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terça-feira, 12 de junho de 2012

GIL DUARTE & ANA CRISTINA MARQUES. ZEN: HISTÓRIA DAS MINHAS VIDAS

Podem ver a capa aqui na margem esquerda do Blogue.
É a última criança produzida, em co-autoria (como todas as crianças, aliás), por mim e pela Ana Cristina. Sou o escritor da história de Zen, o gato, e Cristina, mais do que a excelente ilustradora, é a impressionante autora da capa, da paginação, de todos os contactos que permitiram que o livro exista como objecto físico.

Quanto dinheiro se venha a obter em vendas, integralmente reverterá para a Causa dos Gatos [e para a Casa dos Gatos que é a GV].

Tem graça, neste projecto, que certa vez eu tenha dito à Cristina: «Odeio livros sobre animais». Estávamos numa livraria e folheávamos uma coisa chamada "Marley"; ou seria "O Filósofo e o Lobo"? Ou aquele outro que já não me lembro como se chama? É que uma coisa não tem que ver com outra: gostar muito de animais não há-de significar, por força, gostar muito de livros sobre os ditos. Mas, bom, contraditoriamente, "Zen" é já o segundo. [Lembram-se de "Mira-Lata"?]

Para o comprarem? Para o encomendarem? Não sei. O livro escapou-me, nunca me pertenceu - mas, também, nenhum livro pertence ao seu autor, a não ser vagamente durante o tempo em que está sendo escrito. Mas hei-de pedir um "link" que aí vos conduza...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

GONÇALO M. TAVARES: O SR. ELIOT E AS CONFERÊNCIAS


Gonçalo M. Tavares esteve hoje na minha escola, sabem? Ah, sim, roam-se de inveja. Apesar das solicitações, dos prémios, das viagens, respondeu com a maior das simplicidades ao meu convite, ou melhor, à minha insistência, e entrou às catorze e pouco, cansado, com a sua barba e os seus caracóis, uma voz muita pausada, para «animar» (palavra da moda) um «workshop» (esta não vou sequer comentar). Foi delicioso: o erro era o seu tema e ponto de partida - e o ponto é que no «erro», que a escola proscreve e os educadores aparam, ou corrigem, Gonçalo nos mostrou a emergência de toda a criatividade. Há algo verdadeiramente novo que não seja um erro em relação aos cânones? A um certo conceito do que «deve ser», do que deveria ser para estar certo?

De alguma maneira, O Senhor Eliot e As Conferências, de Gonçalo Tavares, é também um livro que se vai construindo em redor de um erro, ou de um ângulo errado. Ou de sucessivos ângulos errados. Obviamente, não posso dizer muito mais do que isto - e é pena, porque me apetecia, mas qualquer palavra em excesso estragaria o prazer da descoberta.

Há, de facto, um senhor Eliot como personagem: mas que Eliot é este? T. S. Eliot? Os nomes resultam, em GMT, de uma apropriação incompleta, mais simbólica do que realista: Eliot é Eliot e não é Eliot - um nome canaliza determinada energia histórica e biográfica, absorve certas referências, mantém uma aura, uma mitologia, mas, para além disso, a personagem que comunga esse nome com um escritor é uma caricatura; remete para o nomeado a partir de uma chave que distorce. Este Eliot, personagem de Tavares, é um escritor que faz uma série de conferências acerca de poesia. Cada conferência se debruça sobre um verso conhecido - as palestras têm, na assistência, Borges, Breton, Balzac ou Swedenborg. (Wahrol espreita a sala, numa das conferências, mas desaparece rapidamente).

Claro que o interessante é cada uma das comunicações de Eliot. O interessante é a abordagem de Eliot, o seu olhar clínico e racional. Os efeitos são imprevisíveis e muito engraçados. Trata-se de sete, sendo que a sétima não existe senão como título e promessa. A não ser que o meu exemplar tenha páginas a menos. Mas com Gonçalo M. Tavares não se sabe, nunca se sabe. Em todo o caso, o pequeno volume de capa alaranjada, com desenhos nervosos da autoria de Rachel Caiano, é uma obra leve e estranha, intrigante e surpreendente. O humor, a estranheza, a distorção. A criatividade usando os hábitos e as referências comuns para formar um universo paralelo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

FRIEDRICH NIETZSCHE: A GAIA CIÊNCIA


Agora que tenho andado sem leituras novas, acabando, simultaneamente, vários livros começados em diversas fases, interrogo-me sobre qual o livro de que gostaria de falar no blogue. Existe algum que me tenha marcado inesquecivelmente e ainda aqui não referisse? A pergunta, como perceberam, é uma ironia de efeito retórico. Existem inúmeros, claro. Aliás, deixem-me já tomar nota de alguns, para me lembrar mais tarde: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O Idiota, de Dostoievski. Os fabulosos: Canção de Amor de Mr. Prufrock, e: Terra Devastada, ambos de T. S. Eliot. E o Quijote? Ou o bizarro Almas Mortas, norteado por uma ideia absolutamente impagável?

Deixemo-nos de divagações. Duas razões me põem no trilho de um certo livro cuja leitura resgato hoje à memória: o facto de Beatrix citar amiúde esse autor; e o facto de me ter lembrado dele no decurso da discussão com Francisco (que aqui já também mencionei). Começo então por dizer de que autor se trata: Friedrich Nietzsche. Livros seus poderiam ser vários, de entre aquela série de Obras Escolhidas, numa tradução cuidada, que a Relógio D'Água editou. Mas decido-me: nenhum Nietzsche me influenciou como o Nietzsche de A Gaia Ciência.

Não que todos os meus conflitos com o filólogo-filósofo estejam definitivamente sanados. Não poderiam está-lo, uma vez que há poucos pontos comuns entre nós dois (perdoem-me a ousadia da comparação): ele é um filósofo e um escritor de génio e eu sou um leitor limitado; ele leva a sério a plenitude do pensar por si próprio, enquanto, pelo contrário, algo do espírito de rebanho faz parte da minha condição: Nietzsche, a despeito dos factores históricos e culturais que terão determinado o seu pensar, pensa sempre autónoma e indomavelmente. Já eu estou demasiado preso ao que a minha História e o meu tempo me ensinaram a «dever» pensar.

É Nietzsche que me ensina, aliás, a reconhecer em mim mesmo essa cobardia: «A reprovação da consciência», escreve ele, «mesmo entre os mais conscienciosos, é fraca em comparação com o seguinte argumento: "Isto ou aquilo é contrário aos bons costumes da tua sociedade". O olhar frio, a boca contraída da parte daqueles entre os quais e para os quais a pessoa foi educada, eis o que mesmo o mais forte teme. Que é que ele verdadeiramente receia? O isolamento! Este argumento é capaz de abalar mesmo os melhores argumentos para uma pessoa ou para uma causa. Assim se exprime, em nós, o instinto gregário.» [A Gaia Ciência, # 50]. Mas, talvez precisamente por causa da auto-crítica a que ele me conduz, detecto, nos seus textos, a respiração oposta, a inteligência contrária ao «instinto gregário», a liberdade e a coragem que chamam por mim, comigo se confrontam e nunca me deixam dormir.

A Gaia Ciência é uma poesia singular: escrito em parágrafos, tão ao jeito de Nietzsche, alguns brevíssimos, outros relativamente longos, e naquele tom religiosamente ateu, aforístico e arrogante que o caracterizam, este livro compraz-se com o paradoxo e a constante deslocação de ângulo (frequentemente: inversão) relativamente àquele em que assenta o hábito e o senso comum. É fascinante seguir a lucidez e a habilidade subtis de uma tal operação de mudar de enfoque, da procura de um olhar fresco e sem lastro, desmistificador, irónico e perigoso. É uma poesia (insisto: muito mais do que uma filosofia) à procura da alegria do saber: uma alegria que nos parece impiedosa e injusta, porque é sempre a assunção da vitalidade e da força que empurram «continuamente para longe de nós algo que quer morrer».

A Gaia Ciência é - foi sempre, para mim - o livro de um inimigo. Um inimigo fortíssimo e sem o qual teria ficado mais pobre. Não é qualquer um que consegue ser tamanho e tão digno inimigo: competente e completo. Digo-o com o reconhecimento e o carinho que lhe são devidos. Gosto muito dos meus amigos. Todavia, sei que - raramente, mas às vezes - surgem inimizades que fazem mais pela nossa evolução do que algumas amizades.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

E ASSIM TERMINA O DESAFIO. FORAM OS MEUS 10 LIVROS EM 10 DIAS

10º dia.

10ª: Qual o livro mais velho que tem ou já leu?

Pertenceu a minha mãe; quando comecei a vasculhar estantes, esse livro já existia em nossa casa há muitos anos. Recentemente, reencontrei-o e trouxe-o comigo. É, curiosamente, uma peça de teatro. Não estamos a falar da obra mais «antiga» que já li (seria a Odisseia ou a Ilíada, naturalmente), e sim da edição mais «velha» que já me passou pela mão. Este volumezinho é dos anos quarenta.

The Winslow Boy, de Terence Rattigan.

Suponho que nunca foi traduzido: usávamo-lo para treinar a leitura do inglês.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

9º DIA, 9ª PERGUNTA E UMA VIAGEM À INFÂNCIA

9ª pergunta: Qual a série de livros de que mais gosta?

Esta pergunta é ambígua. Que se entende, precisamente, por série de livros? Uma colecção, por exemplo? Uma obra em vários volumes (como Em Busca do Tempo Perdido, como Guerra e Paz?)

Lembro-me de uma série de livros de Júlio Verne. Gostava de uns, gostava menos de outros. Mas essa «série» está enraizada nas memórias da minha infância. Mais tarde, os «Sete» raptaram-me a atenção. Opto por estes.

Série O Clube dos Sete, de Enid Blyton

(E todas as séries de Enid Blyton).

domingo, 10 de outubro de 2010

8º DIA

8ª pergunta:

Que livro menos recomenda?

Então, escolhamos uma resposta imprevisível. Mas honestíssima. Um dos livros que menos recomendo, talvez o que menos tenha recomendado é, contudo, um livro de que gosto muito, de um autor russo, que principiou a escrever em inglês relativamente tarde, o que o não impediu de se transformar num mestre da língua inglesa. O seu poder de síntese é extraordinário; o domínio da alusão e da metáfora devem ser objecto de uma contínua aprendizagem por parte de aspirantes a escritor.

Refiro-me a Lolita, de Vladimir Nabokov.

Por que o não recomendo? Por um par ou por um terceto de razões óbvias. Porque tenho medo que me interpretem mal. Porque vivemos num tempo em que, mesmo na literatura, os tabus são cultivados. Porque é politicamente incorrecto e talvez até eticamente repreensível gostar desta obra. É mesmo? Claro que não. Mas, pelo sim pelo não, e porque as pessoas são muitas vezes patetas, evito recomendá-la.

sábado, 9 de outubro de 2010

7º DIA: ACERCA DE PROUST E NÃO SÓ

E eis-nos chegados ao 7º dia de um desafio que me pareceu estranho e curioso. Se uma lista é sempre uma série de reduções (tenho consciência de que, por cada livro escolhido em cada um dos dez dias, há centenas de possíveis outros que elimino), não deixa de ser também verdade que cada escolha tem, subjacente, uma história ou uma razão (que resumo); e que, no conjunto, os dez livros formarão uma Gestalt, uma forma própria, um conjunto que me revela: é, sob o modo de uma minúscula biblioteca de livros que se complementam ou repelem, uma expressão do que eu próprio sou como leitor.

7ª pergunta: Que livro mais recomenda?

Não posso responder intemporalmente. Em diversas fases da minha vida, em diferentes momentos de descoberta e paixão, recomendei, obviamente, diferentes livros.
Porém, se quiser assentar sobre o livro que mais recomendei nos últimos meses, a resposta será:

Proust era um Neurocientista, de Jonah Lehrer.

Apesar do título, Lehrer não fala unicamente acerca de Proust. Fala de Withman (atenção, Beatrix!), de Virginia Woolf e de muitos outros criadores (na poesia, na música, na pintura, na culinária até) do ponto de vista daquilo que, na obra de cada um deles, era, artisticamente, se assim podemos dizer, uma antevisão de algum conhecimento que a "neurociência" mais tarde confirmaria.

Recomendei, emprestei, indiquei.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

6º DIA

6º dia, 6ª pergunta: Que livro menos lhe prendeu a atenção?

Lembro-me de um, entre outros candidatos ao desonroso lugar. Requisitei-o na Biblioteca da minha escola. Que raio me terá feito escolhê-lo, entre outros, tão bons? Talvez a capa dura, típica das obras do Círculo de Leitores. Talvez o título. Talvez o nome do autor, que me era desconhecido, mas não completamente, transmitindo-me, nessa indefinição, a ideia de que se trataria de «um autor a conhecer». Ora, não sei, não me recordo. Em suma, trouxe-o.

Chama-se O Plano Perfeito, de Sidney Sheldon.

Andei dois ou três dias com ele na pasta. Reiniciei-o várias vezes. Devo ter acabado por chegar a metade do todo. Era vazio, insípido e em nenhum momento de nenhuma linha de página alguma me aqueceu ou me arrefeceu. Nenhuma ideia me fez parar ou pensar. O que li, li como um autómato. Ou não propriamente como um autómato porque, interiormente, ia pensando em outras coisas, planeando passeios ou visitas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

E NO 5º DIA, UMA 5ª PERGUNTA

5º dia, 5ª pergunta.

5ª: Que livro mais lhe prendeu a atenção?

No fundo, a resposta é sempre insuficiente porque, em rigor, o livro que mais me prendeu foi, também, o de que mais gostei - ou seja, em síntese, Proust, Proust, Proust, o omnipresente Em Busca do Tempo Perdido. Mas para não dar uma resposta única, posso sempre assumir que, não contando com esse - que estará sempre subjacente, mas é outra coisa, todo um outro universo -, então o livro que mais cativou a minha atenção, ou - noutro sentido - mais exigiu da minha atenção, foi:

Crítica da Razão Pura, de Imannuel Kant.

Não foi, sequer, da obra de Kant, o livro que mais me interessou. Ou mais me marcou. Não. Foi aquele em que cada período pediu absolutamente todos os recursos da minha atenção.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

E ESTAMOS NO 4º DE UM TOTAL DE 10 DIAS

4º pergunta: Qual o livro mais caro que já comprou?

Aí, sou positivo. Lembro-me bem. Comprei-o para oferecer; curiosamente - ou não -, a pessoa a quem o ofereci, ofereceu-me, na mesma altura - Natal? - idêntica obra.

História do Feio, de Umberto Eco.

Era um livro merecidamente caro.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

3º DIA: 10 LIVROS EM 10 DIAS

3. Qual o livro mais barato que já comprou?

Nem uma dúvida. Nenhuma, absolutamente.

The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald.

Trouxe-o, recentemente, de uma viagem a Houston, por menos de 3 dólares.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

2º dia: 10 Livros em 10 dias

Mais uma pergunta:

2º - Que livro mais odiou?

Não tendo a odiar livros. Não tenho problema algum em deixar um livro a meio, quando sinto que estou começando a odiá-lo. E se algum me desagradou, passado tempo acabarei por esquecê-lo.

Se, apesar de todos estes considerandos, há, mesmo assim, um livro que me vem imediatamente à memória quando associo o verbo "odiar" a uma leitura que tenha feito, é porque de facto o odiei. Irremediavelmente! Medíocre, mal escrito, sem ideias, gratuitamente ordinário e grosseiro, triste, vazio, inepto.

Ou seja: o livro que mais me odiei foi: Vai uma Queca?, de Miguel Dias

domingo, 3 de outubro de 2010

10 LIVROS EM 10 DIAS: UM DESAFIO VINDO DE LONGE

Ana Pádua, de quem descobri, há pouco, o blogue, lançou um desafio chamado 10 livros em 10 dias.

Em cada um desses dez dias, se responderia a uma pergunta sobre um livro.

A primeira pergunta é:
1. Qual o livro de que mais gostou?

E a essa respondo, sem pestanejar: À la Recherche du Temps Perdu.

Pode parecer um truque sujo, porque A Busca é constituída por sete livros, não por um.

Assim, sendo mais específico, responderia: o último. (Sendo que só faz sentido, no entanto, ler esse último após haver lido os seis anteriores).

Portanto, a minha resposta, agora mais precisa, seria: O Tempo Reencontrado [VII volume de Em Busca do Tempo Perdido], de Marcel Proust.