segunda-feira, 16 de março de 2015

ROBERT M. PIRSIG: ZEN E A ARTE DE MANUTENÇÃO DE MOTOCICLETAS


     Um amigo meu com interesse e sentido de humor, biólogo que não desdenha visitas amorosas à filosofia, andava lendo, há algum tempo - na língua original - Zen and the Art of Mortorcycle Maintenance. Percebi o seu entusiasmo. Prometeu que mo emprestaria assim que o acabasse. Fê-lo.

Há uma antiga tradução para português, na Presença. Mas mesmo essa não é facilmente encontrável, a não ser em alguma biblioteca ou encomendando-a. Inicio a leitura e compreendo a euforia do meu amigo, ainda que não seja um livro feito para ele. Não o digo com arrogância. Não é provavelmente um livro feito senão para uma pessoa, e essa pessoa sou eu.

Cada leitor terá a sua própria experiência, até certo ponto intransmissível. Mas Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas baralha o maço das questões que mais importância têm ganhado para mim na complexa fase da vida por que passo; por um lado porque me identifica - e com que pormenor: sou mesmo eu! - como uma personagem: alguém que se distancia criticamente da tecnologia, infeliz sempre que tem de lidar com ela, evitando quaisquer novidades, resistindo aos progressos que melhorariam significativamente a comodidade do seu quotidiano; pessoalmente, preferi sempre que houvesse um mecânico, um técnico, um especialista ou uma amiga devotada para consertar as avarias e repor nos carris [frequentemente através de operações muito simples] o que, nas minhas patas, tende a descarrilar. Por outro lado, o autor que me interpela e interroga sobre a inépcia que a cada passo revelo, fá-lo a partir do meu território. O que é perturbador. Ou seja: a sua reflexão constitui-se na familiaridade com os filósofos, os antigos ou os modernos, Platão, Descartes, David Hume ou Kant [e devo dizer que, acerca dos Antigos, reformula em termos extraordinariamente inovadores e interessantes o derradeiro sentido da luta entre Sócrates - o mesmo seria dizer: Platão - e os sofistas, com o desenho final de Aristóteles, responsável pela nossa compreensão, porventura errada, dessa luta, e suas consequências para a História da filosofia.] : é à luz das ideias dos filósofos, que se analisa a inabilidade, para a tecnologia, de certos artistas e de certos intelectuais, mostrando que se trata de um divórcio imbecil, inútil, equívoco e empobrecedor.

Robert Pirsig foi um destrambelhado. Num certo ponto do seu passado, o professor de retórica seguiu tão radicalmente as próprias questões, que se afastou do mundo entendido como denominador comum, aquele em que nos encontramos e comunicamos uns com os outros, ou seja: «enlouqueceu». Chegou a ser internado. Entretanto, anos volvidos sobre essa crise, mudou: tornou-se um burguês envelhecido e mais gordo, que se desfez de quem já foi, e do que então pensou e criou. No ponto em que a narrativa tem o seu início, Pirsig (mais o seu filho e um casal de amigos) reconstitui o percurso do seu outro eu, como se perseguisse um fantasma, a que chama Fedro: o professor que se passeava pelas margens da loucura [até que enlouqueceu mesmo]; o homem que se não instalava na vida e não temia a incompreensão nem o opróbrio; o que procurava o sentido de tudo com a seriedade que só entrevemos em crianças que brincam. Chris, seu filho, e os Sutherland, que o acompanham em moto, não compreendem este refazer de um caminho por poisos que já visitou. O próprio Pirsig não se lembra bem: às vezes tudo o que lhe sobra são vislumbres, fragmentos de imagens da mente de alguém que já não é ele, memórias em que não habita confortavelmente, ou que o não habitam, como se lhe proviessem de um longínquo outrem.

Não há romance: trata-se de uma narração verídica; em vez de trama, um problematizar contínuo, em ensinamentos que aqueles que o circundam não entendem, e com os quais o leitor se sente muitas vezes incomodado. Atrever-me-ia a escrever "mudado", se não soasse tão hiperbólico; mas aí está: é na medida dessa mudança, minha, que me parece estar a falar de um livro que teve um impacto específico sobre mim, como se me visasse unicamente a mim mesmo.      

Antes de se ter tornado o "romance filosófico" mais lido e comentado de sempre, Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas foi rejeitado por cento e tal editoras. É um facto! Não sei se realmente me anteviu como futuro leitor - sei que certamente não encontrou, em nenhum de cento e tal senhores editores, o leitor que o merecia.

domingo, 8 de março de 2015

AFONSO REIS CABRAL: O MEU IRMÃO



     Tendemos a desconfiar do Prémio Leya. Mas deixem recordar que, nos últimos anos, o dito cujo revelou escritores como João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro ou Afonso Reis Cabral. Poderíamos interrogar-nos, portanto, sobre este primeiro preconceito.

     Suspeitamos de Afonso Reis Cabral. Que é demasiado jovem e que o primeiro romance de um garoto há-de ter falhas; que se a crítica o tem ultimamente elogiado é por complacência, ou por ser um descendente de Eça de Queirós. São um segundo e um terceiro preconceitos.

     O romance é, objectivamente, uma estreia, mas poderia não sê-lo, de tal forma nos espanta pela originalidade, está bem escrito, a história magistralmente concebida no seu todo e no desenvolvimento, testemunhando uma profundidade emocional incomum aos vinte e poucos anos. Ou incomum, ponto.

     Quando digo que está bem escrito, ao que me refiro é a uma linguagem muito bela e muito clara simultaneamente: aquilo que outros autores, nomeadamente eu próprio, nem sempre conseguem porque o excesso de preocupação estilística pode prejudicar a legibilidade: cria uma neblina artificial, que obriga a mais do que uma leitura e afugenta o leitor. É preciso ter-se realmente um grande nível como escritor para, sem abdicar do estilo, fazer com que este se não imponha e não ofusque, não seja um ademane ou um meio de amplificação, mas apenas o modo justo de exprimir, simples (mas enganadoramente simples, porventura), distinto, evidente: é de uma limpidez que eu invejo.

     A originalidade radica logo no tema. Esta estória sobre uma paixão trágica entre dois deficientes, que nunca resvala, nem por um instante, para a pieguice ou para o moralismo, nem se deixa confundir com uma tentativa [que seria também legítima] de compreeder a condição dos "portadores de deficiência", é assombrosa na sua intensidade e na sua crueza.

O narrador tem qualquer coisa de Humbert Humbert [o de Lolita]: distanciamo-nos do seu egoísmo, criticamos a sua perversão ética e psicológica, reprovamo-lo com todo o nosso ser, mas não vemos nele o vilão, o irredimível mau; só consigo apreender-lhe o amor pelo irmão - eu sei, um amor imperdoável na sua forma e nos seus motivos, desequilibrado, egoísta, perigoso, mas triste e desesperado; talvez por se tratar do narrador, em cuja mente entramos, cujo sofrimento conhecemos por dentro.

No seu desarmante despretensiosimo, Afonso Reis Cabral, em conversa [para espanto e quase indignação dos intelectuais que o entrevistavam] dizia que «foi escrevendo», «não tinha um esquema» ou um «plano prévio» do romance: bem, seja ou não sincero, o resultado é uma obra exigentemente organizada para um fim absolutamente inesperado - e olhai lá, que aqui fala o leitor treinado de policiais: um final cru, violento, tremendo, chocante, sublime.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

JEAN-MICHEL BARRAULT: O PERCURSO DO PRIMEIRO ROMANCE



  O Percurso do Primeiro Romance é, ele próprio, um romance - pouco extenso, dos que se lêem numa noite. Segui-o como se tivesse penetrado em um universo literário muito característico e familiar, de que fazem parte algumas referências, sobretudo francesas, cuja proximidade explicarei com o maior dos gostos e simplicidades: Candide, de Voltaire [porque se cultiva em ambos um mesmo tom de sátira, que é a ilustração de uma tese venenosa]; Como Falar dos Livros que não Lemos, de Bayard, uma vez que se trata de uma desmistificação desassossegadora da experiência literária, num caso a propósito do acto de ler, noutro caso a propósito do acto de escrever [e respectiva publicação]: os dois casos sujeitos aos seus ditames, ditadores e às suas regras, em mundos codificados, com rituais e rivalidades próprios, onde o que parece raramente coincide com o que é. Finalmente, e por razões muito evidentes, Ilusões Perdidas, de Balzac, em que se narra o fracasso de Lucien Rubempré, um jovem ansioso por se tornar conhecido como poeta. Gosto muito de fazer estas associações, peço desculpa. Não as interpretem como um exercício de exibição, mas uma tentativa de situar a obra numa determinada esfera.

 Caradet é o Rubempré deste percurso. E, para quem quer que se tenha já iniciado na experiência da publicação de um primeiro romance, a sua odisseia acende todas as luzes da memória. Passa-se em França, mas o cenário poderia bem ser Espanha, os Estados Unidos - ou, claro, Portugal, mas aí presumo que em pior.

 Barrault encena as frustrações do jovem aspirante a escritor como um jogo. Literalmente. O livro contém, aliás, um tabuleiro sobre o qual podemos simular um percurso, sob o acaso de lances de dados: as estações desta peregrinação, as casas a que se chega, ou aquelas a que se julgou chegar, os tempos e as situações típicos, os avanços e os recuos que proporcionam. O romance, portanto, é linear - mas não deixa de ser refrescantemente penetrante no modo como descreve as emoções do protagonista. Leiam-se as bruscas transições nos juízos de valor que Caradet vai formulando acerca da própria obra, que tanto lhe parece de uma originalidade superior como de uma aterradora mediocridade; e não se passe ao lado de uma narração quase sádica dos momentos do ridículo: quando oferecem a Caradet oportunidades que se lhe esvaem risivelmente (a televisão, a feira do livro, os públicos).

  Miguel Real, que me falou desta obra impagável, cometeu a inconfidência de me expor o fim. Não o farei, mas Real tem toda a razão: é nesse extraordinário fim que percebemos como, em função do que move o escritor, todas as contrariedades são irrelevantes. Um fim sem grandiloquência, mas certeiro.


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

PAULO VARELA GOMES: HOTEL



         Lembro-me de Paulo Varela Gomes numa época em que este era uma estrela em ascensão, jovem, culturalmente polivalente, de conversa apetecível, marcada por achados de espírito incandescentes como chamas de um cigarro chupado com vivacidade. Depois, desapareceu. Publicou, recentemente, dois romances.

     À biblioteca de que sou frequentador solicitei que adquirissem um deles: Hotel. Como a biblioteca demorou séculos a consumar a referida aquisição, posso dar-me agora ao luxo de escrever sobre Hotel sem quebrar o compromisso tácito de não comentar, neste blogue, livros da moda. Ora este está já longe de o ser.

     Tal como em Cidades Invisíveis [mas no que vou dizer se esgota a analogia entre as duas obras], também Hotel é um romance acerca da construção humana como forma de dominar o espaço; e de como essa "construção" tende a revelar, em cada passo, a surpreendente ambiguidade entre a utilidade e a fantasia. As cidades desconhecidas, submersas, ocultas sob o que principiamos por ver, ou o que nas cidades é a face invisível do que nos aparece, contém sempre, em si, uma dimensão irredutível ao que seria óbvio, e prático, e porventura mais conveniente para os seus habitantes. Também o hotel de Joaquim Heliodoro nos vai sendo descrito ao longo das fases da reconstrução do que fora uma antiga moradia. O próprio arquitecto, que está ao serviço da concepção do proprietário, vai sofrendo dúvidas e receios: nem sempre compreende o sentido do plano de Heliodoro. Hesita. Discorda, até. Mas é evidente que, no fim, quando as obras no hotel [ou o hotel como obra] são concluídas, terá de se render ao dramatismo do monumento que foi recriado. Um edifício impregnado de sonho, cujos modelos são mitos e estórias, sob o contínuo halo do mistério e do romantismo.  


     Não há, durante vários capítulos - curtos, bem escritos - mais trama do que a que venho de expor. Mas a propósito das salas, ou de uma suite, ou de uma escada, o narrador faz deliciosas digressões acerca de episódios pitorescos sobre artistas, políticos ou escritores. Trabalha sobre possibilidades que o leitor - a não ser que domine exaustivamente a biografia de uma figura em causa - perguntará, porventura para sempre, se serão factuais ou ficcionais. Os textos de Baudelaire, por exemplo, que Heliodoro cita, contra a Bélgica e contra os belgas, foram mesmo escritos? Odiaria o poeta, a esse ponto, o povo que trata de cretino e muito feio?  
     É um romance particular, com interrupções, remissões e, sobretudo descrições que apuram a fantasia; é um romance de ligações a ligações - infinito, portanto, num certo sentido -, e que, por isso mesmo, me faz viajar no tempo ao reencontro do jovem Paulo Varela Gomes: na sua riqueza e dispersão de interesses, da arquitectura à arte, da história à poesia, já prenunciava este tipo de texto em que brilha o talento do caos e do desassossego.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

DESMOND MORRIS: O MACACO NU



     Lendo, displicentemente, um livro a que, entre mais dois ou três prémios, se atribuiu o Pulitzer [foi o Pulitzer, não foi?], cujo título é O Terceiro Chimpanzé, dou por mim quase a bocejar ante a sensação de déjà-lu. Não preciso muito tempo para situar a origem desta minha ausência de surpresa. Há muitos anos, era eu um adolescente curioso e complexado, descobrira e li, mas então sim, num vórtice de fascínio e espanto, o estimulante O Macaco Nu, de Desmond Morris.

     Impressiona como um livro dos anos setenta pode soar-nos ainda hoje tão revolucionário. Já o não encontramos em livrarias, e duvido que consigamos mandá-lo vir de quaisquer catacumbas. Por mim, tive sorte. Comprei recentemente um exemplar, não especialmente bem tratado, numa feira de quinquilharia, num jardim, ao preço da uva mijona. Reli-o com gosto. A tese é aquela que o autor de O Terceiro Chimpanzé se limita a retomar, aliás com menos brilho e ousadia. E com a qual continuo a provocar, todos os anos, os meus alunos do 10º: com mais ou menos gravata, mais ou menos brincos, conduzindo um automóvel ou uma moto, dançando o Tango, escutando Bach ou Mozart, ou mesmo sendo Bach, Mozart ou Paula Rego, o homem permanece, na sua natureza mais funda, o que sempre foi: uma de várias dezenas de espécies de símios. Um macaco que se  diferencia de outros não tanto pelos seus talentos culturais [posto que diversos símios mostram um assinalável desenvolvimento cultural, embora admitamos que o ser humano alcançou um outro patamar], mas, segundo Morris, pela sua intrigante nudez. Quer dizer: por ser o único a não possuir o corpo completamente revestido de pêlos. Excluindo Tony Ramos, suponho. Eis as primeiras palavras da introdução, que não esqueci:

     «Existem actualmente cento e noventa e três espécies  de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens.»

     A etologia, essa assustadora ciência que devolve o homem à natureza, num estudo comparativo que detecta padrões comuns do comportamento humano, de gansos ou de ratos, foi para mim, à época, uma revelação de que nunca mais me consegui inteiramente lavar. Sobretudo no que respeita à sexualidade. Um dos capítulos de O Macaco Nu constitui uma fenomenologia minuciosa do acto sexual, que não deixa de fora a sedução, a aproximação, o envolvimento dos corpos,  descrevendo as alterações físicas, a mudança da respiração ou do batimento cardíaco, projectando para o puro delírio a minha mente então virgem. Mais poderosamente do que o faria uma revista pornográfica.

     Claro que, hoje, não tenho dúvidas de que uma redução, não é verdade? reduz... O homem é mais do que um macaco. No mínimo, mais do que um macaco entre os demais: será necessariamente um macaco especial [e, para já, tão interessante como a sua particular quase ausência de pilosidade é , sem dúvida, o inacreditável facto de o falo humano ser o de maiores proporções entre todas as espécies de símios: maior do que o do gorila, quem diria?] É evidente que a redução do ser complexo, em que o homem se tornou, à sua mera animalidade, comporta perigos; se é uma útil machadada na arrogância antropocêntrica, não deixa de nos embaraçar com uma interrogação delicada entre mãos: a de saber se a moral, por exemplo [na medida em que contraria o instinto, e se propõe "elevar" a nossa acção] não se resume ou a um constrangimento artificial, ou a uma mera superestrutura que mascara móbiles indispensáveis para a adaptação da espécie. Seja como for, e com as devidas precauções - que se aplicam, de resto, a todas as "reduções", da psicanálise ao marxismo, sem que por isso deixem de ser teorias riquíssimas e muito instrutivas - O Macaco Nu é uma obra aliciante. O seu carácter desmistificador é de uma lucidez arrepiante. E mantém-se saudavelmente irreverente.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

JORGE AMADO: TERESA BATISTA CANSADA DE GUERRA


Teresa Batista Cansada de Guerra é uma leitura da minha adolescência. Ou seja: algo como uma relação sexual prematura: não tinha idade para aquilo...
Há uns meses, outra Teresa, que nunca mais me veio aqui falar e de cujos comentários sinto saudades, a mesma que me apresentou vários autores - d'Ormesson bastaria - e me devolveu Brasillach, chamava precisamente a atenção para uma secreta afinidade entre passagens de dois escritores tão diversos, temporal e histórica, geográfica e culturalmente. Eu elogiava a beleza de 15 páginas que Brasillach demorava a narrar uma noite de amor, e a autora de A Gota de Ran Tan Plan recordou-se, a esse propósito, do encontro entre Teresa Batista e Daniel.

Há diferenças que não posso deixar de assinalar. Brasillach escolhe o pudor como estratégia narrativa e descritiva. Não quer contaminar o que deve conservar-se secreto. Amado envereda pela exposição, metafórica, é certo, mas uma exposição ainda assim: fala do pássaro de Daniel, que voa nas mãos de Teresa, e da espada daquele, ou da baínha e da flor desta; trata-se de encenar um espectáculo, e já não de nos conduzir, sob a chama de um fósforo, sem quebrar a essência da obscuridade. Nesta comparação - e o que digo liga-se a uma questão pessoal, de gosto - Jorge Amado está longe do poder de Brasillach, baseado inteiramente na sugestão.


Porque Jorge Amado é um dos pais de Mia Couto, e isso enerva-me um pouco: o escritor cuja linguagem funciona como uma etiqueta cultural, se não étnica: a brasilidade, como o outro reivindicará a moçambicanidade, ou seja o que for. Tem graça no momento antes de se esgotar numa fórmula. Torna-se imediatamente datado: relido, 30 anos mais tarde, é insuportável. Aqueles diálogos com o leitor, a quem vai tratando de «meu chapa», ou «irmãozinho», ou «amigo» [«o amigo é um fode-mansinho»], ajoujados de idiotismos, são pedaços de prosa cuja leitura devém penosa.

Arrumada esta falta de fé num certo vício estilístico do autor [que, aliás, como veremos adiante, não inquina completamente a sua escrita, capaz de alcançar elevados cumes] , assentemos no que realmente importa. Jorge Amado é magnificente na construção das estórias e na compreensão das personagens. A trama de qualquer um dos seus romances parte de uma ideia central, sumarenta, que se vai repartindo em diversos fios, sem se perder a visão de conjunto. Teresa Batista Cansada de Guerra vive de uma estrutura dinâmica, assumidamente folhetinesca, porque cada capítulo se detém numa certa fase da sua biografia, não necessariamente por ordem cronológica, mas cada um desses momentos é riquíssimo de acontecimentos e de figuras. Melhor do que esse aspecto, ou tão bom como ele, só a compreensão das suas personagens, o mecanismo de uma certa empatia, que tem muito que se lhe diga. Parágrafo.

Não se é neutro. Os coronéis, os capitães, muitos juízes ou polícias, são figuras abomináveis. Mas as prostitutas, por exemplo, são mulheres de uma insuspeitada sensibilidade, generosas e fortes. No episódio sobre a epidemia que grassa na povoação, quando o doutorzinho e a enfermeira-chefe se recusam a expor-se, e fogem, são as putas, lideradas por Teresa Batista, que partem a vacinar a população, sem o menor receio; e mesmo personagens infames, como a tia de Teresa, que a criou [e a vendeu, ainda menina, ao capitão Justiniano] e seu marido, não são simplesmente infames: são trágicas. Nem digo tragicómicas: são trágicas. Jorge Amado consegue infiltrar-se no interior da sua consciência, e nós compreendemos que a sua indignidade moral convive com duríssimas tristezas, frustrações e a mais pura infelicidade.

O trecho em que seguimos o pensamento de Rosaldo, tio de Teresa, bêbedo, preguiçoso e cobarde, é impressionante. É um momento de génio: o capitão Justiniano vem buscar a menina; a tia recolhe o maço de notas e um anel de pechisbeque. Rosaldo está sentado, incapaz de tomar uma atitude. Quem nos conta o que sucede é o narrador; mas, no seu discurso, intercalam-se as palavras pensadas pelo tio. E neste complexo, apercebemo-nos de diversos sentimentos, ao mesmo tempo: que Rosaldo esperava o momento certo para abusar da menina; que a via gulosamente crescer; que odeia o capitão; que o teme; mas, ainda, que uma vaga ressonância moral [hipócrita, é claro] o faz interpelar, na sua mente, a mulher: Como é que tu é capaz de vender a menina? a filha de tua própria irmã? Deus não vai te perdoar nunca. Mas todas estas dimensões interiores aliadas à sua impotência, ao seu pavor, que o colam ao sofá, sem um gesto. É um excerto assombroso, em termos de escrita. É o «outro lado», mais interessante na minha óptica, de Amado. Quando se despe de fórmulas. Quando não pactua com uma certa facilidade popular. Quando, meu chapa, encontra em si uma energia em que se cruzam a sabedoria da simplicidade e a autêntica originalidade.   

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

JOHN UPDIKE: CORRE COELHO




Falar deste romance de Updike é, antes de mais, uma oportunidade para trazer à baila dois livros de uma lista da qual, no início das férias, prometia tratar.
Um deles é O Homem que Gostava de Cães, do recém-descoberto Leonardo Padura.
A dada página, o narrador confessa:

«Eu, ao contrário da primeira vez, mantive-me sentado, com o romance que estava a ler nas mãos - tinha começado Corre, Coelho, aquele livro que Updike nunca superou

Parece promissor, apesar de John Updike não estar, aqui, em competição senão consigo próprio.

O outro seria A Herança Perdida, do estimulante James Wood, e aí escorrego em provocações tão maldosas como esta:


«John Updike é seguramente um dos menos trágicos dos grandes escritores, e o mais complacente de todos os escritores teológicos

Mal conseguira recomeçar a respirar e já, pouco adiante, embatia neste outro arrepiante comentário:

«No seu pior, a sua escrita é de um lirismo inofensivo e inchado, de uma liberalidade aristocrática, como se a linguagem fosse uma despesa sem importância para um homem muito rico e Updike acrescentasse a cada frase uma generosa gorjeta

Compreendo Wood. A sua sentença assassina, para além de muitíssimo bem achada, tem razão de ser. As descrições a que Updike nos sujeita estão sempre no limiar do rococó. A tradução que leio é de Fiama Hasse Pais Brandão, que consigo imaginar com sucessivos estremecimentos de volúpia perante períodos que me abstenho de transcrever.

Mas regressemos à acusação fatal: a ausência de tragicidade; sim. Posso compreender Wood. O problema da visão religiosa de Updike é a de que lhe falta o demónio. O inferno. Sigam este diálogo:

« "Ora digam lá, ele fê-los acreditar no inferno?" Harry ri. A imitação de Eccles é perfeita. [...]
«E fez? Você acredita?
«Fez, acho que sim. O inferno como Jesus o descreveu: afastamento de Deus.
«Bem, se é isso, pode-se dizer que estamos todos já mais ou menos no inferno

Teologicamente, esta perspectiva é moderna e interessante. Não me queixo: pessoalmente, o diabo não me faz a menor falta. A eterna ausência de Deus parece-me punição suficiente; mas Harry, o Coelho, é lúcido: sem inferno à maneira antiga, sem mal que não seja «psicanalisável» e «compreensível», não é possível esperar-se uma tragédia com alguma espessura.

A vida de Coelho está degradada. Olha em torno de si, e tudo são restos. Sem verdadeiramente traçar um plano ou decidir um rumo, principia a correr. [Metaforicamente: vai no seu carro; embora, mais tarde, assistamos a momentos de efectiva corrida a pé...] É de Deus que foge? Não creio - é mesmo de Janice, é mesmo do filho, por quem, no entanto, sente amor, de seus pais e de seus sogros, é do vazio que marca tudo o que vive e em que toca. Claro que a questão decisiva é a da incapacidade da escolha; e claro que há tragédia bastante no afogamento de uma criança recém-nascida. Ainda assim. Pergunto-me que há a acrescentar a este romance, que permitiu a Updike querer continuá-lo, numa extensa obra dedicada ao mesmo Coelho.

Uma coisa sabemos, a fazer fé em Padura: na sua corrida, Updike não conseguiu superar-se a si próprio.