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sábado, 28 de setembro de 2013
A DESCOBERTA DE JEAN d'ORMESSON
Concluo agora Au Plaisir de Dieu.
É um livro com uma profundidade que nos abarca por inteiro, em que nos movemos com o espanto das grandes descobertas e dos amores eternos. Trata-se de um romance que nos toca multiplamente e que certamente nos transformará.
Mais do que um romance, no sentido de uma história, ou de uma trama, o que d'Ormesson oferece [e de nós exige] é a possibilidade de penetrar em valores, e sentimentos, e mentalidades, que ele reconstitui sobre o fundo da História e, frequentemente, contra esta. Há episódios maravilhosos, mas os episódios - todos os episódios, diria - só interessam na medida em que nos revelam pessoas, experiências, visões. Modos de vida. «As ideias são quase nada, o modo de vida é quase tudo.»
Perpassa neste livro, que declaro agora, aqui, oficialmente, uma das obras da minha vida, a compreensão, às vezes dolorosa, de todas as pessoas na sua "irrecuperabilidade", na sua divergência íntima e irónica em relação à sociedade ou ao progresso. Veja-se a tia Ursula [von Wittgenstein], casado com o tio Pierre, veja-se a paixão completa, que aparentemente vivem, em que no entanto se introduz Mirette, numa composição que nos surpreenderá; veja-se Claude, o primo e grande amigo do narrador, com o qual este vive a liberdade de uma viagem que será, também, um rito de iniciação; veja-se, principalmente, o modo como Claude se afastará da família e do avô, respondendo ao chamamento de Deus, primeiro, ao da História, depois...
Philippe [um outro primo] e Claude estarão de lados ideológica e politicamente opostos, um deles associando-se à extrema-direita, ao nazismo, o outro, pela sua adesão ao comunismo. Combaterão, em Espanha, em frentes adversas. Nenhum deles é mau, e ambos se tornam compreensíveis à luz do olhar do avô, e da família, e se reunirão em Plessis-lez-Vaudreuil. Porque em todos os erros históricos há elementos de racionalidade e fervor que, se os não justificam, os tornam quase compreensíveis e, por outro lado, na marcha de todas as posições que, por fim, triunfarão, poderemos descobrir etapas em que foram injustas, decisões suas que foram cruéis, momentos, seus, maléficos.
O que não possuímos, e jamais possuiremos, lamenta-se o narrador em certo momento, é uma história dos sentimentos:
«Escreveu-se alguma vez uma história dos sentimentos? Temos histórias das batalhas, das dinastias, da pintura e da música, da literatura e da filosofia, das doutrinas económicas e dos movimentos sociais, do preço do trigo e da carne, dos meios da comunicação, do vestuário e dos costumes. Precisaríamos de uma história dos sentimentos. Receio muito que ela seja praticamente impossível de se redigir. Como fazer uma ideia, sem números, sem curvas, sem estatísticas, quase sem documentos, do que sentia e experimentava um romano da decadência, um camponês da Idade Média, um condottiere da Renascença, um burguês de Paris na época das Luzes, os nossos próprios bisavós em 1848 ou sob o Segundo Império? O que eles pensavam, somos ainda capazes, em rigor, de reconstruir e compreender. Mas o que poderiam significar para eles a felicidade, o prazer, o sofrimento, a ternura, a resignação ou o desespero, como o captaríamos? Como comparar, sobretudo, os seus sentimentos e os nossos? Era preciso colocarmo-nos no seu lugar, e não o podemos. [...] Ninguém saberá nunca se as pessoas eram mais ou menos felizes sem viaturas e sem televisão, sem novidade, sem dinheiro, sem necessidades e sem ambições, sem grandes esperanças, mas sem ilusões, sob o olhar de um Deus que lhes mandava calar-se, no seio de uma ordem imutável, na ausência da mudança.»
Este excerto, central na obra, é uma chave fascinante do romance: podemos vê-lo como uma magnífica história dos sentimentos e, nessa medida, uma história pensada contra os lugares comuns e as ideias feitas da História.
sábado, 21 de setembro de 2013
JEAN d'ORMESSON: AU PLAISIR DE DIEU
«É, POR VEZES, PELOS PROGRESSOS, QUE SE MEDE
UMA DECADÊNCIA»
UMA DECADÊNCIA»
Há uma originalidade "experimentalista", que se alcança com certo esforço, através de um trabalho quasi-laboratorial alimentando-se de si próprio, sob o desejo único de fazer diferentemente; e uma outra, que provém tão-só da força da personalidade: esta é a dos autores cujo pensar nos soa sempre fulgurante e inabitual, porque eles pensam com uma profundidade rara, e penetram, dir-se-ia até que sem esforço algum, num círculo que não é aquele onde se movem a massa, o comum (o lugar comum e o senso comum), o já adquirido.
Jean d'Ormesson é um escritor que, em cada frase, nos espanta e desequilibra, por causa de uma originalidade deste último tipo. A filosofia e a literatura francesas, se pensarmos bem, foram sempre um terreno propício ao surgimento de olhares assim, cuja singularidade, a não ser que se remetesse para um silêncio místico, teve de forjar uma linguagem própria, inconfundível, uma expressão superior, ao mesmo tempo de uma grande simplicidade e delicadeza [quase frágil, diria] indispensáveis para o apreender das ideias mais subtis. Recordemos Montaigne. Pascal. Proust. Ou d'Ormesson.Os adjectivos com que o narrador capta a imagem da vida da sua família, a antiguidade de que se orgulha, a unidade em que julgava poder preservar-se, à margem do tempo, são, mutatis mutandis, os que se aplicariam à sua própria escrita: «sólida e leve».
Lê-se este romance com a perplexidade de um estrangeiro absoluto: o que nele se reconstitui é, primeiramente, um mundo com o qual todas as pontes foram quebradas, e já não temos instrumentos para compreender: não só porque está temporalmente distante, e nem está muito! mas porque nos parece eticamente inacessível. O espírito cultivado pela aristocracia francesa, na transição do século XIX para o XX, assumia ainda, como marca do seu refinamento e da sua superioridade, o desprezo pelo indivíduo [só Deus, a família e o rei "legítimo" importam], pelo trabalho [uma ocupação necessariamente servil], pelo dinheiro [que nunca falta, obviamente, mas de que seria uma grosseria falar], pelas viagens ou pelo conhecimento. É, a título de exemplo, um mundo onde Dreyfus nunca perderá o carácter de traidor: até porque a traição estaria, paradoxalmente, na sua inocência, ou em querer apregoá-la, minando o espírito do exército.
Nós somos, em contrapartida, os filhos de um outro mundo; a realidade que nos forma, nos envolve e respiramos, inconscientemente, desde o nascimento, é a de uma cultura republicana e materialista, laica, mesmo se não ateia, e sobretudo igualitária. A escola pública, buscando, pelo menos em tese, um conhecimento democrático, para todos, seria a expressão máxima e mágica dos valores que respeitamos. Como poderíamos entender esta inocência da elite que se entrega ao serviço de Deus porque, no fundo, crê em um Deus que está ao seu serviço e ao serviço da sua grandeza?
A posição do narrador é de uma ambiguidade comovente. Na sua voz ressoam ainda os ecos da admiração pelo esplendor essencial de antanho. Mas não é a voz do passado, não é já a voz do avô. Não coincide inteiramente. Não que ele a ridicularize. «Sentiria horror por dar a impressão de troçar da família.» Não se trata portanto de troça, mas da perda da inocência. Não há qualquer ironia, mas uma consciência a que se não escapará, agora, jamais: a de que a história o expulsou definitivamente do paraíso; porque estavam, então, «colados a si próprios. A dúvida, as perturbações do pensamento, a má consciência, não sabíamos o que eram.». O que se introduziu foi, subterraneamente, a noção do porvir e da mudança: o mundo de que nos fala tornou-se, em certa medida, longínquo - não estranho, mas longínquo - também para ele.
O narrador mantém-se, pela memória, por um lado, pelo movimento do mundo, por outro, um ser anfíbio: participa simultaneamente das duas realidades. Eis as palavras com que a obra inicia: «Nasci num mundo que olhava para trás. O passado contava, aí, mais do que o porvir.» O passado do avô, que vivia enclausurado na recordação, insensível ao futuro ou ao progresso, como numa reprodução da ideia de eternidade. E portanto, a conversão ao porvir, o deslocar dos olhos para se olhar, pela primeira vez, para diante, há-de ser uma revolução composta de bruscas rupturas, fascinantes e destrutivas, irresistíveis e corruptoras. Oferece algo, mas tem um preço.
Os elementos fracturantes, como hoje se diz, exercem a sua sedução. Vêm do exterior, como gérmenes contaminando a família. O casamento, de um irmão do avô, com uma judia, ainda no século XIX; mas sobretudo, na geração seguinte, a união de um dos filhos do avô, o tio Paul, com Gabrielle, uma jovem muito bela, e aliás muito rica, mas, precisamente, de uma fortuna «impura», fruto do trabalho da sua família (Grande Burguesia ligada à Indústria), ostentada sem o bom gosto que só a antiguidade do sangue teria refinado; por fim, Jean-Christophe Comte, o preceptor, que arrastará os jovens para o maior dos perigos, o mal tremendo a que nunca mais se escapulirá, a derradeira perversão: o amor aos livros.
É um quadro admirável e complexo, de um tempo de transição, ferido por guerras, espartilhado entre dois universos paralelos: o «berço da tribo» [o castelo de Plessis-lez-Vaudreuil], e a casa mantida pela tia Gabrielle [rue de Varenne], brecha na tradição, albergue de movimentos, ideias, mudanças, talentos, criações, frequentado por poetas, compositores, bailarinos, homossexuais, «Salvador Dali e Maurice Sachs, Aragon e Claudel, Georges Auric e Diaghilev, cinco ou seis condes d'Orgel e todos os Swann e todos os Charlus que pudéssemos descobrir em Paris.» Aí se situa, ou simboliza, o advento vertiginoso das explorações e descobertas da geração do narrador: o prazer das viagens, e até do sol, de que a aristocracia se resguardava em chapéus, sombrinhas, ou na frescura sombria e deliciosa de jardins; da ciência, das máquinas; do amor e da felicidade.A presença de Proust assombra perturbadoramente esta ficção, como uma grata homenagem: tanto na elevação da memória a instrumento privilegiado de revisitação e sentido, como tornando-o, a ele próprio, uma personagem, que imaginamos recebida no salão da tia Gabrielle, com as suas manias, a sua fragilidade doentia, longe ainda de haver completado a Recherche, portanto um jovem judeu desconhecido, aliás também inquilino de um apartamento desta família.
Folheio uma última vez Au Plaisir de Dieu, antes de o pousar sobre a mesa de cabeceira e de me deitar. Reencontro o cheiro bom, a papel, de um livro trespassado por folhinhas, bilhetes, marcadores, que indicam as páginas a que regressarei, sublinhadas, e com anotações a lápis. Assim trato [ou destrato] algumas obras - só mesmo algumas.
Suspiro de prazer.
Boa noite. [E muito obrigado a quem mo deu a descobrir.]
terça-feira, 10 de setembro de 2013
LAWRENCE BLOCK: O LADRÃO QUE ESTUDAVA ESPINOSA
Pode o título sugerir que nos encontramos perante mais um romance dessa avassaladora onda de livros leves que fazem questão de se dependurar de uma referência clássica, seja Dante, seja Espinosa, seja Darwin. Não é o caso. Ninguém aqui verdadeiramente "estuda" Espinosa, e nenhum enigma está aguardando, ao longo da história, pela interpretação de um texto do filósofo; na verdade, perguntar-se-ia até qual a pertinência de Espinosa neste romance ou no título. É citado, sim, mas poderia não o ser; o protagonista redescobriu a Ética, e aplica algumas passagens às situações com que se depara, mas não me parece que a trama ganhe ou perca por essa razão.Um segundo ponto que me apetece abordar em face deste mistério, que tem, como principal personagem, um ladrão-detective ou um detective-ladrão, é o de que os verdadeiros leitores de policiais são pessoas que se não deixam enganar facilmente. Leram muita coisa, apreenderam o espírito do jogo, identificam padrões, reconhecem combinações possíveis, estão a par dos melhores truques, porque são finitos e os aprenderam com os "incontornáveis", desculpar-me-ão o cliché. Assim, um autor que valha a pena é um autor que ainda seja capaz de jogadas surpreendentes. Tornaram-se raros, mas existem alguns - e ocorre-me Ross McDonald, seguramente um deles.
Lawrence Block seria quase um desses mágicos do "twist": quase, porque no momento em que descobrimos quem é o assassino, percebemos que não o prevíramos porque, de facto, ele estivera sempre demasiado longe da intriga, isto é, reservara-se-lhe um lugar secundário, com poucas implicações que o leitor estivesse apto a ir descortinando num exercício de pura inteligência. Somos surpreendidos, mas é uma surpresa imperfeita. O desafio revela-se-nos um tanto murcho.Posto isto [que não é pouco, tratando-se de um policial], Lawrence Block continua sendo um autor a descobrir e a ler, por
todas as outras razões: porque escreve muito bem; porque é culto e, nessa medida, os seus constantes comentários, negros e sarcásticos, têm profundidade; porque o seu sentido de humor é cortante; porque todas as personagens revelam ângulos interessantes, na sua caracterização paradoxal e politicamente incorrecta.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
HENRI TROYAT: OS EYGLETIÈRE
Um romance que tome por objecto certa família, sejam os Maias, os Buddenbrook ou os Eygletière, lê-se como se prestássemos atenção a um mapa desdobrado sobre a mesa. É possível seguirmos, com o dedo, um curto percurso, que seria uma trama principal, ao centro. Mas a Sul, a Norte, a Sudoeste, a Nordeste, achamos outros centros de gravidade, outros pontos a visitar, um rio, uma vila, pais, filhos, amantes, primos; distantes, mas aproximáveis, segundo redes geográficas que nós próprios vamos decidindo e traçando, para além das pré-fixadas.
Os Eygletière, do prolífico Henri Troyat, introduz-nos no seio de uma família em que as fissuras estão, em certa medida, encobertas pelo pulso respeitado de Philippe, segundo o modelo tradicional da autoridade paterna. Encontramo-nos, portanto, ainda a muitos anos da eclosão de Maio de 68, pondo em causa, raivosamente, as instituições e os valores em que se reconhecia a burguesia do pós-Guerra. No entanto, as fissuras estão já por todo o lado; não declaradamente nem em jeito de rebelião juvenil, mas por todo o lado: Philippe é casado em segundas núpcias [como então se dizia] com uma mulher mais jovem, Carole. A mãe de seus filhos «abandonara-os para vir ainda a ser feliz». Aqueles envergonham-se um pouco da madame Lucie, pela decadência, social e de classe, que, aos olhos deles, representa a recomposição da sua vida, visto que «a fuga» se dera por causa da paixão por um vendedor simpático e amistoso, aliás encantador, mas sem expectativas. A irmã de Philippe, Madeleine, a tia Madou, que tomou conta das crianças aquando do «abandono», instalou-se entretanto numa peculiar vila, a alguns quilómetros de Paris: a sua relação com Philippe é tensa, carregada de ressentimentos e amuos. Há uma distância a cultivar, indispensavelmente, de forma a que aqueles que de algum modo estiveram demasiado presentes na nossa vida, e de cujo auxílio já dependemos, não se tornem mais tarde intrusos. Todos os romances de Troyat, que conheço, são exímios neste desenho de teias equívocas: na representação de relações em que não se distingue já entre o que é ajudar, e o que é mandar, entre o que é sacrificarmo-nos pelo outro, e o que é criar nele uma dependência, entre o amor e o poder.
Jean-Marc, Françoise e Daniel, os 3 filhos de Philippe, entre a admiração pelo pai (constantemente torpedeada porém), o amor com um travo de embaraço pela mãe, a aceitação reservada da madrasta, a saudade da tia, no caldo da busca da sua autonomia, são os meios evidentes da decomposição surda, mais triste do que feroz, daquela família.
Conhecemos o penetrante incipit de Ana Karenina: «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.» Por outras palavras, a felicidade é sem história. Os Eygletière oferecem-nos o espectáculo impudico de uma família que não pode ser feliz - mas corresponde o conceito de "felicidade familiar" a alguma coisa? - porque, precisamente, os filhos nunca se limitam a continuar vias abertas; procuram a própria felicidade; um caminho pessoal, chamemos-lhe, redutoramente, egoísta, que em todo o caso implica sempre rupturas. Jean-Marc, Françoise e Daniel ilustram os tremendos cortes que hão-de constituir o tríplice motor deste romance.
Os cortes protagonizados por Jean-Marc são ambos inomináveis. Não por pudor da minha parte, mas porque não faria sentido antecipá-los à leitura do romance; Daniel será um inesperado pai, aos dezanove anos; também, para já, basta isto. Françoise, por sua vez, casar-se-á com Alexandre Kozlov, russo, professor de russo, muito mais velho do que ela.
Troyat é um apaixonado e um estudioso da cultura russa. Basta termos presentes as suas obras sobre o quotidiano na Rússia ao tempo do último czar, ou sobre Ivan, oTerrível, ou sobre Dostoievski: assim, Kozlov é, nas suas mãos, a brilhante personagem através de que se expõe o combate entre o espírito parisiense burguês dos anos 50, e a alma russa, ou pelo menos a fibra dessa alma que produziu os estudantes revolucionários, os idealistas impiedosos, ou esses niilistas, entre uma inocência quase infantil, que o próprio Dostoievski tão bem retratara [confira-se, por exemplo, O Idiota] e uma radical incapacidade para se comover com a realidade; para Kozlov, tudo se resume a um exercício intelectual, uma experiência irónica e distante - até a sua relação com Françoise e, principalmente, a «farsa» do casamento com ela. Esta relação e esta personagem, que tanto me interessaram, ilustram o que eu pretendia dizer no primeiro parágrafo. São um percurso, entre outros, com uma autonomia própria, algures no mapa desdobrado sobre a mesa.
Teresa, autora do blogue A Gota de Ran Tan Plan, que aí escreveu irresistivelmente sobre Os Eygletière, foi, é claro, quem me fez partir à procura deste romance, cujo terceiro e último volume, o melhor dos três, se denomina A Ruína: esse La Malandre, de que vos mostro a belíssima capa do original francês. [Na mesma capa aliá, também se vê o MG - lindo! - que terá um papel fulcral no fim do romance.] Mas, uma vez mais, pergunto-me: pode haver uma história acerca de uma família, que não trate a decadência desta, o palco fascinante, para o voyeur que um leitor a seu modo é, o palco fascinante justamente de uma ruína? Em um comentário, a Teresa advertia-me contra uma outra ruína a que a tradução portuguesa esteve sujeita. A total inépcia do revisor, se é que existiu algum.
É verdade que Os Eygletière merecia um acompanhamento sério. Dito isto, é igualmente verdade que nem esse crime de lesa-tradução conseguiu ensombrar o brilhantismo da obra.
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sexta-feira, 23 de agosto de 2013
JOSEPH CONRAD: ACASO

Em Conrad aceito tudo, como sucede com certos e raros amigos: o que nos oferecem é tanto, tão bom e a tal ponto essencial, que as suas obsessões, mesmo as que mais nos perturbam, as suas falhas ou incompetências particulares, se tornam de facto irrelevantes. No Grande Conrad, suporto os marinheiros tisnados e a persistência do mar, os diálogos demasiado pomposos, preenchidos com termos complexos e filosofias subtis de mais para que realmente os imaginemos na boca de lobos do mar, diante de um copo, numa taberna. Mais: suporto as extensas narrações impostas pela voz de um único homem, o narrador, em geral um marinheiro, que conta certa história a algum comparsa, numa fala perfeita, literária - irrealista.
O que nos oferece, em contrapartida? Podemos principiar pela categoria «descrições». Não conheço igual. Como se, para nos
apresentar uma rua, um bar, uma casa, um rosto, um vestuário, fosse sempre possível, mais do que somar características, achar a frase inesperadamente justa, que nos deleita e põe em face de uma essência.
Lembro-me da altura em que uma amiga ansiava por me fazer aceitar Isabel Allende. Bem. Eu gosto de Isabel Allende, e considero A Casa dos Espíritos um romance estimável. O primeiro problema é que não estávamos a falar de A Casa dos Espíritos, e sim de um outro seu livro, menoríssimo; o segundo problema é que, ao tempo, andava eu lendo Conrad: Nostromo. Qualquer comparação parecia fatal para Isabel Allende. Em Nostromo encontrava tudo o que lhe faltava: a elegância do estilo, a sublimidade de ideias que se exprimem em fórmulas inesquecíveis, o sentido do paradoxo, o prazer da ironia, o detalhe nas descrições. Isto ao longo de uma história contada sem qualquer pressa, detendo-se no pormenor, no espaço, nos modos e nos caracteres das personagens. A escrita de Allende é democrática: uma sua pulsão tende para a banalidade. Mesmo no melhor, nunca será óptima, embora a considere frequentemente boa. A escrita de Joseph Conrad, porém, é aristocrática. Cultiva um gosto pelo raro e pelo exigente, que faz dela propriamente não-massificável.Deixem-me ilustrar com dois exemplos de Acaso.
«O homem sentava-se a uma escrivaninha de madeira, com embutidos, que parecia uma peça rara de museu; a cadeira oval tinha um espaldar alto, de talha, e estofo de tapeçaria já desbotado; e o confronto destes objectos com o dispendioso charuto havano escuro, que ele incessantemente fazia passar do meio da boca para o canto esquerdo, davam-lhe uma aparência ordinária e desagradável.»
Ou então:
«Vestia de preto. Lembro-me que trazia uma gravata de cetim preto, larga, lisa, na qual se via um alfinete com um camafeu; o colarinho dele era pequeno e voltado. O cabelo descolorido e sedoso, ligeiramente encaracolado sobre as orelhas. Tinha as faces arredondadas, sem barba e, aparentemente, macias. Andava muito direito, mas com passo miudinho e as suas falas eram doces e em tom comedido.»
Acaso é um livro a que chego por mão de uma recomendação de minha prima, que começa, primeiramente, por discordar da simplicidade da tradução, para português, do título: "Chance" é "Acaso", sim,
mas também "Sorte", "Oportunidade". «Porventura», exagera já ela, «até "Destino".»
A prima põe-me ante um tema que me alicia: a história de uma órfã [descobrirei por que razão, na enigmática fórmula de uma das personagens, se trata de uma «órfã até certo ponto»...], educada por uma terrível preceptora e acolhida, aos dezasseis anos, por uma família boçal, bondosa e irritante. Pergunto-lhe: «O quê!? Um romance de Conrad sem mar nem marinheiros!?» Responde-me: «Marinheiros não faltam. Mas é uma obra de que gosto imenso.»
terça-feira, 20 de agosto de 2013
DANTE & CLARA PINTO CORREIA
Clara Pinto Correia produziu um livro cujo título é No Meio do Nosso Caminho.
Percebe-se, portanto, a piscadela de olho aos leitores cultos, que aliás confirmo numa badana do livro:
«"No meio do nosso caminho", como ficou escrito desde que Dante escreveu a Divina Comédia, é a passagem pelo purgatório.»
Lamento imenso ter de corrigir. Na verdade, como sabem todos quantos leram a Divina Comédia, a afirmação está errada. Esta metáfora de um verso inicial da obra nada tem rigorosamente que ver com o purgatório.
Pelos vistos, em matéria de cultura literária não existem apenas cultos e incultos.
Há um perigosíssimo "meio caminho", de que resultam tremendos dislates. [Claro que, não existindo um grau absoluto do ser-se culto, a meio caminho estaremos, num certo sentido, todos nós. Mas não é à aprendizagem e ao aperfeiçoamento que me refiro. É ao meio caminho do "dar-se ares"; do fingimento e da aparência. De fazer crer que se leu o que se não leu, se viu o que se não viu, se ouviu o que se não ouviu. De não ter efectivamente experimentado algo, não resistindo a exibir as suas marcas, com a familiaridade dos tolos.]
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
JOËL DICKER: A VERDADE SOBRE O CASO HARRY QUEBERT
Sou um fanático do género policial. Bastaria, quase, esta introdução, para explicar por que motivo alguma antena em mim vibrou quando ouvi falar de um romance de cerca de setecentas páginas sobre um crime, e que, no entanto, «se lê compulsivamente», «sem interrupções».
Por outro lado, Joël Dicker, o autor, um jovem político suíço, também me pareceu digno de atenção. Questionado sobre se este livro, que já era best-seller, oferecia «tanta intensidade» [ou qualquer expressão no estilo] como a trilogia Millenium, de Stieg Larsson, retorquiu que não a conhecia, propondo uma matriz alternativa: nada menos do que Nabokov e Marguerite Duras. Pelo menos esses, que me lembre. Algo do meu habitual cepticismo torceu qualquer coisa como um nariz. Mas disse de mim para mim: «Tenho de ver isto!»
Há um outro romance policial de setecentas páginas, mas realmente muito bom: A História Secreta, de Donna Tart. É um clássico de intriga e cultura, onde, em cada página, pressentimos a presença de Sófocles, Dostoievski, Hitchkock. Dar-se-ia o caso de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert ser um seu parente tardio, um irmão vindo muitos anos mais tarde, um primo, um sobrinho?
Desse ponto de vista, desilude. As referências do autor a Nabokov e a Duras não significam senão: «Eis uma história que ousa tocar um tema tabu: desenterra, trinta anos volvidos, a paixão que um aspirante a escritor teve por uma ninfeta de 15 anos (assassinada, um pouco à maneira de Laura Palmer: aldeia superficialmente pacata ocultando terríveis segredos, remember?)» Na perspectiva de Humbert Humbert, uma miúda de 15 anos seria mais uma idosa do que uma ninfeta, mas adiante...; por outro lado, o grande segredo do romance, mais do que: «Quem matou Nola?», é: «Quem realmente fez o que todos atribuíam a outrem?» Fiquemos assim: mais clareza equivaleria, porventura, a estragar de antemão o que o leitor verá por si. Todavia, nesse ponto, na forma como se engana o leitor acerca de quem fez o que se pensou que teria sido obviamente feito por quem o apregoa, meus amigos, topo a referência secreta, oculta, a obra basilar e o autor a que se vai beber. Pierre Siniac. O actualmente desconhecido Siniac, autor de um policial que é, esse sim, imperdível, embora não esteja traduzido para português: Ferdinaud Céline. E, aí, o "Céline" do título está longe de ser uma referência gratuita.
Porém, isto interessa pouco. Seria como desvendar a fórmula da coca-cola, percebendo que onde garantem existir "x" só se encontra "y", e onde esperariam "a", tropeçam em "b"; não altera o facto. O facto é o sabor: o tal sabor que eu odeio mas, inegavelmente, se entranha, e não conseguimos que não vicie os nossos filhos a partir dos 7, 8 anos, por muito que os procuremos manter na ignorância. Harry Quebert é, por fim, também isto. Um romance que se lê de respiração suspensa, cavalgando os capítulos pela madrugada adentro, sem vestígios de sono, e cujas revelações surpreendem mesmo, de maneira que perdoamos a fragilidade dos diálogos; ou a evidência da pouca qualidade de trechos «citados» como sendo passagens da obra imorredoira que o escritor em crise, sob um estado de paixão pela rapariguinha, teria, por fim, conseguido escrever e publicar.
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