quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ACERCA DE LIVROS QUE ME OFERECERAM PELO NATAL

Como me vou entendendo entre livros novos?
No Natal ofereceram-me A Psicologia do Amor, que é, curiosamente, mais interessante do que me parecia. Um psicólogo norte-americano, judeu, contemporâneo, conhecido por uns quantos best-sellers (Quando Nietzsche Chorou e outro sobre Schopenhauer) escreveu, à imagem de Freud, a descrição de casos seus. Em Freud, como sabemos, tratava-se de "pensar" os seus casos para erigir uma teoria e um método - a própria psicanálise. Aqui, claro, não há tanto. Um pouco de exibicionismo - «Vejam como sou bom a resolver problemas» -, um pouco de aproveitamento - «Reparem como estes casos são interessantes» -, temperados por um excelente poder narrativo, fazem das dez situações expostas algo que merece ser lido: porventura mais próximo de Dr. Phil do que de Freud ou Jung, mas ainda assim...

Meu irmão recebeu um livro de que não gostou. Ofereceu-mo para o trocar, em estado novo, pelo que muito bem entendesse. Para mim! Aceitei - não digo o que se foi, mas digo o que veio: Maldito Sejas Dostoiévski, uma edição da novíssima Teodolito, que me prende desde a primeira página. Crime e Castigo, anunciam, mas em Cabul, e hoje. Bah! Passam ao lado do essencial, mas quem esperava melhor das "frases de promoção"? É um livro interessante e original - com falhas e desvios, de que talvez venha a falar mais tarde, mas, em síntese, muito interessante.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CARLOS DE OLIVEIRA: UMA ABELHA NA CHUVA



Há que regressar aos autênticos iniciadores.
Por vezes esquecemo-nos. Lemos hoje um autor que nos parece de uma extrema originalidade, ou de um hermetismo que se deixa confundir com originalidade, e perdemos de vista como, anos antes - e porventura de forma maior, ou com mais razão - já alguém tinha aberto essa senda. De vez em quando, descobrimos um desses que abriram uma senda, um autêntico iniciador. Ou redescobrimo-lo. Ou, por algum motivo, torna-se evidente o que nos escapara numa primeira leitura, feita há já muito tempo.

É o caso de Carlos de Oliveira. Não digo que não haja quem se lembre dele: mas, convenhamos, Carlos de Oliveira foi sempre um autor discreto. Uma Abelha na Chuva, que é um romance de pequena extensão, talvez aquilo para que os portugueses possuem o termo "novela", era apresentado aos alunos do secundário. Penso que, actualmente, já nem isso - entre Eça e Saramago, esses gigantes "oficiais", escasseia o espaço para os demais. Mas Uma Abelha na Chuva é, mais do que tudo, uma história muito, muito, muito bem escrita, que apetece ler pela maravilhosa e criativa simplicidade do sabor das palavras. Aquela descrição física de uma personagem, com que abre o romance, contém tudo quanto é importante para o início de uma história: o gosto e o poder de dar a ver em todos os pormenores, quase como o cinema, e a capacidade de se apresentar uma situação, introduzindo, e simultaneamente adensando, um enigma.

Uma Abelha da Chuva é o texto de Carlos de Oliveira que mais aprecio. Mas em Finisterra, outra obra-prima, encontramos precisamente a origem portuguesa de tantos posteriores experimentalismos [atrever-me-ia a dizer que até de uma intelectual tão incensada ainda como Gabriela Llansol]. Sem falsas pirotecnias, sem forçar absolutamente nada, deixando que as palavras sejam guiadas pela alma das próprias palavras, pela sua poesia interna, que o leitor saboreia e a que regressa, um pouco perplexo, nunca certo de haver esgotado todo o seu sentido.

Há que voltar aos autênticos iniciadores. Há que reler os clássicos discretos. Há que nunca esquecer Carlos de Oliveira. [Que, pessoalmente, em matéria de escrita de romance, tanto me ensinou, mais até do "haver-me influenciado". Mas a quem interessa isso?] Há que retomar Uma Abelha na Chuva. Uma e outra vez.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ALESSANDRO MANZONI: OS NOIVOS [I PROMESSI SPOSI]








I Pomessi Sposi chama-se, em português, Os Noivos.


Obtive-o mercê de algum trabalho. Estava esgotado e nunca foi reeditado: mas encomendei-o em várias livrarias e, de uma, acabaram por me enviar um exemplar lindíssimo, de páginas amarelecidas. [Publicado em 1963].
Como não há fome que não dê em fartura, de uma adega de certa biblioteca recolheram também um exemplar da mesma edição, que eu tinha pedido há séculos e não tive coragem de agora recusar, pelo que tenho, neste momento, o livro em duplicado.

Raios! Meu primo não tinha mentido. Percebo até a sua inveja: «Ainda não leste? Que sorte teres ainda um livro desses pela frente.» [Percebo-a, porque sinto exactamente isso: «Que bom! Ainda não acabei de ler, ainda só vou a meio... Tanta página pela frente...»]
Passamos o primeiro capítulo, que descreve exaustivamente o local em que tudo se passa [«se passou», na presumida realidade, ou «se passará», do ponto de vista da narração] e é uma razão para que o livro não torne a ser publicado tão cedo em português (não por mim, diga-se, que sou um fanático das descrições bem escritas...), e entramos numa história de tom camiliano. É fácil perceber a influência de Os Noivos em Os Mistérios de Lisboa, sobretudo no que respeita a algumas personagens: estou naturalmente a pensar na figura, tipicamente romântica, de um frade que foi um homem da vida, um espadachim de passado tumultuoso e consciência pesada pelo arrependimento; ou nos próprios jovens enamorados, um jovem camiliano que ferve em pouca água e se apaixona perdidamente por uma moça camilianamente singela e cândida.

Há, em Os Noivos, a sistemática compreensão das personagens, reveladora de uma arguta inteligência emocional. Nunca se trata de explicá-las segundo uma psicologia de pacotilha. Trata-se da exposição de motivações desencontradas no interior de um mesmo sujeito, de mudanças de sentimento, da falsa interpretação, pelo próprio, do que está a sentir, ou do que o leva a determinadas decisões: é de uma subtileza e de uma penetração magistrais; penso [por exemplo] na jovem que professou, Gertrudes, depois de combates mais contra si mesma do que contra seu pai e sua mãe, que a manipularam e empurraram para uma tal situação. A mão dessa freira terá, na história, um papel decisivo. Para o bem, primeiro, para o mal, depois. E também esta visão está por todo o Camilo, como sabemos. O capítulo, sobretudo, em que se narra a história dramática da sua "escolha" é de uma profundidade que impressiona hoje da mesma maneira que no tempo do autor.

Existe qualquer coisa de comédia de enganos, de entrechos paralelos que vão sendo expostos separadamente, para que se perceba como se conjugaram para um determinado episódio [e o narrador volta atrás, para recuperar um fio que parecia esquecido, mas sem o qual se não captaria o "todo" das consequências]; qualquer coisa de uma explicação sociológica, que nos coloca em face dos pormenores históricos da sociedade da época, com classes e castas que se entrecruzam numa relação de forças nunca muito justa; qualquer coisa de um humor que se imiscui na tragédia: os caracteres são impagáveis nas suas fraquezas.

Estamos perante um tema de grande simplicidade: um casal de jovens prometidos não pode casar-se, porque o padre Abúndio, delicioso cobarde, se recusa a casá-los, visto que foi ameaçado por um nobre que está enamorado da rapariga. Mas o padre não diz as razões: adia, inventa, contorna sine die, de modo a que algo aconteça que o livre da sua responsabilidade.

I Promessi Spsosi é um clássico. É um romance magnífico, subtil, guiando-nos numa ânsia de saber mais e de continuar lendo, que nos domina por completo. É um daqueles livros que nos devoram: durante um certo período da nossa vida, enquanto estamos com ele, não nos larga, chama-nos, assombra-nos, ocupa-nos a mente. Acordamos a pensar nele, adormecemos com ele no espírito. Curiosamente, não tenho ideia de que Alessandro Manzoni tenha escrito qualquer outro romance. Penso que não, o que o emparceira com outros ilustres autores de alguma extraordinária obra única, como Tomasi de Lampedusa, autor do maravilhoso O Leopardo, ou numa acepção ligeiramente diferente, Proust lui-même.





Podia não o ter encontrado? Podia. Mas não era a mesma coisa.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

HAROLD BLOOM: GÉNIO


Confesso que sou sensível a teorias que provocam. Se acontece a "provocação" ter substância, isto é, sobreviver a um primeiro sobressalto, então, ainda que discordemos da teoria, ter-nos-emos deslocado: há um movimento da nossa estrutura de referências que, se não conduz necessariamente a uma mudança de paradigma, também se não faz sem efeitos, mesmo que mínimos e subliminares.


Um exemplo: lia, com esse tipo de espanto, um crítico literário espanhol afirmar que Kafka era «um mau romancista». Acrescenta que, em O Processo, a primeira frase constitui um erro fatal. Abre-se a cortina com um período excessivamente revelador, porque conteria já todo o desenvolvimento e o fim da história. Discordo do juízo de valor, mas não posso deixar de concordar que a abertura de O Processo, de resto um livro extraordinário, é, a esta luz, uma abertura infeliz.


Harold Bloom é um destes pensadores.
Se abstrairmos, nas suas análises subtis, de algum elemento de arbitrariedade e de algum elemento de busca de efeito a todo o preço, o que resta é, ainda assim, uma visão competente e sagaz, muito estimulante, de uma cultura enciclopédica, conservadora e todavia original, e sempre provocadora.


Estou com um livro seu, Génio, entre mãos.
Pessoalmente, dispensaria que ele o tivesse organizado à imagem do Talmude. Mas concedo que, se prescindimos de uma exposição histórica de certos autores, carecemos de um outro critério de arrumação. E, é certo, por artificial que seja o que obtemos, o Talmude fornece uma chave de organização tão boa como outra.

Por outro lado, existem aquelas convicções muito fortes, a que eu chamaria "manias", de Bloom. Insistir em que José Saramago é o mais talentoso de todos os autores contemporâneos parece-me pouco razoável. Mas muito bem. Admitamos que há, no mais racional dos críticos literários, um incontornável lugar para o "gosto", e que o gosto tem razões que a razão desconhece.

Resulta, de tudo isto, um livro maior mas desigual, e com debilidades [que mo fazem ler sentindo-me interpelado, agastado, comovido], erigido sobre a tese do génio, isto é, a ideia de que, mais do que à cultura, ao tempo, a uma técnica que se aprenda ou às influências, o que verdadeiramente explica a grandeza de algumas obras literárias é, paradoxalmente, algo da ordem do inexplicável: o génio do seu autor. O tempo, a cultura, a técnica ou as influências de Marlowe não eram diferentes das de Shakespeare - e, no entanto, Marlowe nunca seria Shakespeare. Nem Marlowe nem, segundo Bloom, nenhum outro alcançou, alcançaria ou alcançará uma realização literária tão múltipla e tão perfeita. (Dante teria sido quem mais se aproximou).

E sob o princípio do génio, dividindo os autores por diferentes tipos de génio, incluindo, na obra, os portugueses Luís de Camões, Eça de Queirós e José Saramago, Harold Bloom apresenta-nos os génios cujas obras, para ele, formam o cânone da literatura ocidental. Poderemos não nos render, mas saímos acrescentados da leitura.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

LLOYD JONES: MR. PIP


Mr. Pip é o nome do último livro que li. Enquanto espero que o meu primo consiga desencantar-me I Promomessi Sposi, do qual me dizia, sem ironia, «o quê?! Nunca o leste? Fico com inveja de ti, pá, e do teu projecto de vires a ler um livro como esse», mergulho em Mr. Pip e, por várias razões, sinto-me extasiado.

Primeiramente porque é, de certa forma, um livro em torno de um outro livro, Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Mas, em segundo lugar porque, ocorrendo num tempo, num espaço e com personagens plausíveis, reconstitui, todavia, um tempo, um espaço e personagens de uma plausibilidade "estranha", que nos é distante. E portanto há um tom quase surrealista e kafkiano na forma como seguimos os jovens negros de uma ilha, assolada por uma guerra civil, perante Mr. Watts, o professor improvisado [e o único branco da ilha], que lhes apresenta Grandes Esperanças, de Dickens.

É uma obra sobre confrontos: de culturas e de valores, de experiências e de visões do mundo e da vida. Com a dureza extrema subjacente ao testemunho da incompreensão e da intolerância, mas guiado pela busca da compreensão e da universalidade, que poderia ser precisamente achada em Grandes Esperanças (o qual representa, como Lolita em Teerão, a ideia e a experiência de uma obra criada num certo tempo e no contexto de uma certa cultura - lida por outras pessoas, de um tempo e de uma cultura sem as mesmas referências) e a ternura de todos querer reconciliar e salvar no seu coração - mesmo os inimigos que, em vida, nunca se aceitaram - é um livro muito belo. E muito duro. Mas muito belo.

domingo, 20 de novembro de 2011

ARISTÓTELES: POÉTICA


Soube que um leitor, atento e fiel, deste meu blogue (um único leitor, portanto, mas um que muito especialmente prezo) se tem ressentido do meu silêncio.

Não vale a pena explicar por que me remeti ao silêncio. Inúmeras razões, desde a expectativa de que a referência a "Mira-Lata" fizesse o seu efeito, até uma fase de hiperactividade profissional, passando por alguma desmotivação, poderiam ser justamente alegadas. Mas não me afastei dos livros, isso não: e para reatar a dinâmica "bloguista", escrevo hoje sobre um que, estranhamente, me tocou fundo. É a "Poética", de Aristóteles.

Descobri-o numa oficina de guionismo, patrocinada - gratuitamente - pelo clube de cinema que dinamizamos, o Francisco e eu, na minha escola. Temos recebido, semanalmente, a visita da realizadora Joana Pontes, a qual, perante uma audiência muito jovem, nos fala sobre "enredo", "plot point", "desenlace", sinopses e guiões propriamente ditos, princípios e fins, pontuando o seu iluminado ensinamento com exercícios e experiências colectivas de construção de estórias. Lembro-me que, numa das primeiras sessões, Joana Pontes trazia a "Poética", de Aristóteles. E de que nos disse: «É claro que tudo o que eu vos possa dizer, mais, o que os melhores guionistas hoje sabem e usam, já tinha sido descoberto por Aristóteles. Está tudo concentrado, com uma enorme clareza, neste livrinho...»

Posso ter pensado que houvesse algum exagero. Não me lembrava da "Poética". Tê-la-ia eu lido? É possível, se atendermos a que cursei filosofia e Aristóteles está longe de me ser um desconhecido. Mas não o li certamente segundo o prisma da sua "utilidade" ou da sua "actualidade". Fui em busca; não havia; encomendei-o.

Não há o menor exagero. Espanta-me reconhecer [uma vez mais] que, a despeito de termos evoluído tanto em matéria de tecnologia, no que diz respeito ao essencial [como seja contar uma história], tudo está nos Gregos. Ou nos Romanos. Não em Aristóteles em particular - porque Aristóteles reflecte, no caso da "Poética", sobre o que estava incorporado, de há muito, no que os poetas, seus contemporâneos e anteriores, já faziam. Não descobrimos nada de original na maneira de narrar com o fito de interessar o leitor ou o espectador; nada de novo na forma de "imitar" acções e acontecimentos, relações e decisões que exponham as personagens nos seus vícios e virtudes, encaminhando-as para a felicidade ou, mais provavelmente, para a infelicidade. Nada de novo sob o sol.

Aristóteles é um amante de teatro. Conhece a maioria das obras do seu tempo, tem predilecções (o "Édipo", de Sófocles, por exemplo, é, para ele, o protótipo da grande tragédia), compara, explica o que falha aqui e o que brilha ali, e traduz esse prazer pela imitação dos actos de homens representada para o público, numa série de lições absolutamente extraordinárias. Analisa as emoções fundamentais do leitor/espectador [que são a compaixão e o temor], a importância da estrutura, actuando, por dentro, como a necessidade que permite desenvolver coerentemente a história [por oposição aos "maus poetas", que optam por ir adicionando episódios que não fariam falta ao todo, se os eliminássemos], o papel da "peripécia" e do "reconhecimento" e, à medida que avanço no texto claríssimo, vou enchendo as margens de anotações: pequenas filas de aranhas desenhadas a lápis de carvão, que nem talvez eu próprio, mais tarde, consiga descodificar.

Descubro erros meus [a tentação, por vezes, para o "episódico", própria de todos os "maus poetas"] e erros de alguns contemporâneos premiados. Às vezes, obviamente, discordo. É importante não confundirmos um gosto particular com uma lei universal. Mas é um livro que faz qualquer autor sentir que os Antigos sabiam já tudo quanto sabemos - e talvez um pouco mais, porque estavam atentos a muito daquilo que esquecemos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O CONTEMPORÂNEO «INCONTORNÁVEL»



Dava, há dias, comigo a pensar isto: Saramago é, para todos os portugueses, o único autor português contemporâneo verdadeiramente «incontornável». [Usei aspas para que se intuísse alguma ironia que a palavra me merece].

Até no seu modo polémico, José Saramago conseguiu que todos os portugueses se definissem, literária e esteticamente, em relação a ele. Da mesma forma que, a propósito de Nietzsche, Eric Weil afirma que, se podemos falar de um autor cristão, é precisamente dele - na medida em que todo o seu pensar se configura em relação a Cristo, ainda que para o contestar -, também faz sentido dizer-se que os portugueses são todos saramaguianos. Mesmo os que o odeiam, mas fazem desse ódio uma referência como não existe outra com o mesmo peso, com idêntica intensidade.

O século XX português é absolutamente saramaguiano. Torga, Jorge de Sena, Nemésio, Sophia ou David Mourão Ferreira - cinco exemplos imediatos de autores portugueses que considero melhores do que Saramago, isto é, mais profundos e mais cultos - não tiveram o seu impacto. Não fizeram a mesma revolução na escrita: foram herdeiros e continuadores de uma tradição, enquanto que José Saramago a transformou radicalmente. Aqueles foram sínteses brilhantes e inovadoras, este foi o advento de um outro mundo.

Nem sempre gostei de Saramago. Como homem, critiquei-lhe a presunção e a arrogância. Como escritor , considerei-o bastas vezes superficial. Comparem uma página de Clarabóia (mas, para não sermos injustos, uma página de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é do seu melhor, se não o seu melhor) com uma página de Mau Tempo no Canal. Há, em Saramago, uma ausência de densidade ou de riqueza na reflexão, que, pelo contrário, encontramos em cada linha de Nemésio. E, no entanto, ninguém se define em relação a Nemésio. Gosta-se ou não, mas não se está num território virgem, inexplorado, em que se semeiam religiões, fés radicais, terríveis incompreensões, radicais antipatias. Saramago suscita-as. E influencia-nos. A todos. De um ou de outro modo, para o mal ou para o bem, mas a todos.