sábado, 12 de outubro de 2013

MARGARET ATWOOD: CRÓNICA DE UMA SERVA



     Em certo editorial de uma revista de ficção científica, Isaac Asimov assinalava o que lhe parecia um equívoco na forma como, historicamente, as mulheres vieram conquistando a sua emancipação. O equívoco reside em que estas, tendo começado a estudar, a formar-se, ou a exercer uma profissão, ocupariam sempre territórios secundários, deixando para os homens os redutos fundamentais: se há já, na universidade, mais estudantes do sexo feminino do que do sexo masculino, são, tendencialmente, alunas de literatura, ou Direito, ou ciências humanas. Muito raramente das ciências exactas.

     Asimov procurava, com esta introdução, conduzir-nos para o que lhe interessava: o panorama da ficção científica e o progressivo surgimento de mulheres que se lhe dedicam. Se, para ele, principiar a haver autoras é, em si, um sinal óbvio de evolução e de emancipação, o problema repetir-se-ia: não encontramos autoras de pura ficção científica, mas de utopias poéticas; por outras palavras, não verdadeiras inventoras de ficções imaginadas a partir de um suporte de conhecimentos científicos, e sim criadoras de obras que devem mais ao fantástico do que à ciência.

     Não sei sequer se a argumentação de Asimov é ainda factualmente verdadeira; mas sempre a considerei falaciosa. Por que seria a narrativa estritamente científica superior à ficção fantástica? Por que haveria Ursula Le Guin de escrever sob a legitimidade da Física, da Teoria da Relatividade ou da Mecânica Quântica, se a obra que produziu é, na sua peculiaridade - feminina ou não -, tão completa, e complexa, e fascinante?

     The Handmaid's Tale, que eu li como Crónica de uma Serva, mas se intitula, na nova edição, A História de uma Serva, publicado por Margaret Atwood já nos anos oitenta,
é uma outra machadada na tese de Asimov.

O mecanismo, ou um dos mecanismos, brilhante e diria que inédito, é o do recurso à memória numa novela sobre o futuro, sendo o "passado" de que a protagonista se lembra, o nosso "hoje". [Vá, o "hoje" dos miudos norte-americanos]. Defred recorda-se do mundo e da vida da sua juventude, mas o mundo e a vida da sua juventude são-nos próximos, reconhecíveis, familiares: os bailes de estudantes, os campus universitários, ou os quarteirões suburbanos, calcorreados pelas bicicletas das crianças. No presente pós-revolucionário em que se situa e em que escreve (ou grava), tudo mudou. Drasticamente. Terrivelmente. O cliché adequado para designar este romance seria "distopia".

O outro mecanismo é o recurso à Bíblia: não só por causa do manancial de personagens, ícones e mitos que a constituem, e sempre foram uma fonte de inspiração e revisitação, mas também porque MA pretende conceber uma sociedade que replica macroscopicamente uma seita religiosa, e o Antigo Testamento oferece a atmosfera de sexo, violência e pavor - Saramago dixit - que criam o tom necessário.

A Bíblia está repleta de ideias e de imagens fortes, e a escolha de uma imagem inesquecível pode ser a essência de um romance provocador. A imagem é, aqui, esta, que MA evoca em epígrafe:

«Vendo pois Raquel que não dava filhos a Jacob,
teve Raquel inveja de sua irmã, e disse a Jacob: Dá-me filhos,
ou se não morro.

Então se acendeu a ira de Jacob contra Raquel,
e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu
o fruto de teu ventre?

E ela disse: Eis aqui a minha serva Bilha; entra a ela,
para que ela tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu assim
receba filhos por ela.»

É uma imagem incómoda e perturbadora: estamos, pois, numa sociedade de um futuro indeterminado, em que já praticamente se não procria, porque complexas transformações [«acidentes em centrais nucleares, fugas em arsenais de guerra química e biológica, abuso incontrolado de insecticidas químicos, herbicidas e outros produtos pulverizados»] tornaram estéril a maioria das mulheres e, das que conservam ainda o «dom» de conceber, nascem, frequentemente, seres com malformações; as «servas» são, agora, mulheres valiosas, que recuperam a função e o estatuto da serva bíblica Bilha: são fecundadas [em rituais que recriam e corporizam as palavras de Raquel], pelo esposo da senhora, sobre os joelhos desta. É um estatuto ambíguo: valiosas mas desprezadas, vítimas de
um despeito e de um ciúme de senhoras que, porém, precisam delas, instrumentos de sexo e procriação de que se abstrai o amor ou o desejo, isoladas, vigiadas.

Numa escrita paradoxalmente bela e crua - a escrita justa, diria - Margaret Atwood dá voz a esta serva, que as "tias" educam ["tias" denomina, aqui, uma função social, não uma relação familiar], compreensivas e ríspidas, de «aguilhões eléctricos pendurados com correias nos cintos de couro.» Mas esta serva, secretamente, deseja corpos, que contempla, quer amar e ser amada, tenta reencontrar amigas do seu passado, estabelecer laços. Desce pela memória, pergunta-se pelo marido e pela filha desaparecidos, imagina sequências múltiplas e alternativas do que poderá ter-lhes acontecido, e guarda-se para o que quer que venha. Guarda-se para um outro mundo. Guarda-se para a liberdade. Que importa que não venha a haver realmente um mundo diferente? que importa que nunca chegue realmente a libertar-se, quem cultivou a esperança e, no fundo de si, se guardou?          

  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

JOSEPH ROTH: A MARCHA DE RADETZKY



Fala-se em "Roth", e é natural que nos ocorra imediatamente "Philip". [De que, aliás, gosto muito: A Pastoral Americana e sobretudo O Complexo de Portnoy são obras maiores.]

A Lebre com Olhos de Âmbar foi o livro que me apresentou a Joseph: refere este autor abundantemente; em A Marcha de Radetzky, Joseph Roth, segundo nos conta o autor de A Lebre, teria mencionado o Banco Ephrussi como um dos ícones de Viena [está correcto, já confirmei]; suponho [e só posso "supor", uma vez que ainda não cheguei à passagem em causa] que também aponta, sarcasticamente, algum ou alguns dos Ephrussi, judeus ostensivamente ricos num Império Austro-Húngaro em que principia a alastrar o odor do anti-semitismo.

A Marcha de Radeztsky é, já de si, um título soberbo. Remete para a composição de Strauss, como um fio que permanentemente julgamos escutar ao longo de todo o romance, e que o autor evoca na execução da Banda de um regimento, com «ásperos tambores» rufando, «doces flautas» assobiando, «suaves címbalos» ressoando. Ora deliciem-se: «Aparecia no rosto de todos os ouvintes um sorriso de agrado e de enlevo, e nas pernas formigava-lhes o sangue. Ainda estavam parados e já pensavam que iam marchar. As rapariguinhas sustinham a respiração e entreabriam os lábios. Os homens mais maduros baixavam a cabeça e recordavam os tempos da tropa. As senhoras de idade estavam sentadas no parque vizinho, e tremiam-lhes as pequeninas cabeças grisalhas. E era Verão

Citando esta descrição, julgo captar uma espécie de génio comum à escrita de diversos autores deste tempo, desta cultura, desta língua. A aliança entre um penetrante espírito de observação do mais subtil pormenor [um modo, um tique] e o poder da explicação da lógica desse pormenor, como se sob um gesto, mesmo muito simples, fosse possível a revelação de um segredo, um propósito inconsciente, um sentido oculto. «Por vezes, o comissário distrital balançava um pouco a bengala, era como que um sinal exterior de uma exuberância que sabe guardar os limites.» Nas mãos dos espíritos mais sensíveis e talentosos, esta aliança entre a observação daquilo em que habitualmente se não repara, e a revelação do seu sentido secreto, oferece achados de uma fineza muito bela e muito surpreendente, intuições que nos flecham e ficam vibrando.

A Marcha de Radetzky, de certa maneira, ou melhor, à sua maneira, é também a história de uma família. Mas, diferentemente de Au Plaisir de Dieu ou de A Lebre de Olhos de Âmbar, esta família, os Trotta, tem uma fundação relativamente recente, e não se prolonga numa árvore de múltiplas ramificações. Sabemos pouco das mulheres: saem rapidamente de cena, pálidas e doentes, para deixar que o palco seja ocupado por gerações de homens austeros, solitários, que só episodicamente se encontram em face das suas próprias emoções, vividas como perturbação, como se as não compreendessem ou fossem um erro a liquidar.

O avô, um herói da batalha de Solferino, durante a qual salvou da morte o Imperador, não se reconhece na hiperbólica narração do seu acto tal como a lê num livro patriótico para adolescentes; indigna-se; protesta; escreve, pede uma audiência com o Imperador; de facto, este início muito simples marca um irrecuperável desnível entre a ascensão da família, sob a protecção do Imperador, e a verdade pura. É este desfasamento entre uma sóbria austeridade, que estabelece os limites do verdadeiro, e o rumor do excessivo, a emoção e o sentimento, de que se desconfia sempre, a lógica em que esta família se reconhece e reconstitui, geração após geração.

É sempre, pois, em face dos sentimentos, recalcados que retornam persistente e inesperadamente, que cada um destes homens se sente em desequilíbrio e em queda: que significa ser pai, ou ser filho, para além de um dever? como comportar-me ante o amor, ou a morte de uma amante, ou a piedade pelo marido da amante, a quem devo apresentar condolências? ou ante as emoções que me assaltam quando revejo, agora como um pintor bêbedo e sem recursos, que, inconveniente, me persegue, pedindo-me solidariedade, pelas ruas - aquele que foi o único amigo da juventude?        

Irónico, sensível, de uma delicadeza pungente, é um romance que se desenha sob a contínua ameaça do absurdo: o pavoroso reconhecimento da falibilidade do sentido, da racionalidade, da ordem. Que outra coisa senão isto vislumbrou Freud?

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

EDMUND DE WAAL: A LEBRE DE OLHOS DE ÂMBAR



Parece-me uma coincidência espantosa que, no meu aniversário [ainda eu andava lendo Au Plaisir de Dieu] um grupo de amigas me tivesse oferecido A Lebre de Olhos de Âmbar. Porque, sendo uma obra também sobre a História de uma família, esquematizada na página inicial, tal como em Au Plaisir de Dieu, com a sua árvore genealógica, e abarcando o mesmo período (a transição do século XIX para o XX), mostra porém um outro ponto de vista: não o da aristocracia, mas o da burguesia; aliás o de uma burguesia muito rica, judaica, ligada sobretudo à Alta Finança, à Indústria ou à Diplomacia.

Proust é, mais uma vez, uma personagem fundamental. Vemo-lo ansioso por ser recebido nos salões da moda, privando com princesas, duquesas ou arquiduques. Por que interessa Proust ao autor? Entre outras
razões, por causa de um antepassado seu. Charles Ephrussi:  este, que não era filho primogénito e, nessa medida, não fora designado
como sucessor do pai na carreira, pôde usufruir de uma formação muito livre, ao sabor dos seus gostos e entusiamos. Tornou-se um mecenas e um protector de pintores, nos alvores do impressionismo, ainda mal visto e mal recebido; Degas e, sobretudo, Renoir não são poupados: assistimos ao espectáculo pouco dignificante da sua mesquinhez e da sua ingratidão, do seu mercantilismo, de invejas, ressentimentos e de um anti-semitismo que transparece sob a aceitação da ajuda do judeu Charles; ele viria a ser, entretanto, o director influente de um jornal parisiense, um historiador e um crítico de Arte. Em síntese: eis Swann, ou um dos mais óbvios inspiradores da personagem de Marcel Proust.

O fio desta biografia é de uma simplicidade desarmante: de Waal, apresentado na badana como um «prestigiado oleiro inglês» e «professor de cerâmica» numa universidade, pesquisa, fascinado, a colecção de netsuke, que teria pertencido a Charles Ephrussi; os netsuke são bonecos japoneses, tais como: «uma raposa de madeira com olhos incrustados/uma serpente enroscada sobre uma folha de lótus, em marfim/ uma lebre e a lua, em buxo», etc, etc, etc. Que aconteceu a esta colecção, iniciada num período em que, no Ocidente, se descobria, e comprava, e ostentava tudo quanto proviesse do enigmático Japão? Nada mais linear do que isto. A busca do paradeiro dos netsuke é o pretexto para a revisitação do passado da família, a sua aculturação, o seu poder mas, simultaneamente, a sombra de um inextirpável preconceito, apesar - ou por causa, precisamente - da sua imensa fortuna, com todos os sinais de uma vida absurdamente faustosa.

Nesta obra, a condição judaica é central. Em França ou no Império Austro-Húngaro, trata-se de compreender precisamente o que terá significado a assimilação: «Apercebo-me de que não compreendo o que significa pertencer a uma família judaica assimilada, aculturada. Simplesmente não compreendo. Sei o que não faziam: não iam nunca à sinagoga, mas os seus nascimentos e casamentos estão registados no Rabinato. Sei que pagavam as suas quotas à Israelitissche Kultusgemeinde e contribuíam para obras sociais judaicas. [...] O sionismo não parecia merecer-lhes muita simpatia

Por algum inexplicável motivo, tomo esta obra - tal como Au Plaisir de Dieu - como uma peça de ficção; um romance que assume a forma da biografia. Estou certamente equivocado e, aliás, o livro apresenta caricaturas - por exemplo a de Jules Laforgue, que teria sido secretário de Charles Ephrussi -, plantas dos locais, fotografias de fachadas dos prédios ou dos palácios onde as sucessivas gerações habitaram - em Paris, em Viena -, retratos destas personagens. É talvez, então, o talento de Waal para narrar, que, à exposição de factos históricos, acrescenta um halo romanesco, uma secreta e encantadora sensação de inverosimilhança, a mesma que atravessa, aliás os melhores romances.    

sábado, 28 de setembro de 2013

A DESCOBERTA DE JEAN d'ORMESSON



Concluo agora Au Plaisir de Dieu.
É um livro com uma profundidade que nos abarca por inteiro, em que nos movemos com o espanto das grandes descobertas e dos amores eternos. Trata-se de um romance que nos toca multiplamente e que certamente nos transformará.

Mais do que um romance, no sentido de uma história, ou de uma trama, o que d'Ormesson oferece [e de nós exige] é a possibilidade de penetrar em valores, e sentimentos, e mentalidades, que ele reconstitui sobre o fundo da História e, frequentemente, contra esta. Há episódios maravilhosos, mas os episódios - todos os episódios, diria - só interessam na medida em que nos revelam pessoas, experiências, visões. Modos de vida. «As ideias são quase nada, o modo de vida é quase tudo

Perpassa neste livro, que declaro agora, aqui, oficialmente, uma das obras da minha vida, a compreensão, às vezes dolorosa, de todas as pessoas na sua "irrecuperabilidade", na sua divergência íntima e irónica em relação à sociedade ou ao progresso. Veja-se a tia Ursula [von Wittgenstein], casado com o tio Pierre, veja-se a paixão completa, que aparentemente vivem, em que no entanto se introduz Mirette, numa composição que nos surpreenderá; veja-se Claude, o primo e grande amigo do narrador, com o qual este vive a liberdade de uma viagem que será, também, um rito de iniciação; veja-se, principalmente, o modo como Claude se afastará da família e do avô, respondendo ao chamamento de Deus, primeiro, ao da História, depois...

Philippe [um outro primo] e Claude estarão de lados ideológica e politicamente opostos, um deles associando-se à extrema-direita, ao nazismo, o outro, pela sua adesão ao comunismo. Combaterão, em Espanha, em frentes adversas. Nenhum deles é mau, e ambos se tornam compreensíveis à luz do olhar do avô, e da família, e se reunirão em Plessis-lez-Vaudreuil. Porque em todos os erros históricos há elementos de racionalidade e fervor que, se os não justificam, os tornam quase compreensíveis e, por outro lado, na marcha de todas as posições que, por fim, triunfarão, poderemos descobrir etapas em que foram injustas, decisões suas que foram cruéis, momentos, seus, maléficos.

O que não possuímos, e jamais possuiremos, lamenta-se o narrador em certo momento, é uma história dos sentimentos:

«Escreveu-se alguma vez uma história dos sentimentos? Temos histórias das batalhas, das dinastias, da pintura e da música, da literatura e da filosofia, das doutrinas económicas e dos movimentos sociais, do preço do trigo e da carne, dos meios da comunicação, do vestuário e dos costumes. Precisaríamos de uma história dos sentimentos. Receio muito que ela seja praticamente impossível de se redigir. Como fazer uma ideia, sem números, sem curvas, sem estatísticas, quase sem documentos, do que sentia e experimentava um romano da decadência, um camponês da Idade Média, um condottiere da Renascença, um burguês de Paris na época das Luzes, os nossos próprios bisavós em 1848 ou sob o Segundo Império? O que eles pensavam, somos ainda capazes, em rigor, de reconstruir e compreender. Mas o que poderiam significar para eles a felicidade, o prazer, o sofrimento, a ternura, a resignação ou o desespero, como o captaríamos? Como comparar, sobretudo, os seus sentimentos e os nossos? Era preciso colocarmo-nos no seu lugar, e não o podemos. [...] Ninguém saberá nunca se as pessoas eram mais ou menos felizes sem viaturas e sem televisão, sem novidade, sem dinheiro, sem necessidades e sem ambições, sem grandes esperanças, mas sem ilusões, sob o olhar de um Deus que lhes mandava calar-se, no seio de uma ordem imutável, na ausência da mudança.»      
   

Este excerto, central na obra, é uma chave fascinante do romance: podemos vê-lo como uma magnífica história dos sentimentos e, nessa medida, uma história pensada contra os lugares comuns e as ideias feitas da História.

sábado, 21 de setembro de 2013

JEAN d'ORMESSON: AU PLAISIR DE DIEU



«É, POR VEZES, PELOS PROGRESSOS, QUE SE MEDE 
UMA DECADÊNCIA»


Há uma originalidade "experimentalista", que se alcança com certo esforço, através de um trabalho quasi-laboratorial alimentando-se de si próprio, sob o desejo único de fazer diferentemente; e uma outra, que provém tão-só da força da personalidade: esta é a dos autores cujo pensar nos soa sempre fulgurante e inabitual, porque eles pensam com uma profundidade rara, e penetram, dir-se-ia até que sem esforço algum, num círculo que não é aquele onde se movem a massa, o comum (o lugar comum e o senso comum), o já adquirido.

Jean d'Ormesson é um escritor que, em cada frase, nos espanta e desequilibra, por causa de uma originalidade deste último tipo. A filosofia e a literatura francesas, se pensarmos bem, foram sempre um terreno propício ao surgimento de olhares assim, cuja singularidade, a não ser que se remetesse para um silêncio místico, teve de forjar uma linguagem própria, inconfundível, uma expressão superior, ao mesmo tempo de uma grande simplicidade e delicadeza [quase frágil, diria] indispensáveis para o apreender das ideias mais subtis. Recordemos Montaigne. Pascal. Proust. Ou d'Ormesson.

Os adjectivos com que o narrador capta a imagem da vida da sua família, a antiguidade de que se orgulha, a unidade em que julgava poder preservar-se, à margem do tempo, são, mutatis mutandis, os que se aplicariam à sua própria escrita: «sólida e leve».

Lê-se este romance com a perplexidade de um estrangeiro absoluto: o que nele se reconstitui é, primeiramente, um mundo com o qual todas as pontes foram quebradas, e já não temos instrumentos para compreender: não só porque está temporalmente distante, e nem está muito! mas porque nos parece eticamente inacessível. O espírito cultivado pela aristocracia francesa, na transição do século XIX para o XX, assumia ainda, como marca do seu refinamento e da sua superioridade, o desprezo pelo indivíduo [só Deus, a família e o rei "legítimo" importam], pelo trabalho [uma ocupação necessariamente servil], pelo dinheiro [que nunca falta, obviamente, mas de que seria uma grosseria falar], pelas viagens ou pelo conhecimento. É, a título de exemplo, um mundo onde Dreyfus nunca perderá o carácter de traidor: até porque a traição estaria, paradoxalmente, na sua inocência, ou em querer apregoá-la, minando o espírito do exército.

Nós somos, em contrapartida, os filhos de um outro mundo; a realidade que nos forma, nos envolve e respiramos, inconscientemente, desde o nascimento, é a de uma cultura republicana e materialista, laica, mesmo se não ateia, e sobretudo igualitária. A escola pública, buscando, pelo menos em tese, um conhecimento democrático, para todos, seria a expressão máxima e mágica dos valores que respeitamos. Como poderíamos entender esta inocência da elite que se entrega ao serviço de Deus porque, no fundo, crê em um Deus que está ao seu serviço e ao serviço da sua grandeza?

A posição do narrador é de uma ambiguidade comovente. Na sua voz ressoam ainda os ecos da admiração pelo esplendor essencial de antanho. Mas não é a voz do passado, não é já a voz do avô. Não coincide inteiramente. Não que ele a ridicularize. «Sentiria horror por dar a impressão de troçar da família.» Não se trata portanto de troça, mas da perda da inocência. Não há qualquer ironia, mas uma consciência a que se não escapará, agora, jamais: a de que a história o expulsou definitivamente do paraíso; porque estavam, então, «colados a si próprios. A dúvida, as perturbações do pensamento, a má consciência, não sabíamos o que eram.». O que se introduziu foi, subterraneamente, a noção do porvir e da mudança: o mundo de que nos fala tornou-se, em certa medida, longínquo - não estranho, mas longínquo - também para ele.    

O narrador mantém-se, pela memória, por um lado, pelo movimento do mundo, por outro, um ser anfíbio: participa simultaneamente das duas realidades. Eis as palavras com que a obra inicia: «Nasci num mundo que olhava para trás. O passado contava, aí, mais do que o porvir.» O passado do avô, que vivia enclausurado na recordação, insensível ao futuro ou ao progresso, como numa reprodução da ideia de eternidade. E portanto, a conversão ao porvir, o deslocar dos olhos para se olhar, pela primeira vez, para diante, há-de ser uma revolução composta de bruscas rupturas, fascinantes e destrutivas, irresistíveis e corruptoras. Oferece algo, mas tem um preço.

Os elementos fracturantes, como hoje se diz, exercem a sua sedução. Vêm do exterior, como gérmenes contaminando a família. O casamento, de um irmão do avô, com uma judia, ainda no século XIX; mas sobretudo, na geração seguinte, a união de um dos filhos do avô, o tio Paul, com Gabrielle, uma jovem muito bela, e aliás muito rica, mas, precisamente, de uma fortuna «impura», fruto do trabalho da sua família (Grande Burguesia ligada à Indústria), ostentada sem o bom gosto que só a antiguidade do sangue teria refinado; por fim, Jean-Christophe Comte, o preceptor, que arrastará os jovens para o maior dos perigos, o mal tremendo a que nunca mais se escapulirá, a derradeira perversão: o amor aos livros.

É um quadro admirável e complexo, de um tempo de transição, ferido por guerras, espartilhado entre dois universos paralelos: o «berço da tribo» [o castelo de Plessis-lez-Vaudreuil], e a casa mantida pela tia Gabrielle [rue de Varenne], brecha na tradição, albergue de movimentos, ideias, mudanças, talentos, criações, frequentado por poetas, compositores, bailarinos, homossexuais, «Salvador Dali e Maurice Sachs, Aragon e Claudel, Georges Auric e Diaghilev, cinco ou seis condes d'Orgel e todos os Swann e todos os Charlus que pudéssemos descobrir em Paris.» Aí se situa, ou simboliza, o advento vertiginoso das explorações e descobertas da geração do narrador: o prazer das viagens, e até do sol, de que a aristocracia se resguardava em chapéus, sombrinhas, ou na frescura sombria e deliciosa de jardins; da ciência, das máquinas; do amor e da felicidade.

A presença de Proust assombra perturbadoramente esta ficção, como uma grata homenagem: tanto na elevação da memória a instrumento privilegiado de revisitação e sentido, como tornando-o, a ele próprio, uma personagem, que imaginamos recebida no salão da tia Gabrielle, com as suas manias, a sua fragilidade doentia, longe ainda de haver completado a Recherche, portanto um jovem judeu desconhecido, aliás também inquilino de um apartamento desta família.

Folheio uma última vez Au Plaisir de Dieu, antes de o pousar sobre a mesa de cabeceira e de me deitar. Reencontro o cheiro bom, a papel, de um livro trespassado por folhinhas, bilhetes, marcadores, que indicam as páginas a que regressarei, sublinhadas, e com anotações a lápis. Assim trato [ou destrato] algumas obras - só mesmo algumas.

Suspiro de prazer.

Boa noite. [E muito obrigado a quem mo deu a descobrir.]

terça-feira, 10 de setembro de 2013

LAWRENCE BLOCK: O LADRÃO QUE ESTUDAVA ESPINOSA


Pode o título sugerir que nos encontramos perante mais um romance dessa avassaladora onda de livros leves que fazem questão de se dependurar de uma referência clássica, seja Dante, seja Espinosa, seja Darwin. Não é o caso. Ninguém aqui verdadeiramente "estuda" Espinosa, e nenhum enigma está aguardando, ao longo da história, pela interpretação de um texto do filósofo; na verdade, perguntar-se-ia até qual a pertinência de Espinosa neste romance ou no título. É citado, sim, mas poderia não o ser; o protagonista redescobriu a Ética, e aplica algumas passagens às situações com que se depara, mas não me parece que a trama ganhe ou perca por essa razão.

Um segundo ponto que me apetece abordar em face deste mistério, que tem, como principal personagem, um ladrão-detective ou um detective-ladrão, é o de que os verdadeiros leitores de policiais são pessoas que se não deixam enganar facilmente. Leram muita coisa, apreenderam o espírito do jogo, identificam padrões, reconhecem combinações possíveis, estão a par dos melhores truques, porque são finitos e os aprenderam com os "incontornáveis", desculpar-me-ão o cliché. Assim, um autor que valha a pena é um autor que ainda seja capaz de jogadas surpreendentes. Tornaram-se raros, mas existem alguns - e ocorre-me Ross McDonald, seguramente um deles.

Lawrence Block seria quase um desses mágicos do "twist": quase, porque no momento em que descobrimos quem é o assassino, percebemos que não o prevíramos porque, de facto, ele estivera sempre demasiado longe da intriga, isto é, reservara-se-lhe um lugar secundário, com poucas implicações que o leitor estivesse apto a ir descortinando num exercício de pura inteligência. Somos surpreendidos, mas é uma surpresa imperfeita. O desafio revela-se-nos um tanto murcho.

Posto isto [que não é pouco, tratando-se de um policial], Lawrence Block continua sendo um autor a descobrir e a ler, por
todas as outras razões: porque escreve muito bem; porque é culto e, nessa medida, os seus constantes comentários, negros e sarcásticos, têm profundidade; porque o seu sentido de humor é cortante; porque todas as personagens revelam ângulos interessantes, na sua caracterização paradoxal e politicamente incorrecta.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

HENRI TROYAT: OS EYGLETIÈRE



     Um romance que tome por objecto certa família, sejam os Maias, os Buddenbrook ou os Eygletière, lê-se como se prestássemos atenção a um mapa desdobrado sobre a mesa. É possível seguirmos, com o dedo, um curto percurso, que seria uma trama principal, ao centro. Mas a Sul, a Norte, a Sudoeste, a Nordeste, achamos outros centros de gravidade, outros pontos a visitar, um rio, uma vila, pais, filhos, amantes, primos; distantes, mas aproximáveis, segundo redes geográficas que nós próprios vamos decidindo e traçando, para além das pré-fixadas.

Os Eygletière, do prolífico Henri Troyat, introduz-nos no seio de uma família em que as fissuras estão, em certa medida, encobertas pelo pulso respeitado de Philippe, segundo o modelo tradicional da autoridade paterna. Encontramo-nos, portanto, ainda a muitos anos da eclosão de Maio de 68, pondo em causa, raivosamente, as instituições e os valores em que se reconhecia a burguesia do pós-Guerra. No entanto, as fissuras estão já por todo o lado; não declaradamente nem em jeito de rebelião juvenil, mas por todo o lado: Philippe é casado em segundas núpcias [como então se dizia] com uma mulher mais jovem, Carole. A mãe de seus filhos «abandonara-os para vir ainda a ser feliz». Aqueles envergonham-se um pouco da madame Lucie, pela decadência, social e de classe, que, aos olhos deles, representa a recomposição da sua vida, visto que «a fuga» se dera por causa da paixão por um vendedor simpático e amistoso, aliás encantador, mas sem expectativas. A irmã de Philippe, Madeleine, a tia Madou, que tomou conta das crianças aquando do «abandono», instalou-se entretanto numa peculiar vila, a alguns quilómetros de Paris: a sua relação com Philippe é tensa, carregada de ressentimentos e amuos. Há uma distância a cultivar, indispensavelmente, de forma a que aqueles que de algum modo estiveram demasiado presentes na nossa vida, e de cujo auxílio já dependemos, não se tornem mais tarde intrusos.

Todos os romances de Troyat, que conheço, são exímios neste desenho de teias equívocas: na representação de relações em que não se distingue já entre o que é ajudar, e o que é mandar, entre o que é sacrificarmo-nos pelo outro, e o que é criar nele uma dependência, entre o amor e o poder.

Jean-Marc, Françoise e Daniel, os 3 filhos de Philippe, entre a admiração pelo pai (constantemente torpedeada porém), o amor com um travo de embaraço pela mãe, a aceitação reservada da madrasta, a saudade da tia, no caldo da busca da sua autonomia, são os meios evidentes da decomposição surda, mais triste do que feroz, daquela família.

Conhecemos o penetrante incipit de Ana Karenina: «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.» Por outras palavras, a felicidade é sem história. Os Eygletière oferecem-nos o espectáculo impudico de uma família que não pode ser feliz - mas corresponde o conceito de "felicidade familiar" a alguma coisa? - porque, precisamente, os filhos nunca se limitam a continuar vias abertas; procuram a própria felicidade; um caminho pessoal, chamemos-lhe, redutoramente, egoísta, que em todo o caso implica sempre rupturas. Jean-Marc, Françoise e Daniel ilustram os tremendos cortes que hão-de constituir o tríplice motor deste romance.

Os cortes protagonizados por Jean-Marc são ambos inomináveis. Não por pudor da minha parte, mas porque não faria sentido antecipá-los à leitura do romance; Daniel será um inesperado pai, aos dezanove anos; também, para já, basta isto. Françoise, por sua vez, casar-se-á com Alexandre Kozlov, russo, professor de russo, muito mais velho do que ela.

Troyat é um apaixonado e um estudioso da cultura russa. Basta termos presentes as suas obras sobre o quotidiano na Rússia ao tempo do último czar, ou sobre Ivan, oTerrível, ou sobre Dostoievski: assim, Kozlov é, nas suas mãos, a brilhante personagem através de que se expõe o combate entre o espírito parisiense burguês dos anos 50, e a alma russa, ou pelo menos a fibra dessa alma que produziu os estudantes revolucionários, os idealistas impiedosos, ou esses niilistas, entre uma inocência quase infantil, que o próprio Dostoievski tão bem retratara [confira-se, por exemplo, O Idiota] e uma radical incapacidade para se comover com a realidade; para Kozlov, tudo se resume a um exercício intelectual, uma experiência irónica e distante - até a sua relação com Françoise e, principalmente, a «farsa» do casamento com ela. Esta relação e esta personagem, que tanto me interessaram, ilustram o que eu pretendia dizer no primeiro parágrafo. São um percurso, entre outros, com uma autonomia própria, algures no mapa desdobrado sobre a mesa.

Teresa, autora do blogue A Gota de Ran Tan Plan, que aí  escreveu irresistivelmente sobre Os Eygletière, foi, é claro, quem me fez partir à procura deste romance, cujo terceiro e último volume, o melhor dos três, se denomina A Ruína: esse La Malandre, de que vos mostro a belíssima capa do original francês. [Na mesma capa aliá, também se vê o MG - lindo! - que terá um papel fulcral no fim do romance.] Mas, uma vez mais, pergunto-me: pode haver uma história acerca de uma família, que não trate a decadência desta, o palco fascinante, para o voyeur que um leitor a seu modo é, o palco fascinante justamente de uma ruína? Em um comentário, a Teresa advertia-me contra uma outra ruína a que a tradução portuguesa esteve sujeita. A total inépcia do revisor, se é que existiu algum.

É verdade que Os Eygletière merecia um acompanhamento sério. Dito isto, é igualmente verdade que nem esse crime de lesa-tradução conseguiu ensombrar o brilhantismo da obra.