E. Prado Coelho (naquelas suas frases que, aliás, tanto me irritavam), por uma vez li as primeiras páginas desse livro e compreendi que entrara num outro mundo, que me marcaria definitivamente e do qual nunca mais conseguiria sair. Ou não sairia sem feridas e sem me ter tornado outro.

O que me fascinou foi, desde as linhas iniciais, o movimento de ambiguidades e subentendidos com que o autor joga. Sob a superfície clara, virtuosa, não especialmente equívoca, oculta-se uma série de sentidos inconscientes, de segundos sentidos e, nessa medida, a análise que se vai fazendo, ao longo da obra, de tudo o que é dito, ou escrito, é de uma agudeza nunca vista; a desmontagem, por outras, daquilo que certas personagens "querem" dizer ou "querem" escrever sob o que efectivamente dizem ou escrevem, prefigura brilhantemente o trabalho e as descobertas da psicanálise.

Em Dostoievski, de facto, encontra-se tudo, porventura com uma profundidade de que os seus discípulos e os seus epígonos nunca conseguiram aproximar-se. As grandes questões da filosofia, da religião e da ética; Deus, a liberdade, a culpa, a angústia, a paixão que nos corrói e não sabemos se é verdadeiramente amor, no sentido romântico da palavra, ou doença e, sobretudo, repito, a duplicidade, a ambiguidade das nossas intenções ocultas, do que nos move sem que nós próprios disso nos apercebamos, ou do que, determinando-nos, escapa à nossa consciência.

As personagens de Crime e Castigo, nas suas camadas, são de uma tremenda densidade. O modo como, nelas, o bem é uma face do mal e vive-versa. Nas suas dúvidas e naquela espécie de tribunal da inquisição que transportam interiormente, que as interpela e as castiga - a consciência, o confronto de si consigo. Raskolnikov é absolutamente magnífico e humano nas suas crises, no seu niilismo, na sua reflexão sobre os seus actos, na sua intuição de que todos os seus actos são unicamente seus.

O que me faz pensar é, talvez, a ideia de que alguns dos pensadores que mais admiro, algumas das ideias e filosofias mais interessantes, algumas das obras mais ricas da humanidade, nunca poderiam ter nascido se Dostoievski não tivesse existido. (Heidegger, Sartre, Camus ou Hitchcock, por exemplo, não teriam sido o que foram): Raios! Este rumo, esta beleza, esta força que nos parecem adquiridas e, de algum modo, eternamente estabelecidas na Arte e na Filosofia, afinal nasceram tão tarde. E estão tão próximos...

sábado, 6 de março de 2010

SHAKESPEARE: UM PROGRAMA DE VIDA SEGUNDO POLÓNIO

Sigo, nesta transcrição, a tradução de Hamlet proposta pelo Dr. Domingos Ramos.

O conjunto de conselhos que Polónio oferece a seu filho, Laertes, aquando da partida deste para França, não constitui, por si só, um admirável programa moral de vida?

«Fixa na tua memória estes conselhos: não dês língua aos teus pensamentos e nem executes pensamentos que não tenhas reflectido. Sê afável, mas evita por todas as formas ser banal. [Esta, talvez a minha predilecta: "Sê afável, mas evita por todas as formas ser banal.»]. Quando tiveres experimentado a afeição dos teus amigos, engasta-os na tua alma em círculo de aço; mas não prostituas os teus apertos de mão a todo o desconhecido, a todo o camarada indiferente. Não te metas em disputas; mas uma vez entrado nelas, aguenta-te de modo que o teu adversário tenha medo de ti. Presta a todos os teus ouvidos, mas a poucos a tua voz; aceita a opinião de todos, mas reserva a tua. [...] Não emprestes nem peças emprestado, porque emprestando, perde-se quase sempre o dinheiro e o amigo, e pedir emprestado embota o fio ao espírito de ordem. Sobretudo, sê sempre verdadeiro para contigo mesmo e disto seguir-se-á, como o dia segue a noite, não poderes tu ser falso para com ninguém. Adeus! que a minha benção faça frutificar em ti estes conselhos.»