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sexta-feira, 8 de maio de 2015
EDITORA UTOPIA
Não tenho dúvidas de que um editor que tenha, na sua alma, a vocação de oferecer ao mundo aquilo que vale a pena ser lido, deve começar por ter criado uma exigente pureza da sua consciência leitora. Há-de manter incólume uma capacidade para descobrir segredos e raridades, mesmo depois de já ter lido muita coisa, muita coisa, muita coisa. [Porque se termos lido bastante nos refina o talento para descobrir o que é bom, lermos em modo de trabalho, de enfiada, já cansados e com a ansiedade do que nos falta ainda ler, confunde critérios e embota a perspicácia]. Sobretudo, um editor fervoroso não pode ceder ao preconceito. Não pode ler mais ligeira ou menos respeitosamente o jovem estreante, desconhecido, sem créditos. A isso me refiro quando lhe peço que mantenha a pureza do olhar, o gosto pela descoberta, a sensibilidade para a surpresa. O mais difícil será não ceder às expectativas do mercado. Ler sem pensar «Terá saída? Venderá bem? Haverá público para isto?» [Porque a pergunta certa parece-me outra: «Isto é mesmo bom? É excelente? Merece?»]
Arriscar contra a generalidade e contra quem manda. Esta seria a minha carta de princípios como editor.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O CONTEMPORÂNEO «INCONTORNÁVEL»
Dava, há dias, comigo a pensar isto: Saramago é, para todos os portugueses, o único autor português contemporâneo verdadeiramente «incontornável». [Usei aspas para que se intuísse alguma ironia que a palavra me merece].
Até no seu modo polémico, José Saramago conseguiu que todos os portugueses se definissem, literária e esteticamente, em relação a ele. Da mesma forma que, a propósito de Nietzsche, Eric Weil afirma que, se podemos falar de um autor cristão, é precisamente dele - na medida em que todo o seu pensar se configura em relação a Cristo, ainda que para o contestar -, também faz sentido dizer-se que os portugueses são todos saramaguianos. Mesmo os que o odeiam, mas fazem desse ódio uma referência como não existe outra com o mesmo peso, com idêntica intensidade.
O século XX português é absolutamente saramaguiano. Torga, Jorge de Sena, Nemésio, Sophia ou David Mourão Ferreira - cinco exemplos imediatos de autores portugueses que considero melhores do que Saramago, isto é, mais profundos e mais cultos - não tiveram o seu impacto. Não fizeram a mesma revolução na escrita: foram herdeiros e continuadores de uma tradição, enquanto que José Saramago a transformou radicalmente. Aqueles foram sínteses brilhantes e inovadoras, este foi o advento de um outro mundo.
Nem sempre gostei de Saramago. Como homem, critiquei-lhe a presunção e a arrogância. Como escritor , considerei-o bastas vezes superficial. Comparem uma página de Clarabóia (mas, para não sermos injustos, uma página de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é do seu melhor, se não o seu melhor) com uma página de Mau Tempo no Canal. Há, em Saramago, uma ausência de densidade ou de riqueza na reflexão, que, pelo contrário, encontramos em cada linha de Nemésio. E, no entanto, ninguém se define em relação a Nemésio. Gosta-se ou não, mas não se está num território virgem, inexplorado, em que se semeiam religiões, fés radicais, terríveis incompreensões, radicais antipatias. Saramago suscita-as. E influencia-nos. A todos. De um ou de outro modo, para o mal ou para o bem, mas a todos.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
ELOGIO DO REVISOR
Não sei há quanto tempo se estabeleceu como profissão o trabalho de rever as provas antes de se publicar um livro. O «meu» revisor, ou seja, a pessoa que reviu meticulosamente o romance Nada Mais e o Ciúme, sabê-lo-ia com certeza.
Trindade Coelho, em In Illo Tempore, conta a seguinte história que resumo de memória: num texto em que ele escrevera «dizia-se à saciedade», o tipógrafo emendou «saciedade» por «sociedade»; Trindade Coelho tornou a escrever «saciedade», e o tipógrafo alterou de novo. Até que, ao fim de duas ou três alterações e reposições, o autor falou com o homem, que lhe respondeu: «Ficará como o senhor doutor quiser, mas olhe que toda a gente sabe que se diz "sociedade", não "saciedade".» Existiriam já "revisores profissionais"? Ou era aos tipógrafos expeditos que cabia rever os textos?
Há livros mal revistos ou a que, mais provavelmente, tenha de todo faltado uma revisão. O autor pode ser extraordinário, mas a verdade é que se nota essa diferença. Uma distracção aqui, um desconhecimento ali, uma fragilidade acolá. Em contrapartida, qualquer romance melhora substancialmente se tiver passado pelas mãos de um revisor a sério. Talvez alguns escritores se sintam ameaçados. Não deviam. O revisor não é somente um homem que domina perfeitamente a língua, deve ser uma pessoa superiormente culta, que se passeia com grande à vontade por muitas esferas do saber. Com o "meu" revisor não só fui chamado a prestar atenção a pormenores de pontuação que me haviam escapado, como a erros de conteúdo relativos - por exemplo - aos poderes da raia [zoologia], às regras do sumo [desporto; cultura japonesa]. Detectou referências que eu discretamente fizera, sem querer ostentar, remetendo-as para Hitler [história, política internacional] ou para Nietzsche [filosofia], não, por sua vez, para se exibir, mas para me sugerir que contextualizasse de outro modo.
Em algumas das sugestões que fez pareceu-me evidente alguma ironia. Sobretudo quando se tratava de neologismos que eu ousava. A ironia fere-me, irrita-me. Como se uma mente mais culta ou mais inteligente do que a minha se divertisse à custa das limitações que revelo. Mas que querem? Há na competência e no rigor algo que se confunde facilmente com arrogância. Parece-nos sempre que as pessoas que realmente sabem e se indignam com as falhas que consideram "inadmissíveis" são pouco tolerantes.
Robert Conquest apresentou três leis da política, a primeira das quais determina que «toda a gente é de direita em relação àquilo que sabe melhor». Admito que o termo «direita» seja, aqui, muito ambíguo. Mas trata-se, explica-nos Scruton, de se mostrar «desconfiado em relação ao entusiasmo e à novidade e respeitoso para com a hierarquia, a tradição e os modos estabelecidos». Julgo, é claro, que em literatura, onde a originalidade não deixa de ser fundamental, qualquer apreciação enquistada num «respeito» fundamentalista pela «hierarquia» e pela «tradição» possa pecar por obtusidade. Vasto é o campo onde a visão do artista tem de se impor - e se vale alguma coisa, caberá ao futuro julgar, mais do que ao revisor. Mas mesmo assim. É talvez este critério de pouca abertura que torna, os bons revisores, profissionais escrupulosos e impacientes com os erros.
Perante um revisor como aquele que trabalhou sobre o meu texto, sinto-me frágil e embaraçado. Chego a pensar: «Mas afinal eu não sei escrever.» Todavia, dois minutos após termos concluído a nossa reunião, percebo que o romance que eu escrevera está agora muito melhor, muito mais sólido na forma e com menos imprecisões no conteúdo. Quase - ocorre-me - como se tivesse sido escrito em co-autoria. E agradeço não sei bem a quem ou a quê [ao destino, talvez], que, mais do que o facto de escrever um romance que foi sujeito a uma revisão, esta fosse feita por um revisor de primeira.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
a internet como veículo para o regresso ao prazer da leitura em papel
Na série de autores Não-Nobel a que me referia em outro post, aludi a Raymond Chandler. Chandler, afirma-se na contracapa de À Beira do Abismo, «não foi premiado por ser o representante de um género literário considerado menor pela Academia [o policial]».
Se quiséssemos comprovar esse preconceito recorrendo a um caso semelhante (que, por acaso, escapa à colecção de O Público), Ray Bradbury é o que imediatamente me ocorreria. Gosto muito de Fahrenheit 451, que é, para começar, um romance impressionantemente bem escrito, do ponto de vista literário; para além disso, uma das homenagens mais belas, que conheço, à literatura: não esquecer que é a história de um grupo de resistentes, leitores impenitentes, numa sociedade futura em que a leitura foi interditada. [Todos sabem que ler pode ser perigoso, porque faz pensar]. Tornado um objecto de culto, filmado por Truffaut, este romance nunca poderia despertar a atenção da Academia. Estava manchado por um pecado: era ficção científica.
Recordo-me deste livro no momento em que aderi a uma página, no facebook, de leitores. Nada mais do que isto: apaixonados pela leitura, que trocam ideias (a discussão sobre Saramago é interessantíssima), partilham livros de vida, fazem o elogio do prazer da página em papel, que podem manusear, e cheirar e sublinhar, anotar e, num sentido que a leitura virtual nunca permitirá, «possuir». Numa sociedade da não-leitura, em que tudo se reduz e simplifica (com algumas vantagens, não duvido), é sempre um refrigério cruzar-me com um grupo que nada mais une - uns serão bancários, outros professores ou desempregados - senão um dos aspectos essenciais: o gosto, o prazer, a paixão de ler...
Este é o meu 300º post. Tenho muito prazer em dedicá-lo a este grupo maravilhoso.
Se quiséssemos comprovar esse preconceito recorrendo a um caso semelhante (que, por acaso, escapa à colecção de O Público), Ray Bradbury é o que imediatamente me ocorreria. Gosto muito de Fahrenheit 451, que é, para começar, um romance impressionantemente bem escrito, do ponto de vista literário; para além disso, uma das homenagens mais belas, que conheço, à literatura: não esquecer que é a história de um grupo de resistentes, leitores impenitentes, numa sociedade futura em que a leitura foi interditada. [Todos sabem que ler pode ser perigoso, porque faz pensar]. Tornado um objecto de culto, filmado por Truffaut, este romance nunca poderia despertar a atenção da Academia. Estava manchado por um pecado: era ficção científica.
Recordo-me deste livro no momento em que aderi a uma página, no facebook, de leitores. Nada mais do que isto: apaixonados pela leitura, que trocam ideias (a discussão sobre Saramago é interessantíssima), partilham livros de vida, fazem o elogio do prazer da página em papel, que podem manusear, e cheirar e sublinhar, anotar e, num sentido que a leitura virtual nunca permitirá, «possuir». Numa sociedade da não-leitura, em que tudo se reduz e simplifica (com algumas vantagens, não duvido), é sempre um refrigério cruzar-me com um grupo que nada mais une - uns serão bancários, outros professores ou desempregados - senão um dos aspectos essenciais: o gosto, o prazer, a paixão de ler...
Este é o meu 300º post. Tenho muito prazer em dedicá-lo a este grupo maravilhoso.
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experiências difíceis de classificar,
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011
MANN, ROTH, SANTOS
Estou muito longe [é um eufemismo] de admirar José Rodrigues dos Santos. E se alguma vez tentei ler um dos seus livros, e confesso que sim, rapidamente o benfazejo manto do esquecimento se encarregou de o lavar e levar da minha memória.
Curiosamente, no seu programa de entrevistas, a que chama pomposamente Conversas de Escritores (não fossemos nós, por acaso, esquecer-nos de que ele é «um escritor», coisa que, de facto, não é), entrevistava, há dias, Philip Roth.
Fiquei deveras surpreendido, porque Roth goza da fama de detestar pessoas em geral, e entrevistadores em particular - ter-se-á enganado a ponto de acreditar que Santos era digno daquela conversa? Duvido.
Em todo o caso, lembro-me de que, entre outras coisas, Philip Roth disse que a leitura, tal como nós a conhecemos actualmente (ou a conhecíamos, até há uns anos) ia mudar completamente. Dentro de algumas décadas, não haverá senão leitores de uma nova literatura, sem papel, sem ironia, sem descrição, sem exigência de tempo.
Eu conheço a conversa: os reaccionários (os «velhos do Restelo») foram apregoando sucessivamente o fim da rádio, substituída pela televisão, e o fim do cinema, substituído pelos vídeos, e o fim do livro, transformado em e-book.
Eu não sou reaccionário. Ou sou. [Alguém me chamou, há tempos, «Velho do Restelo», a propósito da minha persistente recusa do Acordo Ortográfico]. Mas entendo Roth. Que, aliás, não se queixava. Entendo-o na medida em que o que ele afirma é mais subtil do que a mera questão do suporte do livro.
E aqui surge Mann, Thomas, Mann, um escritor a sério, extraordinariamente superior a Roth (e nem vale a pena a comparação com Santos).
Escrevia, num post anterior, que já ninguém lê um livro como Os Buddenbrook. É, pois, disso que se trata: já ninguém consegue ler um certo tipo de descrição, já ninguém («ninguém» é exagero, claro: ainda restamos três; quatro, com boa vontade) tem paciência para usufruir a linguagem, a «petite musique» das palavras, o prazer poético do significante, por si mesmo.
É uma mudança. It's quite a change, really! [Santos terá compreendido a ideia?]
sexta-feira, 17 de junho de 2011
QUE PASA?
Juro pela minha saúde: da última vez que vi, este despretensioso blogue tinha quarenta seguidores, que me davam muita alegria. De repente, aparecem-me 39. E não é a primeira vez que me desaparece alguém que, em certa altura, se deu ao trabalho de me indicar que me lia com alguma regularidade.
Que aconteceu? Uma obra de feitiçaria? Uma grande decepção de um leitor, que descobriu a verdade sobre mim (obviamente, que não sou tão interessante como às vezes quase consigo fingir?) Um daqueles problemas em que a internet é pródiga?
Cometi algum erro clamoroso? Disse qualquer coisa que caiu mal a alguém?
Confesso: eu gostava muito de sentir que 40 pessoas se importavam com o que eu ando para aqui escrevendo sobre livros.
Que poderá acontecer amanhã?
Eu ter 41 seguidores?
Ou baixar para 38???
Que aconteceu? Uma obra de feitiçaria? Uma grande decepção de um leitor, que descobriu a verdade sobre mim (obviamente, que não sou tão interessante como às vezes quase consigo fingir?) Um daqueles problemas em que a internet é pródiga?
Cometi algum erro clamoroso? Disse qualquer coisa que caiu mal a alguém?
Confesso: eu gostava muito de sentir que 40 pessoas se importavam com o que eu ando para aqui escrevendo sobre livros.
Que poderá acontecer amanhã?
Eu ter 41 seguidores?
Ou baixar para 38???
terça-feira, 5 de abril de 2011
PROUST CONTRA O MAL-ESTAR
1.
Ando deprimido. Isso não faz, obviamente, que me não apeteça ler. Mas faz que me apeteça pouco falar - e ainda menos, provavelmente, escrever... - acerca de leituras. Realizo um pequeno exercício mental: no estado em que estou, cansado e triste, de ombros descaídos e padecendo de uma melancolia persistente, seria capaz de falar, no entanto, de algum livro em particular...? Haveria algum cuja mera referência tivesse o poder de me animar, me reerguer os ombros, me pôr a aspirar a primavera?2.
Curiosamente, a resposta é sempre a mesma. Proust. Em Busca do Tempo Perdido.3.
Não sou um especialista em Proust. Só um apaixonado. Não me espanta que seja um autor tão pouco apreciado. A razão é que certos textos, como certas músicas, precisam de nos dissolver no seu corpo para que as amemos; precisam, diria - e não sei se isto vai soar bem, ou por outra, irá certamente soar mal -, que atinjam uma zona do corpo do leitor e do espírito do leitor onde o seu próprio olho crítico não tenha já poder algum. Eu não sou capaz de olhar criticamente a obra de Marcel Proust. Falta-me distância. Casei-me com ela, fundi-me nela, perdi qualquer vestígio de autonomia. As suas palavras influenciam-me irreversivelmente. Sinto-as com uma espécie de arrepio, num encantamento absoluto. É por causa da história, ou da descrição dos pormenores, tornando visíveis, audíveis, tacteáveis ou cheiráveis as sensações que a sua memória reencontra - e é por causa da linguagem, do paradoxo, do sentido do subtil.4.
Encontro este veio em alguns autores franceses. Montaigne, algum Pascal. Uma certa Colette. Yourcenar, sem dúvida nenhuma. Há outros tipos de prazer de leitura, e em todas as línguas os recupero; em português, santo deus: Pessoa, Soares, Campos, o drama em gente todo, Fialho ou Hélia Correia. Os brasileiros, os ingleses, os russos, os norte-americanos, Flannery, Salinger ou Carver (para reaver a trindade referida por Catarina). Mas ninguém tem o poder dos franceses. Nenhum me arranca assim, às primeiras linhas, a uma depressão. E, mesmo entre os franceses, nenhum - ninguém como Proust.5.
A que deus dos livros devo agradecer a existência de uma tal obra?
sábado, 26 de fevereiro de 2011
FORMIGA PREVIDENTE OU CIGARRA ESBANJADORA? OU QUÊ?
Recebi o meu ordenado.
Em poucos dias, adquiri já os seguintes livros:
Correcções, de Jonathan Franzen (o mais caro, mas o mais apetecido); Vamos Todos Matar Constance, de Ray Bradbbury (digamos que, neste caso, foi também o preço de saldo o pormenor a que não resisti); A Economia Não Existe, de Antonio Baños Boncompain (aqui, percebe-se: foi o título, aquilo a que não resisti. E lendo-o, não o considero uma desilusão: só uma meia-desilusão...); E hoje mesmo, da abençoada Trama, trago um exemplar de uma reedição (de tiragem limitadíssima) de Quando Escreve Descalça-se, de Miguel-Manso.
Conclusão: agora, depois disto, vou ter de começar a fazer regime.
Em poucos dias, adquiri já os seguintes livros:
Correcções, de Jonathan Franzen (o mais caro, mas o mais apetecido); Vamos Todos Matar Constance, de Ray Bradbbury (digamos que, neste caso, foi também o preço de saldo o pormenor a que não resisti); A Economia Não Existe, de Antonio Baños Boncompain (aqui, percebe-se: foi o título, aquilo a que não resisti. E lendo-o, não o considero uma desilusão: só uma meia-desilusão...); E hoje mesmo, da abençoada Trama, trago um exemplar de uma reedição (de tiragem limitadíssima) de Quando Escreve Descalça-se, de Miguel-Manso.
Conclusão: agora, depois disto, vou ter de começar a fazer regime.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
A MINHA MESINHA DE CABECEIRA

Uma amiga minha diz que leio como quem faz «zapping». Dito deste modo, pode parecer mal. Como se a minha leitura fosse superficial, deslizante, saltitando sempre, incapaz de descer até ao fundo. Não penso que assim suceda. Mas é verdade que os livros me crescem à volta e que gosto de mudar, me dispersar, não deixar nenhum fora de um minúsculo foco de atenção que seja. Onde me sento, brotam livros. Onde estou, aí vêm eles, não sei de onde, como erva ruim.
Na minha mesa de cabeceira, por exemplo, vai-se erguendo uma pilha. Já a dividi em duas torres mais baixas. Vejo, numa das bases, A Alma Conservadora, de Andrew Sullivan. Não o pus de parte, mas cheguei, há dias, a um ponto de saturação, e preferi repousar dele. Mais acima está, transposto para um francês contemporâneo, perfeitamente legível, Les Essais, de Montaigne. Gosto de ler alguma passagem à noite, durante aquele período em que todos se deitaram e se cria uma particular intimidade entre mim e as páginas. Sublinho-as, anoto-as.
E, por falar em «sublinhar» e «anotar», eis, ali, um outro livro em francês. Les Pensées, de Pascal. Tenho diversas versões em tradução portuguesa: este, trouxe-o da estante de meu saudoso tio (idolatrado, desde sempre, pela criança e, depois, pelo jovem que eu era...), precisamente porque tenho todo o interesse em interpretar e compreender os sublinhados e as anotações que ele fora fazendo: que encontrou o meu tio António em Pascal? O que considerou acerca de uma sua frase? Como a comentou? O que o fez deter-se num determinado parágrafo? (Contudo, ainda não principiei...).
Ah! O Fim-de-semana, de Bernard Schlink: comprei-o porque apreciara razoavelmente um outro livro do autor, O Leitor. Mas este não me prendeu. Falta-me decidir se desisti dele ou se ensaiarei uma nova tentativa. Próximo desse, o encantador A Canção de Amor de Prufrock, de T. S. Eliot, que li, reli e reli, mas fui buscar quando achei que seria possível escrever, sobre ele, um post.
De entre todos estes livros, todavia, há um que me vai guiando e que sigo continuada e demoradamente: Reviver o Passado em Brideshead, de Evelyn Waugh. Neste momento é o norte de que as outras distracções só por pouco tempo me arrancam.
Sentia-me eu confortável nesta «gestão» periclitante e confusa de tanto material? Pelos vistos não, não me chegava ainda. Porque, da Biblioteca da escola, cheguei com mais dois: O Abutre, conjunto de contos de Kafka, e As 3 Vidas, de João Tordo. É complicado? Não digo que não. Mas dá-me tanto prazer...
sábado, 23 de outubro de 2010
SUBSÍDIOS PARA UMA LISTA DE LIVROS INVISÍVEIS
Não é verdade que os livros não dêem dinheiro. Dão. Talvez não todos os livros e talvez não aos autores. Mas se não fosse um objecto de consumo capaz de fazer circular muita massa, não haveria tantos comerciantes de poucas letras a meter-se no negócio, a comprar direitos, a comprar escritores, a comprar livrarias, a comprar editoras, a absorver, a devorar.
Numa simples viagem pela galáxia dos blogues, descubro vários, alguns de grande qualidade, que se dedicam aos livros. Observo que, em geral, se trata de comentar os livros da moda, ou seja, os que estão aí, acabados de ser lançados, os que as editoras e as livrarias querem vender. Propositadamente ou não, conscientemente ou não, esses blogues reduzem-se, pois, a veículos de um monumental marketing. Assim funciona o sistema.
Isto só me enerva porque, entretanto, os livros que não estão na moda; os que não vêm agora mesmo das gráficas, ainda frescos de tinta; os que não acabaram de ser referidos na revista Ler, ou na Actual, do jornal Expresso, ou na horrorosa Os Meus Livros -, aqueles outros, permanecem completamente ignorados e esquecidos. Procurei, ultimamente, o Don Tranquilo, e assustei-me com tamanho recalcamento: não o conheciam; pediram-no à distribuidora, que mandou dizer, muito tempo mais tarde, que estava esgotado. Vale a pena mencionar o episódio porque, antes, já andara, atarantado, à procura de Maus, na tradução portuguesa, e mandaram-me passear; quis um romance de Ray Loriga, mesmo na Língua-Mãe do autor, e nada. Experimentem perguntar por Herzog, de Bellow. Ou por Fahrenheit 451, de Bradbury. Ou por Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein, que foi como uma Bíblia para os jovens que nós éramos.
O que eu penei por um certo livro de Mario Vargas Llosa (A Cidade e os Cães), antes de o «agraciarem» com o Nobel. Agora, claro, reeditaram-lhe a obra completa. Na altura, tropeçava em Gabriel Garcia Marquez por todo o lado, que não me interessava, e mal sabiam quem fosse Llosa.
Estou, no fundo, a elaborar a minha lista alternativa, uma lista invisível, de títulos que, por enquanto - até que haja uma nova tradução, ou algum prémio retrospectivo, ou a morte do autor, que tende a tornar a sua obra em best-seller - não interessam às editoras nem às livrarias. Nem ao menino Jesus. Esgotados? Não acredito. Mais facilmente os terão queimado, para não incorrerem no crime de lesa-despezismo que é manterem-nos em depósito!
E é assim que as livrarias nos apresentam uns suspeitos tops de vendas, que duvido que não sejam forjados em função de quem pague mais, como parte deste marketing que nos cria apetências e condiciona o que devemos ler, ao mesmo tempo que nos desaparece da vista - e do coração, e do pensamento - o que poderíamos ler.
Não consigo fugir a este sistema. Nem quero. Mas tento não lhe estar submetido. Comprei, por exemplo, Livro, de José Luís Peixoto, e estou já à espera do próximo de Gonçalo M. Tavares. Mas, entrementes, é claro, faço questão de me não me deixar manipular por essa agenda. Não que tal resistência tenha, em si, alguma importância. Ah, não se leia este texto como um manifesto. Já se entendeu que não estou do lado daqueles que recusam ler o que «todo o mundo anda a ler». Só não abdico de continuar procurando e de, aqui, falar acerca daquilo que ninguém anda a ler. Daquilo que está a um passo de nos desaparecer das memórias curtas.
De cada vez que consigo devolver, à consciência, algum livro recalcado, seja porque mo emprestaram, seja porque o trouxe de uma biblioteca, ou porque existia um depósito em que restava um derradeiro exemplar, recordo esta verdade simples: a literatura é infinitamente mais do que aquilo em que o mercado toca.
Numa simples viagem pela galáxia dos blogues, descubro vários, alguns de grande qualidade, que se dedicam aos livros. Observo que, em geral, se trata de comentar os livros da moda, ou seja, os que estão aí, acabados de ser lançados, os que as editoras e as livrarias querem vender. Propositadamente ou não, conscientemente ou não, esses blogues reduzem-se, pois, a veículos de um monumental marketing. Assim funciona o sistema.
Isto só me enerva porque, entretanto, os livros que não estão na moda; os que não vêm agora mesmo das gráficas, ainda frescos de tinta; os que não acabaram de ser referidos na revista Ler, ou na Actual, do jornal Expresso, ou na horrorosa Os Meus Livros -, aqueles outros, permanecem completamente ignorados e esquecidos. Procurei, ultimamente, o Don Tranquilo, e assustei-me com tamanho recalcamento: não o conheciam; pediram-no à distribuidora, que mandou dizer, muito tempo mais tarde, que estava esgotado. Vale a pena mencionar o episódio porque, antes, já andara, atarantado, à procura de Maus, na tradução portuguesa, e mandaram-me passear; quis um romance de Ray Loriga, mesmo na Língua-Mãe do autor, e nada. Experimentem perguntar por Herzog, de Bellow. Ou por Fahrenheit 451, de Bradbury. Ou por Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein, que foi como uma Bíblia para os jovens que nós éramos.
O que eu penei por um certo livro de Mario Vargas Llosa (A Cidade e os Cães), antes de o «agraciarem» com o Nobel. Agora, claro, reeditaram-lhe a obra completa. Na altura, tropeçava em Gabriel Garcia Marquez por todo o lado, que não me interessava, e mal sabiam quem fosse Llosa.
Estou, no fundo, a elaborar a minha lista alternativa, uma lista invisível, de títulos que, por enquanto - até que haja uma nova tradução, ou algum prémio retrospectivo, ou a morte do autor, que tende a tornar a sua obra em best-seller - não interessam às editoras nem às livrarias. Nem ao menino Jesus. Esgotados? Não acredito. Mais facilmente os terão queimado, para não incorrerem no crime de lesa-despezismo que é manterem-nos em depósito!
E é assim que as livrarias nos apresentam uns suspeitos tops de vendas, que duvido que não sejam forjados em função de quem pague mais, como parte deste marketing que nos cria apetências e condiciona o que devemos ler, ao mesmo tempo que nos desaparece da vista - e do coração, e do pensamento - o que poderíamos ler.
Não consigo fugir a este sistema. Nem quero. Mas tento não lhe estar submetido. Comprei, por exemplo, Livro, de José Luís Peixoto, e estou já à espera do próximo de Gonçalo M. Tavares. Mas, entrementes, é claro, faço questão de me não me deixar manipular por essa agenda. Não que tal resistência tenha, em si, alguma importância. Ah, não se leia este texto como um manifesto. Já se entendeu que não estou do lado daqueles que recusam ler o que «todo o mundo anda a ler». Só não abdico de continuar procurando e de, aqui, falar acerca daquilo que ninguém anda a ler. Daquilo que está a um passo de nos desaparecer das memórias curtas.
De cada vez que consigo devolver, à consciência, algum livro recalcado, seja porque mo emprestaram, seja porque o trouxe de uma biblioteca, ou porque existia um depósito em que restava um derradeiro exemplar, recordo esta verdade simples: a literatura é infinitamente mais do que aquilo em que o mercado toca.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A RETÓRICA DE JOÃO PEREIRA COUTINHO
Em certos mestres da retórica, que são autênticos poetas da argumentação, é um pormenor irrelevante que o leitor se deixe convencer e, no fim, esteja de acordo com o conteúdo, ou não. Lemo-los imbuídos do prazer da sua arte, do seu jogo com as razões e com as palavras, ainda que discordemos radicalmente de todas as suas teses, uma por uma. É o caso, em Portugal, de João Pereira Coutinho. Inteligente, culta, informada, pensando de forma provocatória (mas, de facto, "pensando"), insensível à moda ou ao "politicamente correcto", excêntrica e snobe, muitas vezes injusta, muitas vezes justa, a sua prosa é sempre um deleite. Poderá não ter frequentemente razão. (Se é que isso pode ser garantido, a não ser como artigo de fé). Mas não ter razão numa escrita assim bela e assim inteligente é, seguramente, tão estimulante, tão formativo - e quase tão bom - como ter carradas de razão.
domingo, 18 de julho de 2010
NÃO É UMA QUESTÃO DE MÉTODO, É DOENÇA
Uma amiga dizia-me que se vem atrasando na leitura do meu blogue. Que sou rápido. E perguntava-me, ou curiosa ou desconfiada, como leio tanto em tão pouco tempo.
O que referi em relação à leitura de Ulisses pode fazer uma primeira luz sobre o meu método. [Irão ver que, infelizmente, não se trata de método]. Dizia eu que o ia reatacar paralelamente, ou seja, ao mesmo tempo que lia outras coisas, até para repousar das dificuldades com que me debatesse. Este é um primeiro aspecto. Com Ulisses, afinal, esta tentativa de partilha não tem estado a dar certo, porque se trata de uma obra invasora: ocupa o espaço e o tempo, exige concentração, pede que voltemos atrás, às vezes que releiamos várias páginas que acabávamos de ler, sem perceber que as não tínhamos percebido. Mas, em geral, passo de um livro para outro. Não confundo, não misturo: digamos que, enquanto leitor, tenho heterónimos.
Por exemplo, neste momento, na minha cabeceira, está a Obra Reunida, de Juan Rulfo, que ainda não terminei; Infância, de Graciliano Ramos, que comecei há pouco; o extraordinário Mistérios de Lisboa, do Camilo - com um belíssimo prefácio de João Tordo, que me fez, entretanto, pescar, à estante, um livro da sua autoria, o primeiro, se não o único, que dele li: Hotel Memória, que é uma pérola!
Se a isto acrescentarmos que, por vezes, os livros sobre que aqui escrevo são simplesmente os de que me lembro e acerca de que me apetece escrever, muitas vezes sem os ter sequer relido - é o caso de Crime e Castigo ou de A Náusea -, com toda a falta de rigor que possa decorrer desses comentários elaborados unicamente a partir da memória, resolve-se o estranho mistério de um bloguista que, aparentemente, lê e escreve sobre dezenas de obras, mais rapidamente do que os seus próprios leitores o possam ler.
Não é um método: é um modo. É uma relação doentia com os livros. Há quem me fale em "reduzir", como se falaria a um fumador. É um gasto incomportável - por muito que recorra às bibliotecas, torna-se-me difícil entrar numa livraria sem "comprar" uma coisinha. Também, aqui, analogamente a um viciado - um alcoólico, que melhor faria mantendo-se à distância dos bares que lhe são as livrarias.
Referi, uns quantos parágrafos acima, um livro de João Tordo. Tenho de vos falar dele, um destes dias. Hotel Memória. Para vos deixar repousar da minha obsessão pelo Ulisses...
O que referi em relação à leitura de Ulisses pode fazer uma primeira luz sobre o meu método. [Irão ver que, infelizmente, não se trata de método]. Dizia eu que o ia reatacar paralelamente, ou seja, ao mesmo tempo que lia outras coisas, até para repousar das dificuldades com que me debatesse. Este é um primeiro aspecto. Com Ulisses, afinal, esta tentativa de partilha não tem estado a dar certo, porque se trata de uma obra invasora: ocupa o espaço e o tempo, exige concentração, pede que voltemos atrás, às vezes que releiamos várias páginas que acabávamos de ler, sem perceber que as não tínhamos percebido. Mas, em geral, passo de um livro para outro. Não confundo, não misturo: digamos que, enquanto leitor, tenho heterónimos.
Por exemplo, neste momento, na minha cabeceira, está a Obra Reunida, de Juan Rulfo, que ainda não terminei; Infância, de Graciliano Ramos, que comecei há pouco; o extraordinário Mistérios de Lisboa, do Camilo - com um belíssimo prefácio de João Tordo, que me fez, entretanto, pescar, à estante, um livro da sua autoria, o primeiro, se não o único, que dele li: Hotel Memória, que é uma pérola!
Se a isto acrescentarmos que, por vezes, os livros sobre que aqui escrevo são simplesmente os de que me lembro e acerca de que me apetece escrever, muitas vezes sem os ter sequer relido - é o caso de Crime e Castigo ou de A Náusea -, com toda a falta de rigor que possa decorrer desses comentários elaborados unicamente a partir da memória, resolve-se o estranho mistério de um bloguista que, aparentemente, lê e escreve sobre dezenas de obras, mais rapidamente do que os seus próprios leitores o possam ler.
Não é um método: é um modo. É uma relação doentia com os livros. Há quem me fale em "reduzir", como se falaria a um fumador. É um gasto incomportável - por muito que recorra às bibliotecas, torna-se-me difícil entrar numa livraria sem "comprar" uma coisinha. Também, aqui, analogamente a um viciado - um alcoólico, que melhor faria mantendo-se à distância dos bares que lhe são as livrarias.
Referi, uns quantos parágrafos acima, um livro de João Tordo. Tenho de vos falar dele, um destes dias. Hotel Memória. Para vos deixar repousar da minha obsessão pelo Ulisses...
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