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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

PAULO FARIA: GENTE ACENANDO PARA ALGUÉM QUE FOGE


Iniciar a leitura de Gente Acenando para Alguém que Foge equivale, de certo modo, à entrada num território em movimento, um emaranhado de memórias e de referências que o leitor não consegue imediatamente situar. Quem é, por exemplo, esta viúva, Amália, tão cara ao narrador, e de quem ele fala sem no-la haver apresentado? Seu pai (outra personagem central na sua ausência) já morrera, quando ele conheceu Amália? Fernanda era mulher de um casamento anterior? Camila, de quem é filha? Do mesmo modo, não percebemos durante algum tempo (ou durante algumas páginas, alguns capítulos, enquanto processamos: um pouco como num jogo de várias entradas, tempos, universos, que alternam inesperadamente, mas acabarão por confluir numa construção harmónica) quem é o seu interlocutor: aquele "tu" a quem se dirige.

Posto assim, pensar-se-ia que estou a dizer mal. Ora trata-se, pelo contrário, de um extraordinário romance, e em grande parte por isso. Há uma lógica que se estranha, antes que se entranhe. Uma história que se ama porque nada nela nos é oferecido sem luta, porque tudo se reconstitui e se vai compreendendo lentamente, ao longo do processo. Desse mundo nebuloso, e a que no entanto nos ligamos desde o princípio por uma escrita emotiva, lindíssima (e, diga-se: por um começo que nos prende), vai acabando por se desenhar, poderíamos dizer por si própria, sem que o narrador precise de a explicitar ou impor, uma linha narrativa: uma história.

Um destino é Moçambique, aonde Carlos pretende ir conhecer a criança, agora um adulto, que seu pai deixara ficar: para mim, daí oriundo, o retrato de um Moçambique pós-colonial, pobre e degradado, não pode não tocar de uma profunda tristeza. São exibidos lugares que eu conheci bem e já nada são, e em tudo se sente uma decadência que não é possível esconder em nome de nenhuma ideologia. O trecho referente à visita ao Museu de História Natural, com a apresentação do tremendo combate entre o búfalo e as leoas, que me assustou e fascinou na infância, agora reduzido a uma luta entre bonecos em que o recheio de palha se deixa ver, as unhas artificialmente repintadas, é o exemplo dessa corrupção, desse abandono, desse desinteresse, ou dessa falta de dinheiro para manutenção, ou de uma mudança de prioridades a que a escassez obrigou. Estou longe de entoar, aqui, o fado do retornado, como, no romance, também se não assume qualquer posição crítica ou nostálgica: apenas a descrição crua e provavelmente real(ista) de uma cidade que se deixou decair.

Mantém-se magistralmente a tensão entre a ida a Moçambique, e um passado português vibrante de episódios, da qual vamos extraindo, aos poucos, a narrativa: uma narrativa não-linear, confrontando várias idades, diversos tempos, da infância à maturidade. São episódios contados com um sentido de humor e do trágico, do tragicómico na verdade, que nos desconcertam. Basta lembrar o primeiro almoço em que o narrador é convidado para casa dos pais da sua namorada (Fernanda): o elevador que pára, o pai do lado de fora, como um perdigueiro, os bombeiros que acorrem e a forma como, por fim, entraram todos "no apartamento quase a correr, como se a porta fosse automática e estivesse prestes a fechar-se sozinha." Ou, poucas páginas adiante, aquela passagem em que se nos conta como o narrador irá, com a família da namorada, em visita à casa que os senhores possuem em Salir, e de onde, contudo, regressarão inopinadamente a Faro, impelidos pela estranha doença da mãe de Fernanda. Ou ainda o próprio casamento; ou o suicídio do pai de Fernanda. Ou, mais tarde (outro tempo, outro universo) a compra dos lugares nas bichas, para tratar do passaporte, sob os auspícios de um sr. Almeida e de um sr. Santos (há sempre um sr. Almeida e um sr. Santos).

Vejo, aqui, sobretudo, um romance acerca da impossibilidade das relações (onde Djaimilia Pereira de Almeida, num «posfácio» absolutamente magnífico, vê um romance que tem como chave as dívidas e a fome); vejo um narrar cujo leitmotiv será a sensibilidade e o sentimento de perda e de culpa de que todas as relações estão contaminadas. Paulo Faria toca como ninguém esse nada que nunca preenchemos; essa consciência de uma falta permanente, de uma falha na capacidade de sermos felizes a dois. Dessa ordem é a tristeza que persiste, comovente, terrível, perante a sua filha Camila. (Ah, Camila, uma dor cravada na sensibilidade de um pai, a preocupação contínua, a expulsão de casa, o amor apiedado: "Amamos os outros o melhor que sabemos e fazemos-lhes mal.")

É também a necessidade de preencher a falha impreenchível que herda do pai, aquilo que o faz rumar a Moçambique. Como dirá outra personagem, «as pessoas, chegando a uma certa idade, parece que estão cheias de coisas que ficaram por acabar». Ou, como explica Djaimilia, «muitas vezes, somos chamados a reconstruir um lugar que não nos lembramos de ter deitado abaixo». Daí, pois, essa mágoa  perante as fotografias de um menino, entre tropas, que ficou para trás.  O dever de acabar o que seu pai deixara inacabado, de salvar o que, na verdade, já  não pode salvar - já não existe o "menino"; crescemos todos (o leitor também, é claro); o passado é impossível de resgatar. A falha é uma condição humana. 

domingo, 26 de junho de 2016

SHIRLEY HAZZARD: O GRANDE CONFLITO



Escrevi já que, a despeito das inúmeras fragilidades que lhe detectava - entre as quais uma confrangedora ausência de auto-ironia -, o livro Remédios Literários teve o mérito de me chamar a atenção para alguns romances possivelmente interessantes. Encomendei O Grande Conflito. Fiz muito bem.

A obra recebeu o National Book Award em 2003. Em Portugal, foi traduzido e publicado pela Gradiva em 2006. Um tempo em que,  a julgar por este caso, a Gradiva era uma editora a sério, que tinha ao seu serviço pelo menos uma tradutora excelente, Maria de Fátima St. Aubyn, rigorosíssima no seu inglês e no seu português, responsável por notas de tradução competentes, indispensáveis e que esclarecem, efectivamente.


A escrita é exigente; clama por leitores de paladar requintado; convida a uma leitura que degusta sem pressa, concentradamente. A riqueza das figuras de estilo - «Antes de o comboio iniciar sequer a marcha, os rostos na plataforma adquiriram a expressão dos que ficam» ou «Teve consciência de um qualquer elemento importante que não identificara. Com indiferença, percebeu que se tratava da beleza» - e a perfeição no uso da narração indirecta livre são elementos de composição que merecem ser analisados por si sós, porventura numa segunda leitura.

Um romance tem de ferir. Uma história inesquecível tem, por força, de nos inquietar. Deve empurrar-nos para algo sobre que, na sua particularidade, não tenhamos ideias feitas; ou deve obrigar-nos a refazer as ideias que julgávamos inquestionáveis. O leitor de um grande romance é sempre uma figura frágil e vulnerável, uma espécie de caniço ao vento. Não somos capazes de abordar uma grande-grande-grande obra trazendo no bolso condenações fáceis, antecipadas e previsíveis, segundo qualquer moral: ninguém é capaz de atirar pedras a Anna Karenina, ao Padre Amaro, a Madame Bovary, a Aschenbach (cuja atracção, aliás, está sempre contida nos limites de um pudor e de uma delicadeza primorosos) ou sequer a Humbert Humbert. Trata-se sempre mais de compreender e de nos interrogarmos a nós próprios do que de julgarmos e proscrevermos. Neste sentido, as traições e as perfídias, as obsessões transgressoras e as paixões pecaminosas, os erros e as perversões, por inaceitáveis que sejam segundo os códigos da civilização, tornam-se, nos romances, apenas a exposição da condição humana, da impossibilidade da pureza e, portanto, de uma sua dimensão trágica. O Grande Conflito, evidentemente, é isso: num perturbador cruzamento entre Reviver o Passado em Brideshead, Morte em Veneza e Lolita . Gostaria muito que a Teresa, autora do extraordinário blogue A Gota de Ran Tan Plan, onde há muito não escreve - e que há muito me não visita - pudesse, ela que me trouxe nada menos que d'Ormesson, dizer-me o que pensa deste romance.

Hesito muito em alargar-me. Sinto que, de alguma forma, as autoras que me levaram à descoberta me amputaram precisamente de alguns aspectos no prazer da descoberta: revelaram excessivamente, e portanto eu já sabia uma parte essencial do enredo. Mas o contexto histórico é o pós-Guerra (1947), e as personagens, inglesas, australianas e norte-americanas, conhecem-se no Japão (ou encontram-se numa China prestes a ser tomada por Mao), num período em que os ecos de Nagasaki e Hiroxima se não esvaíram totalmente. É nesse clima de ruína e de culpabilidade que estas pessoas de gerações diferentes, todas elas carregando também, a seu modo, histórias pessoais de abandono e destroço, se deixam mutuamente encantar: como se sob os escombros e a impossibilidade, as diferenças e o conflito, se escutasse o ténue canto de uma promessa de eternidade em vida. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

DAVID ALMOND: O MEU NOME É MINA E GOSTO DA NOITE



Sendo eu professor de filosofia, não me espanta a desgastante insistência com que amigos, meros conhecidos, colegas, alunos, durante anos me convidavam à leitura de O Mundo de Sofia. «Genial», houve quem jurasse: «Uma genial introdução às teorias filosóficas fundamentais.»

Nunca apreciei O Mundo de Sofia. Uma história de segundo plano, criada unicamente com intuitos didácticos, isto é, como forma [pouco convincente] de ligar explanações das teorias, não poderia ser mais do que uma obra arrumada e previsível. Como um manual com pretensões a ser divertido, «lúdico», na verdade complacente.

O Meu Nome é Mina e Gosto da Noite, por outro lado, constitui tudo quanto O Mundo de Sofia desejaria ser sem disso minimamente se aproximar.

O Meu Nome é Mina é o título de uma obra secundariamente didáctica - e talvez resida aqui o seu segredo -, com o objectivo principal de nos surpreender e encantar. Não é um meio para, mas um fim em si mesmo: o exercício poético de desvendar o mundo, através dos olhos de uma rapariguinha que se não adapta aos filtros que os educadores oficiais impõem.

A escola - e as instituições educativas em geral - é explicitamente tratada como uma gaiola. Não dá a ver, torna pelo contrário invisível tudo o que transborda dos padrões; não nos abre para segredos e insuspeitadas possibilidades, antes fecha-nos para eles; ignora-os sistematicamente. Pior: rejeita-os. Nunca se preocupa com o encantamento. A sua esfera é do simples treino, que desencanta. Não nos torna sábios: limita-se a dotar-nos de competências.

Onde, neste romance, temíamos um reajustamento, uma reviravolta final, descobrimos que não haverá reviravolta. A escola manter-se-á, da primeira à última página, um inimigo idiota: uma estrutura burocrata e mutiladora, uma fábrica de incompreensões.

O romance visa ensinar-nos alguma coisa? Sem dúvida. Fala-nos da metempsicose; passeia-se por antigos mitos, antigos deuses e antigos lugares sagrados; ou de como os ossos das aves são ocos, e por isso mais leves, para que elas consigam voar, ou de sermos pó de estrelas; mas fá-lo como estratégia poética, mais do que como um método para nos fazer «aceder a conteúdos»: os conhecimentos que interessam a Mina são muito bonitos e surpreendentes, nascidos no lugar onde a ciência e a poesia se fundem, e valem pela sensação de leveza, beleza e espanto que lhe proporcionam, e ao leitor. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

TOMASI DI LAMPEDUSA: SHAKESPEARE


A Teorema edita, de Lampedusa, um livro intitulado Shakespeare: é um capítulo de um seu Curso de Literatura Inglesa.
Porque Lampedusa é Lampedusa [de O Leopardo: não vale a pena acrescentar seja o que for] e porque Shakespeare é Shakespeare, eis um livro para o qual já comecei a juntar dinheiro.
No jornal i fala-se, a propósito desta obra, em erudição e sentido de humor. Não era necessário.
A partir do momento em que li: há um "Giuseppe Tomasi de Lampedusa" acerca de "William Shakespeare", já me tinha rendido.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UM PUNHADO DE LIVROS DISPOSTOS À RODA DE MIM

Estou com mais do que um livro entre mãos. Ainda não acabei Um Par de Olhos Azuis. Iniciei Fome. Não resisti e comprei um outro, na fnac - cujo nome não sou capaz de referir de memória. Mas, entretanto, emprestaram-me um, de Domingos Monteiro: um romance, não um conto. (Só conhecia, de Monteiro, um punhado de contos). Chama-se O Caminho Para Lá e, de facto. prendeu-me. Os outros estão, momentaneamente suspensos. Por excelentes que sejam, aguardam - às vezes acontece-me isto: um certo livro impõe-se, exige uma relação de exclusividade, e eu comprometo-me.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

INICIANDO A LEITURA DE CANETTI

Um livro volumoso, com uma capa cor-de-laranja que prende os olhos.
Auto de Fé, como título, escrito "Auto-de-Fé", com advertência, algures, de que se optou deliberadamente pela forma errada, com hífen, por razões estéticas e de design (o que é, no mínimo, francamente discutível, sobretudo atendendo-se à vantagem gráfica obtida).
O autor é Elias Canetti.
Já me disseram: «É sempre a mesma coisa. Assim que recebes, entras logo numa livraria e vens aviado...»
(Pensavam que me tinham dito algo sobre Canetti, ou sobre o livro, não? O que me disseram foi unicamente o que vim de escrever...)
Se sinto culpa? Arrependimento? Ora, ora, ora. Se bem me conheço, à segunda página, o mais tardar, isso passa-me.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CARVER


Acabei, ontem à noite, de ler Catedral, de Carver.

E se já me tinha referido, aqui mesmo, ao agradável espanto que foi a descoberta - já tardia - dos contos deste autor; se escrevi um post sobre as suas personagens e situações, e (como diz o próprio) sobre a sua arte de trabalhar eficazmente os «lugares comuns», não pensei que, chegando ao último conto, precisamente «Catedral», presenciasse tamanha superação das histórias que ficavam para trás. [Que no entanto, repito para que não subsistam quaisquer dúvidas, já me tinham impressionado muito].

«Catedral» é soberbo. É verdadeiramente fantástico! Socorro-me de adjectivos, que, em geral, prefiro evitar. É um conto perfeito: no sentido de humor politicamente incorrecto, quase cruel, mas que, no fundo, não exprime senão o misto de ciúme, curiosidade e ignorância com que o narrador nos conta como hospedou, em sua casa, um homem cego, amigo antigo de sua mulher; na fronteira, pouco nítida, entre, uma vez mais o «lugar comum», e uma sensaçõe de estranheza que ronda, vai penetrando, penetrando, e corroendo os alicerces da normalidade; e pela ideia, propriamente dita, em volta da qual o conto se fabrica. A ideia que, na sua imprevisível simplicidade, representa, ao mesmo tempo, um tratado acerca da visão e a invisão; (um ensaio sobre a cegueira?); e acerca dessa espécie de mundo que se abre, ensinando e tranformando, secretamente, aqueles que procuram ensinar e transformar alguém; e acerca de como, no terreno do desconhecido e do incompreensível, nos aguardam as portas de novas compreensões - porventura inexplicáveis, elas próprias...


Saio hoje do trabalho, desço a uma livraria. «Qua mais tem de Carver?», pergunto. De momento, nada. Só encomendando. «E que posso encomendar dele?», insisto.


Falam-me de um título que não me é estranho: De que Falamos Quando Falamos de Amor.

Espero, pois, por Carver.

sexta-feira, 25 de março de 2011

TEMA: EM LUTA COMIGO MESMO (E UM LIVRO DE RAYMOND CARVER AO FUNDO)


O título do post de Catarina era: Depois de Carver e de Salinger. Repito o conteúdo: «Bem-vinda, Flannery, ao meu coração».

Salinger, conheço bem, e de há muito, graças ao meu primo que sempre teve, junto a mim, a generosa missão de me apontar o que vale a pena. Devo-lhe, em literatura, precisamente Salinger, Giuseppi de Lampedusa, Waugh, Bulgakov, Naipaul, Donna Tartt; (já para não falar das conversas sobre outros tantos eleitos comuns). E Flannery, conhecia, também. Quem me pôs na sua peugada? Alguém terá sido: li um artigo? uma recensão? Diacho, não me lembro. Mas sei que foi amor ao primeiro conto...

E Carver, esse Raymond Carver do título da Catarina?

Estou na pista. Farejo, farejo. Já hoje tive nas mãos Catedral. Manuseei-o, sopesei-o, folheei-o. Estive quase, mesmo quase para o trazer. O preço reteve-me, neste triste tempo de crise. Ainda fui a uma «grande superfície» ver se o achava mais em conta (ao que chega um viciado em livros...); e tornei à livraria, com as mãos tremendo. Mas senti uma pontada de culpa sobre o mamilo direito, e acabei por sair, cabisbaixo, sem o livro.

Foi uma vitória sobre mim mesmo? Sobre o meu instinto bibliófago? Não creio. É uma questão de tempo.

Carver é o próximo. Anda no ar. Sinto-lhe o cheiro. Farejo, farejo...




sexta-feira, 11 de março de 2011

MAURICE OU A HOMOSSEXUALIDADE SEGUNDO E.M. FORSTER


Pensei usar, como título deste post, «O Que é Precisamente um Homossexual?»; parecia-me uma pergunta provocatória. Mas reconsiderei: em que consistia a provocação senão, vendo bem, no facto de se reduzir o homossexual a um objecto que se disseca? Desagradou-me, desisti do título.

E, no entanto, o que é um homossexual? Não falo de um gay: o conceito de gay é diferente do de homossexual; diz respeito a uma representação cultural da homossexualidade, que implica a assunção orgulhosa e festiva da mesma, como uma certa maneira de estar na vida. É-se gay como se é hippy ou freak: trata-se de uma escolha de tribu, de indumentária, de arte, de estilo.

Trato a questão da homossexualidade porque ela me irrompe a propósito de um livro de E.M. Forster. Maurice, completado em 1914 - mas publicado somente em 1971, não certamente por acaso - é um desses livros que se lêem numa vertigem, como à beira de um precipício de que não conseguimos afastar-nos. Precisava de ir para a cama, mas continuava a dizer-me «Só mais um capítulo» e, meia hora mais tarde «Agora é que é o último»: todavia estamos presos, sabem como é?, até ao momento em que, por fim, a cabeça cai sobre as páginas.

A homossexualidade descrita por Forster é típica de jovens de colégios ingleses, que se vão descobrindo a si próprios, ao seu corpo e ao seu desejo, no círculo de uma camaradagem com os colegas, com os quais partilham um espaço e, portanto, uma intimidade. Está longe de ser uma homossexualidade que se exponha. Pelo contrário: os professores vigiam, as mães, quando os recebem em casa, nas férias, empurram-lhes, para cima, primas ou vizinhas casadoiras. Em muitos casos, é uma condição que a vida se encarregará de dissolver: haverá os que efectivamente se casam e têm filhos: a homossexualidade teria sido, para eles, uma experiência suscitada unicamente pela proximidade erótica de outros rapazes e pela ausência de mulheres? Despiram-na sem problemas, quando tiveram de vestir outra roupa? Ou recalcaram-na? Ou reprimem-na no dia-a-dia, desejando e sonhando ainda com aquilo de que, porém, abdicaram?

Sei, pois, o que é um homossexual à luz deste romance, Maurice. É um homem - não um homem num corpo errado, não um homem que deveria ter nascido mulher, mas um homem. E o que caracteriza este tipo de homem, digamos assim, é uma certa forma de percepcionar a realidade. Porque o desejo está sempre, precisamente, ligado a uma certa forma de percepcionar: desejar uma mulher é percepcionar as mulheres (e uma em particular) de um dado modo, conferindo-lhe um sentido que o corpo masculino não possui para esse olhar; pelo contrário, desejar um homem é compreender de uma dada forma o corpo do homem, um movimento, um ritmo, uma força singulares.

Neste livro, acontece a um jovem (Clive) deixar de ser homossexual porque, bruscamente, devido a contingências diversas, a sua percepção se modifica. Clive não tinha procurado mudar, não quereria sequer mudar, uma vez que tal mudança ia trazer sofrimento a Maurice, que se apaixonara por ele e por quem estivera apaixonado. Mas nada podia fazer: a sua percepção mudara e, portanto, desaparecia, instantaneamente, a atracção pelo objecto de desejo, que amara enquanto (e só enquanto) o percepcionava de outra maneira.

Não é um tratado, não é um ensaio, não é uma abordagem científica da homossexualidade. Está completamente errado, ou poderia estar certo; tem - ou não - que ver com a própria experiência do autor. Não sei, não me interessa. É uma tese artística, é um motor ficcional. Constrói um romance que nos entra no sangue. É quanto basta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

CHOLOKHOV E BARATA

Estou muito satisfeito por duas razões não aparentadas.

Uma, é que me trouxeram, das catacumbas da Biblioteca de Oeiras, ou seja, o depósito, o segundo volume de O Don Tranquilo, de Mikhaïl Cholokhov. Li dois parágrafos. Ao todo, dezasseis linhas. E pu-lo de parte, para me dedicar a outras tarefas que berravam por mim, mas com um estremecimento interior de alegria, um: «Espera aí, eu volto!»

Outra, é que o lançamento de Nada Mais e o Ciúme, o anunciado lançamento na Livraria Barata, já tem data marcada: será no dia 19 de Março. É Dia do Pai. É um sábado. Será à tarde - por volta das 17 h. 30 min. Terei, como oradora, Maria João Costa, crítica literária da Rádio Renascença e participante activa de Correntes d'Escrita. A todos os que puderem - e, naturalmente, quiserem - convido, desde já, para que apareçam, nesse dia, na Livraria Barata da Avª de Roma. [Mesmo quem se zangou com a Barata e jurou que nunca mais tornava a pôr lá os pés!]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

EVELYN WAUGH: REVIVER O PASSADO EM BRIDESHEAD


Meu primo veio passar o Natal. Almoçámos um par de vezes, ouvimos fado, reunimo-nos na noite de Natal, conversámos. E, neste pouco tempo, teve tempo para semear uma curiosidade literária.

Inaugurado um novo ano sob o signo da crise e da austeridade, decidi que vou ser parco numa coisa que me é prioritária, mas cara. Os livros. Não significa, naturalmente, que economize na leitura - significa que terei de pedir emprestado e frequentar bibliotecas. E, contudo, o interesse que o meu primo semeou andou a martirizar-me, a roer, a bater contra as paredes. Fiz o pior que um viciado em luta contra o vício poderia ter feito: entrei no local do tráfico: uma livraria. Queria ver o livro em causa, tomar-lhe o peso, abri-lo; queria cheirá-lo, ler umas frases. Acreditei, no fundo, realmente, que teria força para resistir? Ou, secretamente, já sabia que não tinha a menor hipótese?

Comprei Reviver o Passado em Brideshead. Sei que houve uma série na televisão, talvez um filme. Não os vi. Tinha dito ao meu primo: «Sei que houve uma série na televisão e acho que houve um filme, mas nunca os vi». E meu primo respondeu-me: «Então, olha, não vejas, não antes de ler o livro. Depois, farás o que quiseres, mas primeiro lê o romance».

Tenho andado a adiar. Na verdade, já o iniciei, mas mal cheguei à página 28. Porquê? Para o não esgotar muito rapidamente? Porque o início ainda me não prendeu como esperava, e decidi caminhar com mais vagar, tentando encontrar o ponto, a frase, a chave a partir da qual tudo se ilumine e o seu sentido se me torne irresistível? Sei que me não decepcionará - porque, de todos os inúmeros livros que o primo me recomendou, não houve um único que se não tivesse vindo a tornar um caso absoluto e desenfreado de paixão. Seria estranho que um livro que o conquistou deste modo nada tivesse para me oferecer também. A viragem surgirá: ando a tacteá-la, sob a pele das frases, escondendo-se de mim, em secretos e subtis movimentos que não consegui ainda percepcionar. Mas é uma questão de tempo. Sei isso.