Micro maníaco
Há 3 horas
Concluí a noite passada a leitura do 3º volume [História de Quem Vai e de Quem Fica], em que me embrenhei como já antes me embrenhara no 1º [A Amiga Genial] e, a seguir, no 2º [História do Novo Nome], talvez aquele que, até agora, mais intensa e dramaticamente me raptou à minha realidade quotidiana, para me fazer viver em outra realidade; e devo confessar que já não sentia desta maneira uma urgência de leitura - estava incapaz de me deter, esquecido de horas para comer ou dormir, esquecido de outras tarefas - mas marcada, ao mesmo tempo, pela angústia de me estar a aproximar da última página e da iminência da despedida. Senti-a em cada um dos volumes, em todos os casos aplacando o mal-estar com a consciência de que haveria um volume seguinte.
A identidade da autora - "Elena Ferrante", que ninguém sabe quem seja - tornou-se-me, com o tempo, uma questão irrelevante. Mas a discussão sobre se poderia até ser um homem, faz-me aclarar a resposta a um velho problema meu: sim, existe uma maneira de escrever feminina, identificável em si mesma, isto é, independentemente de quaisquer informações sobre o autor; sim, só uma mulher poderia escrever assim acerca das mulheres, mesmo quando as põe agressivamente em causa, numa espécie de pacto com a autenticidade das emoções, dos sentimentos, das ambições. E sim, esta forma não pode ser imitada nem copiada unicamente a partir do exterior. Donde a conclusão: "Elena Ferrante" é um pseudónimo que esconde, e descobre, uma mulher.
Colin Wilson era um jovem de 23 ou 24 anos quando o escreveu; vivia então como uma espécie de sem-abrigo, de quarto em quarto, frequentando sempre que possível a Sala de Leitura do Britsh Museum. No dia de um Natal frio e cinzento (1954) - conta ele em um prefácio acrescentado 20 anos após a 1ª edição -, sentado na cama de um quarto precário, longe de casa e da família, tomou subitamente consciência da parecença do seu estado de alma com o de personagens que o fascinavam: o Raskolnikov de Dostoievski, o jovem escritor que é o centro do romance Fome, de Hamsun, o Roquentin de Sartre ou o Meursault de Camus; em todos os casos estamos perante o sujeito que é incapaz de se integrar no mundo e na vida burgueses, não apenas por razões psicológicas ou psiquiátricas (embora a sua "desintegração" seja passível de uma análise psicológica ou psiquiátrica), não apenas por razões religiosas (embora o misticismo possa ser uma via), mas sempre também metafísicas. O Outsider é o homem que detecta um indissolúvel nó de inautenticidade no real, no mundo, nas coisas, nas pessoas que se tornam também em coisas, imbuídos dos seus valores e das suas convicções, as suas metas e os seus dogmas, a sua ordem, certos de si, do seu papel, da sua necessidade.
O primeiro capítulo torna-se-me particularmente interessante: procurando apreender e compreender o Outsider como personagem literária, Wilson inicia uma deambulação em que aporta em obras clássicas, já bem minhas conhecidas, como as mencionadas, mas também em outras que desconhecia de todo [e não repousarei sem que as ache e leia: L'Enfer ou Le Feu, de Barbusse, entre mais], e outras ainda de que tinha notícia, mas nunca me haviam suficientemente importado: Herman Hesse, por exemplo, de que Siddartha fora suficiente, oh inominável pecado!, para me afastar - é um autor que redescubro inteiramente, pela mão de Wilson, como aquele que em O Lobo da Estepe ou em O Jogo das Contas de Vidro (ou mesmo em Narciso e Goldmundo) expõe com profundidade o sentimento de homens que se sentem diferentes do humano, permanentemente à margem da tranquilidade, desassossegados com a existência, como sendo os únicos que não podem fugir à consciência do problema e da angústia contidos no existir.
Neste momento tornei-me cativo de Bill Bryson; principiei por ler-lhe Breve História de (Quase) Tudo, livro de divulgação científica em que mapeia e historia as descobertas teóricas e práticas através das quais o ser humano tem interpretado e transformado a realidade. De um modo simples, mas (como se costuma acrescentar a propósito desta categoria de livros) sem sacrificar o "rigor" das informações e das explicações, Bryson cruza áreas, conta episódios trágicos e cómicos das vidas dos cientistas ou dos combates para impor as mais rocambolescas hipóteses, desce ao fundo da terra e do mar, projecta-se para o infinitamente distante, observa o macroscópico e diminui até poder entrar no subatómico, sempre num tom de convívio que o torna o parceiro de uma conversa impagável.
Houve mais dois livros, seus, que acabei por ler, apesar dos títulos suspeitos. Por Aqui e por Ali é a vivíssima descrição da longa e aventurosa caminhada em que Bryson, e Katz, seu amigo, ousaram percorrer, ao longo de meses, o sinistro Trilho dos Apalaches. É bem divertido. Mas o meu predilecto, Nem Aqui nem Ali, A Europa de Estocolmo a Istambul, é o relato de uma viagem que Bryson fez pela Europa. E neste ponto, meu primo [um "estrangeirado" que, apesar do seu matrimónio feliz com uma norte-americana, estabelece fronteiras rígidas ao que aceita que alguém do Novo Mundo se atreva a dizer acerca do Velho Mundo] começaria logo a divergir de mim. Porque Bryson tem um olhar extremamente crítico - hilariante, de resto - sobre as imperfeições dos belgas, dos ingleses, dos franceses, dos italianos. E, claro, põe-nos sistematicamente perante generalizações que podem ferir os mais susceptíveis: mas estas, no seu discurso fulgurante, são relâmpagos de ironia e espírito de observação que deveriam fazer o leitor europeu rir com gosto de si próprio. Onde meu querido primo veria, com crescente irritação, um americano cheio de si e arrogante, perorando sobre a antipatia dos parisienses ou a total incivilidade dos romanos ao volante - eu vejo antes um turista apaixonado pela ideia da Europa, rendido às referências histórico-culturais e aos artistas europeus, com os quais, aliás, mostra grande familiaridade, um pouco intrigado por observar que a Europa concreta não corresponde muitas vezes ao ideal romântico que possamos ter cultivado.
A sua insistência numa prosa toda de letra minúscula, mais do que me parecer uma arrojada inovação estilística [que não era] arrepiava-me pelo vazio de objectivos ou razão. Li a máquina de fazer espanhóis, que apesar disso - e de um tom deprimente, com o qual nem sempre me foi simples lidar - considerei um romance notável. Mas a verdade é que, sob uma tal neblina de preconceitos e ideias feitas, a minha ocupação da obra do autor foi sempre incompleta. Desisti de muitos romances seus pelo caminho.
Não há personagens absolutamente virtuosas, mas uma selva onde se reinventa, nas suas relações, sem qualquer bússola, gente imperfeita, magoada, ferida pela vida ou pela comunidade, em busca de uma felicidade, que - este é o segredo de VHM - nunca se realizará de acordo com as convenções, nem com as expectativas normais, mas em equilíbrios frágeis de sentido: "frágeis" precisamente porque inesperados,
Que engano! Que precipitação e que falta de perspicácia. Alexandra Alpha revelou-me um inesperado Cardoso Pires, armado de uma impiedosa e corrosiva ironia em relação a um universo intelectual, académico. Mas é impressionante o seu conhecimento das referências de que troça: os universitários imbuídos de cultura francesa (anos 60/70), que citam os estruturalismos na filosofia, na literatura, no cinema, nos programas culturais-chic da televisão [seria certamente o canal 2 de então], as palestras, os seminários, a linguística de Kristeva, a psicanálise lacanaiana, de uma ou de outra forma todos estes itens são coleccionados com um prazer e uma perícia de frequentador do meio. Como num roman à clef, todos aqueles personagens, debates, formulações, teorias, remetem para rostos concretos com os quais não suspeitaríamos que José Cardoso Pires, o contador tradicional de histórias - a que chama "fábulas" - convivesse com tamanho à-vontade.
A linguagem dos contos, chamemos-lhe as «breves peças» de que se compõe As Lojas de Canela, é de uma riqueza proustiana: a magia, escreve Grossman, «reside na sua fertilidade, uma abundância quase em putrefacção de tantos sucos verbais.» Acrescenta: «Bruno, que sabe dizer tudo de dez formas diferentes, cada uma delas tão exacta como a agulha de uma bússola»; o uso do termo putrefacção pode chocar, mas não é inteiramente absurdo: a verdade é que um primeiro contacto me foi penoso, porque uma tal superabundância principia, porventura, por nos encandear e ferir os olhos. É preciso, pois, que o leitor esteja advertido. Mas também advertido da vantagem de insistir. Se não renunciar, se for aprendendo a nadar no interior daquela poliédrica linguagem, cedo tomará consciência de que se iniciou numa elevadíssima e compensadora experiência da leitura. Dois ou três exemplos, apenas, da extrema felicidade dos recursos de Bruno Schulz:
Preferi chamar às suas miniaturas «peças» em vez de «contos», porque a lógica do conto é, em geral, outra: a da narrativa curta, que se desenha em direcção a um fim que a complete como um sentido coerente e surpreendente: nestes fragmentos, diferentemente, há a descrição de pessoas, lugares, um momento ou uma situação. Como pinturas. [Schulz era também pintor.] As personagens principais, que