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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
CARLOS DE OLIVEIRA: UMA ABELHA NA CHUVA
Há que regressar aos autênticos iniciadores.
Por vezes esquecemo-nos. Lemos hoje um autor que nos parece de uma extrema originalidade, ou de um hermetismo que se deixa confundir com originalidade, e perdemos de vista como, anos antes - e porventura de forma maior, ou com mais razão - já alguém tinha aberto essa senda. De vez em quando, descobrimos um desses que abriram uma senda, um autêntico iniciador. Ou redescobrimo-lo. Ou, por algum motivo, torna-se evidente o que nos escapara numa primeira leitura, feita há já muito tempo.
É o caso de Carlos de Oliveira. Não digo que não haja quem se lembre dele: mas, convenhamos, Carlos de Oliveira foi sempre um autor discreto. Uma Abelha na Chuva, que é um romance de pequena extensão, talvez aquilo para que os portugueses possuem o termo "novela", era apresentado aos alunos do secundário. Penso que, actualmente, já nem isso - entre Eça e Saramago, esses gigantes "oficiais", escasseia o espaço para os demais. Mas Uma Abelha na Chuva é, mais do que tudo, uma história muito, muito, muito bem escrita, que apetece ler pela maravilhosa e criativa simplicidade do sabor das palavras. Aquela descrição física de uma personagem, com que abre o romance, contém tudo quanto é importante para o início de uma história: o gosto e o poder de dar a ver em todos os pormenores, quase como o cinema, e a capacidade de se apresentar uma situação, introduzindo, e simultaneamente adensando, um enigma.
Uma Abelha da Chuva é o texto de Carlos de Oliveira que mais aprecio. Mas em Finisterra, outra obra-prima, encontramos precisamente a origem portuguesa de tantos posteriores experimentalismos [atrever-me-ia a dizer que até de uma intelectual tão incensada ainda como Gabriela Llansol]. Sem falsas pirotecnias, sem forçar absolutamente nada, deixando que as palavras sejam guiadas pela alma das próprias palavras, pela sua poesia interna, que o leitor saboreia e a que regressa, um pouco perplexo, nunca certo de haver esgotado todo o seu sentido.
Há que voltar aos autênticos iniciadores. Há que reler os clássicos discretos. Há que nunca esquecer Carlos de Oliveira. [Que, pessoalmente, em matéria de escrita de romance, tanto me ensinou, mais até do "haver-me influenciado". Mas a quem interessa isso?] Há que retomar Uma Abelha na Chuva. Uma e outra vez.
domingo, 21 de agosto de 2011
O JORNAL PÚBLICO E UMA COLECÇÃO DE «NÃO-NOBEL»
Num duplo testemunho de cultura e bom gosto, o jornal Público tem vindo a publicar, todas as quintas-feiras, uma série de obras cujos autores não foram premiados senão pelo tempo. Como nos é lembrado, não só se trata de fazer justiça a um punhado de escritores maiores com os quais, por uma razão ou por outra, o Nobel se não quis comprometer, como de «voltar a dar aos leitores obras que há muito desapareceram das livrarias para dar espaço à proliferante produção contemporânea, nem sempre mais interessante do que aquela que a antecedeu».
Espanta-me que um jornal se atreva a uma tão meritória aventura. Porque é um risco. Hardy, Machado de Assis, Kazantzakis, Joyce, Remarque ou Chandler vieram, entre muitos outros, sendo paulatinamente editados. Pelos vistos, com tão pouca adesão dos leitores, que em alguns quiosques já nem encomendam os livros. O «público», não o jornal mas o conjunto de consumidores, é assim mesmo. Infelizmente: pouco atento, sem interesse; qual será o interesse (perguntar-se-ão muitos) de editar uma colecção de «não-Nobel», ao invés de uma de «Nobel»? Uma série de impremiados em vez de premiados? O cidadão comum não ia ser mais perspicaz que a Academia...
Espanta-me que um jornal se atreva a uma tão meritória aventura. Porque é um risco. Hardy, Machado de Assis, Kazantzakis, Joyce, Remarque ou Chandler vieram, entre muitos outros, sendo paulatinamente editados. Pelos vistos, com tão pouca adesão dos leitores, que em alguns quiosques já nem encomendam os livros. O «público», não o jornal mas o conjunto de consumidores, é assim mesmo. Infelizmente: pouco atento, sem interesse; qual será o interesse (perguntar-se-ão muitos) de editar uma colecção de «não-Nobel», ao invés de uma de «Nobel»? Uma série de impremiados em vez de premiados? O cidadão comum não ia ser mais perspicaz que a Academia...
sábado, 20 de novembro de 2010
MARGARIDA VALE DE GATO: MULHER AO MAR

Há várias maneiras de um livro ser ou devir invisível. Perdoem-me a insistência, como se me tivesse especializado no tema da «literatura invisível» ou, mais prosaicamente ainda, como se estivesse com uma tecla emperrada, marcando continua e obcecadamente um único carácter.
Mas para além de livros que desaparecem no tempo, e as editoras esqueceram de vez, outros existem que, apesar de recentes, no entanto não vingam. E evaporam-se. Não deixam sequer um rasto, a pegada a que teriam direito, e a que nós, leitores, temos direito.
Falo de um, que foi publicado em Abril de 2010; teve uma segunda edição de 300 exemplares. (Que é isso? Uma insignificância...). A seguir, desapar
eceu. Haviam-me falado acerca dele (e sou um ouvinte muito atento a esses rumores), não o encontrei, tive de o pedir, esperar, tornar a pedir, esperar ainda mais. Tenho-o por fim nas mãos - é um dos 300 exemplares da 2ª edição de Mulher Ao Mar, de Margarida Vale de Gato, a preciosa tradutora de vários autores ingleses. E não sei se de outros.
eceu. Haviam-me falado acerca dele (e sou um ouvinte muito atento a esses rumores), não o encontrei, tive de o pedir, esperar, tornar a pedir, esperar ainda mais. Tenho-o por fim nas mãos - é um dos 300 exemplares da 2ª edição de Mulher Ao Mar, de Margarida Vale de Gato, a preciosa tradutora de vários autores ingleses. E não sei se de outros.Gonçalo M. Tavares é um génio. A sua poesia é mesmo extra-terrestre. Visita-nos, vinda de um planeta desconhecido. Viagem à Índia é um livro maior. Mas o que quer que faça tem circulação imediata, exibição delirante, infindáveis comentários de sumidades que não há forma de se sumirem. E é um ganho que assim seja. Mas, na minha elementar opinião, Margarida Vale de Gato é uma poeta absolutamente extraordinária. (Emprego, para ela, o termo "poeta" deliberadamente, com uma vénia à minha amiga Elisa, que reserva "poetiza" para as poetas pequeninas, que se dedicam ao tricot das palavras). De modo que algo de injusto se insinua neste seu veloz regresso à invisibilidade. Vens do nada e ao nada voltarás!Se não injusto para a autora, que acredito que se não preocupe com tal absorção pelo esquecimento prematuro, sem dúvida para os leitores que a não descobrirão.
Este livro de umas setenta e tal páginas arranca-nos ao sossego e atira connosco para pinturas que principiam por nos enganar: sob a paciência e a virtude femininas, que a sociedade consagra, o que inesperadamente se abre, em cada um dos seus poemas, é a cortina para o sublime espectáculo dos segredos mais ocultos da mulher: a raiva e o desejo - mas isso não é novo, temo-lo vindo a saber, cada vez mais, nas últimas décadas -, a loucura do ciúme ou da culpa, a transgressão assumida, a hipocondria, o mero e tremendo ressabiamento. A sombra de Sylvia Plath, Emily Dickinson, Christina Rossetti ou Ana Karenina (que será, para todo o sempre, a sombra dessa luta contra os homens que as dominaram, ou desprezaram, ou incompreenderam até à morte...) pressente-se em todas as páginas.
Esta segunda edição acrescenta um pósfacio de Hélia Correia: as palavras com que fizera a apresentação do livro, no seu lançamento, em 25 de Abril; pretexto para equacionar a poesia de Margarida Vale de Gato como uma revolução. Relendo o texto de Hélia Correia, detenho-me nos meus sublinhados, «um rompimento assim a si mesmo se espanta. Perde as margens», «é a infiltração de uma desordem, de um descaramento - essa mulher de Rilke que bruscamente afasta as mãos do rosto de maneira que ele vai colado nas suas palmas, deixando, por momentos, o nada em seu lugar»; «A que com elas [com essas mulheres] fala alcançou já o outro lado do poema, aquele em que pode dizer o que quiser, como quiser, com as palavras que quiser». É talvez preciso uma mulher, e uma mulher como Hélia Correia, para compreender esta poesia «do outro lado», já sem proibições, que infiltra uma «desordem» e um «descaramento».
Toca-me particularmente, em Mulher ao Mar, a gramática revolucionária e ululante, como se as quebras de uma desordem interior, vivida por dentro de uma alma fragmentária, carecessem de se exprimir sob a forma de rupturas ou desvios sintácticos. Como se reconhecesse na poesia "rap", ou nos poemas de cer
tos cantos alentejanos, a forma irmã, expressão de uma outra respiração.
tos cantos alentejanos, a forma irmã, expressão de uma outra respiração. Uso literalmente, aqui, o termo "respiração": se o poema, como a canção, exige "ser dito", ser entoado em voz alta, então torna-se evidente que a respiração monocórdica, compassada, com pausas previstas, a que recorremos aquando das leituras de outros textos (nas leituras consideradas "bem feitas"), de nada nos serve aqui. Algo de uma asma plena de energia tem também de se infiltrar para que, ao dizer estes poemas, nos reecontremos com o seu negro sentido, nas asperezas do entrecortado, das pontes destruídas, das frases rompidas. Das vírgulas inexistentes, ou cortanto inesperada e provocadoramente a fluência. Pensando bem, não espanta que o tivessem suprimido. Toda a revolução, lembra Hélia Correia, tende a integrar-se: apomos-lhes, a prazo, «formas sossegadas», «uma assembleia, uma constituição, um modelo europeu». É o caso do 25 de Abril. Ou, então, não há formas sossegadas que se lhes aponham e as solucionem. Não há reconciliação. Como o livro de MVG. Que fazer? Ainda para mais ninguém lhe pega? Delete!
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
AS QUYBYRYCAS: IONANES GARABATUS, ALIÁS JOÃO PEDRO GRABATO DIAS

Agora que está prestes a ganhar uma incontornável - e porventura justíssima - visibilidade o último livro de Gonçalo M. Tavares, um poema em dez cantos, à maneira de Os Lusíadas, apetece-me contrapor-lhe um outro longo poema, anterior, igualmente extraordinário, porém invisível.
Hei-de talvez ainda falar de Uma Viagem à Índia, de GMT. Mas é uma obra que não carece de mais publicidade do que aquela que já a sufoca: tem um prefácio de Eduardo Lourenço; dedicam-lhe a capa e diversas páginas do JL: incensam-na; há-de estar mencionada nos próximos magazines literários. Já o poema a que me quero referir, escrito por um poeta quinhentista, Io
annes Garabatus, com 11 Cantos, intitula-se As Quybyrycas e parece ter-se sumido no tempo. Haverá aí quem se lembre deste «poema éthyco em outavas, que corre sendo de Luís Vaaz de Camões em Suspeitíssima Atribuiçon»? Pois é uma verdadeira obra-prima, a principiar logo pelo jogo entre falsidade e verosimilhança, pelas piscadelas de olho, pelo carácter satírico, enganador e burlesco, e político, como se verá, que o sustentam.Porque Ioannes Garabatus não existe, e o poema não data de Quinhentos, ao contrário do que garante, mas, mais prosaica e proximamente, de 1972.
O seu autor é João Pedro Grabato Dias; por sua vez, João Pedro Grabato Dias não existe senão como heterónimo do pintor e poeta António Quadros. No entanto, este longo texto (1180 estâncias), que começa por ser uma brincadeira - algo, no limite, semelhante à obra de um falsário, ainda que, em rigor, toda a literatura passe por esse jogo entre o verdadeiro e o falso - constrói-se como uma obra maior, «uma epopeia satírica e de sentimento anti-epopeico», que reconstitui, aparentemente, uma época, com o intuito de que lhe reconheçam os sinais da contemporaneidade, as dores, os males e os erros de Portugal dos anos Setenta, anterior ao 25 de Abril.

Todavia, está lá o rigor complexo da poesia superior, a beleza da expressão e do sentimento, o cuidado e o talento postos numa Arte que se não desleixa e não se deixou confundir, em momento algum, em excerto algum, com a mera
propaganda política.P.S.: Embora não haja sido deliberado, não deixa de ser interessante que a pesquisa, na internet, por imagens que ilustrassem o presente post, acabasse mostrando a diferença entre a visibilidade e a invisibilidade respectivas das obras e dos autores que refiro, através da brutal diferença entre dimensões e cores (ou ausência de cor) num e noutro caso.
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sábado, 23 de outubro de 2010
SUBSÍDIOS PARA UMA LISTA DE LIVROS INVISÍVEIS
Não é verdade que os livros não dêem dinheiro. Dão. Talvez não todos os livros e talvez não aos autores. Mas se não fosse um objecto de consumo capaz de fazer circular muita massa, não haveria tantos comerciantes de poucas letras a meter-se no negócio, a comprar direitos, a comprar escritores, a comprar livrarias, a comprar editoras, a absorver, a devorar.
Numa simples viagem pela galáxia dos blogues, descubro vários, alguns de grande qualidade, que se dedicam aos livros. Observo que, em geral, se trata de comentar os livros da moda, ou seja, os que estão aí, acabados de ser lançados, os que as editoras e as livrarias querem vender. Propositadamente ou não, conscientemente ou não, esses blogues reduzem-se, pois, a veículos de um monumental marketing. Assim funciona o sistema.
Isto só me enerva porque, entretanto, os livros que não estão na moda; os que não vêm agora mesmo das gráficas, ainda frescos de tinta; os que não acabaram de ser referidos na revista Ler, ou na Actual, do jornal Expresso, ou na horrorosa Os Meus Livros -, aqueles outros, permanecem completamente ignorados e esquecidos. Procurei, ultimamente, o Don Tranquilo, e assustei-me com tamanho recalcamento: não o conheciam; pediram-no à distribuidora, que mandou dizer, muito tempo mais tarde, que estava esgotado. Vale a pena mencionar o episódio porque, antes, já andara, atarantado, à procura de Maus, na tradução portuguesa, e mandaram-me passear; quis um romance de Ray Loriga, mesmo na Língua-Mãe do autor, e nada. Experimentem perguntar por Herzog, de Bellow. Ou por Fahrenheit 451, de Bradbury. Ou por Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein, que foi como uma Bíblia para os jovens que nós éramos.
O que eu penei por um certo livro de Mario Vargas Llosa (A Cidade e os Cães), antes de o «agraciarem» com o Nobel. Agora, claro, reeditaram-lhe a obra completa. Na altura, tropeçava em Gabriel Garcia Marquez por todo o lado, que não me interessava, e mal sabiam quem fosse Llosa.
Estou, no fundo, a elaborar a minha lista alternativa, uma lista invisível, de títulos que, por enquanto - até que haja uma nova tradução, ou algum prémio retrospectivo, ou a morte do autor, que tende a tornar a sua obra em best-seller - não interessam às editoras nem às livrarias. Nem ao menino Jesus. Esgotados? Não acredito. Mais facilmente os terão queimado, para não incorrerem no crime de lesa-despezismo que é manterem-nos em depósito!
E é assim que as livrarias nos apresentam uns suspeitos tops de vendas, que duvido que não sejam forjados em função de quem pague mais, como parte deste marketing que nos cria apetências e condiciona o que devemos ler, ao mesmo tempo que nos desaparece da vista - e do coração, e do pensamento - o que poderíamos ler.
Não consigo fugir a este sistema. Nem quero. Mas tento não lhe estar submetido. Comprei, por exemplo, Livro, de José Luís Peixoto, e estou já à espera do próximo de Gonçalo M. Tavares. Mas, entrementes, é claro, faço questão de me não me deixar manipular por essa agenda. Não que tal resistência tenha, em si, alguma importância. Ah, não se leia este texto como um manifesto. Já se entendeu que não estou do lado daqueles que recusam ler o que «todo o mundo anda a ler». Só não abdico de continuar procurando e de, aqui, falar acerca daquilo que ninguém anda a ler. Daquilo que está a um passo de nos desaparecer das memórias curtas.
De cada vez que consigo devolver, à consciência, algum livro recalcado, seja porque mo emprestaram, seja porque o trouxe de uma biblioteca, ou porque existia um depósito em que restava um derradeiro exemplar, recordo esta verdade simples: a literatura é infinitamente mais do que aquilo em que o mercado toca.
Numa simples viagem pela galáxia dos blogues, descubro vários, alguns de grande qualidade, que se dedicam aos livros. Observo que, em geral, se trata de comentar os livros da moda, ou seja, os que estão aí, acabados de ser lançados, os que as editoras e as livrarias querem vender. Propositadamente ou não, conscientemente ou não, esses blogues reduzem-se, pois, a veículos de um monumental marketing. Assim funciona o sistema.
Isto só me enerva porque, entretanto, os livros que não estão na moda; os que não vêm agora mesmo das gráficas, ainda frescos de tinta; os que não acabaram de ser referidos na revista Ler, ou na Actual, do jornal Expresso, ou na horrorosa Os Meus Livros -, aqueles outros, permanecem completamente ignorados e esquecidos. Procurei, ultimamente, o Don Tranquilo, e assustei-me com tamanho recalcamento: não o conheciam; pediram-no à distribuidora, que mandou dizer, muito tempo mais tarde, que estava esgotado. Vale a pena mencionar o episódio porque, antes, já andara, atarantado, à procura de Maus, na tradução portuguesa, e mandaram-me passear; quis um romance de Ray Loriga, mesmo na Língua-Mãe do autor, e nada. Experimentem perguntar por Herzog, de Bellow. Ou por Fahrenheit 451, de Bradbury. Ou por Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein, que foi como uma Bíblia para os jovens que nós éramos.
O que eu penei por um certo livro de Mario Vargas Llosa (A Cidade e os Cães), antes de o «agraciarem» com o Nobel. Agora, claro, reeditaram-lhe a obra completa. Na altura, tropeçava em Gabriel Garcia Marquez por todo o lado, que não me interessava, e mal sabiam quem fosse Llosa.
Estou, no fundo, a elaborar a minha lista alternativa, uma lista invisível, de títulos que, por enquanto - até que haja uma nova tradução, ou algum prémio retrospectivo, ou a morte do autor, que tende a tornar a sua obra em best-seller - não interessam às editoras nem às livrarias. Nem ao menino Jesus. Esgotados? Não acredito. Mais facilmente os terão queimado, para não incorrerem no crime de lesa-despezismo que é manterem-nos em depósito!
E é assim que as livrarias nos apresentam uns suspeitos tops de vendas, que duvido que não sejam forjados em função de quem pague mais, como parte deste marketing que nos cria apetências e condiciona o que devemos ler, ao mesmo tempo que nos desaparece da vista - e do coração, e do pensamento - o que poderíamos ler.
Não consigo fugir a este sistema. Nem quero. Mas tento não lhe estar submetido. Comprei, por exemplo, Livro, de José Luís Peixoto, e estou já à espera do próximo de Gonçalo M. Tavares. Mas, entrementes, é claro, faço questão de me não me deixar manipular por essa agenda. Não que tal resistência tenha, em si, alguma importância. Ah, não se leia este texto como um manifesto. Já se entendeu que não estou do lado daqueles que recusam ler o que «todo o mundo anda a ler». Só não abdico de continuar procurando e de, aqui, falar acerca daquilo que ninguém anda a ler. Daquilo que está a um passo de nos desaparecer das memórias curtas.
De cada vez que consigo devolver, à consciência, algum livro recalcado, seja porque mo emprestaram, seja porque o trouxe de uma biblioteca, ou porque existia um depósito em que restava um derradeiro exemplar, recordo esta verdade simples: a literatura é infinitamente mais do que aquilo em que o mercado toca.
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