quarta-feira, 11 de maio de 2011

https://www.facebook.com/#!/nadamaiseociumegilduarte

já agora, en passant, gostaria de lembrar que o «meu» próprio livro, Nada Mais e o Ciúme, está na feira do livro (pavilhão dos pequenos editores).

Quem tenha curiosidade pode, no facebook, visitar a página do romance. Aqui:

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terça-feira, 10 de maio de 2011

PIERRE LOUYS: A MULHER E O FANTOCHE








Escrevi aqui, há dias, a propósito de um filme projectado na última sessão do clube de cinema, e acerca do qual alguém, nessa sessão, mencionou dois romances.


O filme, já agora, chama-se O Diabo é uma Mulher, e é protagonizado por Marlene Dietrich. Foi realizado num tempo onde, como lembrava precisamente quem o apresentou, o cinema estava ainda a descobrir-se: não se tinham instalado fórmulas nem convenções cinematográficas, de modo que quase tudo valia como experiência, ensaio, tentativa - e originalidade.

Um dos livros associados ao tema foi Fiesta, de Hemingway. Li-o, já o comentei.

O outro é A Mulher e o Fantoche, de Pierre Louys: concluí-o ontem à noite. É o romance, publicado em Paris (1898), que está na origem do filme de Sternberg.

Se descontarmos uma «escrita de época», em que seria perfeitamente aceitável, por exemplo, construir-se a fala de uma personagem como um discurso literário, longo e prolixo, sem quaisquer marcas de oralidade; se descontarmos o facto de que mesmo as personagens jovens e populares, como Concha Perez, se exprimem filosofando numa linguagem assaz sofisticada, isto é, se nos concentrarmos no essencial, apercebemo-nos de que estamos, por várias razões, perante uma obra verdadeiramente subversiva no tratamento dos tabus sexuais: Concha é, inicialmente, uma moça de dezassete anos desejada arrebatadamente por homens maduros, que querem fazer dela sua amante; por outro lado, o espectro do sado-mazoquismo não podia definir-se mais claramente; e é perturbador o modo como ela manipula Don Mateo, conduzindo-o ao limiar do paroxismo, negando-se-lhe no último momento, aceitando-lhe as prendas e o dinheiro, desaparecendo inesperada e sistematicamente da sua vista, da sua vida - para reaparecer depois, por coincidência, com toda a tranquilidade, sem qualquer medo. De nada: «Nem da morte», como afirma Don Mateo.


O título, ou melhor, os títulos, tanto o do livro como o do filme, são enganadores: porque, porventura, o que vemos é muito mais do que o ludíbrio e a manipulação do homem por uma mulher, ou a redução da mulher à figura do demoníaco: Luís de Almeida de Eça, que apresentou o filme e falou dos livros, apresentava uma leitura particularmente interessante: a questão é a do radical choque entre o feminino e o masculino; é a de uma diferença que seria da ordem da incompatibilidade: homem e mulher não desejam nem amam da mesma maneira. E, portanto, em última análise, acerca da impossibilidade do amor.

É, em todo o caso, um livro no masculino: a mulher não é o diabo, mas um ser incompreensível, inalcançável, pura liberdade; o homem não é o fantoche, mas o predador cego de desejo, sem subtileza, frequentemente brutal. Sobretudo, não é uma vítima, se nos lembrarmos do que impele a história: a sua tentação e tentativa de conquista de uma mozita.

sábado, 7 de maio de 2011

ERNEST HEMINGWAY: FIESTA

Posso dizer que o meu juízo acerca da obra de Ernest Hemingway se fundava num preconceito e na aceitação de duas excepções relativamente a esse preconceito.
O preconceito: Hemingway é um escritor menor e um dos menos interessantes cultores da transplantação, para a literatura, de uma linguagem despida e soi-disante «objectiva», própria da reportagem. Foi mais rica a sua vida, no limiar da aventura e do politicamente incorrecto, e até a sua morte, do que qualquer um dos romances que escreveu; detestei esse tão amado e celebrado O Velho e o Mar. Nunca ultrapassei metade de O Jardim do Paraíso.
As excepções: Por Quem os Sinos Dobram e algumas passagens e personagens de Paris é Uma Festa.

No clube de cinema da minha escola, a propósito do filme que vimos esta semana, foi mencionado um livro de Hemingway que eu não sabia se tinha lido, se não, e se teria ou não em casa. Fiesta. Procurei-o, não estava nas minhas estantes. Passei pela biblioteca: com muita sorte, achei uma edição antiga, da Ulisseia, com prefácio e tradução de Jorge de Sena.

Há, no organismo feminino, ciclos, dinâmicas e funcionamentos - e disfunções - que só uma mulher pode verdadeiramente compreender. Este romance é, por oposição, acerca de um «problema» que, de algum modo, só um homem consegue captar em toda a sua extensão e implicações. É sobre aquilo que a linguagem antiga da psicologia, hoje banida ou reconvertida, costumava designar por «impotência». É sobre a risibilidade desta disfunção, como afirma o próprio Jake Barnes, como se se reduzisse a uma condição cómica, ao invés de se intuir nela o medo secreto de todos os homens, a mancha na virilidade, a vergonha e a diminuição mais ainda psicológica do que física.

Não que seja um livro que só um homem possa compreender: a trama, que cruza duas histórias diferentes, tem por fio condutor uma ideia magnífica nas possibilidades e nos cambiantes, que é a de um amor impossível, ou seja inconsumável: precisamente o amor entre Jake Barnes, que não poderá realizar o acto sexual, e Brett, a qual, reconhecendo que ele é o homem da sua vida, o deseja sem nunca o poder ter, transferindo a sua energia libidinal para todos os outros homens, numa espécie de delírio sexual de substituição, imparável e sempre insatisfatório: fugindo-lhe, portanto, e procurando-o, ora afastando-o ora regressando a ele, num eterno e irresolúvel dilema. Trata-se aqui, como se vê, também de uma questão intimamente feminina, que é a de saber em que medida o sexo, sem dúvida importante, é fundamental no amor: ou seja, pode - ou consegue - alguém, uma mulher, ou um homem afinal, suportar a vivência de um amor em que a consumação sexual será para sempre impossível? Das mulheres, costumava dizer-se que sim: criou-se o mito de que o amor no feminino é mais puro e menos físico, mais carente de romantismo e capaz de dispensar o sexo. Diria que o amor é diferente, na perspectiva de um homem e de uma mulher, sem dúvida. (Outra questão: será, então, alguma vez possível?). Mas é claro que o mito que enunciei não passa disso: um mito.

Por uma vez, a escrita de Hemingway é a mais adequada à narração: é particularmente eficaz a linguagem que parece tão seca, todavia muito sugestiva sempre, evitando qualquer recurso demasiado visível a figuras de estilo, mas, no entanto, usando magistralmente as imagens do quotidiano como símbolo da impotência: o elevador que não consegue subir, os gestos ritmados do polícia que coordena o trânsito com um bastão. (Precisamente, aliás, dois dos exemplos usados pelo orador que, no clube de cinema, nos falou do livro...)

E seguindo, fascinado, a evolução do romance (entrei agora na segunda parte), penso em como me enganei no juízo fácil com que arrumara já definitivamente Ernest Hemingway.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ARTHUR KOESTLER: O ZERO E O INFINITO



1.

As etiquetas foram-me importantes, durante a minha juventude. Falo de etiquetas filosóficas ou ideológicas: tornei-me sucessivamente cristão, existencialista e marxista. Por esta ordem.
A verdade é que fui um marxista tardio, ou seja, casei com a teoria de Marx, de Engels e de Lenine numa altura em que já se conhecia muito bem a natureza da URSS, e alguns dos intelectuais mais honestos haviam posto (e há muitos anos) estrondosamente fim a namoros antigos com o comunismo soviético, apontando sintomas da opressão e da asfixia totalitárias. Já lera Orwell, já lera até As Mãos Sujas, de Sartre, e Les Aventures de la Dialectique, de Merleau-Ponty, mas nenhuma argumentação conseguira romper o meu fascínio intelectual.


2.

Um dia, li O Zero e o Infinito. Não sei sequer o que me levara a comprá-lo: não creio que já tivesse ouvido mencionar o autor. Era uma tradução portuguesa, se a memória não me atraiçoa, numa edição que tinha uma capa vermelho viva.
É um romance da autoria de Arthur Koestler: os seus camaradas de um passado comum de militância comunista apodavam-no entretanto de traidor e renegado. Koestler rompera com o partido antes ainda do Pacto Germânico-Soviético, e os seus ex-companheiros nunca lhe perdoaram que escrevesse acerca do despertar do seu sono dogmático.
«Escrever» aquele livro: em O Zero e o Infinito fala-se de um velho comunista inspirado em Trotski (e quem diz «Trotski» diz todos aqueles que, de um modo ou de outro, sofreram e sucumbiram por causa das suas discordâncias em relação ao programa de Estaline.)

3.

Resumida (e reduzida) a estes termos, parece uma obra política. É-o, sem dúvida: mas é principalmente uma obra filosófica, no sentido em que se trata - como em 1984, de algum modo - da discussão entre diferentes concepções: o poder não eliminará a fonte perturbadora sem primeiro tentar convencê-la; por outras palavras: mais do que uma luta entre forças físicas, é a uma luta intelectual que assistimos; antes do mero exercício do poder, é uma luta de ideias que testemunhamos, uma luta de olhares, uma luta pela razão. (Falsa e injusta porque, naturalmente, desigual).
É, porventura, um livro datado. Estou certo que sim.
E, no entanto, não estarei a falsear grandemente os dados se vos disser que a minha terapia ideológica (que me não tornou necessariamente um anti-marxista) principiava nesta leitura.

domingo, 1 de maio de 2011

DINIS MACHADO: O QUE DIZ MOLERO. MÁRIO ZAMBUJAL: CRÓNICA DOS BONS MALANDROS


Para além dos livros portugueses que definiram um trilho na literatura - alguns dos escritores do século XIX, muitos dos inovadores do nosso tempo -, há duas obras estranhíssimas que vingaram por uma improvável constelação de razões. Não pretendiam ser livros «intelectuais», mas a verdade é que se tornaram objectos de culto, com um certo impacto na intelligentzia da época; não tinham a intenção de levar a cabo nenhuma revolução literária, mas levaram-na pela originalidade com que transformavam pequenos malandros em protagonistas; não se propunham ser lidos como tratados de psicologia ou de sociologia, mas captaram deliciosamente a dinâmica de caracteres e de grupos, valores, a história recente (ou a evocação da infância perdida) e a inventividade portuguesas. Transformaram-se em ícones, passaram ao teatro e ao cinema. Representam, no entanto, mais do que uma época: são, ambos, obras incontornáveis da cultura portuguesa. Um deles é O Que Diz Molero, de Dinis Machado. Foi, dos dois, muito sinceramente, o livro que levou mais tempo a conseguir-me. Gabavam-mo e eu tentava entrar, mas ficava sempre à porta das primeiras páginas. Parecia-me uma torrente de memórias e referências sem passagens, nem critérios ou fronteiras: um autêntico desabamento; referiam-se ao seu humor negro e certeiro, aos impagáveis diálogos que António Feio e José Pedro Gomes recuperaram para o teatro, mas não chegava a nenhum ponto que me parecesse particularmente engraçado. Até um dia.
Porquê? Sabemos explicar? Por que razão uma obra que nos volta repetidamente as costas, um dia se mostra disponível para nós? (Parece-me óbvio que, às vezes, não se trata da disponibilidade do leitor para o texto, mas do contrário); o facto é que, um dia, não entrei no livro; foi mais do que isso: escorreguei, como se viesse por um escorrega abaixo. E recordo-me de estar no metropolitano a rir, um pouco embaraçado, temendo que reparassem em mim. Encontrei tudo o que me prometiam. E mais, muito mais.

*

O outro é Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal. E se de Zambujal, para mim, nenhum outro romance é sequer lembrável, esta crónica acerta em cheio no coração do espírito lusitano, à volta de um grupo que, como crime, quer planear aquilo de que ninguém mais se lembraria, e nutre um puro horror pelas armas ou pelo sangue. Muito do melhor que se escreveu em Portugal tem que ver com isto: um certo tom cómico, mas que não deixa de passar pelas tristezas, apontar os desamores e, sobretudo, preferir como arma fatal o gume da ironia. António Vitorino d'Almeida, o maestro, faz isso no romance da sua autoria que prefiro (não Coca-Cola Killer, by the way, mas o praticamente desconhecido Um Caso de Bibliofagia), remontando à graça de todo o Eça e de algum Camilo. (Ou do injustamente esquecido André Brun). É uma ironia tingida de melancolia, que, aliás, hoje se tende a perder um pouco: está ali. Na Crónica. Dos Bons Malandros. Isto é: na crónica de nós próprios, em certa medida, afinal.

sábado, 30 de abril de 2011

OS INÍCIOS E OS FINS



Eduardo Prado Coelho escreveu uma vez, a propósito já me não lembro de que «jovem autor»: «Percebe-se, na leitura das primeiras linhas, que se entrou num continente desconhecido».
Durante anos, estas palavras ressoaram em mim como uma doença. Como se fosse lícito depositarmos nas primeiras linhas de um livro de duzentas ou trezentas páginas um sinal irrefutável do valor do todo.
Tais palavras [ia emendar esta repetição, mas sigo o conselho de Pascal: cf. um post lá para baixo] regressam-me à memória, ao almoço, no decurso de uma conversa com alguém a que vim de ser apresentado, e me confessa, com humor: «Nunca escrevi um livro porque não sei como hei-de terminar». E continua, satisfeitíssimo por se aperceber da minha perplexidade: «Tenho a paixão dos finais. É um vício. Se estou numa livraria, não resisto. Zás, zás, zás. Procuro imediatamente o fim, para perceber como é que o autor conseguiu "resolver" o livro».
E inplacável, perante a namorada que o admoesta («Mas isso nunca se deve fazer, é batota!»):
«Pois é o que eu faço. Mesmo os policiais. Marcho sempre para o fim. O fim é que resolve tudo!»

Estremeci com a afirmação de Eduardo Prado Coelho, estremeço, agora, com a ironia do meu interlocutor.
Mas, no fundo, não posso dizer que discorde deles no reconhecimento da importância do início e da importância do fim. Há romances cujo início recordarei para sempre. Por exemplo, Ana Karenina. Ou o último dos dois de David Machado, qua ainda não li, mas folheei numa livraria. As primeiras linhas de cada obra de João Tordo são cuidadíssimas, de forma a que em duas ou três frases, nunca para além do terceiro parágrafo, o leitor já esteja cheio de fios a amarrar-lhe o corpo à continuação, como um Gulliver.

Mas há fins soberbos: se tivesse de me lembrar de um único, falaria do final de Os Maias, que, inexplicavelmente, me deixa sempre com um travo de melancolia, a percepção de que tudo muda e as coisas nunca voltarão a ser o que foram - o que eram. A ironia que irrompe, como se desmentisse as proclamações de Carlos e de Ega, não elimina a minha melancolia. Sorrimos com a amargura de vencidos da vida em torno de um optimismo débil e triste. É um final perfeito no testemunho da imperfeição das coisas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

CITAÇÕES DE PENSAMENTOS, DE PASCAL

Nos Pensées, de Pascal, que trouxe há já muitos meses das estantes de casa de minha tia, curioso com os sublinhados e anotações do meu saudoso tio, descubro, e traduzo, e transcrevo as seguintes passagens que prenderam a atenção do tio António.

«É preciso de uma só vez ver a coisa de um único olhar».

«Que se não diga que eu nada disse de novo: a disposição das matérias é nova; quando se joga [com uma bola] é com uma mesma bola que jogam um e o outro, mas um colaca-a melhor».

«Quando num discurso se encontram palavras repetidas e, tentando corrigi-las, achamo-las tão justas, que se estragaria o discurso, é preciso deixá-las, são a marca [dessa justeza]».

«Não procuremos nenhuma segurança ou firmeza. A nossa razão é sempre traída pela inconstância das aparências; nada pode fixar o finito entre dois infinitos [...]»

«O tempo cura as dores e as querelas, porque se muda: não se é a mesma pessoa. Nem o que ofende nem o ofendido são já os mesmos. É como um povo que se irritou, e que se revê duas gerações depois. São ainda os franceses, mas não os mesmos».

«Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. Compreendo-o: não é a mesma, nem ele próprio. Ele era jovem e ela também; é inteiramente outro. Amá-la-ia possivelmente ainda, tal como era então».