domingo, 30 de maio de 2010

MÁRIO DE CARVALHO: UMA CITAÇÃO


Mário de Carvalho, autor português cuja ironia aprendi a apreciar num conto para crianças, que lia ao meu filho, O Homem que Engoliu a Lua, afirma, numa entrevista a Carlos Vaz Marques, o que passo a citar:

«Já pensou - e este é mais um tema - que o fascismo e o totalitarismo são capazes de ser naturais? E que a evolução humana se tem feito precisamente contra aquilo que é natural? Que o natural de dois homens que se encontram, como dois índios nas planícies americanas, é matarem-se um ao outro? Que o natural, se calhar, é o canibalismo? Que o natural se calhar é a escravização do outro?»

«O natural», acrescenta C. V. Marques, «é as tartarugas serem atacadas e mortas, como acontece tanto no princípio como fim do seu livro, pelos falcões ou pelas corujas-das-torres.»

Em confronto com o mito do Bom Selvagem, de Rousseau, para quem é a cultura que degrada a bondade intrínseca da natureza, que excelente proposta de análise e discussão para os meus alunos.

sábado, 29 de maio de 2010

ORLANDO VITORINO: MANUAL DE TEORIA POLÍTICA APLICADA


Diz-se, dos cães que comem ervas no jardim onde os leváramos a passear, que o seu organismo instintivamente "procura" aquilo de que tem carência; ou, dos desejos das mulheres grávidas, que obedecem a alguma necessidade orgânica própria do seu estado; lembro-me de um médico que justificava similarmente o facto de uma criança arrancar e comer pedaços de cal de parede.

Talvez alguma carência orgânica, no sentido lato, ligada a uma fase minha de redefinição, esclareça também a forma como o corpo me tem pedido, ultimamente, uma substituição, da habitual dieta de literatura de ficção, por um regime de textos de teoria. Regresso à filosofia, por exemplo, e alguns dos meus últimos posts são disso o sinal: veja-se Kierkegaard e Montaigne. Mas a verdade é que, ainda quando acabam não se tornando leituras tão importantes que mereçam qualquer comentário meu neste blogue, são livros de teoria os que me têm chamado: O Mestre Ignorante, de Jacques Rancière - ou, nos últimos dias, por recomendação de um colega que lhe elogiava a extraordinária clareza das ideias, Manual da Teoria Política Aplicada, de Orlando Vitorino. E, em resumo, não creio que suceda por coincidência.

Para mim, que me considero inequivocamente um homem de esquerda, ainda que distante de cada um dos partidos de esquerda que encontro, o livro de Vitorino é um puxar do tapete sob os pés. Ao longo das primeiras páginas hesitei em prosseguir uma leitura que me irrita e da qual discordo. Mas, depois, principiei a acalmar. Discordo, muito bem: mas irrita-me, porquê? E não sei se a continue ou se a abandone, porquê? Porque tenho medo de que me ponha em causa? De que abale as categorias e as estruturas que me constituem a tradição cultural, sobre a qual construí toda a minha reflexão e consolido as minhas posições?

É verdade que me parece que a perspectiva de Vitorino radica num erro imperdoável, que é o de criticar a visão "socialista" como um todo, com pressupostos idênticos (um dos quais seria a omnipresença do Estado), trate-se de comunismo, nazismo ou fascismo. É um acto de má-fé intelectual não pensar as diferentes finalidades filosóficas e políticas de diferentes sociedades estatistas, como se não houvesse entre elas distinções de natureza que não podemos ignorar - a não ser pagando o preço de considerar como prescindíveis e irrelevantes o sentido filosófico e político das sociedades. Como é certo, por outro lado, que uma doutrina e um sistema políticos se fundem numa antropologia: mas tenho dificuldade em aceitar que não haja senão os dois rascunhos de antropologia que Vitorino sugere: a do homem como espécie, ou ser colectivo, que se esgotaria na sociedade, destituído de qualquer elemento individual (antropologia essa que levaria aos comunismos); e a do homem como indivíduo, livre, criativo e pensador, mas sem qualquer dimensão social, que não a da mera soma, a posteriori, dos indivíduos. Não seria concebível a mediação? Uma antropologia do indivíduo que não desaparece, enquanto tal, no seio do todo e do todo que seja como que a gramática pujante da realização e da liberdade de cada um?

Isto dito, é evidente que a leitura deste livro é uma discussão profícua: uma discussão do leitor com Vitorino e do leitor consigo mesmo. Se é verdade que ser de esquerda passa também pelo enquistamento em quadros mentais que não nos atrevemos a repensar, nem ao menos a questionar (como, aliás, ser de direita), então trata-se de uma leitura inquietante, exigente, no melhor sentido da palavra, que não nos deixa repousar sobre as certezas adquiridas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MONTAIGNE: ENSAIOS


Considero encantador este modo de falar de livros: é verdade que se fica com pouco acerca do livro e muito sobre mim, sobre a minha experiência como leitor, sobre as circunstâncias em que descobri o texto e as consequências de o haver descoberto; que diabo há, nisso, de «encantador»? «Encantador", convenhamos, não pelo meu poder de encantar, mas pela transparência com que alguém se expõe; não porque os leitores não preferissem saber dos livros, mas porque se trata antes de lhes oferecer a experiência do ler de um sujeito concreto. Pensando melhor, talvez não achem "encantador": mas é propositado. E a quem o devo? Bem. A Michel de Montaigne.

Montaigne é excepcional.
Há, é claro, dificuldades na sua leitura: por alguma razão que sou incapaz de descortinar, as suas obras completas não estão traduzidas em Portugal. (No Brasil, em contrapartida, penso que existem traduções recomendáveis). Parcialmente, um ou outro dos seus ensaios, porventura os mais conhecidos, foram sendo vertidos para o português de Portugal. Mas sabem sempre a pouco.
Por outro lado, até os leitores que dominam a língua francesa se debatem com um Montaigne que vai sendo publicado, hoje, num francês do século XVI - muito diferente do actual, pouco transparente, exigindo um trabalho em que se gasta a concentração que deveria empregar-se no essencial. Vá-se lá saber porquê. Como se uma campanha idiota quisesse manter entre os velhos, num patamar do passado, um autor todavia tão jovem, tão nosso contemporâneo e tão intemporal.

Montaigne pede constantemente emprestado. Sou franco: as citações que faz de Antigos pensadores Gregos ou dos filósofos Romanos devêm fastidiosas, interrompem o raciocínio que deveriam sustentar, são desagradáveis soluções de continuidade. Mas, de algum modo, o seu estilo, a sua originalidade, a elegância e a profundidade com que coloqueia com o leitor, falando-lhe como se estivessem ambos sentados frente a frente, acerca de si mesmo (Montaigne), ou da sua vida, preferências, saudades, frustrações, traz aos seus ensaios - e é ele, precisamente, o inventor do "ensaio" neste sentido - uma frescura e uma proximidade maravilhosas.

As fórmulas de Montaigne são inspiradas. Algumas vezes, com alguns autores - Proust, sem dúvida -, mas raramente e com muito poucos, sucede percebermos como uma frase exprime uma intuição notável, aparentemente fácil, como se escondesse no ventre o trabalho que deu, como se ocultasse todas as voltas da sua construção, ocultasse as vezes que terá sido sucessivamente apagada, e rescrita, até se realizar como pensamento perfeito, coincidente com as palavras mais adequadas: como uma formulação que acerta exactamente no coração da vida.

Retomo-me: lendo Montaigne, que é, de facto, a única matéria dos seus próprios ensaios, vejo que tudo fala de si, com uma sageza que não é destituída de afecto: uma sabedoria de homem que usou o pensamento, não para se libertar, graças a ele, do mundo real e concreto, mas para melhor entrar nos pormenores da realidade, que viveu, pensou, sofreu e gozou.

MAUGHAM: UMA CERTA PERSONAGEM

Em O Fio da Navalha (mas será mesmo em O Fio da Navalha?) há uma personagem comovente, que atesta bem a penetração psicológica de Somerset Maugham, a que me referi já.
Trata-se de um idoso, que veio envelhecendo na ilusão do "social". Um pouco delirantemente porque, no seu caso, tudo teria mais que ver com o sonho e com a aparência que se esforçava por manter, do que com a realidade, esse simples funcionário empenhou toda a vida na ideia de que lhe reconheciam a nobreza de sangue e o "chic" de maneiras. Os últimos meses de vida jogaram-se e esgotaram-se na ansiosa espera de um convite para um "evento social" (como se diz hoje) a que, porém, não assistirá porque, precisamente, morre sem saber se seria convidado. Não me devo enganar muito, ao contar que os amigos o enterram com o convite, finalmente chegado, entre as mãos.
Não há qualquer azedume da parte de Maugham em relação a esta deliciosa personagem. O ridículo corre-nos a todos nas veias. As fraquezas são parte da nossa graça. Este homem dever ter existido. Conheço gente tão assim, que não é possível que Maugham não estivesse a pensar em alguém...

domingo, 23 de maio de 2010

SOMERSET MAUGHAM: SERVIDÃO HUMANA

O conhecimento que tenho de uma grande parte da obra de Somerset Maugham e o prazer com que a ela continuamente retorno são dos principais legados da minha mãe. É-me sempre grato, ainda hoje, ouvi-la contar (e voltar a contar) os enredos. Lembro-me, nos mínimos pormenores, das histórias que me narrava em criança: ao Capuchinho Vermelho ou à Branca de Neve, preferia o evoluir mais complexo dos livros que ia lendo, e Somerset Maugham foi sempre o seu autor predilecto, pelo que, oralmente, a minha familiaridade com os romances deste autor terá principiado relativamente cedo.

Minha mãe, de resto, tem toda a razão. Pegamos numa novela menor de Maugham, Um Casamento em Florença, por exemplo, e percebemos como, até quando alguém escreve sem outro intuito que não o de divertir-se e divertir o leitor, a qualidade, se existe, é indisfarçável - apesar dos erros, das coincidências, da ausência de rigor, da displicência...

E quando um autor que se dá ao luxo de ser muitas vezes displicente é, mesmo assim, extraordinário, imaginem o que sucede quando se decide entregar convictamente ao trabalho, com uma ideia forte, personagens interessantes, espírito de observação, originalidade.
Nem precisaria de se tratar de um romance: Somerset Maugham é, aliás, dos mais apurados escritores de "contos" que conheço, e um conto não é um romance imperfeito nem mais magrinho, não é um texto incompleto ou resumido, mas uma forma própria, porventura mais difícil, com um ritmo especial e uma orquestração do tempo e da tensão muito particulares, que ele domina magistralmente. A Chuva é incomparável, e de uma intuição psicológica agudíssima.

A minha mãe, todavia, escolheria Servidão Humana e O Fio da Navalha. Compreendo-a. Servidão Humana é a história de Philip Carey, um jovem extremamente inteligente mas com uma deficiência que o marca e complexa nas suas relações com o mundo em geral e com as mulheres em particular. E Mildred, uma mulher de "baixa extracção social" (ah, parece-me estar ouvindo esta expressão à minha mãe...), entrar-lhe-á na vida, capaz de o usar, abandonando-o e regressando sucessivamente, estragando-lhe todas as relações entretanto iniciadas, segura de que ele lhe perdoará e aceitará tudo, a prepotência, o desamor, o desprezo, numa dependência sem limites. É um romance amargo, que penetra o âmago da psicologia do homem, das relações, da frieza e da servidão. É de uma intensidade e de uma profundidade inesquecíveis.

De facto, as personagens de Somerset Maugham são inquietantemente próximas de nós. Reconhecemo-las. Conhecemo-las bem, no fundo. Exasperam-nos, embora raramente sejam más ou de uma temível perversidade: apenas demasiado fracas ou excessivamente fortes, criando, nessa desigualdade, a relação errada e doentia; apenas obsessivas e tristes, perseguindo sonhos ridículos. Apenas como nós, vistas a uma luz que nos permite compreendermo-nos melhor, mas nem sempre nos redime. Mas que, ainda assim, ainda que nem por isso nos salvemos, temos de ler.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

EXAMINAR A PRÓPRIA VIDA NOS LIVROS

Vi escrito, a propósito dos livros de Alain de Botton - mais uma afinidade que descobri na minha amiga brilhante -, que ele devolve à filosofia um lado que sempre lhe fora inerente e se tem perdido: o de nos ensinar a examinar e a viver a vida.

Pois eis como, em Kierkegaard, que continuo lendo, reencontro essa dimensão de pensar que ajuda a pensar-me - e a pensar os meus actos. Quase como se, à semelhança de certos descodificadores das linhas do futuro nas folhas de chá ou em máximas chinesas, também deparasse, a cada momento, em cada linha, com a resposta que me faltava, a lição por que aguardava.

E, por exemplo, para mim, isto faz todo o sentido:

«[...] é grande renunciar ao desejo, mas é maior apegar-se a esse desejo depois de haver dele abdicado; grande é agarrar o eterno, mas maior é segurar o temporal depois de haver dele abdicado.»

Ou:

«Só as naturezas inferiores se esquecem de si próprias e se transformam em algo de novo. Assim a borboleta esqueceu completamente que fora larva, porventura poderá voltar a esquecer completamente que era borboleta a ponto de se transformar em peixe. As naturezas mais profundas nunca se esquecem de si próprias, nunca se transformam numa coisa diferente do que foram.»

Por alguma razão, neste momento, precisava de o ouvir.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

KIERKEGAARD: TEMOR E TREMOR


Quando se liberta da rigidez do significado, ou seja, de ter de «significar coisas», a linguagem ganha um insuspeitado poder, descobre virtualidades imprevistas e transforma-se no seu próprio sentido: comporta em si a sua verdade, em vez de se limitar a dizer o que sucede no mundo fora de si, como se fosse o mero veículo de uma mensagem sobre a realidade exterior, um dedo a apontar para o estado das coisas. Tal linguagem, que se revela mais a si própria e ao seu segredo íntimo do que revela o "extrínseco", é a poesia.

De algum modo, julgo, o filosofar não reside longe do labor poético. Que procuro eu num texto filosófico? A verdade? Deus me livre. Busco, por um lado, um ângulo, nada mais do que isso; e a quantos mais ângulos tiver acesso (isto é, quantos mais filósofos for lendo), mais a minha visão da realidade se vai multifacetando. Mas, nesse ângulo, em cada ângulo, em cada filosofia, interessa-me a forma como é desenhada. O risco de propor uma interpretação a que não se haviam atrevido antes, mas, de facto, nos interpela e faz pensar.

Há, também, algo de estético, nesta minha apreciação do texto filosófico: como se se tratasse de operar com conceitos e, no domínio dos conceitos, também o filósofo fosse um artista da linguagem, um poeta que, a seu modo, persegue as palavras e os argumentos mais ricos e interessantes para exprimir e justificar uma certa tese. Não peço aos filósofos experimentações nem provas da sua visão: apenas que ela se exponha através de frases que me façam compreender o seu ângulo.

Há, por isso, filósofos que prefiro a outros. Os que se confundem com cientistas, e julgam que a sua actividade deve ser entendido como uma forma de ciência, parecem-me os menos interessantes de todos. E os mais equivocados. Mas em Platão, Kant, Schopenhauer, Kierkegaard ou Nietzche, o que encontramos - tenha ou não que ver com "a" verdade - é poesia e drama: cada texto de cada um deles é sempre libertador, porque, apresentando-nos uma certa tese, numa formulação que não pode deixar de nos tocar, faz-nos seguir, por dentro (e por dentro de nós) a construção da mesma, o seu erguer. Não podemos simplesmente contemplá-la e aceitá-la: temos de a compreender, isto é, de alguma forma, seguir-lhe os passos através do nosso próprio pensar.

E tudo isto me surge a propósito de uma tradução recentíssima de Kierkegaard, que venho de comprar. Não tinha praticamente dinheiro mas, mesmo assim, não resisti. (Acontece-me, com os livros, mais frequentemente do que a minha família consegue perdoar-me...). É Temor e Tremor.

Aconselharia os leitores menos familiarizados com a terminologia técnica da filosofia a prescindir da «introdução». Mergulhem imediatamente no texto: este não carece de enquadramento (a não ser, claro, o de algumas notas), não precisa de uma explicação prévia. Fala por si, e à inteligência de cada um e à de todos nós.

A forma como Kierkegaard se sente fascinado por Abraão e pelo sacrifício que este se propõe fazer, a Deus, do seu próprio filho, Isaac, oferece-nos algumas das páginas mais maravilhosas acerca do que só pode ser visto como um enigma. E um paradoxo. Se me permitem, ao contrário da visão mais estreita de Saramago, que olha a Bíblia de fora, isto é, sem nada querer realmente compreender, reduzindo tudo a uma colecção opaca de actos maus e vergonhosos, o que Kierkegard intui é o drama de um pai que não poderia senão sacrificar o que lhe é mais valioso: o seu filho; mas o contrário não seria igualmente compreensível? Que o amor pelo filho fosse a recusa do sacrifício deste? E pode amar-se um Deus que exige um tal acto? Que múltiplos e intrincados fios os de que se tece a fé, o amor, a paternidade. E que sentidos diferentes as nossas escolhas engendram.

Mais do que uma dívida ao eternamente certo ou errado, Kierkegaard mostra-nos que os nossos actos são escolhidos em face daquilo que valorizamos, e esta liberdade irrecusável, incontornável, tem que ver (para não nos afastarmos dos lugares-comuns que acabamos sempre por dizer acerca do filósofo) com este núcleo terrível, que é a angústia.

E ao ler, não me interessa saber se Kierkegaard tem razão, tal como não pergunto se o poeta a tem. Sigo as linhas e percebo que penetrei num mundo de pensamentos, que se vão estruturando como obras de arte. Que me chamam na medida em que as compreendo, ou vou compreendendo, como se me fosse dado o privilégio de pensar conjuntamente com o autor.
Talvez esteja enganado. Mas nunca pedi mais do que isto à filosofia.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

JORGE LUIS BORGES: O LIVRO DE AREIA

Talvez não seja rigorosamente verdade que esse fosse o primeiro texto que li de Borges. Mas admitamos que sim. O ponto é que, por mais que tente regressar na minha memória, não me lembro de haver outro. Portanto, para todos os efeitos - e para efeitos do mito que, para mim, para a minha consciência e para a história pessoal, me agrada estabelecer -, as circunstâncias desta descoberta e a descoberta propriamente dita foram tão fortes, que nunca poderia ser inteiramente falso afirmar que «esse foi o primeiro texto que li de Borges»...

Vão já compreender. Estava em Paris. Começa bem, não começa? Tinha certamente mais de dezoito anos, talvez quase vinte. Suponho que se trata de uma viagem que fiz com o meu irmão, a expensas suas. Mas, uma vez desaguados na Cidade-Luz, separámo-nos, ele envolvido no trabalho a que fora chamado, eu - livre como um passarinho, sedento, curioso, sorvendo ruidosamente todos os pormenores. Mais: o meu irmão dormia em casa de uns amigos, eu ficava completamente só num quarto de Pensão. Estava maravilhado.

Fui um flâneur. Não tinha horas, nem responsabilidades, nem compromissos. Almoçava onde queria, insistia em regressar ao Quartier Latin, entrava e saía de lojas, descobria a escada rolante - então uma relativa novidade -, perdia-me entre "bouquins" em saldo.

Foi na Gibert Jeune, essa deliciosa livraria de vários andares, de onde se sai levando sacos amarelos, de plástico, com um rosto estampado, suponho que o de Gibert Jeune. E, numa banca, lá estava Jorge Luis Borges - ou seja, não o próprio, mas um livro de contos chamado O Livro de Areia.

O título é fabuloso. Mas, nesse livro, enterrou-se em mim um conto em particular, que não sei - e não vou agora pesquisar - se seria o do mesmo título. Sei que se vai desenvolvendo a propósito de um bardo a quem o rei encomendara um poema onde se cantasse a grandeza do rei e do seu reino. E de três sucessivas tentativas do bardo: as duas primeiras recusadas pelo monarca, a última, a síntese absoluta, expressa numa palavra única. Uma palavra indizível, de novo esquecida a seguir, ou evitada, mas onde os ouvidos que a ouvem conseguem encontrar a vida e a morte, o tempo e a intemporalidade, os grãos de areia e os sons da música, e de todas as músicas, os homens, as mulheres e as crianças, os que faleceram e os que estão vivos ou os que virão a nascer, os olhares, os amores, o mar, o céu, os latidos, os uivos, a tristeza, a alegria, a saudade, os animais, as escritas que se inventaram e não subsistiram, as letras que compõem todos os textos já escritos ou por escrever e, portanto, num ponto do futuro antevisto, também as letras com que redijo este post, e o post, e o computador em que o escrevo, e os dedos com que o escrevo, a partir de um corpo e de uma consciência que são o que me forma a mim mesmo escrevendo-o, bem como os olhos dos leitores que o virão a ler - e repare-se no maravilhoso desfasamento que há entre o tempo em que bato nas teclas, sem quaisquer leitores, e o tempo em que tu, leitor, estarás lendo o que escrevi: estás aí agora, leitor? É o teu presente!? Estás lendo estas linhas que, no momento em que as lês, eu já não estou escrevendo, sendo que talvez já me tenha ido embora, e podendo até ser que neste momento em que me lês eu já não seja eu, já nem sequer exista?

Podem imaginar a sensação de pertubador fascínio com que, à noite, a sós no meu quarto de uma Pensão, com a janela entreaberta para uma rua movimentada, talvez com a televisão ruidosamente ligada em fundo (mas não garanto...), devorei esse conto - e, depois, todos os outros? A vertigem de infinito e totalidade que me fez quase desmaiar? A intuição da loucura próxima, se me quisesse deixar enlouquecer por aí fora?

Não devo errar por muito. A exactidão dos factos é um mero pormenor. Se esse não foi o meu primeiro Borges, será, daqui para diante, o meu primeiro Borges.

terça-feira, 11 de maio de 2010

FREDERICO LOURENÇO: A TRILOGIA DE NUNO GALVÃO


Frederico Lourenço, que escreve o trecho que citei em post anterior, é um dos mais completos e rigorosos tradutores da Ilíada e da Odisseia. Para além disso, os seus ensaios sobre a cultura, o teatro, a poesia e os autores helénicos são dos textos mais límpidos, e límpidos é, de facto, a palavra que imediatamente me ocorre a seu respeito, que tenho lido no que toca a literatura de investigação.

As mesmas clareza e elegância de estilo se mantêm quando se trata da sua obra ficcional.
Frederico Lourenço é o autor de uma trilogia - Pode Um Desejo Imenso, O Curso das Estrelas e À Beira do Mundo: todos publicados nos Livros Cotovia, o primeiro, Prémio Pen Club 2002 - cujo protagonista é Nuno Galvão, um professor universitário, de cerca de quarenta anos, homossexual, bem parecido, vagamente ambicioso, porventura seu alter-ego.

Mas, sobre a atmosfera profundamente hierarquizada e secretamente conflituosa do meio académico, escalpelizada de um modo quase cruel, principalmente para quem conheça o meio e não tenha dificuldade em reconhecer-lhe os mecanismos, as angústias, as brigas, a falta de escrúpulos, talvez até algumas das personagens, o humor de Frederico Lourenço corta como uma lâmina afiada.

Os equívocos que se complicam em torno de Nuno Galvão, até como objecto do desejo de mulheres incapazes de lhe detectar a homossexualidade, mais do que um elemento cómico nos romances, revelam as modalidades de um subtil mas permanente desnivelamento na existência - familiar, profissional, erótica, amorosa - de um homem em luta consigo mesmo. E é interessante este pormenor: o facto de não haver - praticamente - uma literatura gay em Portugal leva a que, ao contrário do que ocorre nos EUA, em que uma tradição está já configurada nos seus problemas, nos seus dilemas, nos seus clichés, entre nós tudo seja muito novo, de uma singular frescura, e tudo seja pessoal, e tudo seja arrojado: portanto, essa "luta consigo mesmo" é trabalhada, por Frederico Lourenço, de uma forma lúcida, sofrida, melancólica, inovadora: como a fenomenologia de uma auto-consciência homossexual, em que a dialéctica entre o que se quer tornar visível e o que se quer esconder, ou a complicada fronteira entre o "assumir" e o "ocultar" não poderiam deixar de ser um elemento integrante, essencial, qualquer que seja a escolha que finalmente se faça.

Ao contrário dos escritores gay norte-americanos, para quem a literatura se torna um instrumento ideológico, impregnado de contemporaneidade, em Frederico Lourenço reconheço um delicioso anacronismo. A visão, transposta para o presente, de um Antigo Grego. Erótica e esteticamente. O que é de uma inesperada beleza.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A PROPÓSITO DA ILÍADA, DE HOMERO: FREDERICO LOURENÇO


«O escudo segurado por Aquiles é uma maravilha da metalurgia e da poética. Na descrição pormenorizada que dele faz o poeta no Canto XVIII, apercebemo-nos de que é todo um universo de experiência humana que está gravado no escudo. Vemos a terra, o céu e o mar; o sol, a lua e todos os astros do firmamento. Duas cidades se destacam pelas situações contrastantes em que se encontram. Numa, celebra-se uma boda com música e dança. A outra está em guerra, cercada: até as mulheres, as crianças e os velhos têm de defender as suas muralhas. Os homens saem para uma emboscada e chegam a um local idílico, aonde vão ter dois pastores com os seus rebanhos, tocando flauta. Apesar de indefesos, os pastores são mortos pelos soldados. Na expressão "deleitando-se ao som da flauta", que o poeta aplica aos pastores, e na descrição dos soldados escondidos "revestidos de bronze" encerra-se todo um mundo de contraste, toda a desumanidade da guerra, toda a precariedade da paz.»

Frederico Lourenço, «Ilíada: O Primeiro Livro», Grécia Revisitada, Livros Cotovia, Lisboa 2004

Duas notas tão-só:

Em primeiro lugar, para agradecer a uma das jovens brilhantes a que já anteriormente me referi, 0 ter-me lembrado a pura maravilha que é, na Ilíada, a descrição do escudo de Aquiles.

Em segundo lugar, para manifestar o meu assombro perante a enganadora simplicidade da escrita de Frederico Lourenço. Esta limpidez é, ao mesmo tempo, de uma tal intensidade, que nos apetece procurar, de imediato, o texto de Homero. Não é?

sábado, 8 de maio de 2010

DOSTOIEVSKI: CRIME E CASTIGO


Gostaria de poder dizer que me surgiu esta pergunta na adolescência, implicando isso que eu teria lido, muito novo, Dostoievski (o que, por coincidência, é verdade), mas, sobretudo, que era então já capaz de intuições precoces. Sucede que a tive adulto. E, nesse caso, está longe de ser precoce. Todavia, assumo a infantilidade do meu espanto...

Quando me compenetrava de que, bem vistas as coisas, Dostoievski é um autor do século XIX, ou seja, a bem dizer, de ontem, sentia, com um arrepio de estranheza, que a literatura, até ao século XIX, ainda não começara verdadeiramente. Apesar de Homero, apesar de Virgílio, apesar de Dante ou Shakespeare. Pode parecer estúpido. Mas tenho o mesmo tipo de arrepio quando penso em como Proust é recente. Caramba. Vieram tão tarde, de certa forma, alguns daqueles que deram à História da Literatura uma dimensão maior, um sentido absoluto, um fundamento iluminador. A sua verdade! (Sim, eu sei: não existirá "a" verdade da literatura, mas qualquer coisa como uma totalidade de sentido, com um contorno que se não completaria sem Proust,Dostoievski - e só não falo de contemporâneos, porque o tempo decidirá...)

Outra revelação: não possuo, entre os meus livros, Crime e Castigo. Não me perguntem porquê, sou peculiar.

No entanto, li três vezes este romance. Lembro-me tão bem da primeira delas. A da descoberta. A de me estar embrenhando num continente selvagem, onde nada me era familiar e tudo me exigia novos instrumentos.
Como diria E. Prado Coelho (naquelas suas frases que, aliás, tanto me irritavam), por uma vez li as primeiras páginas desse livro e compreendi que entrara num outro mundo, que me marcaria definitivamente e do qual nunca mais conseguiria sair. Ou não sairia sem feridas e sem me ter tornado outro.

O que me fascinou foi, desde as linhas iniciais, o movimento de ambiguidades e subentendidos com que o autor joga. Sob a superfície clara, virtuosa, não especialmente equívoca, oculta-se uma série de sentidos inconscientes, de segundos sentidos e, nessa medida, a análise que se vai fazendo, ao longo da obra, de tudo o que é dito, ou escrito, é de uma agudeza nunca vista; a desmontagem, por outras, daquilo que certas personagens "querem" dizer ou "querem" escrever sob o que efectivamente dizem ou escrevem, prefigura brilhantemente o trabalho e as descobertas da psicanálise.

Em Dostoievski, de facto, encontra-se tudo, porventura com uma profundidade de que os seus discípulos e os seus epígonos nunca conseguiram aproximar-se. As grandes questões da filosofia, da religião e da ética; Deus, a liberdade, a culpa, a angústia, a paixão que nos corrói e não sabemos se é verdadeiramente amor, no sentido romântico da palavra, ou doença e, sobretudo, repito, a duplicidade, a ambiguidade das nossas intenções ocultas, do que nos move sem que nós próprios disso nos apercebamos, ou do que, determinando-nos, escapa à nossa consciência.

As personagens de Crime e Castigo, nas suas camadas, são de uma tremenda densidade. O modo como, nelas, o bem é uma face do mal e vive-versa. Nas suas dúvidas e naquela espécie de tribunal da inquisição que transportam interiormente, que as interpela e as castiga - a consciência, o confronto de si consigo. Raskolnikov é absolutamente magnífico e humano nas suas crises, no seu niilismo, na sua reflexão sobre os seus actos, na sua intuição de que todos os seus actos são unicamente seus.

O que me faz pensar é, talvez, a ideia de que alguns dos pensadores que mais admiro, algumas das ideias e filosofias mais interessantes, algumas das obras mais ricas da humanidade, nunca poderiam ter nascido se Dostoievski não tivesse existido. (Heidegger, Sartre, Camus ou Hitchcock, por exemplo, não teriam sido o que foram): Raios! Este rumo, esta beleza, esta força que nos parecem adquiridas e, de algum modo, eternamente estabelecidas na Arte e na Filosofia, afinal nasceram tão tarde. E estão tão próximos...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

V. S. NAIPAUL: UMA CASA PARA MR. BISWAS



Já sabíamos que todos os livros - ou autores - têm um tempo certo para que com eles nos cruzemos. Ando há muitos anos em busca do momento ideal para me atirar a Ulysses, por exemplo. O do James Joyce. Todas as minhas tentativas foram inúteis, mas acredito que um dia ele consiga ensinar-me a lê-lo, levando-me pelas suas páginas adentro.

Quem diria, contudo, que há também um "tempo certo" para falarmos acerca deste ou daquele livro que lemos?
Em alguns casos, deverá ser imediatamente após a leitura, enquanto ainda nos sentimos contagiados, numa urgência desatinada, uma espécie de excitação febril, uma incapacidade de espera.
Em outros, pelo contrário, carecemos de uma digestão prolongada, como a jibóia, deixando que a transformação interior se vá fazendo, as raízes se fortaleçam, a reflexão se apure.

Comigo, sucedeu algo estranho a propósito do tempo necessário para me referir a V.S. Naipaul.
Desde a inauguração deste blogue que o pressinto no horizonte, como uma promessa feita a mim próprio. Mas a verdade é que adiei sempre o post que gostaria de dedicar ao primeiro livro que li da sua autoria (e, de todos os que fui descobrindo, aquele que me falou mais alto): Uma Casa para Mr. Biswas.

Os escritores indianos de expressão anglo-saxónica (embora Naipaul seja um indiano nascido na Trinidad) estão, se isso pode constituir um critério, entre os meus predilectos. Encontro, na forma como escrevem - nos temas, nas descrições, na linguagem, no humor -, uma duplicidade a que não sou indiferente e que atribuo ao confronto entre as culturas que os influenciaram, que os fizeram. A respiração de uma religiosidade profunda, um paganismo exuberante e riquíssimo, por um lado, e a disciplina e o rigor britânicos, por outro lado, ou aquele leve distanciamento irónico que passa tão depressa por arrogância, chocam-se num casamento improvável, quase paradoxal, mas com excelentes frutos.

E, deste ponto de vista, Uma Casa para Mr. Biswas é um romance imperdível. Adiei o meu possível texto, talvez porque o livro em causa se encontrava já longe, porque marcou, sem dúvida, uma etapa no meu crescimento como leitor, mas nunca mais o reli: porque o fascínio se transformara mais na memória de um fascínio do que outra coisa; em suma, porque ainda não chegara o tempo certo para o partilhar. (Ou porque esse tempo já tinha passado...).

Mas à volta de uma casa, e da importância que a ideia da casa onde viver e morrer adquire para a sua personagem, Naipaul constrói uma história que desce ao nascimento e à infância daquela, na sua luta solitária e permanente contra tudo e todos: o destino, a família, os vizinhos, o professor, os colegas...

E perante o leitor move-se o absurdo de um mundo e de uma vida em que todos são um pouco ridículos. Em todos os casos, o ridículo nasce de uma desadequação entre a grandiosidade do discurso (de alguém que assume o papel de pai, ou o de um professor, ou o de um santo hindu...) e o impulso egoísta e mesquinho que, efectivamente, mobiliza aquelas pessoas, e o papel e o discurso de cada uma não faz senão mascarar.

É um livro sem concessões e politicamente incorrecto. Um olhar desapiedado se projecta sobre os homens. O povo é sempre, entre a miséria e o sacrifício, pouco digno, pouco respeitável. Espantou-me que o Nobel, habitualmente tão preocupado com a "adequação" dos premiados, tivesse, num certo ano, perdido a cabeça. Não encontramos, em Naipaul, nenhuma "correcção", nenhuma cartilha de virtudes subjacente ao modo como toca nas personagens: nenhuma se limita a ser um boneco para veicular teses; nada de proselitismo. Apenas o mergulho nas contradições humanas, na insuficiência moral, na mesquinhez religiosa ou política. Não há bons, não há maus. Unicamente a massa de que somos feitos, tratada com algum cinismo e um humor eficaz, numa escrita que, não deixando, aparentemente, pedra sobre pedra, deixa precisamente o brilho de uma casa: ou seja, da força de um sonho (o de ter uma casa) contra o destino.

domingo, 25 de abril de 2010

JUAN JOSÉ MILLÁS: O MUNDO o mundo é a rua da tua infância



Considero-me, vaidosamente, um leitor talentoso.
Na verdade, o mérito não me cabe, sequer, por inteiro. O segredo consiste em proceder ao contrário do que sugere o aforismo mortífero de um crítico [pensei que fosse de Oscar Wilde, mas descobri, há algum tempo, que não]: «Nunca leio um livro», afirmou, «sobre o qual tenha de escrever: influenciam-nos tanto...»; ou seja: o meu segredo está na capacidade de me deixar influenciar.

Não só pelo livro em concreto, mas por tudo e por todos quantos me possam ter posto na sua peugada. Sim, presto atenção aos blogues acerca de literatura, às críticas dos jornais, adquiro revistas literárias - mas nem precisava: mais perto de cada um de nós (e, seguramente, por menos dinheiro), há um avô ou um primo, um colega, um amigo, um leitor compulsivo que descobriu ou redescobriu alguma coisa, e não quer senão partilhá-la. Aproveito sempre. Oiço, bebo-lhe o interesse, aspiro-lhe o entusiasmo como quem fuma uma droga particularmente forte e, geralmente, parto em busca da obra. Não me tenho arrependido; não me tenho dado mal.

Uma amiga tem sido responsável por diversas surpresas agradáveis, nos meus mais recentes tempos de leitor. Passando-as em revista, observo que todos os seus conselhos literários me enviavam para romances de autores espanhóis. Poderá ser uma coincidência, ou será que a literatura espanhola, tão pouco cara aos portugueses, lhe toca particularmente?

O último livro de que me falou chama-se O Mundo (o mundo é a rua da tua infância), escrito por Juan José Millás, Prémio Planeta 2007, Prémio Nacional de Narrativa de 2008.

Imagino que os leitores deste blogue possam achar alguma graça aos meus comentários. Muitas vezes, agradar-lhes-á o reconhecimento de afinidades, a confirmação de gostos comuns por autores ou escritos que eu e eles amávamos já. Outras vezes, poderá dar-se que eu diga algo interessante sobre este romance, aquela novela, o outro poema. Mais raramente, acredito (mas posso estar enganado) que alguém se dê ao trabalho de ir ler determinada obra por eu ter sido persuasivo. Não que aspire a que este blogue seja, como Soares dizia da sua presidência, uma «Magistratura de influência». Bem. Mas se tiver momentaneamente esse poder, que se verifique neste caso. Absolutamente. Não adiem o encontro com um texto maravilhoso, todo feito de uma memória à procura da infância. E, nos episódios que perpassam ante os nossos olhos não estão somente imagens da criança que o narrador foi: brilha o próprio espírito da infância.

Porque a criança, nos seus desconhecimentos e nas suas pesquisas, e nas transgressões que essas pesquisas dela exigem, é um misto de poeta e de criminoso. De facto, ela é criminosa sobretudo perante a sua própria consciência: o que esconde aos adultos, mesmo os cêntimos que rouba aos pais, ou as diversas pequenas fugas - não são senão os instrumentos para a sua descoberta de um mundo cheio de alçapões, janelas ou bairros misteriosos. E nunca, como nessa fase de descoberta, é possível a reveladora mudança de ângulo, a perspectiva nova e inebriante, resultantes de algo tão simples como uma janela de cave, com uma insuspeitada visão para a rua, de baixo para cima, que tudo muda, que metamorfoseia completamente o olhar.

Para «Juanjo», o narrador, toda a vida se encontra repleta dessas «passagens» para outros mundos. Mas é certo que ele está rodeado das suas drogas: já para não falar do éter, que surripia, há páginas maravilhosas sobre o sono, o vulgaríssimo dormir, que ele "consome" constantemente, em qualquer lado, e lhe transfigura o mundo, dotando-o de uma estranha natureza, entre o onírico e o real; e páginas encantadoras sobre a febre - e os tão apreciados estados febris, a partir dos quais tudo ganha uma espécie de euforia maravilhosa e um pouco alucinada...

O livro é escrito num registo humorístico extremamente feliz: mesmo as situações ou as personagens macabras, à luz do olhar infantil de «Juanjo», vêm tocados de um halo que os regenera. Nada é autenticamente trágico nas ironias e nos paradoxos da vida. Tudo é só, de uma forma comovente, muito engraçado e muito profundo. Não me lembro de muitos outros livros que me tenham feito rir assim, não só para dentro, em gargalhadas intelectuais, mas para fora, em pequenas sacudidelas de ar e de voz.

É interessante apercebermo-nos de como, em adulto, o narrador mantém, como Proust, a propósito de uma mera sensação actual, o dom de um total regresso à infância: um intenso e pleno reviver do tempo perdido; e de como essa ponte permanece intacta, em grande parte porque o olhar infantil está ainda conservado no olhar deste adulto. De algum modo, a escrita, por um lado, mas também as suas neuroses, por exemplo a compulsiva necessidade de não negligenciar um plano de fuga em qualquer ocasião, são os elementos indestruídos, indestrutíveis, da criança que nunca saiu da rua da sua infância.

«Teria gostado de sonhar este capítulo», escreve Juan Millás, «escrevê-lo sob hipnose. Levei-o comigo para a cama durante dias e dias, dentro da cabeça, para ver se conseguia que atravessássemos juntos a fronteira da vigília.»

Eu sonhei este livro: li-o sob hipnose. Sob um encantamento que ainda se não esvaiu. E, parafraseando Millás: tive febre enquanto li o livro; e o livro tinha febre enquanto o li...

domingo, 18 de abril de 2010

SÁNDOR MÁRAI: A HERANÇA DE ESZTER


É com um estranho sentimento e sentido de veneração que me debruço sobre quase toda a arte que provém do Império Austro-Húngaro: e, no entanto, nada pareceria promissor neste império artificial, gigantesco, reunindo caoticamente diversas etnias, costumes, línguas, interesses, com a argamassa de uma poderosa família (os Habsburgos) e um imenso aparelho burocrático, como Musil refere (e descreve) em O Homem sem Qualidades quando, com algum humor, retrata o funcionamento da "Cacânia".

Porém, contra todas as expectativas, tanto na literatura, como na pintura ou na música, por exemplo, o Império Austro-Húngaro foi um harmonioso viveiro de génio e talento. Do meu ponto de vista, mesmo as contradições daquela cultura com algo de manta de retalhos, e os choques que levariam à I Grande Guerra - são ingredientes que trabalham, no espírito dos artistas austro-húngaros, com um veio de desencanto e cepticismo, uma tristeza que levou muitos ao suicídio, um quase desespero que é notório na obra de quase todos. Veja-se a ficção de Zweig, veja-se o próprio Musil, veja-se Brosch. Veja-se Sándar Márai.

Acabo de ler, deste último autor, A Herança de Eszter.
Na nota de contracapa é identificada uma personagem, Lajos, como «um canalha encantador e sem escrúpulos, dotado de um poder de sedução irresistível». Há, nesta personagem, uma falta de carácter, uma facilidade em seguir a mentira, em nela se comprazer e por ela viver, que lembra José Fouché (e vem-me à memória "Fouché" precisamente por causa da excelente biografia que lhe dedica Stephan Zweig, outro austro-húngaro famoso); neste caso, contudo, a capacidade de burlar, fazendo-se irresistível, como se hipnotizasse as pessoas, é elevado por Lajos quase a uma prática estética, ou mesmo artística e, perversamente, talvez a lei moral.

Odiamos a personagem, o seu modo de usar as pessoas que o querem, que o amam, de não ver a vida senão como risco, perigo e terreno fértil, sem compromissos nem constrangimentos, tudo lhe sendo permitido. Mais: trata-se (e neste aspecto Marái parece-me particularmente interessante e profundo) de um homem que, pela sua maneira de ser, tudo transforma em falsidade, mesmo quando o que diz corresponde aos factos, mesmo quando as suas palavras são "verdadeiras". E, portanto, atingimos um outro tipo de inverdade, que é ontológica, e nem sequer depende já propriamente da correspondência entre o discurso e a realidade. Ao mesmo tempo que o odiamos, porém, não podemos deixar de reconhecer que uma admiração secreta nos aproxima dele, como se a sua hediondez nos hipnotizasse, como se o seu poder magnetizasse o leitor da mesma maneira que a todos os que o envolvem e não lhe resistem.

Alguns romances - e, por exemplo, os de Hermann Brosch ou de Musil, para nos mantermos no interior do campo literário e cultural austro-húngaro, ainda que Marái seja de um azulejo específico, diferente, no interior deste mosaico - vivem da linguagem, ou da descrição, ou da filosofia que os impregna, mais do que da "história": aqui, é quase unicamente da história que se trata; tudo vai sendo sacrificado a uma progressão eficaz, muito rápida, levantando dúvidas, mantendo um suspense em relação à trágica conclusão. Esperarmo-la ou não, prevermo-la ou não, depende, curiosamente, de até que ponto nos parece que Lajos poderá chegar. Um homem que enganou, traiu e roubou, e regressa muitos anos depois, vem para reparar o mal? Ou vem para o terminar?

Trata-se de um romance curto - talvez lhe chamasse uma novela. De uma intensidade que nunca abranda. Se às vezes, nas afirmações, nas ideias, aqui, ali, algo nos soa como déjà-vu, déjà-lu, é, sem dúvida, porque estamos no âmago de uma série de circulações e de influências que constituíram uma parte do que o Ocidente verdadeiramente é. Todos os ecos são significativos, todos os reconhecimentos são produtivos. Trata-se de um grande romance.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

MACHADO DE ASSIS: DOM CASMURRO

Florinha Afável, leitora brasileira de que sou, por minha vez, leitor constante, lançou-me um desafio a que seria indelicado não replicar. E, realmente, injusto: «Para quando, José Pacheco», assim me perguntava, «o seu comentário a um autor brasileiro?»

O Brasil possui, e não o digo para agradar mas para deixar que me situem claramente desde o princípio deste texto, em áreas cruciais da cultura, algumas das melhores expressões no mundo inteiro. Curiosamente, por uma infeliz conjugação de factores, os portugueses, que falam a mesma língua e podiam ter o privilégio de conhecer bem esses casos e essas expressões da arte e da cultura, conhecem-nos geralmente mal; sabem que o Brasil tem alguma da melhor e mais bonita música que se faz no mundo inteiro, é certo, mas lamuriam-se da "injustiça" daquilo a que chamam uma «troca desigual», um intercâmbio desequilibrado; não sabem, porém, que tem uma das melhores imprensas escritas; ou um dos cinemas mais vanguardistas; ou um teatro riquíssimo. E nem sequer muitos de entre os portugueses mais cultos têm noção de que a filosofia é muitíssimo bem tratada no Brasil, e de que algo como «filosofia brasileira» é uma expressão que remete para uma actividade vasta, contínua e muito interessante; em suma, os portugueses tendem a reduzir a cultura brasileira à telenovela, que apreciam bastante. E ao Carnaval, que vão copiando em pequenino. Acerca da literatura que o Brasil tem produzido ao longo da História, por exemplo, tudo são, por cá, ignorância e sombras.

Era aqui que eu queria chegar. Eu próprio, tão lesto a criticar, conheço pouco e mal, e disso já por aqui me auto-critiquei, os "novíssimos" da Literatura Brasileira. Procurarei corrigir. (Talvez nesse ponto, aliás, as sugestões dos leitores brasileiros deste blogue possam fazer luz sobre caminhos a pesquisar...).

Entretanto, dos mais antigos, escolho sem hesitar um autor cuja obra considero moderníssima. Falo de Machado de Assis.
E de entre tantos livros notáveis, nomeadamente Memórias Póstumas de Brás Cubas, que é uma obra maior, opto pelo maravilhoso Dom Casmurro. Acho difícil compreender como um romance possa ser, simultaneamente, tão inovador (ainda hoje) e tão atraente. O inovador não é quase sempre aquilo que temos de lutar para perceber, o desconfortável, na medida em que põe em causa os nossos hábitos, as formas adquiridas de ler? Pois bem: Dom Casmurro prende-nos do princípio ao fim: frases curtas, capítulos muito curtos e uma história encantadora, repassada de filosofia, melancolia e ironia.

O que me parece verdadeiramente extraordinário é, porém, o efeito conseguido por Machado de Assis ao pôr-nos perante um narrador que é o próprio protagonista: é, portanto, Bentinho que nos conta as circunstâncias do seu nascimento que, já inesperado, seria tido por um milagre; a sua paixão e luta para conquistar Capitu; e, chamemos-lhe assim, a grande dúvida que surge como por acaso, mas alastra e cedo se tornará o centro de gravidade do romance.

Claramente, não conhecemos a verdade - e, a todo o momento nos compenetramos de que estamos sempre em face da visão de Bentinho, da sua interpretação dos factos, errónea ou não, plausível mas nunca definitiva, porventura cega pelo ciúme ou pela insegurança.

Ora é essa maneira de construir uma história na primeira pessoa, assumindo a dúvida e, ao mesmo tempo, a impotência para alguma vez resolver definitivamente essa dúvida, que toca aquelas páginas de um cepticismo e de uma oscilação entre possibilidades opostas - à luz dos quais podemos entender perfeitamente a dramática ambiguidade de sentimentos de Bentinho em relação a Escobar, seu amigo, ou Bentinho em relação a Ezequiel, seu filho.

Algum crítico afirmou que, nessa medida, se torna possível reler o livro segundo diferentes interpretações e, de cada vez, chegando a uma conclusão diversa. Tanto eu não diria. Em nenhuma das leituras que fiz me consolei com uma única conclusão. Em qualquer das vezes, as conclusões estavam todas presentes numa inconclusão que me deixou estupefacto. Todavia, isso sim, em cada uma das leituras, Dom Casmurro me apareceu como um livro que tudo me parecia perguntar - e não saber responder -, mas sempre com a mesma força, a mesma alegria levemente angustiada, o mesmo poder.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

FERNANDO PESSOA & COMPANHIA ILIMITADA



Fernando Pessoa era de uma curiosidade e de uma inspiração febris: escreveu poesia, mas não houve um único género literário a que se não entregasse (até anedotas, muito engraçadas, aliás como não poderia deixar de ser, Pessoa escreveu...); conhecia profundamente os clássicos; estudou a fundo a astrologia, fazendo reparos ao Grande Mago, Aleister Crowley, que veio de propósito a Portugal para descobrir quem diabo era o portuguesinho que assim o emendava; à numerologia; à grafologia; à frenologia: fez esboços do seu nariz, dividindo-o em segmentos, movido em parte pelos complexos que parece que tinha por causa do tamanho deste, e em parte pelas conclusões científicas a que pretendia chegar acerca do significado das medidas e forma nasais; quando a psicanálise entrou em cena, seguiu-a conscienciosamente, muito atento à fórmula freudiana; fartou-se de inventar; por exemplo: o carreto da máquina de escrever enervava-o, de modo que se pôs a desenhar imediata e meticulosamente uma série de projectos para conceber um novo tipo de carreto; propôs um anuário, precursor das "páginas amarelas", com um modo de "codificação" avançadíssimo para a época; foi um editor que estampava dinheiro nas coisas de que gostava e eram boas, indiferente ao sucesso comercial; estudou medicina, por interesse e para dar à figura de Ricardo Reis, médico, a devida credibilidade; e as últimas pesquisas já apontam, para além dos muitos que julgávamos conhecer, setenta e dois heterónimos. Outra investigadora procura provar pelo menos oitenta.

Visito a Casa Fernando Pessoa. Regresso encantado, com muito da minha imagem feita sobre o poeta (imagem fabricada, em grande parte, pelo Gaspar Simões...) completamente estragada: em vez do homem tímido, recatado, fechado em casa, o pândego, que, irritado pelos olhares viperinos das vizinhas, se fazia passar por bêbedo, atirando-se para cima dos carros, abraçando-se ao candeeiro, numa cena à Pátio das Cantigas, e subindo os degraus de gatas, depois de ter ido à esquina simplesmente comprar um jornal. Descubro não só o escritor prodigioso, o genial poeta, ensaísta, novelista, dramaturgo, inventor, mas o conviva apetecível, o grande brincalhão, o tertuliano indefectível, o excelente amigo. O caso único em Portugal. Em vários aspectos, por muito tempo, o notável único Caso português.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

PAUL AUSTER E AS ALUNAS DE QUEM FUI ALUNO

Tenho encontrado, nos últimos meses, alunas de, quê, há seis, sete anos? (Seria já há dez?!) Eu mais grisalho, elas não: na mesma, na mesma, exactamente na mesma! Eram já brilhantes, sempre ansiosas pelo jogo de refutar os meus argumentos, e estão agora concluindo doutoramentos - preparando-se para ser arguidas por uns senhores de batina, que levantarão objecções mas, pobres deles!, não conseguirão melindrá-las minimanente.

Essa turma inigualável, de que me recordo muitas vezes, aventurava-se pela filosofia com uma intuição segura e uma curiosidade arrojada. Discutíamos acaloradamente durante a aula e, frequentemente, ficavam uma, duas, um grupo, a conversar comigo pelo intervalo fora.

Foi esta turma que me apresentou Paul Auster. Mais precisamente, foi uma dessas alunas brilhantes, que revi por estes dias. Eles eram todos leitores sedentos, apaixonados por descobertas; trocavam livros, partilhavam o que cada um deles achava.

Agora que, entretanto, me afastei de Paul Auster e raramente me sinto tentado a relê-lo, não posso esquecer o sentido da descoberta deste autor. Fiquei absolutamente fascinado com O Palácio da Lua, embora tivesse achado, já na altura, que havia demasiadas coincidências, nem sempre irónicas, para solucionar, como deuses ex-machina, os problemas que se punham ao desenvolvimento da narrativa. Mas A Música do Acaso, em contrapartida, era tecnicamente perfeito, seguindo uma ideia rica de possibilidades: quando tudo empurra o protagonista para um certo caminho, ele escolhe o oposto. E assim sucessivamente. Era, como se pode supor, um manancial de surpresas atrás de surpresas.

Com o lamechas Timbuktu - desculpem-me a franqueza -, Auster irritou-me; o meu interesse por ele reavivou-se através de uma série de contos e pequenos textos, entre os quais pequenas peças de teatro, repescados ao seu trabalho de juventude e reunidos num volume. O nome? Não me lembro, mas havia por ali, entre outras pérolas, um quasi-policial fabuloso, bem urdido e empolgante. O "quase" não é depreciativo, mas uma qualidade de um romance que até no género que adopta consegue iludir o leitor.

Qualquer das maneiras, é claro, o encontro de Auster é um exemplo do que tenho aprendido com os próprios alunos; «Aprendo muito com os meus alunos» tornou-se, bem sei, uma frase feita, um cliché politicamente correcto. Mas é verdade que as surpresas de um professor são sem fim; bem vistas as coisas, portanto, este post não é tanto sobre Paul Auster: é sobre aquela turma saudosa. Meninas, vamo-nos vendo.

domingo, 11 de abril de 2010

O INFERNO


De um outro blogue meu, recupero, para aqui, este texto que redescubro agora, antiquíssimo, porém, escrito por um eu mais jovem mas já de acordo com aquele que eu viria a ser...


Da brutal Divina Comédia de Dante Alighieri, a última parte, «O Paraíso», parece-me um final insípido para a obra. Mas sejamos justos: insípido precisamente porque quem leu as partes anteriores e se deixou arrebatar por elas não se pode conformar nem satisfazer com uma conclusão que não está à medida da tensão e do prazer (literário, poético, estético) que tinham vindo a crescer em si. Mesmo a parte do meio, «O Purgatório», parece-me insuficiente ou, pelo menos, esquecível. Pelas mesmas razões: falta-lhe a tensão trágica do início, aquela dor que nos toca e comove, a crueldade que tudo impregna e nos dilacera de um modo sublime.
Que início é esse? «O Inferno».

Se as partes finais da Comédia nos parecem desequilibradas e frágeis, se nos cansam, é porque o «O Inferno» já nos deu tudo. Deu-no-lo de uma forma terrível, triste, como se pudéssemos ouvir o choro e o ranger de dentes. Deu-no-lo de uma forma por vezes insuportável, roçando o mau-gosto e a morbidez. Mas deu-no-lo. Poética e dramaticamente, psicológica e filosoficamente, «O Inferno» é uma obra sublime. Só por um equívoco se pode ter pensado que ela deveria - ou poderia - ser continuada. Na verdade, «deveria»: Dante, crente, não tinha alternativa senão mostrar que o inferno não é tudo; que, pelo contrário, para quem escolhe bem, para quem escolhe O Bem, é o céu que se apresenta como a feliz totalidade. Deveria, portanto, tê-lo feito. Mas não «poderia». Porque não lhe era possível superar a magnífica dimensão do seu «Inferno».

Dante é o poeta que nos narra como, conduzido por Virgílio, ali seu guia, morto e jazendo no inferno, visita e conhece os diversos círculos infernais, onde se vão cruzando com as almas condenadas de contemporâneos de Dante, homens e mulheres que, manchados por imperdoáveis pecados, teriam sido lançados no lugar de maldição. É ignóbil, podemos pensar. Com que direito julga Dante os seus contemporâneos, ou os homens do seu passado recente e do passado antigo? Com que legitimidade a sua «visão», o seu poema, lhes condenam as almas?
Dante: «Essa hiena», lhe chama Nietzsche, «essa hiena que uiva por entre as sepulturas»...

Mas o que me fascina no olhar de Dante é um subtilíssimo veio de piedade e simpatia por alguns dos seres que ele vê no inferno, e o misto dessa simpatia apiedada e uma rígida aceitação do implacável plano divino que os castiga para sempre.
Dante «compreende» a ira de Deus, o modo como Ele condena à eterna consumação algumas das almas mais nobres e justas da História? Dante «compreende» que Virgílio esteja no inferno, tal como, aliás, o próprio Platão ou Aristóteles? «Compreende-o» com o seu coração? Não pode compreender, porque os admira, porque aprendeu das suas obras, porque Virgílio foi o seu guia, o seu mestre, o seu duce, aquele com cuja poesia, porventura, aprendeu a ser poeta - mas, não compreendendo, aceita intelectualmente, num acto de fé de profundas tristeza e amargura, porque sabe que, sendo eles anteriores historicamente ao cristianismo, não poderiam ser salvos pela Verdade que, coitados, não conheceram. É uma concepção que nos soa como de uma terrível injustiça. A punição não pune só os maus, pune também os que, inocentemente, não conheceram a Luz. Não que a tivessem recusado: somente porque não foram do tempo histórico em que ela se ofereceu aos homens.
Mostra-nos esse sentimento de piedade um outro momento tremendo do poema: quando Dante vê, no círculo dos que cometeram adultério, duas almas enamoradas que, na pena eterna, na infelicidade eterna, têm, pelo menos, a felicidade de haverem permanecido eternamente juntas. Mas não é extraordinária a comoção que invade Dante, quando a história dos dois jovens pecadores lhe é narrada, a beleza que irradia desse seu acto em vida, ao mesmo tempo pecaminoso e amoroso? Não é extraordinária a forma como, por fim, Dante desmaia, como esmagado pela sublimidade daquele sofrimento?

É um inferno sombrio, apaixonado, cruel, de castigos extremos, de torturas terríveis. É um inferno onde o mal se nos apresenta carregado de tensão e dor. Sonhamos com ele. Assombra-nos. Distorce-nos os pesadelos e a imaginação. Nunca esqueceremos determinadas figuras da dor e do arrependimento.
É um poema magnífico onde - Jorge Luis Borges, mais do que ninguém, chamou-me a atenção para isso - as frases podem ser lidas segundo interpretações que se sobrepõem sem se anularem e, às vezes, anulando-se. É um inferno em que tudo tem de ser compreendido a uma luz muitas vezes diferente da luz da aparência: é o mesmo Borges que nos afirma que o pecado pelo qual se castiga Ulisses não é o pecado de que, à primeira vista, ali se fala, o da fraude: é antes um outro pecado, um pecado oculto, que nunca chega a ser dito e o leitor pode nem sequer descobrir.

É um poema com várias leituras possíveis: uma, histórica, uma, puramente estética, uma, filosófica, uma, religiosa. Ou uma múltipla.

Dir-se-á que a menos viável, hoje em dia, é a religiosa. Que nem mesmo uma pessoa crente poderá crer no inferno de Dante. Do meu ponto de vista, é um erro. Para mim, que não sou religioso, que me pavoneio no mais frio e racional ateismo, a leitura religiosa do «Inferno» é inevitável: o impossível inferno torna-se-me presente, indiscutível, e creio nele enquanto os meus olhos seguem os versos impressionantes.

sábado, 10 de abril de 2010

ÁLVARO DE CAMPOS: A TABACARIA


Eu não era propriamente um leitor de poesia.
Recomecemos: como leitor de poesia, ter-me-ei ficado, na adolescência, por uma leve náusea a propósito de Os Lusíadas e uma admiração ilimitada pelo Gonçalves Crespo, vejam lá!, poeta um bocadito menor, autor de um poema que eu relia, no entanto, completamente conquistado, e de que cito de memória estes primeiros versos: «Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas/ Viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas/ Vail, chefe minaz de bárbara pujança/ Matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança./ Corre, célere voa...», e por aí fora.

A minha primeira experiência poética, no sentido em que se falaria de uma experiência mística, deu-se pelos meus dezassete anos. E pelo mero acidente de, numa feira do livro, ter comprado certo livro - porque o dinheiro não chegava para nenhum outro.

E esse livro, que nem sequer era de Fernando Pessoa ou qualquer dos seus heterónimos, mas de um estudioso que já não recordo, citava, quase na íntegra, A Tabacaria, de Álvaro de Campos. Ora bem. Poderia agora pôr-me a romancear, como se estivesse criando o meu próprio mito, mas não vale a pena, porque a realidade se me impõe à memória. Estou a ver-me, tanto como nos vemos a nós mesmos. O cabelo despenteado de que já aqui falei, os óculos graduados que afugentavam todas as miúdas por quem me apaixonava, os pés de lado. Parara num dos caminhos, ladeado pelas barraquinhas das editoras ("stands", como gostam que lhes chamemos), lendo o poema. E não posso jurar senão que, na minha memória, aconteceu isto: o mundo parou.

Escrevi noutro texto que a poesia raramente se me revela na imediatez da sua maravilha. "Raramente". Tenho de a reler, buscando, num nervosismo e numa ansiedade que ainda mais me bloqueiam o acesso. Mas, dessa vez, A Tabacaria tomou conta de mim. Talvez porque há qualquer coisa de uma novela que nos prende desde os versos iniciais, talvez porque somos convidados a entrar em memórias magoadas de infância, talvez porque nos identificamos com o reconhecimento da fraqueza do poeta, aquele seu "humano, demasiado humano" que, na hora da verdade, não encontra congéneres, nem iguais, nem com quem possa partilhar a experiência da inferioridade; talvez por causa da mesquinhez, da simplicidade sem metas que nos é tantas vezes próxima, e ali entra pela mão do «Esteves», que é qualquer uma destas composições de «sol e enchidos, subserviência e fantasia» (Hélia Correia) com que nos cruzamos no dia-a-dia.

E, nesse momento, fui o receptor ideal. Estava vulnerável e só. Lia Kafka, Sartre e Camus. A ausência de metafísica, o reconhecimento do sem sentido da existência cravavam-se-me como uma facada. E a composição (que eu era) de uma cabeleira hirsuta, óculos e solidão exclamou, para si mesmo: «Isto é fantástico!» Segundo a minha memória (ou é já "mito"?), terei mesmo repetido: «Isto é fantástico!»; fui sentar-me num banco, mais adiante, para ler tudo, para guardar e saborear a intensidade daquele estado.

E, desde aí, ando à procura da repetição do êxtase poético.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

JOÃO PAULO BORGES COELHO: O OLHO DE HERTZOG


É um livro de História e de histórias.

A História, para já, passa por Moçambique e, mais propriamente, por Lourenço Marques: e digo "passa" porque a cidade em causa se tornaria, na altura, 1919, um cadinho de personagens, culturas e nacionalidades, cada uma delas com a sua agenda oculta, cada uma delas ensaiando, sobre o tabuleiro moçambicano, jogadas da mais diversa ordem, pessoais ou políticas: cada uma, portanto, sendo, ali, naquele momento, uma alavanca de uma História que vinha de mais longe - entre as sobras e as possibilidades deixadas por uma Guerra de que ainda se ouviam os ecos.

Tal carácter histórico do romance é tratado pelo seu autor, João Paulo Borges Coelho, com uma seriedade que o leva a reconstituir fielmente algumas personagens - por exemplo, João Albasini, o jornalista - e, principalmente, a própria cidade: a Lourenço Marques de então, que nos vai sendo dada a provar pela citação de extensas frases publicitárias, que as fachadas dos edifícios ostentariam, e vão pontuando o texto: as pastelarias, os restaurantes, as alfaiatarias, os escritórios; Jolanda, Fábrica de Gelo, Águas Minerais, Frigoríficos, Proprietário Giuseppe Cavallari, ou Dr. Palma, Sífilis e Doenças Venéreas, Doenças das Senhoras, Clínica Geral, Consultório. Percebemos imediatamente que a linguagem dos anúncios (quer sejam verídicos, quer invenções, quer um misto) é, de facto, a da época, mesmo pelo recurso constante às palavras e às fórmulas portuguesas típicas do fim do século XIX inícios do XX; veja-se este plausível e delicioso exemplo: «Casa de João Ramos. Encontram os turistas e quantos após as horas fadigosas de trabalho queiram distrair-se fazer um bom passeio num retiro agradável com belas sombras»; nunca adivinharíamos, antes de chegar a este livro, até que ponto a viagem pela publicidade permite refazer uma cidade, mostrando-no-la nos contornos e nas cores da sua efervescência comercial.

As "histórias", por outro lado: porque, ao longo de uma exigente e cuidada construção, J. P. B. Coelho deixa que o leitor se vá apropriando dos segredos que tudo condicionam - e lançam a própria aventura -, através das histórias que vão sendo narradas ao protagonista: ele próprio, de resto, um indivíduo misterioso, com uma história que só descobrimos incompleta e lentamente, chamado Hans Mahrenholz, mas fazendo-se passar por um tal Henry Miller.

O mais curioso é que - como reconhece Henry Miller, aliás, dado, também ele, a infindáveis digressões e fantasias - é que as histórias que vai ouvindo não se encaixam umas nas outras linearmente. Pelo contrário: cedo verificamos que algumas constituem becos sem saída, desvios inusitados, porventura perdas de tempo: na verdade, nunca o são, porque independentemente da forma como nos aproximem (ou "o" aproximem) ou não do objectivo, valem por si, pelo seu interesse, enquanto outros tantos modos de nos conduzir ao passado das personagens, sobre as quais - dirá alguém - há sempre mais do que uma versão. São também essas estimáveis regressões no tempo que nos levam a Klimt, ou Schiele, ou Picasso. Às vezes, perante a realidade de certas personagens, acontece sentirmo-nos confundidos pela destreza do autor para o embuste, entre o elemento histórico e o ficcional: «E esta pessoa», perguntamo-nos, então, «terá efectivamente existido?».

Por fim, como leitor moçambicano (ou, rigorosamente: de origem moçambicana), diria que este romance traça, de certa forma, uma fronteira decisiva na literatura africana de expressão portuguesa: sinto que outros escritores, que em algum tempo terão sido capazes de nos interessar e de revolucionar a língua em que escreviam, acabaram fixando-se a uma fórmula, a fórmulas. Encantatórias, encantadoras mas, todavia, fórmulas: e, portanto, esses autores ter-se-ão ficado por um idiotismo, com os seus tiques e os seus limites. Ora é aqui, em face de um romance como este, e confirmando com uma passagem que escolho quase aleatoriamente, e cito,

«Ao lado, Gasparini afirmava ter encontrado a solução, ao mesmo tempo que temperava nas chamas de uma enorme fogueira uma panóplia de instrumentos que, dizia, de certeza curariam o doente: alicates, tenazes, punções, trocartes, agulhas. O único problema era a sua indecisão sobre qual deles utilizar. Os oficiais instavam-no a decidir de uma vez, mas ele continuava perdido em obscuras indecisões, olhando os instrumentos em brasa com umas pupilas brilhantes, avermelhadas pelo fogo.»,

que nos apercebemos do que está verdadeiramente em causa: não um "bom romance moçambicano", mas algo que, na sua particularidade, se assume na universalidade que lhe compete: a de grande literatura. Nem mais nem menos.

Observação: o romance em questão ganhou o Prémio Leya 2009. É um pormenor irrelevante no valor da obra.